Saque e Voleio

Arquivo : entrevista

Parque Olímpico, bolas e etc.: 5 últimas perguntas sobre o Rio Open
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Antes de começar a falar do Brasil Open e seus resultados, deixo aqui, como prometido, o post com declarações do diretor do Rio Open, Lui Carvalho, após o ATP 500 carioca. São frases selecionadas da coletiva concedida após a final e de um papo com alguns jornalistas após a entrevista. Nem todas perguntas são minhas, mas são os cinco temas que considerei mais importantes entre os que foram abordados no último dia do evento.

1. Melhorias

Na cerimônia de premiação de duplas, o Carreño Busta disse que o torneio melhorou muito. O que os jogadores acharam deste ano, que foi o primeiro sem o evento feminino?

Na reunião geral com a ATP, eles apresentam o relatório, e foi muito positivo. Disseram que foi o melhor Rio Open em termos de organização para os atletas. A questão de não dividir espaço com as mulheres foi fundamental por várias razões. O serviço de transporte era um serviço exclusivo deles. Eles desciam e, no lobby, tinha um carro esperando para levar aonde eles quiserem 24 horas por dia. Na alimentação, a gente fez algumas alterações, e isso funcionou. Sem o feminino, a gente agregou o vestiário das mulheres. A gente juntou as saunas e fez um lounge a mais. Era um espaço que ninguém acessava. Tinha mobiliário, sofás, eles gostaram bastante. As quadras de treino, obviamente [não é preciso dividir quadras com as mulheres]. E o schedule também ajudou. Eles falaram muito bem do fato de começar 16h30min porque tira um pouco da pressão de acordar cedo, sair correndo para aquecer. Deixou o schedule um pouco mais leve. E elogiaram muito o público [vendo os treinos]. Eles gostaram do ambiente. Como o schedule comprimiu, ficou mais gostoso para eles.

2. Assentos vazios na quadra central

Sobre a questão da ocupação da quadra central, a gente já conversou sobre isso e não é um problema de venda de ingressos, mas de ter gente na quadra no horário dos jogos. Até que ponto a ATP vê isso com maus olhos?

A ATP tem uma regra de um mínimo de público que você tem que ter durante a semana. A gente ultrapassa de longe esse mínimo. É uma questão delicada. Você acha que são sete razões. Para mim, são cinco. E a mais nova dessas cinco foi a gente ter criado uma área muito legal no Leblon Boulevard, com muitas ações, o bar da Stella [Artois] com o telão passando jogo… As pessoas estão passando tempo fora do estádio. Isso é legal. Não posso ver como negativo. Se eu quisesse, não faria mais o Leblon Boulevard, e todo mundo só teria um lugar para ficar: a quadra central. Mas não é o que a gente está pensando para o futuro do evento. Faz parte. É difícil achar um modelo que funcione porque obviamente você tem uma entrega de ingresso por parte de patrocinadores. Eles fazem o torneio possível. Isso faz parte. E eu não tenho como controlar como essa entrega dos patrocinadores é feita. A gente sempre conversa, sempre pede da melhor maneira possível, para não ter esses espaços vazios, mas infelizmente acontece.

3. Bolas da Head

O Bruno [Soares] é um cara que repete muito isso. Nadal, quando esteve aqui, não se sentiu tão confortável com as bolas usadas no torneio. Nishikori também disse que não sentiu tão bem a bola. Há alguma possibilidade de mudança? Dá para fazer alguma coisa ou vai continuar a Head?

