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Saque e Voleio

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Entrevista do Leitor - Thomaz Bellucci: 'Eu sei o caminho de volta'

Alexandre Cossenza

10/09/2019 04h00

Por Gabriel Aguiar

Os últimos anos não foram fáceis para Thomaz Bellucci. Em 2017, quando ainda estava entre os 100 melhores tenistas do mundo, foi suspenso por doping e ficou sem contar pontos de setembro até fevereiro da temporada seguinte. Em 2018, os resultados não vieram, nem no circuito Challenger, e o paulista despencou no ranking. Chegou a sair do top 300.

A subida recomeçou lentamente e parecia bem encaminhada, mas quando era o 212º da lista, em abril deste ano, sofreu uma entorse no tornozelo que lhe tirou de ação até julho. Voltou a cair e hoje é o #313 do mundo. O paulista, no entanto, não perdeu a fé. Acredita em seu tênis e na volta ao top 100 e, por que não, ao top 30.

Parece ousado, mas na entrevista concedida ao apoiador do blog Gabriel Aguiar, Bellucci, hoje com 31 anos, garantiu que sabe o que precisa fazer para alcançar seus objetivos. O canhoto também falou sobre Copa Davis, os duelos com Djokovic, Nadal e Federer e as vitórias mais marcantes. Confiram abaixo:

Primeiramente, fazendo um retrospecto da carreira, até que ponto te atrapalhou você ter começado na época que o Guga aposentou? Por todo potencial, por ser considerado seu sucessor?

Não dá para dizer que atrapalhou, não. Mesmo porque o Guga foi um dos meus primeiros ídolos quando era criança. Cresci vendo ele. E ele me incentivou a continuar jogando tênis e a buscar ser um jogador profissional. Depois que eu virei profissional, acho que a exigência da torcida ficou um pouco maior, né? Todo mundo não se contentava com meus resultados porque tinham o Guga como parâmetro. Parecia que as minhas vitórias eram poucas comparado ao que ele tinha conquistado. Acho que isso foi o único ponto negativo que eu vejo. Mas depois de um tempo, depois de alguns anos, acho que todo mundo entendeu que o Guga tinha sido um gênio e poucos vão conseguir fazer o que ele fez no mundo, quanto mais no Brasil.

Você se considera realizado ou acha que podia ter alcançado mais em termos de resultados?

Eu me considero realizado, sim, no tênis. Tive uma carreira vitoriosa, dez anos entre os 100 do mundo. Tive resultados consistentes aí por quase dez anos e acho que alcancei muito mais do que eu esperava quando comecei a jogar. Mas acredito que ainda posso conquistar muitas coisas, senão não estaria jogando. Acho que eu preciso evoluir para conseguir retornar aos bons resultados que sempre tive na carreira, mas acho que isso é possível, com certeza.

Qual torneio você considera o seu grande torneio na carreira?

Acho que são alguns torneios que eu tenho uma lembrança muito forte, que foram torneios que eu joguei muito bem. Por ordem cronológica, Gstaad/2009 e 2012, foram dos torneios que eu lembro que estava jogando muito bem e foram um marco na minha carreira. E acho que Madri/2011 também. Nesse torneio, eu ganhei do Murray e do Berdych. Acho que esses três torneios eu tenho recordação como os três principais que eu lembro que joguei mesmo meu melhor tênis.

Qual a maior vitória? Aquela que você pensa "Hoje joguei meu melhor e ganhei de um cara muito bom"?

Difícil falar um jogo só, específico, também. Houve alguns jogos que eu joguei muito bem, ganhei de jogadores expressivos, além desses três torneios, em que eu ganhei de caras muito bons, caras que estavam top 10. Em 2009, eu ganhei do Wawrinka, que estava jogando bem também. Teve a Copa Davis no Brasil, que a gente ganhou da Espanha, contra o Andújar e o Bautista, que eu lembro que acabei virando um jogo estando 2 sets a 1 abaixo com o Andújar e ganhei do Bautista no domingo jogando super bem. Nesses jogos, eu joguei mais ou menos no mesmo nível. Não dá para dizer que um foi melhor do que o outro porque em todos eu joguei muito bem. E, com certeza, mesmo perdendo jogos contra Nadal, Federer e Djokovic, sempre consegui jogar bem contra esses jogadores. Geralmente, meu nível sobe quando eu pego caras assim, com nível muito alto.

Você já tirou sets de Nadal, Djokovic e Federer, e fez jogos duríssimos, mas nunca venceu. Qual deles você considera o mais difícil de enfrentar? E em qual jogo você esteve mais próximo da vitória?

