Saque e Voleio

Categoria : Thomaz Bellucci

O pneu e a luta interna de Thomaz Bellucci
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Alexandre Cossenza

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No fim das contas, não teve valor prático. Thomaz Bellucci fez 6/0 sobre Novak Djokovic no primeiro set do duelo nas oitavas de final do Masters 1.000 de Roma, mas foi o número 1 do mundo que se classificou à fase seguinte, triunfando por 0/6, 6/3 e 6/2. É justo dizer que a atuação deu certa confiança ao número 1 do Brasil. Não é todo dia que o sérvio perde seis games seguidos. Por outro lado, também é justo dizer que Bellucci deixaria a quadra com a mesma dose de ânimo se tivesse perdido por 6/7, 6/3 e 6/2, desde que mostrasse um bom nível de tênis – como fez na quinta-feira, na capital italiana.

Há, no entanto, o que tirar daquele primeiro set, que durou pouco, mas apontou alguns caminhos que Bellucci já se recusou a tomar em momentos anteriores de sua carreira. Nos 25 minutos que duraram aqueles seis games, o brasileiro executou apenas duas bolas vencedoras, mas mostrou consistência e bolas profundas enquanto Djokovic cometia erro após erro. A questão é que o número 1 do mundo não perdeu o set sozinho. Foram muitas falhas, é verdade, mas elas vieram em boa parte porque Djokovic não teve muitas opções para atacar sem correr riscos e, principalmente, porque Bellucci não forçou o jogo além do necessário contra um rival de peso.

E aí está um ponto que deveria ser mais levantado por quem acompanha o paulista. Toda vez que enfrenta um rival de nível reconhecidamente superior, Bellucci arrisca menos, aceita trocas de bola mais longas e ataca com mais inteligência, dando pouquíssimos pontos de graça. É diferente de quando Bellucci se vê diante de oponentes de menor calibre. Em muitos desses jogos, o brasileiro não mostra a paciência necessária para alongar trocas e esperar um momento melhor para atacar. Quando joga contra um rival com menos peso de bola, Bellucci força o jogo, muda a direção com mais frequência e corre mais riscos, buscando definir os pontos em momentos que não são necessariamente os mais adequados. Logo, erra mais, dá pontos de graça e estimula a tática que muitos no circuito adotam contra ele: longas trocas à espera de erros não forçados. É muito por isso – também – que Bellucci soma no currículo tantas derrotas diante de adversários de nível inferior.

Foram poucos os momentos na carreira em que Bellucci resolveu colocar todas fichas em sua consistência. Era assim que Larri Passos desejava que seu então pupilo atuasse e foi assim que o paulista derrotu Andy Murray e Tomas Berdych para alcançar as semifinais do Masters 1.000 de Madri em 2011. Foi naquele ano e jogando assim, lembremos, que o brasileiro esteve perto de eliminar Novak Djokovic, que vinha invicto na temporada. Bellucci acredita que a parceria com Larri e o estilo de jogo mais paciente – ou “pagando para ver”, como o próprio atleta descreve – não trouxe resultados consistentes. Em nossa conversa no início deste ano, afirmou que “não foi um ano” bom aquele vivido com o ex-técnico de Gustavo Kuerten. Por isso, decidiu mudar.

Trocando em miúdos, Thomaz Bellucci não acredita que essa tática lhe dê resultados. Querer que ele jogue sempre assim, com mais paciência, é pedir para que o número 1 do Brasil viva um conflito interno a cada ponto. É como se a cada giro da bolinha vindo da quadra adversária a matemática trocasse sopapos com a vontade louca de disparar um winner. Uma luta louca como WWE, com um vencedor diferente a cada minuto e que resulta em atuações e resultados inconsistentes. Um combate equilibrado como Rocky vs Apollo e, aparentemente, igualmente eterno.


O mistério de Bellucci e o convidado que não sabia o local da festa
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Alexandre Cossenza

Thomaz Bellucci não quer dizer do que se trata, mas também não sabe como solucionar. Mais uma vez, o físico deixou o número 1 do Brasil pelo caminho em um torneio. Desta vez, em um torneio bem acessível e, digamos, ganhável. Foi assim, de surpresa, que o paulista atual #35 do mundo caiu logo na estreia no Brasil Open. O post de hoje ainda cita a curiosa história de Benoit Paire, convidado do torneio que esperava jogar em quadra coberta, e registra mais uma campanha inédita na carreira de Thiago Monteiro.

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A zebra

Era para ser um dia rotineiro. Thomaz Bellucci jogando em São Paulo, com torcida a favor, na altitude que lhe é favorável (cerca de 800m) e diante do lucky loser espanhol Roberto Carballés Baena, #122 do mundo, adversário que não possuía armas para derrotá-lo. Era para ser uma vitória comum, sem destaque especial.

Era. E até parecia que seria assim até a metade do segundo set. Depois de fazer 6/2 com folga na primeira parcial, Bellucci abriu 2/0, quebrando o espanhol e mantendo a soberania em quadra. O paulista, no entanto, perdeu o saque no quarto game. Ainda assim, houve chances de sobra.

No 4/4, com o espanhol no saque, Bellucci teve quatro break points. Perdeu todos em erros não forçados – inclusive duas devoluções de segundo saque e uma curtinha na rede. No 4/5, o brasileiro abriu 40/15 e voltou a vacilar. Cometeu três erros, cedeu um set point e viu Carballés Baena fechar com uma direita vencedora.

O terceiro set foi drama puro, especialmente depois do quinto game, quando Bellucci pediu atendimento médico e tomou um comprimido – situação igual aconteceu no Rio, onde o #1 do Brasil não quis revelar a origem do problema. Desta vez, em São Paulo, Bellucci mal mostrava condições de seguir em quadra. Passou a encurtar pontos, forçando curtinhas e usando o saque-e-voleio.

Escapou de dois break points no sexto game, mas não no oitavo. E não mais ameaçou o rival, que fechou em 2/6, 6/4 e 6/3.

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O mistério

Na coletiva, Bellucci fez o mesmo que no Rio de Janeiro. Não disse especificamente qual é o problema nem detalhou seus sintomas. Desta vez, porém, deu algumas pistas, afirmando que foi uma questão parecida com a sofrida no Rio Open e revelando que ninguém encontrou a solução.

“Não é lesão, não. Fisicamente, eu não consigo manter a intensidade, tenho um peso muito grande no corpo, e no terceiro set comecei a sentir muita cãibra e foi isso que aconteceu. Não sei o que acontece. Estamos tentando achar uma solução para tentar manter uma intensidade razoável. Se eu consigo manter uma intensidade alta, jogando bem, como eu estava no primeiro set, de cinco a dez derrotas por ano talvez eu não teria. Meu jogo seria outro, meu ranking seria outro, minha atitude seria outra dentro de quadra, mas infelizmente eu não consigo manter a intensidade. Chega uma hora que não sei o que acontece. Não consigo jogar e meu nível de jogo cai de 100 para zero.”

Vale ressaltar que Bellucci apareceu para uma sala de entrevista coletiva com uma dúzia de jornalistas (pelo menos) e respondeu apenas quatro perguntas. O número foi pré-estabelecido pela mediadora, que é assessora de imprensa do torneio e, ao mesmo tempo, assessora de imprensa pessoal do tenista.

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O convidado que não sabia onde era a festa

Benoit Paire, #20 do mundo que pediu convite de última hora para disputar o Brasil Open, ficou pouco tempo no torneio. Pouco depois de Bellucci dar adeus, Paire foi eliminado pelo sérvio Dusan Lajovic por 6/0, 4/6 e 6/3.

A cena mais curiosa do dia foi protagonizada pelo francês. Logo depois da derrota, puxou uma cadeira, sentou e encostou a cabeça na pilastra bem em frente à sala de imprensa. Sua namorada estava por ali também.

A segunda cena mais intrigante do dia também envolveu Benoit Paire, que deixou o clube sem dar entrevista coletiva. A assessora da ATP, então, telefonou para o tenista e colocou seu celular na mesa de entrevistas coletivas. Assim, uma meia dúzia de profissionais conseguiu fazer perguntas por viva-voz.

A conversa com a pequena foto de Paire na telinha do celular, é preciso admitir, foi menos interessante. Primeiro porque o convidado do torneio revelou não saber onde seria o Brasil Open. O francês acreditava que o evento ainda era disputado em quadra coberta, no Ibirapuera, como em 2012, quando ele veio ao Brasil.

“Honestamente, eu não sabia que era um torneio outdoor. Quando eu vi que a partida seria outdoor, fiquei surpreso. Mas as condições eram boas. Eu gostava do torneio quando era indoor, no outro local (Ibirapuera), mas hoje o clube é bom, o ambiente é ótimo. Mas eu perdi hoje, então não fiquei feliz.”

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O #20 do mundo também disse que estava doente e lamentou a derrota porque gostou da chave em que estava. Sobre sua vinda de última hora, Paire disse que pediu o wild card porque não jogou bem no começo do ano.

“Perdi na primeira rodada na Austrália, na primeira em Roterdã e na primeira em Montpellier e por isso pedi um wild card. Eu precisava me preparar. Se eu não jogasse, teria três semanas livres até Indian Wells. Acho que foi uma boa escolha porque eu tinha chance de ganhar o torneio. Acho que se eu tivesse vencido hoje, poderia fazer semifinal ou final e estaria me sentindo cada vez melhor.”

Monteiro outra vez

Sem Bellucci, o último brasileiro vivo, pela segunda semana consecutiva, é Thiago Monteiro. O cearense de 21 anos, que derrotou Jo-Wilfried Tsonga e Nicolás Almagro, bateu nesta quinta-feira o espanhol Daniel Muñoz de la Nava (#72) por 4/6, 6/3 e 6/2.

Com o resultado, o atual número 278 do ranking alcança pela primeira vez na carreira as quartas de final de um torneio de nível ATP. Os pontos conquistados em São Paulo já colocam Monteiro com o melhor ranking da carreira, superando o 254º posto que alcançou na semana de 4 de novembro de 2013. Mesmo que perca na próxima rodada, o cearense ficará perto do 240º posto.

O obstáculo no caminho de Monteiro nas quartas será o uruguaio Pablo Cuevas, seu algoz no Rio de Janeiro. No torneio carioca, o cearense teve boas chances no primeiro set e chegou a abrir 4/2 no tie-break, mas não conseguiu manter a dianteira. O resto da história todo mundo sabe: Cuevas bateu Rafael Nadal, Guido Pella e conquistou o título do Rio Open.

Cabeças que já rolaram

Paire foi o sexto cabeça de chave a perder logo na estreia em São Paulo. Os únicos sobreviventes nas quartas de final são o uruguaio Pablo Cuevas, campeão do Rio Open, e o argentino Federico Delbonis. Os outros já eliminados são Albert Ramos Viñolas (5), Paolo Lorenzi (6), Nicolás Almagro (7) e Pablo Andújar (8).

As duplas

A chave de duplas do Brasil Open viu a estreia de Bruno Soares e Marcelo Melo, que bateram o espanhol Nicolás Almagro e o convidado local Eduardo Russi Assumpção por 6/1 e 6/3. Os mineiros, eliminados na semi no Rio de Janeiro, gostaram de seu rendimento – especialmente Bruno Soares, que tem um problema histórico com o tipo de bola usada no torneio carioca. Em São Paulo, o campeão do Australian Open se mostrou bem mais à vontade.

