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Categoria : Serena Williams

AO, dia 13: Serena, Venus e uma celebração de sucesso em família
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Alexandre Cossenza

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Foi mais do que uma final de Grand Slam, até porque a partida não foi tão especial nem equilibrada assim. Mas foi um evento, uma cerimônia, uma celebração de duas carreiras fantásticas na mesma família. Foi o especial retorno de Venus Williams a uma decisão, mas também foi o 23º Slam de Serena, a irmã mais nova, a maior vencedora de Slams da Era Aberta – e agora de forma isolada.

Neste sábado, a Rod Laver Arena foi um palco para Venus reverenciar a irmã pelo #23, mas também pela carreira.

A quadra central do Australian Open também foi cenário de um emocionado discurso de Serena, reverenciou igualmente a irmã, dizendo que não teria sequer vencido um Slam sem ela – muito menos 23. “Ela é minha inspiração, o único motivo pelo qual estou aqui hoje e pelo qual as irmãs Williams existem.”

Sobre a partida, levou algum tempo para que Serena se impusesse. Foram quatro quebras de saque nos quatro primeiros games. Daí em diante, Venus não teve mais nenhuma chance de quebra. A número 2 do mundo quebrou no sétimo game, tanto no primeiro quanto no segundo set. O placar final mostrou 6/4 e 6/4.

De volta ao topo + top 10

Com o título Serena volta a ocupar a liderança do ranking da WTA. Ela sai de Melbourne com 7.780 pontos, contra 7.115 de Angelique Kerber, campeã do Australian Open no ano passado e que começou a semana como #1.

O top 10 a partir de segunda-feira terá, além das duas, Karolina Pliskova como #3, no melhor ranking de sua carreira, seguida de Simona Halep, Dominika Cibulkova, Agnieszka Radwanska, Garbiñe Muguruza, Svetlana Kuznetsova, Madison Keys e Johanna Konta. Venus aparece na 11ª posição, logo à frente de Petra Kvitova.

O lugar na história

A conversa sobre quem é/foi a melhor tenista de todos os tempos volta à tona sempre que Serena vence um Slam. Não é diferente desta vez. Em números, ela fica atrás apenas da australiana Margaret Court, que ganhou 24 torneios desse nível de 1960 até 1973.

Serena também é a maior campeã do Australian Open (sete troféus) e tem o maior número de vitórias (316) em Slams na Era Aberta – a partir de 1968.

Aos 35 anos, ela é ainda a mais velha a vencer um Slam na Era Aberta, a mais velha a chegar ao topo do ranking, e a dona do maior número (dez) de títulos de Slam na Era Aberta conquistados após completar 30 anos.

Além disso, a americana também é quem mais ganhou dinheiro em prêmios na carreira, com US$ 85,4 milhões, deixando muito longe atrás a segunda colocada – Maria Sharapova, com US$ 36,8 milhões.

O presente do #23

Michael Jordan, o #23 mais famoso do mundo e quase nunca contestado como o maior jogador de basquete da história, enviou, via ESPN, um presente especial.

Os campeões

Na chave de duplas masculinas, não foi desta vez que Bob e Mike Bryan voltaram a levantar um troféu de Slam. Os gêmeos americanos foram derrotados por Henri Kontinen e John Peers por 7/5 e 7/5.

Finlandês e australiano, aliás, nunca perderam para os Bryans. O jogo deste sábado marcou sua terceira vitória em três duelos. Em grande fase, Kontinen e Peers agora somam 16 vitórias nos últimos 17 jogos.

Os Bryans, que disputaram sua 30ª final de Slam, tentavam igualar o recorde do australiano John Newcombe, que conquistou 17 títulos de Slam nas duplas. Por enquanto, os americanos seguem empatados com Roy Emerson e Todd Woodbrigde, com 16 troféus.

P.S. Por causa de uma série de compromissos neste sábado, este post saiu mais curto do que eu desejava. Também estava nos planos um texto de prévia sobre a final masculina, mas a falta de tempo não me deixou fazer. Agradeço a compreensão. Volto depois de Federer x Nadal.


Serena não precisa de Cingapura. E Cingapura, precisa de Serena?
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Alexandre Cossenza

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Serena Williams anunciou nesta segunda-feira que não estará no WTA Finals, em Cingapura. Trata-se mais de uma confirmação do que de uma novidade. A ex-número 1 também não disputou o evento e nenhum torneio depois do US Open no ano passado. É um baque, óbvio, mas a ausência de Serena é bem menos sentida do que já foi no circuito feminino.

A quem quiser acreditar, Serena disse no vídeo acima estar muito chateada por não poder competir e que ainda tem que tratar uma lesão no ombro. Pode ser apenas uma mera coincidência que ela não possa jogar justamente na época em que o circuito está na Ásia, do outro lado do planeta. De qualquer modo, soa como forçação de barra quando a ex-número 1 diz que teve um ano muito duro depois de participar de apenas oito torneios.

De qualquer modo, hoje em dia Serena já pode ser vista como um agradável bônus quando aparece para jogar. É claro que a WTA sofrerá um baque no mercado americano quando as irmãs Williams deixarem de competir, mas há dois pontos importantes. Primeiro, o tênis não é mais centrado na “America” como foi na década de 80. Fora Madison Keys, o WTA Finals só terá atletas europeias. O foco do tênis está lá hoje em dia.

Além disso, a USTA vem fazendo um trabalho tão competente que eventualmente alguma outra americana – além de Keys – aparecerá para brigar pela ponta do ranking. Isso, cedo ou tarde, vai ajudar a “vender” eventos nos Estados Unidos.

É bem possível que daqui a alguns anos olhemos para 2016 como o ano da transição. Depois do quase Grand Slam de fato de Serena em 2015, a americana jogou pouco, perdeu duas finais de Slam e deixou a liderança do ranking. Ela mesma “votou” em Kerber como melhor atleta do ano (vide tweet acima)…

A impressão que fica, pelo menos para mim, é que a WTA caminha com um circuito forte e equilibrado sem Serena, mas com Kerber, Radwanska, Halep, Kvitova, Wozniacki, e outras – lembremos que Azarenka e Sharapova voltarão. Todo esporte sente falta de ídolos, e a americana foi uma das maiores da história (para alguns, a maior). O circuito feminino, porém, já tirou esse peso das costas de Serena. E vamos em frente.


Wimbledon, dia 12: Serena, ainda (duplamente) rainha
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Alexandre Cossenza

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Demorou três torneios a mais do que todo mundo esperava, mas Serena Williams conquistou finalmente seu 22º troféu em um evento do Grand Slam. Em uma atuação maiúscula, a número 1 do mundo bateu uma feroz e competente Angelique Kerber por 7/5 e 6/3 e manteve seu reinado em Wimbledon.

Para seu técnico, Patrick Mouratoglou, Serena voltou a se comportar como número 1. O treinador havia afirmado que a americana vinha jogando como uma tenista da elite, mas não como a melhor do mundo. “Estou falando de atitude, de capacidade de mudar partidas quando ela está em apuros, todas essas coisas que ela faz muito bem”, disse antes da final.

Após a partida, Serena concordou, embora não tenha precisado mudar muito durante a final contra Kerber. Aliás, a número 1 disparou 13 aces e venceu fazendo o que faz de melhor: atacando antes e ganhando os pontos curtos. Não fosse assim, seria complicado num dia em que a alemã sacou bem e ganhou incríveis 68% dos pontos com o segundo serviço (Serena teve 39% no mesmo quesito).

Kerber, é bom dizer, levou a melhor na maioria das vezes em que os pontos se alongaram ou tiveram golpes angulados. A alemã venceu mais ralis médios (cinco a oito golpes) e longos (nove ou mais golpes). Nesses dois quesitos, somou seis pontos a mais que a número 1. Por outro lado, a americana, que se mostrou mais incomodada com o vento na Quadra Central, ganhou 18 (!!!) pontos a mais nas disputas com quatro ou menos golpes.

