Saque e Voleio

Categoria : Roger Federer

Precisamos considerar a hipótese de Federer como número 1 outra vez
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Alexandre Cossenza

Tudo bem, são só dois meses e meio de temporada. Tudo bem, Andy Murray ainda lidera o ranking mundial com folga. A contar desta segunda-feira, 20 de março, o britânico tem mais de 3 mil pontos sobre Novak Djokovic, o vice-líder. Só que esses dois meses e meio incluíram um slam, um Masters 1000, e Roger Federer venceu ambos. Não dá para jogar o assunto para baixo do tapete. Já é preciso considerar a possibilidade de ver o suíço como número 1 do mundo mais uma vez.

Não só pelo começo de ano estrondoso do suíço. Novak Djokovic ainda não fez nada de relevante em 2017, e o máximo que Andy Murray conseguiu foi vencer um ATP 500. O britânico caiu na estreia em Indian Wells e não estará em Miami. O sérvio, eliminado nas oitavas na Califórnia, também será ausência na Flórida. Enquanto isso, Federer viaja embalado, dono do melhor tênis jogado no ano.

Ainda faltam três slams, oito Masters 1.000 e um ATP Finals. Ninguém está dizendo que é provável ou muito provável a volta de Federer ao topo. Mas talvez seja um momento bom para observar o que joga a favor ou contra esse cenário.

O que ajuda

– O que já aconteceu: Federer jogou três torneios, ganhou dois e somou 3.045 pontos. O segundo colocado no ranking da temporada é Nadal, com 1.635 – pouco mais da metade. É de se esperar que Djokovic e Murray somem mais pontos nos próximos meses. Até agora, contudo, o sérvio somou só 475, enquanto o britânico acumula 840. A vantagem do suíço é considerável.

– O pequeno desgaste: Não dá para dizer que Federer está cansado. Até agora, esteve em três torneios. Perdeu na segunda rodada em Dubai e ganhou AO e IW, dois eventos com um dia de intervalo entre a maioria dos jogos. Na Califórnia, venceu uma partida por WO e só entrou em quadra cinco vezes. Não jogou três sets nenhuma vez, e a apresentação mais longa durou 1h34min. Resumindo? Somando o estilo de jogo “econômico” para o corpo e a facilidade das vitórias recentes, o suíço está em ótima forma e sem desgate acumulado.

O que pode jogar contra

– A idade é sempre o primeiro ponto de interrogação. Lesões são mais frequentes quando um atleta tem 35 anos. Embora não lide com nenhum incômodo no momento, esse tipo de coisa acontece sem aviso. Foi assim ano passado. Oficialmente, o problema no joelho, aquele que exigiu uma cirurgia e deixou o suíço seis meses sem jogar, começou fora de quadra.

– O calendário reduzido. Quanto menos torneios, menor a margem para atuações ruins. Federer já avisou que vai jogar menos em 2017, mas ainda não está claro o quão enxuta será a lista de eventos. Ele vai cortar a temporada de saibro inteira? Parece improvável. Ficará fora de algum outro Masters 1000? Possivelmente, mas de quantos? Ninguém sabe ainda.

Administrando as expectativas

Federer e qualquer outro tenista sabem a loucura que é repercussão quando alguém diz “vou atrás do número 1”. Por isso, o discurso padrão do Big Four quase sempre foi “o ranking não é minha prioridade”, “quero jogar bem”, “se estiver jogando bem, o ranking vai refletir isso”, etc. e tal. A versão atual do suíço não é muito diferente. Após vencer a semi, Federer disse com todas as letras que há uma possibilidade e que ele adoraria ser número 1 de novo. Mas isso tudo vem numa análise realista de suas chances e numa tentativa de conter a expectativa. Leiam:

“Como não vou jogar muito, é de se imaginar que eu precisaria ganhar provavelmente outro grand slam para isso acontecer. Como já tenho um no bolso, acho que existe uma possibilidade. Além disso, estou jogando bem aqui, fora dos grand slams, mas os slams dão tantos pontos que é provavelmente onde eu teria que ir longe mais uma novamente. E um talvez não seja suficiente porque eles vão elevar seu nível de jogo.”

“Eles vão elevar seu nível e vão ganhar torneios de novo. Então só porque Novak pode não jogar em Miami e porque Andy não vai e estou na final aqui, não muda nada no meu calendário. Eu adoraria ser número 1 outra vez, mas qualquer coisa que não seja número 1 do mundo não é interessante para mim. Então é por isso que o ranking não é uma prioridade agora. É ficar saudável curtir os torneios que eu jogar e tentar vencê-los.”

Entre o possível e o provável

É claro que é cedo para fazer previsões e dizer que Federer tem uma enorme chance de voltar ao topo do ranking. O que não se pode fazer é, diante de seu altíssimo nível de jogo e do começo de ano pouco empolgante de Murray e Djokovic, ignorar essa possibilidade. Se o próprio suíço hoje em dia adota cautela, é de se esperar que a postura mude à medida em que o número 1 começar a se tornar algo palpável. Até o calendário enxuto pode ganhar umas datas a mais. O certo é que hoje essa hipótese não pode ser ignorada. Quem sabe?

Coisa que eu acho que acho:

– Sobre o calendário reduzido de Federer, não me parece nada impossível que ele alcance o número 1 jogando de 13 a 15 torneios na temporada. Quinze parece um número bastante razoável, nada exagerado, e não deve ser muito menos do que Djokovic, Murray e Nadal disputarão. Basta lembrar que em 2016, sem contar os Jogos Olímpicos e a Copa Davis (que não contam pontos para o ranking mundial), Murray esteve em 16 torneios, enquanto Djokovic disputou 15.


AO, dia 14: choremos juntos com Roger Federer
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Alexandre Cossenza

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“Acho que o começo do ano, especialmente o verão australiano, vai ser épico.” Foi assim que Roger Federer falou sobre suas expectativas para janeiro de 2017. Profético. Oracular. E o suíço nem falava sobre o que tinha guardado para mostrar em Melbourne. Exigiria outro nível de adjetivos. Mas este texto vai chegar lá.

Talvez ele mesmo não soubesse. Estava, afinal, há seis meses sem competir, sem a certeza de como o corpo de 35 anos reagiria e incapaz de imaginar o que a chave reservaria ao cabeça 17. Pois foi ele próprio o protagonista de quase tudo “épico” nas últimas duas semanas. Bateu Berdych, Nishikori, Wawrinka e guardou o melhor para este domingo. Contra o retrospecto, contra o maior rival, e em cinco sets: 6/4, 3/6, 6/1, 3/6 e 6/3, em 3h37min de partida.

Foi o 18º Slam, um feito gigante por conta própria, mas foi “O Retorno do Rei”, “Tempo de Glória”, “Coração Valente”, “A Máquina do Tempo” e “Uma Nova Esperança”, uma coleção de épicos, tudo ao mesmo tempo (e desde já candidato ao Laureus de “Retorno do Ano”). Foi, em momentos, plástico. Em outros, corajoso. Quase sempre gracioso. Quando necessário, fulminante. Sempre insinuante. E, no fim, no pódio, ao lado de Rafael Nadal e Rod Laver, majestoso.

Foi a consagração de um atleta-milionário-e-pai-de-família-bem-sucedido que, aos 34 anos, escolheu lutar contra uma lesão e continuar correndo de um lado para o outro contra pessoas às vezes 15 anos mais jovens. Foi a recompensa pelo trabalho árduo que Federer insiste em fazer quando não há câmeras ligadas. Foi o momento maior de uma carreira cheia de momentos maiores. E que terminou com Roger Federer de joelhos e às lágrimas em uma quadra em plena reverência. Que compreendamos o momento. Que choremos juntos com Roger Federer.

O xadrez até o troféu

Sobre a final, o plano de Federer esteve sempre claro. Atacar primeiro para evitar o desgaste e encurtar pontos, o que reduziria a chance de Nadal adquirir um bom ritmo do fundo de quadra. Quanto mais longos os ralis, maior a chance de o espanhol ficar à vontade no jogo.

O plano era simples. Afinal, era o mesmo de sempre. Executar é que sempre foi o problema. Exige precisão em um nível muito acima do normal. Federesco, eu diria. Mas a precisão apareceu nos momentos mais essenciais. Nos três aces para salvar break points no primeiro game do terceiro set, no bate-pronto de forehand do fundo de quadra que ajudou a quebrar Nadal na sequência ou no outro bate-pronto espetacular, que veio no oitavo game do quinto set – o game da última quebra.

É claro que a quadra, mais rápida do que em anos anteriores, ajudou. Obviamente, a longa semifinal de Nadal também teve seu peso. Só que também ajudou a devolução de backhand, sempre empurrando Nadal para o fundo. Foi, talvez, a grande mudança do suíço em relação à maioria dos duelos anteriores. Federer trocou o retorno de slice/bloqueado por um mais agressiva.

O jogo de xadrez que atormentou boa parte da carreira do suíço também teve uma execução fundamental. O backhand do fundo de quadra. Mesmo quando não conseguia definir pontos rapidamente, Federer tinha sucesso com a esquerda. Às vezes, matando na paralela, às vezes angulando a cruzada e tirando Nadal da zona de conforto. E sempre perto da linha, tirando o tempo do espanhol. De novo: o plano não foi inovador; a execução é que foi gloriosa.

E o forehand… Bem, o forehand foi uma fábrica de melhores momentos. Paralelas, cruzadas, de dentro para fora, de dentro para dentro, com break point a favor ou contra. E foi o Federer Forehand, talvez o golpe mais perfeito do tênis, que decidiu o duelo deste domingo. Primeiro, com uma bola indefensável no 30/40 do último game. Depois, no segundo match point, com uma cruzada que beliscou a linha. Tão preciso que Nadal pediu replay, permitindo que o mundo visse a perfeição de novo, em câmera lenta e definição 4K. Como o tênis de Federer merece.

O bravo rival

Nadal teve muitos méritos. Com o suíço em um nível tão alto e pressionando com tanta intensidade, é admirável que o espanhol tenha levado até o quinto set. Lutou, esperou chances e fez o que dava. Até saiu na frente no quinto set e salvou cinco break points antes de ceder a virada.

Difícil dizer o que faltou para o espanhol neste domingo. Saque? Talvez. Mas é injusto condenar alguém que colocou em jogo 85% dos primeiros serviços no quinto set. Poderia ter acelerado e arriscado mais? Certamente. Mas ficaria vulnerável à devolução do adversário, que estava num dia “daqueles”.