Quem também venceu foi André Sá, que quebrou o amargo jejum de 2016 e finalmente somou uma vitória na temporada (depois de seis derrotas). Ele o argentino Máximo González passaram pelos italianos Marco Cecchinato e Paolo Lorenzi por 7/6(4) e 6/1.


Thomaz Bellucci: “Não posso perder 17 jogos seguidos de top 10”
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Alexandre Cossenza

Muito antes do evento que lançou o Rio Open 2016, Thomaz Bellucci e eu nos sentamos em uma das mesas do Jockey Club Brasileiro para bater um papo sobre 2015, o que esperar de 2016 e um pouco mais. O número 1 do Brasil fez uma avaliação positiva de sua última temporada, mas reconheceu que lhe faltam vitórias “grandes” recentemente. Disse, inclusive, que é impossível entrar no top 20 sem quebrar a sequência de derrotas para top 10. Afirmou também que precisa melhorar muito seu jogo defensivo.

De modo geral, foi um papo bem leve. Bellucci, que está em pré-temporada há mais de 15 dias, riu ao lembrar da derrota para Paolo Lorenzi em 2011, fez força para escolher uma vitória mais importante em 2015 e lembrou rápido da derrota mais doída: diante de Djokovic, no Masters de Roma. O paulista de 27 anos também admitiu que já jogou “de salto alto”. Leia a íntegra da conversa abaixo.

Você começou 2015 como #64 do mundo e terminou como #37. Nem sempre dá para fazer essa avaliação pelo ranking, mas neste caso, em 2015, dá para usar o número como um parâmetro de que foi um bom ano?

Foi, foi uma temporada positiva. Eu acho que poderia ter terminado até um pouco mais baixo (Bellucci usa o termo “mais baixo” para se referir a um ranking melhor – de numeração mais baixa), mas dentro das possibilidades… Comecei o ano 64 e passei de 100, se não e engano, mas enfim… Comecei o ano ruim e talvez se eu começasse o ano melhor, poderia ter chegado a um ranking mais baixo no fim do ano. Mas, de uma certa maneira, foi um ano muito positivo. Eu consegui jogar muito melhor do que no ano passado. No ano passado, eu também tive dois ou três momentos ruins, mas este ano, a partir de meio, eu consegui manter uma regularidade muito grande de resultados e acredito que foi um ano positivo, sim.

A impressão que eu tive é que este ano você foi mais consistente até do que no ano que você chegou a #21. Você acha isso ou não?

Não (risos). Eu acho quando cheguei a #21, eu tive um ano melhor. Porque comecei melhor e mantive isso o ano inteiro. Cheguei a #21, mas talvez eu tenha mantido como top 30 o ano inteiro. neste ano, eu entrei no top 40 em Genebra e me mantive até o fim do ano. Hoje, eu sou um jogador melhor do que eu era quando cheguei a #21, mas não consegui ter os resultados daquela época, de oitavas em Grand Slam, de fazer quartas e semis em torneios grandes, então. Em 2015 talvez eu tenha jogado melhor do que em 2010, mas tive resultados mais expressivos naquele ano. Peguei umas chaves um pouco melhores do que neste ano. No final do ano, tive uma sequência de quatro, cinco torneios que, mesmo eu jogando bem, não consegui avançar porque peguei jogadores muito bons. Então tenho que contar um pouquinho com a sorte em certos momentos. Lógico que sorte é um pouco relativo, mas no fim do ano, mesmo jogando bem, eu não consegui avançar porque tive uns jogos difíceis.

Uma coisa que se comenta é que tem faltado para você nos últimos anos uma vitória grande. Ganhar de um top 10, um top 5… Inclusive no último jogo contra o Djokovic, o comentarista do TennisTV lembrou que eram 17 derrotas seguidas suas contra top 10. É uma coisa que te incomoda? E o que você acha que falta para isso começar a acontecer com frequência?

Eu cheguei a ganhar de top 10, mas nos últimos anos eu não consegui… Os últimos anos não foram meus melhores anos, né? Mesmo com o Dani (Daniel Orsanic), com o Pato… Não foram anos que eu joguei tão bem, né? Mas ainda falta um pouco. Este ano, joguei com Ferrer, com Raonic e não fiz jogos extraordinários. Falta um pouco mais de tranquilidade, de não entrar tão nervoso, de não entrar tão ansioso contra esses jogadores. Queira ou não, você entra mais ansioso de saber que essa vitória pode ser importante. Talvez falte um pouco mais de tranquilidade. Acredito que jogo eu tenho para ganhar desses caras, como já ganhei algumas vezes. Então falta mais a parte de manter uma cabeça tranquila, de entrar solto na quadra e tranquilo, acreditando que eu possa entrar na quadra e ganhar de qualquer um. Eu tenho até chegado perto, mas, às vezes, nos momentos importantes, eu acabo não jogando tão bem, o que faz muita diferença.

Você vê isso como condição para entrar no top 20, no top 10, talvez?

Com certeza. Se eu quiser entrar entre os 20, é impossível. Não dá para perder 17 jogos seguidos de top 10, senão nunca vou entrar entre os 20. Tenho que estar preparado para jogar contra esses caras e de cinco, pelo menos ganhar umas duas, por exemplo. Matematicamente, acho que é impossível. Daqui para a frente, se eu não estiver preparado, se eu não conseguir ganhar desses caras, eu não vou conseguir entrar. Então tenho que estar… Meu foco é totalmente para esses jogos, para eu conseguir ter um rendimento melhor nesses jogos importantes.

(O revés diante de Djokovic em Paris aumentou para 18 a sequência negativa contra tenistas do top 10)

Olhando para trás, você mudaria algo de 2015 em termos de preparação, calendário, não sei…

Foi um ano que eu não consegui fazer uma pré-temporada tão boa quanto eu queria. Então este ano acredito que eu já comece 201 com uma vantagem em relação a 2015. Em 2015, eu comecei meio sem técnico, não sabia com quem eu ia ficar. Acabou a temporada e não tive tanto tempo de fazer um planejamento, de conseguir fazer uma pré-temporada completa. Comecei a pré-temporada um pouco machucado, estava me poupando e só no final consegui fazer uns treinos legais, mas este ano acho que vou começar melhor, mais preparado do que comecei 2015. Talvez mesmo se os resultados não vierem, pode ser um ano de mais produtividade e com mais planejamento. Vai ser meu segundo ano com o João (Zwetsch, técnico). Em 2015 eu voltei a trabalhar com ele e, por mais que eu conhecesse o João muito bem, sempre tem coisas novas que ele me passa e, queira ou não, de 2010 a 2015 eu também mudei como pessoa e como jogador. Ele também mudou como técnico. Teve um momento de transição. Nos dois, três primeiros meses, é normal que os resultados piorem um pouco porque a gente estava mudando algumas coisas no meu jogo. Eu estava incrementando certas coisas, então o começo do ano foi um pouco difícil para nós dois. A gente não conseguiu encaixar bem os jogos. Acredito que ano que vem seja um pouco melhor.

O Sylvio Bastos (comentarista do Fox Sports) costuma dizer que alguns técnicos não tiveram tanto sucesso com você porque quiseram mudar seu jogo. O João, por outro lado, faz você jogar bem o jogo que você gosta de jogar. Você concorda? 

Concordo, concordo. O João… Ele mesmo, quando a gente começou a trabalhar, falou “não quero mudar nada no seu jogo, só quero aperfeiçoar a sua maneira de jogar.” Talvez com os outros técnicos… Eles me traziam um pouco mais de… Com o Pato (o espanhol Francisco Clavet), por exemplo, e com o Larri (Passos), eles queriam que eu adaptasse um pouco mais o meu jogo. Jogar um pouco mais atrás, jogar com mais bolas, ser um pouco mais regular e diminuir um pouco a velocidade… E o João tem um estilo diferente. Ele acha que é complicado mudar o estilo de um jogador porque eu aprendi a jogar assim e é a maneira que eu jogo bem. E é assim que a gente tem que aperfeiçoar meu jogo. Não mudar de uma hora para a outra. “Ah, vamos dar dois passos para trás e começar a dar bola alta.” Não é meu estilo de jogo. Por mais que eu possa fazer isso…

(interrompendo) Mas até deu resultado com o Larri em alguns torneios…

(também interrompendo) Eu tive resultados esporádicos com o Larri, né? Eu tive dois, três torneios bons, mas não tive um ano consistente. Não foi um ano bom. Mas com o João acredito que ele me entenda mais tanto dentro da quadra quanto fora. Mesmo nos momentos difíceis, é um cara que me dá muito apoio. Ele consegue ver quando eu estou mal, quando estou bem. Isso também me ajuda muito.

Qual foi a vitória mais legal desta temporada?

A melhor vitória… (pensativo) É… Pô, é difícil.

Tem a final de Genebra…

É, então, essa que eu estava pensando.

Foi essa?

Não sei, talvez no (pensa um pouco mais)… A mais legal? Ah, acho que deve ter sido essa mesma, o jogo contra o João Sousa. Deve ter sido o momento mais marcante da temporada.

E a derrota que incomodou mais?

(responde rápido) Com certeza, foi com o Djokovic em Roma.

O que doeu mais? É porque você sentiu que tinha chance?

É, eu senti que o jogo era meu. O primeiro set eu ganhei, e mesmo no resto do jogo, eu achei que estava melhor do que ele, mas não conseguia passar adiante. No final, por mais que o cara seja número 1, tenha feito uma temporada incrível, de perder muito poucos jogos, eu senti que naquele dia eu estava jogando melhor que ele e poderia ser meu o jogo. Então eu terminei um pouco frustrado (Djokovic venceu por 5/7, 6/2 e 6/3).

A essa altura, você já está acostumado com essas sensações? É uma coisa que você, alguns dias depois, já consegue apagar? Ou esse sentimento vai com você por mais tempo?

É mais fácil apagar quando você joga com o número 1 (sorri). Se você joga com o número 1 e perde, no outro dia você fica frustrado, mas esquece. Quando você joga com um cara que você tem mais condições de ganhar, você fica mais frustrado. Com a experiência, você vai levando melhor isso. Talvez se essa derrota fosse há uns cinco anos, eu levaria de uma maneira pior, mas do jeito que foi, até porque no torneio seguinte tive um bom resultado (Bellucci foi campeão do ATP 250 de Genebra), não deixei aquilo me influenciar.

Você falou “cinco anos atrás”. Madri foi em 2011. Aquela derrota para o Djokovic (o sérvio venceu em três sets na semifinal do Masters 1.000 de Madri após estar um set e uma quebra abaixo no placar) você demorou mais para…

(interrompendo) Ah, foi um momento… Mesmo porque na semana seguinte eu perdi para o (italiano Paolo) Lorenzi, né? Então acho que hoje em dia eu consigo lidar melhor com essas derrotas, apagá-las no dia seguinte e aprender com elas. Talvez, nessa época, eu não conseguia lidar muito bem. E também eu, às vezes, com uma vitória, ficava de salto alto e acabava perdendo um jogo fácil na semana seguinte. Então eu era muito irregular, não conseguia manter uma consistência grande. Com a maturidade, você vai sabendo administrar isso. Por mais que você tenha uma vitória magnífica no dia anterior, isso não vale nada se você não faz um bom jogo de novo no dia seguinte.

