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Saque e Voleio

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Bellucci, um case negativo de gerenciamento de carreira

Alexandre Cossenza

05/01/2018 09h51

Não importa o que aconteça, Thomaz Bellucci está errado. Ganhou? “Cumpriu a obrigação.'' Perdeu? “Vexame.'' Falou algo fora do padrão do nada futebolístico? “Pedra nele.'' É assim que boa parte do público reage. Ao longo dos anos, o paulista desenvolveu uma imagem de perdedor, de fracassado, de decepção. O Bellucci que o brasileiro lembra é o Bellucci que perdeu chances, o Bellucci que teve problemas físicos e foi vaiado no Sauípe e no Ibirapuera, o Bellucci que joga como nunca e perde como sempre quando encara Djokovic ou Nadal.

Isso tudo apesar de números muito respeitáveis acumulados ao longa da carreira. Quatro títulos de nível ATP, #21 do ranking como melhor posição, praticamente cinco anos inteiros no top 50 e mais de US$ 5 milhões em prêmios acumulados desde que se tornou profissional. Números que, em sua frieza, só perdem para os de Gustavo Kuerten e Maria Esther Bueno dentro do país. Ainda assim, Bellucci, para muitos, é o Bellucci das derrotas.

Não foi muito diferente nesta quinta-feira, quando veio à tona a história de sua suspensão por doping. O relatório da ITF, a Federação Internacional de Tênis, mostra uma postura bastante generosa da entidade em relação ao brasileiro. Levou em conta sua reputação, o fato de que a substância flagrada não é responsável por melhorar rendimento e uma série de outros fatores. Por isso, a punição de apenas cinco meses. Para todos os efeitos, foi como se Bellucci não tivesse grande culpa no seu doping. Mas aí você abre o Twitter e vê as seguintes reações, postadas em um intervalo curto de tempo:

De certa forma, Bellucci é uma espécie de anti-Guga. O catarinense, tanto por seu carisma quanto pelos títulos conquistados, é sempre visto com bons olhos, não importa o que faça. Precisou pagar R$ 7 milhões em multa à Receita Federal? “Culpa da legislação do país.'' Apoiou o amigo investigado Jorge Lacerda por 12 anos, inclusive manifestando-se a favor de mudança no estatuto da CBT para estender seu mandato? “Ah, mas ele fez um discurso lindo no COB contra corrupção.'' Perdeu um monte de jogos ganháveis ao longo da carreira? “Ninguém lembra.'' O catarinense construiu uma imagem tão forte e tão vitoriosa que ninguém consegue enxergar suas falhas. Gustavo Kuerten e Thomaz Bellucci são a antítese perfeita.

Só que nada é por acaso e nem tem tanto a ver assim com o número de títulos, de horas em quadras na Copa Davis ou de grandes atuações. Bellucci e seus gestores ajudaram, pouco a pouco, dia após dia, a construir a imagem de fracassado. Naqueles breves momentos em que saía de quadra sem dar autógrafos ou olhar para a torcida, naqueles comunicados sem frases enviados por sua assessoria de imprensa, nas lesões mal explicadas, na falta de interação nas redes sociais, na falta de comunicação com os fãs.

São, obviamente, casos bem distintos, e o momento exige mais. Guga viveu a época dos jornais e de poucos jogos exibidos pela TV. Bellucci transita na highway da superinformação, onde o Twitter é o rádio do mundo e cada frame de cada jogo na quadra 29 é incessantemente reproduzido em vídeos e GIFs (Guilherme Clezar que o diga!). Não há mais espaço para eremitas analógicos. Quanto menos informação, mais especulação. Ser atleta não é treinar, entrar na quadra e jogar. É administrar uma imagem, é mostrar uma personalidade, é criar empatia com o público e, só depois disso, capitalizar em cima de resultados. Dar autógrafo, tirar foto e conceder entrevista não são favores, mas parte do trabalho.

A torcida quer olhar para um evento esportivo e saber mais sobre aquelas pessoas competindo. Quem elas são? Por que estão ali? Que dificuldades estão superando? Tudo que um fã quer é se identificar e ter por quem torcer, mesmo que o atleta não seja o maior dos vencedores. Ele quer um recado numa rede social. Quer comemorar junto com você as vitórias. Quer sentir o tamanho de sua dor nas derrotas para saber o quanto aquilo importa.

Apesar das chances perdidas – que foram muitas para um tenista de sua capacidade – Bellucci teve resultados. Não teve o resto. Um profissional que teve as estruturas de Koch Tavares e IMX não podia ter essa imagem pública. As empresas lhe conseguiram contratos generosos, wild cards e appearance fees. Mas não pode ser só sobre dinheiro. Atleta profissional não pode marcar entrevista e esquecer. Não pode ver o jornalista na beira da quadra e sair do treino deliberadamente pelo outro lado (muito menos com entrevista agendada!).