O resumo é que Nadal jogou pressionado a maior parte das 3h37min de jogo. Até para um gigante como ele, é difícil resistir por tanto tempo.

O ranking

Após o Australian Open, Federer volta ao top 10 e passa a ocupar o décimo posto, com 3.260 pontos. Nadal, que teria subido para quarto com o título do Australian Open, fica em sexto. A lista dos dez fica nesta ordem:

1. Andy Murray – 11.540 pontos
2. Novak Djokovic – 9.825
3. Stan Wawrinka – 5.695
4. Milos Raonic – 4.930
5. Kei Nishikori – 4.830
6. Rafael Nadal – 4.385
7. Marin Cilic – 3.560
8. Dominic Thiem – 3.505
9. Gael Monfils – 3.445
10. Roger Federer – 3.260


AO, dia 5: um Federer ‘vintage’ e um Murray impecável
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Alexandre Cossenza

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Quem esteve na Rod Laver Arena para a sessão noturna saiu de lá com um sorriso no rosto e a sensação de ter testemunhado algo especial. Foi Roger Federer, “aquele” Federer, fazendo de tudo com o esforço de quem está fazendo nada. Lembrou o melhor Federer, o que foi número 1, que deu seguidas aulas em Andy Roddick, que encantou e dominou o circuito anos atrás.

Durante os 90 minutos de jogo – tão pouco que deixou todos querendo mais – o atual número 17 do mundo tirou tudo da cartola. Aces, curtas, slices, bloqueios de devolução, paralelas de backhand, bate-prontos da linha de base, voleios… Uma atuação para emoldurar e que terminou com o placar mostrando 6/2, 6/4 e 6/4.

Taticamente falando, o Federer desta sexta-feira foi bastante diferente do tenista teimoso que trocou pancadas o jogo inteiro contra Noah Rubin, na segunda rodada. Diante do mais perigoso Berdych, o suíço já entrou bloqueando nas devoluções, tirando peso da bola e forçando o tcheco a arriscar.

É bem verdade que foi um dia ruim do tcheco, mas é preciso avaliar o peso de Federer nessa equação. As variações impostas pelo suíço foram tantas que Berdych jamais se sentiu confortável e não encontrou ritmo algum. Nem no serviço, nem no fundo de quadra e muito menos junto à rede. Federer aplicou um xeque-mate em 10 minutos e depois ficou jogando damas.

O melhor ponto

Foram tantos grandes pontos que é quase impossível apontar o melhor momento do suíço nesta sexta-feira, só que o ponto do tweet abaixo tem algo de especial. Primeiro porque Federer sai de uma posição defensiva para anular os ataques de Berdych. Depois porque constrói o ataque com um par de golpes até conseguir a posição perfeita para o golpe final. Magistral.

O próximo adversário

Agora, nas oitavas de final, Federer vai encontrar Kei Nishikori, alguém que provavelmente vai exigir mais em ralis – se o japonês estiver 100% fisicamente, claro. Nesta sexta, diante de Lukas Lacko, Nishikori ficou pouco tempo em quadra. Fez 6/4, 6/4 e 6/4 em 2h11. O japonês mandou na maioria dos ralis e terminou o jogo com 46 winners e 32 erros não forçados. Números de respeito.

Se Nishikori não tem a mesma potência de saque de Berdych (e tem um segundo serviço um tanto vulnerável para um top 5), é de se imaginar que ele não deixará Federer dominar os ralis como fez contra Berdych. Além disso, como o próprio #17 disse na entrevista em quadra após a partida, Nishikori tem um dos melhores backhands do circuito e pode se dar ao luxo de ficar cruzando bolas contra a esquerda do suíço pelo tempo que quiser. Por outro lado, como será que o japonês vai lidar com o serviço do suíço, que vem fazendo grande estrago até agora? De qualquer modo, não convém acreditar que o Federer x Berdych desta sexta seja um grande parâmetro para prever o que acontece no encontro de suíço e japonês. O “casamento” dos jogos é bastante distinto.

Os favoritos

Dizem que o primeiro jogo de um tenista após a derrota de seu maior rival no torneio diz muito sobre como ele vai lidar com a pressão do favoritismo. Bom, neste quesito, Andy Murray tirou nota 10. Nesta sexta, o número 1 do mundo esteve em ótima forma diante dos saques pesados de Sam Querrey. Deu pouquíssimas chances ao americano, disparou 40 winners (22 erros não forçados) e até superou o adversário em aces: 8 a 5. Venceu por 6/4, 6/2 e 6/4 e avançou pra enfrentar Mischa Zverev nas oitavas de final.

Vale lembrar que a cada vitória, Murray vai aumentando sua distância para Novak Djokovic, eliminado por Denis Istomin. Caso não vença mais em Melbourne, o britânico deixará o torneio com 1.715 pontos de vantagem. Se levantar o troféu, Murray terá 3.535 pontos a mais que Djokovic.

A atual campeã do Australian Open, Angelique Kerber, finalmente venceu em dois sets: fez 6/0 e 6/4 em cima de Kristyna Pliskova – não confundir com Karolina, a gêmea mais famosa, que foi vice-campeã do US Open no ano passado. O triunfo veio sem grandes dramas, mas Kerber não chegou a empolgar. Terminou com 14 winners e 14 erros não forçados e se aproveitou das 34 falhas de Pliskova. Ainda assim, a tcheca teve chances de complicar o jogo para a alemã no segundo set, mas não aproveitou por conta de erros próprios.

O confronto de oitavas de final de Kerber será contra Coco Vandeweghe (#35), que venceu um jogo duríssimo contra Eugenie Bouchard (#47): 6/4, 3/6 e 7/5. Depois de sair na frente no segundo set, a canadense controlou bem o saque e parecia estar administrando bem as tentativas de Vandeweghe. Bouchard, porém, vacilou no finzinho e perdeu o serviço no oitavo game do set decisivo. Os últimos games foram nervosos, e a americana aproveitou as chances que teve.

Kerber chega às oitavas com dois sets perdidos e, mesmo assim, parece justo dizer que Coco será seu primeiro teste de verdade. Não apenas pela potência do saque da americana, que pode fazer diferença nas quadras rápidas de Melbourne (ainda mais se o jogo for na sessão diurna), mas porque Vandeweghe tem poder de fogo para agredir o frágil segundo serviço da alemã.

Os outros candidatos

Stan Wawrinka venceu mais um jogo complicado. E complicado tanto por méritos do adversário, Viktor Troicki, quanto pela inconstância do próprio suíço. Depois de um ótimo começo e uma péssima segunda metade de primeiro set, Wawrinka se aprumou e parecia navegar tranquilo para fechar o confronto, mas bobeou na reta final. Foi quebrado duas vezes sacando para o jogo (5/4 e 6/5), perdeu um match point no tie-break e precisou salvar um set point antes de, finalmente, avançar por 3/6, 6/2, 6/2 e 7/6(7).

Seu próximo jogo será contra Andreas Seppi, que não era o favorito para chegar às oitavas, mas derrubou Nick Kyrgios na segunda rodada e passou por Steve Darcis nesta sexta: 4/6, 6/4, 7/6(1) e 7/6(2). Aos 32 anos e atual #89 do mundo, o italiano tem experiência e jogo suficientes para se aproveitar de uma jornada ruim do suíço. É mais um jogo complicado para Wawrinka, que vem numa chave espinhosa e já passou por Klizan, Johnson e Troicki.

Na chave feminina, Venus Williams (#17) ficou em quadra por apenas 58 minutos e bateu a chinesa Ying-Ying Duan (#87) por 6/1 e 6/0. Com a velocidade da quadra ajudando seu estilo, a americana chega nas oitavas como favorita contra Mona Barthel, que faz a melhor campanha de sua vida em Grand Slams. A alemã, que já foi #23 mas hoje é apenas a #181 do mundo, furou o quali e aproveitou uma chave acessível – já que Simona Halep caiu na estreia.

No último jogo da noite, Garbiñe Muguruza entrou em quadra lembrando bem de sua última derrota em um Slam. A espanhola até disse depois da partida, em tom de brincadeira, que queria vingança. E foi isso. Jogou bem e bateu Anastasija Sevastova (#33) por 6/4 e 6/2 (a tenista da Letônia eliminou Muguruza em Nova York por 7/5 e 6/4, na segunda rodada).

Em sua melhor campanha num Slam desde o título de Roland Garros, a espanhola, atual número 7 do mundo, agora vai enfrentar Sorana Cirstea (#78), que bateu a americana Alison Riske por 6/2 e 7/6(2). A romena, que já foi #21 do mundo, ainda não perdeu sets e foi a responsável pela eliminação de Carla Suárez Navarro, a cabeça de chave 10 em Melbourne.

As oitavas já definidas

Até agora, o cenário está assim na chave masculina:

[1] Andy Murray x Mischa Zverev
[17] Roger Federer x Kei Nishikori [5]
[4] Stan Wawrinka x Andreas Seppi
[12] Jo-Wilfried Tsonga x Daniel Evans

Os quatro primeiros jogos das oitavas femininas ficaram assim:

[1] Angelique Kerber x Coco Vandeweghe
Sorana Cirstea x Garbiñe Muguruza [7]
Mona Barthel x Venus Williams [13]
[24] Anastasia Pavlyuchenkova x Svetlana Kuznetsova [8]

Boris sobre Novak

Ao New York Times, Boris Becker falou sobre o que achou da atuação de Novak Djokovic na derrota para Denis Istomin. A declaração do alemão não traz novidades, mas é interessante até porque vai ao encontro do que muitos analistas consideraram: que faltou emoção para Nole.

Entre outras coisas (leia na íntegra aqui), Becker afirmou que “acho que ele tentou e jogou cinco sets e quatro horas e meia, mas não vi a intensidade, não vi a vontade absoluta de vencer, não o vi ficando louco mentalmente” e que “esse não é o Novak que eu conheço. Prefiro vê-lo quebrar uma raquete ou rasgar uma camisa para que ele jogue com emoção. Acho que ele esteve muito equilibrado durante toda a partida e foi incomum, não sei o que pensar disso.”


Que Federer tenha razão sobre 2017
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Alexandre Cossenza

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“Acho que o começo do ano, especialmente o verão australiano, vai ser épico.” A frase é de Roger Federer, em entrevista ao New York Times. O suíço fazia uma análise do que pode acontecer em seu retorno ao circuito mundial e afirmou que, tendo em vista o momento dos quatro integrantes do Big Four, o mundo pode ver histórias sensacionais no começo de 2017. Não era nem um exercício de futurologia. Federer falou com propriedade, e parece justo dizer que mundo inteiro espera que o ex-número 1 do mundo esteja certíssimo.