Você falou do Lorenzi… O que chateou mais? Perder do Djokovic numa semifinal depois de estar um set e uma quebra na frente ou perder do Lorenzi, que era, sei lá, 300 e alguma coisa do ranking?

Não, ele não era tão ruim assim (risos de ambos). Ele era, sei lá, uns 150, 200?

Sim (rindo), mas você entende o que eu quero saber?

Não, uma derrota contra o Lorenzi dói muito mais do que uma contra o Djokovic. Sem dúvida nenhuma (mais risos).

(Registrando: Lorenzi era, de fato, número 148 do mundo naquela semana de 2011, no Masters 1.000 de Roma)

Seu calendário para 2016 muda alguma coisa?

Muda um pouco, mesmo porque o calendário também mudou, né?

Ficou uma zona com os Jogos Olímpicos encaixados ali…

É, a gente vai para os Estados Unidos, volta, vai para os Estados Unidos de novo, então… Eu nem sei, na verdade. Mas no começo do ano muda também. A gente joga Brisbane, depois Sydney, depois Australian Open. Sydney eu nunca joguei, e Brisbane nos últimos anos eu não joguei também. A gente quer tentar…

(interrompendo) Você não gosta de Auckland?

Gosto, mas eu nunca joguei bem lá (risos). Esse que é o problema. Eu até gosto, é um dos meus torneios favoritos, mas não adiante se você vai lá e não consegue jogar bem. E também Sydney tem condições mais parecidas com o Australian Open, então vamos ver se a gente consegue chegar mais bem preparado.

Não tem como fazer preparação diferente para Jogos Olímpicos, né? Tem um Masters duas semanas antes, depois Rio, depois outro Masters… Não dá para parar dois meses e treinar só para uma coisa, né?

No tênis, não tem isso como nos outros esportes. A gente tem competições importantes o tempo inteiro. Não tem como falar “vou ficar um mês sem jogar porque quero estar bem preparado para aquele torneio.” No tênis, não existe isso. Não tem como fazer preparação especial. Lógico que eu gostaria, mas é um calendário complicado para todo mundo. Para mim, as Olimpíadas talvez sejam o torneio mais importante do ano que vem.

Tiraram os pontos do ranking para o torneio olímpico de tênis. Você acha que isso afeta muito?

Não, acho que não. Nos últimos anos, os jogadores já têm priorizado as Olimpíadas. Por mais que dê ponto, não sei se é a razão principal para a gente jogar. As coisas que você acaba ganhando em Jogar Olimpíadas são muito mais que a pontuação que você ganha. E também não é uma pontuação magnífica.

Eram 750 pontos para o campeão…

Era como se fosse um ATP 500. Para os jogadores no topo, não faz tanta diferença. Para os lá de baixo, pode ser, mas para o Federer, o Djokovic, 750 pontos não muda quase nada no ranking deles. Não acredito que seja um empecilho para eles.

É possível que o Brasil entre com uma dupla mista nos Jogos. E tem você, Marcelo, Bruno, André talvez esteja… Quem vai jogar com a Teliana?

Ah, não sei (sorriso), mas os especialistas em dupla são o Marcelo e o Bruno, Não tem muito sentido a gente pegar um jogador de simples para estar na dupla porque é o que eles fazem de melhor.

Eu sei que não funciona exatamente assim porque ninguém trabalha uma coisa só numa pré-temporada, mas se você tivesse que estabelecer uma prioridade máxima para a pré-temporada, o que seria?

A parte principal, que a gente já vem conversando durante o ano, é a parte de defesa. Conseguir me defender melhor e aguentar mais os pontos quando eu estou sendo deslocado. Isso, contra esses jogadores, é muito importante porque jogadores que estão entre os (top) 10 geralmente devolvem bem saque, e é muito difícil ganhar o ponto em duas, três bolas. Por mais que eu tenha um jogo agressivo, eu tenho que jogar defendendo, mesmo que seja uma parte pequena durante o jogo. Então eu tenho que fazer melhor isso. A maioria dos pontos em que eu começo me defendendo, eu não consigo ganhar. Preciso melhorar isso daqui para a frente. É uma prioridade.

É questão mais de velocidade lateral, de arranque para chegar nas bolas, ou é a execução do golpe defensivo mesmo?

Os dois. A parte física também é importante, de eu conseguir me deslocar melhor… Ah, você vê que o diferencial dos grandes jogadores hoje em dia é a parte física. Antigamente, não tinha tanta diferença assim. Você pega dos jogadores número 1 do passado… Não necessariamente eles tinham o melhor físico. Hoje em dia, é ao contrário. Você pega os cinco primeiros e vê que fisicamente eles são melhores que os outros. Essa é uma coisa que eu tenho que tentar trabalhar com o André (Cunha, preparador físico). Mas, de qualquer maneira, a parte técnica também é importante, de melhorar minha técnica de chegar nessas bolas e me defender melhor.


Bellucci: #31 e nenhuma vitória espetacular
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Alexandre Cossenza

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O ranking desta semana da ATP mostra Thomaz Bellucci como tenista número 31 do mundo. Nas últimas 52 semanas, o brasileiro somou 1.154 pontos em 27 torneios disputados. Em todo esse período, o paulista de 27 anos não somou nenhuma vitória espetacular. Nenhum top 10 derrubado, nenhuma grande zebra e apenas dois jogos vencidos contando os quatro Grand Slams juntos.

Isso tudo, juntinho e combinado, é ótimo. Calma, muita calma. Antes que o leitor reclame e aponte o óbvio paradoxo, eu explico (também usando o paradoxo em questão). O 31º posto, melhor ranking de Bellucci em mais de quatro anos, é resultado exclusivamente das vitórias esperadas. Traduzindo: ainda que as vitórias sobre top 10 não estejam vindo e que as campanhas em Slams ainda deixem a desejar, o número 1 do Brasil vem reduzindo seu número de “chances perdidas”.

Em números, fica ainda mais fácil entender o raciocínio. Os cinco torneios com maior pontuação de Bellucci são Genebra (campeão, 250 pontos), Roma (oitavas de final, 115), Valência (quartas, 110), Gstaad (semi, 90) e Quito (semi, 90). Genebra é um exemplo perfeito. Um torneio no saibro em que Bellucci enfrentou apenas um top 50 (João Sousa, #50). Campeão. Chance aproveitada. Check.

E o Masters de Roma talvez seja um exemplo ainda melhor. Bellucci furou o quali, derrotou Diego Schwartzman na primeira rodada da chave principal  e viu-se diante de Robert Bautista Agut, #19, na segunda fase. Adversário de ranking alto e derrotável (vide Davis). O brasileiro venceu e sucumbiu na rodada seguinte, depois de dar um bocado de trabalho a Novak Djokovic. Normal. Mais 115 pontos na conta. Chance aproveitada. Check.

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Já ficou claro, não? Bellucci vem subindo não por resultados fantásticos, mas por campanhas perfeitamente condizentes com seu tênis – e seu potencial. Sim, uma ótima chance escapou no ATP de Bastad, quando a semi esteve muito próxima e Bellucci cedeu uma virada ao talentoso jovem Alexander Zverev (#123), mas é fácil constatar como momentos assim foram menos frequentes recentemente.

Thomaz Bellucci nunca fez uma temporada regular. Nem no seu melhor momento. Em 2010, melhor temporada da carreira, o paulista chegou a ocupar o 21º lugar na lista da ATP e chegou ao fim do ano em 31º. Ainda assim, somou reveses diante de Ricardo Mello (#135, Costa do Sauípe), Marco Chiudinelli (#63, Gstaad), Lukas Lacko (#72, New Haven), Somdev Devvarman (Copa Davis em Chennai, abandono com problemas físicos), James Blake (#135, Estocolmo) e Marcos Daniel (#152, Challenger de São Paulo). Ainda houve derrotas diante de Guillermo García-López (#49, Indian Wells), Leo Mayer (#59, Nice) e Andreas Seppi (#70, Hamburgo) – todos bons tenistas, mas que não atravessavam momentos nada especiais.

Será que a maturidade para fazer uma sequência maior chegou? Desde Miami, Bellucci apresenta um tênis mais constante (embora ainda não tão estável quanto muitos gostariam). Os resultados vieram. É inegável que a série no saibro, seu piso preferido, ajudou. Os eventos de agora até o fim do ano, em piso duro, deixarão o cenário um pouco mais claro (descontemos a derrota em Washington após o curtíssimo tempo de adaptação). Se Bellucci mantiver a consistência, é muito provável que seu ranking de fim de ano seja o melhor da carreira.

Coisas que eu acho que acho:

– Uma das perguntas que recebo frequentemente (via Twitter ou email) é sobre a influência de João Zwetsch no bom momento de Bellucci. Difícil dizer sem acompanhar o dia a dia de treinos. Aliás, seria difícil dizer ainda que algum jornalista visse todos os bate-bolas. Logo, convém não especular.

– Quem já ouviu o podcast Quadra 18 desta semana sabe que já abordei o assunto por lá. Mesmo assim, achei que valia a pena fazer um texto para o blog. Nem todo mundo que lê aqui escuta lá e vice-versa.

– Outra questão interessante – e recorrente – é a seguinte: Bellucci ainda pode evoluir a ponto de chegar ao top 10? Esse tema também foi debatido no Quadra 18, e é por isso que deixo aqui o link para que vocês escutem o programa e mais de uma opinião sobre o potencial do número 1 do Brasil. Ouçam!


Como Bellucci faz sua maré mudar
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Alexandre Cossenza

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Primeiro passo: tiremos o elefante da sala. Ser campeão em Genebra derrotando só um top 50 (e logo o 50º!) não faz ninguém um candidato imediato a um título de Grand Slam. Do mesmo jeito que Thomaz Bellucci não era o mais amaldiçoado dos homens quando perdeu oito jogos seguidos em fevereiro e março, não é agora que deve ser indicado ao Laureus.

Feita esta pequena introdução, é necessário constatar como Thomaz Bellucci vem fazendo sua maré mudar. Aos poucos, o número 1 do Brasil deu consistência a seu jogo, dando menos pontos de graça e fazendo adversários trocarem mais bolas. O circuito inteiro sabe que o paulista tem uma certa tendência de começar a errar, por isso muitos de seus oponentes adotam planos de jogo pouco agressivos, aguardando erros. Mas o que acontece quando Bellucci decide arriscar menos e esperar por chances melhores para atacar?

A tática da cautela funcionou para Pablo Cuevas em Istambul, mas não deu certo para ninguém desde então. Já faz um mês. Nos últimos três torneios que disputou, o brasileiro só foi derrotado por John Isner (Madri) e Novak Djokovic (Roma) – e em ambas partidas, levou os rivais ao terceiro set. Sim, houve momentos de instabilidade, mas estes apareceram com menos frequência (vide Bautista Agut em Roma e Albert Ramos em Genebra). Ser consistente, para quem armas acima da média como o saque e o forehand de Bellucci, faz muita diferença.

Do mesmo modo, seu físico vem fazendo diferença. O número 1 do Brasil, que volta ao top 50 nesta segunda-feira, levou o preparador André Cunha à Europa (lembrando os tempos pré-Larri Passos, quando sempre ia acompanhado de um profissional da área). Nas últimas quatro semanas, Bellucci fez 17 jogos. Só assim foi possível disputar os qualis de Madri e Roma e chegar a Genebra com gás para ir até o título. E só assim será possível emendar essa sequência de quatro torneios com Roland Garros, onde o paulista não consegue avançar à terceira rodada desde 2011 (não jogou em 2013).

