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Categoria : Novak Djokovic

AO, dia 4: quando Istomin desafiou a lógica e derrubou Djokovic
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Alexandre Cossenza

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Na maior zebra do torneio (e dos últimos anos no tênis), Novak Djokovic deu adeus ao Australian Open na segunda rodada, cortesia de uma atuação bravíssima do wild card Denis Istomin. O uzbeque roubou os holofotes por um dia, mas não foi só ele o único a brilhar nesta quinta-feira em Melbourne. Mirjana Lucic-Baroni também se fez notar ao eliminar Agnieszka Radwanska, a cabeça de chave número 3.

O quarto dia do torneio também teve Serena Williams levando a melhor em um jogão contra Lucie Safarova, enquanto Karolina Pliskova e Johanna Konta ampliaram suas séries de vitórias e também passaram à terceira rodada. O resumaço do dia conta tudo, inclusive os resultados de todos brasileiros, e ainda traz uma prévia do jogão entre Roger Federer e Tomas Berdych, a principal atração da sexta-feira em Melbourne Park.

A zebraça

Denis Istomin sempre foi um tenista respeitado e perigoso. Capaz de dias inspiradíssimos, mas inconsistente. Sempre que teve chances de enfrentar a elite, ficou aquém do que poderia. É o tipo de jogo legal de ver. Istomin “faz uns pontaços, a galera começa a acreditar, mas termina sempre 6/4, 6/3, 6/1”, registrei no Twitter antes de o jogo começar (seguido pelo gráfico abaixo).

E o duelo já começou equilibrado, com Istomin sempre agredindo, não fugindo do seu estilo natural. O uzbeque, atual #117 do mundo, quebrou o saque do sérvio no sétimo game, mas perdeu o serviço logo depois. Teve um set point no tie-break, mas não converteu. Era de se esperar que Djokovic, eventualmente, tomasse o controle das coisas. Não aconteceu. O #2 do mundo teve até um set point em seu próprio serviço, mas perdeu três pontos seguidos e viu Istomin fazer 7/6(8).

Tudo bem, era um set só. O jogo seguia parelho. Tipo de duelo em que o azarão, em algum momento, comete uma série de erros e vê a coisa desandar. Pois Istomin, depois de não conseguir converter dois set points no décimo game do segundo set, cometeu três erros, perdendo o saque e a parcial. Djokovic fez 7/5. Era mesmo o esperado. O jogo já tinha 2h30 de duração. O mais provável seria ver o azarão se esgotando (mental ou fisicamente), e o favorito deslanchando.

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Pois Istomin começou a sentir cãibras no terceiro set. O sérvio fez 6/2 na parcial. Jogo sob controle. O dominante Djokovic não deixaria escapar uma vantagem assim numa segunda rodada de Grand Slam, certo? Errado. O Djokovic de hoje ficou muito aquém do tenista que deu as cartas no circuito de 2014 até a metade de 2016. Não jogou mal nesta quinta, mas não mostrou nem a inspiração nem o instinto assassino de outros tempos. Não agarrou a partida como já fez tantas vezes no passado. Ainda assim, com o jogo se alongando por mais de 3h, era difícil imaginar Istomin resistindo fisicamente para virar o placar.

Só que Djokovic perdeu o saque no comecinho do quarto set. Na hora que precisava se mostrar no controle, deu ao rival uma luz no fim do túnel. Istomin se apegou a ela e lutou. O uzbeque perdeu a quebra de vantagem e perdeu também um set point no décimo game, mas foi feroz em mais um tie-break: 7/6(5).

E se é inevitável dizer que Djokovic, hexacampeão e favorito, deixou a partida escapar, é igualmente necessário frisar que Istomin tem muito mérito. Teve coragem o tempo inteiro, agredindo de forma inteligente, e jogou muito – muito mesmo! – em quase todos momentos delicados. Não piscou no quinto set, sacou horrores quando pressionado e chegou ao fim das 4h48 de partida com 63 winners (cinco a menos que Djokovic) e 61 erros não forçados (contra 72 de Nole). Um feito gigante, uma zebra enorme. Game, set, match, Istomin: 7/6(8), 5/7, 2/6, 7/6(5) e 6/4.

A um ponto de não estar em Melbourne

Istomin só disputa o Australian Open porque ganhou um wild card, que não foi um daqueles convites dados de graça. Para receber, precisou jogar um torneio de classificação chamado “AO Asia-Pacific Wildcard Play-off”, realizado em Zhuhai, na China. O uzbeque foi campeão ao derrotar na final Duckee Lee por 7/5 e 6/1.

Mas essa final quase não aconteceu. Na semi, Istomin enfrentou o indiano Prajnesh Gunneswaran, que hoje é o #319 do ranking mundial. Naquele dia, Gunneswaran teve quatro match points em seu saque no décimo game, mas não conseguiu fechar. Istomin salvou três deles com winners. Depois, perdeu três match points no 14º antes de, finalmente, fechar em 6/2, 1/6 e 11/9.

Murray mais longe na liderança

Líder do ranking com 780 pontos de vantagem sobre Djokovic, Andy Murray aumentará bastante sua distância para o sérvio. Como Nole é o atual campeão e defendia dois mil pontos, o escocês, vice em 2016, sairá de Melbourne com pelo menos 1.625 pontos de frente. Isso, claro, se não passar da terceira rodada. Caso levante o troféu, o britânico terá 3.535 pontos a mais que Djokovic.

Levando em conta que o sérvio ainda precisa defender mais dois mil pontos em março (venceu Indian Wells e Miami), enquanto Murray só somou 90 pontos no mesmo período no ano passado, é justo imaginar que o britânico não será ameaçado na liderança pelo menos até o segundo semestre.

Mais zebra

A chave feminina também teve uma zebra de grande porte passeando por Melbourne Park nesta quinta. Agnieszka Radwanska, cabeça de chave número 3, foi eliminada por Mirjana Lucic-Baroni (#79): 6/3 e 6/2.

Quem ganha com isso é Karolina Pliskova, que passa a ser a maior cabeça de chave do terceiro quadrante – o que, em tese, encontra Serena Williams na semi. Apesar de viver melhor momento, Pliskova tem um retrospecto incrivelmente negativo de sete derrotas em sete jogos contra Radwanska. Logo, a polonesa seria a mais cotada no caso de um duelo nas quartas de final.

A favorita

Serena Williams viveu outro grande momento em Melbourne. Em uma chave nada amigável, a número 2 do mundo, que já havia derrotado Belinda Bencic na estreia, agora passou por Lucie Safarova por 6/3 e 6/4. Foi um encontro mais complicado do que o placar sugere, mas se isso não fica visível nos números, é justamente por mérito de Serena. A americana jogou melhor os pontos importantes, salvando tries break points no primeiro set e outros três na segunda parcial.

Na terceira rodada, a atual vice-campeã do Australian Open vai enfrentar a compatriota Nicole Gibbs, o que, a essa altura do torneio, parece ser um refresco em comparação com as duas rodadas anteriores.

Os outros candidatos

Karolina Pliskova segue voando. A vice-campeã do US Open, que chegou a Melbourne embalada pelo título em Brisbane, alcançou sua sétima vitória consecutiva nesta quinta ao fazer 6/0 e 6/2 sobre a russa Anna Blinkova (#189). A tcheca chega à terceira rodada com apenas quatro games perdidos. Sim, sua chave foi fácil até agora, mas Pliskova tirou proveito, ganhando mais de 80% dos pontos com seu primeiro saque. Na terceira fase, ela encara Jelena Ostapenko, que bateu Yulia Putintseva, cabeça 31, por 6/3 e 6/1.

Johanna Konta vive momento semelhante. A top 10 britânica, campeã recentemente em Sydney, também venceu seu sétimo jogo seguido ao eliminar Naomi Osaka (#47) por 6/4 e 6/2. A japonesa de 19 anos até conseguiu manter o duelo parelho no primeiro set e teve, inclusive, um break point. Não conseguiu a quebra e perdeu o serviço em seguida. Era o que Konta precisava para arrancar no placar e fazer 6/4 e 6/2. A inglesa marcou um esperado confronto com Caroline Wozniacki, que eliminou Donna Vekic por 6/1 e 6/3.

Outro jogo interessante na terceira rodada será entre a #6 do mundo, Dominika Cibulkova, e a russa Ekaterina Makarova, #33. A eslovaca passou pela taiwanesa Su-Wei Hsieh por 6/4 e 7/6(8), enquanto Makarova avançou após a desistência de Sara Errani, que perdia por 6/2 e 3/2. A italiana saiu de quadra chorando, com dores na perna esquerda.

Milos Raonic, por sua vez, venceu o duelo de sacadores com Gilles Muller: 6/3, 6/4 e 7/6(4). O canadense enfrenta Gilles Simon na terceira rodada em um duelo bem interessante. Outro jogo legal da fase seguinte será entre Grigor Dimitrov e Richard Gasquet. O búlgaro bateu Hyeon Chung por 1/6, 6/4, 6/4 e 6/1, enquanto o francês atropelou Carlos Berlocq por triplo 6/1.

Por fim, fechando a programação da Rod Laver Arena, Rafael Nadal encarou Marcos Baghdatis e fez 6/3, 6/1 e 6/3, confirmando a expectativa de quase todos quando a chave foi sorteada. Ele e Zverev vão se enfrentar na terceira rodada no que parece ser um jogo-chave para ambos. Digo “chave” porque quem avançar pode muito bem alcançar a semifinal. E agora, após a queda de Djokovic, quem chegar a semifinal nesse quadrante tem chances maiores de ir à final.

Sobre a atuação desta quinta, Nadal tentou ser agressivo o tempo inteiro e, embora Baghdatis não tenha colocado em risco o placar, o espanhol teve problemas para confirmar seu saque no primeiro set. Aos poucos, Nadal foi jogando e melhor e sacando com mais eficiência – terminou com 80% de aproveitamento de primeiro serviço. O ex-número 1 chegou ao fim do encontro com 32 winners e 33 erros não forçados, o que é um número aceitável para quem agrediu tanto.

Os brasileiros

Rogerinho, único brasileiro na segunda rodada, teve uma tarde difícil diante de Gilles Simon, um adversário superior técnica e taticamente. O brasileiro conseguiu fazer pouco além de correr atrás de todas as bolas e não desistir. Nada, contudo, que compensasse a diferença no tênis jogado pelos atletas. Simon fez 6/4, 6/1 e 6/1 e colocou um ponto final na participação brasileira na chave de simples.

Nas duplas, André Sá e Leander Paes fizeram uma boa apresentação, mas levaram a virada dos cabeças de chave 10, Max Mirnyi e Treat Huey. Brasileiro e indiano venceram o set inicial e tiveram 3/0 no tie-break do segundo, mas perderam sete pontos seguidos – mais por mérito dos rivais do que por falhas próprias – e a melhor chance de fechar o jogo. Sá e Paes ainda tiveram dois break points no terceiro set, mas não converteram. Em um jogo tão parelho, custou caro. Mirnyi e Huey finalmente quebraram o serviço de Paes e venceram por 4/6, 7/6(3) e 6/4.

Em seguida, o único triunfo brasileiro do dia. Marcelo Melo e Lukasz Kubot derrotaram Johan Brunstrom e Andreas Siljestrom em três sets: 7/5, 4/6 e 6/4. Cabeças de chave #7, brasileiro e polonês vão encarar na segunda rodada o time formado por Nicholas Monroe e Artem Sitak.

Bruno Soares e Jamie Murray, atuais campeões do Australian Open, foram eliminados logo na estreia. Eles caíram diante de Donald Young e Sam Querrey por 6/3 e 7/6(5). Com os pontos perdidos, brasileiro e britânico cairão pelo menos duas posições cada no ranking. O brasileiro, que começou a semana como #3 do mundo, pode até sair do top 10. O mesmo vale para Jamie, atual #4.

Amanhã: o que esperar de Roger Federer x Tomas Berdych

A grande atração do quinto dia de jogos em Melbourne é o confronto entre Roger Federer e Tomas Berdych. O suíço, cabeça de chave 17, vem de vitórias contra Jurgen Melzer e Noah Rubin, enquanto o tcheco bateu Luva Vanni e Ryan Harrison. O favoritismo ainda é de Federer, que tem 16 vitórias e seis derrotas contra Berdych e também triunfou nos últimos cinco encontros, faturando 11 sets em sequência.

A grande questão é que Federer não fez lá grandes apresentações até agora. Contra Rubin, variou pouco seu jogo e entrou numa pancadaria desnecessária. Só levou vantagem quando tirou um pouco o peso das bolas e deu ao garotão a chance de errar. Rubin sentiu o peso e se complicou. Ainda assim, o americano conseguiu agredir os saques do suíço e teve set point na terceira parcial para alongar o encontro.

A questão é saber o quanto Federer vai insistir em pancadas do fundo de quadra contra Berdych, que gosta de bolas retas, saca melhor do que Rubin e tem a capacidade de controlar os pontos quando consegue encaixar suas devoluções. Será que Federer foi teimoso do fundo de quadra contra Rubin porque queria calibrar seus golpes e sabia que tinha margem para erro? Ou será que o ex-número 1 vai insistir mesmo nesse estilo de jogo até o fim do torneio?

A chave contra Berdych sempre foi a variação. Federer precisa encaixar muitos primeiros serviços, usar slices e subir à rede, tirando Berdych de sua zona de conforto – até porque é muito difícil passar Federer usando bolas retas, ainda mais se elas chegarem até o tcheco via slice. Se conseguir repetir seu plano de jogo dos últimos triunfos contra o rival, o suíço provavelmente chegará às oitavas. Se insistir em pancadas do fundo, a coisa pode complicar.