A Head é nosso parceiro. São ótimos parceiros e patrocinadores. Eles têm trabalhado desde o primeiro ano na questão da bola. Mas depois que alguém me falou que o Thiem reclamou da bola, eu corri para a ATP e perguntei se alguém reclamou da bola. Ninguém reclamou para a ATP. Reclamou na imprensa. Acho que é uma questão de gosto. Dá para ver que os caras que jogam com um pouco mais de top spin não gostam muito da bola, mas o pessoal que joga mais reto, como o Carreño Busta, ama a bola. É a característica dessa bola da Head. Não posso mudar o patrocinador porque… ‘Ah, vou fazer o torneio para o Nadal, então vou botar uma bola mais macia para ele poder dar o top spin’. Não é o meu estilo de fazer as coisas. No fim do dia, o Thiem reclamou e ganhou. E é o que a gente falou. Os jogadores que chegam um pouco tarde no torneio sentem um pouco mais. O Thomaz [Bellucci] treinou a semana inteira aqui. Chegou no dia do jogo, ele estava voando. Não errava uma. Quem chegou tarde não sentia a bola. Tough luck. Chega mais cedo da próxima vez…

4. Mudança para quadra dura

Vocês vão tentar de novo, junto à ATP, a mudança para a quadra dura. Quando vai ser feita essa nova proposta e como funciona essa votação?

A gente pode tentar até Londres, em Wimbledon. É o tempo que a gente precisa para se programar. O que gente precisa agora é ver qual o timing ideal para fazer esse movimento. Se a gente fizer isso sabendo que não tem um ou dois, é perigoso. Se você é negado e vai muito rápido de novo, você acaba negado de novo. Precisa fazer a politicagem, leva um pouco de tempo.

E vocês não têm os votos dos jogadores, é isso?

A gente acredita que não.

Quantos votos são?

Três e três. São três regiões: Américas, Europa e Resto do Mundo. Jogadores e torneios têm voto de cada região. O sétimo voto é do Chris Kermode, o presidente da ATP. Os torneios da América provavelmente a gente tem [ o voto] porque é a nossa região. Na Europa, deve haver um ponto de resistência por causa de Roterdã, mas não sei dizer.

Tecnicamente, mudar Rio e Buenos Aires para a quadra dura pode acontecer sem que São Paulo e Quito mudem também?

É mais difícil, mas pode. A gente até fala que nosso evento era na quadra dura. Memphis era na quadra dura. Eles é que forçaram a gente a ir para o saibro. A ATP que forçou.

5. Parque Olímpico

E se vocês não conseguirem a aprovação para quadra dura, existe possibilidade de fazer no saibro no Parque Olímpico, mesmo com todos problemas logísticos, de fazer sem drenagem, precisando de uma operação de lona rápida e tudo mais?

Você já está descrevendo alguns problemas.

Mas hipoteticamente vocês consideram isso?

Depende do timing da decisão da ATP. Tem muita coisa que a gente não sabe ainda. A gente ainda não sabe se o Ministério deixa colocar saibro lá. Quem vai administrar aquilo? Quadra dura você deixa lá e vai pintar três anos depois. Saibro tem uma manutenção muito mais cara. Você precisa de tratador, saibro, água… Eu vou ter que fazer toda uma estrutura de irrigação. Isso não existe. Eu teria que construir isso. É um investimento enorme. Não é “joga saibro em cima e acabou.” Por isso que a gente está estudando com calma.


O pai dele bateu Guga. Vinte anos depois, Casper Ruud brilha no Rio Open
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

É só uma coincidência. Ou nem isso. Mas é, certamente, uma daquelas ligações deliciosas e inexplicáveis entre países e famílias. Em agosto de 1996, um jovem norueguês de 23 anos chamado Christian Ruud enfrentava Gustavo Kuerten no ATP de Umag, no saibro, na Croácia. O europeu, mais experiente e de melhor ranking – era o #68 do mundo, enquanto Guga, então com 19 anos e em franca ascensão, era o #115 – venceu por 7/5 e 6/4.

Fast foward para 20 anos e seis meses depois. Outro tenista chamado Ruud derrubou um brasileiro em ascensão. Foi Casper Ruud, filho de Christian, quem superou Thiago Monteiro nas quartas de final do Rio Open por 6/2 e 7/6(2). Hoje com 18 anos e atual #208 do mundo, Casper já havia eliminado outro tenista da casa no torneio. Na estreia, bateu Rogerinho por 6/3 e 6/4.