Dando um desconto pelo manjado uso do adjetivo “épico” (quem me segue no Twitter sabe que acho extremamente irritante e pobre a banalização de termos como “épico” e “histórico”), Federer foi preciso na análise. São quatro grandes histórias em curso. E não digo “histórias” no sentido de carreiras (embora todos tenham feitos, ahem, “históricos”), mas no aspecto jornalístico da coisa. São relatos incríveis que, contextualizados, ganham ainda mais importância. Vejamos:

Andy Murray

É o número 1 do mundo após um segundo semestre espetacular em 2016. É a primeira vez que o escocês abre uma temporada como o homem a ser perseguido. Há certa pressão nisso, mas também conta a seu favor o número menor de pontos a defender até abril em comparação com Djokovic. Resta saber se Murray encontrou/encontrará um nível de conforto em seu tênis para continuar jogando com essa intensidade e vencendo com essa frequência.

Além disso, tem toda a questão psicológica da coisa. Tem gente que se sente à vontade e mais poderoso ainda como número 1 (vide Federer), mas nem todos lidam tão bem assim com todos alvos do planeta apontados para sua cabeça. Como Murray vai se comportar no topo do ranking? Ser número 1 coloca ou tira peso em suas costas? Tudo é questão de perspectiva, e o mundo só vai saber isso com 100% de certeza quando a temporada de 2017 começar.

Novak Djokovic

O homem que dominou o circuito em 2014 e 2015, colocando-se como favorito de uma maneira inédita (mais cotado a vencer qualquer tenista em qualquer piso) no tênis moderno, perdeu gás após completar o Career Slam em Roland Garros. terminou o ano como número 2, contratando uma espécie de guru (embora ele não goste do termo guru) e encerrando a parceria com Boris Becker, que saiu dizendo que faltou dedicação no segundo semestre. Os motivos para a queda de Nole já foram bem discutidos e debatidos neste blog. Os sinais de esgotamento estavam lá para todo mundo ver.

Mas o que vem por aí agora? Becker fará falta? Com Vajda ainda no time, não me parece que o alemão será um desfalque tão grande assim. De qualquer modo, será que o Djokovic faminto e sufocante voltará a dar as caras em 2017? Ou será que vem um ano mais ou menos por aí? É bem verdade que Nole tem tênis de sobra para continuar brigando por títulos mesmo aquém de seu melhor, mas talvez aquele ingrediente que faltou nos últimos meses de 2016 seja necessário para brigar pelo número 1. Ou não? O ATP de Doha, que começa no dia 2 de janeiro, nos dará os primeiros indícios.

Rafael Nadal

A temporada de 2016 deveria ter sido o ano que mostraria onde está de fato o tênis de Rafael Nadal, mas nem isso deu para ver com tanta clareza assim. Uma lesão no punho tirou o espanhol de Roland Garros, que acabou não jogando Wimbledon e até fez uma bela Olimpíada, mas encerrou a temporada mais cedo. Houve (esperados) títulos no saibro, vide Monte Carlo e Barcelona, mas também houve (inesperadas) derrotas doídas, como em Melbourne e Nova York.

Nadal foi melhor quando jogou seu básico – não tão agressivo quanto em 2015 – mas deu a impressão de que seu tênis, hoje, está em uma posição desagradável. Aos 30 anos, Nadal não tem o físico para jogar as partidas e os pontos longos que destruíam mentalmente seus adversários (inclusive fugiu do calor e da umidade de Buenos Aires e do Rio de Janeiro em 2017), mas também não mostrou uma consistência nem técnica nem mental na agressividade que precisa para vencer jogos mais curtos.

Com a contratação de Carlos Moyá para seu time, Nadal mostra que não está satisfeito e busca um olhar diferente para seu jogo. Não ouso especular sobre o que Moyá vai conseguir fazer pelo compatriota, mas é bem possível que 2017 seja o ano do vai-ou-racha para Nadal. Afinal, não me parece que ele ficará satisfeito se repetir os resultados de 2016. Se isso acontecer, será preciso decidir se vale a pena continuar competindo assim.

Roger Federer

A história mais intrigante de 2017. Pela primeira vez na vida, o suíço fará um “retorno” após longa parada. A cirurgia no joelho, no começo do ano passado, já foi uma novidade estranha para Federer. Ele adiou a volta duas vezes (Indian Wells e Miami), disputou torneios no saibro e evitou Roland Garros. Insistiu, jogou três torneios na grama, mas viu que não dava para continuar.

Após seis meses de pausa, é de se esperar que o veterano de 35 anos esteja em plena forma. Afinal, se alguém pode estar em plena forma aos 35, Federer é o nome. Só que o resultado desses seis meses longe do circuito ainda é uma incógnita. É bem provável que ele apareça na Austrália de cabeça fresca e mais motivado do que nunca, o que será extremamente saudável para seu tênis, mas daí a capitalizar isso em resultados é outra história. Que ninguém ouse duvidar do suíço, mas com tanta gente boa surgindo no circuito e com o esporte cada vez mais veloz, a luta pelo 18º Slam só fica mais complicada.

Coisas que eu acho que acho:

– O Big Four caminha para um Australian Open diferente e intrigante. Do jeito que o ranking se mostra, é bem possível que Nadal e Federer estejam fora do grupo dos 8 cabeças de chave. Ou seja, podem enfrentar Murray e/ou Djokovic logo nas oitavas de final, o que encurtaria alguma(s) das quatro histórias acima.

– Além das quatro histórias citadas por Federer, o que não vai faltar é roteiro interessante no início de 2017. Teremos Nick Kyrgios voltando de suspensão (e já falou que pode ganhar este Australian Open); Dominic Thiem ainda tentando se firmar como tenista-de-torneio-grande; Milos Raonic, o #3, indo atrás do sonhado Slam; Wawrinka sendo Wawrinka (leia-se “podendo ganhar de qualquer um a qualquer hora); e até David Ferrer tentando voltar a um lugar mais digno.

– Faltará, obviamente, Juan Martín del Potro, o grande fator de desequilíbrio de 2016. O argentino, campeão da Copa Davis, já anunciou que não vai jogar o Australian Open por questões físicas. Segundo a imprensa argentina, Delpo quer fazer uma boa pré-temporada antes de voltar com força ao circuito.


Sem Federer, tênis masculino terá grande teste de popularidade
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Alexandre Cossenza

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Milos Raonic, Tomas Berdych, Dominic Thiem, Richard Gasquet… Até aí, tudo bem. A gente podia fingir que a lista de ausências, fossem por zika, lesão ou outros intere$$es, era insignificante. No fundo, não era. São nomes com potencial. Na pior das hipóteses, deixariam as quartas de final mais animadas. Mas tudo bem, os quatro grandes ainda estavam confirmados nos Jogos Olímpicos Rio 2016. E aí veio a bomba: Roger Federer está fora. Com um só golpe, os Jogos do Rio levaram três socos no estômago. Sem Federer. Sem Federer/Hingis. Sem Federer/Wawrinka.

Em sua página no Facebook, o suíço avisou que só voltará às quadras em 2017. Ainda precisa tratar o joelho operado em fevereiro. Segundo os médicos, ele precisa dar tempo para que o joelho e o corpo se recuperem. Só assim vai conseguir jogam sem dor por mais alguns anos.

É um grande baque para o tênis, que não verá o suíço no US Open nem no ATP Finals. Federer sairá do top 10 pela primeira vez desde julho de 2002. O nome que mais atrai público no mundo (não por acaso, tem o maior cachê) não venderá ingressos até o fim do ano. O tênis masculino, que tem um Novak Djokovic dominante, um Andy Murray vitorioso mas pouco carismático, e um Rafael Nadal ainda brigando com lesões, viverá seu primeiro grande teste de popularidade desde que a rivalidade entre suíço e espanhol levou a modalidade às alturas.

É também uma ótima chance a mais para a ATP promover sua onipresente hashtag #NextGen, usada para rotular nomes talentosos da nova geração como Dominic Thiem e Alexander Zverev. Não que não haja riscos. Com metade do eterno Big Four baqueada pela maior parte de 2016, vai chegando o momento em que os Kyrgios e Corics da vida precisam mostrar serviço e capacidade de ir ainda mais longe e sustentar o valor de mercado do produto. Será que há bala na agulha?

Os Jogos do Rio

É uma ausência gigante, mas não acho que seja um desastre. Londres 2012 foi um ótimo torneio sem Rafael Nadal, e Rio 2016 pode ser igualmente interessante. Histórias não vão faltar. Meu torneio olímpico preferido continua sendo Atenas 2004, com Nicolás Massú e Fernando González avançando em simples e duplas, com partidas longas e conquistando duas medalhas cada.

Sobre Federer

A parte copo-meio-cheio de seu anúncio é que fala na vontade de voltar a jogar por alguns anos. Ou seja, não parece – pelo menos por enquanto – um prenúncio de aposentadoria, ainda que fique mais claro a cada dia que Federer entra na reta final de sua carreira. O lado copo-meio-vazio é que o tempo de inatividade pode fazer o suíço e sua família apreciarem um pouco mais o período em casa. Não é nada impossível que, com o passar do tempo, Federer decida que o esforço não vale a pena e que será melhor encerrar de vez a carreira.

De qualquer modo, tudo fica no reino da especulação por enquanto. Do mesmo jeito que Federer evitou falar no problema no joelho desde que voltou às competições, não seria do seu feitio chegar agora e admitir estar considerando uma aposentadoria. Só aumentaria a especulação, algo que o ex-número 1 do mundo sempre tenta evitar.

Federer comemoraria seu 35º aniversário no Rio de Janeiro e terá 38 anos durante os Jogos Olímpicos Tóquio 2020. Com lesões mais frequentes, não parece muito provável hoje em dia que o suíço vá ter mais uma chance para conquistar a medalha de ouro em simples, única lacuna em seu currículo. Mas é bom ter em mente: Federer já realizou tantos improváveis na carreira que não convém duvidar…


Sobre Roger Federer, consistência, preparo físico e o “Dilema Djokovic”
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Alexandre Cossenza

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É quase um roteiro de videogame dos meus tempos de infância. O herói completa uma missão atrás da outra, rolando desimpedido ou saltando cogumelos, até que chega o chefão e esmagava a raposa, o porco-espinho ou o simpático encanador italiano. Tudo é fácil demais por um tempo, e o mocinho se enche de confiança só para sofrer um tombo retumbante a poucos metros da princesa aprisionada.

