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Saque e Voleio

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Felipe Meligeni: o celular confiscado e a evolução de quem reaprendeu a andar - literalmente - na Espanha

Alexandre Cossenza

09/10/2018 05h00

Felipe Meligeni foi uma das grandes apostas da Confederação Brasileira de Tênis (CBT) quando a entidade estabeleceu uma parceria com a BTT, academia espanhola onde trabalha o conceituado treinador Leo Azevedo. Ele e Orlando Luz estão morando na região de Barcelona desde o começo do ano, e o trabalho vem dando resultados. Ambos venceram Futures em 2018, subiram no ranking e mostraram evolução técnica.

No caso de Felipe, a evolução foi enorme. Técnica, mental e física. O tenista que venceu uma partida no Challenger de Campinas e fez jogo duro com o veteraníssimo Carlos Berlocq era uma versão muito superior do atleta que saiu do país no começo do ano. Após sua participação no torneio (que cobri a convite do Instituto Sports), conversamos e falamos sobre seu crescimento como tenista.

Atual número 615 do mundo – seu melhor ranking na carreira – e com 20 anos, o sobrinho de Fernando Meligeni falou de como precisou reaprender a se movimentar na quadra, de seus hábitos hiperativos e da relação com Leo Azevedo, o técnico que o forçou a ler e confiscou seu celular. Tudo em nome de uma evolução mental que vem acontecendo. Riu bastante, lembrou de tudo com bom humor e ressaltou como isso tudo vem ajudando sua confiança. Role a página, leia a (quase) íntegra do papo e divirta-se.

Qual era a expectativa quando pintou a chance de ir para a Espanha?

Antes de tudo, eu tinha decidido ir para a Argentina, onde minha irmã [Carol] treina, lá no Gumy. Aí recebi a notícia [da ida para a Espanha], liguei para o Leo, tudo. Aí bateu um alívio, fiquei muito feliz. Fui para as férias tranquilo. Bati uma bolas nas férias e cheguei lá muito animado. Estou animado até agora, né? Porque é uma experiência, uma oportunidade que é para poucos, né? Venho evoluindo muito, tanto no tênis como pessoa. Acho que ficar lá fora sozinho, longe da família, realmente é difícil, mas tem seu lado positivo. Eu venho melhorando muito desde que fui para lá.

Qual foi o maior impacto na chegada?

Cara, eu fiquei muito chocado com o frio. Cheguei lá em janeiro. Nossa, estava tudo gelado. Abria a mão o tempo inteiro. No começo, para treinar, estava muito difícil. O preparo físico estava pegando bastante. mas fui me acostumando. Hoje em dia, já está mais tranquilo.

Culturalmente, também foi um impacto?

Não, foi tranquilo. Eu me acostumei de boa. Estava do lado de Barcelona, ia bastante para lá. Os lugares são bem legais. Aproveitei o máximo para conhecer com o Orlando. Até hoje a gente pode… Depende do fim de semana. Às vezes, a gente acaba o fim de semana esgotado! A gente fala "não vou levantar da cama." Mas a gente tenta aproveitar o máximo, conhecer o máximo possível. Fica a 25 minutos de trem de Barcelona. A gente anda 15 minutos até a estação, depois são uns 10 minutos até chegar lá. E já chega no centro.

E no treino? Conta as diferenças…

Cara, o que mais pegou foi o lado físico. O físico lá é muito diferente. Tanto musculação… É tudo voltado muito para uma coisa só, sabe? Para umas zonas. Eles são muito direcionados, todos os treinos. Mas o que mais me custou, tanto que eu e o Orlando, a gente chegou e falou "nossa, parece que eu não sei me mexer na quadra". A gente fazia treino com o Francis Roig (também técnico de Rafael Nadal), e ele falava "não, não. Está tudo errado no jeito que vocês estão se mexendo. Você tem que fazer mais caminhando", não sei o quê… A gente aprendeu, desde o começo, que a gente saltava muito na quadra. Ele dizia "tem que ser caminhando". E a gente, nossa, estava perdido no começo. Eu dizia para o Orlando "não sei o que estou fazendo, estou perdido, acho que não sei mais jogar tênis." Mas, hoje, em dia, é muito tranquilo. Ele sempre dá um apoio máster, está sempre falando com a gente o que a gente está fazendo errado. Mas o mais difícil foi a movimentação em quadra e o físico.

