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Saque e Voleio

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Fernando Romboli: as dificuldades e o malabarismo financeiro para jogar duplas no nível Challenger

Alexandre Cossenza

11/10/2018 05h00

O circuito de duplas ainda é recheado de preconceitos. Há quem diga que é uma modalidade para simplistas frustrados e há quem simplesmente não veja graça no jogo. Só que também há muitos que não conhecem as minúcias e os desafios do circuito, especialmente no nível Challenger. Os torneios e as viagens são os mesmos, mas as chaves são menores, e o prêmio em dinheiro é minúsculo. Patrocínios são raridade.

Para piorar, o salto dos Challengers para os ATPs é mais duro do que nas simples. Para entrar no primeiro escalão do circuito, é preciso fazer mais pontos (muito mais!) e ter um ranking melhor (muito melhor!) do que nas simples. Para abordar o tema com propriedade, conversei com Fernando Romboli, que desde o fim de 2017 decidiu se dedicar só às duplas.

O atual #106 do mundo vem batalhando e se aproximando aos poucos do top 100, mas para se tornar "jogador de ATP" precisa estar perto do 60º posto no ranking. Na entrevista feita em Campinas (cobri o Challenger local a convite do Instituto Sports), o carioca criado em Santos (SP) explicou as minúcias do circuito de duplas no nível Challenger e contou alguns dos "truques" financeiros necessários para fazer a conta fechar no fim do ano. Não é nada, nada fácil. Quer saber mais? É só rolar a página.

Para começar, faz um balanço da semana aqui em Campinas… Fez final, ganhou 48 pontos, US$ 900 em prêmios. Satisfeito?

Já entra um pouco no que você estava comentando da matemática [falamos um pouco sobre o tema antes de começar a entrevista]. No meu ranking, infelizmente jogar Challenger é praticamente ser campeão ou nada. Obviamente, é uma boa semana. A gente não soma quase nada fazendo uma final, mas também quando caem os pontos a gente não cai de ranking. Dá na mesma. Em termos técnicos, gostei bastante. Achei que evoluí. Estava há um bom tempo na Europa, voltei para casa, treinei uma semana, e, nessa semana, acho que consegui evoluir em pontos que consegui colocar aqui. Tecnicamente, foi bem positiva para mim a semana.

Seu ranking está perto de 100…

Tá. Mais ou menos 106, agora, com essa final.

E aí é que está a diferença. Um simplista #100 tem 590 pontos. O duplista, para chegar aí, precisa de 800.

Exato.

E não é só isso. Para você começar a entrar nos ATP, 100 não te dá garantia nenhuma de entrar, né?

Não. Se você for uns 80… Você pode entrar sendo 100, mas naquelas exceções. Alguém esqueceu de se inscrever, alguém se machucou, enfim… Só nessas exceções. Para você ser um cara que tem chances reais de entrar, tem que ser 80. E não vou dizer que você vai entrar em todos. Mas para ser jogador de ATP, 60. Aí você pode dizer que é um jogador de ATP.

E 800 pontos são dez títulos de Challenger (de US$ 50 mil)!

Exato. Esse é o negócio, entendeu? É muito ponto. Como eu te falei, eu fiquei na Europa jogando quatro meses e meio. São 18 semanas. Eu joguei 17. Só uma semana eu não joguei. Para quê? Para fazer ponto. Você precisa de ponto. E, infelizmente, o que aconteceu comigo foi: eu tenho cinco finais no ano e ganhei uma só. E é muita diferença [o campeão ganha 80 pontos, enquanto o vice coma 48]. Se eu tivesse ganhado pelo menos duas dessas finais, eu já estaria 95… No longo prazo, você faz a diferença. Que nem cara que se mete [nos ATPs] jogando Challenger tem pelo menos oito títulos, e aí ele vai fazendo um resultado ou outro. Aí ele vai chegar a 80, depois de um ano, e tem as chances dele ali de entrar nos ATPs e tem que ganhar jogo. Não é ganhar um jogo também. Ganhar um jogo só é o mesmo que fazer uma final de Challenger. Tem que ganhar pelo menos dois, como se tivesse feito um título [de Challenger]. E aí, se for campeão, 250 pontos, você começa a poder andar.