O que, então, se tira do título em Genebra? Que Thomaz Bellucci não é um atleta tão diferente daquele que perdeu oito jogos seguidos. No tênis, contudo, pequenos ajustes provocam grandes mudanças. Um preparo físico melhor permite estar em pontos mais longos e com mais frequência. Logo, Bellucci pode arriscar menos e forçar adversários a serem mais agressivos. Com isso, perde menos e ganha mais pontos de graça. E aí, nada de repente e nada magicamente, aparece um troféu.

Coisas que eu acho que acho:

– Vale registrar os números: nas últimas quatro semanas, Bellucci venceu 14 partidas e perdeu três. Ainda que quatro desses triunfos tenham vindo em qualis, é uma campanha respeitável. No caminho, o brasileiro derrubou o número 19 do mundo, Bautista Agut, o 32º do ranking, Jeremy Chardy, e o 50º, João Sousa, que foi seu rival na inesperada decisão em Genebra.

– Dos quatro títulos de ATP de Bellucci, três foram conquistados na Suíça. Dois em Gstaad e um em Genebra. Importante ressaltar que as condições de jogo são bem diferentes as duas cidades. O jogo em Gstaad, construída 1.050 metros acima do nível do mar, é bem mais rápido do que em Genebra, onde a altitude é de 375m.


Sobre balões, doppelgangers e favoritismo
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Alexandre Cossenza

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Mais uma semana no saibro, mais um título de Novak Djokovic, mais uma atuação abaixo do esperado de Rafael Nadal. O Masters 1.000 de Roma teria sido mais interessante se Andy Murray não tivesse abandonado e se Stan Wawrinka tivesse dado as caras na semifinal, mas há, assim mesmo, um bocado de pontos interessantes a levantar sobre os últimos dias.

Novak Djokovic terminou o torneio de forma espetacular. Deu respostas a tudo que Federer tentou. Fez curtinhas, devoluções vencedoras e sacou como nunca. Sua velocidade lateral e seus contragolpes foram muitos e com muita frequência para o suíço. Como sempre, Nole também usou ângulos magistralmente, conseguindo manter o rival na defensiva em muitos momentos. Não foi uma semana perfeita, mas foi uma final fantástica do sérvio.

Em números, Djokovic agora tem 22 vitórias seguidas no circuito – e são 37 se contarmos apenas os torneios de nível mais alto (Masters, ATP Finals e Grand Slams). O número 1 do mundo venceu todos Masters que jogou em 2015 (Indian Wells, Miami, Monte Carlo e Roma) e chegará a Roland Garros invicto no saibro, mais favorito do que nunca a completar seu Career Slam (todos os títulos de Grand Slam, mesmo que em temporadas diferentes).

Nole perdeu sets em três jogos na semana, mas em apenas um teve de correr atrás. Foi contra Thomaz Bellucci, que fez uma belíssima apresentação durante a maior parte do tempo. Sobre essa partida em especial, vale destacar o momento em que, no começo do segundo set, Djokovic resolveu usar bolas mais altas e mais lentas. Fez isso uma vez e ganhou o ponto (vejam no vídeo abaixo). E, coincidência ou não, foi naquele mesmo game que o sérvio quebrou o serviço Bellucci pela primeira vez, iniciando a virada. A partida tomou um rumo diferente a partir dali.

Balões não são um meio de vida nesse nível. Tanto que Djokovic tentou o mesmo no ponto seguinte e levou um winner. Mas variar peso e altura de bola, especialmente se o oponente se mostra confortável do fundo de quadra, é um recurso interessante. Possivelmente não teria funcionado por muito tempo. Deu, no entanto, o resultado que Nole precisava naquele momento. Leitura de jogo e mudanças táticas são qualidades um tanto menosprezadas em tenistas tão talentosos como o sérvio. Ainda há quem o considere um robô devolvedor de bolas. Bobagem (e Djokovic já seria espetacular se fosse “só” isso). Inteligência e variação ganham jogo. E o atual número 1 é o tenista mais completo da atualidade.

Sobre Thomaz Bellucci, as três últimas semanas são animadoras. Fez quartas de final em Istambul, furou o quali e avançou uma rodada em Madri, e foi uma fase ainda mais longe em Roma. Bons resultados, ainda que com um par de chances desperdiçadas pelo caminho (escrevo o post antes do ATP de Genebra).

Talvez seja mais interessante basear o otimismo no conjunto das três semanas e não na atuação diante de Djokovic. Bellucci, afinal, tem um quê de doppelganger. Não é de hoje que o paulista faz partidas excelentes contra grandes tenistas como Nole, Federer e Nadal, mas também sofre com atuações bem abaixo do esperado contra adversários com menos recursos. Vale lembrar que sua última partida contra o sérvio (aquela excelente semifinal de Madri/2011) foi seguida de um revés diante de Paolo Lorenzi, então número 148 mundo. Logo, cabe uma pitada de cautela nesse otimismo bellucciano pré-Roland Garros.

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O curioso sobre o cenário do saibro este ano é que, segundo a maioria das casas de apostas, Andy Murray é o terceiro mais cotado ao título do Grand Slam parisiense. O escocês, afinal, chegará à capital francesa invicto no piso – ganhou Munique e Madri e desistiu em Roma alegando cansaço (méritos por não usar o cada vez mais popular recurso de inventar uma lesão). Está em boa fase e tem tantas armas que candidata-se seriamente ao título – pela primeira vez.

Federer é o quarto e, às vezes, o quinto nome nas casas de apostas (há quem coloque Nishikori à sua frente na lista de favoritos). Ninguém duvida que o suíço seja capaz de ir longe em Paris, mas derrotar Djokovic ou Nadal em uma melhor de cinco sets no saibro parece menos provável a cada dia. Apesar do ótimo resultado em Roma, Federer ainda é quem mais oscila nesse grupo de cima.

O segundo nome mais cotado ainda é o de Rafael Nadal. Pesa, nitidamente, o histórico de nove títulos em Paris. Entra nessa conta também o fato de Roland Garros ser disputado em melhor de cinco sets, onde sua consistência costuma fazer diferença. Ah, sim: para muitos, falta pouco para o espanhol reencontrar o caminho até as vitórias. Nas últimas três derrotas, jogou um belíssimo tênis em alguns momentos. Faltou, porém, encaixar sequências e aproveitar as quebras de vantagem que teve contra Fognini e Wawrinka. Nadal ainda terá uma semana até o começo de Roland Garros e, provavelmente, outra semana para calibrar seu jogo até encontrar os adversários mais fortes da chave.

O ponto de interrogação continua e, com Nadal em sétimo lugar no ranking, o sorteio da chave de Roland Garros pode fazer uma diferença enorme no resultado final. Resta esperar até lá.


Thomaz Bellucci, o tenista que o Brasil ama odiar
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Alexandre Cossenza

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O brasileiro, especialmente aquele que vê casualmente qualquer esporte que não seja futebol, gosta de criticar. O alvo preferido é o árbitro, que invariavelmente rouba o Brasil. Se não tem árbitro, tem sempre um adversário desonesto, violento, catimbeiro, antiesportivo ou até puxa-saco do(s) juiz(es). O brasileiro também gosta de culpar “o sistema”. O campo é horrível, a iluminação é péssima, a torcida “deles” é hostil e a federação nunca permitiria algo assim no Brasil. E, quando tudo se esgota, tudinho mesmo, o brasileiro reclama do brasileiro. É aí que entra a figura de Thomaz Bellucci. Apresento abaixo dez provas:

Não conheço as pessoas que escreveram os tuítes acima, não sei com que frequência acompanham esportes nem tenho a intenção de desqualificá-las. Os tuítes estão aqui apenas para dar substância ao que escrevo no primeiro parágrafo. O brasileiro “médio” gosta de reclamar do brasileiro (e isso nem vale só para o esporte, mas essa discussão fica para outro dia). Um dos autores acima, inclusive, para reclamar de Bellucci, criticou dois ginastas campeões mundiais, um cavalo campeão olímpico e uma levantadora campeã de Grand Prix e medalhista olímpica. Mas não é só ele. Já vi até um narrador de canal de esportes dizendo que o paulista deveria se aposentar e jogar sinuca.

Mas eu divago. O objetivo aqui é falar de Thomaz Bellucci e de como o brasileiro ama odiá-lo. Primeiro, aos fatos: o paulista já foi número 21 do mundo, conquistou três títulos no circuito mundial e passou mais de dois anos ininterruptos entre os 40 melhores do mundo. Até o último fim de semana, Bellucci somava 16 vitórias e dez derrotas em jogos de Copa Davis. Se você sabe alguma coisa de tênis, deve reconhecer (atenção: sem precisar comparar com ninguém!) que é um dos melhores currículos da história do tênis brasileiro.

Mais fatos: o paulista, hoje com 27 anos, é um tenista inconstante, que alterna momentos excelentes com sequências pavorosas. Bellucci não é só irregular tecnicamente. Aliás, nem oscila tanto assim em seus golpes. O aspecto mental de seu tênis é o que mais varia (e nem oscila tanto assim em Copa Davis). Sim, o atual número 2 do Brasil perde um bocado de chances e jogos ganháveis. E sim, Bellucci já desistiu mentalmente de partidas que não estavam tão perdidas assim (isso, aliás, também não acontece em jogos de Copa Davis).

Com um olhar superficial, é difícil entender como um atleta com golpes tão sólidos varia tanto. Até Rafa Nadal, em sua recente passagem pelo Rio de Janeiro, disse que não sabia por que Bellucci não tinha uma ranking mais alto. Mas tênis é uma combinação de técnica, mental e físico – outro ponto em que o paulista precisa evoluir. Atualmente no 85º posto do ranking mundial, Bellucci não consegue combinar todos esses ingredientes com a frequência necessária para brigar com os vinte primeiros da lista da ATP. É preciso mais.

Ainda assim, é admirável que um tenista com “tantas” falhas tenha alcançado tanto na carreira – e esse tanto inclui mais de US$ 3 milhões em premiações (sem contar a verba de patrocinadores). É um feito invejável. Por isso, me incomodou ler tantas críticas durante os últimos dias, enquanto o Brasil enfrentava a Argentina.

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Logo na Copa Davis, em que Bellucci costuma tirar o melhor de seu tênis. Nessa mesma competição, a “Copa do Mundo do Tênis”, Bellucci soma uma linda virada (perdia por 2 sets a 0) sobre Alejandro Falla, da Colômbia, uma vitória memorável em cima de John Isner, em quadra dura e fora de casa, e os dois recentes triunfos sobre a Espanha que colocaram o Brasil de volta na primeira divisão.

Só que reclamar é mais fácil do que clicar aqui ou ali para se informar. Pouco importou, aparentemente, que Bellucci chegou a Buenos Aires em má fase, vindo de quatro derrotas seguidas. Ou que Bellucci fosse enfrentar dois adversários de alto nível (Leo Mayer, 27º do mundo, e Federico Delbonis, 79º). Ou que a quadra propositalmente muito lenta fosse favorável aos tenistas da casa. Ou, ainda, que a torcida barulhenta fosse fazer diferença (como fez em São Paulo, em 2012, quando Bellucci derrotou o mesmo Mayer).