Não foi muito diferente a vida de Roger Federer nos últimos três torneios do Grand Slam. Boas campanhas preparatórias, vitórias empolgantes nas rodadas iniciais e derrotas doídas diante de Novak Djokovic nas finais de Wimbledon e do US Open e, agora, nas semifinais em Melbourne. E a pergunta que surge é a de sempre: “o suíço vai voltar a vencer um Slam?”

Bom, a resposta é bem mais complexa do que “sim” ou “não”, e parece – pelo menos por enquanto – passar necessariamente por uma vitória sobre Djokovic em melhor de cinco sets. Negrito e sublinhado em “melhor de cinco”, por favor, já que o histórico recente mostra uma certa disparidade. As últimas três vitórias de Federer sobre o sérvio aconteceram em melhor de três (Dubai, Cincinnati e ATP Finals), enquanto Nole levou a melhor nos últimos quatro duelos em Slams.

Entre fãs, analistas e críticos, há basicamente duas teorias. Uma culpa a idade do suíço; a outra, o nível de tênis. A primeira parece ser a preferida entre a maioria dos admiradores do ex-número 1 do mundo. A segunda, obviamente, agrada mais aos fãs de Novak Djokovic. Mas o que Federer acha disso? Um ótimo primeiro passo para entender o “Dilema Djokovic” é contextualizar e entender as declarações do suíço após a derrota desta quinta-feira, no Australian Open.

A frase mais interessante da última coletiva veio em resposta a uma pergunta justamente sobre a possibilidade de voltar a derrotar Djokovic em um Slam. O jornalista queria saber o que dava a Federer a confiança de que ele, aos 34 anos de idade, ainda seria capaz disso.

“Bem, ainda tenho autoconfiança também. Isso não vai embora rápido. Sei que não é fácil. Nunca achei que seria fácil. Mas não sei. Melhor de três, melhor de cinco, consigo correr por quatro ou cinco horas, não é problema. Provo isso no treino, na pré-temporada, sem problema. Então, desse ponto de vista, não me preocupo de entrar em ralis longos. Sei que vocês acham outra coisa. Entendo porque vocês pensam que estou velho e tudo mais. Mas não é problema para mim. Isso não me assusta quando vou para uma partida importante contra qualquer jogador que esteja no seu auge hoje em dia.”

A resposta é um pouco mais longa que isso (está na marca de 3’30” do vídeo acima), mas a essência é essa. Federer acredita que não faz diferença se o jogo é de três ou cinco sets. Aí é preciso levar em conta o fator de “sensação”. Nem tudo que o suíço diz pode ser considerado verdade absoluta. Não que ele minta deliberadamente, mas cabe questionar se Federer tem mesmo razão sobre seu condicionamento físico ou se simplesmente ainda não percebeu que seu corpo não mantém o rendimento ao longo de uma partida mais demorada. Neste caso, seria apenas uma “sensação” de capacidade.

Tendo a concordar com o ex-número 1 e me baseio em alguns indícios para tomar o lado de Federer nesse debate. O primeiro indicativo que gosto de ver é seu estado físico ao fim das partidas, e o suíço não parecia cansado nem em Wimbledon nem no US Open – partidas que terminaram em quatro sets. Definitivamente, não foi o caso em Melbourne, onde Djokovic venceu duas parciais em menos de uma hora. Não foi o caso nem no quinto set de Wimbledon/2014.

Além disso, Federer, privilegiado que é, faz pouca força para jogar e, com seu estilo agressivo, raramente vai ficar cinco horas em quadra, mesmo que precise jogar cinco sets. Então a hipótese de derrotas em Slams por causa de condicionamento físico não me convence. Alguém pode até afirmar que o suíço perdeu velocidade e que é mais lento em quadra hoje em dia, mas é um argumento difícil de se fazer comparando imagens de hoje com as de 2006, dez anos atrás. É mais fácil alegar que o tênis ficou mais rápido do que provar que Federer perdeu arranque. Mas eu divago. Essa é outra discussão, que não envolve o “Dilema Djokovic” (até porque o sérvio está no circuito desde bem antes de 2006).

Ainda seguindo essa linha de raciocínio, parece conveniente lembrar – por mais de um motivo – de uma declaração de Federer logo após a final do US Open. Djokovic venceu aquele jogo por 6/4, 5/7, 6/4 e 6/4, em 3h20min.

“Especialmente em partidas melhor de cinco sets, as que passam de 2h30min, 3h30min, você passa por altos e baixos naturalmente. Não dá para jogar dois pontos perfeitos toda hora. Naturalmente, você precisa batalhar. É aí que você aprende muito sobre o seu jogo, sua atitude, seu físico. Esta foi, acredito, a partida mais longa que fiz o ano inteiro. Foi muito interessante ver como eu lidei com isso.” … “Sim, estou feliz de ter conseguido ficar com um grande nível de jogo por um logo período de tempo porque estou com muito tempo de quadra e trabalhei muito duro na pré-temporada também.”

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Há dois pontos interessantes a “ler” no que Federer disse. O primeiro, obviamente, é sua satisfação com o condicionamento físico, que já vinha desde o ano passado. Se depois de uma derrota em uma partida de mais três horas, o suíço disse ter saído “inteiro” de quadra, acho que não há motivo para duvidar.

O outro ponto é a questão dos altos e baixos naturais que Federer cita. A meu ver, essa é a grande diferença entre ele e Djokovic nos jogos em melhor de cinco (em comparação com melhor de três). Hoje, o sérvio é um tenista que oscila muito menos do que o suíço, assim como Nadal fazia em seus melhores dias. Federer, lembremos, tem algumas vitórias sobre o espanhol no saibro, mas nenhuma em melhor de cinco sets – nem aquela de Roma, com match points e tudo mais.

Do mesmo modo, o Djokovic de hoje é quase imbatível nos Slams por isso. Em um dia ruim, este número 1 do mundo pode perder dois sets de Gilles Simon e ainda escapar triunfante e sorridente, fazendo piada de si mesmo na entrevista pós-jogo. Também pode cair de intensidade – como caiu – e deixar Federer crescer do outro lado da quadra, mas sempre lhe resta margem para se recuperar e voltar a tomar o controle das ações. Essa dinâmica, aliás, aconteceu nos últimos quatro confrontos em Slams – todos vencidos pelo sérvio.

Assim, os números, o histórico e as próprias declarações de Roger Federer parecem apontar que seu “Dilema Djokovic” particular é muito mais uma questão de consistência para derrubar a fortaleza de obstáculos do rival do que de condicionamento físico. E “consistência”, caro leitor, não se reduz a limitar o número de erros não forçados. É não fugir do plano tático. É manter o índice de primeiro serviço lá no alto. É aproveitar os segundos saques do adversário. É manter a concentração durante longos trechos. É saber escolher, do começo ao fim do jogo, o golpe ideal para cada ocasião.

Dito isto, quantas pessoas notaram que a quebra derradeira da semifinal aconteceu com Federer perdendo todos os quatro pontos do game junto à rede (vídeo abaixo)? Ainda que consiga fazer seu corpo trabalhar na mesma intensidade ao longo de quatro horas, manter o nível de excelência por tanto tempo contra o tenista mais completo da atualidade ainda parece um desafio grande demais – inclusive para o grande Roger Federer.

Coisas que eu acho que acho:

– Federer, obviamente, não é o único que sofre com Djokovic. O que motiva este post, no entanto, é o contraste entre a facilidade com que o suíço se mantém jogando em altíssimo nível e navegando tranquilo pelas chaves dos Slams e a enorme dificuldade que encontra com o atual número 1.

– Para o resto do circuito, Djokovic soa mais como enigma do que como dilema.

– O colega jornalista Bruno Bonsanti, em microconversa num microblog da vida, estabeleceu uma relação interessante entre Federer-Djokovic e o “enigma de Kasparov”, relatado no primeiro capítulo do livro “Guardiola Confidencial”. É uma teoria interessante. Leiam o texto neste link do Blog do Juca e entendam.


Leitura recomendada: “Sin Red” e o duelo que mudou o tênis
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Alexandre Cossenza

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Roger Federer e Rafael Nadal podem não ser recordistas de confrontos. Suíço e espanhol também não têm lá o mais equilibrado dos históricos – o enecampeão de Roland Garros leva ampla vantagem. O duelo Fedal, no entanto, é para muitos o mais interessante da história. Pela relevância de ambos (juntos, são 31 títulos de Grand Slam), pela importância de seus encontros (foram oito finais de Slam) e, principalmente, pelo contraste de estilos.

É disso que trata o livro “Sin Red – La Historia Detrás del Duelo Que Cambió el Tenis”, do jornalista Sebastián Fest, com quem tive o prazer de jantar algumas semanas atrás, no Rio de Janeiro. Argentino de nascimento, Fest morou por muito tempo na Espanha, a serviço de uma agência de notícias alemã, e cobriu o circuito mundial de tênis por mais de dez anos, ultrapassando a marca de 50 Slams. Fez exclusivas com Nadal e Federer em diferentes ocasiões e tinha material de sobra para escrever. O resultado é o livro publicado este ano, que por enquanto está disponível apenas em espanhol, mas tem uma edição em inglês planejada para 2016 (e sim, Fest também tem a intenção de lançá-lo em português).

O livro é uma deliciosa coleção de histórias (algumas desconhecidas da maioria) dos dois tenistas que polarizaram o tênis pela maior parte dos últimos dez anos. Desde a curiosa amizade do começo de carreira – algo tão incomum no tênis entre atletas disputando as primeiras posições – até o desentendimento e a entrevista bombástica que resultou na saída de Nadal do Conselho de jogadores.

“Sin Red” relata e contextualiza momentos importantes nas carreiras de ambos. Aborda, por exemplo, os hábitos da família de Nadal em Mallorca e o processo que levou Federer a cuidar mais de sua imagem. Fala de como Rafa buscou soluções para cada lesão que teve e do momento em que o jovem Roger decidiu que não poderia mais continuar se comportando mal em quadra.

Um dos trechos preferidos de Fest é a conversa com Robin Soderling, sueco que “mudou a história” de ambos ao derrotar Nadal e Federer em anos consecutivos em Roland Garros. “Muitas vezes me peguei pensando: não poderia ter feito as duas coisas no mesmo ano? Porque preferiria haver ganhado uma vez o Aberto da França e perder o ano seguinte na primeira rodada a chegar a duas finais.”

