Saque e Voleio

Categoria : Copa Davis

Uma bolada violenta e uma doída desclassificação
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Alexandre Cossenza

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A gente já viu isso quase acontecer em vários níveis e com personagens diferentes. O tenista, irritado, isola uma bolinha, que passa perto da cabeça de alguém. O árbitro, então, pune com uma advertência: “abuso de bola”. Ou o cidadão, frustrado com a perda de um ponto, atira a raquete, que quica e passa pertinho de acertar um juiz de linha ou um espectador. Novak Djokovic protagonizou um par de cenas assim recentemente. A punição é uma advertência por “abuso de material”.

Só que de vez em quando, muito raramente, acontece um desastre como o deste domingo, no confronto entre Canadá e Grã-Bretanha pela Copa Davis, em Ottawa. Denis Shapovalov, 17 anos, tenista da casa, perdia o quinto jogo contra Kyle Edmund. O britânico tinha 2 sets a 0, já com o triunfo encaminhado, quando o adolescente, irritado, descontou na bolinha. E a amarelinha foi, violenta, morrer no rosto do árbitro de cadeira. Desclassificação imediata.

Parece claro que não foi intencional. Não teria por que ser. Shapolavov imediatamente pediu desculpas a Arnaud Gabas, o árbitro de cadeira. Já era tarde. O Canadá acabou perdendo o confronto naquele momento, o que só não foi mais grave porque a partida rumava para um triunfo de Edmund por 3 sets a 0 – ou assim se desenhava até o momento do incidente.

Nesta segunda, foi anunciada uma multa de US$ 7 mil para Shapovalov. O valor máximo é de US$ 12 mil, mas que só seria aplicada em caso de agressão proposital. E aí entra outra questão, que foi levantada pelo ex-chefe de arbitragem da ATP Richard Ings. Ele argumenta que o canadense deveria ser suspenso porque poderia ter cegado o árbitro e que a punição deveria ser proporcional à gravidade da lesão causada (leia mais no Bola Amarela).

Mas e aí, será que as entidades que regem o tênis deveriam fazer alguma alteração na regra? Por um lado, estabelecer uma suspensão no papel intimidaria os tenistas, que pensariam duas vezes antes de quebrar uma raquete ou atirar uma bolinha para longe. Por outro lado, não seria um exagero?

E como medir essa suspensão? Uma bolada no pé do árbitro renderia o mesmo gancho que uma raquete batendo no nariz de um torcedor? Como estabelecer essa distinção na letra fria da lei? Difícil. Tão difícil quanto estabelecer que uma suspensão seja proporcional à gravidade da lesão. Como medir a dor? Que tipo de contusão valeria um dia de suspensão? E uma semana?

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Minha opinião? Moralmente, a desclassificação já é punição suficiente. Até por ser em Copa Davis, com o país inteiro sendo eliminado junto. Vai demorar para Shapovalov superar o momento e voltar a dormir tranquilo. Mas há casos e casos. Se acontecer no circuito, com o tenista jogando por conta própria, a desclassificação não terá o mesmo peso. E você, leitor, o que acha? Sinta-se à vontade para dar uma opinião.


O que me incomoda na Copa Davis
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Alexandre Cossenza

Este não é um texto sobre fatos. É um post essencialmente de opinião, como quase tudo neste blog. Se você vem ao Saque e Voleio em busca só de notícias, está no lugar errado. E hoje, fim de semana de Copa Davis, é daqueles dias em que volta à tona o velho discurso do “a Davis precisa mudar”, baseado em qualquer que seja o motivo da semana – sempre há um diferente.

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Sou apaixonado por Copa Davis. Se um dia eu comecei a gostar de tênis, a competição por países tem muito a ver com isso. Gosto do formato em melhor de cinco sets, gosto dos zonais, gosto de o duelo ser sempre na casa de um dos times e gosto – até disso – de nem todos grandes tenistas estarem sempre na Davis. E é esse o argumento da vez para os críticos. Apenas cinco tenistas do top 20 estão em ação nesta semana. Muito pouco, dizem. Trato disso mais à frente. Por enquanto, meu desabafo tem dois pontos, e o que me incomoda na Copa Davis não é exatamente a Copa Davis.

Um: tenistas são chatos. Dois: tenistas têm poder demais. Chatos porque gostam de encher a boca e dizer que é sempre preciso se adaptar no tênis, que tenista é um animal adaptável, blablabla, mas querem jogar sempre nas mesmas condições. Não gostam de trocar de piso no meio da temporada e querem os torneios pré-slam com as mesmas condições dos slams. As bolinhas em Cincinnati são diferentes das do US Open? Nossa, um crime! O Rio Open é no saibro, mas tem Indian Wells na dura três semanas depois? Não jogo!

Tudo tem que ser igualzinho e perfeitinho para que o tenista chegue num Masters 1000, jogue bem, suba no ranking e aumente em US$ 100 mil aquele cachê que ele recebe para chegar num ATP 250, tirar foto num ponto turístico, jogar um tênis meia-boca e perder nas oitavas.

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E não adianta reclamar porque eles têm o poder nas mãos. Todo ATP 250 e 500 precisa puxar saco desses caras (é só olhar o papel ridículo que fazem as redes sociais de alguns eventos) porque sem eles não existe público. Quando aceitaram criar mini-circuitos (torneios de saibro antes de RG, eventos de grama só antes de Wimbledon), concentraram mais ainda os títulos nas mãos de uns poucos. Não por acaso, três tenistas completaram o career slam nos últimos anos. Mas isso é outro assunto. Aqui, agora, o que importa é que os torneios viraram reféns.

É inútil, por exemplo, o diretor do Rio Open dizer que os torneios são a plataforma para os atletas porque se ano que vem não houver Rio Open, vai haver um evento em Ladário, Cochabamba ou Samoa Ocidental disposto a pagar cachês milionários. O poder é dos atletas e quanto maior seu lobby por mudanças na Davis, maior a chance de elas acontecerem – cedo ou tarde.

E podem me chamar de saudosista porque é saudade mesmo. Quando comecei a ver tênis, Copa Davis era aquela ocasião em que o tenista mostrava seu patriotismo abrindo mão de interesses pessoais para defender o país, saindo, sei lá, do inverno europeu para jogar no calor do capeta do Rio de Janeiro (e nem naquela época todos os tops jogavam). Hoje, mais e mais tenistas veem a Davis como um incômodo. Aquilo que atrapalha sua preparação, que atravanca seu ranking, que reduz o potencial de seu cachê.

Melhor de cinco ou melhor de três?

Há quem diga que mudar o formato para melhor de três atrairia mais tenistas da elite. É um argumento discutível que existe apenas no reino do teórico hoje em dia. Sim, reduziria o desgaste. Talvez funcionasse. Talvez. Mas certamente mudaria radicalmente a dinâmica coletiva da Copa Davis.

A essência da competição, afinal, é que times vençam. E se você reduz a duração das partidas, facilita a vida dos capitães que têm um jogador acima da média. Seria muito fácil escalar esse tenista nos três dias. Em melhor de cinco, nem tanto. O time tem mais importância. Mas quem será que está preocupado com a essência ou com a esportividade da Copa Davis? Há quem diga que nem a ITF, dona do negócio, dá muita bola para isso hoje em dia…

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Coisas que eu acho que acho:

– Em números, o que se diz é que apenas 5 tenistas do top 20 estão atuando neste fim de semana na Copa Davis. É verdade, como Bruno Soares mencionou na última quinta-feira. O tweet sugere que isso seria motivo para mudanças na Davis. Não concordo totalmente. E há questões de contexto importantes.

– Desses 15 ausentes, três não foram convocados (Monfils, Tsonga e Pouille) e dois pertencem a países que não jogam neste fim de semana (Thiem e Dimitrov). O número de ausências já cai para dez – ainda alto, mas tudo bem.

– Mas dessas dez ausências, é preciso considerar questões importantes como o envelhecimento do circuito. Federer, Wawrinka, Nadal, Berdych e Karlovic já passaram dos 30. O croata, inclusive, já havia se aposentado da Davis e voltou só para a final do ano passado – e apenas para ocupar o lugar do lesionado Coric. Esses nomes nem sempre jogam temporadas completas. Será que é justo colocá-los na conta do “formato da Davis”? Tenho minhas dúvidas.

– Outro ponto: quantos desses ausentes estiveram na segunda semana do Australian Open? Federer, Nadal, Wawrinka, Raonic e Goffin. Mais avaliada do que o formato da Davis, com melhor de cinco sets, talvez deveria ser a insanidade de quem encaixa a competição logo após um Slam. É um convite (às avessas) para que os melhores não joguem. E isso não é só formato. É calendário.

