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Saque e Voleio

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Rogerinho: dúvidas, derrotas doídas e, finalmente, uma nova direção

Alexandre Cossenza

05/10/2018 11h58

Duas mudanças de técnico, pequenas lesões e algumas derrotas que machucaram muito. O ano de 2018 não está fácil para Rogério Dutra Silva. O paulista de 34 anos, que começou a temporada como #101 do mundo, é agora o #148 e entra na reta final de torneios correndo atrás de pontos para voltar a se aproximar dos 100 e conseguir disputar o Australian Open, em janeiro, sem precisar passar pelo qualifying.

Conversamos na Hípica alguns dias atrás, durante o Challenger de Campinas (estou no torneio a convite do Instituto Sports), quando Rogerinho falou sobre as dificuldades e dúvidas que surgiram após o fim da parceria de longa data com o treinador Andres Schneiter. Foi com o argentino, afinal, que o brasileiro reergueu sua carreira depois de uma séria lesão e uma queda para além do 500º posto no ranking em 2015. Rogerinho também falou sobre a doída derrota de Istambul, onde esteve a dois games – vencendo o terceiro set por 4/0 – de fazer sua primeira semifinal de ATP na carreira.

Mas o papo não foi só sobre coisas ruins. O paulista também falou de como reencontrou uma base com o novo técnico e do que achou sobre a nova Copa Davis. Lembrou das ótimas sensações dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e falou sobre seu candidato à presidência. Role a página e leia a íntegra do papo!

Qual a sensação que você tem desta temporada? Porque eu vi jogos bons seus, outros não tão bons, e algumas vitórias que escaparam que teriam feito uma diferença muito grande no ranking. Rio, Barcelona, Istambul… Como você está processando isso?

Não está sendo um ano muito fácil para mim, não. Muitas mudanças na minha equipe. Parei de trabalhar com o Andres Schneiter, com quem eu estive praticamente nos últimos cinco anos, viajando todas semanas com ele. Foi uma decisão difícil de ser tomada, mas necessária para os dois. Bem difícil.

Qual foi o motivo?

Desgaste. Cinco anos… é um casamento, né? Todo dia juntos, os dois muitos intensos… Eu sou amigo dele até hoje, graças a deus, então não teve nenhum problema. Chegou um momento em que nenhum dos dois queria terminar porque foi muito bacana o que a gente conseguiu fazer. Quase ninguém acreditava, e foi um negócio muito legal. Só que, cara, o circuito é desgastante, é muito complicado, e eu precisava também de algumas coisas novas, desafios novos, algumas coisas diferentes. Não foi nada de briga nem nada. Foi mesmo o desgaste. E aí, para você encontrar outro cara, depois de estar acostumado há tanto tempo, foi difícil, entendeu?

Você está com quem agora?

Com o Francisco Yunis [argentino, 54 anos, primeiro à esquerda no post abaixo], que trabalhou com o Calleri muito tempo, com o Squillari muito tempo, teve dois [títulos de] ATPs com o Berlocq, um cara que também está disposto. A princípio, eu não queria que viajasse tanto. Eu viajei umas semanas com o Blengino, que está com o Monteiro agora. Depois eu mudei de novo porque vi que precisava de um cara em cima todo o tempo. Se eu quiser jogar no nível que eu quero jogar, não tem jeito. E algumas outras coisas. Antes do US Open, eu tive uma lesão no pescoço que atrapalhou muito a minha gira. Não está sendo muito fácil. Como você falou, algumas vitórias que, se tivessem ocorrido, poderiam ter mudado muito. Teve aquela que eu desisti e você até mandou uma mensagem – e obrigado pela mensagem – em Milão [Rogerinho abandonou nas quartas do Challenger de Milão]. Eu tive um problema físico mesmo, fiquei doente, comi alguma coisa ruim e fiquei de cama, vomitando, aquelas coisas. Mas o mais legal é que agora estou me sentindo bem de novo. Não que eu não estivesse com vontade, mas estava naquele momento com um pouco de dúvida, sabe? A mudança de técnico… "será que vai dar certo? Será que esse é o cara?" Aquelas dúvidas que começam a vir. Passou essa fase. Estou feliz agora, venho trabalhando bastante. Tive esse azar da lesão no pescoço treinando em Buenos Aires [antes do US Open], mas agora venho já numa linha de trabalho todos os dias, então está bem bacana.

Você chegou a fazer essa conta do tipo… As vitórias que você quase conseguiu e a diferença que isso faz no seu ranking?

Não fiz a conta, mas tenho um pouquinho vivo na minha cabeça isso aí (sorriso).

Você quer saber?

Você fez? Deve ser uma diferença enorme.

Eu contei 45 pontos do Rio [Rogerinho teve quebra de vantagem no terceiro set contra Albert Ramos], 25 de Barcelona [4/4 e 40/15 e perdeu por 6/4 no terceiro set, novamente para Ramos] e 45 de Istambul [vencia Taro Daniel por 4/0 no terceiro set]. E isso sem considerar que você poderia ir ainda mais adiante nos torneios. São 115 pontos, você estaria perto de 110 do mundo hoje. Estaria pertinho de entrar na Austrália direto de novo.

É…

Qual foi a mais dura dessas derrotas?

