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Rafa Nadal: contra as previsões, o primeiro penta pós-30 da Era Aberta

Alexandre Cossenza

09/09/2019 04h00

Em 2005, com apenas 19 anos, Rafael Nadal teve uma séria lesão no pé esquerdo que ameaçou a continuidade de sua carreira. Para seguir no tênis, teve de passar a usar palmilhas especiais. O acessório, porém, causou recorrentes problemas de joelho. O espanhol de Maiorca também sofreu, em diferentes momentos, com lesões no abdômen, no punho e na coxa. Até uma apendicite afetou sua carreira. Seu antigo estilo de jogo, baseado em muitas trocas de bola, não ajudava. Em muitas ocasiões, Nadal acumulava tempo excessivo em quadra e exigia demais do corpo. Era comum ouvir especialistas preverem uma carreira curta para o espanhol.

Os obstáculos físicos prejudicaram especialmente nos slams. De 2005 até hoje, Nadal precisou ausentar-se de do Australian Open em 2006 e 2013, ficou fora de Wimbledon em 2009 e 2016 e deixou de ir ao US Open em 2012 e 2014. Em certas ocasiões, sofreu lesões que o forçaram a abandonar durante os eventos. Aconteceu em Melbourne em 2010 e 2018, Roland Garros em 2016, e Nova York em 2018. Rafa também já jogou lesionado e ficou pelo caminho em alguns slams (AO/2011 e 2014, RG/2009, US/2009).

E, no entanto, depois disso tudo, Rafael Nadal é, desde a noite deste domingo, o primeiro tenista da Era Aberta a vencer cinco slams depois de completar 30 anos de idade. Desafiando as previsões – e uma séria lesão no punho em 2016, ano em que completou três décadas de vida – o espanhol foi campeão outras três vezes em Roland Garros (2017, '18 e '19) e duas no US Open (2017 e '19). No quesito, está à frente de Federer, 38 anos, que venceu quatro slams como trintão, e Djokovic, 32, que também levantou quatro troféus em torneios desse nível.

O número acima ficou meio escondido por causa de tudo que envolveu a final espetacular deste domingo, quando Nadal bateu Daniil Medvedev em cinco sets e 4h51min de jogo por 7/5, 6/3, 5/7, 4/6 e 6/4. Só que todas as variações, altos e baixos e pontos espetaculares dessa decisão deveriam dar ainda mais relevância a esse "penta" pós-30. Porque o Rafa de 33 que venceu o quarto US Open é um tenista fascinantemente superior ao Nadal de 24, que triunfou pela primeira vez em Nova York.

O Rafa de hoje é mais agressivo, joga ainda melhor junto à rede, tem um saque mais poderoso e continua taticamente inteligente e fisicamente forte. Medvedev foi um obstáculo tão admirável que tudo isso ficou óbvio em uma partida só. Primeiro porque o tênis do russo, com bolas mais chapadas e menos pesadas, forçou Nadal a jogar fora de sua zona de conforto. O veterano precisou usar mais slices, subir mais à rede, atacar ainda mais do que o normal e buscar mais as linhas contra um rival que se defendeu gloriosamente do início ao fim. Rafa foi preciso na maior parte do tempo e, nem assim, se desfez do russo.

O jovem de 23 anos também exigiu de Nadal física e mentalmente. Foi um teste de nervos porque Medvedev virou um terceiro set que parecia perdido e, com os devidos ajustes táticos (mais saques abertos e mais subidas à rede), mudou o momento do jogo. Forçou o quinto set e abriu a parcial decisiva com três break points. Nadal foi forte e se salvou de todos – inclusive quando foi punido por excesso de tempo e perdeu o primeiro saque – até, finalmente, disparar no placar.

O tabuleiro, então, mostrava o seguinte cenário: Nadal, que venceu 206 jogos e perdeu apenas um em slams depois de abrir 2 sets a 0, sacava em 5/2, com duas quebras de vantagem, no quinto set. Jogo definido, certo? Longe disso. Medvedev ainda tinha energia e tênis para resistir. Devolveu uma quebra, salvou dois match points com seu saque e fez Nadal sacar em 5/4 e 30/40 depois de 4h de jogo.

Rafa, que parecia um mero mortal nesse momento, jogou três pontos perfeitos – inclusive uma curtinha que caminhou indecisa sobre o muro entre os territórios da genialidade e a loucura. Match point. Aquele drop shot lhe devolveu o status de semideus com moradia fixa no cérebro do adversário e, um belo saque depois, acabou. Depois de 4h15min, o árbitro finalmente pronunciava "Game, set, match." O primeiro penta pós-30 da Era Aberta é Rafael Nadal.

Físico, mente, tática e técnica. Inabalável, indomável, insaciável, inimaginável.

Coisas que eu acho que acho:

– No começo da temporada de 2010, quando Federer era número 1 do mundo, o suíço tinha 15 títulos de slam. Rafa somava seis. Agora, dez temporadas depois, Roger tem 20, contra 19 de Nadal. A marca "inalcançável" de Federer agora está mais ao alcance de Rafa do que nunca.

– Caso nenhum dos dois seja campeão em Melbourne, dá para imaginar o tamanho da expectativa por mais um triunfo do espanhol em Roland Garros, onde ele só perdeu duas partidas na vida?

– Li alguns comentário do tipo "mas se Djokovic e Federer não estivessem lesionados…" Dizer isso sobre um título de Nadal – logo de Nadal, que entre os três foi quem mais deixou deixou de jogar slams por causa de lesões nos últimos 15 anos – é injusto e mostra tremenda ignorância histórica.

– Medvedev, que começou sua campanha no US Open com péssimo comportamento e provocando a torcida, sai de Nova York com a imagem recuperada. Não só pelo belo tênis que mostrou, mas pelo lindo discurso na cerimônia de premiação (veja acima). Elogiou Nadal, mostrou bom humor ao fazer piada de si mesmo, agradeceu ao público e pediu desculpas pelos incidentes anteriores. Foi aplaudido de pé e teve boa parte da torcida durante o jogo. No fim das contas, terminou o verão norte-americano em alta.

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Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.