Você conseguiu jogar o ATP 250 de Los Cabos com o Fabricio Neis. O que aconteceu que a chave fechou assim?

Isso foi uma exceção. Los Cabos é um ATP meio longe, meio perdido, vamos dizer assim, e com esse negócio de se inscrever online, meio que os simplistas não estão muito ligados. Mas, lógico, foi um absurdo. Na verdade, o que aconteceu foi a inscrição online é para dez duplas. E depois mais quatro entram on-site. Essas dez duplas entram umas três semanas antes. Nessa, nem se inscreveram dez duplas. Só nove. Qualquer um que tivesse inscrito naquela data teria entrado. Como se inscreveram só nove, o on-site tem cinco vagas em vez de quatro. Então foi isso que aconteceu.

Foi o primeiro ano que você montou um calendário só para duplas?

Está sendo, sim. Na verdade, eu comecei a meio que… Na gira sul-americana do ano passado, eu comecei a colocar isso na minha cabeça. Eu estava #220 sem jogar duplas [permanentemente]. Então eu tinha decidido que poderia ser uma boa ideia nessa época. Meu ranking de simples já tinha caído bastante, estava 600-700. Falei "vou jogar esses Challengers a full nas duplas. Se perder, vou para os qualis [de simples]." Foi o que eu fiz. Eu defendi ali os pontos, na verdade. Até fiz um pouco mais, soei e acabei fechando entre os 200 de dupla. treinei para jogar simples e aí, primeiro torneio do ano, em Morelos, no México, perdi na primeira rodada do quali e fui campeão de dupla. Fui para 170. E aí começou esse negócio da mudança de ranking [a ITF anunciou o tour/ranking de transição, que começará em 2019]. Eu falei "quer saber? Não vou voltar a jogar Future. Vou jogar os Challengers, se entrar nos qualis, ótimo." Mas o que aocnteceu? Meu ranking estava 600. Não estava tão ruim, mas logo que veio essa notícia, a galera… Todo mundo foi jogar quali de Challenger, então eu nem entrei quase. Entrei em pouquíssimos e comecei a treinar duplas. É outro ritmo de jogo. E foi indo.

Lembro que quando a gente se encontrou no Rio [novembro de 2017], você me disse algo do tipo "já está difícil jogar simples".

Exato. Exato. E ali eu tinha acabado… Eu tinha decidido jogar duplas fazia um mês e meio, dois. Foi aquela gira da América do Sul.

O leitor João Neto, que me sugeriu fazer essa entrevista com você, também perguntou sobre a possibilidade de uma parceria com o Neis. Você já tinha me dito que era por causa do lado, né?

É mais por uma questão tática. A gente joga do mesmo lado [iguais], mas de repente poderia se repensar um pouco. Um poderia tentar se adaptar. Eu gostaria de também aprender…

(interrompendo) Quem jogou no lado da vantagem em Los Cabos?

Eu. Falei "você fica aí do seu lado, faz as bolas aí e depois não me cobra." (risos) Pressão é nele. "Você que está do seu lado, você que faça as bolas!" Mas seria, de repente, uma boa, sim. De repente, se eu conseguir me encontrar um pouco daquele lado, sem dúvida. Um brasileiro, ranking parecido [Neis é #110, Romboli é #106]… Quando a gente jogou, a gente ganhou dois jogos (um no ATP de Bastad, outro no ATP de Los Cabos). Era primeiro jogo de ATP meu [Bastad]. Ele já jogou alguns. A gente conseguiu se virar. Imagina, de repente, treinar para aquilo… É uma possibilidade, sem dúvida.

E o lado financeiro da coisa? Num Challenger, o campeão de simples leva US$ 7 mil. A dupla campeã leva US$ 3 mil.

Fica US$ 1.300 para cada um.

Quer dizer…

É, não bate a conta (risos).

Como é que você faz para viajar o ano inteiro?

Se for só o que ganha, não dá. O que a gente ganha, por exemplo, é em Interclubes. Eu joguei Interclubes na Europa. Aí é o que você consegue recuperar. E também é diferente… Por isso que fiquei quatro meses e meio direto na Europa. O custo é diferente lá.