Nessas horas, o que importa para muitos é a fama – justa ou não. Quando Feijão, em uma atuação memorável, perdeu o quarto jogo para Leo Mayer depois de 6h42min, Bellucci, aquele mesmo que foi festejadíssimo em setembro, quando até salvou match point e comandou a vitória brasileira em cima da Espanha, voltava a ser o Bellucci sem raça, perdedor, amarelão. Porque Bellucci é, hoje mais do que nunca, aquele tenista que o país ama odiar.

Coisas que eu acho que acho:

– O Twitter é prova. Eu mesmo sou um dos primeiros a criticar quando Bellucci deixa de acreditar em um jogo e entrega metaforicamente os pontos antes da hora. Também sempre questiono seu preparo físico, responsável por um punhado de derrotas – também antes da hora. Mas critico porque ele é “sem sangue”, como dizem alguns? Ou porque ele está desonrando o país, talvez? Nem um nem outro. Apenas aponto o óbvio: que Bellucci tem golpes para fazer muito mais e que ganharia um punhado de jogos a mais se conseguisse administrar melhor os aspectos mental e físico.

– Nem o mental nem o físico, atualmente, faz de Bellucci, por definição, um perdedor, um amarelão, um tenista sem raça. A página da ATP está lá, com todos resultados, para provar. O site da Davis também tem tudo arquivadinho. Basta querer saber.

– Respeito quem discorda (educadamente). Há quem, mesmo lendo tudo isso que escrevi, vá continuar achando que Bellucci é um péssimo tenista. Tudo bem. Só que vale uma pergunta: se Bellucci é tão, mas tão ruim assim, como chegou a número 21 do mundo? Será que Bellucci é uma espécie de gênio por ter ido tão longe sendo tão ruim? Será que o paulista é o tenista mais sortudo da história? Será que conseguimos uma resposta?


Um sorteio “épico” e “histórico”
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Alexandre Cossenza

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Quem acompanha o Saque e Voleio (aqui, no Twitter e no Facebook) sabe o quanto eu brinco com o uso exagerado que a imprensa faz de adjetivos como “épico”, “histórico” e similares. Mas a curiosa sequência de eventos durante o sorteio da chave do Rio Open, neste sábado, vale a brincadeira. Em uma combinação das mais improváveis, Thomaz Bellucci e Teliana Pereira, brasileiros mais bem ranqueados, estrearão na Cidade Maravilhosa contra os respectivos cabeças de chave: Rafael Nadal e Sara Errani. Abaixo, faço um breve relato de como foi meu primeiro dia no torneio carioca.

– David Ferrer também deu uma entrevista coletiva. Foi curtinha, mas só porque ele dá respostas bastante objetivas. O que não quer dizer que ele seja mal educado. Pelo contrário. Ferrer domina a rara arte de ser breve sem parecer estar de má vontade em um lugar. Ele esteve aqui no ano passado, mas voltou a ressaltar o calor, dizendo que não se lembrava de o quão quente é a Cidade Maravilhosa nesta época do ano. Ferrer disse ainda que jogar no Rio é muito mais difícil (fisicamente falando) do que em Melbourne. Aqui, a combinação de umidade e calor é assustadora.

– Sara Errani chegou, deu entrevista em espanhol (fluente) e se mostrou contente com o que viu. A destacar de seu bate-papo apenas uma crítica à regra da WTA que proíbe as top 10 de jogarem mais do que dois (três a partir de 2015) torneios pequenos – aqueles da série International, como o Rio Open, equivalentes aos ATPs 250. Vale lembrar que a chave masculina do evento carioca é da série 500, com premiação bem maior do que a chave feminina. Na prática, são dois torneios diferentes acontecendo no mesmo lugar, sob um só nome. Mas eu divago. Errani se queixa porque enquanto esteve no top 10 não pôde jogar todos torneios que queria no saibro (seu piso preferido). E isso inclui o Rio Open.

– Sobre o qualifying, os placares refletem a indigesta realidade: o Rio Open (ATP 500 e WTA International) é muito mais forte do que os eventos que a maioria dos tenistas brasileiros está acostumada a disputar. Em nove jogos, só uma vitória – Fabiano de Paula sobre Facundo Bagnis. Mas vale lembrar que Christian Lindell, carioca que defende a Suécia, também triunfou. Ele e Fabiano ainda precisam de mais um triunfo (de cada) para chegarem à chave principal.

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– Ainda sobre o qualifying, uma informação interessante e curiosa: Orlando Luz, o Orlandinho, recebeu um convite para o torneio classificatório, mas não aceitou. Queria jogar a chave principal. Talvez não seja necessário explicar, mas vale a ressalva de qualquer modo. Quando se escreve “o tenista aceitou ou não aceitou um wild card”, fala-se de uma decisão tomada em conjunto com sua equipe. Mas você não vai ler por aí “Federer e seu empresário aceitam convite para jogar em Aratu” (nada contra Aratu!).

– A estrutura de apoio do Rio Open está diferente este ano, mas aparentemente melhor do que a de 2014. Há uma grande loja da Asics, mais estandes interativos, mais opções de alimentação e, mais importante do que tudo já citado, mais ventiladores. Os preços não são dos mais agradáveis, mas também não são mais altos do que aquele padrão de eventos que todo mundo conhece bem.

– Tive uma ótima conversa – que eu gosto de chamar de entrevistão anual – com Bruno Soares. Falamos sobre o momento de sua parceria com Alexander Peya e sobre seu valor como tenista cheio de patrocinadores. O resultado vai estar em breve aqui no blog.

– No sorteio das chaves, realizado no Shopping Leblon, com participação do público, Teliana Pereira foi o primeiro nome sorteado entre as não-pré-classificadas. A número 1 do Brasil vai encarar justamente Sara Errani, que é a principal cabeça de chave. A jornalista do SporTV que tirou a fichinha de Teliana de dentro de uma sacola de compras do shopping ficou sem graça e pediu desculpas. Teliana respondeu com um sorriso. Após a cerimônia, a brasileira disse que será “uma grande oportunidade.”

– Menos de cinco minutos depois, aconteceu o mesmo com Thomaz Bellucci. Primeiro nome sorteado, o paulista vai estrear contra Rafael Nadal. A enorme coincidência deixou até o mestre de cerimônias incrédulo, achando tratar-se de uma brincadeira. Não era. Bellucci também sorriu, meio sem graça, e depois disse que imaginava enfrentar Rafael Nadal mais adiante no torneio. O paulista afirmou também que a primeira rodada é, geralmente, uma chance melhor de surpreender os favoritos. Não deixa de ser verdade.

– Feijão e Guilherme Clezar deram sorte. Ambos estreiam contra adversários que vão sair do qualifying. A chave completa está aqui.


Bellucci, Quito e o copo
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Alexandre Cossenza

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Uma semifinal de ATP 250 é um ótimo resultado. São 90 pontos na conta. Nas últimas 52 semanas, Thomaz Bellucci só conseguiu mais do que isso em Valência, onde furou o quali e alcançou as quartas, somando 110 pontos  em um ATP 500. Aliás, na carreira inteira, o paulista de 27 anos só fez mais de 90 pontos em oito torneios. Só foi além das semifinais cinco vezes. Logo, na matemática, o número 1 do Brasil fez uma ótima campanha no ATP 250 de Quito, no Equador.

Essa foi a visão “copo-metade-cheio” sobre a última semana de Thomaz Bellucci. Só que como em quase tudo na vida, há um “copo-metade-vazio”. Porque o paulista não mostrou tênis consistente em nenhum momento da semana, escapou por milagre de uma decepcionante eliminação nas oitavas (obrigado a Horacio Zeballos por tentar um saque-e-voleio no segundo serviço quando tinha match point) e acabou superado por um veterano de 34 anos que nunca havia alcançado uma final de torneio ATP.

E isso tudo aconteceu no saibro e na altitude de Quito (2.800 metros acima do nível do mar), condições que favorecem muito o tênis de Bellucci. Não é por acaso que o paulista conquistou seus três títulos de ATP em Gstaad (2009 e 2012 – 1.050m) e Santiago (2010 – 521m). Tivesse passado pelo dominicano Victor Estrella Burgos, o brasileiro enfrentaria Feliciano López, que seria seu único adversário de ranking superior em Quito.

Logo, há motivo para comemorar os 90 pontos conquistados pelo número 1 do Brasil (que vai subir cerca de dez postos no ranking, entrando na casa dos 70 melhores do mundo), mas também há que se lamentar o desperdício de uma ótima chance de ir mais longe e levantar um troféu. É difícil encontrar no histórico de Bellucci um ATP 250 com chave mais acessível (leia-se, sem eufemismo, “fácil”). Tudo depende de que copo está na sua mão…

Coisas que eu acho que acho:

– O copo de João Zwetsch, velho-novo técnico de Thomaz Bellucci aparentemente está meio cheio.

– Curiosamente, Feijão tornou-se o primeiro brasileiro a alcançar uma final de ATP nesta temporada. João Souza foi à decisão de duplas em Quito, onde jogou ao lado de Estrella Burgos. Brasileiro e dominicano perderam o título para Gero Kretschmer e Alexander Satschko por 7/5 e 7/6(3). Não parece justo superanalisar este resultado. Acredito que diz muito pouco sobre a possibilidade de Feijão obter uma sequência de bons resultados na modalidade. A chave de duplas de Quito, ainda mais do que a de simples, estava muito fraca.

– A última semana também teve o Zonal americano da Fed Cup. O Brasil, que entrou como favorito, acabou sendo derrotado pelo Paraguai na final. Depois de bater o Chile por 3 a 0 e a Colômbia por 2 a 1, o time da capitã Carla Tiene sucumbiu de virada. Paula Gonçalves abriu a série derrotando Montserrat González por 6/0 e 6/3; na sequência, Bia Haddad foi superara por Veronica Cepede Royg por 6/4 e 7/6(4); e a decisão, nas duplas, teve vitória de González e Cepede Royg sobre Paula Gonçalves e Teliana Pereira por duplo 6/3.

– Segundo um dos comunicados enviados pela CBT, Teliana sentiu dores no cotovelo e foi poupada de toda a competição. Só entrou em quadra no desespero, na última hora, para a partida de duplas. Não funcionou. Não vi os jogos (o SporTV, detentor dos direitos, não exibiu o Zonal, como de costume) nem sei por que a dupla de Bia Haddad e Gabriela Cé abandonou a partida contra a Colômbia (o comunicado da CBT não explica). Logo, não dá para saber todas as circunstâncias da escalação de Teliana na última partida.


Ferrer e a Framboesa de Ouro
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Alexandre Cossenza

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Imagine, caro leitor, uma vaca de Louboutins atravessando um lago de gelo fino. É frágil assim a margem que um tenista tem quando David Ferrer ocupa o território do outro lado da rede. Thomaz Bellucci, que não tinha Waze nem rota alternativa à disposição, tentou atravessar esse lago. Escorregou e não se levantou mais. Só que toda história tem dois lados, e não dá para descrever a atuação do número 1 do Brasil sem um merecido prólogo dedicado ao espanhol.

Contra um tenista muito bom – um top 50-70, digamos – Bellucci tentaria se reerguer arriscando menos e trocando umas bolas a mais. Recuperaria confiança, voltaria a agredir e equilibraria as ações outra vez. E David Ferrer até projeta uma ilusão de que é possível jogar assim contra ele. Sem um saque ou um forehand dominante, o espanhol trabalha minuciosamente todos os pontos até ver a chance de atacar.

