Topo
Saque e Voleio

Saque e Voleio

Jaime Oncins: cobrança por comprometimento e promessa de autonomia na Copa Davis

Alexandre Cossenza

2028-03-20T19:06:00

28/03/2019 06h00

No dia 15 de março de 2019, começou uma nova era para o Brasil na Copa Davis. Após a saída de João Zwetsch, Jaime Oncins foi anunciado como capitão do país na competição. Um nome incontestável de um ex-tenista que não só manteve boas relações com quase todos no cenário da modalidade no Brasil e que, além disso, defendeu o país por 11 anos na Copa Davis e até hoje mostra-se um apaixonado pelo evento, mesmo no novo formato.

Em breve visita ao Hard Rock Stadium, sede do Miami Open, durante o intervalo entre seus comentários nas transmissões do DAZN, Oncins me encontrou na área de convivência do torneio. Encontramos uma sombra e falamos sobre o que vem por aí. O ex-tenista falou que tipo de capitão pretende ser, revelou suas preferências sobre as condições de jogo e disse que perfil de atleta vai querer competindo pelo Brasil.

Na conversa, duas declarações merecem destaque: o comprometimento que Oncins exigirá de seus comandados, seja em Zonais ou em confrontos na primeira divisão da Davis; e a prometida autonomia para decidir junto com a equipe as condições de cada confronto que o Brasil sediar. Rolem a página e confiram o que Oncins teve a dizer sobre o confronto com Barbados, seu histórico como treinador, seu papel como treinador da Montverde Academy, na Flórida, onde mora, e o que espera alcançar com o time brasileiro.

Quando o [Rafael, presidente da CBT] Westrupp fez o convite, que tipo de capitão ele disse que queria?

Na verdade, ele me ligou para fazer o convite inicial, falou a situação que estava, o que estava acontecendo e tudo mais, e eu pedi um tempinho para assimilar, conversar com a minha família, como sempre faço quando preciso tomar uma decisão. Depois falamos mais duas vezes, e aceitei o convite. Na verdade, acho que não é… Não existe assim um…

Um tipo de capitão…

É. Um tipo de capitão. O que ele gostaria… Ele falou que houve uma conversa com os jogadores, e dentro dessa conversa o meu nome era uma das opções. Na verdade, ele vai acabar descobrindo que tipo de capitão eu sou (risos) na hora que começar, entendeu? Mas era mais ou menos o perfil de alguém que já tinha participado de Copa Davis, que tinha as qualidades que precisa um capitão de Copa Davis. A gente foi conversando e se acertando.

Você jogou, conhece a competição, você tem a paixão pela Copa Davis, que eu acho que é um negócio que todo mundo achou muito legal quando viu seu nome… E você foi técnico também. O que isso te agrega para o posto de capitão?

Eu acho que tudo, de certa maneira, tem uma importância. O fato de eu ter jogado 11 anos de Copa Davis… Eu parei de jogar em 2001, são praticamente 16-17 anos que tenho trabalhado como treinador. Agora numa escola, o foco da escola não é só a parte de quadra, mas sim a parte acadêmica. O trabalho que eu faço com a garotada é para eles entenderem a importância de trabalhar em equipe, já que é o time da escola que joga. Então a importância de eles deixarem a individualidade de lado, com um ajudando o outro, um motivando o outro, vai ser bom para o grupo. Acho que essa experiência também eu pretendo passar na Davis e é o que eu vivi na Davis. Aquelas semanas de competição a gente deixava tudo de lado, toda parte de ranking, de compromisso com patrocinadores, para pensar na Copa Davis e focar naquilo ali. Acho que é isso que precisa numa Copa Davis. É importante isso, o jogador ter esse comprometimento nessa semana, e é isso que eu vou buscar.

Como é esse formato dos confrontos de colégio?

Depende do confronto e da competição. Normalmente, são cinco simples e duas duplas. Você precisa ter quatro vitórias. No college, são seis simples e três duplas. A gente já jogou das duas maneiras. É uma experiência em que todo jogo é importante. Você joga todas partidas ao mesmo tempo. Cinco simples ao mesmo tempo. Começa pela dupla e depois as cinco simples ao mesmo tempo.