Se Federer perder, sairá do top 30 pela primeira vez em mais de 16 anos. A última vez que apareceu na lista da ATP além do 30º posto foi em 23 de outubro de 2000.


Que Federer tenha razão sobre 2017
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Alexandre Cossenza

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“Acho que o começo do ano, especialmente o verão australiano, vai ser épico.” A frase é de Roger Federer, em entrevista ao New York Times. O suíço fazia uma análise do que pode acontecer em seu retorno ao circuito mundial e afirmou que, tendo em vista o momento dos quatro integrantes do Big Four, o mundo pode ver histórias sensacionais no começo de 2017. Não era nem um exercício de futurologia. Federer falou com propriedade, e parece justo dizer que mundo inteiro espera que o ex-número 1 do mundo esteja certíssimo.

Dando um desconto pelo manjado uso do adjetivo “épico” (quem me segue no Twitter sabe que acho extremamente irritante e pobre a banalização de termos como “épico” e “histórico”), Federer foi preciso na análise. São quatro grandes histórias em curso. E não digo “histórias” no sentido de carreiras (embora todos tenham feitos, ahem, “históricos”), mas no aspecto jornalístico da coisa. São relatos incríveis que, contextualizados, ganham ainda mais importância. Vejamos:

Andy Murray

É o número 1 do mundo após um segundo semestre espetacular em 2016. É a primeira vez que o escocês abre uma temporada como o homem a ser perseguido. Há certa pressão nisso, mas também conta a seu favor o número menor de pontos a defender até abril em comparação com Djokovic. Resta saber se Murray encontrou/encontrará um nível de conforto em seu tênis para continuar jogando com essa intensidade e vencendo com essa frequência.

Além disso, tem toda a questão psicológica da coisa. Tem gente que se sente à vontade e mais poderoso ainda como número 1 (vide Federer), mas nem todos lidam tão bem assim com todos alvos do planeta apontados para sua cabeça. Como Murray vai se comportar no topo do ranking? Ser número 1 coloca ou tira peso em suas costas? Tudo é questão de perspectiva, e o mundo só vai saber isso com 100% de certeza quando a temporada de 2017 começar.

Novak Djokovic

O homem que dominou o circuito em 2014 e 2015, colocando-se como favorito de uma maneira inédita (mais cotado a vencer qualquer tenista em qualquer piso) no tênis moderno, perdeu gás após completar o Career Slam em Roland Garros. terminou o ano como número 2, contratando uma espécie de guru (embora ele não goste do termo guru) e encerrando a parceria com Boris Becker, que saiu dizendo que faltou dedicação no segundo semestre. Os motivos para a queda de Nole já foram bem discutidos e debatidos neste blog. Os sinais de esgotamento estavam lá para todo mundo ver.

Mas o que vem por aí agora? Becker fará falta? Com Vajda ainda no time, não me parece que o alemão será um desfalque tão grande assim. De qualquer modo, será que o Djokovic faminto e sufocante voltará a dar as caras em 2017? Ou será que vem um ano mais ou menos por aí? É bem verdade que Nole tem tênis de sobra para continuar brigando por títulos mesmo aquém de seu melhor, mas talvez aquele ingrediente que faltou nos últimos meses de 2016 seja necessário para brigar pelo número 1. Ou não? O ATP de Doha, que começa no dia 2 de janeiro, nos dará os primeiros indícios.

Rafael Nadal

A temporada de 2016 deveria ter sido o ano que mostraria onde está de fato o tênis de Rafael Nadal, mas nem isso deu para ver com tanta clareza assim. Uma lesão no punho tirou o espanhol de Roland Garros, que acabou não jogando Wimbledon e até fez uma bela Olimpíada, mas encerrou a temporada mais cedo. Houve (esperados) títulos no saibro, vide Monte Carlo e Barcelona, mas também houve (inesperadas) derrotas doídas, como em Melbourne e Nova York.

Nadal foi melhor quando jogou seu básico – não tão agressivo quanto em 2015 – mas deu a impressão de que seu tênis, hoje, está em uma posição desagradável. Aos 30 anos, Nadal não tem o físico para jogar as partidas e os pontos longos que destruíam mentalmente seus adversários (inclusive fugiu do calor e da umidade de Buenos Aires e do Rio de Janeiro em 2017), mas também não mostrou uma consistência nem técnica nem mental na agressividade que precisa para vencer jogos mais curtos.

Com a contratação de Carlos Moyá para seu time, Nadal mostra que não está satisfeito e busca um olhar diferente para seu jogo. Não ouso especular sobre o que Moyá vai conseguir fazer pelo compatriota, mas é bem possível que 2017 seja o ano do vai-ou-racha para Nadal. Afinal, não me parece que ele ficará satisfeito se repetir os resultados de 2016. Se isso acontecer, será preciso decidir se vale a pena continuar competindo assim.

Roger Federer

A história mais intrigante de 2017. Pela primeira vez na vida, o suíço fará um “retorno” após longa parada. A cirurgia no joelho, no começo do ano passado, já foi uma novidade estranha para Federer. Ele adiou a volta duas vezes (Indian Wells e Miami), disputou torneios no saibro e evitou Roland Garros. Insistiu, jogou três torneios na grama, mas viu que não dava para continuar.

Após seis meses de pausa, é de se esperar que o veterano de 35 anos esteja em plena forma. Afinal, se alguém pode estar em plena forma aos 35, Federer é o nome. Só que o resultado desses seis meses longe do circuito ainda é uma incógnita. É bem provável que ele apareça na Austrália de cabeça fresca e mais motivado do que nunca, o que será extremamente saudável para seu tênis, mas daí a capitalizar isso em resultados é outra história. Que ninguém ouse duvidar do suíço, mas com tanta gente boa surgindo no circuito e com o esporte cada vez mais veloz, a luta pelo 18º Slam só fica mais complicada.

Coisas que eu acho que acho:

– O Big Four caminha para um Australian Open diferente e intrigante. Do jeito que o ranking se mostra, é bem possível que Nadal e Federer estejam fora do grupo dos 8 cabeças de chave. Ou seja, podem enfrentar Murray e/ou Djokovic logo nas oitavas de final, o que encurtaria alguma(s) das quatro histórias acima.

– Além das quatro histórias citadas por Federer, o que não vai faltar é roteiro interessante no início de 2017. Teremos Nick Kyrgios voltando de suspensão (e já falou que pode ganhar este Australian Open); Dominic Thiem ainda tentando se firmar como tenista-de-torneio-grande; Milos Raonic, o #3, indo atrás do sonhado Slam; Wawrinka sendo Wawrinka (leia-se “podendo ganhar de qualquer um a qualquer hora); e até David Ferrer tentando voltar a um lugar mais digno.

– Faltará, obviamente, Juan Martín del Potro, o grande fator de desequilíbrio de 2016. O argentino, campeão da Copa Davis, já anunciou que não vai jogar o Australian Open por questões físicas. Segundo a imprensa argentina, Delpo quer fazer uma boa pré-temporada antes de voltar com força ao circuito.


NY, dia 14: três wezes Wawrinka, o mistério mais sedutor do tênis
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Alexandre Cossenza

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Num dia, o suíço está quebrando a cabeça e descontando a raiva na raquete enquanto leva uma virada do argentino Federico Delbonis. Duas semanas depois, faz uma das partidas mais memoráveis do ano e bate Novak Djokovic na final de Roland Garros. Num domingo, escapa por um ponto da eliminação diante de um jovem que nem no top 50 está. No outro, faz o número 1 do mundo correr por quatro horas até não conseguir ficar em pé – literalmente – e conquista o US Open. Eis Stan Wawrinka, o mistério mais sedutor do tênis mundial.

O difícil – difícil mesmo – ao ver um jogo do número 1 da Suíça e atual #3 do mundo é não soltar uma expressão de espanto, saudação, admiração e incredulidade – tudo ao mesmo tempo – a cada paralela, de forehand ou backhand, que voa pesada rente à rede, deixa uma marca junto a uma das linhas e morre no fundo da quadra, deixando o adversário frustrado, confuso, meio que desafiando Wawrinka a fazê-lo outra vez, mas ciente de que o suíço é capaz de repetir aquilo nos próximos segundos.

Wawrinka também é o homem que não se importa em estar fora do top 4. Tão consciente que é, sempre é ele mesmo o primeiro a dizer que está longe do grupo de de Djokovic, Murray, Nadal e Federer, não importa o ranking. E não está nem aí para isso. Quando lhe perguntam por que ele tem “só” um título de Masters 1.000, diz que “não sei e só posso dizer que estou feliz com esse troféu hoje.” Pouco importa. Ganhou três Slams, batendo Djokovic – duas vezes – e Nadal nessas finais. E, a cada resposta sobre o assunto, é como se Stan dissesse uma combinação de “e daí se não ganhei mais aqui ou ali?” com “não me encham o saco” da forma mais suíça imaginável.

Wawrinka também é um mistério quando soma 11 vitórias seguidas em finais, algo que Djokovic, por exemplo, não conseguiu. E não seria tão espantoso assim se o consistente sérvio conseguisse. Federer fez isso lá atrás, em 2004-05. Nadal também somou mais de 11 em 2005-06. Mas Wawrinka, um homem que raramente joga bem duas semanas seguidas, vencer 11 finais em sequência? E incluir triunfos sobre Djokovic, Nadal e Federer nessa lista? Vai entender…

“Confiança” e “jogos de cinco sets”, explica Wawrinka como se as 11 finais fossem a estatística mais banal do mundo. O suíço diz que adquire confiança a cada vitória e que jogos mais longos lhe permitem errar mais. “Depois de uns games, começo a acreditar em mim mesmo, começo a entrar no jogo.” Simples, não? Na verdade, não. Nem um pouco. Mas Stan faz tudo soar assim, descomplicado, como se também fossem mundanas a violência e a precisão de seus golpes.

E agora, o que reserva o futuro para Wawrinka? Mais Slams? Uma eventual briga pela liderança do ranking? Ou um título esporádico aqui e outro ali? Pouco importa, acredito eu. E acho que ele mesmo concordaria. Seu poder de sedução está na dúvida. Stan é um homem que num momento segura o troféu como se fosse o melhor presente da vida e, poucos segundos depois, como se estivesse a entornar uma caneca da Oktoberfest.

Seu tênis é aquela colega de faculdade que se mostra disponível num momento e, no dia seguinte, dá a entender que não quer nada. Torcer por Wawrinka, então, é mergulhar de cabeça numa paixão avassaladora sem saber se aquilo vai terminar em relacionamento sério ou num coração em pedaços. Mas quem ousa dizer que todas essas sensações não são gloriosas?

A escolha tática de Djokovic

A questão já foi abordada no post pré-final, mas acho que vale lembrar. Novak Djokovic começou a final de maneira cautelosa, meio que pagando para ver o que Wawrinka tinha na mão. Valeu a pena no primeiro set – como valeu naquela final de Roland Garros – mas quando o suíço achou o tempo e calibrou seus golpes, o cenário mudou. O #1 não achou uma saída, um caminho que lhe desse vantagem consistentemente nas trocas de bola. O plano de jogo que deu certo contra Wawrinka na maioria das vezes falhou neste domingo.

Não me parece tão justo assim criticar a estratégia de Djokovic. Afinal, o sérvio ainda teve muitas chances no segundo e no terceiro sets, quando a partida ainda estava parelha. Foram três break points seguidos não convertidos no quinto game da segunda parcial (0/40), mais três no primeiro game do terceiro set e mais unzinho dois games depois. No fim das contas, a final foi muito mais decidida no velho quesito “chances aproveitadas” do que em planos de jogo.

Mesmo perdendo por 2 sets a 1, Djokovic ainda estaria bastante “dentro” de jogo não fosse pelos problemas nos dedos dos pés, que atrapalharam sua movimentação. Houve polêmica pelo momento em que o atendimento médico foi realizado (após um game par, antes do saque de Wawrinka), mas como o suíço não perdeu o serviço e acabou vencendo o duelo, o assunto perdeu força. Além disso, as imagens da transmissão de TV deixaram claro que o problema de Djokovic era real e bastante sério.

O ponto do jogo

Obrigado à Aliny Calejon por registrar o melhor ponto da partida. Foi, curiosamente, o único ponto vencido por Wawrinka no tie-break do primeiro set.

O top 10

As dez primeiras posições do ranking mundial ficaram assim:

1. Novak Djokovic – 14.040 pontos
2. Andy Murray – 9.485
3. Stan Wawrinka – 6.260
4. Rafael Nadal – 4.940
5. Kei Nishikori – 4.875
6. Milos Raonic – 4.760
7. Roger Federer – 3.745
8. Gael Monfils – 3.545
9. Tomas Berdych – 3.390
10. Dominic Thiem – 3.295

As mudanças mais significativas da lista foram a subida de Nadal do quinto para o quarto posto, o que faz uma diferença enorme no chaveamento de torneios; a ascensão de Monfils, que ganhou quatro postos; e a queda de Federer, que não disputou o US Open e perdeu três posições.


NY, dia 12: por meios incomuns, Djokovic e Wawrinka vão a mais uma final
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Alexandre Cossenza

Do indescritível – ou quase isso – duelo entre Novak Djokovic e Gael Monfils ao impressionante desempenho de Stan Wawrinka diante da fragilidade física de Kei Nishikori, a sexta-feira foi inusitada em Nova York. O dia chega ao fim com sérvio, sempre ele, e suíço classificados para a decisão de domingo. O resumaço de hoje relata as partidas, fala sobre o que esperar da final e ainda cita as duplas mistas e o brasileiro que alcançou a decisão nas duplas masculinas juvenis. É só rolar a página para ficar por dentro.