– Ainda sobre o calendário, tudo gira em torno de dinheiro. Nenhum torneio quer essas datas pós-slam, então parece fácil encaixar a Davis ali. Tão fácil quanto alegar que a competição precisa mudar de formato. No fim das contas, talvez seja possível fazer muita coisa para melhorar a Davis sem mexer no formato, mas aí algumas pessoas perderiam dinheiro. E quem está disposto a isso, hein?


A dívida da Davis e a lição de Del Potro
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Alexandre Cossenza

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Vilas, Clerc, Frana, Jaite, Lobo, Nalbandian, Chela, Cañas, Calleri, Gaudio, Gumy, Puerta, Squillari, Zabaleta… A ilustre lista é longa, e era difícil entender como um país que fabricou tantos tenistas nunca venceu a Copa Davis. Era. A turma do capitão Daniel Orsanic, liderada por Juan Martín del Potro e com competentes coadjuvantes como Leo Mayer, Juan Mónaco, Federico Delbonis, Guido Pella, Carlos Berlocq e Renzo Olivo, bateu a Croácia em Zagreb e conquistou o título, cobrando uma antiquíssima dívida. Sim, era a Copa Davis que devia isso à Argentina, e não o contrário.

Foi a quinta final argentina na Davis e estava longe de ser a melhor chance de título. Em 2008, em Mar del Plata, o time de Nalbandian e Del Potro era favorito contra a Espanha, que viajou desfalcada de Rafael Nadal. Nalbandian atropelou David Ferrer no primeiro jogo, mas Delpo sofreu uma lesão na segunda partida, deixando o (brigado) time dependendo de José Acasuso para forçar o quinto jogo. Não deu. A chance terminou na raquete de Fernando Verdasco, que venceu um jogo nervoso e ruim para dar mais um título aos espanhóis.

Na época, Nalbandian jogou boa parte da culpa nos ombros de Del Potro. O jovem não teria se poupado devidamente para a final da Davis. Talvez Delpo tenha carregado aquela culpa até este ano. Talvez não. Talvez ele apenas guarde mágoa de Nalbandian. Ou nem isso. Difícil saber. O que era impossível mesmo de saber é que Del Potro, depois de tantas lesões nos dois punhos, voltaria à Copa Davis desta maneira.

Em certo momento, o campeão do US Open de 2009 parecia mais um ex-tenista tentando lidar com uma lesão sem solução do que um top 10 que voltaria a brigar com os melhores do circuito. O que aconteceu, no entanto, foi menos Gustavo Kuerten (aposentado por uma lesão no quadril) e mais Rafa Nadal (número 1 do mundo em 2013 depois de ficar afastado por boa parte de 2012).

Em 2016, Del Potro viveu o melhor ano de sua carreira – como ele mesmo afirmou diversas vezes, em várias ocasiões. Derrotou Wawrinka em Wimbledon; bateu Djokovic e Nadal nos Jogos Olímpicos; passou por Ferrer e Thiem no US Open; conquistou um título em Estocolmo; superou Murray nas semifinais da Copa Davis; e completou a temporada com uma virada memorável sobre Marin Cilic, que vencia por 2 sets a 0 e jogava em casa. Esta gloriosa timeline lista tudo.

Mais do que tudo isso, Del Potro deixou a todos uma gigante lição. Mesmo nos momentos mais duros, jamais deixou de acreditar. Sofreu, encheu-se de esperança e sofreu outra vez. Tentou voltar, não conseguiu. Tentou de novo. Falhou novamente. Ralou. Começou do zero. Insistiu. Batalhou. E, finalmente, voltou. E que ninguém ouse duvidar dele daqui em diante.

Coisas que eu acho que acho:

– A Argentina foi campeã como time. Por mais importantes que tenham sido as vitórias de Del Potro sobre Murray nas semifinais e Cilic na final, foram Leo Mayer e Federico Delbonis que venceram os jogos decisivos nesses dois confrontos. Não dá para falar nesta Davis sem mencionar o enorme valor dos coadjuvantes argentinos, impecáveis nos momentos mais importantes.

– O mesmo vale para o capitão argentino, Daniel Orsanic. Um cidadão educadíssimo, que olha na cara, fala o que pensa e escala os melhores. Orsanic não foi contratado para repetir o discurso da federação argentina nem para tentar justificar escolhas patéticas de seus superiores. Assumiu o cargo com uma postura apaziguadora, deixou critérios claros e convocou sempre os melhores. O resultado está aí para todo mundo ver. Não é tão difícil assim.


Davis, dia 2: tombo inesperado encerra fim de semana decepcionante
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Alexandre Cossenza

O golpe fatal veio de onde não se esperava. Ruben Bemelmans e Joris De Loore, a dupla escalada pela Bélgica mais para poupar David Goffin e Steve Darcis do que para ganhar de fato, acabou derrubando os favoritos Bruno Soares e Marcelo Melo em cinco sets. O tombo dos mineiros por 3/6, 7/6(5), 4/6, 6/4 e 6/4 completou um fim de semana decepcionante – mais pelas atuações do que pelo resultado final – para o time do capitão João Zwetsch, que mostrou pouco poder de reação e quase nenhuma variação tática nas simples de sexta-feira.

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Com o 3 a 0, a Bélgica continua no Grupo Mundial, a elite da Copa Davis, enquanto o Brasil volta para o Zonal das Américas, onde esteve em nove das últimas 11 temporadas. Neste sentido, não há grandes e novas conclusões a tirar. O Brasil continuará sendo favorito dentro do continente para alcançar os playoffs, mas ainda dependerá de um sorteio favorável (e o confronto contra a Bélgica não era nem de longe o pior dos cenários) e/ou da ascensão de um segundo simplista.

A maior expectativa agora fica por conta de Thiago Monteiro, que obteve ótimos resultados em 2016. Seria bom mesmo que o cearense de 22 anos desse outro passo adiante na carreira e se firmasse como tenista de nível ATP. Até porque entre os brasileiros mais novos que ele ainda não há ninguém mostrando tênis suficiente para defender o país internacionalmente.

O favoritismo era brasileiro, claro. Afinal, dois vencedores de Slam com muito tempo de quadra juntos enfrentariam jogadores que só haviam atuado juntos uma vez – uma derrota na primeira rodada de um Challenger. Um deles, De Loore, nunca havia vestido as cores do país na Copa Davis. O nervosismo ficou evidente. O jovem de 23 anos fez um foot fault e errou um voleio fácil logo no segundo game. A quebra veio, e os brasileiros não deram chance para reação. Os belgas não ameaçaram em momento algum e venceram apenas dois (dois!) pontos de devolução no primeiro set inteiro.

Se parecia um passeio de fim de semana, logo apareceu aquele engarrafamento que ninguém espera porque a PM montou uma blitz às 10h no único caminho até a praia. Bemelmans e De Loore acharam um ritmo melhor, sacaram espetacularmente (83% de aproveitamento de primeiro serviço) e arriscaram nas devoluções. Tiveram dois break points em games diferentes, mas De Loore, jogando no lado da vantagem, não conseguiu encaixar devoluções. No tie-break, a postura agressiva junto à rede que vinha dando certo saiu pela culatra. Bemelmans acertou um belo lob sobre Marcelo, e a Bélgica abriu 6/4. Foi o único mini-break do game, e os donos da casa empataram a partida.

O equilíbrio continuou, com pequenas chances para os dois lados. O terceiro set só teve um break point. Foi no décimo game, e Melo converteu com uma devolução vencedora (vide tweet acima). A quarta parcial começou com uma quebra da Bélgica, e o time da casa salvou dos break points em games diferentes antes de devolver o 6/4 anterior e mandar a decisão para o quinto set.

A essa altura, Bemelmans já tinha o tempo dos saques brasileiros e cravava devoluções impressionantes. Quando De Loore fazia o mesmo, significava perigo de quebra. Aconteceu no terceiro game, e Melo perdeu o saque. Os donos da casa abriram 3/1 e continuaram melhores nos games de serviço. O time mineiro tentou e ainda venceu um pontaço (vídeo abaixo), mas não conseguiu devolver a quebra. Game, set, match, Bélgica: 3/6, 7/6(5), 4/6, 6/4 e 6/4.

Uma temporada nada memorável

Se não voltarem a jogar juntos em 2016 (não há nada previsto até agora), Bruno Soares e Marcelo Melo terminarão a temporada com uma campanha de seis vitórias e quatro derrotas atuando juntos. Ainda que os mineiros tenham ficado a uma vitória de brigar pela medalha olímpica, trata-se de um histórico nada memorável para o potencial de ambos – especialmente considerando que três dessas vitórias aconteceram contra duplas irrelevantes no circuito: Fabiano de Paula/Orlandinho, Emilio Gómez/Roberto Quiroz e Nicolás Almagro/Eduardo Russi.