Para eu entender melhor, me dá dois exemplos. O que é um físico direcionado?

A gente faz muita musculação, e eles não fazem tanto repetição "ah, vamos fazer 15 repetições e tal", sabe? Eles dizem "você vai fazer cinco repetições, mas você vai fazer em três segundos [em velocidade mais baixa]" Na segunda, a gente estava morrendo. Nunca tinha feito assim, sabe? Explicaram que assim você sente mais o músculo e começa a pegar mais… Foi um começo bem difícil.

E o que é saltar muito na quadra?

Então… Na movimentação lateral ou indo para a frente, a gente fazia muito saltando em vez de ir caminhando. Lá, eles não fazem muito isso. Tanto que você vê vídeo do Nadal se movimentando na quadra, você não vê o cara pulando. Ele está caminhando na quadra para chegar bem apoiado na bola. Era o que estava mais pegado para a gente. E aí você usa mais o corpo, o quadril, o ombro, tudo. Na primeira vez que eu fiz, a bola saiu forte. Beleza. Só que aí eu fiz a próxima, eu falei "meu deus", não precisei nem fazer força. A bola foi um míssil. Tranquilo. Eles usam muito o corpo, muito o quadril, e aí você gera força muito fácil.

Mas o Leo me disse que quando você chegou lá e começou a fazer os testes físicos, os seus resultados eram todos de tenista top.

É, então… O Leo fala até hoje que o meu físico é… Como era o físico do meu tio. Magro, se mexe bem, forte… Não parece, mas (risos), forte! É que no começo eu fiz os testes e me saí bem. E hoje em dia, para eu me sentir mal de físico durante um jogo, é bem difícil. Eu posso me sentir cansado, mas mal…

Eu até estava imaginando hoje [durante o jogo contra Carlos Berlocq]… Vocês jogaram alguns pontos bem longos, e eu fiquei "será que o Felipe aguenta isso muito tempo?" Porque é um nível ao qual você não está acostumado ainda, né?

É, então… Antigamente, eu não aguentava. Para mim, custava muito ficar muito tempo nesse ritmo pegado, do Berlocq. Não dá um ponto de graça, estar todo ponto a milhão. Antes, eu não aguentava. Hoje, me senti pronto. Eu sei que estou nesse nível e posso, com certeza, ganhar desses caras. Hoje, eu perdi minhas chances.

Você ficou pensando muito naquele voleio? [Felipe liderava o segundo set por 4/2 e 40/15, mas tentou um voleio curto, mandou a bola na rede e viu Berlocq se recuperar no game e conseguir a quebra]

Cara, aquele voleio… Nossa…

(interrompendo) O que você estava falando? Eu estava do outro lado da quadra, só consegui ouvir você falar algo sobre Federer…

Ah, é que eu fiz o voleio, mas eu fiz muito relaxado, assim. Porque eu estava voleando bem, fazendo as curtas boas, aí cheguei e fiz muito tranquilo o voleio, relaxado. Falei "você acha que é o Federer, que vai volear assim e acertar a bola?" E aí, nossa… Aquele voleio deu uma martelada na minha cabeça, mas consegui voltar. O segundo set era para eu ter ganhado. Eu tive ele para ganhar, só que dei uma viajada. Primeiro Challenger do ano, em casa, não estou acostumado a jogar com tanta gente ainda… Galera apoiando bastante ainda, eu meio que dei uma emocionada, assim, e acabei perdendo as chances que tive. [Berlocq venceu o jogo por 6/3 e 7/6(2)].

E o Leo Azevedo? Qual foi a primeira impressão dele quando chegou na Espanha?

O Leo é um cara muito estudioso, é um ótimo treinador. No começo, foi um pouco difícil porque somos extremos, sabe? O Leo é muito tranquilo, ele gosta de ler, música clássica… É o jeito dele. E o meu jeito é completamente diferente. Eu sou muito agitado, fico brincando o tempo inteiro, não conseguia ler um livro antes. Quando eu cheguei, ele me deu um livro, eu falei "nossa, tem que ler esse livro?"