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Se as semifinais femininas de ontem foram partidas normais, o jogo entre Novak Djokovic e Gael Monfils foi o equivalente a Dorothy caindo na toca do Coelho Branco, tomando a pílula azul, acordando do lado de uma morena perdida, com uma chave azul, um monte de dinheiro na bolsa e um tigre no banheiro. Aí elas entram num Honda, atropelam um negão, brigam com um estuprador com uma espada de samurai, pegam a Chopper do Zed, cruzam um portal e vão parar numa realidade paralela onde a moto virou um cavalo que levava uma carruagem que virou abóbora.

Mas eu divago. Na prática, o que aconteceu foi que Gael Monfils tentou jogar seu normal, viu que não daria certo e começou a se fazer de morto em quadra. O plano era desconcentrar Djokovic, o que até deu certo. O francês saiu de 0/5 para 3/5 e ainda teve mais dois break points no game em que o número 1 fechou a parcial.

O problema é que esse tipo de comportamento/tática/malandragem/catimba (escolha o substantivo que preferir) costuma ter prazo de validade, especialmente contra alguém do nível do sérvio. Djokovic passeou no segundo set e fez 6/2. Foi aí que o público de Nova York mostrou seu descontentamento com a postura “finjo que não tô nem aí” de Monfils e saltou uma sonora vaia.

O francês, então, voltou a jogar seu normal. Saiu de 0/2 para 5/2 no terceiro set, pediu uma Coca-Cola e até foi ao banheiro. Enquanto isso, Djokovic rasgou uma camisa, pediu atendimento no ombro direito e, depois, no ombro esquerdo. Os dois também faziam longas pausas entre os ralis. Segundo Djokovic, culpa da umidade, que causou um desgaste acima do normal, embora esperado.

No quarto set, Monfils não conseguiu bater a consistência de Djokovic. Não que o número 1 estivesse em um dia espetacular, o que seria mesmo difícil diante das circunstâncias. Mas a questão é que, ainda assim, a margem de erro para derrotar Djokovic é mínima. O francês não estava em nível tão alto assim. No fim, o placar mostrou 6/3, 6/2, 3/6 e 6/2.

O clima também afetou a segunda semifinal, assim como as chances aproveitadas por Kei Nishikori quando este ainda estava bem fisicamente. O japonês venceu o primeiro set, abriu a segunda parcial com uma quebra e, mesmo depois de perder o saque, teve seis break points. Não converteu nenhum e pagou o preço quando Stan Wawrinka soltou o braços nos games finais e empatou o jogo.

No terceiro set, com menos de 2h de jogo, Nishikori já dava sinais de cansaço. Sacava mal e acelerava a definição dos pontos, subindo à rede rapidinho. Wawrinka, que tinha uma quebra de vantagem, se desconcentrou com a mudança de postura do rival e perdeu a vantagem que tinha. Até o fechamento do teto ajudou o japonês, mas Wawrinka elevou seu nível a tempo de evitar um desastre. Salvou break point no nono game, quebrou Nishikori no décimo e fechou o set.

Se houve drama no quinto set, foi pela irregularidade de Wawrinka, que abriu 3/0, mas permitiu uma quebra quando tinha o controle do confronto. Ainda assim, o suíço, mais inteiro, foi melhor sempre que necessário. Quebrou o serviço outra vez antes que o japonês empatasse o jogo e levou a vaga na final: 4/6, 7/5, 6/4 e 6/2.

O que esperar?

Palpite para a final? Se é inegável que Djokovic é favorito contra qualquer um, é também fato concreto que Wawrinka é um dos poucos nomes capazes de derrotá-lo em uma final de Slam – vide Roland Garros/2015. O número 1 da Suíça será um teste físico para o número 1 do mundo. Djokovic ainda não precisou defender tanto neste US Open quanto costuma fazer quando enfrenta Wawrinka.

Será interessante ver a resistência do sérvio se o domingo for tão úmido quanto esta sexta-feira. Sem correr tanto, Djokovic saiu bem desgastado do jogo contra Monfils. Como seria diante dos forehands e backhands tão agressivos do suíço?

Minha maior curiosidade é saber se Djokovic apostará mais uma vez em uma postura cautelosa contra Wawrinka. A estratégia deu certo na maioria dos jogos, mas falhou na Austrália em 2014 e em Roland Garros, no ano passado. Em ambas ocasiões, o suíço foi campeão. É uma decisão enorme para Djokovic. Agredir correndo riscos ou esperar pelo nível de Wawrinka? Aguardemos…

Desconhecidos campeões

O roteiro não é tão raro assim, mas continua sendo curioso. Mate Pavic e Laura Siegemund se juntaram por força de ranking perto do fim do prazo para o fim das inscrições e foram juntos até o título de duplas mistas. Na entrevista pós-jogo, Siegemund admitiu que nunca tinha nem ouvido falar no nome de Pavic. Ele, por sua vez, disse que ficou amarrado a ela, já que não havia muitas opções. O título veio com um triunfo na final sobre Rajeev Ram e Coco Vandeweghe: 6/4 e 6/4.

O brasileiro juvenil

Felipe Meligeni Rodrigues Alves, sobrinho de Fernando, o campeão pan-americano de Santo Domingo 2003, está na final de duplas juvenis. Ele e o boliviano Juan Carlos Manuel Aguilar garantiram a vaga ao superarem o time formado pelo belga Zizou Bergs e o israelense Yshai Oliel: 4/6, 7/6(1) e 10/2.

Na final, Felipe e Juan Carlos vão enfrentar os canadenses Felix Auger Aliassime e Benjamin Sigouin, que são os cabeças de chave número 3 do torneio.


Wimbledon, dia 6: o tênis mentiu para o mundo
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Alexandre Cossenza

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Quando começou, na sexta-feira, não parecia grande drama. Novak Djokovic perdeu um tie-break para Sam Querrey. Normal, era só o primeiro set contra um grande sacador. Acontece o tempo inteiro. Certamente, o número 1 do mundo se recuperaria a tempo de despachar sem sustos o azarão.

Veio, então, o segundo set. Nada. Djokovic estava ainda mais estranho do que antes. Querrey, mais solto. 6/1. A zebra se apresentava serelepe, saltitante e em cores vivas. Todas as duas. Faltava um set para o maior tombo do tênis mundial nas últimas 52 semanas. O campeão dos quatro Slams, com 30 triunfos consecutivos nas costas, se mostrava vulnerável depois de muito tempo.

Parecia demais. Houve ajuda. O céu, os céus, São Pedro ou talvez até Rafael Infante vestido de divindade polinésia tenha enviado aquelas gotas de alívio na noite de sexta. Eram 20h em Londres, e a chuva interrompeu a partida. A continuação seria na manhã seguinte. Djokovic teria tempo para apertar reset e chegar renovado na Quadra 1. Querrey teria o travesseiro para conversar sobre a ansiedade e o tamanho do feito ainda incompleto.

Chega a manhã deste sábado. Querrey saca. Djokovic quebra. Querrey saca de novo. Djokovic quebra mais uma vez. Outro dia, outro sérvio, outro americano. Outro jogo. As casas de apostas mudaram suas cotações. No início do quarto set, o americano pagava 4:1. O número 1, apenas 1,25:1. Era questão de tempo. Ou assim se desenhava o cenário para quem conhece a capacidade de Djokovic e se acostumou a vê-lo elevar o nível de jogo com tanta frequência em situações tão delicadas – e por tanto tempo!

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Começa o quarto set. Primeiro game. Três break points salvos por Querrey. Terceiro game. O americano se salva em mais três. Obviamente, ninguém resistiria por muito tempo diante da melhor devolução do planeta, da raquete que é buraco negro e estilingue para os serviços mais potentes da galáxia. Quinto game. Mais dois break points salvos por Querrey. Um roteiro de Christopher Nolan não confundiria mais os espectadores. Mas não duraria muito. Não poderia.

Nono game. Djokovic finalmente quebra o serviço do americano. “Game, set, match, Djokovic”, pensei. Querrey já vinha bobeando e mostrando hesitação nos games de serviço de Djokovic. A partida mudava finalmente de direção. O número 1, senhor do circuito, tinha o controle do duelo. O barulho do público na Quadra Central soava como as 12 badaladas, encerrando o efeito do feitiço e transformando em abóbora a carruagem que levaria Querrey às oitavas.

Mas o tênis mentiu. O jogo que era de Querrey na sexta e passou a ser de Djokovic no sábado escorregou das mãos do número 1. Nole sacou em 5/4 e, no momento que normalmente é seu e só seu, fraquejou. Falhou. Deixou escapar o set. Querrey, com o vento proverbial de volta a seu favor, fez 6/5. O sérvio sacaria pressionado, mas ela, a chuva, voltou. Caiu como uma luva, um dilúvio, um delírio. Alívio imediato.

A partida recomeçou uma hora depois. Djokovic confirmou seu saque sem perder pontos. Querrey abriu o tie-break errando um smash. Mini-break. O número 1 venceu seis pontos seguidos. Era a hora de apertar o nitro e descer a ladeira sem olhar no retrovisor. Nole não conseguiu. Erro atrás de erro, deixou o oponente equilibrar o game de desempate. A cada rali, a insegurança ficava mais óbvia. O ultramegahiperconfiante e imbatível Djokovic, naquele momento, foi mortal. E, com um erro não forçado, humano, mundano, sucumbiu. Game, set, match, Querrey: 7/6(6), 6/1, 3/6 e 7/6(5).

As consequências

Com o naufrágio de Djokovic, vão por água abaixo a chance de fechar o Grand Slam e o Golden Slam. O sérvio ainda irá aos Jogos Olímpicos Rio 2016 com a chance de completar o Career Golden Slam, que Andre Agassi e Rafael Nadal também conseguirem fechar.

Também chega ao fim a sequência de 30 vitórias consecutivas de Djokovic em torneios do Grand Slam. É a terceira maior séria da história, atrás apenas de Don Budge (37, em 1937-38) e Rod Laver (31, em 1962-68 – o australiano se profissionalizou e foi proibido de jogar Slams de 1963 a 1967).

Quem ganha mais com isso (além de Sam Querrey)?

A queda do número 1 é boa para Milos Raonic, que enfrentaria o sérvio nas quartas de final. Roger Federer, que só foi derrotado em Wimbledon por Djokovic nos dois últimos anos, é outro beneficiado. O suíço, a propósito, vai enfrentar nas oitavas o americano Steve Johnson (#29), que freou a ressurreição de Grigor Dimitrov (#37), fazendo 6/7(6), 7/6(3), 6/4 e 6/2 neste sábado.

Andy Murray, vítima do #1 nas finais de Melbourne e Paris, também não deve ter ficado nada, nada chateado. O britânico bateu o australiano John Millman (#67) por 6/3, 7/5 e 6/2, neste sábado, e vai enfrentar o vencedor de Nick Kyrgios x Feliciano López. A partida foi adiada por falta de luz natural após o fim do segundo set. Cada tenista venceu uma parcial.

Nicolas Mahut, adversário de Querrey nas oitavas de final, é outro que se deu bem. O francês, afinal, derrotou o americano nas duas vezes que os dois se enfrentaram, e a última delas foi em ’s-Hertogenbosch, mês passado. Quem aí consegue imaginar Mahut nas quartas contra Raonic? Eu consigo.

O mistério

Uma resposta de Novak Djokovic na coletiva após a partida deixou todo mundo com uma pulga na orelha. Ao ser questionado sobre sua forma física, o número 1 do mundo disse não estar 100%, mas que não era a hora para falar sobre isso. Em seguida, deu mérito a Querrey pela vitória.

Lesão ou não (o bem informado jornalista português Miguel Seabra disse que se comenta sobre um problema no ombro), Djokovic anunciou que não jogará a Copa Davis e, quando lhe perguntaram se disputaria algum torneio antes dos Jogos Olímpicos, afirmou não saber. A reação gerou até uma especulação sobre a possível ausência do sérvio no Rio de Janeiro. Nada além disso por enquanto.

O melhor tweet

Bruno Soares continua sua sequência espetacular de tweets irônicos sobre o Efeito Lendl (#thelendleffect). Hoje, depois de Querrey eliminar Djokovic, escreveu que o americano acidentalmente tomou o café de Ivan Lendl.

O imortal

Lleyton Hewitt aposentou em janeiro e desaponsentou em março para jogar a Copa Davis. Aposentou de novo em seguida e se desaposentou outra vez quando ganhou um convite para jogar a chave de duplas de Wimbledon. E Rusty, o imortal, já fez valer o wild card. Ele e o australiano Jordan Thompson venceram Nicolás Almagro e David Marrero no jogo boyhoodiano do dia: 6/7(6), 6/4 e 19/17.

Vale lembrar que a chave de duplas de Wimbledon foi jogada em sistema melhor de três (com terceiro set longo) em vez do tradicional formato em melhor de cinco por causa dos atrasos provocados pela chuva.

Cabeças que rolaram

Petra Kvitova (#10), bicampeã de Wimbledon, deu adeus em mais uma atuação errática – com a colaboração de uma competente Ekaterina Makarova (#35), é claro. A russa fez 7/5 e 7/6(5) e avançou para enfrentar Barbora Strycova (#26) na terceira rodada. O jogo será disputado neste Middle Sunday, junto com o resto da rodada que está atrasada, e a chave é boa para Makarova, já que a oponente de oitavas sairá do jogo entre Elena Vesnina e Julia Boserup.

Kvitova foi a principal cabeça de chave eliminada no sábado, mas não chega a ser uma surpresa total para uma tenista que não ganha três jogos seguidos desde abril. Além disso, Sabine Lisicki (#81), que não era cabeça de chave mas estava bem cotada em Wimbledon, também se despediu. A alemã tombou diante da cazaque Yasoalava Shvedova (#96) por 7/6(2) e 6/1.