A mais dura, com certeza, foi Istambul. Seria minha primeira semi de ATP, 4/0 no terceiro set… Eu me sentia muito bem, entendeu? Ali foi a mais dura, a mais difícil. Depois dali, vieram muitas dúvidas, a confiança caiu bastante… Foi a derrota que mais, assim, doeu [além de levar a virada e deixar de alcançar a primeira semifinal de ATP na carreira, Rogerinho viu seu algoz conquistar o título do torneio]. Eu estava com o Blengino, estava jogando muito bem. Joguei bem em Barcelona… Era uma gira complicada porque eu defendia muitos pontos e optei por jogar os ATPs. Mas, no final das contas, foi uma gira boa.

Você vai jogar a sequência toda de Challengers agora…

Sim.

O objetivo é terminar entre os 100 pra entrar na Austrália?

É. Esse seria o objetivo.

Você tem 90 pontos para defender, é isso?

Não sei, cara. Não vejo. Não olho chave, não olho ponto, ranking, nada. Minha equipe só fala contra quem eu jogo. Gosto de focar contra quem eu jogo e ter bem na mente só o próximo objetivo, e o próximo objetivo nosso agora é a Austrália.

Tecnicamente, com o Yunis, qual tem sido o foco do trabalho? E no que isso é mais diferente do que o que você fazia com o Schneiter?

Primeiramente, ele me deu a base. Nessa dúvida, mudança, você acaba perdendo um pouco do foco, da estrada… Sem querer, você acaba perdendo. Acha que está fazendo uma coisa e não está fazendo. Então, com ele, a gente começou do zero. Vamos fazer a base e, da base, a gente começa a fazer outras coisas. A gente trabalhou muito o saque… E é um pouco de tudo. É jogar agressivo, estou viajando bastante com preparador físico, que também é fisioterapeuta, então isso também está ajudando. Acabamos de passar o primeiro escalão ali, e a agora é a hora de abrir mais o leque e ver outras coisas. Ele gosta muito de estar sempre trabalhando o voleio. Uma coisa que a gente está tentando aprimorar bastante são as subidas à rede.

Foi um ano que você optou por não jogar a Davis. Considera jogar ano que vem, nesse novo formato, ou é algo que você acha que já passou?

Ah, não pensei ainda em Davis, cara. Vai depender de como eu esteja de calendário, de ranking… Acho que a Davis ainda é uma coisa distante para mim.

Pan-Americano você pensa? Porque o Pan agora vai valer vaga na Olimpíada…

Ah, vai? Não sei, cara. Essas coisas… Hoje em dia, estou pensando um pouco mais na minha carreira. Não que eu fique chateado, mas eu tenho duas medalhas pan-americanas e acho que não me valorizaram tanto. Acho que o pessoal nem sabe que eu tenho duas medalhas pan-americanas [prata em simples e bronze em duplas mistas em Guadalajara 2011]. Se eu não falo, o pessoal nem sabe. Eu abri mão de dinheiro, de calendário, de muita coisa para estar naquela Copa Davis de BH [Brasil x Equador em 2016], para poder jogar as Olimpíadas e também o pessoal nem… Acho que nem sabe disso. Joguei as Olimpíadas, foi muito legal, uma das maiores experiências da minha carreira, mas pensei também que ia ser um pouco diferente. Em termos de exposição também, sabe? Foi uma coisa super legal, me emocionei pra caramba e tal, mas tive, de novo, que estar eu mesmo colocando do meu bolso para fazer a gira seguinte, entendeu? Então eu e minha equipe estamos focados ainda no nosso objetivo, que é melhorar. Eu não estou tendo um ano tão fácil. Algumas lesõezinhas chatinhas que eu nunca tive, mudança de técnico duas vezes, então estou focado mais nisso. É mais terminar a temporada, ver como eu estou e, aí, avaliar se é o momento para isso.

Então sua decisão sobre Copa Davis não vai ter a ver com o formato?

Não tem a ver com o formato. Sinceramente, eu não falei muito sobre isso, sobre o formato…

Você gostou?

Não!

Obrigado! (risos)

Acho que quem jogou, jogou. Quem não jogou, não joga mais (sorri). A Davis, não sei… Precisava de um formato, mas não sei se precisava de um formato tão brusco. Acho que aquele formato de jogar em casa e jogar fora, isso aí não tinha igual. Vamos ver como vai ser também, né? Tem que ver como vai ser, mas acho que perdeu um pouco da essência do que era a Copa Davis.

Eu falei com o Thiago Wild outro dia, e ele disse algo do tipo "era o meu sonho levar o Brasil às quartas, a uma semi… E tiraram isso de mim". Ele compara com um Mundial de 16 anos. Um confronto por dia, dura uma semana e acabou…

Pois é.

Mas, para terminar: você tem candidato para presidente? Quem e por quê?

Meu candidato para presidente… Igual eu falei para você em off antes. Eu vou votar no Bolsonaro porque eu acho que a gente está precisando de mudança. Eu já era bastante contra o governo que era, e acho que a gente está precisando de mudança, cara. Quem sabe? Não estou falando que vai ser o salvador da pátria, mas pelo menos algumas ideias… Se ele for firme com algumas das coisas que vem falando, é um pouco daquilo que eu penso.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.