Saque e Voleio

Categoria : Rafael Nadal

AO, dia 14: choremos juntos com Roger Federer
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Alexandre Cossenza

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“Acho que o começo do ano, especialmente o verão australiano, vai ser épico.” Foi assim que Roger Federer falou sobre suas expectativas para janeiro de 2017. Profético. Oracular. E o suíço nem falava sobre o que tinha guardado para mostrar em Melbourne. Exigiria outro nível de adjetivos. Mas este texto vai chegar lá.

Talvez ele mesmo não soubesse. Estava, afinal, há seis meses sem competir, sem a certeza de como o corpo de 35 anos reagiria e incapaz de imaginar o que a chave reservaria ao cabeça 17. Pois foi ele próprio o protagonista de quase tudo “épico” nas últimas duas semanas. Bateu Berdych, Nishikori, Wawrinka e guardou o melhor para este domingo. Contra o retrospecto, contra o maior rival, e em cinco sets: 6/4, 3/6, 6/1, 3/6 e 6/3, em 3h37min de partida.

Foi o 18º Slam, um feito gigante por conta própria, mas foi “O Retorno do Rei”, “Tempo de Glória”, “Coração Valente”, “A Máquina do Tempo” e “Uma Nova Esperança”, uma coleção de épicos, tudo ao mesmo tempo (e desde já candidato ao Laureus de “Retorno do Ano”). Foi, em momentos, plástico. Em outros, corajoso. Quase sempre gracioso. Quando necessário, fulminante. Sempre insinuante. E, no fim, no pódio, ao lado de Rafael Nadal e Rod Laver, majestoso.

Foi a consagração de um atleta-milionário-e-pai-de-família-bem-sucedido que, aos 34 anos, escolheu lutar contra uma lesão e continuar correndo de um lado para o outro contra pessoas às vezes 15 anos mais jovens. Foi a recompensa pelo trabalho árduo que Federer insiste em fazer quando não há câmeras ligadas. Foi o momento maior de uma carreira cheia de momentos maiores. E que terminou com Roger Federer de joelhos e às lágrimas em uma quadra em plena reverência. Que compreendamos o momento. Que choremos juntos com Roger Federer.

O xadrez até o troféu

Sobre a final, o plano de Federer esteve sempre claro. Atacar primeiro para evitar o desgaste e encurtar pontos, o que reduziria a chance de Nadal adquirir um bom ritmo do fundo de quadra. Quanto mais longos os ralis, maior a chance de o espanhol ficar à vontade no jogo.

O plano era simples. Afinal, era o mesmo de sempre. Executar é que sempre foi o problema. Exige precisão em um nível muito acima do normal. Federesco, eu diria. Mas a precisão apareceu nos momentos mais essenciais. Nos três aces para salvar break points no primeiro game do terceiro set, no bate-pronto de forehand do fundo de quadra que ajudou a quebrar Nadal na sequência ou no outro bate-pronto espetacular, que veio no oitavo game do quinto set – o game da última quebra.

É claro que a quadra, mais rápida do que em anos anteriores, ajudou. Obviamente, a longa semifinal de Nadal também teve seu peso. Só que também ajudou a devolução de backhand, sempre empurrando Nadal para o fundo. Foi, talvez, a grande mudança do suíço em relação à maioria dos duelos anteriores. Federer trocou o retorno de slice/bloqueado por um mais agressiva.

O jogo de xadrez que atormentou boa parte da carreira do suíço também teve uma execução fundamental. O backhand do fundo de quadra. Mesmo quando não conseguia definir pontos rapidamente, Federer tinha sucesso com a esquerda. Às vezes, matando na paralela, às vezes angulando a cruzada e tirando Nadal da zona de conforto. E sempre perto da linha, tirando o tempo do espanhol. De novo: o plano não foi inovador; a execução é que foi gloriosa.

E o forehand… Bem, o forehand foi uma fábrica de melhores momentos. Paralelas, cruzadas, de dentro para fora, de dentro para dentro, com break point a favor ou contra. E foi o Federer Forehand, talvez o golpe mais perfeito do tênis, que decidiu o duelo deste domingo. Primeiro, com uma bola indefensável no 30/40 do último game. Depois, no segundo match point, com uma cruzada que beliscou a linha. Tão preciso que Nadal pediu replay, permitindo que o mundo visse a perfeição de novo, em câmera lenta e definição 4K. Como o tênis de Federer merece.

O bravo rival

Nadal teve muitos méritos. Com o suíço em um nível tão alto e pressionando com tanta intensidade, é admirável que o espanhol tenha levado até o quinto set. Lutou, esperou chances e fez o que dava. Até saiu na frente no quinto set e salvou cinco break points antes de ceder a virada.

Difícil dizer o que faltou para o espanhol neste domingo. Saque? Talvez. Mas é injusto condenar alguém que colocou em jogo 85% dos primeiros serviços no quinto set. Poderia ter acelerado e arriscado mais? Certamente. Mas ficaria vulnerável à devolução do adversário, que estava num dia “daqueles”.

O resumo é que Nadal jogou pressionado a maior parte das 3h37min de jogo. Até para um gigante como ele, é difícil resistir por tanto tempo.

O ranking

Após o Australian Open, Federer volta ao top 10 e passa a ocupar o décimo posto, com 3.260 pontos. Nadal, que teria subido para quarto com o título do Australian Open, fica em sexto. A lista dos dez fica nesta ordem:

1. Andy Murray – 11.540 pontos
2. Novak Djokovic – 9.825
3. Stan Wawrinka – 5.695
4. Milos Raonic – 4.930
5. Kei Nishikori – 4.830
6. Rafael Nadal – 4.385
7. Marin Cilic – 3.560
8. Dominic Thiem – 3.505
9. Gael Monfils – 3.445
10. Roger Federer – 3.260


AO, dia 6: a vez do Nadal ‘vintage’
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Alexandre Cossenza

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A edição 2017 do Australian Open está definitivamente sendo saborosa para os apreciadores dos maiores vencedores de Slams em atividade. Menos de 24 horas depois de uma atuação clássica de Roger Federer, foi a vez de Rafael Nadal conquistar uma vitória enorme de um jeito que ninguém fez melhor nos últimos tempos. Com luta, em cinco sets, em 4h06min de jogo e terminando com um adversário esgotado e com cãibras do outro lado da rede.

Lembrou o melhor Nadal, aquele das vitórias sobre Verdasco e Federer no mesmo Australian Open em 2009, do triunfo sobre Djokovic em Roland Garros 2013 (ou Madri/2009), de tantas e tantas vitórias que exigiram tanto da tática e da técnica quanto de algo extra: a força mental, altíssima ao longo de todo jogo, e a preparação física. Alexander Zverev, 19 anos e dono de um tênis (quase) completo (falta ir à rede), foi um adversário notável, mas que não conseguiu se equiparar durante o tempo necessário e acabou como vítima de um majestoso triunfo por 4/6, 6/3, 6/7(5), 6/3 e 6/2.

Resumir o Nadal de hoje – ou o melhor Nadal ou qualquer Nadal – à figura de um gladiador, ainda que tentador, é burrice. O próprio Rafa cedeu momentaneamente quando entrevistado por Jim Courier após o jogo. Ao explicar ao ex-tenista como venceu o jogo, começou com uma resposta curta: “Lutando.” Ganhou aplausos e sorrisos, mas continuou a resposta fazendo uma enorme análise tática. Sim, Nadal nem havia saído da quadra e tinha o jogo inteiro na cabeça. Se você leitor, acha que é fácil, sugiro prestar mais atenção nas tantas respostas rasas das entrevistas pós-jogo de outros aletas.

Talvez não exista ilustração melhor sobre este Nadal inteligente do que a partida deste sábado na Rod Laver Arena (RLA). Porque o Nadal de hoje é agressivo, gosta de e precisa jogar mais no ataque, mas os saques e golpes de fundo de Zverev assustam. No primeiro set, bastou uma quebra – no primeiro game – para que o alemão saísse na frente. A potência fazia diferença.

Rafa, o cabeça 9, fez ajustes. Passou a usar slices, variou o peso de bola e usou todo tipo de saque em seu arsenal. Mexeu com a cabeça de Zverev, conseguiu uma quebra e equilibrou as ações. O espanhol ainda levava vantagem tática na terceira parcial, mas o adolescente tinha o saque para igualar o duelo. No tie-break, agrediu mais e levou.

Nesse momento, tudo jogava contra. Os 30 anos de idade, o histórico recente de três derrotas seguidas em jogos com cinco sets e até as duas vitórias de Zverev em seus últimos jogos de cinco sets. Nadal passou a devolver o saque lá do fundão e teve resultado. Enquanto o alemão ainda vibrava com o tie-break vencido, Nadal abria 3/0 na parcial. Nesse momento, chegando perto das 3h de jogo, o espanhol parecia mais inteiro, mais senhor do jogo.

O golpe final ainda estava por vir. Nadal quebrou primeiro no quinto set, mas perdeu o serviço pouco depois. Veio, então, o decisivo quinto game. Sim, o quinto. Zverev teve 40/15 e uma bola fácil em sua direita para matar o ponto e fechar o game. Jogou na rede. Com o game em iguais, os tenistas disputaram um espetacular rali de 37 golpes. O alemão ganhou o ponto. O espanhol ganhou o jogo. Ali, ao término do ponto interminável, o adolescente sentiu cãibras.

Nadal castigou. Colocou para correr, deu curtinhas, lobs, ganhou mais ralis. Zverev até que lutou contra o corpo. Foi bravo até o último ponto, tentando o que lhe restava. Nada adiantou. Não ganhou mais um game. O ex-número 1 comemorou e disse que, até pelas derrotas recentes em três sets, foi um dia muito especial. Para ele e para todos. Um clássico. Vintage Rafa.

O adversário

Nas oitavas de final, Nadal vai enfrentar Gael Monfils (#6), que precisou só de três sets para despachar Philipp Kohlschreiber: 6/3, 7/6(1) e 6/4. O último jogo entre eles teve dois sets de altíssimo nível. Foi na final do Masters 1.000 de Monte Carlo de 2016, quando Rafa fez 7/5, 5/7 e 6/0. No total, o retrospecto de confrontos diretos é amplamente favorável ao #9: são 12 vitórias dele contra duas de Monfils.

A favorita

Depois de duas rodadas complicadas contra Bencic e Safarova, Serena Williams encarou uma adversária de menos nome e aproveitou. A compatriota Nicole Gibbs, #92, conseguiu fazer apenas quatro games. A número 2 do mundo completou a vitória por 6/1 e 6/3 em apenas 1h03min, mesmo com números nada estelares: quatro aces, quatro duplas falas, 17 winners e 26 erros não forçados.

A próxima oponente da #2 será a perigosa Barbora Strycova, cabeça 16. A tcheca passou por Kulichkova, Petkovic e Garcia sem perder um set sequer e será um desafio interessante para Serena. Strycova tem golpes para mudar a velocidade do jogo e exigir um pouco mais de movimentação da americana, mas será o bastante para anular a potência da ex-número 1?

Outros candidatos

Na Margaret Court Arena (MCA), Johanna Konta, cabeça de chave número 9, ampliou sua série de vitórias com um massacre sobre Caroline Wozniacki: 6/3 e 6/1. A britânica impôs sua potência desde o início do jogo, dando as cartas e fazendo a dinamarquesa correr de um lado para o outro da quadra. Sem golpes de fundo para mudar a partida e sem tentar grandes variações, a ex-número 1 chegou a perder nove games seguidos antes de “furar o pneu” no fim do segundo set.

Konta agora soma oito vitórias seguidas, emendando com o título do WTA de Sydney. Nas oitavas em Melbourne, ela vai enfrentar a russa Ekaterina Makarova, que jogou muito, jogou nada e jogou muito de novo para derrotar Dominika Cibulkova por 6/2, 6/7(3) e 6/3. O placar puro e simples omite que a russa teve 6/2 e 4/0 de vantagem, perdeu cinco games seguidos, salvou três set points e perdeu a segunda parcial.

Makarova também abriu o terceiro set com uma quebra, mas só para perder o serviço logo em seguida. Na hora de decidir, contudo, aproveitou melhor as chances. Salvou três break points no sétimo game, quebrou Cibulkova no oitavo e fechou no nono. Uma atuação que foi suficiente para vencer neste sábado, mas que possivelmente não resolverá contra a mais consistente Konta.

A eslovaca, por sua vez, saiu lamentando as chances perdidas no terceiro set, quando parecia que o jogo ia mudar de mãos definitivamente.