Correndo por fora

Entre os jogos de terceira rodada encerrados neste sábado, houve poucas surpresas. A lista de vencedoras inclui Simona Halep (#5), que bateu Kiki Bertens por 6/4 e 6/3; Madison Keys (#9), que eliminou Alizé Cornet (#61) por 6/4, 5/7 e 6/2; Angelique Kerber, que passou por um tie-break aperado, mas superou a compatriota Karina Witthoeft (#109) por 7/6(11) e 6/1; Agnieszka Radwanska (#3), que passou fácil por Katerina Siniakova com parciais de 6/3 e 6/1; e Dominika Cibulkova (#18), que ampliou sua sequência para oito vitórias na grama ao fazer 6/4 e 6/3 em cima de Eugenie Bouchard (#48).

Entre os homens, vale citar as vitórias de: Milos Raonic (#7) sobre Jack Sock (#26) por 7/6(2), 6/4 e 7/6(1); Kei Nishikori (#6) em cima de Andrey Kuznetsov (#42) por 7/5, 6/3 e 7/5; e Marin Cilic (#13) diante de Lukas Lacko (#123) por 6/3, 6/3 e 6/4.

Correndo por fora e atrasado

Na turma que precisou jogar ainda a segunda rodada neste sábado estavam Sloane Stephens (#22), Timea Bacsinszky (#11) e Alexander Zverev (#28). Os três venceram e voltarão à quadra no domingo para a terceira rodada. Se continuarem vivos, provavelmente voltarão na segunda-feira para as oitavas.

Os adiamentos

Obviamente, Wimbledon não conseguiu completar a terceira rodada masculina neste sábado. Quatro partidas foram suspensas por falta de luz natural. John Isner (#17) vencia Jo-Wilfried Tsonga (#12) por 2 sets a 1, Lucas Pouille (#30) liderava por 2 sets a 1 o jogo contra Juan Martín del Potro (#165); Richard Gasquet (#10) superava Albert Ramos (#36) pelo mesmo placar; e Nick Kyrgios (#18) e Feliciano López (#21) empatavam em 1 set a 1.

Os brasileiros

Na chave de duplas, Marcelo Melo e Ivan Dodig venceram sem problemas e avançaram às oitavas. As vítimas do dia foram Santiago González e Scott Lipsky, e o placar final foi de 6/2 e 6/3. O outro Marcelo, o Demo, foi eliminado também na segunda fase. Ele e o paquistanês Aisam Qureshi foram superados pela dupla de Treat Huey e Max Mirnyi: 6/4, 6/7(7) e 6/3.

Nas duplas mistas, André Sá e a tcheca Barbora Krejcikova estrearam com vitória sobre John Peers e Samantha Stosur por 6/4, 4/6 e 6/4. Demoliner também estraria na modalidade, mas seu jogo foi cancelado. Ele e a americana Nicole Melichar enfrentarão Treat Huey e Alicja Rosolska.


Novak Djokovic, o (generoso) campeão de tudo
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Alexandre Cossenza

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Os quatro últimos grandes torneios de tênis têm um só dono. A frase que abre este post – ou qualquer paráfrase – não era escrita desde 1969, quando o australiano Rod Laver venceu Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e US Open. Hoje, 47 anos depois, Novak Djokovic tornou-se o terceiro homem da história mais do que centenária do tênis a alcançar tal feito.

Foi a garrafa de champanhe mais gelada dos últimos tempos. O título do Slam francês esteve perto nos cinco anos anteriores, mas sempre lhe escapou. De muitas maneiras, Djokovic e sua longa caminhada em Paris foram vítimas de um destino que colocou o sérvio na geração de fenômenos como Roger Federer e Rafael Nadal (e Stan Wawrinka tem sua parcela aqui também).

A lacuna no currículo de Djokovic não podia continuar até o fim da carreira. Não quando o cidadão mostra um domínio raramente (jamais?) visto no tênis. Não quando ele está sempre nas finais. Não, não podia. E não aconteceu. Andy Murray não conseguiu parar o #1 do mundo neste domingo. Quando encontrou seu ritmo, Djokovic disparou rumo à linha de chegada como Usain Bolt batendo no peito e cantando I Shot The Sheriff. O Career Slam está completo e abre caminhos para mais conquistas espetaculares. Feitos que só os gigantes do esporte realizaram.

O generoso coração

Djokovic pediu permissão a Guga e foi atendido. Caso vencesse o torneio pela primeira vez este ano, desenharia na quadra um coração e se deitaria nele, como o brasileiro fez duas vezes em 2001. Aconteceu.

Há quem chame Djokovic de marqueteiro. Prefiro ver o caso deste domingo por outro ângulo. Em um momento tão esperado e que era de sua – e só sua – consagração no tênis, o sérvio optou por lembrar um grande campeão. Não consigo enxergar egoísmo, falsidade ou publicidade nisso. Apenas generosidade.

No vídeo (uma ação da Peugeot) em que pediu permissão ao brasileiro, Djokovic disse que o coração de Guga, desenhado no saibro da Chatrier, foi o momento mais emocionante que viu em um torneio de tênis. De novo: um cidadão que ganhou 12 Slams e tem os quatro maiores títulos ao mesmo tempo tirou um minuto de seu grande momento para lembrar um tricampeão. Acho louvável.

A final

O primeiro set foi tenso para o número 1. Mesmo depois de abrir o jogo com uma quebra, Djokovic parecia ainda sentir a importância do momento. Seu forehand não estava tão seguro, e Murray aproveitou para agredir o segundo serviço. O britânico venceu quatro games seguidos e manteve a dianteira até fazer 6/3. O último game, mais nervoso de todos, incluiu uma chamada polêmica do árbitro de cadeira, uma nervosa reclamação de Djokovic e muitas vaias do público.

A segunda parcial foi totalmente diferente – e deu o tom do resto da partida. Nole quebrou na primeira chance e disparou, fazendo 3/0. Aos poucos, seus erros quase sumiram. Ao mesmo tempo, as falhas de Andy ficaram mais frequentes. A balança começou a pender para o outro lado. E quando a maré fica a favor de Djokovic, todo mundo sabe o que acontece: 6/1.

Vendo que o número 1 já estava em seu nível “normal” – que, para a maioria dos tenistas também leva o nome de “espetacular” – Murray tentou variações. Buscou encurtar pontos, atacar antes e mais cedo. Djokovic teve respostas para tudo. Chegou em curtinhas com contra-ataques espetaculares. Não deu nada de graça no fundo de quadra. Dominou o segundo serviço do escocês. Um beco sem saída.

Murray só achou uma pequena fresta aberta no fim do quarto set, quando Djokovic aparentemente sentiu o momento. Foi quebrado sacando em 5/2 e, depois, com 5/4 a favor, perdeu dois match points e permitiu que o britânico igualasse o game. O jogo ficou emocionante outra vez, mas por pouco tempo. A fresta se fechou, e Djokovic finalmente conquistou o título que faltava: 3/6, 6/1, 6/2 e 6/4.

Os feitos

Novak Djokovic é o terceiro nome da história do tênis a vencer os quatro Slams em sequência, mas não necessariamente no mesmo ano. Antes dele, só Don Budge e Rod Laver. Nem Federer nem Nadal. Budge (1938) e Laver (1962 e 1969) também são os únicos homens a completarem o Grand Slam de fato (todos no mesmo ano) nas simples.

Consequentemente, Djokovic também estende seu recorde de vitórias consecutivas em Slams. São 28 agora, com a última derrota vindo na final de Roland Garros do ano passado. Antes, o sérvio havia somado 27 triunfos seguidos de Wimbledon/2011 até Roland Garros/2012, quando perdeu a decisão para Rafael Nadal.

O sérvio também entra na lista de tenistas que completaram o chamado Career Slam, ou seja, venceram os quatro, mas não necessariamente em sequência nem no mesmo ano. Ele é o oitavo a conseguir o feito. Os outros são Andre Agassi, Don Budge, Roy Emerson, Roger Federer, Rod Laver, Rafael Nadal e Fred Perry.

Djokovic agora também ocupa o alto da lista de campeões que mais demoraram a conquistar Roland Garros. O sérvio vence em sua 12ª participação no torneio. A marca anterior pertencia a quatro nomes. Todos venceram na 11ª tentativa: Andre Agassi, Andres Gomez, Roger Federer e Stan Wawrinka.

A expectativa

Após o título deste domingo, Djokovic tem pela frente expectativas enormes. O sérvio, afinal, é o primeiro tenista a vencer o Australian Open e Roland Garros no mesmo ano desde Jim Courier, em 1992. Logo, o atual número 1 tem a chance de:

– Completar o Grand Slam de fato, vencendo os quatro Slams no mesmo ano. Ninguém faz isso desde Rod Laver, em 1969;
– Completar o Golden Slam, vencendo os quatro e conquistando o ouro olímpico. Nunca aconteceu na história do tênis masculino; e
– Completar o Career Golden Slam, vencendo o torneio olímpico de tênis, mesmo que não consiga triunfar em Wimbledon e no US Open nesta temporada. Até hoje, só Andre Agassi e Rafael Nadal conseguiram.

O reconhecimento

Andy Murray, que fez uma bela partida e tentou até o fim encontrar uma maneira de mudar a balança da partida, foi brilhante na escolha de palavras durante o discurso de vice-campeão. Disse que o feito do sérvio é fenomenal, que vencer os quatro Slams é algo tão raro que vai demorar a acontecer novamente. E terminou dizendo “é chato perder a partida, mas estou orgulhoso de fazer parte do dia de hoje.”

O ranking

Após a final deste domingo, o top 10 masculino ficou assim:

1. Novak Djokovic
2. Andy Murray
3. Roger Federer
4. Rafael Nadal
5. Stan Wawrinka
6. Kei Nishikori
7. Dominic Thiem
8. Tomas Berdych
9. Milos Raonic
10. Richard Gasquet

As mudanças mais relevantes foram a subida de Rafael Nadal para número 4 do mundo, deixando Stan Wawrinka em quinto – o que tem peso considerável na formação das chaves dos próximos torneios, impossibilitando mais um duelo entre Nadal e Djokovic ou Murray antes das semifinais – e a entrada de Dominic Thiem no top 10, na sétima posição, a melhor de sua carreira até agora.

O bolão impromptu do dia

O vencedor de hoje foi o Bruno de Fabris, que errou a duração do jogo por apenas dois minutos. A partida teve 183 minutos.

As campeãs de duplas

Nas duplas femininas, o título é de Kristina Mladenovic e Caroline Garcia, que derrotaram Ekaterina Makarova e Elena Vesnina por 6/3, 2/6 e 6/4. São as primeiras francesas a vencerem nas duplas em Roland Garros desde 1971.

Melhores lances

Uma combinação taticamente perfeita de Andy Murray, embora dificílima de executar: backhand angulado, curtinha na paralela, lob. Lindo de ver.

Obviamente, dar curtinhas contra Djokovic é uma estratégia arriscada. Exemplo 1:

Exemplo 2:

Exemplo 3:

Preciso dizer mais?


O que significou o espetacular Djokovic x Nadal em Roma?
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Alexandre Cossenza

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Foi a melhor partida da semana e, possivelmente, a melhor de 2016 no saibro. Novak Djokovic, vindo de um título em Madri, contra Rafael Nadal, cada vez mais afiado na temporada europeia de saibro. O resultado final – 7/5 e 7/6(4) para o sérvio – pode ser visto de algumas maneiras. Por um lado, apenas estendeu a série de vitórias do número 1 sobre o espanhol. Agora são sete triunfos consecutivos, com 15 sets vencidos e nenhum perdido. Por outro, mostrou um Nadal mais competitivo – foi o mais duro dos sete jogos – e mais perto de seu melhor nível. Como, então, devemos analisar as consequências do duelo de Roma?

Pelo lado de Djokovic, trata-se de mais uma vitória extremamente relevante no circuito. O sérvio, afinal, tinha muito mais a perder no confronto. Um revés poderia (ou não, claro) abalar sua confiança às vésperas do torneio que é o mais importante de seu calendário. Roland Garros é o grande título que lhe falta, então cada pequeno ingrediente dessa receita que leva forma técnica, preparo físico e força mental, entre outros temperos, torna-se realmente importante.

Mas não é só isso. O número 1 do mundo sai de quadra com uma noção melhor de quem é o Nadal de agora. E, como todo bom gato escaldado, Djokovic também sabe que chegar a Paris com vitórias nos Masters 1.000 não significa tanto assim. Em 2014, por exemplo, bateu Nadal em Roma, mas perdeu a final do Slam do saibro para o espanhol. Todo cuidado é pouco.

Nadal era quem realmente tinha a ganhar com a partida e dá até para dizer que, apesar da derrota, o espanhol sai mais forte de Roma. Primeiro porque apesar do ótimo momento no saibro, que começou em Monte Carlo, ainda lhe faltava o maior dos testes. A partida contra Djokovic aconteceu, e o espanhol saiu da quadra sabendo precisamente onde está no circuito e no que ainda precisa evoluir.

Além do mais, Nadal passou tanto tempo sem jogar nesse nível altíssimo de tênis que a falta de vivência recente nesses momentos lhe custou pontos cruciais – como os cinco set points na segunda parcial. Passar por isso em Roma fez bem. Ele mesmo admitiu isso depois do jogo e comemorou o fato de ter feito uma belíssima partida contra Djokovic sem fazer nada “ultraespetacular” (leia aqui).