Em um país sem tradição ou ídolos no tênis, é óbvio que Christian (o tenista da imagem abaixo) foi a grande inspiração para que Ruud fizesse carreira no tênis. O filho nasceu quando o pai tinha 26 anos e ainda estava no circuito. Quando podia, Christian levava o garoto para praticar todo tipo de esporte. Casper jogou tênis, futebol, hóquei no gelo e golfe. Em algum momento entre os 11 e 12 anos, largou todos os outros e decidiu investir no tênis. Pelo visto, investiu bem.

A federação pequena que ajudou muito

Não que seja fácil crescer jogando tênis na Noruega. Os torneios são poucos. A federação não é rica. Casper, no entanto, aproveitou o que podia. “Por esse lado [poucos torneios e dinheiro], é difícil, mas por outro lado, isso foi bom para mim porque eu sempre fui um dos melhores do país. A federação sempre cuidou bem de mim, com técnicos e tudo mais. Por esse ângulo, é ótimo em comparação com uma federação grande, com tantos jogadores, onde é difícil dar atenção a todos”, disse em rápido papo comigo após a coletiva desta sexta-feira.

A ascensão de Casper Ruud vem sendo espantosa. Um ano atrás, ocupava o 1.148º posto no ranking mundial. A temporada 2016 lhe deu bons resultados, inclusive um surpreendente título no Challenger de Sevilha, na Espanha, em setembro. Naquela semana, pulou do 450º lugar para o 274º. Agenciado pela IMG, que também controla o Rio Open e lhe ofereceu um convite para o evento carioca, Ruud aproveitou a chance e dará mais um salto. Graças à campanha que o levou até as semifinais, pulará do #208 para (pelo menos!) o #133. A explicação para isso? Nem ele crava o motivo. No entanto, quando lhe perguntaram na coletiva, aproveitou a chance para um momento jabá. Disse que trocou de marca de raquete há exatamente um ano e aproveitou para citar a Yonex, sua atual patrocinadora.

Mas e o jogo de seu pai com Guga? Será que Casper sabe da história? Quando perguntei, o garotão não lembrou. Disse que não sabia se seu pai tinha vencido ou perdido. “Ganhou”, eu disse. Casper riu e falou sobre o pai: “Ganhou!? Fico surpreso de ele não ter me contado, mas de repente vai me falar sobre isso nos próximos dias (mais risos). Ele adora histórias sobre quando ganhou partidas duras contra um ou outro jogador. Mas é divertido que meu pai tenha jogado também. Sei que Kuerten é enorme aqui no Brasil. Ganhou Roland Garros três vezes. Pelo que vi e ouvi, ele era um cara duríssimo de enfrentar.”

Variações e aprendizado vendo Nadal na TV

Nos três jogos que fez no Rio Open (superou Rogerinho, o espanhol Roberto Carballés Baena e Thiago Monteiro), Casper Ruud mostrou um tênis cheio de recursos e variações. Tem uma direita pesada, com muito top spin, que empurra os adversários para trás, varia bem com a esquerda e tem um ótimo saque. Além de tudo isso, provou ter bom preparo físico e nervos invejáveis. Nem contra Monteiro, com a quadra cheia e muito barulho, deixou-se abalar. Perguntei se isso era consequência do tênis da Espanha, já que Casper treina bastante em Alicante há alguns anos. Ele minimizou a influência espanhola.

“Não diria que isso vem de treinar na Espanha, mas pode ser. Honestamente, eu sempre gostei de ver tênis na TV e sempre tentei aprender o máximo. Sempre tento ver como os melhores jogam e aprender golpes diferentes. Golpes mais chapados, alguns com mais spin, e aprender quando usar cada um deles. Talvez num 30/30, no forehand, jogar com um pouco mais de spin pode ser mais inteligente. Nunca se sabe, mas eu sempre vi os melhores na TV e eles são ótimos em variar os golpes. Estou tentando ser sólido, mas também variar.”

Ruud disse passar muito tempo vendo tênis na TV e online. E que seu preferido é Rafael Nadal. Vejam por quê:

“Meu ídolo é Rafael Nadal. Talvez ele não jogue o tênis ideal em comparação com Andy [Murray] e Novak [Djokovic], que fazem tudo parecer muito fácil, mas gosto de vê-lo porque é um grande lutador e, embora muita gente não ache, ele também tem muito talento. Seu tênis é extremamente inteligente e sempre tento aprender um pouco com ele.”