Dominic Thiem e David Goffin também avançaram. O austríaco bateu Benoit Paire em um jogo com altos e baixos por 6/1, 4/6, 6/4 e 6/4, enquanto o belga dominou Ivo Karlovic e fez 6/3, 6/2 e 6/4. Goffin, aliás, já vinha de um triunfo sobre um sacador. Na primeira rodada, superou Riley Opelka (2,11m) em cinco sets. Agora, Thiem e Goffin duelam por um lugar nas quartas de final.

Cabeça de chave número 3 e mais bem ranqueado na metade de baixo da chave – depois da eliminação de Djokovic – Milos Raonic voltou a avançar. Desta vez, em um jogo mais complicado do que o placar sugere. Gilles Simon resistiu bravamente, mas a derrota no tie-break do parelho segundo set colocou o francês num buraco fundo demais para sair. Simon ainda saiude uma quebra atrás para vencer a terceira parcial, mas a margem para erro era pequena demais, e o canadense acabou fechando em seguida: 6/2, 7/6(5), 3/6 e 6/3. Ele agora encara Roberto Bautista Agut (#14), que venceu o duelo espanhol com David Ferrer (#23): 7/5, 6/7(6), 7/6(3) e 6/4.

Os brasileiros

A rodada começou com uma vitória bastante grande para Marcelo Demoliner. Ele e o neozelandês Marcus Daniell eliminaram os cabeças de chave número 6, Rajeev Ram e Raven Klaasen, por 6/1 e 7/6(4).

O resultado coloca o time nas oitavas de final contra Sam Groth e Chris Guccione, que passarem por Treat Huey e Max Mirnyi: 7/6(10) e 7/6(5). Por enquanto, a campanha já iguala o melhor resultado de Demoliner em Slams. Ele também alcançou as oitavas em Wimbledon/2015 (também com Daniell) e no US Open/2016 (Bellucci). O gaúcho, por enquanto, vai subindo nove posições no ranking e alcançando o 55º posto – o melhor da carreira.

Mais tarde, Marcelo Melo e Lukazs Kubot, cabeças de chave 7, superaram Nicholas Monroe e Artem Sitak e tambem passaram para as oitavas: 6/4 e 7/6(3). O próximo jogo é aquele do climão, já que o mineiro vai encarar seu ex-parceiro, Ivan Dodig, que atualmente joga com Marcel Granollers. Embora ninguém tenha dito nada hostil publicamente, a separação não foi no melhor dos termos e incluiu um péssimo clima no ATP Finals e unfollows em redes sociais.

Na chave de duplas mistas, Bruno Soares, em parceria com Katerina Siniakova, passou pela estreia. A dupla de brasileiro e tcheca, que são os cabeças de chave número 6, derrotou Pablo Cuevas e María José Martínez Sánchez por 6/4 e 6/3.

A boyband de Roger Federer

O suíço não entrou em quadra neste sábado, mas foi assunto nas redes quando postou o vídeo abaixo. Ele, Grigor Dimitrov e Tommy Haas cantam Hard To Say I’m Sorry (Chicago) com David Foster (ex-Chicago) no piano. Vejam, riam e julguem!

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As oitavas de final

[1] Andy Murray x Mischa Zverev
[17] Roger Federer x Kei Nishikori [5]
[4] Stan Wawrinka x Andreas Seppi
[12] Jo-Wilfried Tsonga x Daniel Evans
[6] Gael Monfils x Rafael Nadal [9]
[13] Roberto Bautista Agut x Milos Raonic [3]
[8] Dominic Thiem x David Goffin [11]
[15] Grigor Dimitrov x Denis Istomin

[1] Angelique Kerber x Coco Vandeweghe
Sorana Cirstea x Garbiñe Muguruza [7]
Mona Barthel x Venus Williams [13]
[24] Anastasia Pavlyuchenkova x Svetlana Kuznetsova [8]
[5] Karolina Pliskova x Daria Gavrilova [22]
[Q] Jennifer Brady x Mirjana Lucic-Baroni
[30] Ekaterina Makarova x Johanna Konta [9]
[16] Barbora Strycova x Serena Williams [2]

Infelizmente, por questões pessoais, não houve tempo de incluir uma breve análise das vitórias de Karolina Pliskova (que foi um jogão, com drama de sobra) e Grigor Dimitrov. Agradeço a compreensão.


Que Federer tenha razão sobre 2017
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Alexandre Cossenza

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“Acho que o começo do ano, especialmente o verão australiano, vai ser épico.” A frase é de Roger Federer, em entrevista ao New York Times. O suíço fazia uma análise do que pode acontecer em seu retorno ao circuito mundial e afirmou que, tendo em vista o momento dos quatro integrantes do Big Four, o mundo pode ver histórias sensacionais no começo de 2017. Não era nem um exercício de futurologia. Federer falou com propriedade, e parece justo dizer que mundo inteiro espera que o ex-número 1 do mundo esteja certíssimo.

Dando um desconto pelo manjado uso do adjetivo “épico” (quem me segue no Twitter sabe que acho extremamente irritante e pobre a banalização de termos como “épico” e “histórico”), Federer foi preciso na análise. São quatro grandes histórias em curso. E não digo “histórias” no sentido de carreiras (embora todos tenham feitos, ahem, “históricos”), mas no aspecto jornalístico da coisa. São relatos incríveis que, contextualizados, ganham ainda mais importância. Vejamos:

Andy Murray

É o número 1 do mundo após um segundo semestre espetacular em 2016. É a primeira vez que o escocês abre uma temporada como o homem a ser perseguido. Há certa pressão nisso, mas também conta a seu favor o número menor de pontos a defender até abril em comparação com Djokovic. Resta saber se Murray encontrou/encontrará um nível de conforto em seu tênis para continuar jogando com essa intensidade e vencendo com essa frequência.

Além disso, tem toda a questão psicológica da coisa. Tem gente que se sente à vontade e mais poderoso ainda como número 1 (vide Federer), mas nem todos lidam tão bem assim com todos alvos do planeta apontados para sua cabeça. Como Murray vai se comportar no topo do ranking? Ser número 1 coloca ou tira peso em suas costas? Tudo é questão de perspectiva, e o mundo só vai saber isso com 100% de certeza quando a temporada de 2017 começar.

Novak Djokovic

O homem que dominou o circuito em 2014 e 2015, colocando-se como favorito de uma maneira inédita (mais cotado a vencer qualquer tenista em qualquer piso) no tênis moderno, perdeu gás após completar o Career Slam em Roland Garros. terminou o ano como número 2, contratando uma espécie de guru (embora ele não goste do termo guru) e encerrando a parceria com Boris Becker, que saiu dizendo que faltou dedicação no segundo semestre. Os motivos para a queda de Nole já foram bem discutidos e debatidos neste blog. Os sinais de esgotamento estavam lá para todo mundo ver.

Mas o que vem por aí agora? Becker fará falta? Com Vajda ainda no time, não me parece que o alemão será um desfalque tão grande assim. De qualquer modo, será que o Djokovic faminto e sufocante voltará a dar as caras em 2017? Ou será que vem um ano mais ou menos por aí? É bem verdade que Nole tem tênis de sobra para continuar brigando por títulos mesmo aquém de seu melhor, mas talvez aquele ingrediente que faltou nos últimos meses de 2016 seja necessário para brigar pelo número 1. Ou não? O ATP de Doha, que começa no dia 2 de janeiro, nos dará os primeiros indícios.

Rafael Nadal

A temporada de 2016 deveria ter sido o ano que mostraria onde está de fato o tênis de Rafael Nadal, mas nem isso deu para ver com tanta clareza assim. Uma lesão no punho tirou o espanhol de Roland Garros, que acabou não jogando Wimbledon e até fez uma bela Olimpíada, mas encerrou a temporada mais cedo. Houve (esperados) títulos no saibro, vide Monte Carlo e Barcelona, mas também houve (inesperadas) derrotas doídas, como em Melbourne e Nova York.

Nadal foi melhor quando jogou seu básico – não tão agressivo quanto em 2015 – mas deu a impressão de que seu tênis, hoje, está em uma posição desagradável. Aos 30 anos, Nadal não tem o físico para jogar as partidas e os pontos longos que destruíam mentalmente seus adversários (inclusive fugiu do calor e da umidade de Buenos Aires e do Rio de Janeiro em 2017), mas também não mostrou uma consistência nem técnica nem mental na agressividade que precisa para vencer jogos mais curtos.

Com a contratação de Carlos Moyá para seu time, Nadal mostra que não está satisfeito e busca um olhar diferente para seu jogo. Não ouso especular sobre o que Moyá vai conseguir fazer pelo compatriota, mas é bem possível que 2017 seja o ano do vai-ou-racha para Nadal. Afinal, não me parece que ele ficará satisfeito se repetir os resultados de 2016. Se isso acontecer, será preciso decidir se vale a pena continuar competindo assim.

Roger Federer

A história mais intrigante de 2017. Pela primeira vez na vida, o suíço fará um “retorno” após longa parada. A cirurgia no joelho, no começo do ano passado, já foi uma novidade estranha para Federer. Ele adiou a volta duas vezes (Indian Wells e Miami), disputou torneios no saibro e evitou Roland Garros. Insistiu, jogou três torneios na grama, mas viu que não dava para continuar.

Após seis meses de pausa, é de se esperar que o veterano de 35 anos esteja em plena forma. Afinal, se alguém pode estar em plena forma aos 35, Federer é o nome. Só que o resultado desses seis meses longe do circuito ainda é uma incógnita. É bem provável que ele apareça na Austrália de cabeça fresca e mais motivado do que nunca, o que será extremamente saudável para seu tênis, mas daí a capitalizar isso em resultados é outra história. Que ninguém ouse duvidar do suíço, mas com tanta gente boa surgindo no circuito e com o esporte cada vez mais veloz, a luta pelo 18º Slam só fica mais complicada.

Coisas que eu acho que acho:

– O Big Four caminha para um Australian Open diferente e intrigante. Do jeito que o ranking se mostra, é bem possível que Nadal e Federer estejam fora do grupo dos 8 cabeças de chave. Ou seja, podem enfrentar Murray e/ou Djokovic logo nas oitavas de final, o que encurtaria alguma(s) das quatro histórias acima.

– Além das quatro histórias citadas por Federer, o que não vai faltar é roteiro interessante no início de 2017. Teremos Nick Kyrgios voltando de suspensão (e já falou que pode ganhar este Australian Open); Dominic Thiem ainda tentando se firmar como tenista-de-torneio-grande; Milos Raonic, o #3, indo atrás do sonhado Slam; Wawrinka sendo Wawrinka (leia-se “podendo ganhar de qualquer um a qualquer hora); e até David Ferrer tentando voltar a um lugar mais digno.

– Faltará, obviamente, Juan Martín del Potro, o grande fator de desequilíbrio de 2016. O argentino, campeão da Copa Davis, já anunciou que não vai jogar o Australian Open por questões físicas. Segundo a imprensa argentina, Delpo quer fazer uma boa pré-temporada antes de voltar com força ao circuito.


O que significou o espetacular Djokovic x Nadal em Roma?
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Alexandre Cossenza

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Foi a melhor partida da semana e, possivelmente, a melhor de 2016 no saibro. Novak Djokovic, vindo de um título em Madri, contra Rafael Nadal, cada vez mais afiado na temporada europeia de saibro. O resultado final – 7/5 e 7/6(4) para o sérvio – pode ser visto de algumas maneiras. Por um lado, apenas estendeu a série de vitórias do número 1 sobre o espanhol. Agora são sete triunfos consecutivos, com 15 sets vencidos e nenhum perdido. Por outro, mostrou um Nadal mais competitivo – foi o mais duro dos sete jogos – e mais perto de seu melhor nível. Como, então, devemos analisar as consequências do duelo de Roma?

Pelo lado de Djokovic, trata-se de mais uma vitória extremamente relevante no circuito. O sérvio, afinal, tinha muito mais a perder no confronto. Um revés poderia (ou não, claro) abalar sua confiança às vésperas do torneio que é o mais importante de seu calendário. Roland Garros é o grande título que lhe falta, então cada pequeno ingrediente dessa receita que leva forma técnica, preparo físico e força mental, entre outros temperos, torna-se realmente importante.

Mas não é só isso. O número 1 do mundo sai de quadra com uma noção melhor de quem é o Nadal de agora. E, como todo bom gato escaldado, Djokovic também sabe que chegar a Paris com vitórias nos Masters 1.000 não significa tanto assim. Em 2014, por exemplo, bateu Nadal em Roma, mas perdeu a final do Slam do saibro para o espanhol. Todo cuidado é pouco.

Nadal era quem realmente tinha a ganhar com a partida e dá até para dizer que, apesar da derrota, o espanhol sai mais forte de Roma. Primeiro porque apesar do ótimo momento no saibro, que começou em Monte Carlo, ainda lhe faltava o maior dos testes. A partida contra Djokovic aconteceu, e o espanhol saiu da quadra sabendo precisamente onde está no circuito e no que ainda precisa evoluir.