Foi assim, aliás, que Serena abafou a única ameaça do confronto. Aconteceu no sétimo game do segundo set, com o placar equilibrado em 3/3. Kerber chegou a seu primeiro break point na partida. Serena disparou um ace e, dois pontos depois, confirmou o saque. Oito pontos mais tarde, quebrou Kerber. Mais quatro – três saques nem voltaram -, e o título estava garantido.

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Com 22 títulos em Slams, Serena iguala a marca de Steffi Graf. À frente de ambas, apenas a australiana Margaret Court, com 24. Há quem acredite que a americana precisa ultrapassar Court para ser, indiscutivelmente, a maior tenista da história. Por outro lado, há quem já considere Serena a melhor de todas. E, claro, há gente como eu, que achas impossível comparar de forma 100% justa atletas de gerações tão diferentes (Court ganhou seus títulos nas décadas de 60 e 70).

De qualquer modo, não foi o único número fora-de-série alcançado pela número 1 do mundo neste sábado. Pouco depois de derrotar Kerber e dar todas suas entrevistas, Serena voltou à Quadra Central para a final de duplas. Ela e Venus derrotaram Timea Babos e Yaroslava Shvedova por 7/5 e 6/3, conquistando seu 14º troféu atuando juntas. Elas nunca perderam uma final de Slam nas duplas.

O ranking

Serena Williams manteve seus pontos, mas aumentou sua vantagem na liderança do ranking. Isso acontece porque Garbiñe Muguruza, que começou o torneio como número 2 do mundo, perdeu mais de mil pontos. A nova #2 será Kerber, com 6.500 pontos (1.830 a menos que Serena).

O top 10 agora fica nesta ordem: Serena, Kerber, Muguruza, Radwanska, Halep, Azarenka, Venus, Vinci, Suárez Navarro e Kuznetsova. A ressaltar também a subida de Elena Vesnina, que subiu 25 posições e será a #21, e a queda de Maria Sharapova, que será a #96, cinco postos atrás de Teliana Pereira.

A montagem

Após acompanhar Serena Williams por duas semanas, nada melhor do que encerrar o período vendo a espetacular montagem da BBC, com a número 1 do mundo recitando o poema “Still I Rise”, da escritora negra americana Maya Angelou.


Wimbledon, dia 10: Serena Williams, devastadora até fora de quadra
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Alexandre Cossenza

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Sabe aquele dia que nada dá errado? Foi assim a quinta-feira de Serena Williams. Primeiro com a vitória maiúscula sobre Elena Vesnina (#50) por 6/2 e 6/0, em apenas 48 minutos. Quase impossível apontar a “chave” do triunfo, visto que a americana foi superior em tudo. Fez 11 aces, com 77% de aproveitamento de primeiro serviço (e 23 de 24 pontos ganhos com o fundamento), acumulou 28 winners e cometeu apenas sete erros não forçados.

Não foi uma apresentação ruim de Vesnina. A russa só não tinha armas para combater a número 1 e fazer um jogo minimamente disputado em um dia assim, quando tudo funciona para a melhor tenista do mundo. Classificada para a final, Serena perdeu apenas um set, aplicou três pneus e não foi ameaçada de verdade em nenhuma ocasião. Nem quando perdeu a primeira parcial para Christina McHale num tie-break.

A parte copo-meio-vazio da campanha é que a americana não enfrentou nenhuma adversária que tivesse armas para derrotá-la. Ok, é bem verdade que Serena é mais Serena na grama, mas não houve alguém com golpes potentes ou com grande poder de contra-ataque em seu caminho até agora. É nesse grupos que se encaixam Angelique Kerber e Garbiñe Muguruza, algozes da número 1 nas duas finais de Slam em 2016.

E é justamente aí que entra a outra finalista de Wimbledon deste ano: Angelique Kerber (#4), que ainda não perdeu sets e bateu Venus Williams (#8) nesta quinta-feira, em uma semifinal que não empolgou, um pouco pelo nível técnico que deixou a desejar, um pouco pela falta de equilíbrio. A alemã venceu por 6/4 e 6/4 e esteve na frente o tempo inteiro, inclusive no primeiro set, que teve sete quebras de serviço em dez games. Sua movimentação foi boa o bastante para compensar a fragilidade no saque e lidar com os ataques de Venus.

Kerber não perdeu sets até agora e, mesmo levando em conta sua vitória sobre Serena no Australian Open, está longe de ser favorita para ganhar o jogão de sábado. Primeiro porque o saque de Serena, em condições normais, deve fazer mais diferença do que na Austrália, mas também porque a grama dá menos tempo para Kerber alcançar os golpes da número 1 e contra-atacar com eficiência. E, sinceramente, vai ser difícil ver Serena jogando tão mal junto à rede como naquela final em Melbourne. Nada é impossível, já diz o bom e velho clichê, mas bater Serena em Wimbledon exige uma conspiração nada provável de fatores.

Prioridades

O primeiro tweet de Serena após a partida não foi sobre seu jogo, sua atuação nem nada relacionado ao tênis. A número 1 do mundo usou sua rede social para lembrar do cidadão negro americano que foi morto por um policial após ser parado em uma blitz. “Quando algo vai ser feito de verdade?”, perguntou Serena.

Leia mais sobre a história aqui.

Precisa com as palavras

Na entrevista coletiva, Serena Williams continuou disparando winners. Quando questionada sobre ser “uma das maiores atletas femininas de todos os tempos”, a número 1 respondeu que prefere a expressão “maiores atletas de todos os tempos”, retirando a questão de gênero (homem/mulher) da frase.

Serena também falou mais uma vez sobre a questão de igualdade de salários (ou prêmios, no caso do tênis), basicamente enfatizando a necessidade de respeito pelas mulheres e ressaltando que nenhuma pessoa, qualquer que seja o emprego, merece receber menos por causa de seu sexo.

Triunfo também nas duplas

Mais tarde, Serena e Venus voltaram à quadra para as quartas de final de duplas e, mais uma vez, Elena Vesnina foi vítima. A russa e sua compatriota Ekaterina Makarova ainda conseguiram tirar um set das americanas, mas as irmãs venceram e avançaram por 7/6(1), 4/6 e 6/2.

As irmãs Williams vão enfrentar Julia Georges e Karolina Pliskova em uma das semifinais. A outra vaga na decisão sairá do jogo entre Timea Babos / Yaroslava Shvedova e Raquel Atawo / Abigail Spears.

Só a realeza

Serena Williams brilhou tanto nesta quinta-feira que até conseguiu que a Duquesa de Cambridge (ex-Kate Middleton, lembram?) fizesse uma aparição no Snapchat!

Lendl, o sorridente

Ivan Lendl fez parte do grupo que conversou com a Duquesa e não dá para fazer um comentário que não seja “o sorriso do Lendl!”. Pois é, ele existe.


Serena Williams: quando devemos nos preocupar?
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Alexandre Cossenza

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Serena Williams em 2015: campeã do Australian Open, semifinalista em Indian Wells (abandonou antes de jogar a semi) e vencedora do WTA de Miami.
Serena Williams em 2016: vice-campeã em Melbourne, derrotada por Angelique Kerber na decisão, vice também em Indian Wells, superada por Victoria Azarenka, e eliminada nas oitavas de final em Miami por Svetlana Kuznetsova.

Sim, são só três torneios, há muito pela frente na temporada. É cedo para julgar a multicampeã e certamente soa injusto usar como parâmetro justamente a melhor temporada da carreira de Serena Williams. É perfeitamente normal que a número 1 do mundo tenha um 2016 inferior. Ela, inclusive, já igualou seu número de derrotas de 2015 (três!). Mas não é uma questão só de resultados, embora seja o pior início de ano da americana desde 2012, quando ainda voltava ao circuito após uma embolia pulmonar.

