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Saque e Voleio

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Chances perdidas e três derrotas brasileiras: decepção ou coincidência?

Alexandre Cossenza

21/02/2018 07h00

Com a derrota de Thiago Monteiro diante de Pablo Cuevas, acabou a participação brasileira na chave de simples do Rio Open. Uma participação que começou com quatro derrotas em quatro jogos no qualifying e mais três reveses na chave principal. E as três últimas vieram com um requinte de perversidade: chances perdidas. Muitas.

Primeiro, Rogerinho esteve com uma quebra e vantagem à frente de Albert Ramos Viñolas no terceiro set. Chegou a sacar em 4/3. Acabou perdendo quatro games seguidos e foi eliminado por 6/3, 3/6 e 6/4. Depois foi a vez de Thomaz Bellucci, num jogo cheio de altos e baixos contra Fabio Fognini que já relatei neste post, mas não custa lembrar o mais importante: o brasileiro venceu o primeiro set e abriu 4/0 na segunda parcial. Terminou superado por 6/7(5), 7/5 e 6/2. Por último, nesta terça, Monteiro teve três match points para despachar Cuevas, mas o uruguaio sobreviveu. Triunfou em um apertado tie-break de segundo set e foi melhor no terceiro: 6/7(5), 7/6(10) e 6/3.

Três jogos, três chances para avançar em um ATP 500 no Brasil, e três derrotas. Fracasso? Decepção? Ou apenas uma coincidência que todos tenham sido eliminados de virada? Dá para encontrar algo em comum nas atuações de Rogerinho, Bellucci e Monteiro? A avaliação não é tão simples assim, então vamos por partes.

Os adversários

Todos os brasileiros estrearam contra cabeças de chave. Portanto, eram azarões. Ramos Viñolas, 30 anos, é o #19 do mundo. Fognini, também de 30, é o #21. Cuevas, 32 anos, é o #33 na ATP. Todos são veteranos com carreiras admiráveis. O italiano já jogou 14 finais de ATP e tinha quatro vitórias em quatro jogos conta Bellucci. O uruguaio, que soma seis títulos (quatro no Brasil!) e três vices, entrou em quadra levando um retrospecto de 3 a 0 contra Monteiro. Todos também são belos atletas no saibro. A vantagem da “casa” não era tão grande assim, ainda que Fognini, em especial, tenha sido vaiado além da conta. O normal seria mesmo que todos vencessem os três brasileiros e avançassem às oitavas, e foi isso que aconteceu.

O que as chances significam

Aqui é uma questão de copo meio cheio ou meio vazio, e escolho a visão otimista simplesmente porque a pessimista é muito fácil e oportunista. Tivessem perdido três jogos em sets diretos, Rogerinho, Bellucci e Monteiro poderiam ser apenas classificados como tenistas inferiores e que nem deveriam estar em um ATP 500. Afinal, apenas Rogerinho entrou na chave principal sem a necessidade de convite. Como todos tiveram chances e as desperdiçaram, são considerados fracos mentalmente. Condenar por condenar, seja qual o motivo, é covardia. Não gosto de nenhuma das duas abordagens. Acho que o simples fato de que tiveram chances mostra que Rogerinho, Bellucci e Monteiro fizeram algo de bom. Faltou um detalhe aqui, um pontinho ali, mas é inegável que, diante das circunstâncias, foram bons jogos. Boas atuações. Chamem-me de otimista. Paciência.

Separando o joio do trigo

Foram três derrotas diferentes por motivos distintos. Não curto a ideia de empacotar tudo na mesma caixa e dizer algo do tipo “brasileiros são amarelões” ou “têm mental fraco”. Rogerinho, por exemplo, acredita que perdeu porque saiu do seu plano de jogo nos games finais. Estava apostando na paciência, esperando erros de Ramos Viñolas e, de repente, na reta final, arriscou mais, errou mais e cedeu a virada. Chegou com raiva de si mesmo na zona mista, onde falou com a imprensa.

Bellucci, por sua vez, apostou na paciência até a morte. Arriscou pouco, esperou erros de Fognini e, com essa estratégia, esteve a dois pontos da vitória. O italiano, sim, brilhou quando foi mais preciso. Tomou a iniciativa, definiu mais pontos, foi senhor de seu destino. Quando reduziu os erros, virou o segundo set e faturou o terceiro. Bellucci disse que “tirou o pé” quando abriu 4/0, mas a verdade é que ele tirou o pé o jogo inteiro e, ainda assim, cometeu mais de 50 erros não forçados (e apenas 10 winners).