É parte necessidade, parte inteligência. Ferrer sempre fez o melhor purê com as batatas que recebeu. Mas eu divago. A noção de que Ferrer é um devolvedor de bolas não é mais do que uma ilusão. Quem tenta só “passar bola” contra Ferrer se descobre, segundos depois, correndo atrás da amarelinha e recorrendo a golpes kamikazes para sair da defesa ou ganhar um pontinho.

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Em quadras e pisos diferentes, esse roteiro já foi filmado, refilmado, exibido e reprisado até esgotar a paciência de um programador do SBT, que comprou um filme depois de meia dúzia de aparições na imortal Sessão da Tarde. Pois Bellucci foi o personagem da vez. Numa cena sem cortes e de 54 angustiantes minutos, o brasileiro, depois de 15 games impecáveis e uma vantagem de 7/6(2) e 2/0, deu três pontos de graça, perdeu o saque quando podia abrir 3/0, e tornou-se o ator da vez no papel acima. Um papel de tantos atores, tantas locações, tantas plateias…

Não que todos esses integrantes de companhias mambembes fossem perder 12 games consecutivos – como aconteceu com o brasileiro. Bellucci foi um ator ruim, que não gostou do roteiro e desistiu no meio das filmagens. Só que a película foi rodada assim mesmo. Foi exibida em poucas salas, só na madrugada, para plateias pequenas. Os atores, contudo, não escapam dos críticos. Ferrer foi competente. Bellucci ganhou a Framboesa de Ouro.

Coisas que eu acho que acho:

– Registrando o placar: Ferrer venceu por 6/7(2), 6/2, 6/0 e 6/3. Bellucci, que era mesmo azarão antes da partida, segue com uma estatística desagradável: desde Roland Garros/2011, não alcança a terceira rodada de um Grand Slam.

– Feijão também deu seu adeus ao torneio na madrugada desta terça-feira. Caiu diante de Ivan Dodig por 6/4, 7/5 e 6/4. O número 2 do Brasil perdeu chances valiosas no segundo set, quando abriu 4/0, depois teve 5/2 e ainda desperdiçou quatro set points. É bem verdade que Dodig, sacando em 5/4 e 15/40 no terceiro set, pediu um tempo médico maroto no meio do game, mas também é verdade que um punhado de vitórias escaparam de Feijão desde o Challenger Finals.


Bellucci: “Algumas necessidades não foram preenchidas”
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Alexandre Cossenza

Depois de abrir a temporada na 125ª posição do ranking mundial e fechar 2014 no 65º posto, Thomaz Bellucci ficou sem técnico. O espanhol Francisco Clavet, com quem trabalhou desde outubro de 2013, pediu o fim da parceria. Restou ao número 1 do Brasil ir em busca de outro treinador. Nesta quarta-feira, pouco antes da coletiva de anúncio do Rio Open, o paulista de 26 anos bateu um papo comigo sobre o processo, que já está em andamento. Sem revelar com quem já vem conversando, mencionou as dificuldades impostas pela distância ao trabalhar com um técnico europeu e disse que “algumas necessidades não foram preenchidas”. Ainda assim, ressaltou que veio do espanhol a iniciativa de terminar a relação.

Bellucci também disse que tem necessidades diferentes das de quatro anos atrás e afirmou que hoje em dia, há mais profissionais dentro do Brasil capazes de atuar ao lado de um tenista de alto nível. No fim, o número 1 do país também falou sobre o quão diferente é, no aspecto mental, começar uma temporada com um ranking que lhe permite evitar os qualifyings. Veja como foi a conversa.

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Quando você procura um técnico, por que lado você vai mais? É melhor um cara que vai te acrescentar mais na parte técnica e tática ou é mais importante alguém com uma personalidade que vai casar com a sua porque é alguém com quem você vai precisar conviver por tanto tempo?
Acho que os dois são importantes. A personalidade é essencial. Se você não está do lado de alguém com quem você se sente bem, que é seu amigo mesmo, não tem como trabalhar junto. Tenista tem uma coisa muito peculiar que é ficar praticamente 24 horas com seu técnico. Se ele não for mais do que seu técnico e seu amigo, não tem como trabalhar junto. Lógico que o cara como profissional tem que ser bom também, mas tem que ter os dois. Tem que ser um cara bem companheiro fora da quadra, que entenda o que você precisa e, como profissional dentro da quadra, te dê tudo preciso para evoluir seu jogo.

Deu para desenvolver isso com todos técnicos com quem você trabalhou?
Alguns mais, alguns menos, mas a maioria deles, hoje em dia, eu sou amigo. Nunca tive nenhum problema pessoal com eles. Os que eu deixei de trabalhar foi pelo aspecto profissional mesmo, eu achei melhor interromper. Mas com todos eu tive amizade. O Dani (Daniel Orsanic), por exemplo, eu dormia na casa dele quando ia treinar na Argentina, passei Natal e Reveillon com a família dele… Muitas vezes a gente estava junto em momentos que não eram profissionais. Todos meus técnicos, na verdade, eu cheguei a ser amigo, frequentei a casa deles, tive amizade com a família, nunca tive problema quanto a isso.

Quando conversei com o Lui (Carvalho, diretor do Rio Open e manager da carreira de Thomaz Bellucci) na semana passada sobre o fim da sua parceria com o Pato (Francisco Clavet), ele disse que a ideia era ter um técnico brasileiro. Depois de trabalhar com um argentino e um espanhol, dá para dizer que é muito diferente trabalhar com um brasileiro?
Ah, muda bastante coisa. Quando é sul-americano, não muda muito. Mais quando é europeu. Com o Pato, eu senti um pouco este ano. Muitas vezes, eu queria que ele estivesse mais próximo de mim, mas ele estava na Espanha e eu estava em São Paulo. Algumas necessidades não foram preenchidas. Ele tinha a família dele, não podia viajar muito. A gente já viajou bastante. Foram seis, sete meses durante o ano. É diferente. A cultura é diferente. A questão do deslocamento pesa bastante, já que a gente está cada semana em um lugar diferente… Muda bastante. Mas não foi essa a razão de eu terminar com ele. Foi mais pelas razões pessoais dele. Ele que quis terminar a parceria. Acho que hoje eu busco alguém dentro do Brasil, mais perto de mim. Nos últimos anos, isso foi uma complicação. Uma coisa que eu consegui melhorar nos últimos meses deste ano foi contratar o Eric Gomes, que é um cara de São Paulo. Muitas vezes, quando não estava com o Pato, o Eric me ajudava, me dava os treinos. Isso eu não tive no primeiro semestre. Eu só viajava com o Pato e treinava sozinho quando estava em São Paulo. É complicado ficar treinando muito tempo sozinho. Muitas vezes não é produtivo. No segundo semestre, acho que isso foi uma mudança que fez efeito no meu jogo. Comecei a trabalhar com Eric em junho, julho, e em agosto, quando fui para o US Open, já estava jogando um pouco melhor, com um pouco mais de confiança e segurança dentro de quadra. Aí o Pato conseguia me pegar nos torneios um pouco mais preparado. Para o ano que vem, se eu conseguir melhorar isso, com o Eric em São Paulo e outro técnico um pouco mais perto, isso pode ser bom para a minha carreira.

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É um momento da sua carreira em que você não precisa mais de um técnico que fique 24 horas com você?
Não que eu não precise de técnico. Acho que todo mundo precisa. Mas acho que as necessidades que eu tenho hoje são diferentes das que eu tinha há três, quatro anos. Eu era um jogador em desenvolvimento, tinha muita coisa a aprender, não tinha certeza do que eu queria num técnico, não tinha certeza das coisas que eram boas para mim antes de um jogo ou durante um jogo. Hoje em dia, tenho tudo mais claro. Sei o que precisa ser feito numa pré-temporada, do que eu preciso de um técnico… Hoje em dia, tenho necessidades diferentes e é isso que vou buscar num técnico novo.

A gente está falando de três, quatro anos atrás. Nessa época, chegar num ATP sem um técnico te deixava um pouco mais inseguro do que fazer isso hoje?
Acredito que sim. Mesmo sem um técnico, é sempre bom você ter a presença de um preparador físico, um fisioterapeuta, um amigo até. É legal ter alguém te apoiando e ajudando nas coisas básicas. Marcar treino, massagem, falar com um diretor de torneio… Isso tudo faz diferença. Você às vezes demora muito tempo para fazer as coisas. Hoje em dia, lógico. Se eu vou sozinho, consigo me virar melhor do que quatro anos atrás. Antes eu precisava de um cara que me atendesse em tudo. Hoje, eu já consigo fazer algumas coisas eu mesmo. São épocas diferentes da minha carreira.

Quando comentei no Twitter que você queria um técnico brasileiro, teve gente que lembrou daquela entrevista polêmica (Bellucci disse que havia poucos técnicos no Brasil) em… 
Foi no final de 2010. Quatro anos atrás, eu acho.

Isso! E o Lui argumentou que são muitos os nomes no Brasil hoje. Ele disse que tem Ricardinho, Marcos Daniel e citou um monte de gente, inclusive o Eric. Você também vê por aí? Tem muito mais opção no Brasil hoje?
Comparado há quatro anos, o Brasil tem mais opção. O Ricardinho e o Marcos Daniel, por exemplo, naquela época não eram treinadores. O Eric parou de jogar faz também quatro anos. Está mudando um pouquinho isso. O Júlio Silva, hoje, é técnico. Alguns ex-jogadores estão começando a entrar na carreira de técnico. Mudou um pouquinho isso. Hoje em dia, você tem um pouco mais de opção de técnicos de alto rendimento. O que eu falei naquela época é que não tinha muitos técnicos para o meu nível. Alguns caras preparados, com experiência, para treinar um cara top 50, top 100. Hoje em dia, você tem mais. Isso que eu falei que foi mal interpretado. Você tem técnicos, mas não para certos níveis de jogadores. Para esse nível, o técnico tem que ter experiência nesse meio. Não adianta o cara que nunca jogou tênis conseguir ser técnico nesse nível. São muito poucos que conseguem formar um jogador sem ter sido jogador de alto nível.

Aproveitando que a gente está aqui para uma coletiva no Rio Open, qual a lembrança mais marcante que você tem do torneio deste ano?
Mais marcante?

É. Você não estava num momento bom de ranking, ganhou jogos difíceis, de virada, teve torcida a seu favor o tempo inteiro… O que te vem mais à sua cabeça quando você pensa naquele torneio?
Acho que tudo foi marcante. Desde eu vir de Buenos Aires, de um desastre que tive lá, perdi na primeira do quali. Desde a preparação. Vim uma semana antes, fiquei aqui no clube treinando… Nem tinha jogador aqui no clube ainda… Mas acho que o momento mais marcante foi a primeira vitória. Foi muito forte porque eu estava num momento complicado, estava fora do top 100. Era um jogo que ele (Santiago Giraldo) era favorito, estava jogando melhor do que eu. Comecei mal o jogo. Estava nervoso, tenso, e consegui dar a volta por cima. Foi o momento mais marcante. Depois de lá, eu dei uma soltada, sabe? Saiu o peso das minhas costas. Consegui ganhar um joguinho no Rio Open. Depois passei a jogar melhor.