Longe de querer soar apocalíptico, há alguns indícios de que o mundo pode estar vendo o início do fim de Serena-como-a-conhecemos, ou seja, Serena 2013-15. Não que haja algo errado ou que alguém precise ser fuzilado publicamente por isso, mas vale analisar com atenção alguns momentos de Serena-2016:

A idade

Não que seja o mais decisivo dos fatores no caso de Serena, mas cedo ou tarde até os grandes sentem os efeitos do tempo. Pete Sampras sempre disse que perdeu a regularidade. Que treinava da mesma forma, mas não conseguia ter a mesma precisão dentro de quadra. Era espetacular num dia, pavoroso (para seus padrões) em outro.

Para a americana, ainda deve haver uma preocupação com lesões, como a que incomodou durante o US Open do ano passado. Especialmente porque Serena não é a tenista mais leve do circuito. Não compro a teoria de que ela esteja acima de seu peso normal (a foto desta quarta, postada por ela no Instagram, “concorda” comigo), mas é difícil imaginar uma atleta como ela ganhando tanto há tanto tempo e não sentindo o desgaste acumulado.

O desgaste do Grand Slam

Só Serena sabe o quão extenuante foi a última temporada. O enorme número de jogos, a incessante pressão para vencer todos eles, a expectativa e a proximidade do Grand Slam de fato… Tudo isso vai somando e esgota a pessoa. Mal comparando, é como o cidadão que colocava todas suas energias em um vestibular e ficava perto, mas não conseguia a aprovação e recebia o resultado pensando “nunca mais passo por isso.”

É preciso um tempo para absorver tudo que aconteceu, deixar a cabeça descansar e só depois pensar na vida e no que fazer. Cada pessoa tem um tempo diferente e vai tomar decisões diferentes. Pode ser que ela ainda esteja contemplando tudo isso e o que fazer daqui em diante. Talvez Serena não tenha mais a disposição para se cobrar os resultados dos últimos três anos. Seja o que for, com o currículo que tem (e mesmo que não tivesse!), pode tomar qualquer decisão e encarar o circuito da maneira que achar melhor – sem olhar para trás.

Taticamente, Serena não tem sido a mais paciente das tenistas. Foi assim tanto na final do Australian Open quanto na decisão em Indian Wells. Enquanto Kerber e Azarenka se defendiam, a americana atacava com certa afobação, às vezes abusando da potência e correndo riscos desnecessários em bolas pouco colocadas. Se isso é reflexo do desgaste ou simplesmente planos de jogo mal executados, é impossível dizer de longe.

O comportamento nas premiações

Tanto em Melbourne quanto na Califórnia, Serena foi extremamente graciosa. Distribuiu sorrisos, elogiou Kerber e Azarenka ao extremo, saiu de quadra quase feliz. Parecia até pouco incomodada com os resultados. Não vejo nada de necessariamente errado na postura, mas assisti às duas cerimônias um pouco espantado. A Serena campeã que eu conheci lá atrás não reagia bem a derrotas em ocasiões tão importantes.

Claro que a maturidade veio, mas as duas finais me deixaram imaginando se a atual número 1 deixou para no passado um pouco daquele instinto assassino ou se realmente assumiu o cargo não oficial de embaixadora do tênis feminino, mostrando o quanto a modalidade é forte e, suas tenistas, muito capazes. Ou ambos, já que uma postura não exclui a outra.

O que esperar, então?

Como escrevi lá no alto do post, ainda é o início da temporada e não convém tirar conclusões definitivas sobre os resultados ou o comportamento de Serena em 2016. O Grand-Slam-que-não-foi de 2015 ainda pesa? O instinto assassino acabou? Serena está se poupando para os Jogos Olímpicos e um calendário congestionado no segundo semestre? A temporada de saibro, que começa agora, costuma ser um bom termômetro para medir as pretensões e a dedicação da americana. Vale ficar de olho, prestar atenção nos sinais e, principalmente, aproveitar Serena Williams. Depois da exaustão de 2015, sabe-se lá até quando continuará jogando no nível que é só dela.

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Sete jogos para Serena (US Open: o guia da chave feminina)
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Alexandre Cossenza

Faltam sete jogos para um dos feitos mais espetaculares do esporte – não só do tênis. Campeã do Australian Open, de Roland Garros e de Wimbledon, Serena Williams está a sete vitórias de completar o Grand Slam de fato, o chamado calendar-year Grand Slam. Algo tão raro que muitos gigantes do tênis encerraram suas carreiras sem esse feito. Entre as mulheres, a última foi Steffi Graf, em 1988. Entre os homens, ninguém fecha o Grand Slam desde Rod Laver, em 1969. Logo, a chave feminina do US Open tem uma favorita e um tema óbvios: Serena Williams e a maior sequência de sua carreira.

Com isso em mente, chega o momento de analisar o tamanho do favoritismo da número 1 do mundo e que obstáculos podem aparecer em seu caminho até o título. Quem são as maiores ameaças à americana? Que fatores podem pesar contra Serena? Pressão? Ansiedade? Como ela lidará com isso tudo?

Obviamente, o US Open não tem só Serena. Quem corre por fora na corrida até o troféu? Quem pode surpreender? Quais serão os melhores jogos nas primeiras rodadas? O que esperar das próximas duas semanas de tênis? Este guiazão da chave feminina oferecer respostas para tudo isso. Leia abaixo e não deixe ouvir o podcast Quadra 18, que vai ao ar em breve!

Tiremos o óbvio do caminho logo de cara: Serena Williams é favoritíssima. E talvez seja ainda mais favorita do que em Melbourne, Paris e Londres. Não por acaso, venceu os últimos quatro Slams. Não por acaso, o resto do circuito parece endeusar a americana em declarações e até dentro de quadra, quando a coisa aperta. A “mística” definitivamente joga a favor da número 1 do mundo aqui.

Mas se tanta coisa joga a favor, o que joga contra? O sorteio das chaves é um exemplo. Serena pode ter um caminho bem trabalhoso em Nova York. A começar por um duelo chatinho com Sloane Stephens/Coco Vandeweghe na terceira rodada. E outro com Madison Keys/Aga Radwanska nas oitavas. E mais um com Belinda Bencic (sua algoz em Toronto) nas quartas. Sejamos sinceros, Serena poderia ter encontrado um caminho bem menos turbulento.

Outra casca de banana para a número 1 do mundo é a atenção enorme que vem recebendo da imprensa mundial. Sim, quem já ganhou 21 Slams (só em simples) deve estar acostumada com um certo nível de atenção, mas desta vez há número ainda ainda maior de holofotes em Serena. A possibilidade de fechar o Grand Slam um dos motivos. Fazê-lo em Nova York, em casa, deixa tudo mais “quente”. Com uma chave não tão simples, a margem para erro diminui. Será preciso concentração total para não perder o objetivo de vista.

As chances de Serena também aumentam à medida em que rivais que poderiam ameaçá-la seriamente não chegam a Flushing Meadows na melhor das formas. É o caso de Victoria Azarenka, ex-número 1 do mundo que faz uma temporada de recuperação e vem subindo aos poucos no ranking.

A bielorrussa é a cabeça de chave 20 do US Open e só enfrentaria na final, mas sua preparação não foi a ideal. Em Toronto, derrotou Petra Kvitova e parecia pronta para deslanchar, mas teve uma atuação desastrosa (mais de 50 erros não forçados em dois sets) e caiu diante de Sara Errani na sequência.

Para piorar, teve de abandonar o WTA de Cincinnati por causa de dores na perna esquerda. Logo, seu ritmo não pode ser o melhor possível. Seu primeiro bom teste deve vir na terceira rodada, contra Angelique Kerber. A partida, caso aconteça mesmo, deve deixar o cenário mais claro quanto às chances de quem avançar.

Outro nome com talento e recursos suficientes para derrotar Serena é o da tcheca Petra Kvitova, que decidiu encarar – com liberação médica – a série de torneios na América do Norte mesmo enfrentando uma mononucleose. A doença dá uma dose adicional de imprevisibilidade a uma tenista que não é a mais estável do planeta.

