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Saque e Voleio

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Pablo Cuevas: a consciência social e a busca por energia perto de casa

Alexandre Cossenza

04/10/2018 05h00

A temporada de 2018 não foi a melhor da carreira de Pablo Cuevas. O uruguaio de 32 anos, que esteve entre os 50 melhores do mundo desde 2014 e alcançou o 19º posto do ranking mundial em 2016, não conseguiu repetir os resultados de campanhas anteriores. Para piorar, sofreu uma fratura no pé direito que o afastou das competições por quase dois meses. Hoje, Cuevas é apenas o #66 do planeta.

Drama? Nenhum. Em vez de se preocupar com o ranking e voltar aos principais torneios do calendário, o veterano tomou a decisão de jogar em eventos menores – da série Challenger – na América do Sul em vez de jogar ATPs e Masters na Ásia e na Europa. Assim, pode se recuperar sem pressa e perto de casa. Vai aproveitar, aliás, para estar em casa no aniversário de 4 anos de sua filha. Será o primeiro cumple da menina com a presença do pai.

Cuevas também aproveitou a pausa forçada pela lesão para participar de uma bela ação social. Inaugurou uma quadra de tênis no Penal de Libertad, um presídio no Uruguai. Alguns dias atrás, Felipe Priante, do Tenisbrasil, e eu conversamos com o tenista na Hípica, sede do Challenger de Campinas – estou no torneio a convite do Instituto Sports. Atencioso como sempre (um dia, contarei aqui uma ótima história de como Cuevas me deu uma grande ajuda na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio), Cuevas explicou suas decisões e falou da importância e da emoção de participar de uma ação com presidiários.

Você teve uma fratura no pé que lhe afastou do circuito por dois meses e voltou na Copa Davis…

Fiquei cinco semanas com muletas, e comecei a jogar no início deste mês. Voltei na Davis, com quatro dias de treinamento. Agora já tem quase 20. Estou melhor. Conseguimos classificar o Uruguai para o Grupo I, era o objetivo que a equipe estava buscando [o Uruguai bateu o México por 3 a 1, com duas vitórias de Cuevas]. Acredito que tínhamos time para isso, mas havíamos caído para o Grupo III. Conseguimos fazer duas subidas consecutivas, e ano que vem teremos o incentivo de jogar pela repescagem [que a ITF chama de fase classificatória para a final da Copa Davis].

Pelo seu ranking, você poderia estar jogando torneios maiores. Você optou jogar na América do Sul porque é saibro, porque é uma superfície melhor para quem volta de lesão, ou a preocupação maior é defender os pontos que têm até o fim do ano?

Sinceramente, não estou muito preocupado com o que tenho que defender. Logicamente, quero estar mais acima no ranking, mas foi um pouco mais pensando na minha recuperação. Estou começando a não sentir mais dor. Estou começando a treinar como gostaria, mas ainda me falta um pouco de nível para ir à sequência asiática do circuito. Além disso, a quadra dura te exige um pouco mais que o saibro. Por isso, a opção por jogar no pó de tijolo. É para ganhar um pouco mais de ritmo, e acredito que vou ficar o resto do ano jogando na América do Sul e focar nos ATPs ano que vem. Tem o aniversário da minha no meio desses torneios da Europa. Ela vai fazer 4 anos e não pude estar em nenhum anterior, então este ano vou aproveitar.

O quanto estar mais perto de casa te ajuda nesse retorno?

Eu sei que esta época do ano é duro ir para a Ásia. É muito longe, é grande a diferença horária, e você já está com todo desgaste da temporada. Então, jogar aqui [América do Sul], você sabe que está a duas horas de casa e pode voltar. Não por voltar, mas você meio que se sente mais perto e já conhece um pouco mais [o ambiente]. Já estive muitas vezes aqui no Brasil, jogo bem aqui. Na Ásia e na Europa também faz frio. Aqui, já sei as condições em que vou jogar, o ambiente… Meu irmão [Martín Cuevas, atual #310] está também aqui no torneio, então vou levar isso como uma recuperação sem pressa e, como disse, me focar no ano que vem.

Por causa da fratura, você perdeu torneios importantes como dois Masters e o US Open. Isso também pesa mentalmente?

Infelizmente, tive mais de uma lesão na minha carreira (uma cirurgia no joelho direito em 2011 e outra lesão no local em 2013) e não as vejo como coisas ou torneios que perdi, mas como chances para aprender e viver outras coisas. Como disse, estabeleci outras prioridades, que foram vir para cá no fim do ano e estar no aniversário da minha filha. Não vejo isso como o que perdi, mas o que posso ganhar. Em vez de me desanimar, isso me deixa com mais energia porque vou, de verdade, onde quiser e não tenho a obrigação de "ah, tenho que ir até lá porque não posso perder o torneio." Eu inverto um pouco essa equação e vejo pelo lado positivo.

Qual é a sensação que você tem sobre esta temporada?