Davis, dia 1: Bélgica aproveita limitação brasileira
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Alexandre Cossenza

Thiago Monteiro ganhou uma batata quente de presente em sua estreia na Copa Davis. Thomaz Bellucci fez mais uma partida daquelas cheias de erros (35 não forçados, pela conta econômica da ITF) e sem variações táticas. O resultado foi uma péssima sexta-feira em Oostende, na Bélgica, onde o time da casa abriu 2 a 0 na série melhor de cinco que define quem jogará o Grupo Mundial da Copa Davis em 2017. Um dia que expôs a limitação dos simplistas brasileiros – e até do capitão – e que deixou o país sem margem para erro nos próximos dois dias.

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A superioridade

O dia começou com Thiago Monteiro soltando o braço e tentando incomodar David Goffin. Até conseguiu por alguns games no serviço do belga. Monteiro teve 0/30 no segundo game, um 30/40 no quarto e um 30/30 no sexto. O tenista da casa, contudo, venceu todos – sem exceção – pontos grandes do set. Depois de fechar a parcial por 6/2, jogou mais à vontade e dominou. Só perdeu mais dois games depois disso e fechou em 6/2, 6/2 e 6/0.

Ainda que haja uma clara diferença de nível e de experiência, não consegui ver uma tentativa de Monteiro de mudar taticamente o andamento do jogo. Era até esperado que ele entrasse em quadra adotando o bom e velho “entra sem pressão e solta o braço”, mas nesse nível, na primeira partida melhor de cinco sets de sua carreira, seria preciso um plano B. Não garantiria um resultado diferente, mas seria uma tentativa. Do jeito que a partida correu, Goffin não foi tão exigido assim.

A falta de recursos

No aspecto estratégico, o segundo jogo não foi muito diferente. Thomaz Bellucci entrou em quadra disposto a atacar primeiro e fazer Steve Darcis correr. O belga apostou em variações. Slices cruzados e paralelos, velocidades e altura de bola diferentes e paciência, muita paciência. Darcis trocava bolas e esperava chances para atacar na boa, com o forehand na paralela.

O #1 do Brasil fez um belo primeiro set, que teria sido até mais fácil não fosse um pavoroso sétimo game. Ainda assim, Bellucci venceu o tie-break e parecia firme no jogo. A coisa começou a desandar no quarto game do segundo set. Darcis aproveitou o quinto break point e deslanchou. O paulista desandou a errar. Errou curtinhas, voleios, forehands e tudo que podia errar. Em vários momentos, também subiu mal à rede e pagou o preço.

O problema, como quase sempre acontece com Bellucci, foi a execução. Contra um Darcis sólido e paciente, o brasileiro teria duas opções: ou tentar algo diferente ou executar melhor seu plano A. Não fez nem um nem outro. Para piorar, Darcis jogou mais solto e agressivo quando teve a dianteira. Sem plano B, restou ao paulista ficar em quadra esperando por um milagre que não veio. Darcis fez 6/7(5), 6/1, 6/3 e 6/3 e colocou seu país com uma enorme vantagem.

A esperança

Com uma dupla forte como a de Bruno Soares e Marcelo Melo, o mais provável é que o Brasil sobreviva ao sábado. Por enquanto, a Bélgica tem Ruben Bemelmans e Joris de Loore escalados para o jogo de sábado. O mais provável é que o capitão belga, Johan Van Herck, mantenha a formação e poupe seus titulares para o domingo, quando precisará de um pontinho para seguir no Grupo Mundial.

Para o capitão João Zwetsch, resta rezar para duas zebras. Primeiro, Bellucci precisará derrotar Goffin sem a torcida brasileira fazendo estrago no cérebro do belga. Depois, terá de contar com uma vitória do estreante Thiago Monteiro contra o veterano Darcis, 32 anos, que vem num ótimo momento na temporada e dois dias depois de uma atuação belíssima contra Bellucci. Possível? Sim. Num domingo qualquer, tudo pode acontecer. Provável? Nem tanto.


Davis: uma obrigação cumprida, um playoff à vista e um par de perguntas
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Alexandre Cossenza

Não foi tão fácil como poderia ter sido, mas tampouco foi dramático. De volta ao Zonal americano, Brasil derrotou o Equador em Belo Horizonte por 3 a 1 e garantiu mais uma participação no playoff da Copa Davis. A equipe que tem Thomaz Bellucci, Marcelo Melo e Bruno Soares como ocupantes cativos terá, assim, mais uma chance de retornar à primeira divisão do tênis mundial, lugar que ocupou por apenas duas temporadas nos últimos 13 anos.

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O triunfo sobre o Equador veio com um pequeno susto logo na abertura do confronto. Rogerinho, 90º do mundo, jamais se mostrou confortável no piso duro do Minas Tênis Clube e foi derrotado por Emilio Gómez, 24 anos e número 317 do mundo: 4/6, 7/5, 6/0 e 6/4.

Ainda assim, precisaria que muita coisa desse errado para que o Brasil perdesse para o modesto time visitantes. E, mesmo com um sobressalto aqui e outro ali, a equipe da casa venceu os três pontos seguintes. Thomaz Bellucci, que não foi espetacular nem na sexta nem no domingo, primeiro bateu Roberto Quiroz, 27 anos e número 396 do ranking, por 7/5, 7/6(3), 3/6 e 6/3. Depois, fechou o confronto no domingo ao superar Gómez por 7/6(11), 6/7(6), 6/2 e 7/5.

No sábado, vale lembrar, Bruno Soares e Marcelo Melo até perderam o primeiro set, mas confirmaram o favoritismo sem drama: 6/7(4), 6/3, 6/3 e 6/2. Foi, aparentemente, o dia mais divertido, com os mineiros jogando diante de sua torcida e comemorando junto com eles também.

Daqueles momentos que marcam, lindíssima a festa dos mineiros com os amigos e família. #DavisCup

A video posted by Aliny Calejon (@alcalejon) on

Um par de perguntas

Oficialmente, o discurso da CBT e dos tenistas nas coletivas pré-confronto foi de que o duelo em quadra dura ajudaria na preparação para os Jogos Olímpicos. Não tenho, contudo, resposta para as seguintes perguntas:

– Se a intenção é preparar para as Olimpíadas, por que Bellucci e Rogerinho jogarão torneios no saibro na próxima semana? Havia a opção de jogar em Washington, um ATP 500 em quadra dura. Ambos entrariam direto na chave principal. Todo mundo sabe do ótimo histórico de Bellucci em Gstaad e é perfeitamente compreensível sua escolha por voltar ao torneio suíço. O problema é que o discurso de preparação para os Jogos, assim, mostra-se inconsistente.

– O torneio olímpico será no Rio de Janeiro, a nível do mar e em quadras outdoor. O duelo em Belo Horizonte é disputado em quadra coberta a mais de 800 metros acima do nível do mar. De que maneira um confronto assim teria sido a melhor preparação possível? Para piorar, o capitão João Zwetsch, para defender o emprego, se prestou ao papel de dizer que a quadra estava lenta, dando “uma boa equilibrada, bem próximo ao que vamos encontrar no Rio de Janeiro”, no Parque Olímpico (frase retirada de comunicado enviado pela CBT).

Ficou mais feio ainda porque Rogerinho deixou a quadra derrotado no primeiro dia, dizendo que “as condições estão muito rápidas, e isso o favoreceu um pouco, também, porque são as condições em que ele mais gosta de jogar.”

No fim das contas, a escolha da sede, se valeu para algo, ajudou os mineiros. Eles, sim, vão às quadras duras de Washington, onde jogarão juntos (deixando de lado Jamie Murray e Ivan Dodig, os parceiros habituais) em uma preparação de fato para os Jogos Olímpicos. É bom ver que a principal esperança de medalha do Brasil no tênis vem levando a coisa a sério.

O recado

A melhor declaração do fim de semana foi (de quem mais?) de Bruno Soares, que falou sobre as desistências de tenistas que citam a ameaça do vírus zika como justificativa para não disputarem os Jogos Olímpicos Rio 2016 (evento que, coincidência ou não, não dá pontos no ranking nem prêmio em dinheiro aos participantes. Bruno elogiou a postura de Dominic Thiem, que foi honesto quanto à sua decisão de não disputar os Jogos, mas ressaltou que “a turma está se abraçando numa desculpa fraca pra não vir, inconsistente.” Leia a íntegra aqui.

Aviso

Entro de férias (de mim mesmo, na verdade) nesta segunda-feira, portanto o blog não terá as atualizações costumeiras. Até os Jogos Olímpicos – e possivelmente inclusive durante os Jogos – não pintarão muitos textos por aqui (eu poderia até escrever mais, mas não vou por causa do zika – rs). Até daqui a pouco.