Bellucci não poderia passar anos evitando abordar um tema como sua desidratação recorrente. Não poderia abandonar um jogo por problemas físicos e se recusar a compartilhar o motivo. O silêncio lhe deu fama de amarelão. Pipoqueiro. E daí que a ITF praticamente o isentou de culpa no doping? Comentários como os listados acima sempre vão surgir aos montes. E agora, com 30 anos de idade e na reta final da carreira, ainda que venham mais troféus e triunfos, talvez seja tarde demais pra reparar o dano…

Coisas que eu acho que acho:

Hey everyone.. Just wanted to write a little message on here for anyone interested in what in going through right now. Firstly I want to apologise to @brisbanetennis for withdrawing at late notice and to everyone who wanted to come along to watch me play(or lose😇) The organisers couldn't have been more understanding and supportive and I'll always remember that. Thank you. I've obviously been going through a really difficult period with my hip for a long time and have sought council from a number of hip specialists. Having been recommended to treat my hip conservatively since the US Open I have done everything asked of me from a rehab perspective and worked extremely hard to try get back on the court competing. Having played practice sets here in Brisbane with some top players unfortunately this hasn't worked yet to get me to the level I would like so I have to reassess my options. Obviously continuing rehab is one option and giving my hip more time to recover. Surgery is also an option but the chances of a successful outcome are not as I high as I would like which has made this my secondary option and my hope has been to avoid that. However this is something I may have to consider but let's hope not. I choose this pic as the little kid inside me just wants to play tennis and Compete.. I genuinely miss it so much and i would give anything to be back out there. I didn't realise until these last few months just how much I love this game. Everytime I wake up from sleeping or napping i hope that it's better and it's quite demoralising when you get on the court it's not at the level you need it to be to compete at this level. In the short term I'm going to be staying in Australia for the next couple of days to see if my hip settles down a bit and will decide by the weekend whether to stay out here or fly home to assess what I do next. Sorry for the long post but I wanted to keep everyone in the loop and get this off my chest as it's really hurting inside. Hope to see you back on the court soon 🎾😢❤️

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– Quando abandonou o ATP de Brisbane, Andy Murray fez o anúncio com o post acima. Explicou a seriedade da lesão em seu quadril, revelou que as chances de uma cirurgia de sucesso não são tão altas assim e em seguida escreveu: “Escolhi esta foto porque o garotinho dentro de mim só quer jogar tênis e competir… Eu genuinamente sinto tanta falta e daria tudo para estar de volta. Não percebi até estes últimos meses o quanto amo este esporte. Cada vez que acordo espero estar melhor, e é muito desanimador quando você pisa na quadra e não está no nível que você precisa estar para competir.” Razão, emoção, explicações. Tudo que um fã quer. Até quem não é grande admirador do britânico se comove lendo algo assim.

– Ninguém está aqui dizendo que a vida e o convívio com os fãs nas redes sociais são fáceis. Haters e trolls estão por toda parte. Só que, cedo ou tarde, é preciso aprender a lidar com o inevitável. As novas gerações já entendem isso. Gente como Orlandinho (vide simpático post abaixo) vai acertar e errar, e tudo bem quando não sair de acordo com o esperado. Cada post é um forehand que pode passar indefensável rente à rede ou parar direto na tela. No fundo, o importante mesmo é que o público saiba quem o atleta é além de estatísticas, do número do ranking, de vitórias e derrotas.

É mais uma grande mudança na minha vida: Treinar na Espanha 🇪🇸 #Nike #Yonex Vou logo no início do ano para a BTT Tennis Academy, com o Leo Azevedo, em Valldoreix, pertinho de Barcelona. Eu saí de casa com 13 anos, pra morar sozinho e treinar em Balneário Camboriú. Deu certo, consegui bons resultados no juvenil. Agora, será um recomeço na minha carreira profissional, indo morar em outro país. É uma coisa nova, estou empolgado. Quero tirar o maior proveito de tudo isso, treinar muito e buscar crescer lá fora. Sei que não é fácil, morar sozinho novamente, em um novo país, mas estou muito motivado e sei que poderei colher bons frutos dessa mudança. Agradeço também a CBT, que por esta parceria, me proporciona treinar em um dos maiores centros técnicos do mundo. 🇧🇷 ✈️ 🇪🇸 🎾 #vamos #tennis #tenis #tennislife #2018 #Espana #BTTtennisacademy #tennislove #CBT

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– É óbvio que o brasileiro, de modo geral, não tem o conhecimento tenístico para saber o tamanho do funil pelo qual Bellucci passou para chegar até o top 30. É para poucos. Só que administrar bem uma imagem também é fazer com que isso seja mais reconhecido. É fazer os fatos jogarem a favor do cliente. Bellucci nunca teve um trabalho assim a seu favor.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.