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Começar uma temporada como 65 do mundo é muito diferente de abrir o ano estando fora do top 100 por toda questão de calendário e planejamento. E mentalmente, muda o quê?
Muda tudo! Ano passado eu comecei o ano 130, 125. Eu tinha a metade dos pontos que eu tenho hoje. De 130 para entrar no top 50, é muito ponto. Pra sair de quali pra entrar no top 50, você precisa fazer um primeiro semestre muito bom. Ano passado, eu fiz um primeiro semestre não tão bom, o que me dificultou muito para entrar no top 50. Eu tinha que jogar quali, tinha que jogar os torneios menores. Este ano, vai mudar completamente. Já consigo jogar os torneios maiores no começo do ano, já vou conseguir me poupar nos menores. Em Buenos Aires, por exemplo, não preciso jogar quali. No Rio, tomara que não precise de convite. Em São Paulo e Quito, se eu quiser jogar, entro direto. É completamente diferente. O jogador já está na chave, não precisa chegar cinco dias antes para, de repente, pegar três jogos difíceis no quali… Muda muita coisa. Eu não sou um cara que precisa passar quali para ganhar ritmo. Eu sei que quando estiver na chave consigo ganhar de qualquer jogador. Hoje em dia, é importante eu chegar no torneio confiante que eu posso ir bem independentemente de quantos jogos eu faça.

Mas você joga menos ansioso? O quanto isso afeta o seu tênis? Por exemplo: você chega para um torneio com uma conta na cabeça do tipo “preciso ganhar três, quatro jogos para somar X…”
É diferente você entrar no torneio sabendo que se você ganhar dois jogos você está nas quartas do que você ganhar três e só estar na chave. Você soma 12 pontos, praticamente nada. Então é diferente entrar com a expectativa de dois jogos ou cinco jogos, mesmo que os do quali sejam mais fáceis.


Os melhores do Brasil em 2014
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Alexandre Cossenza

Acaba a temporada e começa a hora das retrospectivas. Quem venceu ali, qual foi o lance mais espetacular do ano, onde aconteceu a melhor partida, qual a maior polêmica da temporada… Tem assunto para muita coisa. Escolho começar pela temporada do tênis brasileiro, aproveitando a recente cerimônia de entrega do Prêmio Tênis 2014, do qual orgulhosamente faço parte do grupo de votantes. Com os vencedores revelados, posso “abrir” meus votos. Os mais importantes foram:

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Melhor tenista: Marcelo Melo

O mineiro de 31 anos, número 6 do mundo, não é só o brasileiro de melhor ranking. Ele precisou jogar o circuito com quatro parceiros diferentes (Ivan Dodig, Julian Knowle, Jonathan Erlich e David Marrero) e conquistou “só” um título (Auckland, ao lado de Knowle), mas foi vice nos Masters de Monte Carlo e Toronto, classificou-se para o ATP Finals mesmo sem disputar dois (!) Grand Slams junto de Ivan Dodig e ainda chegou à decisão do último torneio da temporada – derrotado pelos irmãos Bob e Mike Bryan apenas no match tie-break.

A grande dúvida, pelo menos para mim, foi decidir em que mineiro voltar. A temporada de Bruno Soares também foi brilhante. Número 10 do mundo, o tenista de 32 anos ganhou o US Open nas duplas mistas e, junto de Alexander Peya, foi campeão em Toronto e Queen’s, além de vice em Doha, Auckland, Indian Wells, Eastbourne e Hamburgo. Bruno, claro, foi tão importante para o sucesso brasileiro na Copa Davis quanto Marcelo. Talvez o mais justo fosse dividir o prêmio aqui, mas era preciso escolher um nome.

O “Girafa” foi minha opção não só pela eterna dificuldade extra de jogar com mais parceiros (e nem foram tantos em 2014 comparando com 2013 e 2012), mas porque adotei como critério não considerar as duplas mistas – já que Marcelo jogou apenas o Australian Open, onde se lesionou e, por isso, preferiu não arriscar nos outros Slams. De qualquer modo, é preciso explicar que o ranking não pesou tanto, já que os votos precisavam ser enviados até 1º de novembro. O ATP Finals, contudo, ratificou a melhor temporada de Marcelo.

Ele talvez nunca tenha a exposição de mídia que o conterrâneo naturalmente simpático recebe – com justiça -, mas seus méritos dentro de quadra são inegáveis. E não são de hoje. Não por acaso, Marcelo chegou a ocupar o terceiro lugar na lista da ATP em outubro. Sim, o mesmo posto foi de Bruno pela maior parte da temporada, mas ele e Alexander Peya perderam embalo nos últimos meses.

Melhor técnico de tênis masculino: Daniel Melo

Nada mais do que uma sequência da escolha acima. Daniel Melo trabalha quieto, fala pouco e não aparece nas conquistas, mas está sempre lá no dia a dia do irmão. E, pouca gente sabe, tem muita importância no que a dupla brasileira faz na Copa Davis – João Zwetsch, o capitão, foi o primeiro a reconhecer que foi 100% traçada por “Dani” a estratégia usada para bater a dupla espanhola no Ibirapuera.

Votar em Daniel Melo, técnico do brasileiro de melhor ranking, também significou, para mim, corrigir uma falha do ano passado, quando o mineiro já merecia a premiação. Obviamente, minha escolha não foi motivada só por isso. Seu trabalho vem de anos. Daniel modelou o tênis do irmão e o levou ao top 10. E Marcelo, ainda hoje, aos 31, segue evoluindo. Foi um dos votos mais fáceis de decidir.

Melhor tenista mulher: Teliana Pereira

Nenhuma dúvida aqui. Olhando apenas o ranking, a número 1 do país e 107 do mundo termina em uma posição inferior à de 2013, quando fechou em 90º lugar. Só que Teliana tornou-se a primeira brasileira desde 1993 a disputar um Grand Slam (e jogou os quatro!), esteve na Quadra Central de Wimbledon e disputou 14 WTAs (sete na chave principal). E, claro, teve um belo resultado quando chegou às semifinais do Rio Open, em fevereiro.

Melhor técnico de tênis feminino: Renato Pereira

Renato é o técnico da número 1 do Brasil e, não muito diferentemente de Daniel Melo, trabalha quieto, sem chamar atenção. Não tem “mídia” e não tem fama internacional, mas está ao lado da irmã desde quase sempre. Se Teliana tem méritos por superar seguidos problemas de joelho, Renato tem que ser creditado com a contínua evolução da irmã.

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Melhor simplista homem: Thomaz Bellucci

Há pouco a explicar aqui. Bellucci é, com sobras, o tenista com mais potencial do país. Não fez uma temporada espetacular, mas fez o bastante para manter-se como número 1 do país e, mais importante do que isso, voltou ao top 100, fechando 2014 na 65ª posição. Alcançou as quartas de final nos ATPs 500 do Rio de Janeiro e de Valência, fez uma semifinal em São Paulo e, principalmente, conquistou duas belíssimas vitórias diante da Espanha na Copa Davis.

Feijão fez um ótimo segundo semestre e podia até ter encostado em Bellucci no ranking com um par de bons resultados, mas caiu cedo no importante Challenger de Guayaquil e bobeou no Challenger Finals, onde perdeu ótimas chances de somar pontos. No entanto, ainda que Feijão tivesse fechado 2014 à frente de Bellucci no ranking, meu voto iria para o canhoto de Tietê pela atuação na Copa Davis, que salvou a pele do questionado capitão João Zwetsch.

O Prêmio

O Prêmio Tênis 2014 também teve votos de Arnaldo Grizzo (Revista Tênis), Francisco Leite Moreira (Bandsports), Dácio Campos (SporTV), Erick Castelhero (Gazeta Esportiva.net), Fábio Aleixo (UOL), Fernando Sampaio (Jovem Pan), José Nilton Dalcim (Tenisbrasil), Luiz Fernandes (Tênis Virtual), Paulo Cleto (IG) e Nathalia Garcia (O Estado de S. Paulo), somados a votos de internautas.

Os principais premiados foram Thomaz Bellucci (melhor tenista de simples e melhor tenista geral), Bruno Soares (melhor duplista entre os homens), Teliana Pereira (melhor tenista entre as mulheres), Laura Pigossi (melhor duplista entre as mulheres), João Zwetsch (melhor técnico de tênis masculino), Carlos Kirmayr (melhor técnico de tênis feminino), Orlando Luz (melhor juvenil entre os homens) e Luisa Stefani (melhor juvenil entre as mulheres).

Também foram premiados Natalia Mayara e Carlos Santos entre os cadeirantes, Simone Vasconcelos e Roger Guedes entre os sêniores, Carlos Omaki como treinador de tênis de base, e Joana Cortez e Vini Font no beach tennis. O Wimbelemdom, de Marcelo Ruschel, foi eleito o melhor projeto social, enquanto Carlos Bernardes ficou com o óbvio prêmio de melhor árbitro do país.

Coisas que eu acho que acho

Para não deixar dúvida (alguém sempre tenta encontrar uma polêmica que não existe): o post não é uma crítica ao Prêmio Tênis. Muito pelo contrário. A beleza reside na prática da democracia. Ganha quem a maioria escolhe. E quem votou nos perdedores, ainda que discorde, deve aceitar o resultado. E a caixinha de comentários está aí (há sete anos!) para quem quiser discordar ou questionar publicamente – e educadamente, claro.


Clavet não é mais técnico de Bellucci
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Alexandre Cossenza

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(post atualizado às 18:30)

Thomaz Bellucci não tem mais Francisco Clavet como seu treinador. O espanhol de 46 anos, que foi anunciado em outubro de 2013 como técnico do número 1 do Brasil, encerrou a relação com o paulista ao fim desta temporada.

Conversei na tarde desta segunda-feira com Lui Carvalho, que agencia a carreira do jogador, que negou a versão de que o rompimento havia partido do treinador.

“Foi um acordo entre ambas partes. Eles tinham uma acordo até o fim desta temporada, e a relação foi boa. Durou o que tinha acordado. O Pato tem uns projetos pessoais para tocar em Madri, não estava querendo viajar tanto quanto estava viajando este ano. O Thomaz é um cara que gosta de viajar com técnico, então eles decidiram que cumpriram o objetivo que tinham tratado, que era chegar entre os 50, 60 do mundo. Foi amigavelmente, terminou super bem a relação”.

Carvalho explicou que não há pressa para o acordo com o próximo treinador e revelou também que a preferência de Bellucci é por um treinador brasileiro.

“Estamos discutindo nomes, vendo opções. A gente sabe que o Thomaz fica num patamar diferente do resto (dos tenistas brasileiros), então é difícil de conciliar agenda com outros treinadores que estão viajando. Não falta nome no Brasil. A questão é “quem acredita no Thomaz e no sonho de ser técnico de um cara que pode chegar entre os 20 do mundo?” Até bem pouco tempo, a gente tinha muita opção mesmo. Marcos Daniel, Jaiminho (Oncins), o próprio João (Zwetsch), Pardal (Ricardo Acioly), Bocão (Marcus Vinícius Barbosa), Márcio Carlsson, Larri Passos, Ricardinho Mello… Nome não falta.”

