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Saque e Voleio

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Campinas, dia 1: brilham o novo e o velho ídolos

Alexandre Cossenza

02/10/2018 10h45

O primeiro dia do Challenger de Campinas foi uma daquelas raras e memoráveis jornadas felizes para o tênis brasileiro. Soa exagerado, eu sei, para uma primeira rodada de um torneio Challenger, mas faz sentido dentro do contexto, não só pelas três vitórias de tenistas da casa, mas pelo que duas delas simbolizam neste momento da timeline tenística do país.

Começou com Thiago Monteiro, #115 do mundo, derrotando Pedro Cachin, #260, por 6/4 e 6/2. Surpresa nenhuma, mas, considerando que o argentino abriu 3/0 no primeiro set, não deixa de ser interessante ver que o cearense venceu 12 dos últimos 15 games. O melhor, contudo, ainda estaria por vir.

Eis que entra em cena Thiago Wild, 18 anos, campeão do US Open juvenil, #453 do mundo, numa quadra lotadíssima, com gente procurando qualquer espaço na Sociedade Hípica de Campinas para ver o jogo. O adversário era Hugo Dellien, #105 do ranking, fazendo uma ótima temporada, com três títulos de Challenger nas costas em 2018.

E como jogou Thiago Wild! Com seu tênis agressivo, empolgante de ver, conquistou rápido a parcela do público que ainda não o conhecia. A galera o empurrou do começo ao fim. O paranaense fez um primeiro set perfeito. Dellien, consistente e inteligente, conseguiu entrar no jogo na segunda parcial. Salvou três break points no 11º game do segundo set e quebrou Wild no 12º.

Parecia o típico jogo em que o mais experiente e consistente vai se impondo aos poucos sobre o rival mais jovem e agressivo – cenário bem comum no tênis. Wild mostrou que não seria assim. Quebrou Dellien no primeiro game do terceiro set e, depois disso, mostrou tudo que a gente gosta de ver numa "promessa": consistência para não deixar o nível cair, controle da ansiedade para evitar erros bobos à frente no placar, e força mental para salvar dois break points no sexto game e mais dois no oitavo.

E, para fechar a noite com mais uma característica bacana, a capacidade de jogar bem nos pontos importantes. Sacando para o jogo, fez dois aces e descomplicou o momento antes de selar o triunfo por 6/1, 5/7 e 6/4. Empolgou a galera, conquistou uma das vitórias mais importantes da vida, abriu a chave (Dellien era o cabeça 3) e já garantiu uma subida de mais de 20 posições no ranking (veja abaixo o match point, com a bola tocando na fita a morrendo do outro lado da rede – e a galera gritando o nome do brasileiro).

A noite ainda teria Thomaz Bellucci, atual número 262 do mundo, vivendo a pior fase da carreira e buscando qualquer pontinho possível. O oponente era Juan Ignacio Londero, #118 do mundo, na melhor temporada de sua vida. Quando o argentino, bastante sólido, quebrou o saque do brasileiro logo no início do jogo, ficava a impressão de que mais uma derrota estava por vir. Só que o Bellucci que faltou durante boa parte da temporada apareceu nesta segunda, em Campinas. Aquele Bellucci que deixou tantos jogos escaparem não deu as caras.

Primeiro, saiu de 2/4 para 6/4 no primeiro set. O grande teste, no entanto, ainda estava por vir. Era preciso controlar a ansiedade, não deixar mais uma vitória escorregar pelos dedos. Pois Bellucci foi excelente nos momentos delicados. Logo depois de quebrar Londero na segunda parcial, viu-se diante de um 15/40. Cenário típico de tantas derrotas. Um set e uma quebra à frente, como ele mesmo relatou na entrevista publicada aqui ontem. Pois Bellucci salvou os dois break points e se manteve à frente.

Mais tarde, sacando para o jogo, viu um 30/0 se transformar em 30/40. "Bellucci perde chances e…" negativo! "Hoje, não", diria o narrador. O paulista salvou o break point e, quatro pontos depois, fechou em 6/4 e 6/3 para derrubar o cabeça 4 do torneio e vencer um jogo importantíssimo. Nem tanto pelos pontos, mas pela maneira como veio a vitória. E se você acha exagero, tente lembrar de outra primeira rodada de Challenger em que Bellucci comemorou tanto um triunfo – veja o match point no vídeo abaixo.

Coisas que eu acho que acho:

– Comentei isso no ano passado e não vou me cansar de ressaltar o mesmo este ano: a presença do público no Challenger de Campinas é sensacional. Clube cheio no sábado e domingo para o quali e quadra lotadíssima (até a área VIP estava cheia) para a sessão noturna desta segunda-feira. Ambiente delicioso e perfeito para as vitórias de Wild e Bellucci.

– Golpe a golpe, o tênis de Thiago Wild é empolgante. Já disse isso um par de vezes no blog, mas repetirei como no parágrafo acima: sua devolução de saque, de dentro da quadra e sempre agredindo, é especialmente empolgante. Registrei uma delas contra Dellien em câmera lenta e compartilho a imagem acima. Não canso de ver!

– Pedi que Bellucci falasse sobre a vitória e como ela veio justamente depois de superar momentos que quase sempre terminaram em derrotas nesta temporada de 2018. Vejam o que ele disse:

– Ainda sobre Bellucci, deixo aqui um comentário sobre a entrevista publicada ontem aqui no blog. Achei que o paulista foi muito honesto e realista ao falar sobre suas falhas ao longo do ano e como elas exigiram uma moderação das expectativas. Bellucci faz uma análise bem inteligente do que aconteceu. A parte que não gostei? O momento em que ele diz que não precisa fazer nada de diferente do que fez na carreira inteira. Ao criticar essa afirmação, não quero que o paulista saia fazendo saque-e-voleio ou algo "mirabolante", como ele diz. Maaaas acho que seu tênis ganharia corpo com alguns recursos a mais, como um slice na paralela para quebrar o ritmo de tantos adversários que jogam contra Bellucci no fundo de quadra, só empurrando bola.

– Outra notícia que pipocou aqui em Campinas foi o afastamento de Marcelo Zormann, que vai ficar sem competir pelo menos até o fim do ano. O paulista de 22 anos foi diagnosticado recentemente com depressão. Ele falou abertamente sobre isso em uma entrevista que publiquei hoje. Recomendo que leiam. Depressão ainda é um tema delicado e cercado de preconceitos. Zormann fala sobre os sintomas, suas manifestações e como vem se tratando.

– A rodada de terça-feira não é menos empolgante. Já às 10h, Felipe Meligeni encara Federico Coria. Em seguida, Feijão duela com Fabrizio Onago. Depois, Rogerinho pega Nicolas Alvarez. Não antes das 17h, Pablo Cuevas faz sua estreia contra Ulises Blanch. Na sessão noturna, um jogo de duplas (Romboli/Agamenone x Wild/Oliveira) antecede o último confronto da rodada, com Guilherme Clezar enfrentando Christian Garin. E isso sem falar em Carlos Berlocq e Federico Delbonis, que estarão na Quadra 1, e o atual campeão, Gastão Elias, na Quadra 3. Para programações atualizadas, recomendo que sigam a conta do Instituto Sports no Instagram.

– Sempre importante lembrar: estou em Campinas a convite do Instituto Sports.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.