Deus salve Andy Murray
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Alexandre Cossenza

Nunca um tenista fez tanto na história do Grupo Mundial da Copa Davis. E não é só isso: nunca um tenista precisou fazer tanto para conquistar o título. Em quatro fins de semana, Andy Murray entrou em quadra 11 vezes. Saiu vencedor em todas, sem exceção. Principal integrante de uma nação que não gerou outro simplista de peso desde Tim Henman, o britânico carregou o Reino Unido nas costas na quadra dura, na grama e no saibro; na Escócia, na Inglaterra e na Bélgica. E, ao derrotar David Goffin por 6/3, 7/5 e 6/3 neste domingo, completou uma das campanhas mais espetaculares da história da competição.

É o primeiro título da Grã-Bretanha na Copa Davis desde 1936, quando Fred Perry deu o quinto e decisivo ponto a seu time. O mesmo Perry que era lembrado anualmente enquanto o jejum de títulos britânicos em Wimbledon aumentava. E foi Andy Murray que, 77 anos depois, deu um título ao país no mais importante e cobiçado torneio do planeta.

Feito atrás de feito, Murray vai escrevendo seu nome nas listas mais relevantes da modalidade. Uma medalha de ouro nas simples (em Wimbledon, derrotando Roger Federer em sets diretos na final), títulos de Grand Slam e, agora, a Copa Davis. Tudo isso precisando lidar com a incômoda imprensa britânica, a eterna e sensível relação Escócia-Inglaterra e uma delicadíssima cirurgia nas costas que interrompeu seu melhor momento no circuito mundial (lembremos do massacre de Dunblane também).

Murray encerra assim a melhor temporada de sua carreira até agora. Dono da Copa Davis e número 2 do mundo mesmo colocando a competição por equipes acima de torneios individuais em sua lista de prioridades. Afinal, quantos tenistas já sacrificaram campanhas no ATP Finals em nome da final da Davis? Essa é só uma das muitas características espetaculares de um atleta que encara de frente todas adversidades extras e uma geração fantástica de oponentes que a vida lhe impôs. E, mesmo diante disso tudo, segue alcançando feitos gigantes.

O confronto

Quando o confronto começou, parecia que Murray nem precisaria desse 11º jogo. Um pouco pelos nervos de Goffin, um pouco pelo talento de Kyle Edmund e mais um pouco pela “inconsciência” do garotão britânico de 20 anos, que fazia sua estreia em Copa Davis logo em uma final e não parecia sentir/entender o peso do momento, parecia que os britânicos levariam o improvável primeiro ponto.

Enquanto Goffin brigava contra a tensão, Edmund soltou o braço, acertou quase tudo e abriu 6/3 e 6/1. Seria um baque enorme para o time da casa, não fosse a recuperação de seu número 1. Goffin entrou nos eixos e, como quase sempre acontece no tênis, a ascensão de um significa a queda de outro. O britânico nascido na África do Sul viu sua carruagem virar abóbora. Depois de fechar o segundo set, venceu apenas três games. Bélgica 1 x 0 Grã-Bretanha: 3/6, 1/6, 6/2, 6/1 e 6/0.

Chegou, então, a hora da estreia do herói do fim de semana. Favoritíssimo contra Ruben Bemelmans, #108, Murray não decepcionou. Teve alguns momentos de oscilação, especialmente quando a torcida cresceu no segundo set. Uma de suas crises nervosas lhe rendeu até um point penalty, mas nada que lhe tirasse da dianteira. No fim, fez 6/3, 6/2 e 7/5, tranquilizando o Reino Unido e mostrando que quem carregou o peso de uma nação inteira nas costas até ganhar seu primeiro Slam não sofreria com a tamanho de uma final de Copa Davis.

O sábado chegou com o momento crítico do jogo de duplas. Uma vitória belga significaria que Murray poderia vencer no domingo e, ainda assim, o time da casa teria uma chance considerável de vitória. Um triunfo britânico deixaria o destino do duelo na raquete de Murray.

Johan van Herck, o capitão belga, talvez visse a vitória no sábado como a única chance real de um triunfo. Por isso, em vez do inicialmente escalado Kimmer Coppejans (21 anos, #128 de simples), quem entrou em quadra foi David Goffin ao lado de Steve Darcis. Uma manobra arriscada, já que Goffin perderia a única vantagem óbvia que teria sobre Andy: chegar menos cansado no domingo.

Diante de um Jamie Murray errático, a dupla belga foi superior durante a maior parte dos dois sets iniciais. Na primeira parcial, Darcis, melhor belga em quadra, teve o primeiro break point do jogo no nono game, mas jogou uma devolução na rede. No game seguinte, o mesmo Darcis jogou um smash para fora, cedendo um set point. O time britânico aproveitou e saiu na frente: 6/4.

No segundo set, uma quebra no terceiro game deixou a Bélgica à frente. Os donos da casa mantiveram a frente, fecharam a parcial e continuaram melhores. Darcis e Goffin quebraram primeiro no terceiro set, mas não conseguiram deslanchar e jogar a pressão nos visitantes. Andy e Jamie quebraram de volta no game seguinte e cresceram no jogo. Fizeram 6/3 e tomaram a dianteira de vez.

O maior desafio para os britânicos era fazer Jamie subir à rede com eficiência, sem ficar exposto no fundo de quadra, onde Goffin e Darcis são mais consistentes, nem ser pego com um golpe violento na subida. No quarto set, os escoceses tiveram mais sucesso. Conseguiram uma quebra no terceiro game e sobreviveram a um longuíssimo quarto game, salvando sete break points e consolidando a vantagem. Depois disso, não olharam mais para trás. O placar no fim do dia mostrava Bélgica 1 x 2 Grã-Bretanha, com as parciais do dia em 6/4, 4/6, 6/3 e 6/2.

O domingo não poderia ser muito diferente. Depois de dez vitórias, a 11ª parecia questão de tempo. Goffin, justiça seja feita, fez uma tentativa digna. Esteve bem nas trocas do fundo de quadra e tentou sempre comandar os pontos. Pecou, porém, taticamente ao insistir com o segundo saque no backhand do britânico. Pagou o preço por isso no primeiro set e só não lhe custou tanto no segundo porque Murray errou mais devoluções do que de costume.

Goffin também bobeou no 11º game, quando tentou uma curtinha com Murray batido e errou. Em vez de abrir 30/0, deixou o placar em 15/15. O britânico acabou quebrando o serviço do belga no embalo e, depois, saiu de 0/30 para fechar a segunda parcial com um dos pontos mais espetaculares do dia.

O número 1 da Bélgica ainda teve uma pequena chance de reagir, quando conseguiu quebrar Murray no início do terceiro set. O britânico, no entanto, respondeu rápido, quebrando de volta no game seguinte. E seguiu no jogo, enquanto Goffin lutava bravamente. mas era pedir demais do tenista da casa, que já vinha com 11 sets nas costas a essa altura. Murray quebrou, abriu 4/3 e não olhou para trás. Fechou a partida com um lob top spin – marca registrada – em mais um ponto memorável e desabou em lágrimas com a bandeira britânica.

Coisas que eu acho que acho:

– Desde 2007, uma dupla formada por irmãos não jogava uma final de Copa Davis. Antes da grande ocasião, Andy e Jamie toparam a brincadeira que resultou no vídeo publicado pela federação britânica. Vale a pena ver:

– Desde a adoção do formato do Grupo Mundial, em 1981, John McEnroe tem o recorde de melhor campanha, com 12 vitórias e nenhuma derrota. Naquele ano, porém, o americano jogou três dead rubbers – partidas realizadas com o confronto já decidido. Andy Murray fez as 11 partidas válidas (live rubbers).

– Sobre a atuação de Jamie, é bem verdade que o Murray mais velho ficou abaixo do esperado, e foi Andy quem carregou o time durante a maior parte do tempo. Não vale a pena, contudo, entrar em pânico antecipado a respeito do futuro parceiro de Bruno Soares. Primeiro, é preciso considerar o tamanho da ocasião e tudo que havia em jogo. Depois, lembremos que o saibro não é lá o melhor piso para o jogo de Jamie, um tenista bem mais eficiente na rede do que no fundo. E não esqueçamos de como ele carregou John Peers a duas finais de Slam em 2015. É equivocado – ou, em alguns casos, burrice mesmo – julgar Jamie por uma partida.

– Em toda campanha britânica na Davis este ano, a única vitória de um tenista não chamado Murray aconteceu na primeira rodada, quando James Ward bateu John Isner por 15/13 no quinto set, em Glasgow. Foi esse resultado, aliás, que possibilitou o descanso para Andy no sábado. Jamie jogou ao lado de Dominic Inglot e foi derrotado pelos irmãos Bryan por 9/7 no quinto set.