A #5 do mundo passou em branco em Toronto (perdeu para Azarenka) e Cincinnati (Caroline Garcia), mas mostrou sinais de recuperação em New Haven, onde disputa a final neste sábado contra Lucie Safarova. É um bom sinal para quem tem uma chave bem acessível até as oitavas, quando pode ter de encarar Muguruza ou Petkovic. Se passar daí, o resto da chave deve ficar em alerta.

O panorama não é tão diferente assim para Maria Sharapova. A russa, que tem uma lesão na perna direita, não disputa uma partida oficial desde Wimbledon. Era até de se imaginar que a ex-número 1 iria até Nova York só para divulgar seus produtos e marcas – como fez na Bloomingdale’s com seus Sugarpovas e na campanha da Nike, que escalou uma seleção de craques para bater bola em uma das ruas da Big Apple.

Sharapova, contudo, decidiu encarar o torneio mesmo sem ritmo. Para piorar, sua estreia é um tanto perigosa. Vale lembrar que a mesma Daria Gavrilova que enfrentará na primeira rodada do US Open a eliminou do WTA de Miami, no começo do ano. O “copo metade cheio” para a russa é que sua seção da chave não é das piores até as oitavas. E, mesmo assim, a principal cabeça de chave para ser sua adversária nas quartas é Ana Ivanovic.

Em condições normais, Sharapova seria barbada para atropelar até a semifinal (que seria contra Serena), mas no momento atual a expectativa sobre sua campanha vem acompanhada de um grande ponto de interrogação.

Nenhuma análise ficaria completa sem citar Simona Halep e Caroline Wozniacki, que encabeçam a metade de baixo da chave (em outras palavras, a parte que define a provável adversária de Serena na decisão). A romena, #2 do mundo, parece ter reencontrado seu tênis depois de uma temporada europeia abaixo das expectativas. Finalista em Toronto e Cincinnati, Halep pode fazer uma ótima partida de quartas de final contra Vika – se a bielorrussa chegar lá.

Wozniacki, por sua vez, aproveitou o pós-Wimbledon para se fazer mais conhecida nos Estados Unidos – e nos mercados americanos. Fez anúncios de chocolate, fez o arremesso inicial em um jogo de beisebol e ainda cavou uma vaga de “editora sênior” no Players’ Tribune. Ganhar jogo que é bom… nada! Foram três derrotas em estreias (Stanford, Toronto e Cincy) antes de encerrar a seca em New Haven. Será o suficiente para fazer um bom US Open? Talvez sim. Três rodadas contra Loeb, Cetkovska/McHale e Pennetta/Niculescu podem dar o ritmo que a dinamarquesa precisa para embalar. Mas se Kvitova chegar às quartas, a tcheca será favorita para avançar.

A brasileira

Como já virou costume, o Brasil entra em um Grand Slam com Teliana Pereira como única representante. O sorteio não foi muito generoso com a pernambucana. Estrear em um torneio de quadra dura (onde Teliana ainda tem muito a evoluir) contra Ekaterina Makarova é tarefa ingrata. A russa é bastante favorita.

Bia Haddad, lesionada, nem tentou o qualifying. Gabriela Cé bem que arriscou a ida até Flushing Meadows, mas venceu apenas sete games e foi eliminada na primeira rodada pela chinesa Zhaoxuan Yang.

Os melhores jogos nos primeiros dias

De cara, Ivanovic x Cibulkova promete ser um jogão. A eslovaca ficou quatro meses sem jogar, despencou para fora do top 50 (é a #58 hoje) e ficou “solta” na chave. Ainda lhe falta ritmo, mas seu estilo de jogo, colocando todas bolas em jogo, não é o preferido de Ivanovic. Pode ser interessante.

Outros jogos com bom potencial de primeira rodada são Kuznetsova x Mladenovic, Pennetta x Gajdosova e Petkovic x Garcia. E ainda vale aguardar por Lisicki x Giorgi, Azarenka x Schiavone, e Bencic x Hantchova que podem acontecer na segunda rodada. Ah, sim: Agnieszka e Urszula farão a quinta edição do Radwanska Classic se passarem por seus desafios de estreia.

A tenista mais perigosa que ninguém está olhando

Dois nomes me chamam atenção: o primeiro é o da sérvia Jelena Jankovic. Nem tanto pela fase atual da ex-número 1 do mundo, que não é nada fantástica, apesar de uma respeitável semifinal em Cincy. Entretanto, a chave de JJ em Nova York é um tanto imprevisível. Naquele bolo estão Carla Suárez Navarro, número 10 do mundo que vem de seis derrotas consecutivas, Ana Ivanovic, que nunca foi modelo de regularidade, e Eugenie Bouchard, que… Vocês sabem, né? Ivanovic ainda é a favorita do quadrante, mas uma visita de Jankovic às quartas (e, quem sabe, à semi) não parece tão improvável assim, viu?

A outra tenista perigosa e pouco badalada é Lucie Safarova, número 6 do mundo. A tcheca perdeu na estreia em Toronto e decepcionou ao perder de Svitolina nas quartas de Cincinnati, mas está na final em New Haven. Com a confiança em alta, pode muito bem avançar além daquele duelo de oitavas de final com quem avançar do quadrante de Azarenka e Kerber.

Quem pode (ou não) surpreender

Não dá mais para chamar Belinda Bencic, #12, de zebra. A suíça de 18 anos, vem de uma incrível campanha em Toronto, onde derrubou, nesta ordem, Bouchard, Wozniacki, Lisicki, Ivanovic, Serena e Halep. Ninguém imagina que Bencic repita a façanha e elimine Serena também no US Open, até porque todo mundo sabe como a americana atua contra quem perdeu recentemente. Ao mesmo tempo, não parece exagero considerar que a suíça é quem tem mais chances de derrubar a favorita antes da final. Será?

Minha lista de surpresas em potencial também tem Eugenie Bouchard e Laura Robson. A canadense porque… Bem, na fase atual, qualquer vitória é uma surpresa. Mesmo que não pareça lá muito provável que Genie passe por Ivanovic na terceira rodada.

Quanto à britânica, número 1 do mundo na época de juvenil e campeã de Wimbledon aos 14 anos, uma lesão no punho esquerdo fez um estrago e tanto em sua carreira. Laura Robson fez só dois jogos oficiais em 2014 e mais meia dúzia em 2015 – venceu só uma vez. Não é justo esperar vitória contra Elena Vesnina no US Open, mas se a inglesa vencer, será um momento muito feliz para uma jovem talentosa e que, aos 21 anos, ainda pode alcançar muita coisa.

Nas casas de apostas

O tamanho do favoritismo de Serena Williams é refletido nas casas de apostas. Enquanto, por exemplo, um título de Djokovic, o mais cotado na chave masculina, paga 2,10 para cada “dinheiro” apostado, uma conquista de Serena paga apenas 1,83 na casa virtual bet365. O segundo nome na lista é o de Victoria Azarenka, que vem muito atrás (9,00). O top 10 ainda tem Halep (11,00), Belinda Bencic (19,00), Maria Sharapova (21,00), Petra Kvitova (23,00), Agnieszka Radwanska (34,00), Caroline Wozniacki (34,00), Garbiñe Muguruza (34,00) e Angelique Kerber (41,00). Teliana Pereira está entre as maiores zebras (1001,00).

Na casa australiana Sportsbet, o cenário não é muito diferente, mas Sharapova e Wozniacki estão mais bem cotadas. O top 10 lá é formado por Serena (1,83), Vika (9,00), Halep (11,00), Sharapova (17,00), Wozniacki (23,00), Bencic (23,00), Muguruza (26,00), Kvitova (26,00), Kerber (34,00) e Radwanska (34,00).