O que eu acho disso tudo? Djokovic ainda é o claro favorito para Roland Garros, mas neste momento não consigo imaginar Nadal perdendo de nenhum outro tenista em um duelo melhor de cinco sets (deixo para comentar Murray em outro momento). Mais um encontro em Paris seria fantástico em qualquer que seja a fase – até porque o mais memorável dos jogos entre eles lá aconteceu em uma semifinal.

E as cotações?

Nada mudou. Ou melhor, quase nada. Djokovic continua como favorito, e Nadal segue sendo o segundo mais cotado nas casas de apostas. No dia 21 de abril, publiquei aqui no blog que um título do sérvio pagava 1,66/1 na Bet365. Significa que o apostador recebe US$ 1,66 para cada dólar apostado. Enquanto isso, uma conquista de Nadal pagaria 4/1. Hoje, depois da final de Roma, as cotações na mesma casa são, respectivamente, 1,72/1 e 4/1.

Trocando em miúdos, não houve nenhuma alteração relevante. Talvez haja depois da divulgação da chave de Roland Garros, mas aí é outra história. Não caberia uma comparação 100% justa.

No ranking

O resultado do jogo desta sexta-feira também significa que Nadal não será um dos quatro principais cabeças de chave no Slam do saibro, o que pode ocasionar um novo duelo como Djokovic nas quartas. A não ser, é claro, que Roger Federer não melhore da lesão nas costas e decida não jogar em Paris. Neste caso, Wawrinka subiria para cabeça três e Nadal só enfrentaria o número 1 nas semifinais – na pior das hipóteses. Murray será o número 2 independentemente do resto de sua campanha no torneio italiano.

Bônus track

Desenterrado por Rob Koenig, comentarista do TennisTV, o jogaço entre Rafael Nadal e Guillermo Coria que decidiu o título de Roma em 2005. Serve para muita gente comparar com o tênis atual: 1) a velocidade geral do jogo; 2) a velocidade de Nadal; e 3) o estilo que quase sempre predominou no saibro.

É obrigatório para quem acredita que Nadal só sabia se defender quando venceu Roland Garros pela primeira vez.


Derrota de Djokovic levanta dúvidas e faz bem
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Alexandre Cossenza

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Dúvida faz bem no esporte. A linha entre o tesão de ver um atleta espetacular e o tédio de saber o resultado final é nem sempre é fácil de enxergar, mas anda (ou andou?) bem visível no tênis ultimamente. Novak Djokovic ganhou quatro dos últimos cinco Slams, levantou 15 troféus nos últimos 14 meses, disputou 11 finais seguidas em Masters 1.000 e acumulou mais do que o dobro de pontos de Andy Murray, atual vice-líder do ranking mundial.

Logo, quando Jiri Vesely, 22 anos, 55º do mundo, derrubou o número 1 por 6/4, 2/6 e 6/4 na segunda rodada do Masters 1.000 de Monte Carlo, primeiro torneio grande da série de saibro na Europa, é fácil compreender por que muita gente abriu sorrisos pelo mundo. Um pouco porque será um Masters diferente, o primeiro do ano sem o sérvio campeão, mas especialmente porque levanta dúvidas que ficarão no ar por pelo menos duas semanas. E isso, hoje, faz muito bem ao tênis.

A partida foi interessante porque não foi uma atuação pavorosa de Djokovic como naquele primeiro set contra Bjorn Fratangelo em Indian Wells. Okay, não foi a melhor atuação do sérvio em 2016 – longe disso -, mas Vesely teve seus méritos. Primeiro por tentar tomar a iniciativa dos pontos com frequência. Segundo, pela execução do plano de jogo. Terceiro, pelas curtinhas. Não lembro de ter visto alguém usar tantos drop shots e com tanta eficiência diante de Djokovic. Foi, realmente, admirável por parte do jovem tcheco.

O número 1, por sua vez, esteve pouco inspirado. Não foi possível ver um plano de jogo claro em momento algum. Além disso, o sérvio foi passivo na maior parte do tempo. Nem mesmo quando esteve nas cordas, com Vesely sacando para o jogo. Por isso, pagou o preço com sua eliminação.

Depois do jogo, Djokovic disse que treinou bastante, mas que nunca sentiu seu corpo descansado o suficiente. Admitiu que jogou mal, disse que Vesely esteve muito bem em quadra e prometeu “descanso total”. À jornalista Carole Bouchard (a mesma do tuíte abaixo), afirmou ainda estar confiante e disse que “tudo acontece por um motivo”.

Até o Masters 1.000 de Madri, com início marcado para 1º de maio, o mundo seguirá imaginando o que esperar de Djokovic neste tour do saibro. Com duas semanas de intervalo, o número 1 aparecerá na Espanha na melhor forma? E o período de descanso forçado desta semana ajudará lá na frente, em Roland Garros, o único Slam que lhe falta?

E como será que o resto do circuito verá essa derrota em Monte Carlo? Como um sinal de vulnerabilidade ou apenas um caso isolado? E quem aproveitará a brecha no principado para conquistar os mil pontos? Quem ganha mais com isso? Hoje, são dúvidas que fazem muito bem ao tênis.

Coisas que eu acho que acho:

– Sobre o tamanho da vitória de Vesely, vale lembrar que ele quebrou três sequências importantes de Djokovic: 11 Masters 1.000 chegando em finais, 22 vitórias em Masters 1.000, e 14 triunfos no circuito.

– Com a eliminação precoce, Djokovic deixará de ter mais do que o dobro dos pontos de Andy Murray. Coitado, não?


Homens x mulheres: machismo e mercado no tênis
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Alexandre Cossenza

A polêmica do fim de semana foi das grandes. Em uma roda de café da manhã com jornalistas, o CEO de Indian Wells, Raymond Moore, soltou frases nada elogiosas ao circuito feminino de hoje. Em seguida, indagado sobre o assunto, Novak Djokovic reacendeu a sempre debatida questão da igualdade na premiação de homens e mulheres.

O assunto é delicado – como os dois senhores acima deixaram claro – e há questões que precisam ser lembradas para ajudar a contextualizar-sem-defender os dois cavalheiros. Este é um texto opinativo, então peço que leiam até o fim e, depois, comentem à vontade. Vamos, primeiro, às declarações.

“Na minha próxima vida, quando voltar, quero ser alguém na WTA (risos) porque elas pegam carona nos homens. Elas não tomam decisão alguma e são sortudas. Elas têm muita, muita sorte. Se eu fosse uma jogadora, me ajoelharia toda noite e agradeceria a Deus por Roger Federer e Rafael Nadal terem nascido porque eles têm carregado este esporte.”

A frase acima é a primeira frase polêmica de Moore. Ele ainda se atrapalhou ao dizer que a WTA tem “um punhado de promessas atraentes/atrativas que podem assumir o manto (de Serena). Vocês sabem, Muguruza, Genie Bouchard. Eles têm um monte de jogadoras atraentes/atrativas E o padrão do tênis das moças aumentou inacreditavelmente.”

“Attractive”, a palavra original, em inglês, pode significar atrativo ou atraente em português. Para nossa sorte, um jornalista insistiu no assunto e perguntou se Moore estava se referindo aos méritos estéticos ou competitivos das moças. A isto, Moore respondeu que falava de ambos, o que não ajudou exatamente sua causa.

Mais tarde, depois de derrotar um combalido Milos Raonic em uma final sonolenta, Novak Djokovic foi questionado sobre as declarações do CEO de Indian Wells. Sua declarações navegam entre o corajoso, o machista e o impróprio. A íntegra da coletiva está aqui. As partes mais importantes estão abaixo.

“Igualdade de premiação foi o principal assunto no tênis nos últimos sete, oito anos. Passei por esse processo também, então entendo quanta força e energia a WTA e todos que advogam por premiação igual investiram para alcançar isso. Eu as aplaudo por isso. Honestamente. Elas lutaram pelo que merecem e conseguiram. Por outro lado, acho que nosso mundo do tênis masculino, o mundo da ATP, deveria lutar por mais porque as estatísticas mostram que temos mais espectadores nas partidas masculinas. Acho que essa é uma das razões pelas quais deveríamos receber mais. Mas não podemos reclamar porque também temos ótimos prêmios em dinheiro no tênis masculino.”

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Djokovic aparentemente caiu numa contradição ao aplaudir as mulheres e, logo em seguida, dizer que os homens merecem mais. Digo aparentemente porque ele se explica (ou tenta se explicar) na resposta seguinte, quando lhe perguntam se a premiação não deveria ser igual.

“Minha resposta não é ‘sim e não’. É ‘mulheres devem lutar pelo que acham que merecem e nós devemos lutar pelo que acreditamos que merecemos.’ Acho que enquanto for assim e houver dados e estatísticas disponíveis sobre quem atrai mais atenção, espectadores, quem vende mais ingressos e coisas assim, é preciso que seja distribuído justamente com base nisso.”

E, logo na sequência, o número 1 do mundo responde com “absolutamente”, que mulheres deveriam ganhar mais do que homens se as estatísticas mostrarem que elas atraem mais atenção (e dinheiro, claro) do que homens. Depois disso, Nole ainda se atrapalha ao tentar mostrar respeito pelas mulheres, dizendo que “seus corpos são muito diferentes” e “elas precisam passar por muitas coisas diferentes que nós (homens) não precisamos. Vocês sabem, hormônios e coisas diferentes, não precisamos entrar em detalhes.”

Mulheres não decidem

Moore acabou pedindo demissão na segunda-feira, pouco mais de 24 horas depois de suas declarações atabalhoadas. No comunicado oficial divulgado pelo torneio, Larry Ellison, dono do evento, citou Billie Jean King e sua “campanha histórica” pela igualdade no tênis. “O que se seguiu foi um movimento progressivo, de várias gerações e em andamento para tratar mulheres e homens igualmente no esporte.” O bilionário também lembrou que Indian Wells paga o mesmo a homens e mulheres há uma década. A íntegra do comunicado está aqui.

A saída de Moore parece uma resolução adequada para um caso embaraçoso e que poderia, quem sabe, provocar um boicote feminino ao torneio em 2017. Um torneio desse porte, que já ficou tanto tempo sem as irmãs Williams, e que inclusive cogita estar em um patamar ainda maior, não se pode dar ao luxo de permitir outro cenário que prejudique sua imagem.

Dito tudo isto, há dois pontos que ajudam a entender – pelo menos parcialmente – a origem da queixa de alguns homens por prêmios maiores. O primeiro: a última grande negociação por aumento de premiação nos Slams foi liderada pelos integrantes da ATP (com direito a ameaça de boicote). O segundo: tenistas e dirigentes ouviram de executivos dos Slams que seria possível até aumentar a premiação um pouco mais (do que já foi elevado), só que os torneios se viam de mãos atadas porque precisavam igualar as quantias pagas às mulheres.

Resumindo: parte da ATP guarda essa, digamos, mágoa de não ver sua premiação tão alta por causa do circuito feminino. Essa explicação, afinal, foi dada pelos próprios torneios. Não, não justifica o comportamento de Moore, que foi preconceituoso e atabalhoado tanto no que disse quando na maneira como se colocou. No entanto, tendo em vista essa recente negociação, ele não está totalmente equivocado quando diz que as mulheres não decidem.

O mercado livre de Djokovic

Antes de mais nada, é preciso esclarecer um ponto que foi meio distorcido por aí sobre o que declarou o número 1 do mundo. Djokovic não disse pura e simplesmente que “homens devem ganhar mais do que mulheres”. Para o sérvio, não é uma questão de sexo, mas uma relação de mercado, de oferta e demanda. Ele diz se basear em números que provam que o circuito masculino hoje é mais atrativo e, consequentemente, faz mais dinheiro circular. Mas também afirma que se os números fossem inversos, as mulheres deveriam receber mais.

É um mar perigoso para Djokovic navegar e é preciso admirar, nem que por um breve instante, sua coragem de tirar o iate milionário do cais de Monte Carlo e encarar essas ondas traiçoeiras. Gosto da tese do sérvio – enquanto tese. Quem tem mais procura deve cobrar mais. Usando um exemplo assexuado, quem deve cobrar mais pelos direitos de transmissão: a Champions League ou a Libertadores? A melhor competição, com mais mercado, deve cobrar mais. Simples assim.

O comunicado oficial da ATP sobre a polêmica (vide tuíte acima) deixa claro que a entidade adota a mesma linha de pensamento do sérvio. Por isso, ressalta que “operamos no negócio de esporte e entretenimento” e que “respeita o direito dos torneios de tomarem suas próprias decisões em relação à premiação em dinheiro para o tênis feminino, que é um circuito separado.”

Digo dois parágrafos acima que gosto da ideia de mercado livre “enquanto tese” porque essa teoria não funciona na prática quando comparamos gêneros diferentes na mesma modalidade. Nossa sociedade, de modo geral, não consegue fazer isso. A maioria, infelizmente, ainda vê o esporte masculino como superior, mais desenvolvido, mais atrativo.

Há aspectos históricos e culturais que contribuem para isso. Muito dessa visão centralizada no esporte masculino vem de preconceitos que se arrastam desde um passado ainda mais machista, de quando reinavam noções de que tal esporte não é para moças de bem, que mulher não sabe dirigir, que tal atividade física é exigente demais para a biologia do corpo feminino e outros velhos “argumentos”.

Experimente, caro leitor, dizer a um amigo que você prefere curling feminino ao masculino.Depois volte aqui na caixinha de comentários e diga quanto tempo levou para ouvir uma piada sobre vassoura. São preconceitos como esses que fazem com que modalidades como futebol, automobilismo e basquete, tão populares entre os homens, sejam pouco procuradas, por exemplo, no Brasil. E não só isso. Esse machismo histórico também afasta investimentos. Homens, aliás, são maioria entre executivos responsáveis por direcionar verbas de patrocínio.