Acho que é uma temporada – sobretudo a parte do saibro – em que esperava resultados melhores, mas que, por algum motivo, não vieram. Mas não desanimei por isso. Simplesmente são coisas que acontecem. Eu vinha de quatro anos muito bons, e este ano foi "normal". Nesses quatro anos, além de eu ter bons resultados, aconteceu um montão de coisas, e o cansaço destes quatro anos… Acredito que este ano senti um pouco desse cansaço. Por isso, me permiti neste fim de ano fazer coisas buscando voltar a ter essa energia, essa vontade de realmente estar no circuito. Não é que eu havia perdido [a vontade], mas para estar no circuito é preciso um plus, realmente ter essa vontade, esse desejo. Eu estava indo pelo circuito, mas não com esse plus, com a energia máxima. Agora a estratégia é ficar por aqui e recuperar essa energia, olhando para o ano que vem. Conseguindo essa energia, posso voltar a ter melhores resultados.

Como você viu as mudanças na Copa Davis?

Sinceramente, não tenho muito claro o que vai acontecer em nosso grupo. Não sei se jogaremos em fevereiro ou mais tarde. Acho que ainda não estão nem decididas as equipes que ficarão no Grupo I porque Brasil, Chile, Colômbia, todos subiram, então ficou pouca gente no Grupo I. No Grupo Mundial, sei que alguns saem atrasados, e outros só jogam em novembro. Não tenho essas mudanças muito claras. O que sinto é que o mundo está evoluindo e, para não perder seguidores, para não perder entusiasmo e por um monte de fatores, é preciso ir se adaptando. Se a mudanças são para melhor ou não, acho que vamos saber daqui a pouco. Como em tudo, coisas se ganham e coisas também se perdem. A priori, acho muito estranho ver, por exemplo, Argentina e Brasil, um clássico – não é um clássico no tênis – mas uma partida de futebol entre Argentina e Brasil na Ásia é meio frio, não? É isso que vejo como ponto contra, digamos. É para ser algo com mais espírito de nacionalismo, e isso acho que vai se perder bastante. Por outro lado, era muito exigente o calendário, mais a Copa Davis, mais a Laver Cup, mais isso, mais aquilo… É muita coisa. Poderia ser uma opção fazer [a Copa Davis] mais parecida como no futebol: a cada dois anos, a cada quatro anos e manter um pouco desse formato.

Queria que você falasse um pouco sobre como foi inaugurar uma quadra de grama em um presídio. Uma quadra com seu nome. Foi a primeira vez que você fez algo assim? Ficou emocionado? [A quadra, chamada Pablo Cuevas Wimbledon, é de grama e foi construída pelos detentos]

Em um presídio, sim, foi a primeira vez. Um preparador físico que eu conheço [Daniel Grau] trabalha em todo tipo de lugar onde há pessoas que precisam. Também trabalhou em outros lugares assim no Uruguai, e eu estou sempre colaborando com ele. É professor no clube onde eu treino e me convidou a ir. Admiro a garra dele, que está lá todos os dias, e vou de vez em quando. O meu é o mais fácil, mas acredito que se é para colocar um grãozinho de areia, fico feliz em colaborar. Estou super feliz porque foi uma experiência espetacular. Não sabia muito bem onde estava indo e o que esperar, mas recebi um carinho que nunca imaginava que receberia. Quando comecei a conversar com eles, sentia que me estavam me olhando com cara de "de que me vale isto? Não me interessa nada que você tem para me contar". E, a partir de cinco minutos de papo, comecei a ver que cada vez estavam mais interessados e depois começaram a aplaudir. Quando terminou a conversa, vieram todos me dar um abraço antes de eu jogar com eles. Terminamos nos divertindo, e o que vi é que o que se vive lá dentro é algo muito cruel, que nós nem imaginamos, e que com tão pouco é possível fazer com que eles tenham um tempinho em que possam esquecer desse ruído que existe permanentemente, desse ambiente. E terminamos jogando com umas crianças. Espero que sirva para que – porque não acredito que uma ou duas horas vão mudar muito – mas que esse dia, essa alegria se torne quase uma rotina duas ou três vezes por semana. Não é como um prêmio. É simplesmente uma oportunidade que estão dando para que entendam que há outra vida, outras regras e que existe um monte de outras coisas que, no dia a dia, lá dentro, parecem que não existem.

E, sem querer soar como um sociólogo, mas me parece também uma maneira de diminuir o ócio e ajudar as pessoas a se sentirem produtivas num ambiente sem muito lazer. Um ambiente que, em tese, é um lugar para a pessoa se reabilitar antes de voltar para a sociedade.

Sim, sem dúvida. Eu não acredito que ninguém vá virar jogador de tênis ou sair de lá com vontade de jogar duas ou três vezes por semana, mas sim para eliminar um pouco essa ira que eles têm dentro, para que se distraiam um pouco mais e que estejam um pouco mais receptivos para outros tipos de conversa, para algo mais produtivo que tenham na vida cotidiana, para outras oportunidades de trabalho, o que seja. Porque para pessoas nessas condições… é muito difícil conseguir chegar até elas com uma boa mensagem. Por outro lado, se conseguirmos que elas se distraiam e aproveitem, ficam muito mais receptivos a qualquer mensagem. Recebem informação de outra maneira. Acredito que é por aí o objetivo de ações como essas.

(A entrevista foi realizada antes da estreia de Cuevas em Campinas. Ainda sem o ritmo ideal de jogo, o veterano foi eliminado na primeira rodada pelo americano Ulises Blanch, #336: 64, 6/7(4) e 6/4)

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

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