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Saque e Voleio

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Croácia é campeã em uma bela despedida da Copa-Davis-como-a-conhecemos

Alexandre Cossenza

25/11/2018 14h50

Mais de 20 mil pessoas entupiram o Stade Pierre Mauroy, em Lille, para a última decisão da Copa Davis em seu formato clássico. Sem seus três tenistas mais bem ranqueados atualmente, a França sucumbiu e viu a Croácia de Marin Cilic e Borna Coric comemorar e vencer o duelo por 3 a 1. Um confronto que teve um pouco de tudo daquilo que fãs de Copa Davis gostam na competição.

A começar pelas possibilidades de escalação. O capitão francês, Yannick Noah, apostou em um curiosa formação no primeiro dia, colocando Jeremy Chardy para encarar Borna Coric, e Jo-Wilfried Tsonga diante de Marin Cilic. Noah arriscou e pagou o preço. Em seis sets, a Croácia abriu 2 a 0, uma vantagem enorme para um time tão forte.

O segundo dia trouxe vitória e esperança para a França. Pierre-Hugues Herbert e Nicolas Mahut venceram Ivan Dodig e Mate Pavic em quatro sets. A Copa Davis, então, colocava na mesa mais de seus elementos. A expectativa pelo terceiro dia – para Marin Cilic, seria um exercício de controle de ansiedade. O croata, lembremos, esteve a dois games de dar a seu país o título da Davis em 2016. Porém, após abrir 2 sets a 0 no quarto jogo, viu Juan Martín del Potro sacar uma virada memorável. Federico Delbonis, então, venceu o quinto ponto para os argentinos.

Fora de quadra, também houve momentos marcantes. Apresentado no sistema de som, o presidente da ITF, David Haggerty, foi vaiado intensamente por boa parte do público de Lille (veja acima). Foi ele, lembremos, o principal responsável por começar o movimento político que terminou com a aprovação das mudanças radicais que entrarão em vigor na Copa Davis em 2019. Haggerty pode seguir quanto tempo quiser argumentando que a competição não se sustentaria no modelo atual, mas é impressionante como a reação dos fãs de Copa Davis – aqueles fãs que compram ingressos e enchem estádios – continua fortemente contrária ao que se decidiu no ambiente político.

Finalmente, neste domingo, mais uma pequena surpresa: Noah decidiu escalar Pouille para encarar Cilic no primeiro jogo do dia. Pouco adiantou. Depois de um primeiro set tenso, decidido apenas no tie-break, o croata tomou o controle. Fez 7/6(3), 6/3 e 6/3 e deu a seu país o segundo título da Copa Davis (o primeiro foi em 2005, quando Ivan Ljubicic teve uma temporada espetacular, e Mario Ancic foi o herói da final, superando Michal Mertinak no quinto ponto do duelo com a Eslováquia, em Bratislava).

Piso escolhido pelo time da casa, expectativa, ansiedade, mudança na escalação, e a redenção de um ídolo. A última Copa-Davis-como-a-conhecemos terminou bem, colocando na mesa seus elementos mais apaixonantes – e o confronto só não foi mais emocionante porque Cilic e Coric estiveram impecáveis. Mais de 20 mil pessoas compareceram ao velório e vaiaram um cartola. A despedida não poderia ter sido muito melhor.

Coisas que eu acho que acho:

– Os três tenistas mais bem ranqueados da França atualmente são Richard Gasquet (#26), Gael Monfils (#29) e Gilles Simon (#30). Gasquet disse estar lesionado, mas os outros dois ficaram fora por escolha de Noah. Simon, aliás, fez boas apresentações no ATP 500 da Basileia (teve chances de bater Roger Federer) e no Masters de Paris 1000. Ambos torneios, no entanto, foram em piso duro, enquanto a final da Davis foi no saibro.

– Para Noah, mais difícil do que justificar as ausências de Simon e Monfils deveria ser explicar a convocação de Tsonga, que não fazia uma partida melhor de cinco sets desde janeiro e passou sete meses da temporada se recuperando de uma lesão. Voltou a competir em setembro, em Metz e também só fez jogos em torneios de quadra dura. Venceu um jogo e perdeu quatro. Como justificar sua escalação em uma final de Davis – no saibro! – contra Coric e Cilic?

– Uma curiosidade para quem realmente acredita que o maior problema da Copa Davis era a falta de nomes de peso: 15 dos últimos 16 campeões de slam também venceram a Copa Davis: Djokovic, Nadal, Federer, Wawrinka, Murray, Cilic, Del Potro, Safin, Roddick, Ferrero Agassi, Sampras, Hewitt, Costa e Johansson. A exceção? Gastón Gaudio, que venceu Roland Garros em 2004.

– Sim, é verdade que esses campeões nem sempre jogaram a Davis ao mesmo tempo, mas é preciso ressaltar um detalhe na estatística acima. Não é que 15 campeões de slam "jogaram" a Davis, mas eles "ganharam" a Davis. E não foram três ou quatro, mas 15!

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.