Dos três, para mim, o mais difícil de jogar é o Nadal no saibro. Talvez ele seja quase imbatível em melhor de cinco sets. Ele tem pouquíssimas derrotas na carreira. Tanto é que ganhou 12 Roland Garros. Enfrentei ele duas vezes lá e tive poucas chances de ganhar. Não consegui ganhar nenhum set. Mas na quadra rápida eu tive um bom jogo com ele nas Olimpíadas do Rio. Acho que Nadal no saibro talvez seja um dos oponentes mais difíceis. Joguei com o Federer duas vezes na quadra rápida e estive perto de ganhar. Um foi 6/4 na negra, outro foi 7/5 no terceiro, então não acho que com o Federer eu tive tanta dificuldade de jogar, mesmo porque ele tem dificuldade de jogar contra canhotos, principalmente pela esquerda dele. Eu conseguia neutralizar o ataque dele jogando muito pelo backhand. Não é o ponto forte dele. E o Djoko é o cara mais regular dos três, talvez, É um cara que joga sempre num nível muito alto. Dificilmente ele abaixa o nível. Também é um cara excepcional.

Qual tenista você enfrentou, fora esses citados, que mais te encantou?

Acho que o Nadal talvez seja o jogador que eu também acabo me espelhando por ser canhoto. Quando eu joguei com ele a primeira vez, em 2008, em Roland Garros, eu era muito novo e tinha ele como ídolo. E acabei jogando contra ele, então eu via ele fazendo certas coisas na quadra que eu não conseguia fazer. Isso me encantou. Servia como referência de onde eu queria chegar na minha carreira, tanto tecnicamente e mentalmente, como ele se comportava nos jogos. Um cara que, para mim, é excepcional.

Agora falando mais de futuro, pretende voltar à Copa Davis? É um objetivo?

Não tenho muito em mente agora a Copa Davis. Não é meu objetivo principal. Eu joguei dez anos de Copa Davis, me doei para a equipe, abri mão de muitos torneios para defender o país, então acho que é uma competição que eu já me sinto realizado de ter jogado por muitos anos. Se eu tiver disponibilidade e conseguir voltar ao meu ranking e tiver semanas livres no ano e eu conseguir jogar, vou jogar com certeza. É uma competição que eu adoro jogar, mas não tenho ela como objetivo de carreira hoje em dia. Hoje em dia, meu objetivo é voltar a jogar bem.

Sei que você acredita na volta ao top 100, mas e top 30, que você frequentou bastante tempo, ainda acredita?

Eu acredito, sim, em voltar ao top 100. E acho que voltar ao top 30 não é muito distante. Eu sei o caminho de volta, sei o que tenho que fazer para voltar lá e é isso que estou fazendo. Se eu não acreditasse que eu posso voltar a top 100, a top 30, eu não estaria jogando, então hoje em dia eu sei que tenho um longo caminho para voltar, mas sei aonde posso chegar, o que tenho que fazer. Eu acredito, sim. Se não acreditasse, não estaria jogando.

Em termos de jogo, o que você acha que te falta?

Acho que nos últimos dois anos principalmente eu tive bastante problema na minha parte técnica, acho que acabei baixando bastante. Principalmente o saque e a direita, que sempre foram meu ganha-pão. Esses dois golpes eu ainda tenho que ajustar, tenho que conseguir gerar a mesma potência que eu sempre tive. Sempre tive uma mão muito pesada, ganhava muito ponto com o saque. Acho que são esses dois pontos que eu preciso mais evoluir para voltar a jogar bem e ser competitivo nesses torneios grandes, onde eu costumava jogar.

Qual seu objetivo a curto prazo? Em um ano…

A curto prazo, meu objetivo é voltar ao top 100. Às vezes, é um clique que dá que você acaba ganhando confiança, ganhando torneio, que leva você a ganhar outro ou leva você a elevar o nível e, nesse nível de Challenger, se eu estou jogando bem e com confiança, posso subir rápido, ganhar dois-três torneios, já estou perto do top 100 e consigo jogar os qualis dos ATPs. Então é esse o meu objetivo: voltar ao top 100 o quanto antes. Eu sei que hoje em dia, é difícil. Estou 260, então tenho que pontuar bastante, ter uma sequência de torneios. Antigamente, eu precisava só de um torneio pra voltar ao top 100 nas vezes que eu caía. Estou numa situação diferente, mas também estou mais maduro, já sei o que tenho que fazer para ganhar esses torneios. É só questão de tempo. Ter paciência porque eu acho que os resultados voltam a aparecer.

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Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

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