Além do mais, Nadal passou tanto tempo sem jogar nesse nível altíssimo de tênis que a falta de vivência recente nesses momentos lhe custou pontos cruciais – como os cinco set points na segunda parcial. Passar por isso em Roma fez bem. Ele mesmo admitiu isso depois do jogo e comemorou o fato de ter feito uma belíssima partida contra Djokovic sem fazer nada “ultraespetacular” (leia aqui).

O que eu acho disso tudo? Djokovic ainda é o claro favorito para Roland Garros, mas neste momento não consigo imaginar Nadal perdendo de nenhum outro tenista em um duelo melhor de cinco sets (deixo para comentar Murray em outro momento). Mais um encontro em Paris seria fantástico em qualquer que seja a fase – até porque o mais memorável dos jogos entre eles lá aconteceu em uma semifinal.

E as cotações?

Nada mudou. Ou melhor, quase nada. Djokovic continua como favorito, e Nadal segue sendo o segundo mais cotado nas casas de apostas. No dia 21 de abril, publiquei aqui no blog que um título do sérvio pagava 1,66/1 na Bet365. Significa que o apostador recebe US$ 1,66 para cada dólar apostado. Enquanto isso, uma conquista de Nadal pagaria 4/1. Hoje, depois da final de Roma, as cotações na mesma casa são, respectivamente, 1,72/1 e 4/1.

Trocando em miúdos, não houve nenhuma alteração relevante. Talvez haja depois da divulgação da chave de Roland Garros, mas aí é outra história. Não caberia uma comparação 100% justa.

No ranking

O resultado do jogo desta sexta-feira também significa que Nadal não será um dos quatro principais cabeças de chave no Slam do saibro, o que pode ocasionar um novo duelo como Djokovic nas quartas. A não ser, é claro, que Roger Federer não melhore da lesão nas costas e decida não jogar em Paris. Neste caso, Wawrinka subiria para cabeça três e Nadal só enfrentaria o número 1 nas semifinais – na pior das hipóteses. Murray será o número 2 independentemente do resto de sua campanha no torneio italiano.

Bônus track

Desenterrado por Rob Koenig, comentarista do TennisTV, o jogaço entre Rafael Nadal e Guillermo Coria que decidiu o título de Roma em 2005. Serve para muita gente comparar com o tênis atual: 1) a velocidade geral do jogo; 2) a velocidade de Nadal; e 3) o estilo que quase sempre predominou no saibro.

É obrigatório para quem acredita que Nadal só sabia se defender quando venceu Roland Garros pela primeira vez.


Semana 16: Nadal e Kerber, campeões em casa
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Alexandre Cossenza

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Em Barcelona, um campeão espanhol. Em Stuttgart, uma campeã alemã. Em Istambul, a primeira turca a conquistar um WTA na história. Em Bucareste, romenos na decisão de duplas. Foram dias interessantes para tenistas da casa (quem dera que tivesse sido assim no Challenger de São Paulo) nos torneios mais importantes da última semana pelo mapa da bolinha amarela.

Só que o eneacampeonato de Nadal e o bi de Kerber nem de longe foram os únicos assuntos. Houve anúncios de suspensões, um boleiro estabanado, um irmão tarado, uma homenagem a um brasileiro e até um match point salvo por baixo das pernas. Quer ficar por dentro? É só rolar a página…

Os campeões

No ATP 500 de Barcelona, Rafael Nadal foi campeão mais uma vez. Foi seu nono título no torneio e veio sem perder sets. O espanhol, aliás, estava em uma chave respeitável e derrotou Granollers, Montañés, Fognini e Kohlschreiber antes de bater Kei Nishikori por 6/4 e 7/5 na final. Ao fim do torneio, pulou na piscina do clube junto com os boleiros (vídeo acima).

Nadal agora soma dez vitórias consecutivas no saibro e, mais do que isso, vem jogando com mais confiança e ganhando cada vez mais pontos importantes – algo que ficou bastante claro diante de Nishikori, que converteu apenas três de 13 break points e sucumbiu nos games decisivos em ambos sets. Era o tipo de jogo que Nadal não vencia no começo do ano – e isso inclui o jogo contra Thiem em Buenos Aires (teve match point) e a partida contra Cuevas no Rio de Janeiro.

O único porém continua sendo o serviço, que foi pressionado diversas vezes por Nishikori, que teve break points em seis games diferentes, e também por Fognini, que conseguiu três quebras em dois sets. Nadal, no entanto, vem triunfando assim mesmo. Será assim também em Madri e Roma? Resta esperar pra ver.

Os números de Nadal no saibro sempre foram assustadores, mas continuam crescendo. O ex-número 1 e atual quito do ranking agora tem nove títulos em Monte Carlo, mais nove em Barcelona e outros nove em Roland Garros. Em Roma, são “apenas” sete. Veja na lista acima.

O ATP 250 de Bucareste só terminou nesta segunda-feira por causa da chuva incessante no domingo. O título ficou com Fernando Verdasco, que bateu Lucas Pouille por 6/3 e 6/2. “Fazia muito tempo que não vivia isso, ganhar um torneio ou estar em uma final”, disse o espanhol que não conquistava um título desde Houston/2014.

As campeãs

No WTA Premier de Stuttgart, duas alemãs fizeram a final, e a favorita venceu. Apesar de um ótimo começo da qualifier Laura Siegemund (#71), que sacou em 4/2, a consistência de Angelique Kerber (#3) prevaleceu. A favorita venceu dez games seguidos e defendeu seu título por 6/4 e 6/0. O resultado não altera o top 5, que continua com Serena, Radwanska, Kerber, Muguruza e Azarenka.

Laura Siegemund, porém, dá um grande salto, indo parar no 42º posto. Apesar da derrota na final, é possível dizer que tenista de 28 anos foi o grande nome da semana. Ela, afinal, derrubou Simona Halep nas oitavas (6/1 e 6/2), Roberta Vinci nas quartas (6/1 e 6/4) e Agnieszka Radwanska na semi (6/4 e 6/2). E, só por curiosidade, vale apontar que sua tese de conclusão de curso em psicologia era sobre amarelar sob pressão em esportes profissionais.

O modesto WTA International de Istambul ficou esvaziado após os recentes atentados terroristas na Turquia. A lista de inscritas que abandonaram antes do torneio inclui Azarenka, Wozniacki, Giorgi, Van Uytvanck, Watson, Cetkovska, Robson, Shvedova, Hradecka e Falconi.

O lado positivo (também conhecido como “Efeito Floripa”) é que Istambul teve uma tenista da casa na final. Cagla Buyukakcay (26 anos, #118) passou pelas cabeças de chave Lesia Tsurenko e Nao Hibino e chegou à decisão contra a montenegrina Danka Kovinic (#60), cabeça 5. Diante da rara chance, a turca aproveitou e triunfou de virada: 3/6, 6/2 e 6/3. Ela se tornou a primeira tenista do país a vencer um WTA.

Os brasileiros

O brasileiro que foi mais longe na semana foi André Sá. Em parceria com o australiano Chris Guccione, o mineiro chegou à final do ATP 250 de Bucareste e perdeu para a dupla da casa por Florin Mergea e Horia Tecau. A partida, interrompida no domingo ao fim do primeiro set, terminou com parciais de 7/5 e 6/4.

Em Barcelona, Thomaz Bellucci sofreu sua sétima derrota seguida. O algoz da vez foi o alemão Alexander Zverev, #51, que chegou a estar uma quebra atrás no terceiro set. O brasileiro perdeu por 6/3, 6/7(3) e 7/5, dando de graça o último game, quando cometeu quatro erros não forçados em sequência. Zverev fez pouco mais do que colocar a bola em jogo no game. Foi um presente e tanto para o alemão, que completava 19 anos naquele dia.

Nas duplas, também na Catalunha, Marcelo Melo e Ivan Dodig não passaram da estreia e foram derrotados por Pablo Cuevas e Marcel Granollers. Bruno Soares e Jamie Murray venceram um jogo e pararam nas quartas, superados pelos espanhóis Marc e Feliciano López.

No Challenger de São Paulo (US$ 50 mil), a melhor campanha de um brasileiro foi de Thiago Monteiro, que chegou às semifinais e perdeu para o chileno Gonzalo Lama. O cearense, que começou a semana como #201, entra no grupo dos 190 melhores e alcança o melhor ranking da carreira. Na campanha, Monteiro passou pelo equatoriano Emilio Gómez (#325), número 2 do Equador, próximo adversário do Brasil na Copa Davis.

Com o confronto no Brasil diante de um adversário que não mete medo em ninguém, parece a oportunidade perfeita para a estreia de Thiago Monteiro. Fazer seu primeiro confronto em um Zonal sem a responsabilidade de precisar vencer e contra um time fraco é a melhor maneira de fazer uma primeira aparição e sentir o calor de defender o país.

Voltando a São Paulo, quem também parou na semi foi o carioca Christian Lindell, que joga pela Suécia. José Pereira parou nas quartas, e Feijão caiu nas oitavas de final (segunda rodada). Ainda sobre o torneio paulista, vale ressaltar a campanha do americano Ernesto Escobedo, que viajou até o Brasil para disputar apenas um torneio. O garotão de 19 anos foi o sétimo adolescente americano a alcançar uma final de Challenger desde outubro do ano passado. Ao todo, são dez finais de adolescentes americanos no período, já que Taylor Fritz esteve em quatro delas.

Rogerinho, #100 do mundo e #2 do Brasil, apostou no Challenger de Turim, na Itália, e perdeu na primeira rodada para o esloveno Blaz Rola (#160): 7/6(8) e 6/4.

A homenagem

No fundo, no fundo, o brasileiro que mais brilhou na semana foi Thomaz Koch, homenageado no ATP 500 de Barcelona. O torneio lembrou o aniversário de 50 anos do título do brasileiro por lá. Tipo de coisa que entra na categoria “eles têm mais memória do que a gente” (e não me excluo do “a gente”, ok?). Thomaz Koch foi uma referência enorme para mais de uma geração de tenistas brasileiros e é importantíssimo que mais pessoas saibam disso.

Lances bacanas

Semifinal do ATP 500 de Barcelona, jogo quase perdido, aí Benoit Paire resolve fazer uma graça sacando com match point contra. Primeiro, tenta uma curtinha contra Kei Nishikori. O japonês alcança a bola, então o francês vai mais longe: um winner por baixo das pernas. Olha só!

A loucura

Parece uma daquelas lendas que a gente escuta nos clubes de tênis, mas aconteceu de verdade em um torneio profissional. O iraniano Majid Abedini, 29 anos, perdia no qualifying do Future de Antalya, na Turquia, e correu como um louco na direção do supervisor, gritando e batendo com a raquete na grade. Abedini foi desclassificado da partida e já está suspenso provisoriamente pela ITF. A entidade abriu uma investigação e, dependendo do que for apurado, o iraniano pode pegar um gancho pesado.

As melhores histórias

O texto recomendado da semana é do jornalista Steve Tignor, que faz uma análise dos tempos técnicos permitidos pela WTA. O americano cita os benefícios e as críticas geralmente feitas à regra e dá exemplos pitorescos, como a intrigante troca de palavras entre Garbiñe Muguruza e Sam Sumyk no início do ano, em Doha. O texto está em inglês neste link.

O acidente

Em Barcelona, durante o jogo entre Nicolás Almagro e Teymuraz Gabashvili, um boleiro escorregou, deu de cara na placa publicitária do fundo de quadra e… voltou à função como se nada tivesse acontecido.

O gancho

O árbitro croata Denis Pitner foi afastado do tênis por dez anos. A ITF fez o anúncio durante esta semana. Pitner teve o certificado de White Badge suspenso em agosto de 2015 por acessar uma conta em um site de apostas. Mesmo com o gancho, Pitner trabalhou no US Open/2015 e no Qatar Open/2016. Nos dois eventos, ele se apresentou como árbitro White Badge e recebeu salários equivalentes. Por tudo isso, não poderá trabalhar em eventos sancionados por ATP, WTA e ITF até 19 de abril de 2026.

O irmão tarado

O irmão do tenista-agora-britânico Aljaz Bedene se passou pelo irmão no Tinder tentando conquistar uma paixão e inclusive publicou fotos mostrando… Vocês sabem, né? Sem cueca. Andraz, o irmão, só não se deu bem porque a moça do outro lado do aplicativo sabia que Aljaz enfrentaria Rafael Nadal em breve, no Masters de Monte Carlo. Andraz, depois, admitiu ter tentado se passar pelo irmão. A pergunta que se faz, no entanto, é se teria acontecido como em um daqueles casos em que um primo distante supostamente usa a rede social do parente famoso. Será? A história, dica da Aliny Calejon, está inteira contada no Mirror.