– Aconteceu logo depois do match point. A equipe britânica invadiu a quadra e foi comemorar com Andy Murray, que estava estirado no saibro. Andy, então, levantou e deixou seu time ali enquanto correu para cumprimentar Goffin e o resto da delegação belga. Gesto lindíssimo de uma pessoa fantástica.

– A maior vitória do fim de semana foi, felizmente, da paz. Depois dos dias tensos na Bélgica – principalmente em Bruxelas -, com suspeitos presos, caçadas a terroristas e até uma ameaça de atentado, é um alívio ver a Copa Davis chegar ao fim sem incidentes do tipo. O planeta agradece.


Brasil x Croácia, dia 3: a supremacia Borna
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Alexandre Cossenza

O fim de semana do garotão foi fantástico. Borna Coric, 18 anos e dono da responsabilidade de ser o #1 da Croácia em um confronto fora de casa, respondeu à altura. Pouco se incomodou com a torcida e a corneta de Dartagnan Jatobá (até provocou o público às vezes), fez duas partidas com nível técnico altíssimo, superou o calor e a umidade do domingo e venceu o ponto decisivo diante de um Thomaz Bellucci que não resistiu às condições e abandonou a quadra sentindo dores nas costas quando perdia por 6/2, 4/6, 7/6(4) e 4/0, depois de 3h11min.

Coric chegou a Florianópolis, é bom lembrar, vindo de um punhado de atuações irregulares em Barranquilla. Foi campeão na Colômbia, sim, mas em um torneio de nível bastante inferior ao que está acostumado a enfrentar no circuito. No entanto, desde que pisou na quadra do Costão do Santinho para enfrentar Feijão, mostrou-se um tenista muito mais sólido, concentrado e equilibrado. O resultado veio na forma de duas vitórias e apenas um set perdido.

Neste domingo, contra Bellucci, dois “momentos” fizeram enorme diferença para Coric. A primeira parte foi não entrar em pânico depois de perder o segundo set e ouvir a torcida transformar seu gemido em grito de guerra. Mas o adolescente também foi gigante quando, logo depois de perder o saque no terceiro set, agrediu o serviço do brasileiro e conseguiu a quebra em seguida. Coric não se perdeu nem quando desperdiçou de forma boba os dois set points que perdeu no 12º game. Entrou bem no tie-break e saiu vencedor.

“Ele mostrou o quão rápido está evoluindo, o quanto está amadurecendo, e lidar com essa torcida e a pressão dessa partida hoje e tudo mais. Então, o tie-break do terceiro set! Mesmo tendo feito uma ótima partida, no tie-break ele elevou seu jogo na hora mais importante. Como todos pudemos ver, não há limites para o que ele pode fazer em uma quadra. É um grande privilégio para mim tê-lo no time”, derreteu-se em elogios o capitão croata Zeljko Krajan.

Coisas que eu acho que acho:

– Parte do público vaiou quando Bellucci deixou a quadra, mas a maioria da arena montada em Florianópolis aplaudiu e inclusive gritou o nome do #1 do Brasil. O paulista relutou em abandonar, mas já não conseguia ser competitivo quando finalmente tomou a decisão. Na coletiva, Bellucci inclusive afirmou que não sabe se teria conseguido aguentar nem se tivesse vencido o tie-break da terceira parcial.

– Florianópolis não ofereceu vantagem nenhuma ao time brasileiro além da óbvia presença do público (o que aconteceria em qualquer cidade). As condições climáticas não ajudaram nem Feijão nem Bellucci. A dupla, que gosta de condições mais rápidas, perdeu. E o calor e a umidade do domingo, combinados com as mais de 3h de jogo, trouxeram à tona a lesão nas costas que vem incomodando o #1 do Brasil há alguns meses. E nem é possível afirmar que incomodaram a Croácia.

– A possibilidade de ter calor e umidade em uma quadra sem luz artificial (ou seja, com as partidas começando no fim da manhã e entrando pelo meio-dia) sempre foi ruim para Bellucci, que tem um histórico de problemas físicos em condições assim. A aposta brasileira de insistir com Florianópolis acabou sendo um tiro no pé.

– Rebaixado novamente para o Zonal das Américas, uma espécie de segunda divisão da Copa Davis, o Brasil agora espera o sorteio de quarta-feira para saber o que esperar da próxima temporada. Soa como uma punição para um Bellucci que faz uma grande temporada, mas não conseguiu manter seu time na elite.


Brasil x Croácia, dia 2: o típico dia imprevisível
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Alexandre Cossenza

O clichê, enfim, se aplica. A zebra apareceu no confronto entre Brasil e Croácia. Bruno Soares e Marcelo Melo, invictos há oito jogos em Copa Davis, foram derrotados em Florianópolis, em uma atuação nada memorável, por Ivan Dodig e Franko Skugor: 6/0, 3/6, 7/6(2) e 7/6(3). Foi uma tarde dura para os brasileiros – especialmente para Bruno Soares, que só jogou seu habitual bom nível de tênis em flashes aqui e ali. Ao mesmo tempo, foi uma jornada incrível de Dodig, duplista #6 do mundo, que fez dois tie-breaks impecáveis.

O público bem que tentou empurrar os brasileiros, e a maré parecia estar mudando no fim do quarto set, quando Soares e Melo escaparam de dois match points no saque de Dodig, quebraram de volta e deram motivo para a torcida fazer mais barulho do que eu qualquer outro momento do confronto. O segundo tie-break, no entanto, foi quase um microcosmo da partida. Um Soares inseguro e dois croatas soltos, jogando bem e sem a pressão da proximidade da derrota.

Fora o estranhíssimo primeiro set, com a dupla brasileira apática e mais preocupada em entender e conhecer Skugor do que em fazer seu próprio jogo, não foi uma partida desequilibrada. Para Bruno Soares, ele e Marcelo dominaram dois sets (o segundo e o terceiro), mas não aproveitaram as chances – foram sete chances de quebra na terceira parcial. A diferença foi o brilho de Dodig, que acertou dois lobs perfeitos no tie-break do segundo set.

O resultado deixa a Croácia com vantagem de 2 a 1 no confronto, precisando de só uma vitória para continuar no Grupo Mundial. O Brasil, por sua vez, precisa que Bellucci derrote Coric no primeiro jogo de domingo (começa às 10h) e, depois, que Feijão supere Delic (#499) – ou Dodig, que jogou muito bem nas duplas e é melhor simplista que Delic. o capitão Zeljko Krajan, contudo, ainda não confirma a mudança na escalação que foi apresentada na quinta-feira.

Dodig disse estar pronto: “Se você não estiver pronto para o capitão, ele não te convoca mais”. Krajan, por sua vez, lembrou que “Ivan jogou por quatro horas neste sábado e que não será fácil no domingo, então Mate ainda é uma opção.”

Mais aquecimento do que jogo

Antes do confronto de duplas, Feijão e Borna Coric entraram em quadra para completar a segunda partida de simples, interrompida na sexta-feira por chuva e falta de luz natural. O brasileiro, que sacava em 1/4 e 40/30 no terceiro set, acabou perdendo o serviço e vendo o #33 do mundo fechar a partida em 6/4, 7/6(5) e 6/1. Ao todo, o tempo de jogo neste sábado durou menos que o aquecimento. Na coletiva, Feijão relatou o desentendimento com Coric ao fim do segundo set, quando o adolescente croata (18 anos) provocou a torcida.

A ideia, Feijão revelou neste sábado, era mexer com a cabeça do adversário. Não deu resultado. Coric, aliás, quebrou o serviço do #2 do Brasil logo no segundo game do terceiro set e disparou na frente. O paulista pelo menos afirmou ter saído de quadra relativamente contente com seu jogo e – muito importante – com mais confiança do que antes. Ele disse contar com a torcida para encontrar uma maneira de triunfar no caso de um quinto jogo.

Coisas que eu acho que acho

A tática do boi de piranha funcionou perfeitamente para o capitão croata. Ao escalar (ou melhor “queimar”) Delic em um jogo em que Bellucci seria favoritíssimo, Krajan conseguiu poupar Dodig, que fez uma partidaça e “roubar” o ponto das duplas. Agora, conta com Coric para fechar o confronto. Mesmo se o #1 croata perder, o time ainda conta um Dodig com confiança extra.

Krajan, como escrevi acima, não deu pistas sobre quem vai escalar no domingo. Parece mais provável, contudo, a escalação do “duplista” Dodig para um eventual quinto jogo. Não só pela moral que carrega da vitória e sábado, mas por ter mais tênis e experiência do que Delic.


