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Saque e Voleio

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Rivalidades entre gigantes dão origem a um novo e mais participativo fã de tênis

Alexandre Cossenza

15/08/2019 04h00

Era a primeira partida oficial de Novak Djokovic desde a final de Wimbledon, e os fãs do sérvio ainda têm muito viva a lembrança daquela vitória sobre Federer, com direito a dois match points salvos e três tie-breaks quase perfeitos. Prova disso? Dois fãs que se sentaram em um dos fundos de quadra com um par de cartazes (vide foto acima).

Era uma clara menção ao placar do 16º game do quinto set, quando Federer sacou com 40/15, antes de perder quatro pontos seguidos e sua melhor chance de voltar a reinar na grama londrina (lembre no vídeo abaixo). Era também uma lembrança do US Open de 2011, quando Federer sacou em 5/3 e 40/15, valendo uma vaga na final do torneio. Djokovic também salvou os match points e virou a parcial decisiva naquele dia (assista aqui).

Nem todo mundo gostou da lembrança – em especial, fãs de Federer. Houve quem considerasse o gesto provocador e insensível. Não concordo. Para mim, teria sido deselegante durante uma partida do suíço. Em um jogo de Nole, vejo como uma lembrança de um momento mais do que especial. O ponto aqui, contudo, não é esse, mas mostrar que as grandes rivalidades do tênis estão criando um novo tipo de torcedor. Um fã bem distante do estereótipo do cidadão rico e de meia idade que passa o tempo todo sentado e aplaudindo educadamente quem quer que tenha vencido o último ponto.

Antes que alguém diga "basta ver as redes sociais para ver que isso acontece há muito tempo", obviamente que concordo – e minha coluna de mentions no Tweetdeck é prova recorrente disso. Só que não é do torcedor caseiro que trata este texto, mas de quem paga ingresso e vai a um torneio grande para empurrar seu ídolo. É o cidadão que perde a voz de tanto gritar "Rafa" ou "Roger" numa partida importante. É a pessoa que, mesmo de classe média/alta, como manda o estereótipo, grita, sorri, chora e se enche de orgulho quando seu tenista fica a um ponto de conquistar um slam. Vide foto abaixo (e ficam aqui meus sentimentos à moça em questão, que teve a imagem reproduzida milhares de vezes em todo tipo de rede social).

Graças a monstros como Djokovic, Nadal e Federer, enormes e incansáveis campeões, com duelos tão frequentes e de tão alto nível, o fã de tênis se transformou. E a longevidade só acirrou essa disputa, afinal Rafa e Roger, por exemplo, já se enfrentam há 15 anos. Roger e Nole já duelaram 48 vezes. O sérvio e o espanhol somam 54 confrontos desde 2006. Quanto mais tempo acompanha seu ídolo, mais apegado o torcedor se torna. E à medida em que essa relação entre fã e tenista se estreita, as arquibancadas de torneios ao redor do mundo veem mudar o perfil de seus frequentadores.

Os próprios fãs de Federer vêm se mostrando mais presentes e participativos do que uma década atrás. Se em 2008, a Quadra Central e o Henman Hill de Wimbledon se dividiam em gritos de "Rafa" e Roger", em 2019 a catedral do tênis era monoteísta pelo suíço. Ninguém ficou surpreso. Djokovic tinha plena ciência do ambiente encontraria naquele domingo e falou sobre isso após o jogo. Não por acaso, adotou uma postura comedida, econômica nas comemorações. A ideia era não provocar o público.

E isso é bom para o tênis? Por enquanto, é ótimo. Mostra que o esporte, entediante para alguns, é capaz de despertar esse tipo de paixão. Obviamente, sempre vai haver o torcedor chato, que vai a um torneio para encher o saco de alguém, mas esse tipo, felizmente, é exceção. E enquanto essa empolgação não se transformar em violência e/ou torcidas organizadas, o tênis só tem a ganhar.

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Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.