Tênis por WhatsApp

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Nadal voltou? Voltou mesmo?
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Alexandre Cossenza

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Foi o tom de muitos comentários durante a última semana e, especialmente, após o título do Masters 1.000 de Monte Carlo: “Nadal voltou!” Agora, três dias depois da conquista, o ex-número 1 do mundo está classificado para as quartas de final do ATP 500 de Barcelona e segue mostrando um ótimo tênis. Mas será mesmo que “Nadal voltou”? “Aquele” Nadal? E, afinal, o que isso significa?

O cenário

Antes de mais nada, cabe certa cautela na análise. Em 2015, a comoção foi parecida quando, depois de um começo de ano decepcionante, Rafael Nadal alcançou a final do Masters de Madri. Naquele torneio, o espanhol derrotou Dimitrov e Berdych em sequência, e parecia barbada para levar o troféu antes de uma atuação abaixo da crítica diante de Murray na final. Aquela partida foi o balde que calou os gritos de “Nadal voltou”.

Este ano, o panorama parece melhor. Antes de Monte Carlo, o Rei do Saibro já havia feito ótimas partidas em Indian Wells. No principado, bateu Dominic Thiem, Stan Wawrinka, Andy Murray e Gael Monfils em sequência. Se não foi o tenista dominante de 8-10 anos atrás, foi convincente e superior a uma grande promessa, ao atual campeão de Roland Garros e ao vice-líder do ranking.

O que melhorou?

É indiscutível que Nadal vem jogando um tênis melhor e mais eficiente do que o apresentado durante a maior parte de 2015 e o começo desta temporada. Talvez tenha a um pouco ver com a mudança nas cordas (Nadal voltou a usar a RPM Blast, que adotou durante a maior pate da carreira), mas é impossível dizer apenas vendo seus jogos, sem ouvir uma análise do próprio tenista.

De fato constatável mesmo, fica nítida a mudança estratégica. O Nadal de Indian Wells e Monte Carlo foi um pouco menos agressivo. Continuou atacando sempre que possível, mas com um pouco mais de paciência, usando bolas mais altas e tentando empurrar o oponente para trás. Na essência, é o mesmo que ele sempre fez na carreira. A agressividade excessiva não vinha dando resultado.

Essas bolas a mais fazem enorme diferença no balanço psicológico de um jogo. Errando menos, o espanhol tira do oponente a opção “vou trocar bola e esperar uma falha”. Nadal, assim, exige que seu rival ganhe a maioria dos pontos por méritos próprios. Não são tantos tenistas que conseguem fazer isso ponto após ponto contra o eneacampeão de Roland Garros. Com tudo isso acontecendo, Nadal tem mais margem e, especialmente, confiança para os pontos mais importantes. É uma grande bola de neve que vem se desfazendo aos poucos – para seu benefício.

Voltou mesmo?

Nunca fui fã do “fulano voltou”, quem quer que seja o fulano. Até porque todas as circunstâncias que envolvem o “voltou” mudam. O que quer dizer “Nadal voltou”? Que ele joga o mesmo nível de tênis do que em 2013, 2010 ou 2008? Como comparar quatro períodos distintos de forma justa? Ou “Nadal voltou” quer dizer que ele é o melhor do saibro mais uma vez? Ou apenas sugere que “Nadal voltou a ser competitivo”? Neste último caso, a resposta obrigatoriamente deve ser “não”, já que o espanhol nunca deixou de ser competitivo e, mesmo na suposta má fase, já era o número 5 no ranking mundial.

No entanto, qualquer que seja a hipótese, tendo a responder “não” porque o Nadal-Rei-do-Saibro era imbatível na superfície. Soa injusto, mas é o nível de domínio que o mundo se acostumou a ver do espanhol. O Rafael Nadal de hoje tem um saque vulnerável (foram 17 break points diante de Thiem e cinco quebras cedidas a Gael Monfils, que não tem uma devolução imponente) e, mais do que qualquer outra coisa, ainda precisa mostrar que pode bater Novak Djokovic – considerando que o revés de Nole na estreia em MC tenha sido apenas uma aberração.

Ainda assim, o que Nadal apresentou em Monte Carlo parece estar muito perto do melhor que ele pode mostrar no circuito de hoje, com adversários mais jovens, mais rápidos e mais fortes. O mais provável é que o espanhol nunca volte a dominar o circuito como fez no passado, mas será que que se faz necessário aquilo tudo para que ele “volte” a vencer em Roland Garros? É possível que não. Mas os resultados de Barcelona, Madri e Roma deixarão esse cenário um tanto menos nebuloso antes de Paris.

Favorito a Roland Garros?

Por enquanto, Djokovic, número 1 do mundo com sobras, ainda é o mais cotado a triunfar no saibro francês. As casas de apostas colocam o sérvio como principal favorito, seguido (não tão de perto assim) por Nadal. A bet365, por exemplo, paga apenas 1,66 para um em caso de título de Nole. Uma conquista de Nadal paga quatro para um. A Sportsbet.com.au, por sua vez, paga 1,72 para Djokovic, e 4,00 para Nadal. Vale acompanhar o quanto essas cotações mudarão nas próximas semanas, após mais dois Masters na terra batida.


Semana 7: um decepcionante Nadal e um trio de jovens em ascensão
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Alexandre Cossenza

Como todos vocês sabem, o blog tirou miniférias na segunda-feira, então o resumo desta sétima semana de 2016 será menor do que de costume. Ainda assim, há bastante a dizer sobre Rafael Nadal em Buenos Aires e outros assuntos, como a ótima campanha do garotão Taylor Fritz em Memphis, a entrada de Belinda Bencic no top 10 e a conquista de Dominic Thiem no saibro portenho.

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O intrigante Nadal

Antes de mais nada, não dá para não comentar a semana desastrosa de Rafael Nadal em Buenos Aires. Além da dor de barriga e das dificuldades encontradas com o calor e a umidade, o espanhol fez dois péssimos jogos em sequência. Primeiro, na sexta-feira, encontrou dificuldades inesperadas contra Paolo Lorenzi. Venceu por 7/6(3) e 6/2, mas jogando um tênis confuso, com escolhas de golpes ruins e execuções igualmente inconstantes. Triunfou porque a diferença de nível para o atual #52 era muito grande.

Depois, no sábado, fez mais do mesmo contra Dominic Thiem, 22 anos, #19 do mundo e bastante talento à disposição. Não foi o bastante, embora os nervos de Thiem tenham colaborado a ponto de Nadal ter um match point. O austríaco, contudo, salvou-se de maneira gloriosa (vide Vine abaixo) e beneficiou-se de um tie-break pavoroso do espanhol para fazer 6/4, 4/6 e 7/6(4).

Nadal começou o ano se dizendo em melhor forma do que em 2015, mas os resultados e as atuações recentes apontam o contrário. Uma queda na estreia em Melbourne, onde seu saque foi vilipendiado por Fernando Verdasco, foi seguida de atuações assustadoras para seu padrão de jogo no saibro.

O Nadal de Buenos Aires foi, provavelmente, o pior Nadal da história em um torneio de saibro. Oscilou entre seu tênis de segurança, mais adequado para o piso, e o estilo agressivo que tentou aplicar nas quadras duras. Não fez nenhum dos dois com consistência. Nem sequer aplicou a tática de bolas altas no backhand de uma só mão de Thiem. O saque foi frágil. O backhand, idem.

Muito se fala da necessidade de Nadal trazer um técnico de fora, alguém que se junte a tio Toni e procure as soluções que o espanhol não encontra desde 2015. Ainda que aos olhos de muitos pareça um recurso ao qual Nadal terá de recorrer em algum momento, vale lembrar que as atuações de Buenos Aires parecem muito além dos serviços de um treinador.

No saibro portenho (no saibro!), o ex-número 1 esteve confuso em seu plano de jogo. Foi afobado, agressivo e excessivamente defensivo. Tudo no mesmo jogo (às vezes no mesmo ponto!) e sem fazer nada bem. A não ser que Nadal esteja escondendo uma lesão ou algum problema recente, é difícil entender o que aconteceu com seu tênis – que inclusive parecia mais sólido no fim de 2015.

Toni disse recentemente que se não fosse tio, provavelmente já teria sido dispensado, mas não custa lembrar: foi com Toni que Nadal sacou frequentemante acima dos 200 km/h no US Open de 2010. Toni também sempre recebeu quase todo crédito pela força mental de Nadal. Será que a solução passa mesmo por um novo técnico? E será que há solução?

Enquanto o tênis segue aguardando essa resposta, vale ressaltar que Nadal não parece tão incomodado. Após a derrota para Thiem, disse que não estava preocupado “porque não uma fiz uma partida ruim hoje, apenas me faltou consistência, me faltou cometer menos erros, principalmente com o revés.” Sim, Nadal esteve a um ponto da vitória, mas o que se viu no sábado pareceu muito, muito longe do espanhol que o mundo se habituou a ver no saibro.

Os brasileiros

Thomaz Bellucci pulou Buenos Aires, o que pode ter feito um bem danado. Embora tenha conquistado sua primeira vitória em um ATP na capital argentina, as altas temperaturas e a umidade da cidade portenha não renderam boas memórias. Aquele primeiro triunfo, ainda em 2008, é seu único no torneio até hoje.

Nas duplas, Bruno Soares não jogou, mas Marcelo Melo tentou a sorte em Roterdã ao lado de Ivan Dodig. O número 1 do mundo e seu parceiro croata perderam nas quartas de final (segunda rodada) para Henri Kontinen e John Peers: 3/6, 7/6(2) e 10/7. Melo e Dodig tiveram match point no segundo set.

Em Buenos Aires, ninguém passou da estreia. Marcelo Demoliner, em parceria com Alber Ramos-Viñolas, foi derrotado pelos colombianos Juan Sebastian Cabal e Robert Farah por 7/6(5) e 6/2. André Sá, por sua vez, formou parceria com o argentino Máximo González e foi superado por Gero Kretschmer e Alexander Satschko: 6/1 e 7/5.

Os campeões

No 500 de Roterdã, o ATP mais valioso da semana (em pontos, pelo menos), Martin Klizan protagonizou uma das semanas mais espetaculares da história recente nos ATPs 500. Salvou cinco match points nas quartas de final contra Roberto Bautista Agut e outros três na semi contra Nicolas Mahut antes de derrotar Gael Monfils por 6/7(1), 6/3 e 6/1 na decisão.

Ao todo, foram três viradas em sequência e seu melhor resultado da carreira. Klizan, #43, agora tem quatro títulos em quatro finais disputadas (também venceu São Petersburgo em 2012, Munique em 2014 e Casablanca em 2015). Ah, sim: a ATP informa (vide tuíte acima) que desde 2001 ninguém salvava tantos match points rumo a um título.

Em Buenos Aires, a sensação foi o austríaco Dominic Thiem, 22 anos, que eliminou Rafael Nadal nas semifinais – depois de salvar match point – e superou Nicolás Almagro na decisão por 7/6(2), 3/6 e 7/6(4). Ressalto: foram duas partidas longas em dois dias, e Thiem venceu todos games de desempate. Ainda que tenha contado com uma atuação abaixo da crítica de Nadal, o austríaco anota um resultado maiúsculo em sua jovem carreira.

Número 22 do mundo antes da conquista na Argentina, Thiem agora soma quatro títulos na carreira. Todos vieram no saibro em em eventos da série 250. Os três anteriores foram em 2015: Gstaad, Umag e Nice. Seu único vice foi em 2014, também no saibro, em Kitzbuhel.

Em Memphis, Kei Nishikori foi campeão. Até aí, surpresa nenhuma. A novidade mesmo foi a presença do americano Taylor Fritz, 18 anos e #145, na final. O adolescente até que deu trabalho ao favorito no primeiro set, mas acabou não conseguido igualar a consistência do rival. Nishikori levou a melhor por 6/4 e 6/4.

O triunfo deste domingo foi o 17º seguido do japonês em Memphis. Ele venceu as quatro últimas edições da competição. Para Fritz, que fazia apenas seu terceiro torneio de nível ATP, vale a memória de ter sido o mais jovem americano em uma final deste porte desde 1989.

No WTA mais importante da semana, em São Petersburgo, Roberta Vinci derrotou Belinda Bencic na final por 6/4 e 6/3. A italiana fez seu jogo de variações e escolheu bom os momentos de ir à rede. Ao todo, em 25 subidas, ganhou 17.

A veterana de 32 anos conquistou seu primeiro torneio de nível Premier. Enquanto isso, se serve de consolo, Bencic, 18 anos, aparecerá como no top 10 no ranking desta segunda-feira pela primeira vez na carreira.