Brasil x Croácia, dia 1: um atípico dia previsível
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Alexandre Cossenza

Todo tipo de coisas estranhas pode acontecer em confrontos de Copa Davis, já diz o clichê. Pois foi tudo que não aconteceu o primeiro dia de Brasil x Croácia, duelo válido pelo playoff do Grupo Mundial, em Florianópolis. Primeiro, Thomaz Bellucci derrotou Mate Delic, #499. Em seguida, Borna Coric, #33, derrotava Feijão com folga quando a (também esperada) chuva forçou a interrupção da partida.

De inesperado mesmo, apenas o trabalho que o número 1 do Brasil encontrou quando Delic, o azarão, controlou seus erros e ofereceu alguma resistência. O croata venceu o terceiro set e esteve uma quebra à frente no quarto quando Bellucci finalmente se fez superior e definiu o jogo: 6/1, 6/4, 3/6 e 6/4. Mesmo com um pouco mais de drama do que o esperado, Brasil 1 x 0 Croácia.

Em seguida, foi a vez de Feijão, vindo de oito derrotas seguidas, tentar a sorte contra o número 1 croata. A partida foi até equilbrada, mas Coric conseguiu uma decisiva quebra no nono game do primeiro set e venceu um duro tie-break no segundo. Depois disso, o cenário mais provável seria um triunfo sem sobressaltos do jovem de 18 anos, mas o céu fechou, e o jogo foi paralisado por falta de luz natural pouco antes das 16h.

Alguns minutos depois, o árbitro decidiu que a partida continuaria, mas foi aí que a chuva, que se insinuava desde a manhã, veio com força e alagou a quadra (especialmente a metade que ficou desprotegida – sem lona – durante mais de uma hora). Sem holofotes, a continuação foi adiada para as 10h de sábado, com o placar registrando 6/4, 7/6(5) e 4/1 a favor de Coric.

Se o “previsível” continuar neste sábado, Coric completa sua vitória neste sábado e, em seguida, Marcelo Melo e Bruno Soares marcam o segundo ponto brasileiro em cima e Ivan Dodig e Franko Skugor. De qualquer maneira, o domingo promete um jogaço com o confronto ainda indefinido entre Bellucci e Coric.

Coisas que eu acho que acho

Bellucci esteve longe de seu melhor tênis e mostrou-se consciente disso na coletiva. Aos jornalistas, disse que o mais importante foi manter a cabeça no lugar e não perder-se de vez, especialmente quando esteve atrás no quarto set. Parece uma avaliação bem equilibrada do que aconteceu. Sobre Coric, vale ressaltar que o croata lidou muito bem com o barulho da torcida, que, sejamos sinceros, não foi lá tão agressiva. O adolescente até deu uma provocada a galera quando venceu o segundo set. Resta saber se ele continuará levando a torcida contra numa boa mesmo em uma partida mais equilibrada e, quem sabe, atrás no placar. Será?

A desorganização

A organização do confronto, por sua vez, deixou muito a desejar. A começar pelo funcionário do Costão do Santinho que tentava obrigar motoristas (eu inclusive) a deixarem seus carros em um estacionamento pago perto do resort. Além disso, a situação era confusa para quem precisava trocar vouchers por ingressos. Os guichês, que abririam às 8h, só começaram a funcionar às 9h45min. Com o confronto começando às 10h, não surpreende que a arena estivesse quase vazia quando Bellucci e Delic disputaram o primeiro ponto. E houve também quem reclamasse que os food trucks (boa ideia, só que mal executada) não aceitavam cartões de débito ou crédito.

Para a imprensa, a situação não foi muito melhor. Não havia área demarcada na quadra para jornalistas (bancada com tomada para laptops, então, nem em sonho). Parece bobagem, mas um copo de cerveja voou e molhou um jornalista da ITF – eu estava do lado e “ganhei” alguns pingos (imaginem se cai no computador de alguém). Também não houve transmissão da partida na sala de imprensa (até o terceiro set de Feijão x Coric), e o wifi funcionava muito mal. Ah, sim: banheiros químicos sem lixeiras ou pias eram a única opção. É, seguramente, o confronto de Davis com a pior infraestrutura que vi (este é o oitavo duelo que vejo in loco).


O boi de piranha croata
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Alexandre Cossenza

A expressão vem da cultura popular. Quando é preciso fazer um rebanho cruzar um rio cheio de piranhas, os criadores de gado sacrificam um boi e jogam seus restos no rio. O sangue atrai as piranhas, enquanto o rebanho faz a travessia sem sofrer ataque dos peixes. Pois em Florianópolis, nos playoffs da Copa Davis, Mate Delic é o boi de piranha croata. O capitão escalou o jovem de 22 anos e #499 do mundo para enfrentar Thomaz Bellucci logo no primeiro dia, às 10h locais. Em seguida, Feijão enfrenta Borna Coric, #33 do mundo e croata mais bem ranqueado entre os que estão na capital catarinense (Marin Cilic, lesionado, não está presente).

A intenção de Krajan é simples. “Sacrificar” Delic, tenista com currículo modesto e pouco sucesso até mesmo no circuito Challenger, e dar um dia de descanso a mais para Ivan Dodig, que vem de um título em quadra dura (no Challenger da St. Remy) e teve pouco tempo de adaptação em Floripa. Além disso, Ivan, #106 do ranking de simples, é o duplista #6 do mundo. Logo, sua participação no sábado, contra Marcelo Melo e Bruno Soares, é fundamental. E seria igualmente importante tê-lo em boas condições na eventual necessidade de um quinto jogo no domingo.

A manobra croata faz sentido, como costuma fazer quando um tenista precisaria jogar nos três dias de confronto. Ao mesmo tempo, é arriscado porque praticamente elimina as chances de o país vencer um ponto. Krajan afirmou que Mate Delic treinou bem durante toda a semana e também lembrou que seu “escolhido” conseguiu uma vitória importante contra a Holanda no playoff do ano passado, também disputado fora de casa (contra Igor Sijsling) e também abrindo o confronto.

O capitão croata, contudo, não ficou medindo as palavras nem tentou esconder o essencial. Disse, com todas as letras, que precisava de Dodig inteiro nas duplas, em um ponto “muito importante” para o fim de semana. E, claro, para a possibilidade de jogar no domingo. Para o Brasil, pouco muda. A diferença é que Bellucci é mais favorito ainda para vencer o primeiro jogo. Feijão continua como azarão contra Coric – o que pode acabar sendo bastante favorável ao #2 do Brasil.

Confrontos definidos, amanhã as 10hs começa a batalha! 👊👊👊 #timebrasil #daviscup

A photo posted by Thomaz Bellucci (@belluccioficial) on

Coisas que eu acho que acho:

– O tempo foi bastante ruim nos últimos dois dias em Florianópolis. A chuva forte de quarta-feira fez os times cancelarem os treinos da manhã de hoje. E mesmo na tarde desta quinta a quadra do confronto foi liberada por pouco tempo – novamente por causa da chuva. A essa altura (escrevo às 18h30min), parece inevitável que o confronto comece com o saibro muito, muito pesado.

– O saibro pesado não é ideal para Bellucci, mas não existe condição muito melhor do que jogar um playoff de Copa Davis em casa contra o #499 do mundo.


Davis: favoritismo é brasileiro contra a Croácia
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Alexandre Cossenza

É compreensível que, em tempos de politicamente correto, ninguém goste de assumir favoritismo. Principalmente técnicos de equipes – ou, no caso, capitães de Copa Davis. Muito menos ainda no caso específico de João Zwetsch, que é um capitão de frases longas e pouco objetivas. O máximo que vai se ouvir do gaúcho é que sua equipe tem “uma situação com possibilidade maior.”

Mas que ninguém se engane: a ausência de Marin Cilic, que sofreu uma lesão durante o US Open, faz do Brasil o favorito contra a Croácia no confronto que será disputado neste fim de semana, em Florianópolis, valendo vaga no Grupo Mundial da Copa Davis (quem perder volta à “segunda divisão” do tênis mundial). Sim, o Brasil é favorito mesmo com a Croácia trazendo o #33 do mundo. E mesmo com Feijão em uma longa fase ruim que o tirou do top 100.

E não é difícil entender os porquês. O primeiro é Thomaz Bellucci jogando possivelmente o melhor (e mais consistente!) tênis de sua carreira. Ok, a combinação Bellucci + Davis é quase sinônimo de drama mesmo em condições favoráveis (vide Sorocaba, Chennai, Rio Preto e São Paulo), mas é inegável que o número 1 do país tornou-se um belo tenista de Copa Davis. No saibro, o paulista é favorito para vencer as duas partidas de simples. Com uma dupla quase imbatível, ainda que Bruno Soares não viva o melhor momento de sua carreira, não é nada improvável que o Brasil saia vitorioso com dois pontos de Bellucci e um de Marcelo Melo e Soares. Foi assim contra a Espanha, no Ibirapuera, ano passado.