Casper Ruud parece bem encaminhado, não?


Tipsarevic: ateu, questionador e irônico até nas tatuagens
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Janko Tipsarevic não é um tenista comum. Ele pensa, fala e age diferente. Hoje com 32 anos, o sérvio já foi descrito como alguém que mais se assemelha a um professor universitário de filosofia do que a um tenista “comum”. Os óculos ajudam a dar essa impressão. A tatuagem no braço esquerdo, uma citação de um livro de Dostoiévski, reforça.

Não que os feitos tenísticos de Tipsarevic sejam “comuns”. O sérvio foi top 10 em 2012 e acumulou mais de US$ 7 milhões ao longo da carreira. Quando sofreu sérias lesões que surgiram cerca de três anos atrás, poderia ter se aposentado com seus livros de filosofia. Preferiu passar por quatro cirurgias (duas no pé esquerdo, uma no joelho direito e um implante de células-tronco no tendão do mesmo joelho) e voltar. No período, ficou sem jogar por 18 meses. Retornou, jogou cinco meses e parou por outros nove.

O Rio Open, depois de dois resultados frustrantes em Quito e Buenos Aires, é o próximo passo desse retorno. Atual número 94 do mundo, Tipsarevic recebeu um wild card para o ATP 500 carioca e conversou comigo neste sábado, antes de saber que enfrentaria Dominic Thiem, cabeça de chave #2, na estreia. O papo foi … filosófico. Conversamos sobre os lados bom e ruim das sensações que o tênis desperta. Também falamos de Dostoiévski (ele falou, na verdade) e, brevemente, sobre moda – sua esposa é uma conhecida estilista. E, por fim, falamos de sua expectativa para o Rio Open.

A íntegra da entrevista está abaixo e espero que vocês curtam tanto quanto eu gostei de fazê-la.

Você já fez bastante no tênis e está bem resolvido financeiramente, casado e com uma filha, fora de quadra. Depois de duas lesões sérias e tanto tempo sem conseguir jogar, por que insistir?

Os problemas no meu corpo começaram quando eu tinha 29. Aposentar com 29 ou 30 anos, nesta época, eu acho que é cedo demais. Foi-se o tempo em que tenistas se aposentavam com 30. Muitos de nós estamos cuidando melhor de nossos corpos para que as carreiras sejam mais longas. Claro que existe um aspecto financeiro e todo mundo gosta de dinheiro, mas para mim não é isso. O que eu já ganhei investi inteligentemente, então a principal razão para eu voltar é acreditar que ainda posso jogar tênis. Vou ter o resto da vida para fazer outras coisas, mas eu posso jogar apenas mais duas, três ou quatro vezes em Wimbledon na vida inteira. Depois, nunca mais. O motivo principal é querer jogar mais tênis.

Sem tentar já ser muito filosófico, mas sempre gosto de perguntar a tenistas o que é que eles gostam mais no tênis. É a pressão de jogar um 30/40, um break point ou…

Não. Odeio! (risos de ambos) Não acho que exista uma pessoa que goste. Existem pessoas que lidam com isso melhor do que outras, mas não acho que ninguém goste dessa sensação nervosa antes de um jogo importante ou algo assim. Na quadra, você sente isso muito menos. É claro que às vezes você sente a pressão. Gosto um pouco de tudo no tênis. Tem o lado ruim e o lado bom. Se eu não jogasse tênis, não teria a chance de visitar todos esses lugares incríveis. Por outro lado, você está longe de casa, da família, da esposa e da filha.

É um equilíbrio difícil de encontrar…

É difícil de equilibrar. Por outro lado, sei que é um clichê e centenas de jogadores te disseram a mesma coisa, mas eu adoro jogar o jogo. Adoro competir. E mesmo com as partes ruins, no fim das contas é o que você ama fazer. Se você não ama, se você não consegue lidar com a pressão e o nervosismo, você precisa de aposentar.