Como você consegue acompanhar isso?

Pois é, uma coisa de louco! Eu tenho dois assistentes que trabalham comigo. Eu posso botar mais um coach que pode estar dentro de quadra. Na verdade, você fica vendo jogo e fazendo conta porque você fica sabendo "preciso de mais uma vitória", "preciso de mais duas vitórias", então você começa a centralizar nas quadras que estão mais próximas, que você sabe se o jogo é mais difícil ou não, e você tem que assistir, ao mesmo tempo, a três-quatro jogos. Em determinado momento, você foca em apenas um.

Você tira disso algo para a Davis?

É diferente porque a Davis você vai estar no jogo. Você vai estar dentro da quadra em todos os jogos. O que você acaba levando, mas isso é uma coisa minha, pessoal, desde pequeno, quando jogava juvenil, eu sempre fui muito observador. Acho que isso ajuda muito numa Copa Davis. O trabalho de treinador é você também entender o indivíduo, aquele atleta com quem você está trabalhando. Você tem que saber qual é maneira que você vai usar para conseguir puxar o melhor daquele jogador. Cada um tem uma personalidade diferente. Você tem que entender essa personalidade e como você vai conseguir puxar o melhor daquele atleta. Acho que esse é o grande desafio de um treinador.

O que você busca num jogador? Como é o tenista de Copa Davis ideal para você?

Primeiro: o que vai ter o comprometimento de jogar uma Copa Davis, não importa se jogamos contra Nicarágua ou Alemanha. Tem que ser o mesmo comprometimento. Ser um jogador que entenda que naquela semana ele vai ter que deixar o individualismo de lado e trabalhar o que for melhor para o grupo. O tenista, por natureza, é uma pessoa mais egoísta porque é natural da profissão. É um esporte individual, você tem que se preocupar com você e fazer as coisas para você. E naquela semana, especificamente, tem que deixar um pouquinho isso de lado e trabalhar em prol do grupo. Tem que ser um jogador que entenda isso e ser aquele jogador que você sabe que a todo momento pode contar com ele. Não importa a situação, contra quem estiver jogando, vai se entregar, vai se doar. É isso que eu busco.

Eu sei que cada confronto é um confronto, tem suas peculiaridades, mas por conceito, você é um cara que prefere que o confronto seja nas condições melhores para os seus jogadores ou nas condições que são piores para os adversários?

Olha, se puder combinar as duas, é melhor (risos). Mas eu acho que a primeira coisa é o que é melhor para nossos jogadores. Essa tem que ser a primeira opção, mas você tem que procurar jogadores versáteis, que podem jogar no saibro, na dura, a nível do mar, na altitude. A cada confronto vai ser uma situação diferente. Eu vivi isso como jogador e agora, como treinador, não vai ser diferente. O jogador de Copa Davis tem que se adaptar às situações. Quando a gente jogar em casa, tem que ver o melhor para a gente, mas também não adianta, por exemplo… Nossos jogadores gostam de jogar no saibro pesado, e a gente vai pegar um time que todo mundo adora isso. Então tem que ver se existe uma possibilidade, uma adaptação onde a gente consegue, sem fugir das nossas características, um lugar que não seja tanta vantagem assim para o time adversário.

Você conversou com o Westrupp sobre sedes? Porque houve críticas na escolha de Uberlândia, que era indoor, tinha altitude e tal, mas não é só especificamente Uberlândia. O Larri [Passos] deu uma entrevista dizendo que a escolha de sede fica limitada às necessidades financeiras da CBT. Vocês conversaram se você vai ter autonomia para escolher?

Então… Não vou escolher a sede. Isso não era nem na época que eu jogava. O que eu quero é, por exemplo, eu quero saibro e nível do mar. Aí a CBT vai atrás disso. Se vai ser Rio de Janeiro, se vai ser Florianópolis ou se vai ser Porto Alegre, eles vão buscar o melhor lugar dentro, claro, tem que entender esse lado financeiro de onde vai ter uma condição melhor para a CBT. Mas sem fugir… Não adianta eu pedir saibro e nível do mar e "olha, vamos jogar em altura e quadra rápida". Aí foge do que me foi falado e do que foi conversado com o Westrupp. Estou tranquilo quanto a isso. Vai ser o que a gente pedir para o time.