Para os fãs que se interessam pela história do tênis e por tudo que envolve a relação causa-consequência nos duelos entre Federer e Nadal, “Sin Red”, à venda na Amazon por R$ 37,77 (preço do dia 06/11) é leitura obrigatória. Não só por contar histórias sobre dois atletas que mudaram o esporte, mas porque também faz as devidas contextualizações históricas.

E se você gosta do debate sobre o melhor de todos os tempos, “Sin Red” está recheado de opiniões de grandes campeões do passado. Tem todo tipo de combustível necessário para acender a discussão. Eu recomendo.


Wimbledon, dia 11: o imbatível Roger Federer volta à final
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Alexandre Cossenza

Roger Federer pode até vir a perder jogos bobos durante a maior parte o tempo. Pode vir a sentir dores aqui e ali. Pode decidir tirar férias de seis meses. Sei lá. O que quer que aconteça na vida do suíço nos próximos meses e anos, se esse cidadão fizer uma vez por ano, uma vezinha só, o que fez nesta sexta-feira, ele não pode aposentar. Não pode.

Torcida contra, talvez o oponente mais perigoso da atualidade em uma quadra de grama, uma das melhores devoluções do circuito… Muita coisa jogava contra na Quadra Central e, não por acaso, algumas casas de apostas davam vantagem a Andy Murray. Eis, então, que Roger Federer aparece com uma das maiores atuações de sua carreira. Uma vitória por 7/5, 7/5 e 6/4 com números espantosos e inúmeros lances espetaculares.

Em 2h07min de jogo, o heptacampeão de Wimbledon fez 20 aces, encaixou 76% de primeiros serviços, ganhou 84% desses pontos, disparou 56 (!) winners e cometeu apenas 11 erros não forçados. Números tão iluminados que ofuscam a grandíssima partida feita por Andy Murray.

O jogo do dia

Desde o início, o jogo foi espetacular – e dos dois lados. Fora um break point no primeiro game, Federer e Murray confirmaram com relativa tranquilidade. Aliás, era impossível imaginar na hora, mas seria a única chance de quebra do tenista da casa em toda a partida. E, embora o suíço tenha vencido em três sets, o confronto foi tão equilibrado que não havia muita diferença nem entre as esposas na Quadra Central.


Brincadeiras à parte, Murray havia perdido apenas cinco pontos no seu serviço até o décimo game. No 12º, porém, Federer conseguiu a quebra e fechou a parcial. Os números – de ambos – eram fantásticos.

Não é difícil entender o quanto o serviço de Federer é essencial para seu sucesso na grama. Quando consegue encaixar o primeiro saque, quase sempre coloca o adversário em posição defensiva, algo que fica claro no gráfico abaixo. No meio da segunda parcial, o suíço acumulava 77% de golpes executados de dentro da quadra em seus games de serviço – em posição ofensiva. A comparação com as rodadas anteriores (gráfico à esquerda) assusta, ainda mais considerando que a partida desta sexta-feira era contra uma das melhores devoluções do circuito.

O game do dia

Se a partida já estava excepcional, veio o décimo game do segundo set. Murray sacava pressionado, em 4/5, e o buraco do britânico era fundo quando o placar chegou a 0/40. O britânico salvou os três set points brilhantemente, mas seguiu com problemas para confirmar. Federer teve mais dois set points – ambos salvos pelo insistente escocês. Ao todo, foram sete nervosas igualdades até que Murray conseguisse alongar o set.

Foi o momento de mais tensão de todo o jogo porque havia a impressão de que Federer não permitiria a virada uma vez que abrisse 2 sets a 0. Motivou até o tweet acima do sueco Robin Soderling – aquele Soderling. E Murray não resistiu à pressão por muito tempo. Novamente no 12º game, não conseguiu frear o adversário. Federer quebrou e abriu uma vantagem que, num dia assim, seria impossível de apagar.

O lance do dia

Murray não desistiu, mas tampouco teve chances reais de equilibrar o jogo. Com o primeiro saque entrando, Federer tinha sempre a vantagem. Tanto no comando dos pontos quanto no placar, já que sacava sempre antes de Murray. E aí, com o escocês mais uma vez apertado contra a parede, Roger Federer aprontou isso:

Roger Federer espetacular contra Andy Murray

No fim, foi uma das maiores apresentações da carreira de Federer. Veio contra um adversário de altíssimo nível, em um Grand Slam e com muita coisa em jogo. Certamente, sua melhor atuação nos últimos três anos. Possivelmente, a melhor desde aquele jogo de 2011 contra Nadal no ATP Finals. Talvez melhor que aquela. Talvez a melhor da carreira. Quem sabe ao certo?

Certeza mesmo é que no domingo, quando voltar ao palco onde levantou o troféu sete vezes, Federer, 33 anos, será o tenista mais velho desde Ken Rosewall a disputar uma final de Wimbledon. E quem aí ousa dizer que a idade do suíço pesará contra Djokovic?

A preliminar

Não havia como tratar Djokovic x Gasquet de outra maneira. O número 1 do mundo e atual campeão do torneio entrou em quadra favoritíssimo, apesar da bela atuação do francês contra (um inconsistente) Wawrinka dois dias atrás. E, depois de 2h21min de jogo, os dois saíram da Quadra Central provando que a expectativa era justificada. Djokovic venceu por 7/6(2), 6/4 e 6/4.

Justiça seja feita a Gasquet: foi uma ótima atuação do francês, que abusou de seu backhand e terminou a partida com 36 winners. E a questão é justamente essa: mesmo com o francês atingindo esse nível, Djokovic venceu sem ser ameaçado e passando a impressão de estar jogando para o gasto.

O momento de maior apreensão para os fãs do sérvio veio quando Nole pediu atendimento médico e recebeu tratamento no ombro esquerdo. Fora isso, Gasquet jamais esteve à frente no placar. Até o tie-break do primeiro set foi amplamente controlado pelo número 1.

Será a 17ª (!) final de Grand Slam para Djokovic, que tem oito vitórias e oito derrotas em ocasiões assim. Em Wimbledon, ele e Federer duelaram duas vezes. A primeira, em 2012, terminou com vitória do suíço por 3 sets a 1 nas semifinais. A segunda, no jogão que foi a decisão de 2014, o sérvio venceu por 3 sets a 2.

A oportunidade

Mesmo depois de uma partida como a de Roger Federer hoje, há casas de apostas que colocam Novak Djokovic como o mais cotado para o título. Será? Para quem gosta de arriscar a sorte, pode estar aí uma boa oportunidade.

Apostar no sérvio é acreditar que o ex-número 1 não conseguirá duas atuações espetaculares em sequência. Até porque não parece tão fácil assim acreditar que Federer (que vem sacando monstruosamente desde o início do torneio), especificamente este Federer de hoje, pode ser derrotado.


Sobre balões, doppelgangers e favoritismo
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Alexandre Cossenza

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Mais uma semana no saibro, mais um título de Novak Djokovic, mais uma atuação abaixo do esperado de Rafael Nadal. O Masters 1.000 de Roma teria sido mais interessante se Andy Murray não tivesse abandonado e se Stan Wawrinka tivesse dado as caras na semifinal, mas há, assim mesmo, um bocado de pontos interessantes a levantar sobre os últimos dias.

Novak Djokovic terminou o torneio de forma espetacular. Deu respostas a tudo que Federer tentou. Fez curtinhas, devoluções vencedoras e sacou como nunca. Sua velocidade lateral e seus contragolpes foram muitos e com muita frequência para o suíço. Como sempre, Nole também usou ângulos magistralmente, conseguindo manter o rival na defensiva em muitos momentos. Não foi uma semana perfeita, mas foi uma final fantástica do sérvio.

Em números, Djokovic agora tem 22 vitórias seguidas no circuito – e são 37 se contarmos apenas os torneios de nível mais alto (Masters, ATP Finals e Grand Slams). O número 1 do mundo venceu todos Masters que jogou em 2015 (Indian Wells, Miami, Monte Carlo e Roma) e chegará a Roland Garros invicto no saibro, mais favorito do que nunca a completar seu Career Slam (todos os títulos de Grand Slam, mesmo que em temporadas diferentes).

Nole perdeu sets em três jogos na semana, mas em apenas um teve de correr atrás. Foi contra Thomaz Bellucci, que fez uma belíssima apresentação durante a maior parte do tempo. Sobre essa partida em especial, vale destacar o momento em que, no começo do segundo set, Djokovic resolveu usar bolas mais altas e mais lentas. Fez isso uma vez e ganhou o ponto (vejam no vídeo abaixo). E, coincidência ou não, foi naquele mesmo game que o sérvio quebrou o serviço Bellucci pela primeira vez, iniciando a virada. A partida tomou um rumo diferente a partir dali.

Balões não são um meio de vida nesse nível. Tanto que Djokovic tentou o mesmo no ponto seguinte e levou um winner. Mas variar peso e altura de bola, especialmente se o oponente se mostra confortável do fundo de quadra, é um recurso interessante. Possivelmente não teria funcionado por muito tempo. Deu, no entanto, o resultado que Nole precisava naquele momento. Leitura de jogo e mudanças táticas são qualidades um tanto menosprezadas em tenistas tão talentosos como o sérvio. Ainda há quem o considere um robô devolvedor de bolas. Bobagem (e Djokovic já seria espetacular se fosse “só” isso). Inteligência e variação ganham jogo. E o atual número 1 é o tenista mais completo da atualidade.

Sobre Thomaz Bellucci, as três últimas semanas são animadoras. Fez quartas de final em Istambul, furou o quali e avançou uma rodada em Madri, e foi uma fase ainda mais longe em Roma. Bons resultados, ainda que com um par de chances desperdiçadas pelo caminho (escrevo o post antes do ATP de Genebra).

Talvez seja mais interessante basear o otimismo no conjunto das três semanas e não na atuação diante de Djokovic. Bellucci, afinal, tem um quê de doppelganger. Não é de hoje que o paulista faz partidas excelentes contra grandes tenistas como Nole, Federer e Nadal, mas também sofre com atuações bem abaixo do esperado contra adversários com menos recursos. Vale lembrar que sua última partida contra o sérvio (aquela excelente semifinal de Madri/2011) foi seguida de um revés diante de Paolo Lorenzi, então número 148 mundo. Logo, cabe uma pitada de cautela nesse otimismo bellucciano pré-Roland Garros.

