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Djokovic foi o grande perdedor do sorteio do US Open: 5 motivos

Alexandre Cossenza

23/08/2019 04h00

Número 1 do mundo e campeão de quatro dos últimos cinco torneios do Grand Slam, Novak Djokovic é o principal candidato ao título do US Open, que começa na próxima segunda-feira. Tricampeão do evento nova-iorquino, o tenista sérvio busca defender sua coroa nas quadras de Flushing Meadows e levantar o troféu pela quarta vez.

Sua tarefa, porém, não deve ser das mais simples. No sorteio realizado nesta quinta-feira, Djokovic pode ser considerado o maior "perdedor" entre os favoritos em Nova York. Por quê? Os cinco motivos abaixo mostram que, se não perde o favoritismo, Nole deve ser obrigado a fazer uma caminhada nada simples e, dadas as possibilidades, mais complicada do que a de Rafa Nadal, atual #2 do mundo, até a decisão do US Open.

1. Roger Federer

Com três nomes muito acima do resto do circuito, a primeira pergunta que se faz depois do sorteio da chave é: "Onde está Roger Federer, o atual número 3 do mundo?" Pois está aí a primeira "derrota" de Djokovic. O suíço caiu na metade de cima, a mesma do sérvio, o que significa um encontro em potencial nas semifinais.

É bem verdade que pairam algumas dúvidas sobre Roger neste momento. Em que forma chegará o suíço ao US Open depois de uma derrota inapelável diante de Andrey Rublev em Cincinnati? Qual o tamanho do estrago – mentalmente falando – do revés na final de Wimbledon, após dois match points perdidos? Há quem acredite que Federer nunca vai se recuperar totalmente daquele 40/15. Ainda assim, eu apostaria meu rico dinheirinho que Djokovic preferiria ter do seu lado da chave o número 4, Dominic Thiem, que só fez três jogos em quadra dura antes de ir a Nova York e levou um sonoro 6/3 e 6/1 de Medvedev nas quartas de Montreal.

2. Medvedev em forma

Nas quartas de final de um slam, o principal cabeça de chave pode encarar o cabeça 5, o 6, o 7 ou o 8. Neste US Open, o rival em potencial de Djokovic nas quartas é Daniil Medvedev, o cabeça 5. Nem tanto pelo número, mas pelo momento que vive, o russo era o pior nome possível para Nole aqui. Medvedev, afinal, faz um verão espetacular nas quadras duras da América do Norte. Foi vice-campeão no 500 de Washington, vice no Masters de Montreal e campeão no Masters de Cincinnati.

No período, Daniil acumulou triunfos sobre nomes como Cilic, Thiem , Khachanov, Rublev, Goffin e, sim, Novak Djokovic. Não quer dizer que Medvedev seja favorito para repetir a dose e eliminar Nole em Nova York. Significa, contudo, que, no papel, o russo é o adversário que pode dar mais trabalho ao número 1 nas quartas de final. Daniil, lembremos, levou Nole a quatro sets na Austrália e, não tivessem faltado pernas na ocasião, quem sabe o que poderia ter acontecido depois do segundo set?

Em Flushing Meadows, Medvedev terá dois grandes desafios desta vez: provar que pode jogar tão bem no formato em melhor de cinco sets (nunca passou das oitavas em um slam); e lidar com a inédita expectativa sobre seu tênis no circuito profissional. Uma coisa é jogar bem e vencer partidas como azarão. É bem diferente chegar a um slam como #5 do mundo e o quarto mais cotado nas casas de apostas, com todo mundo de olho e esperando, pelo menos, quartas de final. Trata-se um cenário que Medvedev ainda não conhece.

3. Tempo para ajustes finos

Gente do calibre de Novak Djokovic, Rafael Nadal e Roger Federer sobra tanto em relação à maioria do circuito que pode se dar ao luxo de "treinar" nas primeiras rodadas de um slam. Quase sempre, os três primeiros jogos são descomplicados o bastante para que esses gigantes aproveitem para fazer ajustes finos em seus jogos. É o período em que calibram golpes de maior precisão, testam estratégias de jogo e se adaptam à velocidade da quadra central – no caso, o Estádio Arthur Ashe.

Djokovic não deve se dar esse luxo nesta edição do US Open. Sua segunda rodada pode ser contra Sam Querrey, tenista da casa e que, no dia certo, pode causar um bocado de problemas para Djokovic (ou qualquer outro). Em Cincy, lembremos, o americano teve uma quebra de frente na primeira parcial. Além disso, Querrey tem duas vitórias na carreira sobre Djokovic. Não é tanto assim diante de nove derrotas em confrontos diretos, mas pode ser o bastante para dar uma confiança extra a Sam, que vai ter sua torcida a favor como elemento extra. E todo mundo sabe que Nole não gosta de torcida contra…

4. Histórico contra prováveis adversários

Além do já citado Medvedev que pode encontrar Djokovic nas quartas, nomes perigosos que podem aparecer nas oitavas de final são Stan Wawrinka e Kevin Anderson. O suíço pode estar aquém do tenista que bateu Djokovic na decisão do US Open de 2016, mas Stan sempre deu trabalho ao sérvio desde 2013, quando deu um salto e começou a brigar seriamente por títulos de slams.

Wawrinka venceu dois dos últimos quatro confrontos contra o Nole (o último foi justamente a final do US Open) e é um dos poucos atletas que conseguem disparar winners contra Djokovic só com a velocidade da bola. Se Stan não chegar às oitavas, existe também a chance de o #1 ter de encarar Kevin Anderson, outro rival com um saque poderoso e potencial de perigo impressionante. No dia certo, o sul-africano parece imbatível.