Nas duplas, o registro quase semanal é mais uma conquista de Martina Hingis e Sania Mirza. #Santina conquistou sua 40ª vitória seguida ao bater Vera Dushevina e Barbora Krejcikova por 6/3 e 6/1 na final.

A última derrota de Hingis e Mirza como parceria aconteceu em agosto do ano passado, nas semifinais de Cincinnati, diante de Hao-Ching Chan e Yung-Jan Chan, de Taiwan. As irmãs Chan, aliás, também foram campeãs neste domingo. Em casa, no WTA de Kaohsiung, elas bateram as japonesas Eri Hozumi e Miyu Kato na final por 6/4 e 6/3, em 1h17min de partida.

Falando no modesto WTA de Kaohsiung, o torneio só não foi minúsculo graças à presença de Venus Williams, atual #12. A americana aproveitou a chave fraca e conquistou seu 49º título na carreira ao derrotar na final a cabeça 2, Misaki Doi, #62, por 6/4 e 6/2. Venus, vale lembrar, não perdeu um set sequer.

Foi o terceiro título seguido da ex-número 1 do mundo na Ásia. As duas conquistas anteriores de Venus aconteceram em Wuhan e Zhuhai.

Lances bacanas

Nem vou tentar descrever esse voleio de Dustin Brown em Bergamo…

A cidade italiana parece fazer bem ao alemão. Em 2014, ele fez essa passada que a ATP resgatou nos últimos dias:

Gael Monfils é bem parecido com Dustin Brown no sentido de deixar o espectador sem saber se um golpe foi muito fácil ou se o tenista foi displicente na execução. Até agora não entendi qual foi o caso neste ponto do francês em Roterdã.

Em Roterdã, a semifinal entre Martin Klizan e Nicolas Mahut teve até uma cambalhota do eslovaco para comemorar.

Klizan tinha lá seus motivos para comemorar. Pouco antes deste game, ele salvou um match point quando sacou em 3/5 no segundo set. A cambalhota veio ao quebrar Mahut e igualar a parcial em 5/5. Klizan ainda salvou outros dois match points no tie-break para forçar o terceiro set e vencer por 6/7(3), 7/6(7) e 6/2.

Outro pontaço da semana veio como cortesia de Ricardas-Richard-Ricardas-de-novo Berankis. O lance veio na partida contra Taylor Fritz, que acabou saindo vencedor por 2/6, 6/3 e 6/4.

Fanfarronices publicitárias

Milos Raonic desistiu do ATP de Delray Beach, mas apareceu para o jogo das celebridades do All-Star Weekend da NBA (não acho que seja um crime). O canadense até protagonizou a enterrada abaixo!

A melhor história

A reportagem mais interessante entre as que li estava no New York Times e contava a história de Denis Pitner, um árbitro croata que foi suspenso do tênis em agosto do ano passado. Segundo a ITF, Pitner enviou informações sobre o bem-estar físico de um jogador a um técnico durante um torneio. Ele também regularmente se conectava a uma conta em um site de apostas. A tal conta realizava apostas em jogos de tênis. A parte surreal da história – e é o foco da reportagem – é que o árbitro, mesmo suspenso, trabalhou como juiz de linha no US Open. O texto na íntegra (em inglês) está neste link.


Leitura recomendada: “Sin Red” e o duelo que mudou o tênis
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Alexandre Cossenza

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Roger Federer e Rafael Nadal podem não ser recordistas de confrontos. Suíço e espanhol também não têm lá o mais equilibrado dos históricos – o enecampeão de Roland Garros leva ampla vantagem. O duelo Fedal, no entanto, é para muitos o mais interessante da história. Pela relevância de ambos (juntos, são 31 títulos de Grand Slam), pela importância de seus encontros (foram oito finais de Slam) e, principalmente, pelo contraste de estilos.

É disso que trata o livro “Sin Red – La Historia Detrás del Duelo Que Cambió el Tenis”, do jornalista Sebastián Fest, com quem tive o prazer de jantar algumas semanas atrás, no Rio de Janeiro. Argentino de nascimento, Fest morou por muito tempo na Espanha, a serviço de uma agência de notícias alemã, e cobriu o circuito mundial de tênis por mais de dez anos, ultrapassando a marca de 50 Slams. Fez exclusivas com Nadal e Federer em diferentes ocasiões e tinha material de sobra para escrever. O resultado é o livro publicado este ano, que por enquanto está disponível apenas em espanhol, mas tem uma edição em inglês planejada para 2016 (e sim, Fest também tem a intenção de lançá-lo em português).

O livro é uma deliciosa coleção de histórias (algumas desconhecidas da maioria) dos dois tenistas que polarizaram o tênis pela maior parte dos últimos dez anos. Desde a curiosa amizade do começo de carreira – algo tão incomum no tênis entre atletas disputando as primeiras posições – até o desentendimento e a entrevista bombástica que resultou na saída de Nadal do Conselho de jogadores.

“Sin Red” relata e contextualiza momentos importantes nas carreiras de ambos. Aborda, por exemplo, os hábitos da família de Nadal em Mallorca e o processo que levou Federer a cuidar mais de sua imagem. Fala de como Rafa buscou soluções para cada lesão que teve e do momento em que o jovem Roger decidiu que não poderia mais continuar se comportando mal em quadra.

Um dos trechos preferidos de Fest é a conversa com Robin Soderling, sueco que “mudou a história” de ambos ao derrotar Nadal e Federer em anos consecutivos em Roland Garros. “Muitas vezes me peguei pensando: não poderia ter feito as duas coisas no mesmo ano? Porque preferiria haver ganhado uma vez o Aberto da França e perder o ano seguinte na primeira rodada a chegar a duas finais.”

Para os fãs que se interessam pela história do tênis e por tudo que envolve a relação causa-consequência nos duelos entre Federer e Nadal, “Sin Red”, à venda na Amazon por R$ 37,77 (preço do dia 06/11) é leitura obrigatória. Não só por contar histórias sobre dois atletas que mudaram o esporte, mas porque também faz as devidas contextualizações históricas.

E se você gosta do debate sobre o melhor de todos os tempos, “Sin Red” está recheado de opiniões de grandes campeões do passado. Tem todo tipo de combustível necessário para acender a discussão. Eu recomendo.


Wimbledon, dia 13: Djokovic derruba Federer e come grama outra vez
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Alexandre Cossenza

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Durante duas semanas, Roger Federer roubou os holofotes. Mostrou, página por página, o livrinho de golpes. Ganhou pontos espetaculares. Executou lances improváveis. Sacou como nunca, venceu como sempre. E, quando derrubou Andy Murray em uma atuação memorável nas semifinais, lembrou o planeta (como se alguém tivesse esquecido) por que venceu Wimbledon sete vezes.

Djokovic, por sua vez, foi competentíssimo nos últimos 15 dias, mas só foi o foco das atenções quando passou perigo diante de Kevin Anderson, nas oitavas de final. Na semi, jogou para o gasto. Parecia que o atual campeão de Wimbledon teria sérios problemas para manter seu reinado no All England Club.

Neste domingo, Djokovic teve, sim, sérios problemas contra o suíço. Precisou salvar set points antes de fechar uma parcial. Perdeu sete set points antes de perder outra parcial. No fim, contudo, o número 1 teve mais de onde tirar. Venceu o xadrez tático e, quando conseguiu anular o serviço do adversário, navegou até seu terceiro título de Wimbledon: 7/6(1), 6/7(10), 6/4 e 6/3.

O set quase perfeito

Um início nervoso, mas com poucos erros. A partida começou com nível altíssimo e poucas chances para os devolvedores. Federer conseguiu uma quebra no sexto game, no primeiro break point que conseguiu, mas Djokovic deu o troco imediatamente depois. O suíço ainda conseguiu dois set points no 12º game, mas o #1 se salvou com dois ótimos saques abertos. No tie-break, Djokovic foi perfeito. Iniciou o game com uma passada espetacular quase por fora da rede, abriu 4/1 vencendo um rali duríssimo de 22 golpes e fechou em 7/1.

Os sete set points

A segunda parcial foi igualmente parelha, mas com papéis invertidos. Desta vez, foi o suíço que salvou set point antes do game de desempate. Nole novamente fez um game de desempate impecável e chegou a abrir 6/3. Teve, inclusive, o set point no 6/5, em seu serviço, mas não aproveitou. Federer salvou um set point atrás do outro e até evitou mais um no serviço do adversário. Djokovic cometeu sua única falha grave no 10/10, jogando um forehand afobado na rede. O suíço, então, subiu à rede no 11/10 e empatou o jogo depois de salvar sete set points.

As cenas no intervalo deixam bastante claro que o número 1 do mundo tinha plena consciência das chances desperdiçadas e de quanto o jogo se complicaria.

A chuva que não mudou nada

A Quadra Central, que fez um barulho absurdo durante os 15 minutos do tie-break e festejou muito a parcial vencida por Federer (sim, a maioria torcia pelo suíço), ainda se recuperava dos momentos de tensão quando aconteceram os lances mais importantes do terceiro set. Primeiro, quando o #2 brilhou ao sair de um 15/40 no game inicial. Depois, com o sérvio salvando um break point. Por fim, com Federer cometendo seu erro mais bobo logo em um lance tão importante. Ao jogar para longe uma direita fácil, alta e perto da rede, o suíço perdeu o saque no terceiro game e viu o atual campeão abrir vantagem.

Os primeiros pingos – bem finos – apareceram no meio do quarto game. Não demorou para que a partida fosse interrompida. Como a previsão era de chuva passageira, a organização preferiu não fechar o teto retrátil, o que faz sentido. As regras dizem que o jogo deve seguir com teto fechado até o fim, e o ideal é sempre manter as características originais de jogo. Afinal de contas, Wimbledon, como os outros três torneios do Grand Slam, é um torneio outdoor.

A interrupção durou cerca de 15 minutos, e nada mudou quando os tenistas voltaram. Djokovic só perdeu dois pontos no serviço até o fim do set a aproveitou a vantagem. O #1 fez 6/4 e voltou a abrir vantagem.

As devoluções massacrantes

Quando o quarto set começou, Djokovic estava em um nível acima do de Federer. O suíço tentou um pouco de tudo, mas não encontrou uma tendência que lhe favorecesse consistentemente. Fugir do backhand e atacar o direita de Djokovic permitia o sérvio contra-atacar e pegar Federer na corrida o tempo quase inteiro. Atacar de dentro para fora dava ao número 1 a opção da paralela de backhand. Com Nole afundando a bola o tempo inteiro, subir à rede era arriscado demais.

Durante o torneio inteiro, se nada funcionasse, Federer tinha a eficiência do saque para manter-se no jogo. Só que contra Djokovic nem isso dava ao suíço uma zona de conforto. As devoluções do número 1 estavam calibradíssimas, tanto quando buscavam a linha de base quanto com o suíço subindo à rede.

E não era Federer sacando mal. O suíço foi quebrado quando tinha cerca de 80% de aproveitamento de primeiros serviços. No fim, buscou mais aces – consequentemente errando mais – e, ainda assim, terminou o último set com respeitáveis 67%. A diferença estava nas devoluções de Djokovic, que destruíram a principal arma do adversário no torneio. O match point é o melhor exemplo.

This is the moment Novak Djokovic became a three-time #Wimbledon champion.

Posted by Wimbledon on Sunday, July 12, 2015

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O bom perdedor

Um dos melhores momentos do dia foi ver Roger Federer na Quadra Central, após o fim da partida, dando todos os méritos do mundo a Djokovic. “Novak jogou um grande tênis não só hoje, mas nas duas semanas inteiras, em todo o ano, mais o ano passado, mais o ano anterior, então ele merece. Parabéns, Novak.”

O comedor de grama

Djokovic fez pela primeira vez em 2011, quando levantou o troféu pela primeira vez em Londres. Desde então, vem repetindo a cena. Não podia ser diferente neste domingo. Depois de fechar o jogo, o sérvio se agachou e provou um pedacinho minúsculo do piso da Quadra Central. Na entrevista, ainda brincou e disse que a grama tinha ótimo gosto.

A transmissão

Ao fim do torneio, faz-se necessário um elogio à transmissão da ESPN, que sublicenciou os direitos de transmissão do SporTV e acabou mostrando muito mais quadras e jogos do que o canal concorrente. Fez um negócio da China. Não acertou em tudo, é verdade. Volta e meia, um comentarista despreparado compromete a transmissão. Um exemplo: Osvaldo Maraucci, que passou a maior parte do tempo na ESPN+, comentou a final de duplas sem saber identificar Rojer e Tecau. Passou mais de um set chamando um pelo nome do outro.