McEnroe, Trump e a idiotice humana
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Alexandre Cossenza

John McEnroe foi um tenista fantástico. Foi número 1 do mundo, ganhou 17 Grand Slams (sete em simples) e venceu jogos memoráveis. O americano, hoje com 56 anos, também é um grande comentarista. Acompanha o circuito, tem uma ótima leitura de jogo e, na maior parte do tempo, mostra ótimo timing em suas análises. Só que nem o mais laureado dos currículos isenta seu dono de falar grandes bobagens. McEnroe é prova disso. O exemplo mais recente veio nesta semana. Em entrevista a Jimmy Kimmel, disse que conseguiria derrotar Serena Williams em uma partida séria. Veja a partir da marca de 2’00” do vídeo.

Difícil entender a motivação de uma pessoa que já realizou tanta coisa para fazer esse tipo de comentário, menosprezando uma das maiores tenistas de todos os tempos e incluindo uma dose considerável de machismo quando Kimmel lhe perguntou por que esse confronto nunca aconteceu.

“Quinze anos atrás, Donald Trump fez uma oferta, que eu achei que não era suficiente. E Serena tem muito a perder se for derrotada por um velho como eu. E eu tenho muito a perder porque se for derrotado por – deus me livre – uma mulher, não vou poder entrar num vestiário masculino pelos próximos 15 anos, possivelmente até o fim da minha vida.”

A parte nada surpreendente da história é o envolvimento de Donald Trump, um bilionário candidato à presidência dos Estados Unidos que tem tanta competência para fazer dinheiro quanto para vomitar um discurso por vezes racista e sempre preconceituoso em relação a imigrantes mexicanos – em nome de uma suposta crítica ao reinado do politicamente correto.

Coisas que eu acho que acho:

– No início do vídeo, McEnroe também diz que as duplas “contam menos” do que as simples porque são uma “versão mais lenta” do tênis em comparação com as simples e porque os duplistas não são tenistas tão bons quanto os simplistas. Existe uma parcela de verdade no que diz o ex-número 1, mas também parece existir uma dose de recalque (a palavra preferida das redes sociais) que nasceu junto com a enorme ascensão de Bob e Mike Bryan como parceria de mais sucesso na história.

– Diminuir o valor das duplas hoje soa como uma tentativa de reduzir os feitos dos gêmeos. O mesmo McEnroe (que tem 78 títulos em duplas) já afirmou, inclusive, que nem reconhece mais o jogo de duplas hoje em dia.


Wimbledon, dia 12: Serena reina absoluta e um “avada kedavra” de Jo Rowling
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Alexandre Cossenza

Este texto não vai tentar explicar por que Serena é tão melhor que o resto do mundo. Esse debate ficou para trás há pelo menos uns oito Slams. A vitória por 6/4 e 6/4 sobre Garbiñe Muguruza, a 28ª seguida de Serena Williams nos quatro maiores torneios do circuito, foi só mais uma evidência disso. Hoje em dia, a número 1 do mundo reina sozinha. Seus números são comparáveis apenas com as maiores da história. Aliás, antes de falar sobre o jogo, comecemos por eles:

O Serena Slam

É a segunda vez na carreira que a americana conquista o chamado “Serena Slam”, ganhando os quatro Slams de forma consecutiva, mas não todos na mesma temporada. Até hoje, só Steffi Graf tinha vencido os quatro Slams de forma consecutiva duas vezes. Além de seu calendar-year Grand Slam em 1988, a alemã venceu RG, Wimbledon e o US Open em 1993 e o Australian Open em 1994.

Faltam sete

Serena agora tem a chance de completar o Grand Slam de fato, também chamado de calendar-year Grand Slam (vencer os quatro torneios na mesma temporada). Na história, só três tenistas conseguiram isso: Maureen Connolly (1953), Margaret Smith (1970) e Steffi Graf (1988). Faltam sete vitórias.

Melhor e mais velha

Com 33 anos e 289 dias, Serena é a campeã de Grand Slam mais velha da Era Aberta (Navratilova foi campeã de Wimbledon em 1990 com 33 anos e 263 dias). A americana, aliás, é quem mais venceu Slams depois dos 30. Já são oito triunfos, contando Wimbledon. Juntando todas as outras seis tenistas que conseguiram vencer depois dos 30, são 13 troféus. Margaret Court e Martina Navratilova, com três cada, eram as maiores vencedoras de “Era pré-Serena”.

Melhor nas finais

Wimbledon marcou 21º título de Grand Slam para Serena Williams. O impressionante é que ela venceu tudo isso jogando “só” 25 finais. É o segundo melhor aproveitamento da Era Aberta. Só perde para Margaret Court, que somou 11-1 (91,7%). Em toda a carreira, contudo, o aproveitamento de Court foi de 82,7% (24v e 5d). Serena, hoje, tem 84%.

Faltam três

Serena tem 21 títulos de Grand Slam. Na Era Aberta, apenas Steffi Graf (22) tem mais. Em toda a história, a maior campeã ainda é Margaret Court, com 24.

As sequências

O recorde de mais títulos de Grand Slam consecutivos é dividido por Margaret Court e Martina Navratilova: 6. Court venceu do US Open de 1969 até o Australian Open de 1971, enquanto Navratilova começou sua sequência em Wimbledon/83 e foi até o US Open/84. A maior sequência de vitórias de Serena em torneios desse porte veio no embalo do primeiro Serena Slam, em 2002-03. Foram 33 triunfos, com a série sendo interrompida em Roland Garros/2003.

O jogo

Não seria justo não citar a bravura e a competência da jovem Garbiñe Muguruza, 21 anos, em sua primeira final de Grand Slam. Quando Serena abriu a partida cometendo três duplas faltas no game inicial, a espanhola aproveitou as chances e tomou a dianteira. Mais do que isso: quando a #1 se encontrou e conquistou dois break points, Muguruza jogou quatro pontos perfeitos em sequência, confirmou o saque e abriu 4/2.

A reação de Serena foi exatamente o que o nome diz: uma reação de Serena. Não foi um deslize, uma tremedeira ou uma amarelada da espanhola. Muguruza seguiu jogando bem, mas encontrou outro nível da americana, que atropelou, vencendo quatro games seguidos e fechando a parcial: 6/4.

Era difícil imaginar uma reação da espanhola a essa altura. Além do tênis superior da favorita, as estatísticas jogavam seriamente contra Muguruza. Em Wimbledon, Serena tinha um retrospecto de 69 vitórias e duas derrotas após vencer os sets iniciais (agora são 70v e 2d).

Não houve mais dúvida sobre quem ficaria com o troféu. Houve, sim, uma incerteza sobre quando o jogo acabaria. Depois que abriu 5/1 no segundo set, talvez por ansiedade, talvez por sei lá que outro motivo que acometa pessoas de outro planeta, Serena começou a errar. Perdeu o serviço no sétimo game e foi quebrada outra vez no nono. De repente, Muguruza, que continuava lutando bravamente, tinha a oportunidade de igualar a parcial.

A espanhola, então, viveu um momento “mortal”. Foi seu único game realmente ruim na partida. Em quatro pontos, Serena quebrou e fechou o jogo. Depois de permitir que a rival encostasse e de ver o estádio acordar e fazer barulho, a americana ficou tão surpresa com a rapidez do último game que precisou de alguns instantes para ouvir o árbitro e perceber que a final estava mesmo encerrada.

Quase tão indelével quanto o nome de Serena Williams na história no tênis será a memória da cena de Garbiñe Muguruza sendo aplaudida de pé por toda a Quadra Central após a partida – por cerca de um minuto e meio! Até a rival, sorridente, ergueu-se do banco (ou trono?) para bater palmas. A espanhola não segurou as lágrimas. Nem deveria. Chegou a uma final de Wimbledon com 21 anos e portou-se como veterana.