Eu ia chegar nesse ponto. Ele falou que tentou fazer você e o Orlandinho lerem três coisas. Um livro do Phil Jackson [Onze Anéis – A Alma do Sucesso]…

(interrompendo) Um do Phil Jackson, um era do Alex, do futebol, e um era de filosofia. Que esse aí eu não li até hoje.

O Mundo de Sofia, né?

O Mundo de Sofia! Eu não li até hoje esse daí. Está lá na prateleira. Os outros dois eu já li. É que eu começo a ler o livro e não consigo ficar no livro. Eu não consigo. Aí vou para outro. Para mim, é muito difícil. Eu sou um cara muito agitado. Teve uma semana que eu falei "vou ler meia hora por dia, focado, vou botar até o alarme de 30 minutos."

Risos

Aí eu lia os 30 minutos… Mas é difícil porque eu sou um cara muito agitado. Para mim, é um pouco complicado. Mas agora é super tranquilo, a gente tem uma relação muito boa, eu e o Leo. Ele me ajudou bastante desde o começo, esse apoio da CBT também ajudou bastante. O tanto que eu melhorei tecnicamente e como pessoa, realmente, foi muito positivo.

O que você faz para passar o tempo quando não está lendo (risos)?

A casa que a gente tem é uma coisa incrível [Felipe e mais sete atletas moram em uma casa de família]. A mulher [dona da casa] faz tudo para a gente. Ela é praticamente nossa mãe. Ela arruma cama, lava a louça, faz comida… A gente só chega lá para dormir e pronto. No tempo livre, tem mesa de ping-pong, tem piscina, tem videogame, a gente vai para Barcelona… Mas tem dia que eu chego do treino acabado, aí fico na cama, jogado. Ou vou jogar videogame, assistir um filme, tem Netflix…

Jogam o que no videogame?

A gente joga muito FIFA, eu e o Orlando. A gente vai jogando um contra o ouro até… Só que o Orlando é meu pato, não tem muita graça.

Se vocês jogam FIFA em vez de PES, já estão no caminho certo (risos de ambos). E o que você acha que evoluiu mais lá?

Cara… (pensativo). É que é meio que um conjunto, mas o que eu melhorei mais… Eu cheguei lá, eu sempre fui um pouco reclamão. Hoje em dia, estou bem mais tranquilo. Eu falo porque é meu jeito, mas estou mais tranquilo mentalmente. Eu era muito doido.

Eu achei mesmo que você falou muito pouco [no jogo contra Berlocq]…

Ultimamente, estou bem mais tranquilo. Tinha vezes que eu… Nossa, dava a louca! O Leo não era acostumado com nada disso, aí a gente um monte de conversa séria, de "ou muda ou não tem jeito", e hoje em dia, eu acho que é o que mais me ajuda, de estar tranquilo na quadra, de poder pensar como fazer, de não estar todo o tempo acelerado, xingando todo mundo.

Isso de falar em quadra te atrapalhava nos pontos seguintes, né?

De não pensar. Eu perco um ponto, custa quatro. Eu perco um game, custa um set. Hoje em dia, eu perco o ponto e posso ficar louco por dentro, querendo matar todo mundo, só que no próximo ponto, estou mais tranquilo, mais focado. Às vezes acontece porque eu sou um cara que fala, e às vezes perde um ponto e custa dois, aí eu (gesticula mostrando que entendeu as consequências) e já fico mais tranquilo. É uma coisa que eu senti que ou melhorava isso ou não tinha jeito. São poucos que… O [Andy] Murray que reclama o tempo inteiro e é 3 do mundo. É para poucos. Está me ajudando.

