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Saque e Voleio

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No papel, Jaime Oncins é uma ótima escolha para capitão da Copa Davis

Alexandre Cossenza

2015-03-20T19:14:47

15/03/2019 14h47

Ao nomear Jaime Oncins como novo capitão brasileiro para a Copa Davis, a CBT marcou todas as caixinhas certas. Ex-jogador com belo histórico na competição? Check. Técnico com experiência no circuito? Check. Apaixonado pela Copa Davis? Check (com ressalvas). Não treina nenhum dos atuais selecionáveis brasileiros? Check. Até aí, perfeito. No papel, Jaime Oncins é uma ótima escolha para o cargo.

Faz-se também uma justiça tardia. Há mais de 15 anos, em fevereiro de 2004, Oncins foi nomeado para capitão da Davis pelo então presidente da Confederação Brasileira de Tênis, Nelson Nastás. Naquela ocasião, porém, Guga liderou um boicote que tinha como objetivo tirar Nastás da presidência. Oncins acabou pedindo demissão antes de seu primeiro confronto no cargo, e o boicote durou até o fim de 2004, quando o Brasil acabou rebaixado para a terceira divisão da Davis após derrotas para Paraguai, Peru e Venezuela.

Oncins volta agora trazendo características que podem lhe fazer um capitão melhor do que o capitão que não foi 15 anos atrás. O paulista de 48 anos, que esteve em duas semifinais da Davis (jogando simples em 1992 e duplas em 2000), também foi técnico. Esteve no circuito ao lado de Gastão Elias e é muito elogiado pelo tenista português. O Jaime de hoje conhece os dois lados da coisa. O dentro e o fora de quadra.

Fora de quadra, aliás, Oncins tem tudo para fazer um papel melhor que o de seu antecessor, João Zwetsch, que teve problemas no diálogo com jogadores e falhou feio ao escolher (e/ou justificar as escolhas de) sedes de confrontos. Seus erros contribuíram para as recentes derrotas diante da Croácia, em 2015, e da Bélgica, em 2019. O primeiro confronto colocaria o Brasil no Grupo Mundial. O mais recente classificaria a equipe para a primeira Final da Copa Davis no novo formato (com todos times duelando em uma semana em Madri).

Oncins esteve em muitos confrontos duros e sabe o peso que essas escolhas carregam. O Jaime que o mundo do tênis conhece não é de abaixar a cabeça e ceder a influências externas. Ele conhece o esporte, a competição e sabe a importância do cargo que assume. Que conduza o time brasileiro com as mesmas características que mostrou como atleta: raça, competência, intensidade, honestidade e inconformismo. Boa sorte, Jaime.

Coisas que eu acho que acho:

– No texto do anúncio, a CBT informou que Oncins "passa a acompanhar alguns torneios do circuito para observar a atuação dos atletas brasileiros e adversários. De imediato, Jaime estará no Miami Open e em Roland Garros." O próximo confronto do Brasil na Copa Davis é contra Barbados, em setembro. Esperemos que a última viagem de observação de Oncins não seja esta de maio/junho, em Roland Garros.

– Não que enfrentar Barbados seja um grande desafio, mas considerando o histórico recente, que incluit sufoco contra uma desfalcada República Dominicana, não convém dar brechas. E vale registrar: o atual número 1 de Barbados é Darian King, número 190 do mundo. Ele é o único tenista de seu país no ranking da ATP. Em seu último confronto, o time caribenho contou também com Haydn Lewis, Matthew Foster-Estwick, Xavier Lawrence e Kaipo Marshall. Destes, apenas Foster-Estwick figura no ranking da ITF. Ele é o #2371 em simples e não joga um torneio profissional desde maio de 2018.

– Oncins é tão apaixonado pela Davis que mostrou inconformismo quando o novo formato foi adotado. Chegou a falar da "nova" Davis como o "fim de um sonho" e que "foi bom enquanto durou". Como não dá para voltar atrás e o paulista aceitou o cargo, imagino que ele tenha feito as pazes internamente com o novo formato e esteja pronto para encarar o desafio, ainda que este seja um pouco (ou muito?) diferente do de sua época.

– Recomendo fortemente a leitura do texto de hoje do jornalista Rubens Lisboa, que acompanhou de perto times brasileiros em Copas Davis recentes. No artigo, ele fala sobre o histórico de Oncins na Davis, lembra de sua relação com Paulo Cleto e conta ainda um problema do novo capitão com Dácio Campos, que criticou fortemente Oncins e Cleto 15 anos atrás.

– Ume lembrança muito legal que tenho de Oncins foi de sua participação no Rio Champions, quando ele enfrentou John McEnroe. Um torneio quase de exibição, com pouca gente na arquibancada, mas que o paulista levou muito a sério. Tão a sério que chegou bufando para a entrevista coletiva, reclamando fortemente do árbitro de cadeira Adão Chagas, que, segundo Oncins, foi muito leniente com as reclamações e cenas de McEnroe durante a partida. Que Oncins leve essa intensidade para o banco de capitão, onde ela fez muita falta recentemente.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.