Felizmente, os Fernandos (Nardini e Meligeni) dão conta do recado na ESPN, que mostrou os jogos mais relevantes. O mais importante de tudo, entretanto, foi constatar que o canal fez esforço para disponibilizar um grande número de jogos e passar muita informação – junto com o programa diário Pelas Quadras, à noite.

O golpe de misericórdia foi o encerramento da transmissão. Enquanto o SporTV já havia encerrado seus trabalhos, a ESPN seguiu no ar, mostrando Novak Djokovic dentro do All England Club, recebendo os parabéns dos convidados especiais, dando autógrafos e acenando para os fãs.

A câmera que acompanhava o sérvio pelos corredores mostrou ainda um longo abraço do campeão e sua esposa, Jelena. Enquanto isso, Roger Federer passava de cara fechada ao lado do casal. Um momento impagável.

O top 10

O ranking fica assim após o encerramento de Wimbledon:

1. Novak Djokovic: 13.845
2. Roger Federer: 9.665
3. Andy Murray: 7.810
4. Stan Wawrinka: 5.790
5. Kei Nishikori: 5.525
6. Tomas Berdych: 5.140
7. David Ferrer: 4.445
8. Milos Raonic: 3.810
9. Marin Cilic: 3.540
10. Rafael Nadal: 3.000


Nadal: ascensão, queda e teorias apocalípticas
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Alexandre Cossenza

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Have you heard what they said on the news today?
Have you heard what is coming to us all?
That the world as we know it will be coming to an end
Have you heard, have you heard?

Em dez anos, nove títulos em Roland Garros. Em 94 jogos no saibro disputados em melhor de cinco sets, 93 vitórias. Em 13 temporadas inteiras como profissional, 46 títulos na terra batida. Ano após ano, Rafael Nadal estabeleceu padrões mais altos e mais difíceis de serem igualados – e, claro, superados. Inevitavelmente, chegaria a hora do retorno ao mundo dos mortais. Aconteceu com Sampras e Federer que reinaram absolutos em Wimbledon por anos. Aconteceu, em outros momentos e locais, com Agassi, Guga, Hewitt… Chegou a vez de Rafa Nadal.

A temporada 2014 já foi um tanto incomum para o espanhol. Acostumado a atropelar no saibro europeu, chegou a Roland Garros amargando derrotas para habituais fregueses em Monte Carlo e Barcelona. Também teria perdido em Madri, não fosse uma lesão de Kei Nishikori na decisão. Em Paris, contudo, Nadal renasceu e levantou o troféu. Eneacampeão. Feito fantástico, dos mais raros na história. Conquista que só aumentou seu mito e sua lista de inatingíveis.

Pois veio 2015, e os resultados não vieram outra vez. Desta vez, o ex-número 1 tombou até no Rio de Janeiro. Oscilou durante todos torneios no saibro europeu até que, vítima de seu ranking (#7 do mundo), precisou encarar Novak Djokovic nas quartas de final em Roland Garros. Invicto há 26 jogos, o sérvio só foi ameaçado na primeira parcial. Aplicou 7/5, 6/3 e 6/1 de forma retumbante, de forma a deixar o mundo do tênis se questionando se havia chegado o fim para o Rei do Saibro.

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É compreensível que o fim (ou a interrupção?) do reinado em Paris seja um momento simbólico. O Grand Slam do saibro, em cada temporada, sempre marcou o auge do tênis do espanhol. Logo, um revés como o desta quarta-feira chama atenção. Vale apontar, entretanto, que nada aconteceu de um dia para o outro. Os sinais já estavam todos à mostra no ano passado. Talvez o título de 2014 tenha embaçado os olhos de todos – o que também é compreensível. A mística era enorme. Parecia fácil acreditar que Nadal ascenderia a um nível extraterrestre anualmente em abril e maio. Se Djokovic não o fez no ano passado, escancarou as janelas, levantou o tapete e fez o mundo acordar desta vez com as trombetas dos sete anjos.

Não, Nadal não mostra o nível dominante de 2013 (ou de 2008 ou de 2010) desde o US Open daquele ano. E é bem provável que com Djokovic jogando um tênis obsceno e a geração de Kyrgios, Kokkinakis e Coric crescendo rapidamente, o espanhol nunca volte a reinar absoluto no circuito. Dizer isto não é afirmar que Nadal jamais será número 1 outra vez ou que não vencerá mais nenhum Slam. Federer não reina soberano desde 2007, mas já venceu um punhado de Majors e esteve no topo duas vezes desde então. O suíço, inclusive, esteve perto de ser número 1 ano passado, mesmo sem um título de Slam no seu ranking. Não é o fim do mundo. Imagino que seus fãs não tenham muito a se queixar hoje em dia.

O grande ponto de interrogação para os seguidores de Rafa Nadal não é a dedicação ou o foco. Quem viu pelo menos um par de jogos nos últimos dois meses pôde constatar as expressões de insatisfação durante as partidas. Houve pontos fáceis perdidos, chances desperdiçadas, saques quebrados e viradas cedidas. As portas que Nadal sempre trancou para os adversários este ano pareciam presas por pedaços de papelão dobrados no improviso. Mesmo à frente no placar, o ex-número 1 muitas vezes pareceu frágil, errático e inseguro. Virou vítima de si mesmo e alimentou a confiança de oponentes que nunca haviam experimentado enfrentá-lo em condições assim. “Vulnerável” era a palavra da vez.

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Nadal já indicou aqui e ali que sua condição física não é a mesma. Em uma e outra entrevistas, disse que gostaria de ter as pernas de dez anos atrás. Normal. Como acontece na carreira de qualquer atleta, chega o momento em que o tênis ultrapassa sua velocidade. Aconteceu com a geração de Agassi e Sampras, com a de Guga, a de Hewitt, a de Federer e vai acontecer com Djokovic e Murray, outros expoentes da faixa etária de Nadal. Quem tem muito talento sobrevive no topo por mais tempo (vide Federer). Quem não tem tantas armas fica para trás (vide Hewitt).

O que não se sabe é o quanto Rafael Nadal mudou seu jogo por causa disso. Está bem claro que desde 2013 o espanhol vem jogando de forma mais agressiva, atacando mais do que fez nos anos em que conquistou a maioria de seus títulos. De certa forma, forçou-se a sair da zona de conforto, o que é um comportamento admirável para qualquer atleta. Mas o provável é que Nadal não vá revelar o quanto seu corpo pediu essa mudança ou em que proporção seu “novo” tênis é consequência apenas da vontade de evoluir. Qualquer resposta, hoje em dia, soa como especulação. O ex-número 1 não deve abrir essa caixa-preta.

O que parece certo é que, mesmo diante de todas as dúvidas, Nadal seguirá tentando se reinventar, encontrando um equilíbrio entre seu jogo ofensivo, de riscos, e o tênis seguro, de porcentagem, que mostrou durante a maior parte da carreira. Rafa testou brevemente uma nova raquete em Monte Carlo, mas desistiu porque chegaria a Roland Garros com pouco tempo para se habituar a ela. Pode ser uma opção. Deve haver outras nos planos do Tio Toni.

Desde que venceu seu primeiro Slam, em 2005, Nadal desenvolveu um saque respeitável (em Roland Garros, igualou o de Djokovic em velocidade), voleios eficientíssimos, slices confiáveis e um perigoso backhand cruzado. E, claro, a potência de seu forehand só aumentou nos últimos dez anos. Com 29 anos, parece ingênuo imaginar que não há espaço (ou vontade) para Nadal evoluir e continuar como forte candidato ao título em qualquer torneio que dispute.

A quem tem dúvidas, vale ver a entrevista concedida em espanhol após a derrota para Djokovic. Embora de cabeça baixa durante a maior parte do tempo, Nadal foi incisivo em dois momentos. Primeiro, disse que está “como número 10 (do ranking) tendo seis meses a menos no computador e jogando muito mal nesses seis meses. Meu nível é melhor do que isto. E vou estar melhor do que isto.” No fim, ressaltou: “Espero competir em Roland Garros de novo e competir para ganhar. Não competir por competir.” Convém não duvidar.

When they found them, had their arms wrapped around each other
Their tins of poison laying near by their clothes
The day they both mistook an earthquake for the fallout,
Just another when the wild wind blows…


O Sétimo Selo de Djokovic
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Alexandre Cossenza

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Que soem as sete trombetas dos sete anjos. É o Juízo Final. Ou quase isso. Novak Djokovic precisou de sete tentativas, mas finalmente provocou o tão sonhado, tão demorado e quase-apocalíptico-resultado: uma derrota de Rafael Nadal em Roland Garros. Nesta quarta-feira, o sérvio deixou para trás as seis tentativas frustradas e fez 7/5, 6/3 e 6/1, registrando apenas o segundo revés da carreira do espanhol em 11 (!) participações no torneio. Agora, Nadal tem 93 vitórias e duas derrotas na carreira em partidas jogadas no saibro em melhor de cinco.

Enquanto Djokovic fica a duas jogos de fechar o Career Slam (vencer os quatro maiores torneios do circuito, mesmo que em temporadas diferentes), talvez seja um momento interessante para rever tudo que o atual número 1 do mundo passou antes de finalmente derrubar o maior campeão de Roland Garros.

Seven deadly sins
Seven ways to win
Seven holy paths to hell
And your trip begins

1. 2006

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A primeira tentativa de Djokovic aconteceu nas quartas de final, e terminou da pior maneira possível: superado por 6/4 e 6/4 e abandonando a partida ao alegar uma lesão nas costas. Além de ter aquele encontro lembrado durante muito tempo por fãs raivosos que o acusaram (ainda acusam) de fingir lesões, o sérvio, então número 63 do mundo, disse que tinha o controle daquele jogo – apesar do placar. Repercutiu muito mal. O famoso técnico Brad Gilbert, na época, debochou de Nole. Disse que viu outra partida. Uma com um peso pesado (Nadal) contra um peso médio (Djokovic). O episódio está no vídeo abaixo:

2. 2007

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Já no top 10, Djokovic teve outra chance para colocar em prova seu “domínio” do ano anterior. Desta vez, chegou com discurso humilde. “Ele é um grande favorito contra qualquer jogador nessa superfície”, disse o sérvio na última coletiva antes do duelo. Dito e feito: em 2h28min, Nadal fez 7/5, 6/4 e 6/2 na semifinal e avançou para derrotar Federer na decisão, levantando o troféu francês pela terceira vez (melhores momentos aqui e aqui).

3. 2008

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A terceira chance nem foi propriamente uma chance. Porque ninguém naquele ano teve chance. O jogo durou 2h49min (lembram quando Nadal levava décadas entre um saque e outro e Djokovic quicava a bola incessantemente antes de iniciar os pontos?), mas o espanhol ganhou confortavelmente: 6/4, 6/2 e 7/6(3). Teria sido mais rápido se não tivesse perdido o saque no 5/4. Prestes a subir ao posto de número 1 do mundo, Nadal venceu aquele torneio sem perder um set sequer. Federer sofreu um pneu e lhe tirou apenas quatro games na final. E Djokovic, vale dizer, foi quem mais deu trabalho.

4. 2012

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Um par de derrotas precoces de Djokovic (2009 e 2010) e uma inesperada volta de Federer à decisão em Paris (2011) fizeram com que o sérvio tivesse de esperar quatro anos por mais uma partida contra Nadal. E aquele jogo de 2012 foi cheio de novidades. Nole nunca havia enfrentado o rival em Roland Garros como dono do posto de número 1 do mundo. Era também o primeiro encontro dos dois em uma final. E o sérvio, então, já era campeão em Melbourne, Londres e Nova York. Faltava-lhe apenas Paris para completar o Career Slam.

Havia muito em jogo naquela partida. Diferentemente da temporada anterior, quando sofreu reveses em Roma e Madri, o espanhol chegou a Paris vindo de vitória sobre o rival na Itália e com a confiança renovada.

O jogo foi tenso, com Nadal abrindo 2 sets a 0, mas Djokovic cresceu e chegou a vencer oito games seguidos à medida em que a chuva fina deixava a quadra mais úmida e pesada. A partida foi paralisada no quarto set, com o sérvio uma quebra à frente. Na segunda-feira, com a quadra seca, Nadal quebrou de volta no primeiro game do dia e mandou na partida até fechar em 6/4, 6/3, 2/6 e 7/5.

5. 2013

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Djokovic ainda liderava o ranking, mas a temporada tinha o nome de Rafael Nadal. O espanhol, que fazia uma volta fulminante ao circuito, já acumulava os títulos de São Paulo, Acapulco, Indian Wells, Barcelona e Madri. De fevereiro a maio, só um tenista havia conseguido derrotá-lo: Djokovic, em Monte Carlo (outro jogo que aconteceu em quadra bastante pesada).