Outro fator é a torcida. A arena montada no Costão do Santinho não é das maiores nem das mais barulhentas (outdoor com quatro mil lugares), mas a CBT contratou Dartagnan (aquele da corneta!) e sua equipe para garantir que os adversários serão incomodados de sexta a domingo. Sem Cilic, a Croácia põe todas suas esperanças em Borna Coric, #33 do mundo, que tem talento demais, mas experiência de menos. Sim, o adolescente de 18 anos acaba de conquistar um título em Barranquilla em um torneio com condições não tão diferentes das de Florianópolis. Mas seu tênis esteve longe de ser brilhante no Challenger colombiano. Além disso, como o garotão vai lidar com a pressão de carregar o time nas costas e suportar o barulho da torcida? Esse ponto de interrogação vai permanecer pelo menos até sexta-feira.

Não custa lembrar que se Feijão vive mau momento, o #2 croata neste confronto, Ivan Dodig, não está tão melhor assim. É bem verdade que ele e Marcelo Melo foram campeões de duplas em Roland Garros, mas a temporada do experiente (30 anos) Dodig nas simples deixou a desejar. Sua última vitória em chaves principais de torneios de nível ATP aconteceu em abril, no 250 de Istambul. Desde então, tem disputado qualifyings com pouco sucesso. O “copo meio cheio” de Dodig é ter feito seu melhor torneio justamente na última semana, quando foi campeão do Challenger de St. Remy, na França. Por outro lado, pode ser bom para o Brasil enfrentar um adversário que esteve jogando em quadras duras até domingo e que só chegou a Florianópolis na terça-feira, cerca de 72h antes de entrar em quadra na Davis.

Coisas que eu acho que acho:

– Desnecessário dizer o óbvio, mas direi assim mesmo: “favoritismo” não significa vitória garantida (Roberta Vinci que o diga!). É por isso que eles entram em quadra.

– É possível que Dodig tenha um belo fim de semana e apronte algum resultado inesperado? Sim, claro que é. Mas que ninguém descarte a hipótese de Feijão, que fez uma excelente Davis em Buenos Aires, se reencontrar com um bom tênis. O resto do time motivando e a torcida a favor podem ter um peso considerável nisso.

– No papel, a ausência de Cilic facilita demais a vida de Bellucci, que entraria pressionado contra Coric logo no primeiro dia do confronto. Agora, contra Dodig, a margem aumenta bastante para o número 1 do Brasil.

– O ponto da dupla é sempre dado como ganho pelo Brasil ainda antes do confronto. É justificável: Soares e Melo estão entre os melhores do mundo na modalidade e têm entrosamento invejável. Na teoria, o cenário mais provável (e nem é tão provável) de uma vitória croata passa por duas vitórias de Coric e uma de Dodig. Todas nas simples.


Thomaz Bellucci, o tenista que o Brasil ama odiar
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Alexandre Cossenza

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O brasileiro, especialmente aquele que vê casualmente qualquer esporte que não seja futebol, gosta de criticar. O alvo preferido é o árbitro, que invariavelmente rouba o Brasil. Se não tem árbitro, tem sempre um adversário desonesto, violento, catimbeiro, antiesportivo ou até puxa-saco do(s) juiz(es). O brasileiro também gosta de culpar “o sistema”. O campo é horrível, a iluminação é péssima, a torcida “deles” é hostil e a federação nunca permitiria algo assim no Brasil. E, quando tudo se esgota, tudinho mesmo, o brasileiro reclama do brasileiro. É aí que entra a figura de Thomaz Bellucci. Apresento abaixo dez provas:

Não conheço as pessoas que escreveram os tuítes acima, não sei com que frequência acompanham esportes nem tenho a intenção de desqualificá-las. Os tuítes estão aqui apenas para dar substância ao que escrevo no primeiro parágrafo. O brasileiro “médio” gosta de reclamar do brasileiro (e isso nem vale só para o esporte, mas essa discussão fica para outro dia). Um dos autores acima, inclusive, para reclamar de Bellucci, criticou dois ginastas campeões mundiais, um cavalo campeão olímpico e uma levantadora campeã de Grand Prix e medalhista olímpica. Mas não é só ele. Já vi até um narrador de canal de esportes dizendo que o paulista deveria se aposentar e jogar sinuca.

Mas eu divago. O objetivo aqui é falar de Thomaz Bellucci e de como o brasileiro ama odiá-lo. Primeiro, aos fatos: o paulista já foi número 21 do mundo, conquistou três títulos no circuito mundial e passou mais de dois anos ininterruptos entre os 40 melhores do mundo. Até o último fim de semana, Bellucci somava 16 vitórias e dez derrotas em jogos de Copa Davis. Se você sabe alguma coisa de tênis, deve reconhecer (atenção: sem precisar comparar com ninguém!) que é um dos melhores currículos da história do tênis brasileiro.

Mais fatos: o paulista, hoje com 27 anos, é um tenista inconstante, que alterna momentos excelentes com sequências pavorosas. Bellucci não é só irregular tecnicamente. Aliás, nem oscila tanto assim em seus golpes. O aspecto mental de seu tênis é o que mais varia (e nem oscila tanto assim em Copa Davis). Sim, o atual número 2 do Brasil perde um bocado de chances e jogos ganháveis. E sim, Bellucci já desistiu mentalmente de partidas que não estavam tão perdidas assim (isso, aliás, também não acontece em jogos de Copa Davis).

Com um olhar superficial, é difícil entender como um atleta com golpes tão sólidos varia tanto. Até Rafa Nadal, em sua recente passagem pelo Rio de Janeiro, disse que não sabia por que Bellucci não tinha uma ranking mais alto. Mas tênis é uma combinação de técnica, mental e físico – outro ponto em que o paulista precisa evoluir. Atualmente no 85º posto do ranking mundial, Bellucci não consegue combinar todos esses ingredientes com a frequência necessária para brigar com os vinte primeiros da lista da ATP. É preciso mais.

Ainda assim, é admirável que um tenista com “tantas” falhas tenha alcançado tanto na carreira – e esse tanto inclui mais de US$ 3 milhões em premiações (sem contar a verba de patrocinadores). É um feito invejável. Por isso, me incomodou ler tantas críticas durante os últimos dias, enquanto o Brasil enfrentava a Argentina.

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Logo na Copa Davis, em que Bellucci costuma tirar o melhor de seu tênis. Nessa mesma competição, a “Copa do Mundo do Tênis”, Bellucci soma uma linda virada (perdia por 2 sets a 0) sobre Alejandro Falla, da Colômbia, uma vitória memorável em cima de John Isner, em quadra dura e fora de casa, e os dois recentes triunfos sobre a Espanha que colocaram o Brasil de volta na primeira divisão.

Só que reclamar é mais fácil do que clicar aqui ou ali para se informar. Pouco importou, aparentemente, que Bellucci chegou a Buenos Aires em má fase, vindo de quatro derrotas seguidas. Ou que Bellucci fosse enfrentar dois adversários de alto nível (Leo Mayer, 27º do mundo, e Federico Delbonis, 79º). Ou que a quadra propositalmente muito lenta fosse favorável aos tenistas da casa. Ou, ainda, que a torcida barulhenta fosse fazer diferença (como fez em São Paulo, em 2012, quando Bellucci derrotou o mesmo Mayer).

Nessas horas, o que importa para muitos é a fama – justa ou não. Quando Feijão, em uma atuação memorável, perdeu o quarto jogo para Leo Mayer depois de 6h42min, Bellucci, aquele mesmo que foi festejadíssimo em setembro, quando até salvou match point e comandou a vitória brasileira em cima da Espanha, voltava a ser o Bellucci sem raça, perdedor, amarelão. Porque Bellucci é, hoje mais do que nunca, aquele tenista que o país ama odiar.

Coisas que eu acho que acho:

– O Twitter é prova. Eu mesmo sou um dos primeiros a criticar quando Bellucci deixa de acreditar em um jogo e entrega metaforicamente os pontos antes da hora. Também sempre questiono seu preparo físico, responsável por um punhado de derrotas – também antes da hora. Mas critico porque ele é “sem sangue”, como dizem alguns? Ou porque ele está desonrando o país, talvez? Nem um nem outro. Apenas aponto o óbvio: que Bellucci tem golpes para fazer muito mais e que ganharia um punhado de jogos a mais se conseguisse administrar melhor os aspectos mental e físico.