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O curioso sobre o cenário do saibro este ano é que, segundo a maioria das casas de apostas, Andy Murray é o terceiro mais cotado ao título do Grand Slam parisiense. O escocês, afinal, chegará à capital francesa invicto no piso – ganhou Munique e Madri e desistiu em Roma alegando cansaço (méritos por não usar o cada vez mais popular recurso de inventar uma lesão). Está em boa fase e tem tantas armas que candidata-se seriamente ao título – pela primeira vez.

Federer é o quarto e, às vezes, o quinto nome nas casas de apostas (há quem coloque Nishikori à sua frente na lista de favoritos). Ninguém duvida que o suíço seja capaz de ir longe em Paris, mas derrotar Djokovic ou Nadal em uma melhor de cinco sets no saibro parece menos provável a cada dia. Apesar do ótimo resultado em Roma, Federer ainda é quem mais oscila nesse grupo de cima.

O segundo nome mais cotado ainda é o de Rafael Nadal. Pesa, nitidamente, o histórico de nove títulos em Paris. Entra nessa conta também o fato de Roland Garros ser disputado em melhor de cinco sets, onde sua consistência costuma fazer diferença. Ah, sim: para muitos, falta pouco para o espanhol reencontrar o caminho até as vitórias. Nas últimas três derrotas, jogou um belíssimo tênis em alguns momentos. Faltou, porém, encaixar sequências e aproveitar as quebras de vantagem que teve contra Fognini e Wawrinka. Nadal ainda terá uma semana até o começo de Roland Garros e, provavelmente, outra semana para calibrar seu jogo até encontrar os adversários mais fortes da chave.

O ponto de interrogação continua e, com Nadal em sétimo lugar no ranking, o sorteio da chave de Roland Garros pode fazer uma diferença enorme no resultado final. Resta esperar até lá.


A versão Sabesp de Roger Federer
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Alexandre Cossenza

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Você entra no box, abre a torneira e… nada! Não tem água, aquele elemento básico e essencial do planeta, da vida. Não tem mais. Alguém, em algum lugar, decidiu, por mérito ou incompetência, que você não vai ter água. Não tem para tomar banho, para escovar os dentes, para beber. Acabou e ninguém sabe dizer até quando. A sensação, que mistura raiva, frustração, impaciência e quase sempre acaba em resignação, não pode ter sido muito diferente do que passou Roger Federer em Melbourne nesta sexta-feira.

Não acho que tenha sido uma partida fantástica de Andreas Seppi. Não mesmo. E faz-se necessária um explicação que seria nota de rodapé se blogs tivessem rodapés. Não é tirar mérito. O italiano fez um ótimo jogo, de verdade. Mas do ótimo ao fantástico há uma longa rota que Seppi não percorreu nesta sexta-feira – até porque não precisou. Sacou bem, manteve a calma o jogo inteiro e não perdeu a cabeça nem quando uma bola na fita quebrou seu saque no segundo set. Fez tudo de forma competente. Não há o que questionar. Mas eu, mais uma vez, divago.

Foi uma tarde ruim de Roger Federer. Ruim, não. Péssima. O suíço abriu a torneira, fechou e abriu de novo. Não adiantou. Por mais que resmungasse, corresse e gritasse, alguma força superior impediu que Federer usasse os elementos mais básicos de seu jogo. O saque não entrou com consistência, os forehands estavam descalibrados, os slices não incomodaram (Seppi não deixou) e muitas das subidas à rede foram precipitadas – mais na tentativa de “assustar” Seppi do que como resultado da construção de um ponto.

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Estatísticas nunca contam a história inteira, mas os erros não forçados do suíço dizem um bocado. Foram 55 deles. E vale uma ressalva: normalmente as estatísticas de falhas ganham versão super-size contra Nadal ou Djokovic, tenistas que defendem com a resiliência de um Scott Sterling. Contra Seppi, não. Muitas das bolas espirradas por Federer não tinham objetivo algum que não fosse a simples continuação do ponto.

A sequência final foi um microcosmo de tudo que esteve fora da ordem no planeta racionado de Federer. Com metade da quadra tomada pelo sol, o suíço fez uma dupla falta quando liderava o tie-break. E aqui não vale condená-lo, por favor. Um pouco mais cedo, na Hisense, Andy Murray espirrou um segundo saque nas mesmas condições: virado para o sol e com meia quadra na sombra. É duro sacar assim. Mas eu, inevitavelmente, tergiverso.

Com suas muitas qualidades racionadas, Federer não encontrou sequer volume morto. Sem confiança, chegou a, ainda no tie-break, executar um segundo saque a saraerraniescos 129 km/h – o normal seria algo na casa dos 165-170 km/h. Perdeu o ponto. E perdeu os dois seguintes. O último, uma mistura de golpe de vista com mesmo-que-eu-chegue-na-bola-vai-ser-difícil-de-acertar, o mandou de volta para casa a conferir de perto a valorização do franco suíço.

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Kyrgios se dá bem, Nadal nem tanto

E o que muda sem o número 2 do mundo no torneio? A notícia não deixa de ser boa para o garotão Nick Kyrgios, que tem de juventude o que tem de marra – o que não é necessariamente ruim (deixo esta explicação para outro post – assim me poupo de um terceiro devaneio). O campeão do Australian Open juvenil de 2013, hoje com 19 anos, encara Seppi nas oitavas com uma chance razoável de alcançar as quartas de um Slam pela segunda vez. Quem vencer este jogo vai encarar Andy Murray ou Grigor Dimitrov – outros dois beneficiados.

A chave só não muda mesmo é para Rafael Nadal, que não perde uma melhor de cinco para Federer desde 2007. Aliás, os fãs do espanhol, hoje em dia, devem temer mais Berdych e Murray do que qualquer outro antes da final. O número 3 do mundo fez duas grandes atuações – intercaladas com o episódio Tim Smyczek, que vai ganhar proporções mitológicas cedo ou tarde. Já li, inclusive, que ele vomitou em quadra. É o tipo de história que aumenta com o passar do tempo, na medida em que ninguém mais lembra exatamente o que aconteceu. Daqui a 15 anos, Nadal vai ter vomitado parte de seu apêndice.  Mas eu devaneio.

Voltando ao tema, meu ponto é que o tênis que Nadal joga hoje, mais agressivo e correndo mais riscos, é um tanto mais suscetível a dias ruins. Sem tanta margem para erro, o espanhol não pode se dar ao luxo de jogar contra Berdych o mesmo que mostrou, por exemplo, no terceiro set contra Dudi Sela. Aquele tênis fantástico do US Open de 2013 não acontece sempre na vida de um tenista. Vejo Anderson e Berdych com chances nada desprezíveis – bem maiores do que alguns anos atrás, me arrisco a dizer.

Coisas que eu acho que acho:

– Até agora, a chave não tem um jogo ruim nas oitavas. Eles são Berdych x Tomic, Anderson x Nadal, Murray x Dimitrov e Kyrgios x Seppi. Meu preferido é o duelo entre britânico e búlgaro. Falo sobre a metade de cima do quadro masculino depois dos confrontos deste sábado.

– O circuito mundial destes tempos é tão (im)previsível quanto Kim Jong-Un num filme de Seth Rogen. O favorito de hoje é candidato a sofrer um piripaque amanhã. Djokovic começou o torneio voltando de um problema estomacal, mas já apagou qualquer dúvida. Murray, a eterna incógnita, somou três atuações irretocáveis. Nadal, com poucas partidas nas costas, estreou bem, quase abandonou na sequência e, hoje, voltou a mostrar um ótimo tênis.


O viciado
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Alexandre Cossenza

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São três letras para escrever mil, mas nem três mil caracteres fariam justiça completa à carreira – em andamento! – de Roger Federer. Neste domingo, o suíço conquistou mais um título. Um 250, diante de um freguês. Era uma chave nada espetacular, e ele passeou como já fez tantas e tantas vezes na vida. Mas o troféu de Brisbane, após o 6/4, 6/7(2) e 6/4 sobre Milos Raonic, acabou significando muito mais do que seu 83º título. Foi, afinal, sua milésima vitória.

Federer é o terceiro na lista de mais jogos ganhos na Era Aberta (a partir de 1968) do tênis. Jimmy Connors, que jogou mais torneios pequenos do que qualquer outro grande campeão na história, soma 1.253 vitórias. Ivan Lendl acumulou 1.071. Só que, como em quase tudo na vida, números contam a metade da história. A outra parte – a mais divertida para quem acompanha – está nos highlights, nos lances mágicos, nas grandes atuações, nas vitórias improváveis diante de grandes adversários e nos maiores palcos.

São tantos números e tanto talento que uma parte, qualquer que seja seu tamanho no total dessa obra-prima, é quase sempre esquecida: a dedicação de Roger Federer. Sempre gostei de dizer que o suíço é um viciado, um CDF. Muitos dos grandes – não só do tênis – que alcançaram uma parcela do seu sucesso se acomodaram. O suíço, nunca. O genial Marat Safin venceu um Slam em 2000 e levou mais de quatro anos até repetir o feito. David Nalbandian, possivelmente o maior talento puro de sua geração, nunca dedicou-se a ter o físico necessário para conquistar o que seu jogo lhe permitiria.

Federer passou por tudo com naturalidade. Ganhou um Slam. E ganhou dois, três, quatro… Fez o mundo perder a conta. Virou milionário, casou, teve dois casais de gêmeos… Deveria estar no Guinness como recordista em ter recordes. Durante todo esse tempo, nenhuma distração foi grande o bastante para fazê-lo largar o vício. Quando indagado sobre aposentadoria, geralmente responde de forma banal e divertida: “Estou ganhando, jogando bem, viajando mundo e curtindo minha família. Parar por quê?” Cidadãos normais esbanjariam em carrões, festas milionárias, longas viagens e passatempos excêntricos. Pois Federer passa parte de suas folgas jogando tênis na Ásia, na America do Sul, em Dubai e até num barco (vejam a última foto que postei no Facebook).

E o vício está aí, manifestando-se com mais frequência do que nunca. Dez anos depois de, no seu auge, ver a chegada de Nadal, Djokovic e Murray no circuito, segue, agora aos 33 anos, desafiando o trio nos grandes torneios e, de vez em quanto, até na briga pela liderança do ranking mundial. Sem nenhuma mudança drástica em seu jogo, Federer conserva a paixão pelo esporte e pelas vitórias. E, com elas, o tênis pelo qual o mundo se apaixonou mais de uma década atrás.