Como o espanhol era só o número 4 do mundo, os dois se encontraram nas semifinais em Paris. E que semifinal! Nadal sacou para o jogo no quarto set, mas perdeu o serviço e viu Djokovic vencer a parcial. No quinto, o sérvio tinha 4/2 de vantagem, mas o (então) heptacampeão reagiu – graças parcialmente a um acidental toque na rede do número 1 no sétimo game. No fim, com um punhado de golpes espetaculares, Nadal exigiu bastante do sérvio, que começou o último game errando um smash e não se recuperou (o vídeo abaixo mostra tudo isso).

No fim, depois de 4h37min, o espanhol venceu o segundo mais espetacular jogo (depois da final de Melbourne/2012, claro) contra o rival por 6/4, 3/6, 6/1, 6/7(3) e 9/7 e avançou para derrotar David Ferrer em três sets rotineiros na decisão.

6. 2014

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O cenário era, de certo modo, oposto ao do ano anterior. Nadal era o número 1, mas Djokovic vinha melhor na temporada, inclusive derrotando o espanhol nas finais de Miami e Roma. A decisão de Roland Garros valia o posto de número 1 do mundo, e o sérvio começou melhor, vencendo o set inicial. Só que o dia era muito quente e a quadra fazia as bolas ganharem bastante altura. Melhor para Nadal, que conseguiu uma quebra no 12º game do segundo set e, depois, se aproveitou de uma queda física de Djokovic. Venceu em 3h31min por 3/6, 7/5, 6/2 e 6/4 para conquistar o eneacampeonato.

Seven downward slopes
Seven bloodied hopes
Seven are your burning fires
Seven your desires…

Coisas que eu acho que acho:

– O fim do jogo foi meio anticlimático. Uma vitória tão esperada, que seria muito celebrada em anos anteriores, foi festejada de forma comedida pelo sérvio. Sem camisa rasgada, sem se jogar no chão, nada. A verdade é que o número 1 esteve em quadra em um nível muito mais alto do que o espanhol. Os três sets a zero refletiram bem a diferença entre os dois hoje em dia.

– Foi valente a luta de Nadal nos dois sets iniciais (perdia por 4/0 e salvou cinco set points antes de sucumbir na primeira parcial). No terceiro, Djokovic já jogava mais solto e o quadro não demorou a se decidir. Sobre o espanhol e seu momento, deixarei a análise para um post futuro. Talvez antes das semis, talvez depois do torneio. Não prometo uma data.


Djokovic contra Nadal: agora ou nunca?
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Alexandre Cossenza

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Parecia inevitável quando o torneio começou, e ambos mostraram por que nos últimos nove dias. Novak Djokovic, número 1 do mundo, vai mesmo enfrentar Rafael Nadal, nove vezes campeão de Roland Garros, nas quartas de final do torneio parisiense. O sérvio, buscando o único título de Grand Slam que lhe falta, terá o que muitos avaliam como sua melhor chance de encerrar/interromper o reinado do espanhol no torneio. Se acontecer, será a primeira vez desde 1992 que um homem vencerá os dois primeiros Majors de uma temporada (leia-se: “não se falará em outra coisa” e “a pressão será monstruosa em Wimbledon”).

No entanto, enquanto o jogão não acontece, vejamos o cenário das quartas de final masculinas e quem são somais cotados para avançar às semifinais.

[1] Novak Djokovic x Rafael Nadal [6]

Duas campanhas quase impecáveis até agora. O sérvio, em uma chave que lhe era bastante favorável, aproveitou. Passou por Nieminen, Gilles Muller, Kokkinakis e Gasquet sem perder sets. Tirando um soluço no segundo set da estreia, jogou como e quando quis. Enquanto isso, Rafael Nadal pouco lembrou a turbulenta série de torneios pré-RG. Passou por Halys, Almagro, Kuznetsov e Sock. Mostrou,inclusive, consistência admirável contra Almagro (jogo perigoso que Nadal fez ficar fácil) e só bobeou no terceiro set contra Sock, embora tenha vencido com tranquilidade as outras três parciais.

Pela série de 26 jogos sem perder e pelo momento mais vulnerável do rival, Djokovic entra como favorito. Há, inclusive, quem diga tratar-se de uma daquelas situações “agora ou nunca” para o número 1. A lógica é a seguinte: o sérvio esteve perto de derrubar Nadal na semifinal de 2013 e entrou cotadíssimo na decisão de2014. Se não vencer desta vez, em condições tão favoráveis, pode carregar o trauma para os próximos anos em Roland Garros. Não sou tão radical. A derrota em 2013, num quinto set longo, foi doída o bastante. Além disso, Nole já tombou diante de Nadal seis vezes em Paris. Se, depois disso tudo, ainda se coloca tão fortemente como favorito, é porque não leva esse fardo nas costas. Nem levará no caso de um novo revés (que parece improvável) este ano.

O que parece indiscutível, sim, é o status deste jogo como “a melhor chance da vida” para chegar ao título do torneio. Ainda que não seja a final de Roland Garros, Djokovic nunca se viu em momento tão bom diante de Nadal em Paris. Ao mesmo tempo, nunca encontrou o espanhol enfrentando as dúvidas desta temporada. A oportunidade é, de fato, enorme.

A observar: condições climáticas costumam fazer diferença nos duelos entre Nole e Rafa. No saibro, quadra mais pesada e tempo nublado favorecem Djokovic (vide RG/2012). Nadal prefere sol e quadra seca, com a bola ganhando altura após seus forehands cheios de spin (vide RG/2014).
Meu palpite nada convicto: Djokovic em quatro.
Nas casas de apostas: Djokovic paga 1,32 / Nadal paga 3,42

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[3] Andy Murray x David Ferrer [7]

O britânico faz a melhor temporada de sua carreira no saibro. O espanhol, como sempre, chega às fases finais sem chamar muita atenção. Murray ainda não perdeu na terra batida este ano e já soma dois títulos (Munique e Madri) e 14 vitórias. Em Roland Garros, oscilou pouco, mas jogou bem na única partida realmente perigosa que fez até agora: contra Kyrgios, quando cedeu apenas nove games. Ferrer, no entanto, será um teste enorme para a regularidade e, principalmente, a agressividade do escocês. Se triunfar, Môri anotará sua primeira vitória no saibro (em cinco jogos) sobre o oponente. É possivelmente o jogo mais difícil de prever nas quartas, e as cotações das casas de apostas refletem isso.

A observar: todos conhecem bem a consistência de Ferrer. A diferença deve ser feita pelo nível de Murray. Caso saque bem e opte por um jogo agressivo, suas chances aumentam. Se aceitar o jogo da linha de base e preferir colocar-se sempre dois passos atrás da linha de base, Ferrer leva vantagem.
Meu palpite nada convicto: Murray em cinco
Nas casas de apostas: Murray = 1,43 / Ferrer = 2,83

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[5] Kei Nishikori x Jo-Wilfried Tsonga [14]

Entre todos os oito vivos na chave masculina de Roland Garros, Nishikori é o mais cotado a avançar às semifinais. O motivo? Seu adversário. Poucos esperavam que Jo-Wilfried Tsonga chegasse aí – o que aconteceu muito graças a uma atuação abaixo da média de Tomas Berdych, que lidou mal com as condições climáticas (muito vento e quadra pesada) e ficou pelo caminho. Tsonga, que vinha de vitórias previsíveis sobre Lindell, Sela e Andújar (nem tanto), aproveitou. O momento de Nishikori, no entanto, é ótimo. E a maré ajudou. Além de cair numa chave fácil, contou com um WO na terceira rodada e pegou o azarão Gabashvili nas oitavas. Chega inteiro fisicamente e com um jogo muitíssimo bem adaptado ao saibro.

A observar: a única maneira que consigo imaginar Tsonga saindo vitorioso é com um começo de jogo fulminante, com um saque calibradíssimo ou com uma torcida barulhenta mexendo com a cabeça de Nishikori (de preferência, com os três acontecendo ao mesmo tempo). Talvez seja pedir muito.
Meu palpite nada convicto: Nishikori em quatro
Nas casas de apostas: Nishikori = 1,27 / Tsonga = 3,80

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[8] Stan Wawrinka x Roger Federer [2]

Federer vem de uma vitória maiúscula sobre Gael Monfils, e Wawrinka faz um torneio irretocável, enfatizado pelo triunfo diante do traiçoeiro Gilles Simon, que só faturou sete games em três sets. No entanto, o que sobra de talento no duelo suíço costuma faltar em imprevisibilidade. inclusive nos últimos dois anos, período em que Wawrinka se afirmou como top 10. De 2013 até hoje, Stan só conseguiu uma vitória em cinco jogos. O último encontro, então, foi uma decepção. Após eliminar Nadal (com direito a uma espetacular virada num tie-break), Wawrinka mostrou-se descalibrado e pouco ofereceu resistência. Stan tem, claro, as armas para derrubar o compatriota, mas é azarão aqui porque não consegue usá-las com a frequência necessária.

A observar: para Wawrinka, é essencial segurar Federer no fundo de quadra, mandando nas trocas com a esquerda e matando os pontos com o backhand na paralela. Não é lá tão fácil. Imagino o número 1 suíço aproveitando qualquer chance para usar slices e subir à rede, tirando Stan de sua zona de conforto.
Meu palpite nada convicto: Federer em cinco
Nas casas de apostas: Federer = 1,40 / Wawinka = 2,97


Sobre balões, doppelgangers e favoritismo
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Alexandre Cossenza

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Mais uma semana no saibro, mais um título de Novak Djokovic, mais uma atuação abaixo do esperado de Rafael Nadal. O Masters 1.000 de Roma teria sido mais interessante se Andy Murray não tivesse abandonado e se Stan Wawrinka tivesse dado as caras na semifinal, mas há, assim mesmo, um bocado de pontos interessantes a levantar sobre os últimos dias.

Novak Djokovic terminou o torneio de forma espetacular. Deu respostas a tudo que Federer tentou. Fez curtinhas, devoluções vencedoras e sacou como nunca. Sua velocidade lateral e seus contragolpes foram muitos e com muita frequência para o suíço. Como sempre, Nole também usou ângulos magistralmente, conseguindo manter o rival na defensiva em muitos momentos. Não foi uma semana perfeita, mas foi uma final fantástica do sérvio.

Em números, Djokovic agora tem 22 vitórias seguidas no circuito – e são 37 se contarmos apenas os torneios de nível mais alto (Masters, ATP Finals e Grand Slams). O número 1 do mundo venceu todos Masters que jogou em 2015 (Indian Wells, Miami, Monte Carlo e Roma) e chegará a Roland Garros invicto no saibro, mais favorito do que nunca a completar seu Career Slam (todos os títulos de Grand Slam, mesmo que em temporadas diferentes).

Nole perdeu sets em três jogos na semana, mas em apenas um teve de correr atrás. Foi contra Thomaz Bellucci, que fez uma belíssima apresentação durante a maior parte do tempo. Sobre essa partida em especial, vale destacar o momento em que, no começo do segundo set, Djokovic resolveu usar bolas mais altas e mais lentas. Fez isso uma vez e ganhou o ponto (vejam no vídeo abaixo). E, coincidência ou não, foi naquele mesmo game que o sérvio quebrou o serviço Bellucci pela primeira vez, iniciando a virada. A partida tomou um rumo diferente a partir dali.

Balões não são um meio de vida nesse nível. Tanto que Djokovic tentou o mesmo no ponto seguinte e levou um winner. Mas variar peso e altura de bola, especialmente se o oponente se mostra confortável do fundo de quadra, é um recurso interessante. Possivelmente não teria funcionado por muito tempo. Deu, no entanto, o resultado que Nole precisava naquele momento. Leitura de jogo e mudanças táticas são qualidades um tanto menosprezadas em tenistas tão talentosos como o sérvio. Ainda há quem o considere um robô devolvedor de bolas. Bobagem (e Djokovic já seria espetacular se fosse “só” isso). Inteligência e variação ganham jogo. E o atual número 1 é o tenista mais completo da atualidade.

Sobre Thomaz Bellucci, as três últimas semanas são animadoras. Fez quartas de final em Istambul, furou o quali e avançou uma rodada em Madri, e foi uma fase ainda mais longe em Roma. Bons resultados, ainda que com um par de chances desperdiçadas pelo caminho (escrevo o post antes do ATP de Genebra).

Talvez seja mais interessante basear o otimismo no conjunto das três semanas e não na atuação diante de Djokovic. Bellucci, afinal, tem um quê de doppelganger. Não é de hoje que o paulista faz partidas excelentes contra grandes tenistas como Nole, Federer e Nadal, mas também sofre com atuações bem abaixo do esperado contra adversários com menos recursos. Vale lembrar que sua última partida contra o sérvio (aquela excelente semifinal de Madri/2011) foi seguida de um revés diante de Paolo Lorenzi, então número 148 mundo. Logo, cabe uma pitada de cautela nesse otimismo bellucciano pré-Roland Garros.