A teoria de Djokovic, se aplicada com 100% de justiça e eficácia, seria o reflexo de um planeta perfeito, de uma sociedade sem preconceitos. Mas alguém aí imagina isso acontecendo no mundo de hoje? Eu, não.

Slams: ingressos x premiação

O número 1 do mundo diz ter visto estatísticas. Não é difícil imaginar, de fato, que a ATP de Roger Federer e Rafael Nadal seja mais valiosa do que a WTA de hoje, mesmo com Serena Williams e Maria Sharapova sempre ocupando manchetes. Suíço e espanhol deram uma visibilidade monstruosa ao tênis masculino, conquistando e mantendo legiões de fanáticos. Sempre atuando em níveis absurdos, quebrando todos tipos de recordes.

Em sua coletiva após a final contra Azarenka (íntegra aqui), Serena lembrou que os ingressos para a final feminina do US Open do ano passado esgotaram antes dos bilhetes para a decisão masculina. Não me convence como argumento, embora a número 1 tenha razão ao recordar o legado de Billie Jean King e do efeito negativo que os comentários de Moore podem ter sobre mulheres atletas em todo mundo.

A questão dos ingressos do US Open ressalta o potencial das mulheres, mas o problema de citar uma única final (que, ainda por cima, teve a característica excepcional da possibilidade de uma tenista da casa completar o Grand Slam de fato) é se sujeitar ao contra-argumento de que, talvez, nos últimos cinco anos, as outras 19 finais masculinas esgotaram antes e tinham entradas mais caras.

Dito isto, há outra questão que pesa um bocado contra os homens nos Slams. Com exceção das finais, os ingressos são vendidos com antecedência e sem garantia de programação. Quem compra pode ver homens e mulheres de forma (quase sempre) igual. Além disso, há uma série de variáveis que afetam a quantidade de espectadores em uma determinada partida. Uma delas é o horário, algo estipulado pela organização do torneio. É quase impossível medir a diferença de interesse baseado nisso.

Portanto, é difícil imaginar os Slams dando esse passo para trás e diferenciando as premiações de homens e mulheres. É de se considerar também, obviamente, a questão do “politicamente correto” e da imagem que os eventos querem passar. Parece muito mais plausível, então, que os homens incomodados com a premiação atual questionem a ATP e os valores pagos em seus próprios Masters 1.000 ou ATPs 500. Mas será que os promotores têm “caixa” para bancar tudo que os astros do tênis acreditam merecer? Será que o circuito se sustentaria? Será?


AO, dia 14: Djokovic, maior de todos e maior do que nunca
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Alexandre Cossenza

O cidadão termina uma temporada memorável, com 26 vitórias e três títulos em Slams, uma conquista no ATP Finals e uma liderança oceanopacífica no ranking mundial. Obviamente, é impossível repetir as atuações de 2015. Impossível jogar dois anos naquele nível, certo? Não para Novak Djokovic. Neste domingo, o sérvio não só repetiu a conquista do Australian Open (é seu sexto título em Melbourne) como completou duas semanas espetaculares. Nole venceu partidas com 100 erros e duelos sem erros. E mostrou que é possível ampliar seu domínio no circuito.

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A final

Andy Murray bem que ofereceu alguma resistência depois de sofrer um sonoro 6/1 no primeiro set. O britânico tentou ser mais agressivo, tentou dar curtinhas, tirou todos instrumentos de sua mala. Nada funcionou. Djokovic, como sempre, teve resposta para tudo. Mesmo quando o número 2 do mundo conseguia equilibrar as ações, ficava a impressão de que Nole tinha algo na reserva, de que seria possível deslanchar com a partida a qualquer momento. O líder do ranking nem chegou a disparar na frente, mas foi muito superior no tie-break do terceiro set, que poderia dar um novo ânimo a Murray. No fim, o placar mostrou 6/1, 7/5 e 7/6(3).

A campanha

Da estreia contra o garotão Hyeon Chung até a semifinal contra Roger Federer, Djokovic foi incrivelmente superior a todos. Essa lista inclui Gilles Simon, que levou o sérvio a cinco sets. Foi um dia atípico do número 1, que somou 100 erros não forçados. Ainda assim, é preciso, como escrevi naquele dia, contextualizar a estatística. Em cinco sets e diante de um adversário que devolve quase tudo, 20 erros por set não parece um número tão absurdo assim. Tanto que, no que poderia ser um nervoso quinto set, Djokovic nunca esteve perto de ser eliminado.

O triunfo sobre Federer, especialmente, foi simbólico. Quando venceu Doha atropelando Rafael Nadal, houve quem dissesse que o momento ruim de Nadal pesou muito aquele dia. O suíço, diferentemente, vem jogando o que ele mesmo já classificou como o melhor tênis de sua carreira. O placar, no entanto, mostrava 6/1 e 6/2 após menos de uma hora de jogo. Coincidência ou não, os mesmos números da final no Catar. Federer teve mais tempo e reagiu em um descuido do sérvio, mas a margem a favor de Djokovic era muito grande. O líder do ranking acabou levando a melhor em quatro sets: 6/1, 6/2, 3/6 e 6/3.

O domínio

Em dois torneios disputados, Djokovic agora soma 12 vitórias e nenhuma derrota em 2016. Mais do que isso: atropelou os números 2 e 3 do ranking – e isso numa época em que os números 2 e 3 são Murray e Federer! Nole também bateu com folga os números 5, 6 e 7. Agora, tem 7.845 pontos de vantagem sobre Murray, o vice-líder do ranking. E se tivesse descontados todos seus pontos nos Slams, Djokovic ainda seria o número 1.

A consciência

Na entrevista coletiva, Djokovic disse que segue tentando melhorar tecnicamente, taticamente e mentalmente. “Não estou aqui porque joguei o mesmo tênis do ano passado. Acho que estou jogando melhor.”

O sérvio também citou uma metáfora que ouviu na véspera da decisão. Segundo ele, o lobo que sobe a montanha tem mais fome do que o lobo que já está no topo. “Não posso me permitir relaxar e curtir. Quer dizer, eu posso. É claro que quero curtir – e vou – mas não vai durar mais do que alguns dias. Depois disso, já estou pensando sobre como continuar jogando bem pelo resto da temporada.”

Quando indagado se o lobo está com muita fome por Paris, Nole deu uma resposta ótima: “Muito faminto. Mas o lobo precisa comer refeições diferentes para chegar a Paris. Paris é uma sobremesa.”

O ponto do dia

Não que sirva de consolo para Andy Murray a essa altura, mas o Australian Open escolheu esse ponto vencido pelo escocês como o melhor do domingo.

O melhor recado

Andy Murray, prestes a ter seu primeiro filho, encerrou o discurso com um agradecimento especial à esposa, Kim. “Você foi uma lenda nas últimas duas semanas, muito obrigado pelo apoio, e vou estar no próximo voo para casa.” O discurso inteiro está aqui. Djokovic também fez um discurso bonito e desejou a Murray as mesmas sensações bonitas de quando ele, Nole, teve um filho.

O respeito

Após receber um enorme elogio de Billie Jean King, o número 1 do mundo respondeu à altura da grande tenista americana. “Nós, gerações mais jovens, nos apoiamos nos ombros de gigantes (vocês). Obrigado por suas palavras gentis.”

O bom samaritano

Depois do título, Djokovic doou 20 mil dólares australianos a um programa de aprendizado no início da infância para jovens carentes promovido pela Melbourne City Mission. Leia mais aqui (em inglês).

Os fanáticos

Eles podem não ser mais numerosos que os fãs de Roger Federer e Rafael Nadal, mas devem ser os mais apaixonados. Certamente, são os mais barulhentos após as conquistas. Melbourne sabe bem como a coisa acontece.

Aguardado por dezenas de fãs durante a turnê de entrevistas pós-final, Djokovic atirou de presente um par de tênis. Um pé para cada lado.

Uma das raquetes de Nole também ficou com uma fanática.

Aviso: este post foi publicado à 1h de quarta-feira, dia 3 de fevereiro de 2016. Alterei a data do post para que ele apareça em ordem cronológica na página principal do blog.


Sobre Roger Federer, consistência, preparo físico e o “Dilema Djokovic”
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Alexandre Cossenza

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É quase um roteiro de videogame dos meus tempos de infância. O herói completa uma missão atrás da outra, rolando desimpedido ou saltando cogumelos, até que chega o chefão e esmagava a raposa, o porco-espinho ou o simpático encanador italiano. Tudo é fácil demais por um tempo, e o mocinho se enche de confiança só para sofrer um tombo retumbante a poucos metros da princesa aprisionada.

Não foi muito diferente a vida de Roger Federer nos últimos três torneios do Grand Slam. Boas campanhas preparatórias, vitórias empolgantes nas rodadas iniciais e derrotas doídas diante de Novak Djokovic nas finais de Wimbledon e do US Open e, agora, nas semifinais em Melbourne. E a pergunta que surge é a de sempre: “o suíço vai voltar a vencer um Slam?”

Bom, a resposta é bem mais complexa do que “sim” ou “não”, e parece – pelo menos por enquanto – passar necessariamente por uma vitória sobre Djokovic em melhor de cinco sets. Negrito e sublinhado em “melhor de cinco”, por favor, já que o histórico recente mostra uma certa disparidade. As últimas três vitórias de Federer sobre o sérvio aconteceram em melhor de três (Dubai, Cincinnati e ATP Finals), enquanto Nole levou a melhor nos últimos quatro duelos em Slams.

Entre fãs, analistas e críticos, há basicamente duas teorias. Uma culpa a idade do suíço; a outra, o nível de tênis. A primeira parece ser a preferida entre a maioria dos admiradores do ex-número 1 do mundo. A segunda, obviamente, agrada mais aos fãs de Novak Djokovic. Mas o que Federer acha disso? Um ótimo primeiro passo para entender o “Dilema Djokovic” é contextualizar e entender as declarações do suíço após a derrota desta quinta-feira, no Australian Open.

A frase mais interessante da última coletiva veio em resposta a uma pergunta justamente sobre a possibilidade de voltar a derrotar Djokovic em um Slam. O jornalista queria saber o que dava a Federer a confiança de que ele, aos 34 anos de idade, ainda seria capaz disso.

“Bem, ainda tenho autoconfiança também. Isso não vai embora rápido. Sei que não é fácil. Nunca achei que seria fácil. Mas não sei. Melhor de três, melhor de cinco, consigo correr por quatro ou cinco horas, não é problema. Provo isso no treino, na pré-temporada, sem problema. Então, desse ponto de vista, não me preocupo de entrar em ralis longos. Sei que vocês acham outra coisa. Entendo porque vocês pensam que estou velho e tudo mais. Mas não é problema para mim. Isso não me assusta quando vou para uma partida importante contra qualquer jogador que esteja no seu auge hoje em dia.”

A resposta é um pouco mais longa que isso (está na marca de 3’30” do vídeo acima), mas a essência é essa. Federer acredita que não faz diferença se o jogo é de três ou cinco sets. Aí é preciso levar em conta o fator de “sensação”. Nem tudo que o suíço diz pode ser considerado verdade absoluta. Não que ele minta deliberadamente, mas cabe questionar se Federer tem mesmo razão sobre seu condicionamento físico ou se simplesmente ainda não percebeu que seu corpo não mantém o rendimento ao longo de uma partida mais demorada. Neste caso, seria apenas uma “sensação” de capacidade.

Tendo a concordar com o ex-número 1 e me baseio em alguns indícios para tomar o lado de Federer nesse debate. O primeiro indicativo que gosto de ver é seu estado físico ao fim das partidas, e o suíço não parecia cansado nem em Wimbledon nem no US Open – partidas que terminaram em quatro sets. Definitivamente, não foi o caso em Melbourne, onde Djokovic venceu duas parciais em menos de uma hora. Não foi o caso nem no quinto set de Wimbledon/2014.

Além disso, Federer, privilegiado que é, faz pouca força para jogar e, com seu estilo agressivo, raramente vai ficar cinco horas em quadra, mesmo que precise jogar cinco sets. Então a hipótese de derrotas em Slams por causa de condicionamento físico não me convence. Alguém pode até afirmar que o suíço perdeu velocidade e que é mais lento em quadra hoje em dia, mas é um argumento difícil de se fazer comparando imagens de hoje com as de 2006, dez anos atrás. É mais fácil alegar que o tênis ficou mais rápido do que provar que Federer perdeu arranque. Mas eu divago. Essa é outra discussão, que não envolve o “Dilema Djokovic” (até porque o sérvio está no circuito desde bem antes de 2006).

Ainda seguindo essa linha de raciocínio, parece conveniente lembrar – por mais de um motivo – de uma declaração de Federer logo após a final do US Open. Djokovic venceu aquele jogo por 6/4, 5/7, 6/4 e 6/4, em 3h20min.

“Especialmente em partidas melhor de cinco sets, as que passam de 2h30min, 3h30min, você passa por altos e baixos naturalmente. Não dá para jogar dois pontos perfeitos toda hora. Naturalmente, você precisa batalhar. É aí que você aprende muito sobre o seu jogo, sua atitude, seu físico. Esta foi, acredito, a partida mais longa que fiz o ano inteiro. Foi muito interessante ver como eu lidei com isso.” … “Sim, estou feliz de ter conseguido ficar com um grande nível de jogo por um logo período de tempo porque estou com muito tempo de quadra e trabalhei muito duro na pré-temporada também.”

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Há dois pontos interessantes a “ler” no que Federer disse. O primeiro, obviamente, é sua satisfação com o condicionamento físico, que já vinha desde o ano passado. Se depois de uma derrota em uma partida de mais três horas, o suíço disse ter saído “inteiro” de quadra, acho que não há motivo para duvidar.

