Saque e Voleio

O doping e a defesa de sucesso de Bellucci

Alexandre Cossenza

04/01/2018 19h06

Thomaz Bellucci foi flagrado em um exame antidoping realizado no dia 18 de julho, durante o ATP de Bastad, na Suécia, e foi suspenso do circuito mundial por cinco meses. O ex-número 1 do Brasil, atual #112 do ranking mundial, fez a revelação nesta quinta-feira, depois de mais de três meses de silêncio sobre o caso e desculpas de sua equipe para justificar a demora a voltar ao circuito.

A substância proibida encontrada em seu exame foi a hidroclorotiazida, que faz parte da categoria S5 (diuréticos e agentes mascarantes) da lista da Wada, a Agência Mundial Antidoping. Bellucci soube do resultado em setembro, logo que desembarcou na China, onde jogaria em Shenzhen, Pequim e Xangai. Na época, para justificar a ausência nos eventos, o tenista disse que ainda não estava recuperado da lesão parcial em um tendão do pé – a mesma que o deixou fora da Copa Davis.

Com a punição, Bellucci também vai perder 90 pontos no ranking (conquistados em Bastad) e terá de devolver € 8.595, prêmio somado em simples e duplas. A Federação Internacional de Tênis (ITF), que julgou o caso, manteve as premiações e pontos que o brasileiro conquistou depois de Bastad, nos torneios de Gstaad, Kitzbuhel e US Open. Isso aconteceu porque a entidade aceitou a alegação de que o consumo foi não intencional e não houve melhora de performance – foi, afinal, uma das piores temporadas da carreira do paulista de Tietê.

A defesa apresentada por Bellucci alegou contaminação cruzada em um multivitamínico. A equipe do brasileiro enviou frascos do multivitamínico (alguns abertos, segundo o relatório da ITF, e um lacrado, segundo a assessoria do tenista) para análise em um laboratório nos EUA e até mesmo ao laboratório de Montreal, Canadá, credenciado pela Wada. Segundo a assessoria de imprensa do tenista, ambos comprovaram a contaminação em diversos frascos. Bellucci também se submeteu a exames de urina e cabelo fora do Brasil para provar que não usou nenhuma substância proibida para melhora de performance ou drogas sociais. Os resultados foram negativos e aceitos pela ITF.

“Fiquei muito chocado com tudo isso que aconteceu, e tomarei todas as medidas judiciais contra a farmácia de manipulação e responsáveis por este erro que prejudicou minha carreira, além de denunciá-los aos órgãos competentes. Além do meu caso, muitos atletas correm o risco de serem prejudicados por erros e falhas regulatórias semelhantes. Mas não deixei de cuidar do meu físico. Perdi meses importantes para mim no circuito e agora é bola pra frente. Já estou indo para os Estados Unidos para treinar e não vejo a hora de voltar a competir,” diz Bellucci no comunicado enviado hoje.

O paulista vai morar na Flórida, usando como base de treinos a IMG Academy e com André Sá como treinador. A intenção é tentar tirar o máximo na reta final da carreira. Bellucci completou 30 anos no último dia 30 de dezembro. A suspensão, que começou a contar em 1º de setembro, termina no dia 31 de janeiro, e o brasileiro fará seu retorno ao circuito no ATP 250 de Quito.

Coisas que eu acho que acho:

– Não há muito a comentar aqui, a não ser analisar o nível das desculpas oferecidas pelo time de Bellucci ao longo dos últimos meses. Primeiro, a lesão que “voltou” em Shenzhen, depois de Bellucci se sentir bem o bastante para viajar dos EUA até a China. Não fazia sentido que alguém com o status de Bellucci, que não nada em dinheiro e estava nos EUA acompanhado pelo fisioterapeuta Cassiano Costa, fosse fazer uma viagem dessas sem estar em condições. Além disso, depois de viajar, chegou lá e “descobriu” que não estaria recuperado nem para Pequim e Xangai? Pegou mal. Hoje, Bellucci admitiu que recebeu o aviso na China e que ainda não estava confiante para voltar, então “foram as duas coisas ao mesmo tempo.”

– Nos últimos dias, depois da retirada do nome de Bellucci do Challenger de Playford e do Australian Open, seu empresário, Márcio Torres, afirmou que o tenista estava bem recuperado, mas que “preferiu ficar no Brasil para começar a temporada no saibro.” Quem, em sã consciência e sem lesão deixa passar a chance de jogar um slam? Seria mais lógico – e honesto – dizer que o tenista enfrentava problemas pessoais e falaria mais tarde sobre o assunto. Se a ideia era evitar especulações, falhou feio.

– Como bem apontou Rubens Lisboa, ex-assessor da CBT, há casos de contaminação, mas “é grande a quantidade de tenistas brasileiros flagrados nos últimos 5 anos”.

– Coincidência ou não – e isso vale não apenas para brasileiros – as defesas que alegam contaminação, quase sempre por farmácias de manipulação, costumam ter sucesso e render suspensões pequenas aos atletas. Essa lista inclui o incrível caso de Sara Errani, suspensa por apenas dois meses porque a substância proibida fazia parte de um medicamento contra câncer que sua mãe tomava e que pode, acidentalmente, ter caído no tortellini que a filha comeu no jantar feito por dona Fulvia.

– Importante ressaltar: embora veículos de imprensa estrangeiros estejam noticiando assim, Bellucci não recebeu nem uma suspensão silenciosa nem uma suspensão provisória. Ele poderia até ter continuado no circuito enquanto seus advogados cuidavam do assunto junto à ITF. A sentença saiu no dia 31 de dezembro e determinou uma punição retroativa até o dia 1º de setembro.

– Volto a escrever amanhã, abordando como Bellucci gerenciou sua carreira nos últimos anos e que tipo de consequência isso trouxe.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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