Só para aproveitar o mesmo exemplo, quando você diz que não gosta de jogar um 30/40, a sensação é proporcionalmente inversa se você ganha esse ponto, não?

Durante a partida, acho que não se tem essas sensações. Mesmo nas quadras centrais, você não aprecia de verdade esses momentos até acabar a partida.

E se você ganha, né?

E se você ganha! Ou até mesmo se você perde. É aí que você tem a chance de admirar o que apreciar de verdade o que aconteceu nas últimas duas, três ou quatro horas. Porque o esporte é tão intenso que você não tem muito tempo para comemorar ou viver no momento de um belo winner em um ponto importante de uma partida. O ponto seguinte começa em 25 segundos ou você leva um point penalty. A boa sensação que tenho com o esporte é absorver toda a boa experiência depois que partida acaba. Depois de todo o drama. Sei que parece muito dramático na TV ou na arquibancada e que parece que estou me divertindo quando estou jogando bem, o que obviamente eu faço, mas o prazer de verdade vem quando tudo acaba. É aí que você consegue relaxar pelo menos por um dia ou dois e ver o que você realizou.

Muito se escreve que você gosta de ler sobre filosofia e…

(interrompendo) Eu costumava.

Sei que você diz que não se acha mais inteligente do que ninguém por ler sobre o assunto, mas é uma pergunta meio pessoal porque já li um bocado desses livros na faculdade e nenhum me interessou bastante. O que é que te atraía neles?

Embora minha família seja muito religiosa, eu sou ateu por natureza. No momento da minha vida em que eu estava lendo esses livros, eu era muito jovem para entender de verdade. Eu tinha 21, 22, 23 anos.

É uma época em que se questiona muitas coisas…

Eu questionava, mas não era um questionamento inteligente. As pessoas dizem e acredito que é verdade… O mesmo livro, se você ler a cada cinco ou dez anos, ele te deixa uma impressão completamente diferente. Então é diferente se você tem 25, 35 ou 45. Acho que é porque você tem experiências diferentes em partes diferentes da sua vida. O que me atraiu a esses livros foi… O que é filosofia? Não é a verdade. É a busca constante pela verdade. E o fato de que não só o livro, mas a humanidade por si própria está o tempo todo mudando e evoluindo, e a ciência está sempre se questionando e nunca dizendo “isso é verdade” porque daqui a dez anos aquilo pode mudar.

Tudo está mudando o tempo todo…

É por isso que hoje gosto de ler sobre sociologia moderna . É mais sobre relações humanas. Todos esses escritores que eu gostava de ler, como Nietzsche ou Schopenhauer… No fim da estrada, sempre existe dor, sempre existe tristeza, sempre existe escuridão. Não existe emoção como esperança ou crença ou nada do tipo porque não está no cérebro filosófico usar essas expressões para provar alguma coisa. E, na minha opinião, [a filosofia] não combina com o tênis porque embora o esporte seja muito complicado, você precisa simplificar as cosas e até acreditar em algumas coisas que talvez não sejam possíveis naquele momento. É preciso ter esperança por um futuro melhor e ter a esperança de que fazer e acreditar nas coisas certas vai levar a um futuro melhor. É por isso que não acredito que a filosofia “case” bem com o tênis.

“A beleza vai salvar o mundo” (frase que Tipsarevic tem tatuada no braço esquerdo). O significado disso mudou para você com o tempo?

Não. Não tem nada a ver com o tênis. É uma frase de um livro de Dostoiévski chamado “O Idiota”. Na verdade, é uma ironia do livro, onde o personagem principal, Michkin, acredita que a beleza vai salvar o mundo. No livro, isso significa que ser bom para outras pessoas vai fazer outras pessoas serem boas com ele, mas por causa dessa crença, ele morre no fim.

Você vive seguindo essa crença?