5. Azarões em potencial

Também é importante apontar que a página do sérvio na chave do US Open tem um punhado de jogadores que podem "pegar fogo" de um dia para o outro e sair chamuscando o resto da chave. Além dos já citados Federer, Medvedev, Wawrinka e Anderson, estão por ali Fabio Fognini, o "perigoso" Philipp Kohlschreiber (que eliminou Djokovic em Indian Wells), Milos Raonic, Borna Coric e Kei Nishikori, entre outros.

Nunca é demais repetir: em um dia normal, Djokovic é favorito contra todos eles – e contra toda a metade de baixo da chave também. No entanto, a grande questão que se precisa fazer ao analisar uma chave é: "Qual a chance de um adversário de Nole causar um dia anormal?" E a resposta, pelo menos neste US Open, é que essa chance é bem maior nesta chave do que se Nole estivesse na metade de baixo. Por isso tudo, ele é o grande perdedor deste sorteio em Flushing Meadows.

E Rafa Nadal?

A metade de Nadal na chave do US Open não é exatamente light. A lista de nomes de peso inclui Tsitsipas, Rublev (e os dois duelam logo no primeiro dia), Kyrgios, Bautista Agut, Monfils, Auger-Aliassime, Thiem, Zverev, Khachanov, Isner e Cilic. Parece pior do que a de Nole. A diferença é que enquanto o sérvio pode ter que encarar Querrey, Wawrinka, Medvedev e Federer, Rafa só vai ter de encarar três dos nomes acima – e isso se Isner e Cilic não tombarem antes das oitavas.

Logo, olhando a chave de forma prática, Nadal se deu bem porque todos esses nomes médios e grandes vão se derrubando ao longo da primeira semana. O número 2 do mundo pode, sim, encarar Isner ou Ciic nas oitavas, Zverev ou Khachanov nas quartas e Thiem, Tsitsipas, Kyrgios (será?), etc. na semi. Dadas as possibilidades, é menos pior do que o caminho de Nole.

Além disso, é preciso considerar o seguinte: Isner tem mais derrotas (4) do que vitórias (3) no verão norte-americano de quadras duras; Zverev tem 2v e 2d no mesmo período e não embalou; Cilic não fez nenhum torneio realmente impressionante em 2019; Tsitsipas vem de três derrotas seguidas (Kyrgios, Struff e Hurkacz), além de recorrentes problemas com cadarços que se rompem durante jogos; em três confrontos, Bautista Agut nunca venceu mais de quatro games em um set contra Nadal; e Khachanov, que até deu trabalho recentemente para Rafa, só venceu um set contra o espanhol em seis encontros. Ou seja, muita coisa aí joga a favor do número 2 do mundo, e Nadal é o tipo do tenista que usa isso melhor do que ninguém.

Melhores jogos nos primeiros dias

A lista é boa, viu? Fique de olho:
Tsitsipas x Rublev
Shapovalov x Auger-Aliassime
Kyrgios x Johnson
Kohlschreiber x Pouille
Cilic x Klizan
Karlovic x Tiafoe
Pella x Carreño Busta
Cuevas x Sock
Jarry x Raonic
Berrettini x Gasquet

Os desfalques

Ele foi campeão em 2009, quadrifinalista em 2016, semifinalista em 2017, vice-campeão no ano passado e, agora, não estará no torneio. Juan Martín del Potro é um grande desfalque em qualquer parte do mundo, mas em seu slam favorito, o único que ele conquistou, faz mais falta ainda. Ele ainda se recupera de uma cirurgia no joelho.

Andy Murray não seria candidato a coisa alguma na chave de simples e, por isso, não aceitou o wild card oferecido pelo torneio. Depois de uma atuação muito mais ou menos em Montreal, onde perdeu para Richard Gasquet, o escocês achou que não estaria pronto para jogar cinco sets. Nesta semana, ele jogou o ATP 250 de Winston-Salem também nas simples e perdeu para Tennys Sandgren. Era a prova que ele precisava para constatar que o melhor, por enquanto, é jogar torneios de menor porte.

O dinheiro

Somando simples, duplas, mistas e outros eventos, além das diárias, o US Open distribui um total de US$ 57.238.700. Em reais, isso significa… bem, um monte de reais (um dólar custa R$ 4,07 na hora que escrevo este texto, o que significaria R$ 232,9 milhões).

Onde ver

O US Open tem direitos compartilhados por SporTV e a ESPN. O canal do Mickey costuma dar mais atenção ao evento. Além de exibir jogos em dois canais (ESPN e ESPN2), a ESPN disponibiliza transmissão de todas as quadras no Watch ESPN (plataforma de streaming do canal) e mostra o programa diário Pelas Quadras, com comentários sobre o que rolou durante o dia, sempre antes do início da sessão noturna do Estádio Arthur Ashe. A escalação de narradores tem Fernando Nardini, Everaldo Marques, Renan do Couto, Cledi Oliveira e Hugo Botelho. Os comentaristas serão Fernando Roese, Airton Cunha, Letícia Sobral e André Ghem.

Nas casas de apostas

Como escrevi lá no alto, a chave e sua dificuldade não tiram o favoritismo de Djokovic, tamanha é a crença de todos no sérvio. Por isso, ele segue como o mais cotado nas casas de apostas. Nadal é o segundo – ele, sim, possivelmente com seus odds auxiliados pelo sorteio – seguido de Federer e Medvedev. Muito atrás vêm Tsitsipas, Thiem, Zverev e Kyrgios.

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Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.