Coisas que eu acho que acho:

– Não custa observar um punhado de números interessantes sobre as mil vitórias. Elas vieram em 28 países (210 nos Estados Unidos) e contra 275 adversários (21 em cima de Andy Roddick) nascidos em 53 países diferentes (111 contra franceses). As quadras duras (621) foram o piso que mais viu Federer vencer, e mais de 70% dos triunfos vieram em sets diretos (737).

– As estatísticas dão uma noção da dificuldade chegar a mil jogando quase exclusivamente torneios de altíssimo nível. Quer um exemplo? Mais da metade das mil vitórias (638) veio em Grand Slams, Masters 1.000 e edições do ATP Finals. Mais um exemplo? São 303 vitórias contra tenistas do top 20.

– O “até quando?”, que adoram levantar, nada mais é do que um bobo e paradoxal exercício de adivinhação e sofrimento. Meu conselho? Relaxem e curtam cada voleio improvável, cada gran willy, cada curtinha de backhand… E gravem o que for possível. Ver tênis vai ser bem diferente quando acabar.


Porque Federer precisava vencer a Davis
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Alexandre Cossenza

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Nos últimos 11 anos, desde que se estabeleceu como número 1 do mundo e senhor do circuito, Roger Federer tentou ganhar a Copa Davis apenas duas vezes. A primeira foi em 2004, quando a Suíça sucumbiu diante da França. Seus parceiros, Ivo Heuberger, Michel Kratochvil e Yves Allegro, não seguraram a onda. A segunda tentativa, em 2012, aconteceu quando vislumbrava-se uma campanha só com jogos em casa e terminou em um decepcionante 5 a 0 para os EUA.

Na maior parte do tempo, Federer priorizou calendário e ranking, optando por vestir o vermelho e branco da Suíça quase sempre só nos playoffs. Só que um tenista com tantas conquistas, troféus e, claro, dinheiro, não poderia não tentar mais uma vez. Ele até falou que não precisava. “Ganhei tanto na minha carreira que não precisava marcar um X numa caixinha”, disse neste domingo. Bobagem. A grande história do fim de semana é simples: Roger Federer conquistou a Copa Davis. Empurrado por Stan Wawrinka, grande nome do fim de semana, o ex-número 1 do mundo finalmente alcança um dos poucos feitos relevantes que faltavam em seu currículo.

O triunfo veio num fim de semana especial, com recorde de público (mais de 27 mil pessoas por dia) em Lille, no saibro e na casa dos adversários. E veio depois de uma lesão nas costas que o forçou a não disputar a decisão do ATP Finals, uma semana atrás. E veio depois de uma derrota doída na sexta-feira, um 3 a 0 diante de Gael Monfils em que Federer esteve longe de seu melhor e não esboçou reação diante do tenista número 2 do time da casa.

Mas veio com uma recuperação física impressionante. Nada abalado pelo resultado da sexta-feira, o número 1 suíço não só entrou nas duplas como voltou à arena no domingo. E veio, meio que como uma recompensa dos deuses do tênis, com ele em quadra, em uma atuação impecável diante de um confuso Richard Gasquet. Sim, senhores: Roger Federer, 33 anos, é campeão da Copa Davis. Porque não fazia sentido o tenista mais vitorioso de sua geração chegar ao fim da carreira sem vencer a mais legal das competições.

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Coisas que eu acho que acho sobre a Suíça:

– Wawrinka merece como ninguém a Copa Davis. Nas muitas ocasiões em que Federer priorizou seu calendário pessoal e sua posição no ranking, foi Stan the Man que segurou a barra sozinho, levando consigo Lammer, Chiudinelli, Allegro, fosse quem fosse. Contou com a ajuda de Federer em alguns playoffs, claro, mas esteve sempre ali, vestindo as cores do país.

– A campanha suíça em 2014 tem méritos de ambos. Federer, então número 2 do país, carregou o time contra o Cazaquistão, no que poderia ter sido uma zebra gigante em Genebra. Wawrinka no entanto, foi o nome do fim de semana em Lille. Esteve fantástico contra Tsonga (e talvez tenha sido o responsável pela lesão do francês) e foi o melhor em quadra também nas duplas.

– O banco suíço durante a final tinha 11 pessoas. Difícil imaginar o mesmo com o Brasil, que enche o espaço com juvenis, ex-tenistas, preparadores físicos, médicos, fisioterapeutas e, às vezes, até dirigentes de clubes e assessores de imprensa (ou seja, todo mundo menos Fernando Meligeni).

– Não lembro quem escreveu isso no Twitter durante este domingo, mas impressionou a recuperação física de Federer. Fosse Djokovic ou Nadal na mesma situação, a internet estaria cheia de teorias de conspiração. Que tal adotarmos critérios iguais a todos? Que tal entender que hoje em dia a recuperação é muito mais rápida, até para tenistas com mais de 30?

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Coisas que eu acho que acho sobre a França:

– Richard Gasquet esteve entre os trending topics do Twitter nos últimos dois dias, e não de maneira positiva. Sua escalação foi questionada, e as atuações deixaram muito a desejar. Normal que se questione a convocação, mas é compreensível que o capitão, Arnaud Clément, tenha apostado em um tenista que foi importante, vencendo dois jogos nas semifinais.

– Ainda assim, era difícil imaginar Gasquet derrotando Wawrinka ou Federer. Dada a condição física desconhecida do número 1 suíço antes do confronto, faria sentido escalar Gilles Simon, que poderia ter, no mínimo, alongado uma partida contra Federer na sexta-feira. Ainda assim, Gasquet não era a primeira opção de Clément. A intenção era jogar com Tsonga, que foi mal contra Wawrinka e ficou fora do resto do confronto alegando uma lesão no cotovelo (em Copa Davis, sempre convém duvidar das explicações oficiais).

– Com a quantidade de tenistas disponíveis, é fácil questionar a escalação francesa (eu mesmo acho que, no saibro, Simon e Chardy teriam mais chances contra Federer do que Gasquet e Tsonga), mas o time que foi pensado inicialmente por Clément, com Tsonga e Monfils nas simples e Tsonga/Benneteau nas duplas, poderia ter vencido o confronto. No fim das contas, o time francês não jogou o bastante e tem muito a lamentar sobre o fim de semana.


Um duplo tapa na cara
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Alexandre Cossenza

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Partidas pouco ou nada equilibradas, tenistas abaixo de seu nível costumeiro e uma aguardadíssima final que não existiu. Foi assim o decepcionante torneio de simples do ATP Finals, evento que reúne os oito melhores tenistas da temporada. O título acabou nas mãos de Novak Djokovic, que venceu por WO após a desistência de Roger Federer, que se queixou de dores nas costas um dia depois de derrotar Stan Wawrinka no único jogo realmente interessante da semana. E não deixa de ser um típico encerramento para um torneio chato: a melhor partida serviu para impedir a realização do confronto que todos queriam ver.

Djokovic, é bom que se diga, foi o melhor tenista do começo ao fim do ATP Finals. Venceu sempre com folga e, até quando perdeu um set – na semifinal diante de Kei Nishikori -, faturou os outros dois sem problemas (6/1 e 6/0). Federer, por sua vez, fez uma estupenda fase de grupos, mas aceitou jogar com as porcentagens diante da agressividade de Wawrinka na semi. Diante de tantas bolas profundas, o número 2 do mundo fez a arriscada aposta de agredir menos – inclusive diante do segundo saque do adversário (que terminou com menos de 40% de aproveitamento de primeiro serviço) – e contar com as falhas do oponente. No fim, a estratégia deu certo, mas só porque Wawrinka cometeu erros bobos nos match points.

No domingo, contudo, Federer disse que começou a sentir dores nas costas durante o tie-break final do sábado. Explicou que tentou tratamento, mas nada lhe colocou em condições de competir com Djokovic. O suíço disse que provavelmente estará bem dentro de alguns dias e é de se imaginar que a final da Copa Davis tenha pesado um bocado na opção por não jogar a final em Londres. Dentro de cinco dias, Federer precisará estar em forma na França – e pronto para a possibilidade de ficar em quadra por cinco sets – em busca de um dos poucos títulos inéditos em seu currículo. Restou a Djokovic, um merecido campeão, levantar a taça com o sorriso amarelo da foto acima.

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Se algo valeu a pena neste ATP Finals, foi a chave de duplas. Com jogos de altíssimo nível, ralis na rede e no fundo de quadra, tie-breaks e match tie-breaks cheios de variações, a modalidade mostrou seu valor mais uma vez. Bob e Mike Bryan, mais uma vez, ficaram com o título. Marcelo Melo, que sempre merece mais reconhecimento do que recebe, foi vice ao lado de Ivan Dodig – e, tirando um par de duplas faltas no segundo set, foi uma final irretocável do mineiro. Enquanto isso, Bruno Soares e Alexander Peya foram eliminados após uma derrota diante dos mesmos Bryans na fase de grupos.

O sucesso do torneio de duplas não deixa de ser um gentil tapa na cara da ATP, que fracassa intencionalmente na tarefa de divulgar decentemente a modalidade. A entidade faz esforço perto de zero para transmitir partidas, não disponibiliza sinal de jogos sequer via internet e vende um pacote separado para os canais que se mostram dispostos a exibir. Mas não é só isso: enquanto é possível ver inúmeros jogos de duplas em torneios da série Challenger, há finais de ATPs 500 e Masters 1.000 sem transmissão – o que beira o inacreditável.

O excelente nível mostrado pelas duplas vai fazer a ATP rever sua postura e divulgar melhor a modalidade? Duvido muito. Vejam abaixo esse diálogo entre André Sá, integrante do conselho de jogadores da entidade, e o britânico Jamie Murray, irmão de Andy e duplista de ofício. O escocês reclama que todos jogos de simples são televisionados, mas as câmeras são desligadas assim que um jogo de duplas está prestes a começar na quadra central. O mineiro rebate, explicando que não há intenção da ATP de investir dinheiro algum na modalidade.

Coisas que eu acho que acho:

– Com a desistência, Federer ficou bem longe do número 1 do mundo. Djokovic agora soma 11.510 pontos, contra 9.700 de Federer, que ainda pode somar na Copa Davis. Ainda assim, o suíço tem mais a defender até o fim do Australian Open, o que dá alguma folga extra ao sérvio.

– A lesão e a consequente desistência de Federer (que não derrota Djokovic em uma final desde 2012) são mais uma prova de que qualquer tenista pode cair machucado na pior das horas. Sempre vale a pena pensar duas vezes antes de duvidar de um atleta que se queixa de dores – especialmente em uma decisão.