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O curioso sobre o cenário do saibro este ano é que, segundo a maioria das casas de apostas, Andy Murray é o terceiro mais cotado ao título do Grand Slam parisiense. O escocês, afinal, chegará à capital francesa invicto no piso – ganhou Munique e Madri e desistiu em Roma alegando cansaço (méritos por não usar o cada vez mais popular recurso de inventar uma lesão). Está em boa fase e tem tantas armas que candidata-se seriamente ao título – pela primeira vez.

Federer é o quarto e, às vezes, o quinto nome nas casas de apostas (há quem coloque Nishikori à sua frente na lista de favoritos). Ninguém duvida que o suíço seja capaz de ir longe em Paris, mas derrotar Djokovic ou Nadal em uma melhor de cinco sets no saibro parece menos provável a cada dia. Apesar do ótimo resultado em Roma, Federer ainda é quem mais oscila nesse grupo de cima.

O segundo nome mais cotado ainda é o de Rafael Nadal. Pesa, nitidamente, o histórico de nove títulos em Paris. Entra nessa conta também o fato de Roland Garros ser disputado em melhor de cinco sets, onde sua consistência costuma fazer diferença. Ah, sim: para muitos, falta pouco para o espanhol reencontrar o caminho até as vitórias. Nas últimas três derrotas, jogou um belíssimo tênis em alguns momentos. Faltou, porém, encaixar sequências e aproveitar as quebras de vantagem que teve contra Fognini e Wawrinka. Nadal ainda terá uma semana até o começo de Roland Garros e, provavelmente, outra semana para calibrar seu jogo até encontrar os adversários mais fortes da chave.

O ponto de interrogação continua e, com Nadal em sétimo lugar no ranking, o sorteio da chave de Roland Garros pode fazer uma diferença enorme no resultado final. Resta esperar até lá.


Bônus de Nadal
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Alexandre Cossenza

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“O homem é um monstro. Ele não deu uma, não. Ele deu três raquetes. O cara é sensacional mesmo.” Foi assim que Marcelo Ruschel recebeu, via WhatsApp, a notícia na voz de Bruno Soares. Lembram que uma semana atrás Rafael Nadal havia prometido uma raquete para ajudar o projeto social WimBelemDon? Pois é… Quando encontrou o mineiro em Miami, o ex-número 1 do mundo entregou logo três raquetes e três camisas de jogo. Todas peças, claro, autografadas.

“Raquete nova, último modelo, zerada, autógrafo no cabo, nome dele na raquete… Tudo. Tudo. Sensacional, cara. Fiquei até pasmo quando ele veio com três. Fenômeno. Fenômeno”, contou Soares. A notícia realmente boa é que uma das raquetes já foi arrematada por R$ 25 mil – valor que logo deve entrar na soma do crowdfunding – a vaquinha virtual – Fixando Raízes promovido por Marcelo Ruschel para manter vivo seu projeto social. O fotógrafo gaúcho precisa de R$ 390 mil para comprar o terreno onde mantém as atividades do WimBelemDon. Até a manhã desta terça-feira, o total arrecadado somava pouco mais de R$ 110 ml.

Conversei com Ruschel na tarde desta segunda-feira, e o gaúcho já se mostrava muito mais otimista do que no nosso papo anterior, cerca de três semanas atrás. Com as raquetes estipuladas a R$ 25 mil cada (valor sugerido por Gustavo Kuerten) e as camisas a R$ 5 mil (uma delas também já foi arrematada), o projeto pode conseguir cerca de 25% do valor do terreno só com as peças cedidas por Nadal.

“Eu me sinto muito mais próximo do terreno. Agora já não tenho dúvida de que a gente vai conseguir”.

Mas tem mais. Os dias do Masters de Miami foram generosos com o fotógrafo. Além da ajuda do ex-número 1 do mundo, Ruschel vai receber duas raquetes de Marcelo Melo, mais duas de Thomaz Bellucci e outra do uruguaio Pablo Cuevas. E Bruno Soares, o encarregado de juntar tudo isso, ainda promete tentar a sorte com Andy Murray, Novak Djokovic e Tomas Berdych. Que tenha sorte?

Não conhece a história do WimBelemDon? Leia este post e fique por dentro.
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Dentro de quadra

A simplicidade que Rafael Nadal mostrou com um projeto social brasileiro está longe daquela que foi sua marca no circuito durante tanto tempo. Até agora, o espanhol faz uma temporada irregular, com ótimas atuações separadas por um punhado de partidas medianas e até um dia desastroso como o do último domingo, que terminou em derrota para o freguês Fernando Verdasco.

Na coletiva após o jogo, Nadal admitiu que não vem jogando com a calma necessária. Os momentos de nervosismo, que não eram muitos até alguns anos atrás, foram mais frequentes do que o desejado em 2015. O resultado traduz-se em muitas bolas sem profundidade, mais duplas faltas do que de costume e erros não forçados. O primeiro saque também vem deixando a desejar, bem distante do nível que Nadal atingiu em 2010 e 2013, quando ganhou o US Open.

Há quem veja a chegada da temporada de saibro como o momento em que Nadal finalmente vai combinar seu costumeiro tênis de altíssimo nível com uma atitude mental mais estável. É preciso lembrar, porém, que o espanhol já não fez uma bela temporada no saibro europeu em 2014 nem mostrou nada de especial em 2015, quando caiu na semifinal no Rio de Janeiro (perdeu para Fabio Fognini) e foi campeão em Buenos Aires (jogando apenas contra argentinos).

Não se pode deixar de levar em conta que, talvez por opção, talvez por necessidade e mais provavelmente por uma combinação de ambos, Nadal tenta jogar um tênis muito mais agressivo hoje em dia. No saibro, ele ainda opta por um estilo de menos risco – mas nem tanto. Na quadra dura, contudo, a estratégia não funciona consistentemente desde o US Open de 2013. Até no Australian Open do ano passado, quando avançou à final, Nadal teve atuações irregulares (sim, uma bolha na mão e a lesão nas costas tiveram sua parcela de culpa).

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A grande questão que parece incomodar o ex-número 1 é um dilema antigo, vivido por tantos e tantos tenistas que tentam sair de um tênis de porcentagem para um estilo mais agressivo. Atacar mais significa errar mais e, consequentemente, dar mais pontos de graça. O ponto é que nem todos tenistas se mostram mentalmente prontos para ceder tanto a um adversário. A nova postura exige um condicionamento psicológico. A margem para dias ruins diminui, e o número maior de erros frequentemente abala a confiança (e a tranquilidade!) de um atleta.

Mentalmente, jogar um 30/30 depois de dar dois pontos de graça é bem diferente de disputar um ponto com o mesmo placar, mas sabendo que o oponente teve de lutar pelos dois pontos que conquistou. O raciocínio do atleta deixa de ser “ele não vai conseguir jogar quatro pontos nesse nível” para “já dei dois pontos de graça, não posso errar mais.” Talvez não pareça tanto para quem nunca disputou um torneio. Para quem vive disso, entretanto, é uma diferença e tanto.

Já aconteceu com Jelena Jankovic e, mais recentemente, com Caroline Wozniacki, embora em medidas diferentes. Mas o quanto essa mudança de mentalidade está afetando Nadal? Só ele pode dizer. Joga a favor do espanhol algo em que ele parece acreditar cegamente, como disse em Miami, depois de ser eliminado. “Não tenho nada a perder. Neste ponto da minha carreira, já ganhei o bastante para dizer que não preciso ganhar mais, mas quero ganhar. Quero continuar competindo bem. Quero continuar tendo a sensação de que posso competir em cada torneio que jogo. Tenho a motivação para isso.”


Zerou
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Alexandre Cossenza

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Eram 17 derrotas consecutivas. Uma das maiores sequências do tênis, mas também uma das mais difíceis de entender – ou explicar. Sim, Rafael Nadal é fantástico. E sim, o espanhol sempre encontrou uma maneira de não deixar Tomas Berdych à vontade o bastante para atacar do jeito que prefere.

Mas 17? Dezessete? Contra um tenista que tem todas as armas necessárias para derrotar qualquer um? Contra um um finalista de Wimbledon? Um cidadão que não sai do top 10 desde 2010? Sim, é um tanto difícil entender como uma das melhores devoluções do circuito encontrou tantos problemas (desde 2006!) diante de um segundo saque nada intimidador.

Só que Berdych não é só mais uma devolução bonitinha na sua TV. É um dos melhores saques, é uma direita reta potentíssima, é uma esquerda velocíssima e difícil de ler. Perguntem só a Roger Federer, que tem retrospecto negativo nos últimos nove jogos contra Berdych – desde 2010. Ou a Andy Murray, que perdeu seis das dez partidas que fez contra o tcheco de 29 anos.

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É claro que há explicações técnicas e táticas para a superioridade de Nadal. O tênis com mais margem de segurança e os contragolpes fulminantes sempre pesaram. E, amiúde, a rara consistência do fundo de quadra fritava um ovo na cabeça de Berdych, que não resistia mentalmente. Mas de “explicar a superioridade” a entender a enorme frequência da coisa… Não é minha ideia preferida de exercício. Prefiro fugir daquele urso na bicicleta da academia.

Só que o confronto desta vez tinha alguns elementos favoráveis ao, ahem, “azarão”. O Nadal de hoje, embora tão talentoso e veloz quanto sempre, investe em um tênis mais agressivo, com menos margem para erro. Talvez as seguidas lesões tenham cansado mentalmente o espanhol, que resolveu de vez não ficar mais em quadra por longos períodos. Talvez esteja sentindo que não consegue mais jogar tanto tempo na defesa. Talvez esteja sem paciência. Não importa o porquê. Eu divago.

O ponto é que o Nadal de hoje – pelo menos este das quadras duras, pré e pós-apendicite – é mais suscetível a dias ruins. E Berdych, sacando como nunca (ou como sempre!) e fazendo um grande torneio, só precisava de um diazinho abaixo da média do espanhol – aliás, escrevi sobre isso no dia em que Roger Federer foi eliminado. Berdych não parecia tão longe assim de interromper essa série.

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Assim, quando ficou claro que o melhor tênis de Nadal não passou pela portaria de Melbourne Park nesta terça-feira, Berdych assumiu o controle. E foi bonito de ver porque seu tênis é bonito de ver. Quando tudo se alinha para o futuro marido da dona Ester, Berdych é capaz de jogar de frigideira na mão e disparar winner sem quebrar ovo. Berdych resistiu, inclusive, à furiosa reação que Nadal sacou de algures no terceiro set. Salvou break points e matou o jogo no tie-break, quando tirou uma “daquelas” devoluções quando o placar mostrava 4/5.

A pergunta que se faz agora não é nova: Berdych está pronto para ganhar um Grand Slam? Não acho a pergunta tão injusta quanto a resposta que frequentemente leio. O tcheco, hoje com 29 anos, é quase sempre julgado como o tenista do quase. Como se fosse fácil furar o Big Four. Não é tão diferente assim do que se diz de Andy Murray. E, mais grave, costumam esquecer o retrospecto de Berdych.

Sim, o cidadão jogou uma final de Wimbledon, duas quartas e uma semi no Australian Open, além de semi e quartas no US Open. Em todos esses (seis!) torneios, Berdych foi derrotado pelo campeão. Nadal, Djokovic, Murray, Wawrinka e Cilic. Vale a pena mesmo rotulá-lo como perdedor? Talvez, não.

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Sem colar essa etiqueta, ou melhor, sem colar qualquer etiqueta (este blog é uma grande campanha antirrótulos), a questão que se faz agora é sobre o futuro de Berdych neste Australian Open. Parece, mais uma vez, uma boa chance de, finalmente, dar o passo que resta e conquistar um Grand Slam.

Dito isto, talvez não seja a melhor das chances. Andy Murray pode não ser o poster child de uma campanha em prol da aplicação de flúor em crianças (olha eu brigando contra os rótulos outra vez), mas vive momento raro. Neste ano, mostra tênis agressivo, confiança e consistência. Lembra mais o perigosíssimo Murray de 2012, campeão olímpico e do US Open, do que o do ano passado – aquele ainda buscava voltar do desvio forçado por uma cirurgia nas costas. E ainda restam Djokovic, Nishikori e Wawrinka do outro lado (Raonic é grande azarão) da chave. Será?

Por hoje, por enquanto, vale comemorar o passo a mais de Tomas Berdych. O tcheco zerou a sequência e zerou Nadal por nove games. Zerou o jogo.