O outro ponto é a questão dos altos e baixos naturais que Federer cita. A meu ver, essa é a grande diferença entre ele e Djokovic nos jogos em melhor de cinco (em comparação com melhor de três). Hoje, o sérvio é um tenista que oscila muito menos do que o suíço, assim como Nadal fazia em seus melhores dias. Federer, lembremos, tem algumas vitórias sobre o espanhol no saibro, mas nenhuma em melhor de cinco sets – nem aquela de Roma, com match points e tudo mais.

Do mesmo modo, o Djokovic de hoje é quase imbatível nos Slams por isso. Em um dia ruim, este número 1 do mundo pode perder dois sets de Gilles Simon e ainda escapar triunfante e sorridente, fazendo piada de si mesmo na entrevista pós-jogo. Também pode cair de intensidade – como caiu – e deixar Federer crescer do outro lado da quadra, mas sempre lhe resta margem para se recuperar e voltar a tomar o controle das ações. Essa dinâmica, aliás, aconteceu nos últimos quatro confrontos em Slams – todos vencidos pelo sérvio.

Assim, os números, o histórico e as próprias declarações de Roger Federer parecem apontar que seu “Dilema Djokovic” particular é muito mais uma questão de consistência para derrubar a fortaleza de obstáculos do rival do que de condicionamento físico. E “consistência”, caro leitor, não se reduz a limitar o número de erros não forçados. É não fugir do plano tático. É manter o índice de primeiro serviço lá no alto. É aproveitar os segundos saques do adversário. É manter a concentração durante longos trechos. É saber escolher, do começo ao fim do jogo, o golpe ideal para cada ocasião.

Dito isto, quantas pessoas notaram que a quebra derradeira da semifinal aconteceu com Federer perdendo todos os quatro pontos do game junto à rede (vídeo abaixo)? Ainda que consiga fazer seu corpo trabalhar na mesma intensidade ao longo de quatro horas, manter o nível de excelência por tanto tempo contra o tenista mais completo da atualidade ainda parece um desafio grande demais – inclusive para o grande Roger Federer.

Coisas que eu acho que acho:

– Federer, obviamente, não é o único que sofre com Djokovic. O que motiva este post, no entanto, é o contraste entre a facilidade com que o suíço se mantém jogando em altíssimo nível e navegando tranquilo pelas chaves dos Slams e a enorme dificuldade que encontra com o atual número 1.

– Para o resto do circuito, Djokovic soa mais como enigma do que como dilema.

– O colega jornalista Bruno Bonsanti, em microconversa num microblog da vida, estabeleceu uma relação interessante entre Federer-Djokovic e o “enigma de Kasparov”, relatado no primeiro capítulo do livro “Guardiola Confidencial”. É uma teoria interessante. Leiam o texto neste link do Blog do Juca e entendam.


Manifestações do “efeito Djokovic”
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Alexandre Cossenza

Três títulos e um vice nos quatro Slams, seis troféus e dois vices em oito Masters 1.000 disputados, 82 vitórias e apenas seis derrotas, mais de US$ 21 milhões em prêmios. Neste domingo, Novak Djokovic completou uma das temporadas mais espetaculares da história do tênis. E fechou o ano com uma vitória por 6/3 e 6/4 sobre Roger Federer, deixando evidentes todos os muitos detalhes que fizeram dele não só o atual líder disparado do ranking, mas um tenista muito superior ao resto do circuito mundial em 2015.

De tudo que já escrevi e analisei em posts anteriores sobre os méritos de Djokovic, resta pouco a acrescentar. O circuito inteiro sabe das qualidades e dos pontos fortes do atual número 1. A questão é que ninguém consegue encontrar respostas para derrotá-lo consistentemente. Federer, que entre todos é o tenista com mais recursos, foi brilhante nas três vitórias que obteve (Dubai, Cincinnati e primeira fase do Finals), mas sucumbiu nos duelos mais importantes (Wimbledon, US Open e a decisão do Finals). Com todas as cartas na mesa, Djokovic ainda sobra.

A superioridade do sérvio se reflete no ranking. Ele lidera com 16.585 pontos, deixando muito atrás Andy Murray (8.670) e o próprio Federer (8.340). É interessante também notar o quanto Djokovic afetou seus rivais mais frequentes em 2015. A final deste domingo foi um ótimo exemplo. Muito se comentou, por exemplo, na transmissão do SporTV sobre os erros não forçados do suíço. Foram 31 ao todo. Ora, será que não seria o caso de avaliar o mérito de Djokovic nisso?

Como o #1 conseguiu executar bolas tão profundas com tanta consistência, Federer mal podia avançar e agredir. Subir à rede era arriscado demais (as duas passadas seguidas na primeira quebra de saque são testemunha disso), e tentar ralis do fundo de quadra tampouco soava como boa opção para o suíço. Logo, Federer tentava sempre bolas mais fundas, slices mais rasantes, golpes mais agressivos. Muitas dessas tentativas resultaram em erros não forçados. Outras falhas, que aconteceram em golpes não tão agressivos, eram decorrentes da insistência de Federer em não recuar. Nole também tem culpa nesse cartório. Trocando em miúdos, são manifestações do que chamo de “efeito Djokovic”.

Roger Federer termina o ano como #3 do mundo, atrás de Murray, mas dono de belíssimas campanhas. Fez um Wimbledon irretocável até a final e também alcançou a final em Nova York. Além disso, experimentou um novo tipo de devolução, quase de bate-pronto, que surpreendeu adversários e deixou especialistas boquiabertos. Se o 18º Slam não veio, repito, culpem o sérvio.

O “efeito Djokovic” também se manifestou repetidamente em Andy Murray. O britânico fez possivelmente a temporada mais consistente da carreira, com ótimos resultados inclusive no saibro – algo que lhe faltava. E seu 2015 não acabou, é bom que se diga. O escocês ainda vai brigar pelo título da Copa Davis no fim de semana, em Ghent, na Bélgica (se o confronto ocorrer, já que as questões de segurança na Bélgica não são as mais favoráveis).

Tendo em conta que Murray fechou 2014 ainda sem mostrar o velho tênis pré-cirurgia nas costas (ele operou em setembro de 2013), 2015 foi um grande ano que começou com uma ótima campanha na Austrália e teve grandes momentos como o título em Madri (final no saibro e na Espanha contra Rafael Nadal), o troféu em Queen’s e a conquista em Montreal, além, claro, das atuações na Copa Davis (seis jogos e seis vitórias em simples – todos “live rubbers”).

Se o escocês não fez mais na temporada, foi por causa do “efeito Djokovic”. O sérvio lhe impôs derrotas em Miami, Indian Wells, Xangai e Paris, sem contar os Slams. Em Melbourne, Murray parecia o melhor tenista em quadra no início do terceiro set, mas perdeu-se mentalmente na partida e viu o rival disparar no placar. Em Roland Garros, outro jogaço. Nole abriu dois sets de frente, mas o britânico lutou e forçou o quinto, mas – de novo – sem sucesso.

No balanço, é injusto condenar Murray por ter feito o mesmo que a maioria do circuito: sucumbir diante de Djokovic. Ao todo, o britânico deixou de ganhar 2.760 diretamente por causas derrotas diante do #1 (a conta nem leva em consideração os ganhos em potencial em rodadas seguintes). Uma ou duas vitórias a mais contra Nole teriam deixado o escocês (que só venceu em Montreal) com folga na vice-liderança do ranking. Algo que certamente teria lhe colocado menos vezes diante do sérvio. Se serve de consolo, Andy abre 2016 como #2 do mundo e só encontrará Djokovic se os dois forem outra vez à final em Melbourne.

Stan Wawrinka talvez seja o protagonista do momento mais impactante da temporada. Quando Novak Djokovic apresentava-se como favoritíssimo para fechar seu Career Slam e conquistar Roland Garros, o suíço fez uma partida inesquecível (tão memorável quanto sua escolha de shorts para aquele torneio) e derrubou o número 1 do mundo. Era impossível prever na época, mas foi a única derrota de Djokovic em todos os quatro Slams em 2016.

Não que tenha sido o único momento de brilho de Wawrinka na temporada. Stan ainda foi campeão em Roterdã e Tóquio. Entretanto, após as fantásticas duas semanas de Roland Garros, houve uma sensação de que o suíço poderia ter feito mais – como quase sempre acontece quando se fala de alguém com tanto potencial – e até, quem sabe, brigado pela vice-liderança do ranking no fim do ano.

No fim das contas, Wawrinka encerra a temporada na mesma posição que começou (em 2014, também conquistou um Slam) e sem responder de forma definitiva a questão que todos faziam no fim do ano passado: “Será que Stan consegue jogar seu tênis espetacular com mais frequência e brigar por posições mais altas no ranking?” Ou será que a resposta é “sim” e teremos todos que nos contentar de vez em ver seu melhor tênis em flashes (espetaculares) de brilho?

Rafael Nadal encerrou um turbulento 2015 de forma digna. Mais interessado do que nunca na temporada indoor de quadras duras, o espanhol fez uma longa série de torneios (Pequim, Xangai, Basileia, Paris e Londres) após o US Open e, inegavelmente, evoluiu em sua nova proposta de jogo. As boas vitórias sobre Wawrinka, Murray e Ferrer no ATP Finals comprovaram isso.

A distância para Djokovic, no entanto, não parece menor. No sábado, nas semifinais, o #1 foi superior desde o começo. Nadal até fez uma boa apresentação, mas raramente conseguiu sair da defesa (não que não tentasse) e fez pouquíssimo nos games de saque do sérvio. Sua posição de devolução, agora mais próxima da linha de base, embora lhe permita ser mais agressivo, reduz o tempo de reação. E o ex-número 1 quase nunca conseguiu atacar logo em seu primeiro golpe. O resultado disso foi um Djokovic confortável o bastante para ser até um pouco mais agressivo nos games de devolução.

No balanço, foi uma temporada muito abaixo da média para Nadal, que, ainda assim, fecha 2015 como número 5 do mundo. O copo-meio-cheio da coisa toda é que seu tênis evoluiu nitidamente desde o começo do ano e lhe rendeu bons resultados em circunstâncias que não são as mais favoráveis (quadras duras, rápidas e cobertas). Os fãs podem levar algum otimismo para o começo de 2016.

Tomas Berdych foi, mais uma vez, consistente em sua inconsistência. Dono de um tênis com potencial para ir mais longe do que normalmente vai em torneios grandes, o tcheco teve como melhores resultados em 2015 os títulos de Shenzhen e Estocolmo (ambos 250).

É bom que se diga, contudo, a primeira metade do ano foi admirável para Berdych. Ainda que não tenha levantado troféus, só foi derrotado por gente do nível de Ferrer (Doha), Murray (Melbourne e Miami), Wawrinka (Roterdã), Djokovic (Dubai e Monte Carlo), Federer (IW e Roma), Nadal (Madri) e Tsonga (Roland Garros). Ou seja, a crítica ao tcheco segue a mesma: faltam as vitórias “grandes”.

Terminar o ano em sexto não é novidade para Berdych. O mesmo aconteceu em 2010 e 2012. Em 2011, 2013 e 2014, ele fechou a temporada em sétimo. Ou seja, já são seis temporadas ininterruptas no top 10, mas a pergunta para 2016, assim como no caso de Wawrinka, segue a mesma: “Berdych vai, enfim, ganhar um Slam e dar um salto no ranking?” A resposta, no momento, não parece tão otimista. Com Djokovic imbatível, Federer inesgotável e Nadal e Murray incansáveis, o cenário não é nem um pouco mais favorável ao tcheco do que em outros momentos.

David Ferrer, #7, termina sua sexta temporada seguida (e sétima ao todo) no top 10, o que é fenomenal para um atleta de 33 anos que claramente não tem potência de golpes para derrotar com consistência gente como Djokovic, Federer e Nadal. O espanhol, contudo, compensa com consistência, obediência tática, concentração e preparo físico.

Não por acaso, Ferrer chegou a Londres dizendo que chegar às semifinais seria uma vitória e tanto. Não deu. Despediu-se com três derrotas, mas fez uma bela apresentação contra Nadal. Seu 2015 foi mais do mesmo – o que não pode ser uma crítica. Foi campeão em Doha e Kuala Lumpur (250); no Rio, em Acapulco e em Viena (500). E poderia muito bem ter chegado ao fim do ano com um ranking melhor se não fossem problemas físicos. Ferrer, lembremos, não jogou de junho a agosto. Ficou fora de Wimbledon e disputou o US Open sem a devida preparação.

Vale destacar as duas estatísticas acima, postadas pelo guru dos números da ATP, Greg Sharko. No ano inteiro, Ferrer perdeu apenas uma partida depois de vencer o primeiro set (43v e 1d). Além disso, perdeu apenas dois sets decisivos (15v e 2d).

Número 5 do mundo no fim de 2014, Kei Nishikori encerra 2015 em oitavo, o que tem mais a ver com a final do US Open de 2014 do que com o resto dos resultados do japonês. Entre problemas físicos (abandonou Halle, Wimbledon e Paris e não jogou em Cincinnati nem na Basileia por lesão) e um tênis em momentos inconstante, Nishikori mostrou o potencial de seu jogo aqui e ali.

Foi campeão em Memphis (250); e Barcelona e Washington (500). Além disso, fazia um excelente Roland Garros até viver um dia abaixo da crítica diante de Tsonga e da torcida francesa. Levando tudo em consideração, foi uma bela temporada, mas que acaba com a sensação de que Nishikori podia (e, talvez, devia fazer) mais.

Coisas que eu acho que acho:

– Fico com duas perguntas sobre Djokovic para 2016. 1) É mais fácil o sérvio cair de nível ou algum de seus adversários alcançá-lo no patamar jogado em 2015? 2) O que acontecerá quando Djokovic sofrer duas derrotas e começarem as perguntas e comentários do tipo “ele não é o mesmo”?