– O top 10 da temporada termina nesta ordem: Djokovic, Federer, Nadal, Wawrinka, Nishikori, Murray, Berdych, Raonic, Cilic e Ferrer.


Federer desafia a matemática
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Alexandre Cossenza

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Mais dois centímetros, e a discussão estaria encerrada desde o começo da última semana. Só que o backhand de Leo Mayer, com Roger Federer batido no lance, tocou na fita, subiu uns 15 centímetros e, quando caiu, voltou para o lado do argentino. O suíço, que salvou cinco match points naquele jogo, não voltou a ter uma atuação abaixo da média. Pelo contrário. Foi fantástico na vitória sobre Novak Djokovic, na semifinal, e completou o serviço no domingo, ao derrotar Gilles Simon, conquistar o Masters 1.000 da Xangai e, vejam só, aos 33 anos, reacender a luz da briga pelo posto de número 1 do mundo.

“O que é preciso para eu ser número 1? Não tenho certeza. Preciso olhar e ver o quão realista é. Está na raquete de Novak. Ele dita. Mesmo assim, vou jogar e torcer para jogar bem de novo.”

Como sempre faz, o suíço sabe que suas chances não são grandes e minimiza a disputa. Não quer criar uma grande expectativa. Bobagem. Seus fãs, empolgados com razão após a última semana, já simulam por aí uma dúzia de cenários nos quais Federer pode terminar mais uma temporada. E nem é tão improvável assim, já que há algumas circunstâncias incomuns nessa briga. Vejamos!

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A diferença entre sérvio e suíço, hoje, é de 2.430 pontos. Só que Federer tem quatro eventos a disputar. Djokovic, apenas dois. E talvez nem isso. Com a proximidade do nascimento de seu primeiro filho, especula-se que o número 1 fique fora do Masters de Paris, onde foi campeão ano passado. Assim sendo, a diferença cairia automaticamente para 1.430. E Nole também defende o título invicto do ATP Finals, o que equivale a 1.500 pontos. Como não joga mais, Djokovic não somará nada até o fim do ano. Na melhor das hipóteses, manterá a pontuação – o que já é um feito e tanto, convenhamos, e será suficiente para conservar a posição no topo do ranking.

Federer não tem tanto assim a defender. São 300 pontos pelo vice na Basileia, 360 pela semi de Paris e 400 pela semi do ATP Finals. Caso vença tudo, o suíço somará 2.165 pontos – e entram nessa conta os possíveis 225 pontos em jogo na final da Copa Davis. A Suíça, fora de casa, encara a França. Tudo bem, não é lá muito provável que alguém vença quatro eventos assim, mas convém não duvidar de Roger Federer. Nunca. Muito menos em quadras indoor.

A conta mais simples de se fazer é a seguinte: de agora até o fim da temporada, o suíço precisa fazer mil pontos a mais do que Djokovic para fechar 2014 como número 1. Nessa matemática, nem é mais preciso levar em consideração quem defende o quê nestes últimos torneios da temporada.

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No entanto, vale ficar de olho na defesa de pontos porque o calendário mudou, e tudo que foi somado do ATP Finals de 2013 será descontado antes do mesmo evento em 2014. Assim, o suíço pode assumir a ponta – ainda que provisoriamente – já depois de Paris. E esse cenário nem é dos mais improváveis. Basta que Federer seja campeão na Basileia e em Paris, e que Djokovic não passe das semifinais na França. Assim, o suíço chegaria a Londres e iniciaria o ATP Finals com 9.520 pontos contra 9.370 do atual líder do ranking.

E se Djokovic nem for a Paris, Federer só precisa ser campeão na Basileia e vencer dois jogos em Paris, alcançando as quartas de final. Assim, somaria 9.060, contra 9.010 do sérvio. E, pelo que o suíço mostrou em Xangai, parece fácil – para ele.


A final que ninguém esperava
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Alexandre Cossenza

Nem as casas de apostas ofereciam essa opção. Consultado pelo “Courier Mail”, o TAB, principal site de apostas australiano, informou que pagaria 5.000 para cada dólar apostado em uma final entre Kei Nishikori e Marin Cilic no US Open. O japonês vinha de uma lesão no pé e correu até o risco de não estar no torneio nova-iorquino. O croata estava em uma chave na qual potencialmente precisaria derrotar cabeças de chave como Kevin Anderson, David Ferrer, Tomas Berdych e Roger Federer para chegar à segunda-feira decisiva. Não era lá muito provável, especialmente dado o retrospecto de cinco derrotas em cinco jogos diante do suíço. No entanto, aconteceu. Quem for ao Estádio Arthur Ashe nesta segunda, não vai ver nem Novak Djokovic nem Roger Federer. Mas como isso aconteceu?

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Nishikori d. Djokovic – 6/4, 1/6, 7/6(4), 6/3

O japonês agredindo, o sérvio apostando na consistência. Analisando após a partida, a impressão que fica é que o número 1 do mundo contava com uma queda de rendimento do adversário. Nishikori não aguentaria jogar no nível do primeiro set por mais duas parciais. Ou aguentaria? A verdade é que nem precisou tanto.

Tudo parecia ter voltado ao normal quando Djokovic venceu o segundo set por 6/1 e teve quatro chances de quebra logo no terceiro game do terceiro set. Não quebrou, mas parecia melhor em quadra. Até que fez um oitavo game péssimo e cedeu a quebra. Nishikori devolveu a cortesia e se quebrou praticamente sozinho. Veio, então, o tie-break. Com ele, seis erros não forçados do sérvio. O japonês, se não foi espetacular, teve a competência de fechar.

E aí é que entra o grande mistério da partida. Nishikori liderava, mas não era senhor do jogo. Djokovic, até então, não tinha promovido nenhuma grande variação tática. Tentou, sim, agredir mais, mas não encontrou consistência suficiente. Ainda assim, a partida era parelha. Só que outro game ruim – logo o primeiro do quarto set – derrubou os ânimos do número 1 do mundo.

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A partir dali, Nole foi presa fácil. Mentalmente, o sérvio que ficou em quadra até o fim esteve longe daquele que o mundo se acostumou a ver batalhando por quatro, cinco horas contra Nadal e Murray. Mais longe ainda daquele que, nesse mesmo Estádio Arthur Ashe, salvou dois match points e virou jogos contra Roger Federer em duas semifinais consecutivas.

Nishikori, que não tinha nada a ver com isso, seguiu distribuindo suas pancadas. Não abriu as portas, não sentiu a pressão. E surpreendeu muita gente (eu inclusive) ao resistir fisicamente. Quase não foi a Nova York por causa de um cisto no pé direito. No início de agosto, passou por uma operação (daquelas simples, que os médicos preferem chamar de “procedimento”) e ficou fora de Cincinnati. Uma vez no torneio, passou por dois jogos de cinco sets e aguentou um dia de calor e umidade contra Djokovic. Não dá para querer muito mais do que isso.

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Cilic d. Federer – 6/3, 6/4, 6/4

Um daqueles jogos que derrubam um dos clichês mais bobos do tênis. Sempre que um atleta ganha um jogo apertado, aparece alguém para dizer o velho “ganhou moral, vai ser difícil segurar agora.” Bobagem. E Grand Slam é assim. A margem para erro não é muito grande. Não dá para fazer dois jogos ruins em sequência e acreditar que sempre vai haver uma saída.

A diferença é que aqui o jogo ruim de Roger Federer teve muito a ver com o adversário. Marin Cilic jogou, em suas palavras, o melhor tênis da vida. Bomba atrás de bomba no saque, pancada atrás de pancada do fundo de quadra, o croata
dominou o suíço do começo ao fim. O ex-número 1 nunca conseguiu equilibrar o jogo do fundo de quadra e, com a profundidade das bolas de Cilic, esteve quase proibido de ultrapassar a linha de base. Logo, teve pouco sucesso nas subidas à rede. Na maioria das vezes que tentou, o croata teve tempo de preparar a passada e executá-la bem. Slices? Foram poucos e não funcionaram.

Federer não desistiu. De novo, brigou. A cada rali que vencia, gritava, comemorava, olhava para o outro lado da rede. Um ou dois pontos depois, porém, um ace de Cilic ou um backhand na paralela abafavam qualquer esboço de reação. O suíço teve uma chance, que foi a quebra no segundo game do terceiro set. Só que o ex-número 1 não teve tempo para respirar. O croata devolveu logo em seguida, empatou o placar e voltou a jogar o tênis fantástico dos sets anteriores.

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Parecia questão de tempo para que Cilic conseguisse uma última quebra, e foi o que aconteceu. No sétimo game, o primeiro serviço de Federer desapareceu, e o croata aproveitou. O azarão ainda desperdiçou um break point, jogando para fora uma devolução de segundo saque. Sem problema. No ponto seguinte, disparou um winner no primeiro serviço do suíço. A quebra veio.

É o melhor resultado da carreira de um tenista que não esteve no torneio no ano anterior por causa de um gancho por doping. Um daqueles casos bobos. Cilic tomou uns comprimidos de glicose que continham niquetamida, uma substância proibida. Ficou quatro meses sem disputar torneios, voltou em dezembro de 2013 e hoje, menos de um ano depois, com Goran Ivanisevic em seu box, teve a chance de sacar para eliminar o poderoso Roger Federer no US Open. Pois nem piscou. Abriu o game com três aces e, pouco depois, estava com os braços esticados para o alto e sorriso de finalista no rosto.

Coisas que eu acho que acho:

– Estatúpida do torneio: Roger Federer terminou o US Open sem vencer um set sequer sob luz natural. Perdeu um para Granollers e três para Cilic.

– Estatúpida MASTER do torneio, cortesia da Infostrada: Cilic é o segundo palíndromo a palíndromo uma final de Grand Slam. A primeira foi Seles. Palídromo é uma palavra, número ou frase que se lê da mesma forma da esquerda para a direita ou ao contrário.

– Rafael Matos e João Menezes perderam a final juvenil de duplas para o australiano Omar Jasika e o japonês Naoki Nakagawa: 6/3 e 7/6(6). Alguns leitores me cobraram posts sobre os dois brasileiros finalistas. Não escrevi por dois motivos: 1) Não vi os jogos, não posso descrever as partidas e muito menos comentá-las; 2) É ótimo que dois garotos tenham a chance de disputar uma decisão de Grand Slam como juvenis, mesmo que seja em duplas. Não vejo, porém, por que badalar o fato. A não ser, claro, que estivéssemos produzindo duplistas desde o juvenil, o que não é o caso. Dito isto, os dois estão de parabéns pela campanha.