Eu, não. Eu, não. Na verdade, eu acho que ser bom para os outros é uma virtude. Embora eu seja ateu, eu pratico a regra de “não faça aos outros o que você não gostaria que os outros fizessem a si mesmos”. Mas a ironia do livro é que ele [Michkin] estava cegamente tentando ser bom para todo mundo e ser bonito para todo mundo porque isso salvaria o mundo se todos os outros fossem assim. Infelizmente, na sociedade em que vivemos, não importa de onde sejamos, não é assim que funciona. É preciso ser um pouco mais cuidadoso.

Mudando de assunto, sua esposa é estilista. Além de ser personagem de alguns ensaios, você se envolve, se interessa por moda, ajuda a desenhar algo?

Em termos de desenhar, não. Em termos de decidir um caminho até onde não só ela, mas nós como família queremos estar daqui a dez anos. São decisões de carreira. É nisso que ajudo. Mas decidir se algo deve ser branco ou preto ou o que seja, não. Não sou um guru da moda nem nada parecido. Ela às vezes pede minha opinião e digo o que acho, mas usei casacos de atleta a vida inteira. Ela diz que eu tenho um bom olho para decidir se algo está certo ou errado, mas talvez ela só esteja sendo simpática comigo. Em termos de tomar decisões, não sirvo de guia de modo algum. É um ramo traiçoeiro. Você ganha muito dinheiro, mas você também pode perder não só muito, mas tudo que você conquistou nos anos anteriores…

E muito rápido!

E muito rápido. É um negócio muito traiçoeiro. É por isso que eu tento ajudá-la a tomar decisões inteligentes no começo da carreira – até mesmo sacrificando algum lucro agora, mas por um bem maior. Com sorte, dentro de dez, 15 anos, uma renda alta vai começar a entrar.

E você pede conselhos sobre o que vestir?

Eu peço, eu peço.

E existe algo que ela recomende que você não gosta de vestir?

Ela gosta que eu me vista bem demais às vezes, o que eu não concordo. Não estou falando de paletós, mas digamos que ela goste de camisas de cores vivas, o que eu não gosto de forma geral. Eu me visto de maneira muito simples porque visto roupa de atleta a vida inteira, então esse é o única discordância que temos. No fim das contas, eu faço o que ela diz (risos).

É uma decisão inteligente.

Esposa feliz, vida feliz.

#whatsuprio #riodejaneiro #keeppushing #atpworldtour @atpworldtour @tipsarevicjanko @castjf

A post shared by Janko Tipsarevic (@tipsarevicjanko) on

Para terminar, um pouco de tênis. Como você está fisicamente hoje?

Estou me sentindo muito bem.

Não vi seu jogo contra o Dolgopolov em Buenos Aires, mas…

(interrompendo) Que bom que você não viu [Tipsarevic foi derrotado por 6/3 e 6/3]. (risos)

Mas eu vi seu jogo contra Bellucci em Quito. Mas Quito não é bem tênis. É algo que lembra tênis, mas muito diferente, não?

Acredito que em Quito, depois de Victor Estrella Burgos, Bellucci é o pior cara para se enfrentar. Eu gosto de altitude, mas esses dois caras são conhecidos no circuito por somarem a maior parte de seus pontos em Gstaad, Quito e esses torneios malucos. Mas eu errei ao não ir para Buenos Aires mais cedo. Eu decidi ficar em Quito e trabalhar no meu condicionamento por causa da altitude e cheguei em Buenos Aires no domingo à tarde. Por sorte, meu jogo foi só na terça, mas choveu no domingo e na segunda. E antes do jogo contra Dolgopolov, eu nem consegui me aquecer porque estava chovendo. São pequenas desculpinhas bobas, mas vindo de 2.800m de altitude e sem jogar outdoor por dois dias, enfrentar um adversário bom…

Que não dá ritmo nenhum!

Não. Eu senti que estava jogando bem, em forma e tudo mais, mas ele me matou.

E o que você espera do Rio Open, além de uma chave melhor, é claro? (a entrevista foi antes do sorteio da chave, que aconteceu na noite de sábado)

Eu gostaria de jogar contra alguém e que eu possa jogar algum tênis. Estou na América do Sul há três semanas, treinei bem por uma semana e na primeira rodada em Quito venci por abandono. Depois, contra Thomaz, não foi tênis de verdade. Foi luta uma por sobrevivência, colocando a bola na quadra de algum modo. E por 1h03min joguei contra Dolgopolov um total de seis pontos com mais de cinco golpes.