Monteiro apostou em alongar trocas buscando o backhand de Cuevas. Imaginou que teria sucesso forçando o uruguaio a atacar com seu golpe menos eficiente. Taticamente falando, foi uma boa aposta do cearense. Cuevas teve momentos ruins e deu chances a Monteiro, mas também foi preciso nos três match points. E, depois que saiu do buraco, jogou ainda melhor. Difícil condenar o brasileiro por um plano de jogo que o levou a um ponto da vitória em sua melhor atuação em quatro partidas contra Cuevas.

Expectativa x frustração

Talvez o mais justo seja concluir que a frustração da torcida veio da expectativa que surgiu ao longo das partidas – e não antes disso. É fácil misturar as coisas quando há match points e quebras de vantagem no cenário, mas é preciso lembrar que Rogerinho, Bellucci e Monteiro perderam para tenistas superiores. Adversários que, nas horas mais importantes, mostraram por que eram favoritos e por que estão muito à frente dos brasileiros no ranking. Quanto melhor e mais cedo isso ficar claro, menor será a decepção da torcida.

Não consigo condenar Rogerinho e Monteiro do mesmo jeito que não consigo chamar Horacio Zeballos de amarelão – apesar da sequência de voleios pífios que o argentino executou quando teve a chance de eliminar Gael Monfils. Sacou em 5/3 no terceiro set, teve match point e não converteu. Não ganhou mais um game depois disso, e o francês, atual número 39 do mundo, sobreviveu para alcançar as oitavas e encarar Marin Cilic.

Bellucci, por outro lado, tinha um rival descalibrado nas cordas. O paulista é também o mais experiente dos brasileiros nesse tipo de evento e contra esse tipo de jogador. Se um dos três tinha “obrigação” (e uso aspas porque no sentido estrito da coisa ninguém tem obviamente obrigação de nada), era Bellucci, mas ele também foi quem mais deu pontos de graça e saiu dizendo estar no caminho certo e que táticas são “algo pessoal”. Não entendi. Além disso, ainda que Fognini seja um tenista superior, é difícil explicar como Bellucci perdeu 12 de 14 games jogados na sequência que definiu o duelo.

O que faltou?

No frigir dos ovos, faltou tênis. Para Rogerinho, que arriscou e errou; para Monteiro, que passou a maior parte do tempo desafiando Cuevas a arriscar primeiro; e para Bellucci, que cometeu 54 erros não forçados e só 10 winners. Faltou confiança? Faltou mental? Faltou frieza? Talvez, talvez, talvez. No fim das contas, quem tem mais tênis tem mais tudo, inclusive confiança, mental, frieza e um punhado de outras características que fazem grandes tenistas. Talvez tenha amanhã, mas hoje o Brasil não tem um grande tenista. Não grande o bastante para derrotar top 30 e top 20 com frequência. E não acho justo condenar pessoas pelo que elas não são.

Coisas que eu acho que acho:

– Este parágrafo poderia ter um post só para o assunto, mas resumirei assim: falta uma sensação de inconformismo ao tênis brasileiro. Isso vem da base, de técnicos que querem manter seus empregos e cobram menos do que deveriam. É perturbador – pelo menos para mim – ver bons tenistas saindo de quadra dando sorrisos após derrotas e dizendo que foi “uma boa experiência” ou “mais uma aprendizado”. Gostaria de ver mais atletas saindo de quadra com raiva. Putos porque perderam jogos, putos porque jogaram mal, putos porque perderam chances. Como Rogerinho fez na segunda-feira. Só que enquanto atletas forem orientados a achar que está tudo bem, que amanhã é outro dia e que tudo serve de aprendizado (embora quase nenhum deles consiga dizer o que aprendeu), vai faltar gente pensando grande no tênis brasileiro.

– Mudando radicalmente de assunto: na pré-temporada, Monteiro trabalhou em um novo movimento de saque. Sua posição inicial agora tem as pernas separadas, o que, segundo o tenista, vem lhe dando mais equilíbrio e permite mais consistência no movimento. O cearense disse ainda que não comparou a velocidade do serviço atual com a do anterior, mas apontou que “acho que não perdi velocidade, não. Hoje, acho que foi o saque mais rápido que já dei. Foi um ace a 222 km/h, pelo menos mostrou no placar, não sei se está certo ou não (risos). Na questão de velocidade, acho que se não estiver igual, tem um pouco mais.”

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.