A huge ovation for the runner-up Garbine Muguruza on Centre Court. Who thinks she'll win #Wimbledon one day? https://bit.ly/W15Gabine

Posted by Wimbledon on Saturday, July 11, 2015

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Depois de passar as últimas duas semanas sem mencionar o Serena Slam, a número 1 do mundo pôde enfim comemorar o feito: 28 vitórias e quatro títulos consecutivos em torneios do Grand Slam. Enquanto isso, Andy Roddick, comentarista na cabine da BBC, avisava a todos que sua compatriota já estava pensando no US Open, onde poderá completar o Grand Slam de fato. Quando soube do comentário, Serena respondeu no Twitter, como sempre trollando o amigo: “Andy, você está 20 minutos atrasado.”

Avada kedavra

J.K. Rowling, autora da série de livros de Harry Potter, usou o Twitter para festejar Serena Williams e acabou colocando no lugar um desses idiotas anônimos e sem rosto que gostam de rebater pessoas famosas. Pouco depois de a escritora inglesa falar sobre como Serena era “que atleta, que exemplo, que mulher!”, o bobão respondeu “irônico que a principal razão para seu sucesso seja ter o corpo como o de um homem.” Rowling rebateu com uma foto de Serena em um vestido vermelho com a resposta: “É, meu marido fica igualzinho em um vestido. Você é um idiota.”


O drama de Serena (e o nosso também)
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Alexandre Cossenza

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A bola veio perto do T, e Serena Williams estava bem colocada para soltar a direita e mandar a amarelinha longe do alcance da adversária. A americana logo abaixou a cabeça, suspirou, virou-se de costas para a rede e caminhou lentamente de volta para o fundo de quadra. Era só o terceiro ponto da semifinal de Roland Garros contra a suíça Timea Bacsinszky, mas a postura da número 1 do mundo daria o tom do drama vivido na Quadra Philippe Chatrier durante quase duas horas.

Serena entrou em quadra gripada. Desde antes, já havia relatos no Twitter de que a americana havia interrompido seu aquecimento por causa de uma crise de tosse. Independentemente da intensidade do problema físico, ficou claro desde o começo que havia algo errado. Bacsinszky, número 24 do mundo e presença surpreendente na semi, aproveitou. Jogando um tênis agressivo, inteligente e contando com pitadas de sorte aqui e ali, abriu 6/4 e 3/2. Com uma quebra de saque à frente e uma oponente combalida do outro lado, a suíça parecia muito perto da final.

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Só que, assim, de repente, o jogo mudou. Serena forçou dois erros de Bacsinszky, quebrou a adversária com um winner de backhand. Não, a americana não começou a saltitar serelepe e alcançar todas as bolas. Sua expressão exausta entre os pontos pouco mudou. Mas vieram dois aces no game seguinte, um par de erros forçados da suíça (que parou de conseguir winners), e o jogo mudou em 180 graus. Mesmo com cara de quem não aguentaria muito tempo em quadra (a mesma cara do começo do jogo, ressalte-se), a número 1 do mundo venceu dez games seguidos e fechou o jogo em 4/6, 6/3 e 6/0.

Serena tossiu ao conceder entrevista para Pioline ainda na Chatrier, deixou a quadra rapidinho e não apareceu para a entrevista coletiva. Foi cuidar da saúde, já que ganhou sobrevida no torneio e voltará para a final no sábado. Enquanto tudo isso acontecia, muita gente ficou se imaginando se (alguns, afirmando que) Serena Williams exagerou no drama e na demonstração pública de seu problema físico.

Ora, Serena sempre teve um pé na dramaturgia e um gosto pelos holofotes. Fosse nos tempos do combo barriga de fora + saia jeans, ou mais tarde, ameaçando enfiar uma bolinha de tênis goela abaixo de uma juíza de linha, ou gritando “I’m an American” para a torcida nova-iorquina ouvir durante uma discussão com uma árbitra. Há um bocado de exemplos e em uma carreira de mais de dez anos.

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Especificamente sobre o jogo desta quinta-feira, tive a impressão que Serena buscava poupar energia entre os pontos. Por isso, o caminhar lento as comemorações discretas mesmo depois de pontos importantes. Mas era só uma impressão. Não estou em Roland Garros, não vi seu treino de aquecimento e, principalmente, não sou médico. Logo, não serei leviano a ponto de apontar dedos e dizer que a americana estava fingindo ou exagerando.

Igualmente, seria leviano acusá-la de fazer cena para desconcentrar Bacsinszky. Até porque, como já apontei acima, Serena comportou-se da mesma maneira do início ao fim do jogo. Quando estava um set e uma quebra atrás, tudo bem. Durante e após a virada, já havia quem dissesse que tudo foi uma estratégia para atrapalhar a rival. Não entendo a lógica. Considerando (repito!) que a número 1 não começou a correr loucamente de um minuto para o outro, é como se alguém pudesse passar mal e perder, mas cometesse um crime logo que passasse à frente no placar.

Ao mesmo tempo em que Serena vivia seu drama e os fãs dramatizavam fora de quadra, vale apontar que Bacsinszky não seu um sinal sequer de incômodo com a suposta catimba da americana. Ao fim do jogo (vide tuíte acima), disse jamais ter pensado que Serena fez algo de propósito para desestabilizá-la. Afirmou também que qualquer um pode estar doente num jogo de tênis e que Serena mereceu vencer “porque encontrou soluções contra uma pequena menina suíça que fez seu melhor e jogou seu melhor tênis para incomodá-la.” Simples assim.

A final será contra Lucie Safarova, uma estreante em finais de Slam. A tcheca, número 13 do mundo, se classificou ao derrubar Ana Ivanovic por 7/5 e 7/5. Foi um jogo bastante tático, com Safarova tentando estabelecer a dinâmica Nadal-Federer: uma canhota buscando o frágil backhand da adversária, que tem um forehand muito melhor. A sérvia segurou bem a onda e sacou para o primeiro set, mas não conseguiu confirmar e perdeu as rédeas do jogo.

Teria sido um triunfo mais confortável da tcheca se a partida não tivesse tomado um rumo estranho (e divertido) no fim do segundo set, com as duas atletas nervosas e cometendo seguidos erros. Ivanovic, que já vinha de uma chave bastante acessível, teve todas chances do mundo para vencer nesta quinta. Não conseguiu e vai ver Safarova encarar na final uma Serena Williams que não deve estar com 100% de sua saúde. Será uma decisão interessante.


Melhor em tudo
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Alexandre Cossenza

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São 19 títulos de Grand Slam e 19 troféus a mais do qualquer outra tenista em atividade (65 no total). Serena Williams, 33 anos e possivelmente na melhor forma de sua carreira, sobra desse jeito no circuito mundial atualmente. Ao derrotar Maria Sharapova por 6/3 e 7/6(5) neste sábado, a americana completou mais duas semanas brilhantes. Perdeu apenas dois sets (para Svitolina e Muguruza) e foi impecável nas fases decisivas.

Não foi a chave mais desafiadora do mundo para Serena, é bom lembrar. Mas também é preciso ressaltar que o título veio com (mais) uma vitória sobre a número 2 do mundo, Maria Sharapova. E não foi uma atuação ruim da russa, não. Sharapova esteve muito bem do começo ao fim da partida. Atacou o quanto pôde, salvou match point com coragem e só não venceu porque Serena é consistentemente melhor do que ela.

Com o triunfo do sábado, já são 16 vitórias seguidas (17 a 2 no histórico de confrontos) da americana. Há algumas pequenas explicações para esse abismo entre duas tenistas tão vencedoras. A mais simples dela é que Serena é uma tenista mais completa do que Sharapova. Só que o mundo do tênis já viu tenistas mais completos perderem com mais frequência de rivais com menos recursos.

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O melhor exemplo é a rivalidade entre Roger Federer e Rafael Nadal. O suíço sempre teve mais recursos, mas o espanhol, desde muito antes de alcançar o topo do ranking, já somava vitórias sobre o então número 1 do mundo. Fazia uma diferença muito grande Nadal ter um golpe (seu forehand cruzado com spin) que incomodava Federer em seu ponto menos forte (o backhand). Quando o espanhol conseguia encaixar uma sequência de bolas cruzadas, levava enorme vantagem.