Você vinha na van comentando hoje. De um torneio para o outro…

São 50 euros! Aqui você gasta 600! A gira sul-americana é muito difícil para duplista. Lá [Europa], não. Eu faço final, ganhei 800 euros, ok? Eu vou para outro torneio, gastei 50. Se eu gastei nesse 200? Até sobra lá se você jogar perto, entendeu? Hospedagem, dão. Lógico, a gente faz uns esforços. Eu pego e divido quarto com meu parceiro porque aí a gente junta as noites e, mesmo que perder, o torneio continua pagando [a hospedagem]. vários fazem isso. Porque é 50 euros ali, mais 50 euros ali… É muito. Se você toma primeira rodada num Challenger, é piada. A gente ganha US$ 150. É muito pouco, então você realmente tem que enxugar ao máximo. Tudo bem , fez uma semana boa, ganhou US$ 1.200. Está em casa, não gastou nada. Mas vai ter semana que você vai tomar um ferro. Que nem esse torneio em Morelos. Eu tive que comprar a passagem para Punta [del Este, no Uruguai, torneio disputado na semana seguinte]. Fui campeão, ganhei US$ 1.300. Tive que gastar US$ 900 na passagem. A conta é essa. Em Challenger, você consegue, lógico, se tiver um ranking legal, 120-130, você consegue não perder dinheiro. Se você fizer direitinho as coisas, né? Não dá para ficar gastando, enfim.

Era o que eu queria saber. Se dá pra pagar tudo ou se precisa de dinheiro emprestado, de família, pro-am, dar aula, encordoar raquete…

Dá, dá. Eu mesmo encordoo minha raquete (risos). Essas coisas pequenas, que as pessoas nem tem noção, fazem muita diferença. Imagina se eu encordoasse cinco, seis raquetes [com o encordoador do torneio]. São 80-90 euros. Tudo bem, eu fiz final. Mas se eu faço uma semi, meu prize money já cai para 400 euros. Ou seja, 25% do prize money em raquete? Tem alimentação, sabe? Aqui, nos torneios do Danilo [Marcelino, diretor do Challenger de Campinas], o Danilo sempre dá alimentação. Isso faz muita diferença para nós. Lá na Europa, alguns torneios também. A ATP dá uma ajuda de 200 euros a partir do 11º torneio até o 20º. São 2 mil euros por ano.

Legal.

Para o duplista? Você toma primeira, ganha US$ 150. A ajuda de custo da ATP é maior do que o seu prize money. Então faz muita diferença.

Eu não sabia que isso existia. Desde quando?

Tem. Desde ano passado, com certeza. Ano retrasado, não tenho certeza. É a comida, pelo menos, sabe? São 200 euros, é até mais.

Então… Eu… e imagino que outros também… Eu entro no seu Instagram, vejo fotos lindas na Itália e penso "que maravilha a vida do Romboli"…

Vidão, né? (riso irônico)

Mas, na real, então, você gasta pouco…

Sim, gasto pouquíssimo. Gasto pouco! Hoje em dia, com a internet, tem muita possibilidade. Você aluga carro baratíssimo, você paga passagem barata… Você tem que se virar.

Quantos torneios você jogou na Itália este ano?

Uns oito desses 17 na Europa.

Porque isso também ajuda. Tem a arte do calendário, né?

Claro. O verão europeu é muito bom. Você pode ir para lá, ficar e tchau. Não precisa voltar. Tem uns torneios mais longe e tal, mas não compensa tanto.

Patrocinador, você tem?

Nenhum.

A marca de roupa é…

É a Bones, é uma marca brasileira, de Santos. É bonita, eu gosto também.

E raquete?

Raquete eu compro.

Ou seja, se quebrar, você paga.

Faz tempo que eu não quebro uma raquete (risos).

Daqui até o fim do ano, você joga mais o quê?

Jogo Santo Domingo [esta semana], tem uma semana livre, e mais quatro seguidos. Lima, Guayaquil, Montevidéu e Buenos Aires.

É a parte mais cara do seu calendário?

Sem dúvida. Disparado!

O que você faz na semana livre depois de Santo Domingo? É mais barato ir para Lima e treinar lá ou voltar para o Brasil?