A gente pode esperar um processo que começa com você e termina com eles, então? Não é a CBT te dizendo "olha, eu tenho essas cidades, e você escolhe uma"?

Não, pelo contrário.

Muito legal.

Ele [Westrupp] deu carta branca, falou "Jaime, você vai me falar quais as condições que você quer jogar, e eu vou atrás do local."

Vocês discutiram metas? E o que você quer alcançar com o time?

Eu quero montar um time forte. Eu quero montar um time que as pessoas que forem acompanhar vão dizer "é um time". É um time com espírito de Davis, um time brigador, um time que vai vestir a camisa, que quem puder assistir veja que realmente a gente tem um time do Brasil. Que fique bem claro, Não é "X jogadores". Não é isso. Não importa a mudança que eu faça, não importa os jogadores que eu coloque, que eles tenham o mesmo espírito de equipe, de time. Que as pessoas que forem assistir se identifiquem com isso.

Um tema que vem muito dos fãs é "renovação". Copa Davis não é exatamente o lugar ideal para isso porque você não pode fazer experiência e…

Não é lugar para fazer experiência. Eu acho assim: você tem que chamar quem está melhor e dentro de uma filosofia de trabalho. O tênis no Brasil está passando por um momento de transição. A gente tem jogadores experientes, principalmente na dupla. Nossa dupla é bem experiente, e tem o Demoliner também vindo com bons resultados também. Nas simples, a gente tem uma mescla de jogadores experientes com uma garotada que está vindo com um bom futuro pela frente. Você, dependendo do confronto, tem que saber lidar com essas ferramentas que nós temos. Não somos um país como Espanha, EUA, que têm 20-30 jogadores para colocar num time. Nós temos um grupo não tão grande, mas que tem jovens com grandes possibilidades, para daqui a alguns anos estarem sólidos no circuito profissional.

Para o confronto com Barbados, vocês já pensaram em condições ideais? Tudo bem que é um time fraco, com um jogador, mas às vezes um bom jogador desequilibra.

Então… Precisa ter cuidado porque tem um jogador bom, que joga bem [Darian King, atual #191 do mundo]. Eu já aprendi isso, não só na época em que eu jogava, mas muito que eu vi de "no papel é uma coisa, na quadra é outra". Você tem sempre que respeitar. Tem que respeitar todos os times. O King joga muito bem, principalmente em quadra dura. Você pega o calendário dele, é 90% quadra dura, então com certeza não vamos jogar em quadra dura. Isso já é um ponto certo, inclusive na conversa com os jogadores. A opção vai ser mesmo jogar no saibro. Primeiro, nossos jogadores jogam bem em saibro, e o King está mais acostumado com quadra dura.

Para terminar: prometi que não ia te perguntar sobre o boicote de 2004 e não vou entrar nesse assunto, mas quero saber se aquilo que aconteceu [em 2004, Oncins foi nomeado capitão brasileiro para a Copa Davis, mas, diante do boicote liderado por Guga, pediu demissão antes de comandar o país em um confronto] faz essa nomeação ter um gosto especial?

Não, não. Como eu falei para você: aquilo que aconteceu já é assunto morto para mim. Passou, nem vale a pena lembrar. Eu acho que não tem um gosto especial. Eu aceitei ser capitão de Copa Davis agora porque acho que posso fazer um trabalho bom. Então continuo na Montverde. Lá, o programa só vem crescendo. O fato de ser capitão da Davis só vem a somar ao trabalho que estou e vou continuar fazendo na Montverde, e assim.. Não gosto de falar em hora certa e "veio na hora certa". Não tem isso. Veio na hora que tinha que vir, como poderia vir daqui a um ano, dois anos ou poderia nem vir. Mas o momento que estou passando me proporciona saber que posso fazer esse trabalho e fazer bem feito.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.