– Nem o mental nem o físico, atualmente, faz de Bellucci, por definição, um perdedor, um amarelão, um tenista sem raça. A página da ATP está lá, com todos resultados, para provar. O site da Davis também tem tudo arquivadinho. Basta querer saber.

– Respeito quem discorda (educadamente). Há quem, mesmo lendo tudo isso que escrevi, vá continuar achando que Bellucci é um péssimo tenista. Tudo bem. Só que vale uma pergunta: se Bellucci é tão, mas tão ruim assim, como chegou a número 21 do mundo? Será que Bellucci é uma espécie de gênio por ter ido tão longe sendo tão ruim? Será que o paulista é o tenista mais sortudo da história? Será que conseguimos uma resposta?


Feijão: uma vitória sem match point
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Alexandre Cossenza

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Foram 11h39min em quadra, 807 pontos disputados, dez sets jogados, dez match points salvos e um recorde quebrado. João Souza deixa Buenos Aires com uma vitória improvavelmente fantástica contra Carlos Berlocq, a honra de ter disputado a partida de simples mais longa da história da Copa Davis (6h42min na derrota para Leo Mayer), e um currículo com a adição de, somando sexta-feira e domingo, um fim de semana épico, histórico, titânico… Boyhoodiano!

No que foi possivelmente a maior atuação de um brasileiro na Copa Davis desde Guga em Lérida/1999, Feijão não conseguiu dar a vitória ao time brasileiro, mas deixou em quadra muito mais do que isso. Mostrou coragem em pontos importantes, foi persistente (nas muitas e muitas vezes) quando tudo parecia perdido e teve raça quando o corpo não respondia mais. Apagou as dúvidas que (supostamente) existiam sobre seu preparo físico e, muito mais do que isso, deu à torcida alguém por quem ela pode ter orgulho de torcer – na vitória ou na derrota. Mesmo sem match point para chamar de seu, Feijão foi um vencedor.

Mayer, que lutou bravamente quando também estava exausto, mereceu vencer e estender o confronto. E seria igualmente justo se tivesse fechado a partida antes. Abriu 7/6(4), 7/6(5) e 3/0 e parecia estar no controle das ações. Só não contava com uma furiosa reação do número 1 do Brasil. Onde muitos tenistas veriam areia movediça, João Souza enxergou uma escada. Virou um set quase perdido, ganhou mais um e forçou a quinta parcial. Então, lutando contra as limitações do corpo, salvou match point atrás de match point. Foram dez ao todo.

O único pecado, tão perdoável quanto soa injusto chamar de pecado qualquer falha nessas condições, foi não confirmar o serviço quando teve 6/5. Paciência. Se chegou à chance de fechar a partida foi porque, antes, anulou muitas e muitas chances do adversário. Àquela altura, tudo parecia lucro. O curioso – e elogiável – é que agora, pós-ponto derradeiro, a sensação não é muito diferente. Ninguém vai enfatizar o 12º game que escapou nem a direita que saiu quando Mayer sacava em 15/30 no 27º game. A imagem que fica é a do “lucro”. Da batalha, da raça, da fé, da esperança, do orgulho de torcer. Feijão foi hercúleo e é isso que importa.

#feijãomágico

Coisas que eu acho que acho:

– O quinto ponto foi suspenso quando Thomaz Bellucci perdeu o primeiro set para Federico Delbonis por 6/3. O número 2 do Brasil começou mal, viu o tenista da casa abrir 5/1 e, quando “entrou” no jogo, já era tarde. A partida recomeça às 11h desta segunda-feira, e o Brasil continua a três sets das quartas de final da Davis.

– Logo que a última partida começou, li muitas críticas a Bellucci nas redes sociais. Tidas acentuadas, claro, pelo contraste de estilos e pelo fim de semana espetacular de Feijão. Entendo até certo ponto, mas não acho justo usar o brilho de um para ofuscar o outro. Criticar a postura de Bellucci na Davis é esquecer de atuações memoráveis como a virada sobre Alejandro Falla, os dois triunfos sobre a Espanha e a vitória sobre John Isner nos Estados Unidos. Feijão foi monstruoso, sim, mas isso não faz de Bellucci nem mais nem menos.

– Uma derrota brasileira significaria uma repescagem dura, mas provavelmente em solo brasileiro. Entre os possíveis cabeças de chave da repescagem estão República Tcheca, Suíça, Itália, Estados Unidos, Alemanha, Croácia e Japão/Canadá. E ainda existe a possibilidade de a Espanha alcançar os playoffs via Zonal da Europa. Não seria nada fácil para o Brasil.


Melo, Soares e o ponto de (des)equilíbrio
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Alexandre Cossenza

Soares_Melo_Davis_Andujar2_blog

Entra Copa Davis, sai Copa Davis, e o Brasil tem uma certeza: Marcelo Melo e Bruno Soares vão triunfar no sábado. É assim há oito confrontos, e até os irmãos Bob e Mike Bryan já foram vítima. Não foi diferente em Buenos Aires. Por 3 sets a 0, com parciais de 7/5, 6/3 e 6/4, os dois mineiros derrotaram Carlos Berlocq e Diego Schwartzman e colocaram o Brasil novamente à frente no confronto: 2 a 1. Agora, o time do capitão João Zwetsch está a um ponto de avançar no Grupo Mundial pela primeira vez desde 2001.

Tirando o primeiro game de saque do segundo set, que teve três duplas faltas de Bruno Soares e acabou com a primeira quebra a favor da Argentina, foi um jogo sem sustos. E nem foi uma atuação espetacular da parceria brasileira. O primeiro set foi um pouco instável, e a quebra só veio no 12º game, quando Schwartzman – serviço mais vulnerável da dupla da casa – foi quebrado com uma devolução vencedora de Soares.

O único tropeço veio no começo do segundo set, mas a liderança de Berlocq e Schwartzman não demorou muito. Três games depois, Schwartzman foi quebrado novamente. Mais dois games e, dessa vez, foi Berlocq quem perdeu o serviço. Soares ainda teve o saque ameaçado outra vez, mas o time brasileiro salvou um break point no nono game e fechou a parcial três pontos depois.

Até que o público tentou. Os argentinos se levantaram, pularam, gritaram e aplaudiram, mas o jogo já parecia em piloto automático para os brasileiros. Com Marcelo Melo mais uma vez jogando uma monstruosidade – não é o número 3 do mundo e 1 do país por acaso – foi questão de tempo para que ele e Soares fechassem a partida. E sem drama.

Assim, mais uma vez, a dupla mineira, o ponto de equilíbrio e segurança do time brasileiro, desequilibrou um confronto. Foi assim contra a Rússia em 2011, contra a Colômbia em 2012, e contra Equador e Espanha em 2014. Todos esses confrontos terminaram a sexta-feira empatados. Em todos eles, Marcelo Melo e Bruno Soares colocaram o Brasil na frente. Agora só falta um.

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Coisas que eu acho que acho:

– Em tese, o primeiro jogo deste domingo, às 11h (de Brasília), será entre Feijão e Leonardo Mayer. Mas será que Orsanic teria a ousadia de substituir o número 1 do país? No saibro, com Feijão sacando aberto e alto, o backhand de Mayer pode se mostrar um tanto vulnerável. Foi assim em São Paulo, quando o paulista levou a melhor. Por esse lado, talvez Schwartzman, mais consistente do fundo de quadra, fosse uma opção interessante para a Argentina, mas será que Orsanic, em sua estreia como capitão, ousaria tanto ao tirar o número 1 do país no domingo?

– E quanto a Berlocq, que jogou 4h57min na sexta e voltou à quadra neste sábado? Será que Orsanic insiste com ele no caso de um quinto jogo? Ou Delbonis estaria sendo guardado para a ocasião?

– Não custa lembrar. A última vez que o Brasil passou da primeira rodada no Grupo Mundial foi em 2001, quando o time do capitão Ricardo Acioly derrotou Marrocos, no Rio de Janeiro, por 4 a 1. Aquela equipe tinha Gustavo Kuerten, Fernando Meligeni, Jaime Oncins e Alexandre Simoni (os dois últimos fizeram o ponto das duplas e fecharam o confronto já no sábado).

– Não seria bacana se o Brasil fechasse o confronto em 3 a 2, com uma vitória de Bellucci? Um resultado assim seria, ao menos, simbólico de um time que, hoje em dia, pode vencer qualquer dos pontos, seja com Feijão, Bellucci ou a dupla. Equipes assim, com uma pitada de sorte na chave, podem ir bastante longe.

– A Sérvia, que já abriu 3 a 0 em cima da Croácia, vai enfrentar o vencedor de Brasil x Argentina. Djokovic e companhia jogarão em casa se o Brasil triunfar. Em caso de vitória argentina, os hermanos escolherão a sede.