Bellucci ocupava o 168º posto no ranking mundial quando disputou o Challenger de Montevidéu em outubro do ano passado. Foi seu primeiro torneio ao lado de Clavet. Bellucci foi campeão do evento uruguaio e, em parceria com o espanhol, somou bons resultados em 2014, como as quartas de final dos ATPs 500 do Rio de Janeiro e de Valência, a semi no ATP 250 de São Paulo (Brasil Open) e importantes vitórias que ajudaram o Brasil a retornar ao Grupo Mundial, a primeira divisão da Copa Davis. Bellucci subiu mais de 100 posições no ranking mundial e termina a temporada no 65º posto.

Quem assumir a função será o sexto técnico de Bellucci desde 2008. Nas últimas seis temporadas, o paulista já foi treinado por Léo Azevedo, João Zwetsch, Larri Passos e Daniel Orsanic, além, claro, de Clavet.

Bellucci fará sua pré-temporada no Rio de Janeiro com João Zwetsch e Eric Gomes, que já vinha treinando com o número 1 do Brasil nas datas em que Clavet ficava na Espanha. A ideia do estafe de Bellucci é fechar acordo com um novo técnico até o meio de dezembro – antes da viagem para a Austrália.


Aprendendo o caminho
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Alexandre Cossenza

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Por três anos, Thomaz Bellucci iniciou o trecho asiático do circuito mundial entrando de cara em um ATP 500. Em todos (Pequim em 2010 e 2011 e Tóquio em 2012), perdeu na estreia. E não teve muito sucesso no evento seguinte, o Masters 1.000 de Xangai. Nas três participações, venceu um jogo só. O ano mais duro foi 2011, quando deixou o evento chinês e rumou para a Basileia e, de lá, para o Masters de Paris. Não venceu nenhum jogo e, se somou alguma coisa naquele pós-US Open, foi graças ao convite para o Challenger Finals, onde ganhou 30 pontinhos. Não, o pós-US Open, jogado quase todo indoor e em quadras rápidas, não costuma ser o melhor momento do número 1 do Brasil.

Chegamos, então, a 2014. Com um ranking que não lhe permitia entrar nem nos ATPs 250, Bellucci mudou a programação. Nem tentou os qualis. Foi direto aos Challengers. De cara, fez uma final em Orleans, onde ganhou ritmo, derrotou dois top 100 (Sijsling e Mathieu) e foi vice-campeão. Depois, caiu na segunda rodada em Mons e na estreia em Rennes – derrotado pelo mesmo Marsel Ilhan nos dois eventos. Mas a sorte sorriu, e o paulista contou com desistências e entrou na chave do ATP 250 de Viena. Derrotou Mathieu mais uma vez, passou pelo espanhol Feliciano López (14 do mundo) e foi derrotado por Viktor Troicki nas quartas.

Só então, depois de quatro torneios em quadras cobertas e rápidas, é que Bellucci se aventurou em um ATP 500. Em Valência, jogou o quali e passou. Fez um jogo impecável e bateu Mikhail Youzhny (atual campeão) na primeira rodada. Depois, mais uma pitada de sorte: ganhou por WO de Roberto Bautista Agut, aquele mesmo que saiu derrotado na Copa Davis, no Ibirapuera. E assim, nas quartas de final de um ATP 500, Bellucci já consegue um número significativo: com os 220 pontos somados até agora (e nem coloquei na conta os pontos do quali de Valência), faz o melhor pós-US Open de sua carreira. Mesmo que perca nas quartas de final. Mesmo que encerre a temporada em Valência e não dispute o qualifying do Masters 1.000 de Paris, como ainda pretende.

Não, Bellucci não é um tenista espetacular em quadras duras e cobertas. E montar um calendário para este período do ano não é tarefa simples, já que o número 1 do Brasil sempre joga a Copa Davis, realizada logo depois do US Open e uma semana antes dos primeiros ATPs 250 na Ásia. A opção sempre foi a de descansar depois da Davis, mas era um caminho que exigia voltar a um piso nada favorável logo em torneios fortes. Nunca deu certo. Nem em 2011, quando a Davis foi na Rússia, em condições parecidas. A adaptação não é fácil, e as derrotas precoces acabam com qualquer esperança de adquirir ritmo. Em relação à maioria dos tenistas, Bellucci sempre chega “atrasado” ao circuito indoor. E paga o preço.

O caminho mais simples, ainda que parcialmente forçado, mostrou-se interessante. Após encerrar o US Open como número 83 do mundo, já tem praticamente garantida sua volta ao top 50 na próxima semana.

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Coisas que eu acho que acho:

– Bellucci terá 155 pontos descontados até o fim do ano. São 80 por um título no Challenger de Montevidéu e 75 por um vice em Bogotá. Ainda assim, mesmo que encerre a temporada após Valência, o número 1 do Brasil deve terminar 2014 entre os 70 melhores do mundo. No fim de 2013, Bellucci era o número 125.

– Roberto Bautista Agut vinha se queixando de dores. Durante a semana, disse à imprensa espanhola que o corpo estava pagando o preço por um calendário cheio – e muito jogos (ninguém chega ao top 15 com pouco tempo de quadra). Ainda assim, é de se imaginar o quanto a derrota na Copa Davis (e o quanto a Davis tornou-se tema sensível na Espanha!) pesou na decisão de Bautista Agut por não entrar em quadra nesta quinta-feira.

– Bellucci teve sorte de conseguir a vaga na chave em Viena e, depois, com a desistência de Bautista Agut. Sim, mas nem tanto. Primeiro porque não era nada improvável que o brasileiro conseguisse um lugar na chave em Moscou ou Viena. Nas semanas com três torneios (ainda havia Estocolmo), muita gente se inscreve em mais de um, e acaba sobrando vaga aqui e ali. E depois porque Bautista Agut não é nada, nada imbatível, certo?

– Mesmo com um calendário mais modesto, Bellucci teve dois resultados abaixo da expectativa: as duas derrotas para Ilhan, em Mons e Rennes. Ainda assim, supera a marca pessoal de número de pontos nesta época do ano. Imaginem quando (e se!) o paulista conseguir uma sequência de resultados consistentes…

– Para quem gosta de números e ficou curioso: desde 2009, quando passou a jogar os grandes torneios, Bellucci somou no pós-US Open 170 pontos em 2009, 150 em 2010, 50 em 2011, 205 em 2012 e 155 em 2013.


A cautela que dá certo para Bellucci
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Alexandre Cossenza

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O pós-US Open é a parte mais difícil do calendário para Thomaz Bellucci. Ainda que dono de um bom saque e golpes potentes do fundo, o número 1 do Brasil é adepto do jogo no saibro, onde pode explorar o bom top spin gerado por seu forehand e tem mais tempo para preparar os golpes e trabalhar pontos. Quadras cobertas e mais rápidas nunca foram seu forte. Nesta época do ano, quando precisa enfrentar frequentemente tenistas que jogam com bola mais reta, o paulista costuma enfrentar problemas. Foram meses difíceis – sempre em fim de temporada – que culminaram com as demissões de João Zwetsch e Larri Passos.

Em média, Bellucci costuma disputar cinco torneios depois do US Open. E, de 2009 (quando conquistou seu primeiro título ATP) até hoje, nunca somou mais de 205 pontos no período. Sua melhor campanha veio em 2012, quando foi vice no ATP 250 de Moscou. Ainda assim, aquele torneio foi exceção. Não foi uma bela fase. Apenas um belo torneio. No mesmo ano de 2012, Bellucci venceu apenas uma partida nos outros quatro torneios pós-US Open.

De 2010 a 2012, sempre considerei o calendário do número 1 do Brasil um tanto ousado. Mesmo sabendo de suas dificuldades no piso, o paulista optou por começar sua viagem asiática por torneios fortes. Pequim (500) em 2010 e 2011, e Tóquio em 2012. Nunca estreou com vitória. Nunca tentou começar a gira asiática pelos ATPs 250, como Metz, São Petersburgo, Bangkok, Kuala Lumpur. Sim, Bellucci sempre disputa a Copa Davis e ficaria cansativo atuar no domingo e correr para estrear na terça do outro lado do mundo. Ainda assim, sempre houve a opção de descansar uma semana e jogar na Ásia com algum descanso.

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Este ano começou diferente. Sem ranking para disputar até os ATPs 250, Bellucci tinha a opção de tentar a sorte nos qualifyings, mas não quis. Quase que forçado a ser cauteloso, apostou em Challengers fortes. Seu calendário tinha Orleans, Mons e Rennes, seguidos pelo 250 de Moscou (ainda precisa de desistências para entar), o 500 de Valência (vai jogar o quali) e o Masters 1.000 de Paris (quali). E o que aconteceu? No primeiro Challenger, um vice-campeonato. São 75 pontos na conta. Para quem costuma somar 150 no período, não é nada mau.

Mas calma lá, não é um calendário medroso? Pouco ambicioso? Acho que não, e o melhor argumento para defender minha tese está nos parágrafos acima. Bellucci já tentou o caminho ousado e se deu mal. Em 2011, só conseguiu 50 pontos depois do US Open – e isto porque somou 30 ao entrar de convidado no Challenger Finais, aquele torneio sem pé nem cabeça organizado por sua ex-promotora. Mas tem mais: Orleans e Mons são Challengers fortes, com premiação de US$ 150 mil dólares e 125 pontos para o campeão. Não é nada incomum ver tenistas do top 100 nestes torneios. Rennes, outro evento de bom nível, paga US$ 100 mil. Logo, não é como se Bellucci estivesse voltando para a América do Sul para jogar torneios de US$ 40 mil (como os que Feijão vem jogando – e bem).

Além disso, para quem viu as atuações de Bellucci durante a semana em Orleans ficou clara a adaptação ao piso e a consequente evolução no nível de jogo. Uma coisa é começar a semana contra Marc Gicquel e Laurent Lokoli, tenistas que nem no top 200 estão. Dá para errar e seguir vivo no torneio. A margem para erro é muito menor nos ATPs 250. O brasileiro, que vinha de jogos no saibro, cresceu e foi à final de um evento que tinha oito top 100 como cabeças de chave. Dado o histórico nesta época do ano, é um ótimo resultado. Com os pontos de Orleans, subiu 11 posições e já aparece em 68º no ranking. A cautela deu certo.

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Coisas que eu acho que acho:

– Não dá para fazer um post sobre Challengers sem ressaltar o bom momento de Feijão. Se ficou chateado com a não convocação para a Copa Davis, o número 2 do Brasil não desanimou e vem mostrando resultados em quadra. Desde que ficou fora do time brasileiro, foi vice-campeão em Medellín, alcançou a semifinal em Quito e chegou a mais uma final em Pereira. Em três semanas, somou 132 pontos e garantiu sua volta ao top 100. Aparece como 93º na lista desta semana.

– Para não parecer injusto: antes do US Open e da Davis, Feijão já vinha jogando bem. Fez, em sequência, duas semifinais em Challengers (Scheveningen e Poznan) e passou pelo qualifying do ATP 250 de Kitzbühel. Em sete eventos, o único resultado que ficou abaixo da expectativa foi a eliminação na primeira rodada do quali em Flushing Meadows.

– Feijão ainda tem 105 pontos para defender até o fim da temporada, então não há garantias de que o Brasil terá dois top 100 no começo de 2015. Entretanto, João Souza ocupa hoje o terceiro posto no ranking dos Challengers de 2014. Se continuar entre os sete primeiros, ganha uma vaga no Challenger Finals, em São Paulo. O torneio sem pé nem cabeça distribui US$ 220 mil em prêmios e dá até 125 pontos para o campeão.