Me conta a história de que o Leo tirou o celular de você… [pergunta feita ao fim da entrevista, mas inserida aqui para dar sequência ao tema da relação com o treinador]

Cara, ele falou comigo nos primeiros torneios que a gente viajou junto. Eu sentia muita saudade de casa. A primeira vez que eu voltei, foi de boa. Fiquei sete dias aqui, vi todo mundo e tal, só que quando eu fui embora, fiquei horrível. Fiquei mal! Eu chorei no aeroporto, estava mal… Eu queria ir, mas estava sentindo falta de todo mundo já. E aí eu ficava muito no celular durante o dia. Falando com a minha namorada, com meus pais… Eu sou um cara que gosta de manter as pessoas perto, sabe? Eu ficava muito no telefone, aí chegava um momento do jogo que eu perdia o foco, falava "estou fazendo tudo bem, não sei por que está dando tudo errado", só que eu não estava 100% focado. O Leo falou "vamos fazer o seguinte…". Eu falei "Leo, se você acha que é isso, fala o que você quer que eu faça." E ele disse "duas horas por dia de telefone." Para mim, foi um parto. Nossa! Não acredito que vou fazer isso! Meu deus, minha namorada vai me matar! Minha mãe não sei o quê… Mas falei "tudo bem", fiz isso nos últimos torneios na Espanha. Ele nunca tinha tirado meu celular. Ele já falava para eu diminuir o celular, só que eu tinha muita dificuldade. Aí eu chegava no clube, e ele "me dá o celular." E ficava com ele. Eu ficava o dia inteiro no clube, vendo jogo e tal… Louco pra mandar uma mensagem! Chegava no hotel, duas horas, e pegava o celular antes de dormir. Nossa, eu surtando!

O que você fazia nesse tempo sem celular?

O Leo deixava eu ver série e coisas assim, mas não ficar falando com todo mundo porque me atrapalhava muito. Eu ia no computador lá embaixo, via uma série, enchia o saco do Orlando. "Ô, Orlando, vamo conversar, jogar baralho, fazer alguma coisa!" Nossa! Eu dava um jeito de fazer alguma coisa porque não consigo ficar parado. Se eu não estou no telefone, não consigo ficar parado, olhando para o teto. Preciso de alguma coisa para fazer. Me dá um negócio! E aí ele [Azevedo] fez isso comigo, joguei melhor, e ele "falei, né?" Ou dizia "não vou falar nada, não vou falar nada!" (risos) Depois eu acostumei. Ele disse "ou você faz isso ou você vai ficar desfocado durante o jogo." Eu "se é para fazer, vou fazer". E aí eu fiz.

E agora você ganha seu primeiro jogo em um Challenger, faz um belo jogo com o Berlocq, um cara super experiente, e sai daqui acreditando muito mais em você, imagino…

Eu sempre tive muita dificuldade nisso. Tanto eu quanto a minha irmã, a gente conversa…

(interrompendo) Dificuldade em acreditar em você mesmo?

É. Eu sei que estou jogando bem, que posso ganhar dos caras, mas às vezes eu duvido. E essa dúvida dá… Aconteceu hoje! Eu me senti bem jogando, mas faltou o tipo "eu sei que posso ganhar desse cara" ou "sei que posso levar para o terceiro", o "eu sei que posso fazer mais". Falta um pouco às vezes. Só que isso dá uma confiança, né? Fazer jogo com esses caras, tira um peso enorme de fazer um ponto para o ano que vem…

Você está falando do ranking de transição, né?

É. Eu estava 600 do mundo, mas não tinha nenhum ponto [na ATP] para o ano que vem. Só os de transição. Falei "não quero jogar o transition tour nem a pau. Vou dar a vida!" Só que aí me pressionava muito, muito, e aí era difícil. Agora [com os 6 pontos conquistados em Campinas] tirei uma geladeira das costas. Claro que quero mais, mas posso jogar mais tranquilo.

E tecnicamente, qual foi o aspecto que melhorou mais?

Eu achei que minhas bolas estão indo mais profundas. Tanto por esse negócio que a gente faz muito com o Francis, de usar mais o quadril, acho que isso ajuda bastante. Estou mais constante nos pontos. Estou mais sólido, mais consistente. Isso é essencial nesse nível. Se você vem e começa a dar pau pra todo lado, acerta duas e erra dez, não adianta nada. Isso é uma coisa que melhorou muito em mim.

Meta de ranking até o fim do ano, você tem?

Eu gostaria de baixar até 450. Tomara que eu consiga. Vou jogar uns torneios agora e se conseguir chegar a 450 ou mais baixo, é uma boa.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

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