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Saque e Voleio

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Paciência de Bellucci acabou, diz André Sá, após fim de parceria

Alexandre Cossenza

16/09/2018 05h00

Por pouco mais de um ano, Thomaz Bellucci colocou nas mãos de André Sá a esperança de voltar a jogar um bom tênis e brigar por coisas maiores. A parceria, atrapalhada por uma lesão e uma suspensão por doping, não deu os resultados esperados. Perto do top 50 em julho de 2017, quando concordou em ter André como treinador durante ATPs no saibro europeu, Bellucci entrou numa espiral e saiu até do top 300. Atual #274 do mundo e penando no mundo dos Challengers, o paulista encerrou a parceria no começo deste mês.

Encontrei André Sá neste fim de semana, em Porto Feliz, onde o mineiro disputa o 1º PRO-AM de Tênis JHSF, realizado pela Try (estou no evento a convite da promotora), e tivemos um longo a agradável papo – como todos os papos que já tive com ele. Foram 37 minutos falando principalmente sobre Bellucci, Copa Davis, Copa do Mundo da ATP, prize money, calendário e seu futuro como palestrante. No post de hoje publico a primeira parte dessa conversa, em que o ex-número 1 do Brasil foi o tema central. Leiam!

Comecemos pela parceria com o Thomaz… O que não fluiu? O que faltou?

É difícil dizer uma coisa só. Obviamente, resultado. É algo que era importante ter acontecido, e demorou demais para acontecer. A gente teve muitas mudanças na vida dele. A gente começou e, na primeira semana… doping. Ficamos um ano juntos, mas na verdade foram seis meses por causa do doping. Ele já tinha decidido mudar para os EUA, e aí somou com o começo do ano, de ter jogos ganhos que acabou perdendo. E aí foi acumulando, acumulando, perdendo confiança. No esporte individual, é difícil. Ele é um cara extremamente profissional, extremamente responsável, fazia o trabalho só que no final complicava. O resultado não veio, ele foi perdendo confiança, foi se sentindo cada vez mais longe, e ele muito apegado a resultado, né? Não teve a paciência de esperar. "Cara, se você continuar fazendo isso, vai acontecer. Vai acontecer."

Todas as vezes anteriores, quando ele caiu, ele jogou dois, três, às vezes quatro Challengers e logo subiu de volta para o top 100. Esta é a primeira vez que ele caiu, jogou dois, três, não conseguiu uma sequência de vitórias… Isso abalou no sentido de ter sido o primeiro baque forte na carreira do tipo "meu nível é acima disso e nem aqui estou conseguindo ganhar"?

Com certeza. É o pior momento do tenista profissional porque no começo a gente entrava nos Challengers para ganhar. "Cara, você joga mais do que todo mundo aqui nessa chave." Só que o resultado não vinha. Era jogo ganho, era set e break, era break na negra, jogava bem até ter break point, e aí ficava 0 de 9 break points, entendeu? E isso foi acumulando. Começou a entrar no mental, no emocional. "Eu quero demais, eu tenho que sair daqui. Eu já tinha que estar 100 do mundo, 70 do mundo!" E você conseguia ver que na hora de fechar o jogo a ansiedade falava mais alto. E até hoje está acontecendo. A gente terminou, ele teve uma sortezinha ali de entrar de lucky loser… Pô, semifinal [no Challenger de Gênova avançou até a semi após perder no qualifying], agora deslancha. Aí aconteceu de novo. Estava set e break na frente, 3 a 0 na negra [no Challenger de Banja Luka, Bellucci vencia o terceiro set por 3/0 contra o lituano Laurynas Grigelis, #259 do mundo, mas acabou derrotado por 6/3 na parcial decisiva]… Perdeu. Isso é que está faltando para ele, e é um momento difícil porque o treinador também de fica de mãos amarradas. Foi o que eu falei para ele: "Fora da quadra, a gente está super bem, durante os treinos a gente está super bem, durante os jogos a gente está super bem… Então o que que falta? É fechar o jogo." E fechar o jogo é com o jogador. É ele que está ali, jogando.

Acompanhando os resultados, me veio à cabeça seu período com o Bebe [uruguaio Enrique Pérez, que treinou André Sá durante um período em que o mineiro era top 100 de simples perdeu 15 jogos seguidos]. Exagero meu ou você vê alguma relação?