– Sobre a primeira questão, acho muito, muito mais fácil Djokovic fazer uma temporada abaixo desta animalesca de 2015. Aliás, seria loucura alguém esperar algo semelhante de quem quer que seja, em qualquer esporte.

– Sobre a segunda pergunta, imagino que Djokovic seja experiente e inteligente o bastante para não criar para si mesmo a expectativa de repetir 2015. Acho que o sérvio tem consciência do que faz e, consequentemente, saberá conviver com algumas derrotas a mais. No entanto, são só minhas opiniões. Vai ser divertido acompanhar o desenrolar disso tudo em 2016.


O everéstico Djokovic que tira a emoção das finais
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Alexandre Cossenza

Novak Djokovic vem me tirando a vontade de ver finais. Sim, sei que ao escrever isso, alguns de vocês, leitores, vão desenhar e colar rótulos com dizeres do tipo “AntiNole” e “DjokoHater”. Alguns outros nem devem ter passado do título deste post. Paciência. Também sei que muitos vão ler e tentar entender o sentimento descrito nas próximas linhas. Dito isto, vamos ao texto.

O último jogo realmente empolgante com Djokovic em quadra este ano foi a final do US Open. E, convenhamos, nem foi tão equilibrado assim. Roger Federer teve seus momentos e suas chances, mas o sérvio venceu em quatro sets. Desde lá, zero emoção. Dez sets jogados, dez sets vencidos em Pequim. Mais 10/10 em Xangai. Agora, 10/11 em Paris – e o único set perdido, que aconteceu na semifinal diante de Wawrinka, foi seguido por um pneu. Sim, 6/0 no terceiro set.

Ah, a partida contra Berdych teve emoção, alguém vai lembrar. É verdade. Mas também é verdade que Djokovic fez uma atuação bem abaixo da sua média e derrotou um top 5 em dois sets. Em Pequim, Nadal, venceu apenas quatro games. Murray fez como o alpinista que fracassa ao subir o Everest pela face sul e decide tentar pelo norte, onde houve muito mais mortes. O escocês vinha de uma dura derrota em Xangai e, neste domingo, em Paris, tentou atacar mais do que o habitual, mas fracassou igualmente.

Dá pra ver aonde quero chegar? Em nenhum desses jogos, tive a sensação – nem antes nem durante – de que Djokovic poderia perder. Aliás, a última vez que o #1 esteve perto de sofrer um revés num jogo realmente grande (leia-se “Slam”) foi contra Kevin Anderson, em Wimbledon. Mais de quatro meses atrás. Minha expectativa de ver grandes jogos envolvendo o #1, portanto, desapareceu.

Esse, pelo menos para mim, sempre foi o grande barato do esporte. Assistir a grandes jogos, partidas equilibradas entre dois caras de alto nível. Duelos decididos por um game, uma bola que pega no fim da linha ou aquele corajoso/insano ace de segundo saque no 5/6 do último set. Nada disso acontece com esse Djokovic everéstico de hoje.

Coisas que eu acho que acho:

– Ressalva número 1: citar “grandes jogos envolvendo o #1” é bem diferente de “grandes jogos do #1”. Estes últimos, obviamente, vêm acontecendo com frequência. Além disso, o nível de Djokovic faz com que as vitórias tranquilas se empilhem até mesmo quando suas atuações não são tão brilhantes.

– Ressalva número 2: se Federer faz o difícil parecer fácil com golpes incríveis e um estilo suave de jogar, Djokovic transforma o fácil em quase impossível para seus adversários. O sérvio, assim como Nadal, não tem os movimentos baryshnikovescos do suíço, mas tem o tênis mais completo de que já se teve notícia. Nenhum saque consegue dominá-lo, nenhuma devolução consegue intimidá-lo, nenhuma curtinha é curtinha o suficiente para derrotá-lo… A lista é longa, mas resume-se em: hoje, o #1 tem resposta para tudo contra todos.

– Ressalva número 3: Djokovic ainda é uma figura carismática que dança com fãs, leva na esportiva quando alguém o imita e mostra bom humor durante a maior parte do tempo. Trata-se de um ótimo número 1 para a imagem do tênis.

O próximo número 1?

Djokovic disparou na ponta do ranking (são 15.285 pontos, contra 8.470 de Andy Murray e 7.340 de Roger Federer) e vai continuar lá até que alguém se mostre capaz de desafiá-lo consistentemente, o que nem parece tão provável assim de acontecer nos próximos anos. Federer, que fez uma excelente temporada em 2015, não somou nem a metade de pontos do sérvio. Murray e Wawrinka são brilhantes nos dias bons, mas seus dias ruins são mais frequentes do que o desejado. Nadal, que acaba de voltar ao top 5, ainda tenta encontrar uma maneira de voltar a ser competitivo diante deste grupo.

A não ser que Nole sofra uma lesão, perca a motivação e/ou sofra uma queda brusca de rendimento, seu reinado promete ser (muito mais) longo. Acho, inclusive, que deveria valer um prêmio milionário adivinhar, hoje, quando acontecerá e quem será o responsável por tirar Djokovic da montanha mais alta do planeta. Até lá, as finais – todas elas – correm o risco de serem tão entediantes quanto a deste domingo. Alguém aí arrisca um palpite?


Talento não falta…
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Alexandre Cossenza

O francês Benoit Paire pode não ser o mais consistente ou o mais dedicado dos tenistas, mas é inegável que o atual número 42 do mundo tem talento de sobra com a raquete. Isso ficou um tanto óbvio nesta quarta-feira, quando Paire precisou enfrentar Novak Djokovic no Masters 1.000 de Cincinnati. Vale conferir a sequência do vídeo abaixo!

Vale ressaltar o respeito do francês pelo número 1 do mundo. Depois de bater a bola por baixo das pernas, sorriu e pediu desculpas. Djokovic levou na esportiva. O sérvio, aliás, venceu por 7/5 e 6/2 para avançar às oitavas de final.


Wimbledon, dia 13: Djokovic derruba Federer e come grama outra vez
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Alexandre Cossenza

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Durante duas semanas, Roger Federer roubou os holofotes. Mostrou, página por página, o livrinho de golpes. Ganhou pontos espetaculares. Executou lances improváveis. Sacou como nunca, venceu como sempre. E, quando derrubou Andy Murray em uma atuação memorável nas semifinais, lembrou o planeta (como se alguém tivesse esquecido) por que venceu Wimbledon sete vezes.

Djokovic, por sua vez, foi competentíssimo nos últimos 15 dias, mas só foi o foco das atenções quando passou perigo diante de Kevin Anderson, nas oitavas de final. Na semi, jogou para o gasto. Parecia que o atual campeão de Wimbledon teria sérios problemas para manter seu reinado no All England Club.

Neste domingo, Djokovic teve, sim, sérios problemas contra o suíço. Precisou salvar set points antes de fechar uma parcial. Perdeu sete set points antes de perder outra parcial. No fim, contudo, o número 1 teve mais de onde tirar. Venceu o xadrez tático e, quando conseguiu anular o serviço do adversário, navegou até seu terceiro título de Wimbledon: 7/6(1), 6/7(10), 6/4 e 6/3.

O set quase perfeito

Um início nervoso, mas com poucos erros. A partida começou com nível altíssimo e poucas chances para os devolvedores. Federer conseguiu uma quebra no sexto game, no primeiro break point que conseguiu, mas Djokovic deu o troco imediatamente depois. O suíço ainda conseguiu dois set points no 12º game, mas o #1 se salvou com dois ótimos saques abertos. No tie-break, Djokovic foi perfeito. Iniciou o game com uma passada espetacular quase por fora da rede, abriu 4/1 vencendo um rali duríssimo de 22 golpes e fechou em 7/1.

Os sete set points

A segunda parcial foi igualmente parelha, mas com papéis invertidos. Desta vez, foi o suíço que salvou set point antes do game de desempate. Nole novamente fez um game de desempate impecável e chegou a abrir 6/3. Teve, inclusive, o set point no 6/5, em seu serviço, mas não aproveitou. Federer salvou um set point atrás do outro e até evitou mais um no serviço do adversário. Djokovic cometeu sua única falha grave no 10/10, jogando um forehand afobado na rede. O suíço, então, subiu à rede no 11/10 e empatou o jogo depois de salvar sete set points.

As cenas no intervalo deixam bastante claro que o número 1 do mundo tinha plena consciência das chances desperdiçadas e de quanto o jogo se complicaria.

A chuva que não mudou nada

A Quadra Central, que fez um barulho absurdo durante os 15 minutos do tie-break e festejou muito a parcial vencida por Federer (sim, a maioria torcia pelo suíço), ainda se recuperava dos momentos de tensão quando aconteceram os lances mais importantes do terceiro set. Primeiro, quando o #2 brilhou ao sair de um 15/40 no game inicial. Depois, com o sérvio salvando um break point. Por fim, com Federer cometendo seu erro mais bobo logo em um lance tão importante. Ao jogar para longe uma direita fácil, alta e perto da rede, o suíço perdeu o saque no terceiro game e viu o atual campeão abrir vantagem.

Os primeiros pingos – bem finos – apareceram no meio do quarto game. Não demorou para que a partida fosse interrompida. Como a previsão era de chuva passageira, a organização preferiu não fechar o teto retrátil, o que faz sentido. As regras dizem que o jogo deve seguir com teto fechado até o fim, e o ideal é sempre manter as características originais de jogo. Afinal de contas, Wimbledon, como os outros três torneios do Grand Slam, é um torneio outdoor.

A interrupção durou cerca de 15 minutos, e nada mudou quando os tenistas voltaram. Djokovic só perdeu dois pontos no serviço até o fim do set a aproveitou a vantagem. O #1 fez 6/4 e voltou a abrir vantagem.

As devoluções massacrantes

Quando o quarto set começou, Djokovic estava em um nível acima do de Federer. O suíço tentou um pouco de tudo, mas não encontrou uma tendência que lhe favorecesse consistentemente. Fugir do backhand e atacar o direita de Djokovic permitia o sérvio contra-atacar e pegar Federer na corrida o tempo quase inteiro. Atacar de dentro para fora dava ao número 1 a opção da paralela de backhand. Com Nole afundando a bola o tempo inteiro, subir à rede era arriscado demais.

Durante o torneio inteiro, se nada funcionasse, Federer tinha a eficiência do saque para manter-se no jogo. Só que contra Djokovic nem isso dava ao suíço uma zona de conforto. As devoluções do número 1 estavam calibradíssimas, tanto quando buscavam a linha de base quanto com o suíço subindo à rede.

E não era Federer sacando mal. O suíço foi quebrado quando tinha cerca de 80% de aproveitamento de primeiros serviços. No fim, buscou mais aces – consequentemente errando mais – e, ainda assim, terminou o último set com respeitáveis 67%. A diferença estava nas devoluções de Djokovic, que destruíram a principal arma do adversário no torneio. O match point é o melhor exemplo.

This is the moment Novak Djokovic became a three-time #Wimbledon champion.

Posted by Wimbledon on Sunday, July 12, 2015

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O bom perdedor

Um dos melhores momentos do dia foi ver Roger Federer na Quadra Central, após o fim da partida, dando todos os méritos do mundo a Djokovic. “Novak jogou um grande tênis não só hoje, mas nas duas semanas inteiras, em todo o ano, mais o ano passado, mais o ano anterior, então ele merece. Parabéns, Novak.”

O comedor de grama

Djokovic fez pela primeira vez em 2011, quando levantou o troféu pela primeira vez em Londres. Desde então, vem repetindo a cena. Não podia ser diferente neste domingo. Depois de fechar o jogo, o sérvio se agachou e provou um pedacinho minúsculo do piso da Quadra Central. Na entrevista, ainda brincou e disse que a grama tinha ótimo gosto.

A transmissão

Ao fim do torneio, faz-se necessário um elogio à transmissão da ESPN, que sublicenciou os direitos de transmissão do SporTV e acabou mostrando muito mais quadras e jogos do que o canal concorrente. Fez um negócio da China. Não acertou em tudo, é verdade. Volta e meia, um comentarista despreparado compromete a transmissão. Um exemplo: Osvaldo Maraucci, que passou a maior parte do tempo na ESPN+, comentou a final de duplas sem saber identificar Rojer e Tecau. Passou mais de um set chamando um pelo nome do outro.

Felizmente, os Fernandos (Nardini e Meligeni) dão conta do recado na ESPN, que mostrou os jogos mais relevantes. O mais importante de tudo, entretanto, foi constatar que o canal fez esforço para disponibilizar um grande número de jogos e passar muita informação – junto com o programa diário Pelas Quadras, à noite.

O golpe de misericórdia foi o encerramento da transmissão. Enquanto o SporTV já havia encerrado seus trabalhos, a ESPN seguiu no ar, mostrando Novak Djokovic dentro do All England Club, recebendo os parabéns dos convidados especiais, dando autógrafos e acenando para os fãs.

A câmera que acompanhava o sérvio pelos corredores mostrou ainda um longo abraço do campeão e sua esposa, Jelena. Enquanto isso, Roger Federer passava de cara fechada ao lado do casal. Um momento impagável.

O top 10

O ranking fica assim após o encerramento de Wimbledon:

1. Novak Djokovic: 13.845
2. Roger Federer: 9.665
3. Andy Murray: 7.810
4. Stan Wawrinka: 5.790
5. Kei Nishikori: 5.525
6. Tomas Berdych: 5.140
7. David Ferrer: 4.445
8. Milos Raonic: 3.810
9. Marin Cilic: 3.540
10. Rafael Nadal: 3.000