Vou voltar para casa. Eu compro ida-e-volta São Paulo-Santo Domingo, volto para casa, e vou para Lima. Sai mais barato voltar. Se for [de Santo Domingo direto] para Lima, tem que pagar hospedagem, alimentação. Voltando, você não gasta. E o voo é muito mais barato ida-e-volta. Se eu fosse comprar para Lima, já não seria ida-e-volta. Não sairia tão barato. Sai praticamente a mesma coisa de voo.

Para entrar no Australian Open, de que ranking você precisa?

Oitenta.

Dá?

Dá. Tem que ganhar três [torneios]. Tem cinco. É isso. Um, se eu ganhar, vou defender. Vou manter meu ranking. Se eu ganhar mais dois, eu somo aí… Vou somar uns 120 na real. Acho que nem dá isso.

E ainda tem que arrumar um parceiro…

Lógico. Oitenta com chance real. Se eu tiver um cara que for 40 e quiser me ajudar, eu entro (risos), mas a gente não tem, né? Os argentinos têm. Tem muito simplista lá. Isso que faz a diferença muitas vezes. Não precisa estar 80. Se ele está 90, consegue um parceiro lá para botar ele. Também tem esse lado.

Não querendo te desvalorizar, mas a vida jogando duplas é uma vida mais tranquila, não?

Sem dúvida, é muito menos estresse. Nas simples, eu também estava saturado já. É outro ritmo, mentalmente. Porque treinar… Hoje, eu treino muito mais porque é uma coisa nova para mim. Simples eu treinei a vida inteira. Na dupla, eu estou correndo atrás porque nunca treinei. Horas na quadra eu tenho passado bastante. Mais até do que quando eu jogava simples. Mas o estresse mental é outro.

O que você treina mais hoje?

Muita coisa específica. Rede, devolução, saque… Saque e devolução bastante. Quando você está jogando simples, você quase não treina devolver saque ali na frente. O problema é que na dupla, são poucas jogadas que acontecem nos momentos importantes, então você tem que estar muito preparado para aquilo. Você treina muito e, de repente, vai receber aquela jogada uma vez na semana. Mas aquela jogada é um ponto decisivo. Na dupla, os pontos são muito curtos. Que nem… Se tivesse pego aquele ponto [Romboli e seu parceiro em Campinas, Franco Agamenone, tiveram set point no primeiro set da final], era 6/4, outro jogo.

Na pior das hipóteses, um match tie-break.

Exato, e match tie-break, você vai dizer que tem favorito? Não tem. Hoje, a dupla é muito apertada, então você tem que se preparar ao máximo para o máximo de situações que podem acontecer e que, às vezes, acontecem uma ou duas [em uma partida].

— fim —

Considerações finais:

– O papo com Romboli encerra a série de entrevistas que fiz em Campinas. Num torneio bacana e com acesso mais fácil aos jogadores, publiquei, ao longo das últimas duas semanas, entrevistas com Thomaz Bellucci, Marcelo Zormann, Feijão, Pablo Cuevas, Rogerinho, Thiago Wild, Thiago Monteiro, Felipe Meligeni, Leo Azevedo e Fernando Romboli.

– Fiz quase todas entrevistas que tentei. A triste exceção ficou por conta de um atleta que marcou local e horário, mas não apareceu. Soube, mais tarde, que ele "precisou" fazer algo de última hora. Não avisou, não pediu desculpas e não sugeriu fazer em outro horário. Achei melhor não insistir.

– Agradeço, mais uma vez, ao Instituto Sports, pelo convite para acompanhar o Challenger de Campinas pelo segundo ano seguido. Já enfatizei isso antes, mas repito aqui: em momento algum, alguém do IS me pediu ou exigiu tal pauta. Tampouco pediram que eu deixasse de publicar algo. Fui muitíssimo bem tratado por todos, como sempre. Estaremos juntos de novo nos Futures de Curitiba e Ribeirão Preto, ainda este ano.

– Como em quase todos torneios, vi muito tênis, conheci e conversei com pessoas interessantes (leitores do blog inclusive!). Toda viagem assim é bacana e faz valer a pena manter um blog de nicho há 11 anos.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.