Tem a semelhança de derrotas consecutivas, que você vê que o cara vai perdendo a confiança total. Você fala "Cara, como é que sai daqui?" Paciência. Paciência. Continua, você tem nível, você tem jogo. E a paciência [de Bellucci] acabou. Infelizmente, foi o que aconteceu. Tinha a distância, tudo mais… "A gente tinha fechado 25 semanas, era o que eu poderia fazer com você. Um momento, a gente ia ficar longe um do outro." A paciência acabou, ele falou "Preciso de alguém perto de mim aqui", e beleza.

 

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Galera do bem.. What a reunion… #ilovethissport #tennislife

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Nesse período, vocês optaram por trocar de corda e raquete também, né?

Só o padrão de raquete. Ele jogava 18×20, passou pra 16×18, só para dar um pouquinho mais de spin na bola e fazer um pouco menos de força [de forma geral, quanto menor o número de 'cordas', mais a raquete gera efeito e velocidade, embora haja perda na precisão]. Eu sentia que ele cansava muito pela técnica de direita [forehand] dele. Tinha que fazer muita força porque ele tem o grip muito virado, e eu sentia que isso tirava o fôlego dele. Ele cansava por causa disso. Não era fluido. Eu falei "Vamos tentar essa mudança aqui, vai te ajudar no saque. O saque vai andar um pouco mais, e vai te ajudar com a direita." Ajudou, tanto é que ele trocou. Raquete e tênis [calçado] são a coisa mais pessoal do mundo. Se o cara não gostar… A ideia, a intenção era essa, de ele soltar um pouco mais e não fazer tanta força para jogar. No final, não teve o efeito que queria ter. Ajudou o slice dele também, o que era bom, mas nessa situação, como estava, num esporte individual, sem conseguir ter resultado, o momento era muito difícil. Por eu ter passado por isso, você fica sem ação porque o trabalho estava sendo feito, ele estava taticamente bem, tecnicamente a gente ia alinhando, fisicamente ele já estava começando a se acostumar com o preparador… Mas é o mental, né? Mental é fechar jogo. É chegar lá, na hora do "vamo ver", e você tem que fazer acontecer. É muito fácil falar de fora. Eu falei para ele, tenho certeza, acho impossível até o fim do ano ele não ganhar jogo. Com essa gira inteira na América do Sul… A gente tinha planejado Lima, Guaiaquil, Montevidéu, Buenos Aires, Rio de Janeiro… Agora eu vi que ele se inscreveu em Campinas, que não estava nos planos quando eu estava com ele.

(interrompendo) Essa era outra dúvida que eu tinha. Não ir a Campinas era algo do tipo "não quero jogar no Brasil porque tem pressão, os caras vão me encher o saco"?

(após breve pausa) É. É. Isso aí acho que não é segredo pra ninguém, não. É.

Lembro que houve algo mais ou menos assim com o Tiago Fernandes, que voltava de lesão, e ainda tinha expectativa em cima dele por ganhar slam, ser número 1 do mundo juvenil…

Isso é uma coisa do lado pessoal do cara, e não é fácil. Onde você mais vê isso é em Copa Davis. "Quero esse desafio, eu sinto a pressão." Eu falo que não tem problema nenhum sentir pressão. Só não se sinta inferior. Você pega qualquer jogo de Copa Davis. Agora, o [Alex] De Miñaur [19 anos, #38 do mundo] contra o Dennis Novak [#133 do mundo]. Um [Novak] perde na primeira rodada do US Open, o outro perde nas oitavas por 7/5 no quinto. Aí [o De Miñaur] vai lá e perde do cara na Copa Davis. Por quê? Porque é uma situação emocional diferente. Se ele joga com o Dennis Novak em qualquer lugar, ele dá 2 e 2 no cara. Só que a situação emocional é diferente. Jogar no Brasil não é fácil para ele [Bellucci]. Jogar Copa Davis não é fácil. Não é fácil pra ninguém, cara. É fácil pro Guga, fácil pro cara que ganha no Sauípe três anos. Mas o cara é estrela, né? O cara é diferenciado.

Na próxima parte da entrevista, o diálogo continua com os próximos passos na vida profissional de André Sá e como vem sendo exercer a função de consultor de relações com jogadores na ITF. Grande parte de seu trabalho foi conversar com os jogadores sobre as mudanças na Copa Davis, por isso André traz informações interessantíssimas sobre os bastidores de negociações que ainda estão em andamento, o porquê da data de novembro e o que ele acha que vai acontecer com a Davis dividindo atenções com a Copa do Mundo da ATP. Vem muita coisa legal por aí no próximo post.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.