Topo
Saque e Voleio

Saque e Voleio

Pior temporada em 12 anos teve requintes de crueldade para Thomaz Bellucci

Alexandre Cossenza

14/11/2018 05h00

Ao ser derrotado na primeira rodada do Challenger de Buenos Aires, nesta terça-feira, Thomaz Bellucci encerrou sua pior temporada desde 2006, quando tinha 19 anos e fechou o calendário como número 583 do mundo. Desta vez, o paulista, que completará 31 anos no dia 30 de dezembro, ocupa o 244º posto.

Os números são assustadores para um tenista do calibre de Bellucci, que já foi #21 do planeta e passou boa parte da última década entre os 50 melhores do mundo. Ao fim de 2018, o paulista de Tietê somou 31 vitórias e 30 derrotas, com a maioria das partidas disputadas em torneios de nível Challenger – um degrau abaixo dos ATPs.

Mas não são estes os números mais dolorosos para Bellucci. O que mais chama a atenção é a quantidade de derrotas em viradas. Dos 30 reveses, 14 aconteceram depois de o brasileiro ter vantagem no placar. Em 13 desses jogos, Bellucci venceu o set inicial. Em um deles, sacou para fechar a primeira parcial. Mas tem mais: além de ceder viradas, o paulista perdeu jogos em que esteve muito perto da vitória. Esses resultados, sim, machucaram.

Contra Fabio Fognini, no Rio Open, Bellucci abriu 7/6 e 4/0. Contra Facundo Bagnis, no Challenger de Sarasota, teve 4/1 no terceiro set. Diante de Hugo Dellien, em Marburg – outro Challenger, a vantagem era de 5/1 no terceiro set. Bellucci sacou para o jogo duas vezes e teve match point. No Challenger de Lima, abriu um set e 4/1 sobre o dominicano José Hernandez-Fernandez. Reveses com requintes de crueldade e que abalaram, como o próprio tenista disse nesta entrevista realizada em Campinas.

O que isso quer dizer?

Estar em vantagem em tantas partidas só pode significar que Bellucci ainda é capaz de apresentar um nível de tênis melhor do que o sugerido por seu ranking. Por outro lado, existe a questão da consistência – que, sejamos sinceros, nunca foi seu forte – e o aspecto mental, que em casos assim funciona como um mastodonte arrastando por uma colina cheia de neve o que sobrou da confiança de alguém.

O lado físico também precisa ser considerado. Bellucci não é mais um garoto de 20 e não se movimenta em quadra como antes, não chega inteiro em todas as bolas – algo cruel com um atleta que nunca foi excelente na defesa e que ainda não desenvolveu um slice confiável, capaz de mudar a velocidade do jogo quando necessário. Aí entra a questão técnica. Bellucci acredita que não precisa jogar um tênis diferente daquele que o levou ao top 25, oito anos atrás. Sua frase sobre isso, na entrevista linkada acima, foi a seguinte:

"Eu não acho que tenho que fazer nada de diferente do que eu fiz na minha carreira inteira. Até mesmo porque eu estou com 30 anos, não tenho que começar a fazer saque e voleio, começar a dar mais slice… Acho que se eu cheguei a 20 do mundo jogando o que eu jogo hoje, por que eu vou querer mudar e fazer alguma coisa mirabolante e diferente? Acho que eu tenho que aperfeiçoar o que estou fazendo. Algumas coisas, eu tenho que melhorar. Não mudar."

Mudar por quê?

No dia da publicação da entrevista, recebi mensagens de tenistas e técnicos (além dos comentários nas redes sociais e no blog) questionando a postura de Bellucci e argumentando que essa recusa a mudar seu jogo – e nem precisa ser uma mudança radical – é a principal responsável por sua queda de rendimento e no ranking.

Assim como muita gente, acredito que Bellucci precisa agregar recursos a seu tênis. Um slice defensivo não seria nada mau e lhe ganharia tempo durante alguns pontos. Um slice mais frequente, como variação, também seria bastante útil contra adversários que se plantam quatro metros atrás da linha de base e trocam bolas até o paulista errar um ataque. E é o tipo de oponente que Bellucci mais encontra nos Challengers de saibro.

Esse slice como variação funcionaria bem porque força o rival a se mexer para a frente e gerar potência por conta própria, tirando a bola do chão. Quando bem executado, costuma abrir o caminho para um bom golpe ofensivo na bola seguinte, com o rival andando para trás. Nadal e Federer fazem isso brilhantemente – cada um a seu modo. E que fique claro: ninguém aqui está exigindo que Bellucci use golpes fatiados com a maestria de um top 5. Não precisa tanto.

Por outro lado – mas não concordando -, o raciocínio de Bellucci é compreensível. Se ele chegou ao top 40 com 21 anos jogando assim e terminou cinco temporadas no top 40 atuando do mesmo jeito, por que não continuar fazendo igual? Além disso, em todo esse tempo entre os 40 do mundo, Bellucci não fez uma temporada inteira jogando consistentemente bem do início ao fim do ano (lembremos das muitas "chances perdidas", eternizadas por sua antiga assessoria de imprensa). Logo, dá para entender por que o paulista não vê com bons olhos mudanças em seu tênis.

E agora?

Tudo indica que 2019 será um ano decisivo para Bellucci. O grande desafio é encontrar um caminho para voltar a ser competitivo no nível que o ex-número 1 do Brasil se acostumou a ser, mesmo que seja de seu jeito, "apenas" melhorando as armas que já possui em seu tênis. Caso não consiga, será o momento de avaliar o quanto vale a pena e, principalmente, o quanto Bellucci realmente quer seguir no circuito. Para quem passou tanto tempo na primeira divisão do tênis mundial e com chance de título em várias semanas, não é fácil batalhar por tanto tempo na segundona.

Coisas que eu acho que acho:

– Será que o sucesso veio cedo demais para Bellucci? Não leiam isso como uma crítica, mas como uma ponderação. Tivesse demorado mais para chegar ao top 30, talvez Bellucci tivesse sentido lá atrás a necessidade de encorpar seu jogo com recursos além do ótimo saque e do belo forehand. Como subiu rápido, acredita até hoje que não vale a pena mudar seu jogo. Será que teria sido diferente?

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.