A diferença é que Sharapova tem muitas qualidades, mas nenhuma delas é capaz de lhe dar vantagem contra Serena. Ela saca muito bem, mas a americana tem uma devolução fantástica; consegue ótimas devoluções, mas não o bastante para os espetaculares serviços de Serena; e ataca com potência do fundo de quadra, mas a número 1 é ainda melhor lá de trás. Sharapova até melhorou muito sua movimentação lateral e sua capacidade defensiva, mas Serena ainda costuma levar vantagem quando os pontos entram na correria.

E aí acabam os recursos da atual vice-líder do ranking. Sharapova não tem um slice afiado, não dá curtinhas com a consistência necessária e não é tão eficiente quando sobe à rede. Seu estilo de jogo preferido é também o preferido da maior rival, que é um pouco melhor em todos fundamentos. Não tem saída a não ser fazer uma partida espetacular e torcer para um dia ruim de Serena – combinação que não acontece desde 2004. Por enquanto, Serena é melhor em tudo.


O número 1 em jogo
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Alexandre Cossenza

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Assunto não falta no circuito feminino. Desde o triunfo da come-quieta Simona Halep, número 3 do mundo, em Shenzhen (em uma chave fraca, é verdade), passando pelo 46º título da carreira de Venus Williams, que bateu Caroline Wozniacki na final de Auckland, até Maria Sharapova, que venceu uma ótima final de três sets contra Ana Ivanovic em Brisbane e se aproximou de Serena Williams na disputa pelo posto de número 1 do mundo.

E este promete ser “o” tema das próximas semanas. A russa disputará o Australian Open de olho no topo do ranking. A matemática não é tão simples, mas também não é tão difícil de explicar. Com os 470 pontos conquistados em Brisbane, Sharapova reduziu para 681 pontos a vantagem de Serena. No entanto, por causa de uma mudança de calendário, a russa perderá os 185 do WTA de Paris do ano passado junto com o fim do Australian Open deste ano. Logo, na prática, a diferença entre as duas será de 866 pontos.

Como as duas tenistas defendem oitavas de final (240 pontos) em Melbourne, a russa assumirá a liderança em um dos dois cenários seguintes:

– Se Sharapova for campeã do Australian Open e Serena não chegar na final
– Se Sharapova for vice-campeã e Serena não passar das quartas de final

A uma semana do torneio, que começa no dia 19, não convém fazer previsões. O que fica claro é que Sharapova abre bem a temporada. Teve suas oscilações diante de Ivanovic, é verdade, mas passeou pela chave antes disso, perdendo apenas nove games em três jogos (contra Shvedova, Suárez Navarro e Svitolina).

Serena, por sua vez, não mostrou muito na Copa Hopman. Precisou de um cafezinho para acordar e derrotar Flavia Pennetta e, depois, virou um jogo quase perdido contra Lucie Safarova, que sacou duas vezes para a partida. Em suas outras duas aparições na competição, sofreu uma derrota doída para Eugenie Bouchard (6/2 e 6/1) e outra diante de Agnieszka Radwanska (6/4, 6/7 e 6/1).

Como escrevi no alto do post, é cedo para fazer previsões – e mais cedo ainda para crer, ingenuamente, que Serena Williams vai chegar a Melbourne jogando o mesmo tênis que mostrou em Perth. Mas, por conta da americana, os primeiros dias do Australian Open prometem ser um pouco mais interessantes do que de costume.

Coisas que eu acho que acho:

– A casa de apostas bet365 colocou assim as tenistas mais cotadas ao título do torneio: Serena Williams (2/1 – dois dólares para cada um apostado), Maria Sharapova (11/2), Simona Halep (7/1), Victoria Azarenka (10/1), Petra Kvitova (10/1), Caroline Wozniacki (10/1), Eugenie Bouchard (11/1), Agnieszka Radwanska (20/1), Ana Ivanovic (33/1) e Angelique Kerber (40/1).

– Sobre a lista acima, é curioso ver Vika tão bem cotada. A bielorrussa, bicampeã do torneio (2012 e 2013), não vence uma partida oficial desde setembro do ano passado e não será cabeça de chave em Melbourne.


O típico e atípico título de Serena Williams
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Alexandre Cossenza

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Não foi a temporada dos sonhos de Serena Williams. Longe disso. Tudo bem que a americana conquistou seus títulos nos WTAs, que não foram poucos (Brisbane, Miami, Roma, Stanford e Cincinnati). Mas ela perdeu nas oitavas no Australian Open, na segunda rodada em Roland Garros e na terceira em Wimbledon. Para os padrões de Serena Williams, já era um ano abaixo das expectativas.

Veio, então, o US Open – o último Grand Slam do ano, em casa. Enfim, uma atuação padrão Serena. Foram 14 sets disputados e 14 vencidos. A número 1 do mundo não perdeu mais do que três games por set. E, ainda que tenha encontrado um caminho fácil (não encarou nenhuma top 10), foi absoluta na decisão contra Caroline Wozniacki, uma ex-número 1 que voltava a jogar um bom tênis, apesar de figurar no 11º posto no começo do torneio nova-iorquino.

Quando chegou a Cingapura, novo palco do recém-renomeado WTA Finals (sim, a WTA precisou copiar a ATP porque Championships, com o “s” no fim, era difícil de explicar e de fazer “pegar”), Serena ainda corria o risco de perder a liderança do ranking. O cenário se descomplicou quando Maria Sharapova perdeu seus dois primeiros jogos na fase de grupos, mas não ficou tão agradável assim quando a americana levou um doído 6/0 e 6/2 da romena Simona Halep. Uma atuação abaixo da crítica, reforçada pela solidez da adversária.

No fim das contas, o WTA não deixou de ser um reflexo do resto de 2014 para Serena Williams. Irreconhecível num dia, foi cirúrgica no outro, quando fez 6/1 e 6/1 sobre Eugenie Bouchard. Ainda assim, precisou da ajuda de Halep, que tirou um set de Ana Ivanovic e pôs a número 1 nas semifinais, armando o melhor jogo do torneio: Serena x Wozniacki. A dinamarquesa, invicta até então, fazia um belíssimo torneio e esteve perto, muito perto, de triunfar.

Primeiro, Caroline Wozniacki sacou para o jogo com 5/4 no terceiro set. Mais tarde, abriu 4/1 no tie-break. Sacou os dois pontos, mas perdeu ambos. Nos dois, Serena mandou bolas que tocaram na fita. A número 1 venceu o tie-break por 8/6 e, na final, atropelou Halep: 6/3 e 6/0. Um final típico para uma tenista que, se não foi dominante e consistente como em outros anos, ainda é, em um dia normal, a melhor tenista do mundo. Com folgas.

Coisas que eu acho que acho:

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– Doeu ver Caroline Wozniacki não conseguindo aproveitar a rara chance que teve de derrotar Serena. Esteve tão perto, faltou tão pouco… Principalmente em uma belíssima semana da dinamarquesa, que vinha de vitórias sobre Sharapova (que jogo!), Kvitova e Radwanska. Se serve de consolo, foi ótimo vê-la apresentar um nível de tênis que ela é capaz de repetir com frequência.

– Sempre repito: não é um estilo bonito, não é agressivo, não chama atenção, mas o tênis de Wozniacki, acima de tudo, é inteligente. Citei isso no Twitter no dia do jogo e reforço agora. Quem viu a partida contra Sharapova pôde constatar como a dinamarquesa, além de se defender maravilhosa e irritantemente bem, induz a adversária a sempre executar os golpes mais difíceis. A russa precisaria jogar um tênis espetacular para vencer. Não aconteceu.

 


Incontestável
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Alexandre Cossenza

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O lance aconteceu mais ou menos no meio do segundo set, quando Serena Williams já possuía um set e uma quebra de vantagem. O ponto foi longo, mas a americana mal saiu do meio da quadra. Sem fazer muita força, fez Caroline Wozniacki correr da direita para a esquerda e para a direita de novo em uma sequência estupenda. O ponto, que durou mais de 20 rebatidas, foi vencido por Serena. E, olhando seus golpes um por um, ninguém vai rever a jogada e apontar um forehand ou backhand fantástico. Sim, Serena Williams é assim, tão superior às suas contemporâneas de WTA.

Tão superior que o placar da final, um rotineiro 6/3 e 6/3, foi o que deu mais trabalho à número 1 do mundo. Do início do torneio até a final, Serena jamais perdeu quatro ou mais games em um set. O máximo que permitiu foram outros dois duplos 6/3: contra Varvara Lepchenko, na terceira rodada, e conta Kaia Kanep, logo na fase seguinte. E nada mais do que isto.

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Serena Williams chega aos 18 títulos de Grand Slam tão soberana quanto há anos atrás. Talvez mais dominante ainda. Com Victoria Azarenka tentando encontrar um bom tênis, Na Li ausente, Petra Kvitova e Maria Sharapova fazendo compras e sendo inconsistentes, a atual líder do ranking é favorita em todos torneios que disputará. O “padrão” parece estar muito mais perto do US Open, onde não perdeu um set, do que as campanhas de Serena nos outros Grand Slams de 2014.

Hoje, é mais fácil e interessante como exercício imaginar onde Serena estaria no ranking de melhores tenistas de todos os tempos. Não acho que faça diferença. É difícil e quase sempre injusto comparar atletas de gerações distintas. Outros adversários, outra tecnologia, outros pisos. Não dá mesmo para colocar Suzanne Lenglen, Steffi Graf, Chris Evert e Serena na mesma página. O que parece fácil, por enquanto, é afirmar que a americana é a melhor tenista do mundo. E de sua geração inteira. E da geração atual. E, possivelmente, da próxima geração. E quem ousa dizer que não?


Parceiras à noite, rivais de dia
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Alexandre Cossenza

Dia de divulgação de chave de Grand Slam é sempre divertido. Em alguns minutos, o parceiro de treino de ontem torna-se o adversário de amanhã. Em alguns casos, acontece até com o companheiro de balada! Vejam o caso de Serena Williams em Roland Garros. Ontem, a americana estava tirando selfies e sendo tuitada pela francesa Alizé Lim durante a festa das jogadoras. E vejam só: as duas vão se enfrentar na primeira rodada do torneio francês!

E quer saber a reação da francesa ao ver a chave? Vejam mais no Twitter dela.

Mas o caminho de Serena Williams rumo ao bicampeonato de Roland Garros não tem só esse curioso embate com a jovem francesa. A número 1 do mundo pode precisar enfrentar a perigosa espanhola Garbine Muguruza na segunda rodada; sua irmã, Venus, na terceira; Sabine Lisicki, sua algoz em Wimbledon (embora eu duvide muito que a alemã vá ganhar três jogos em Paris), nas oitavas; e Maria Sharapova nas quartas de final. Seria um desafio e tanto para a atual campeã.

A outra metade da chave, encabeçada por Na Li e Simona Halep, parece mais amigável, embora mais parelha, com Sara Errani, sempre perigosa no saibro, ali no meio, como cabeça 10. O mesmo vale para Ana Ivanovic, cabeça 11, agrupada junto à instável Petra Kvitova, cabeça 5. Na terra batida, não é nenhum absurdo esperar que a sérvia, campeã do torneio em 2008, avance até pelo menos as quartas.

Teliana Pereira, que disputa a chave principal de Roland Garros pela primeira vez, se deu bem no sorteio. Estreia contra a tailandesa Luksika Kumkhum e, se vencer, pode encarar a romena Sorana Cirstea, cabeça de chave 26. Vale lembrar que a brasileira derrotou Cirstea este ano, no WTA de Charleston.

Aos que vão acompanhar atentamente as duas semanas mais interessantes do saibro em 2014, ainda pretendo escrever um post com curiosidades e números. Até lá, deixo aqui links para a chave feminina, a programação de jogos do dia e, claro,o site oficial de Roland Garros. Divirtam-se.


Um recomeço para Ivanovic, o começo do fim para Serena?
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Alexandre Cossenza

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Antes que qualquer análise tática ou técnica seja feita, é preciso que se diga: desde os primeiros games, Serena Williams adotou uma postura estranha. Vibrou pouco, movimentou-se mal e errou mais do que de costume em bolas nada difíceis. Após a partida, seu técnico, Patrick Mouratoglou, esclareceu a questão e revelou que a número 1 do mundo sofreu uma lesão nas costas enquanto treinava alguns dias atrás – antes mesmo do confronto com Daniela Hantuchova, na terceira rodada.

Enquanto isso, Ana Ivanovic, que não tinha nada a ver com a história e nem sabia da lesão da adversária, deu sequência a seu belo torneio. Atacou os saques de Serena como se a americana fosse uma top 50 qualquer, comandou os pontos com os forehands e sustentou-se até em trocas de backhand, golpe que Serena vinha tendo bastante dificuldade para executar.

E talvez seja até injusto dizer, como fiz, que Ivanovic “deu sequência a um belo torneio”. A sérvia fez mais do que isso. Além de dominar o jogo do fundo de quadra, a ex-líder do ranking segurou a onda lindamente com seu serviço. Não houve duplas faltas em break points, saques empurrados na hora de sacar para o jogo, nada! Ivanovic foi senhora da partida durante a maior parte do tempo – até mesmo no primeiro set, quando chegou a possuir uma quebra de vantagem.

Além de vencer e conquistar uma vaga nas quartas de final do Australian Open, Ivanovic tem à disposição uma chave, como dizem no meio do tênis, “aberta”. A sérvia será favorita contra sua próxima oponente, a canadense Eugenie Bouchard, cabeça  30. Se avançar mais uma vez, fará a semifinal contra a chinesa Na Li ou a italiana Flavia Pennetta.

E, hoje, tudo parece possível para Ana Ivanovic.

Ivanovic_AO_4r_col_blog2

Coisas que eu acho que acho:

– Como muito bem colocado pelo colega Mário Sérgio Cruz, “a mulher foi número 1 do mundo, campeã de Slam, mas essa foi a maior vitória da carreira”. Somando as atuações em Melbourne com o título em Auckland, o momento de Ivanovic tem cara de um recomeço na carreira – na posição de candidata a títulos importantes, claro. Desde que deixou a ponta do ranking, em 2008, a sérvia terminou todas temporadas no top 30, mas não levantava um troféu relevante desde 2010. Trocou de técnicos inúmeras vezes, perdeu muitos quilos e, ainda assim, faltava algo. Hoje, parece finalmente à vontade com um estilo de jogo que funciona, sem falar na renovada devolução de saque que vem fazendo estrago.

Serena_AO_4r_coletiva_get_blog– Ao mesmo tempo, é de se imaginar até quando Serena Williams manterá o a soberania no tênis feminino. O revés diante de Ivanovic não é uma catástrofe, a lesão não é grave (segundo Mouratoglou), e o efeito no ranking será mínimo (Serena defendia quartas de final). Ainda assim, é mais uma lesão em um Slam. Sim, aconteceu o mesmo em Melbourne no ano passado, e Serena dominou o resto do calendário, só que a número 1 do mundo já tem 32 anos e, cedo ou tarde, chega a hora em que o corpo começa a sofrer com mais frequência. Será o começo do fim?

– Na coletiva, Serena tentou evitar falar da lesão, mas Mouratoglou já havia aberto o jogo com a imprensa. Ainda assim, a americana admitiu que sentia dores, mas deu todo crédito possível para a adversária. Postura de número 1, legal de ver.