Só seis?

Seis pontos com mais de cinco golpes! E ganhei todos os seis (risos). Então o que espero é jogar contra alguém que jogue tênis de saibro. Eu não me importo. Quer dizer, não é bem verdade. Não quero jogar contra Nishikori ou Thiem, mas tudo bem. Me deem alguém contra quem eu consigo jogar algum tênis.


Bruno Soares: vaidade, implante capilar e mais de quatro anos de tênis
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Demorou um pouco mais do que o habitual, mas finalmente chega o momento de publicar o entrevistão anual com Bruno Soares. Quem lê o Saque e Voleio sabe que com o mineiro há sempre material interessante – desde sempre. A conversa deste ano foi um pouco diferente. Falamos de tênis, claro, mas também conversamos bastante sobre o implante capilar a que o mineiro se submeteu há pouco tempo. Bruno ainda anda de boné por toda parte porque evitar o sol é uma das precauções pós-operatórias.

O descontraído papo é sobre vaidade, temores e decisões, mas se você só quer ler sobre tênis, tem assunto para você também. Bruno lembra dos momentos marcantes de 2016, fala da sensação de começar o ano como dupla a ser batida, compartilha os planos para a carreira e avalia a chance de mudanças no circuito de duplas em breve. Tem assunto para todos os gostos. É só rolar a página…

A gente faz essas entrevistas desde 2012, se não me engano. Na primeira delas, seu objetivo era classificar pra Londres. Mais tarde, era ganhar um slam de duplas masculinas. Hoje, você já tem dois slams de duplas, três de mistas, terminou 2016 como dupla #1 do mundo, tem um filho, está bem casado e – dizem – bem de dinheiro. Qual a motivação pra continuar jogando com 34 anos, a dez dias de completar 35?

Tenho alguns objetivos ainda. O número 1 do ranking “individual” é um deles. A medalha olímpica é outro. Ganhar o Rio Open, outro. Tem um bocado de coisa ainda que eu posso conquistar, mas o principal disso tudo é que eu ainda amo jogar tênis. Acho que esse é o mais importante. Independentemente de objetivo e coisas que você quer alcançar, quando o prazer de ficar duas horas no sol acabar, aí a luzinha vai começando a apagar e aí é hora de repensar a carreira. Acho que isso é o principal. Os objetivos a gente vai traçando para ter um norte, para rumar naquela direção e conquistar. Eu, felizmente, venho conquistando a grande maioria das coisas que eu venho traçando, e espero… Quem sabe mais cinco grand slams nos próximos quatro anos? Tô feliz da vida!

No fim de quatro temporadas, você vai estar com 39?

É. Na próxima Olimpíada, eu estou com 38.

É essa conta que você faz agora? Jogar pelo menos até Tóquio 2020?

É essa conta. Em Tóquio, eu quero estar com certeza. Depois disso, vamos ver como estou de ranking, físico, vontade e tudo mais. Mas acho que me surpreenderia eu parar por minha vontade antes de Tóquio. Eventualmente, se o nível cai, você não aguenta tanto torneio, e uma série de coisas que podem acontecer nessa jornada, mas por vontade minha, estando bem ranqueado e jogando bem, acho muito difícil.

O ano passado começou muito bom, com dois slams (duplas e mistas) na Austrália, terminou como número 1 com um slam em Nova York, e no meio disso teve a medalha que não veio e o número 1 “individual” que escapou por um jogo. Foi uma temporada de altos muito altos e – não sei se baixos muito baixos, mas de sensações muito intensas?

De sensações, sim. Quando você tem um ano olímpico como no ano passado, no Rio, e juntando com as coisas que a gente conseguiu conquistar e estando muito perto do número 1, acho que foi um ano de grandes emoções. A gente pode definir assim. Umas, muito boas. Outras que acabaram muito perto de eu conquistar. É o que eu falo sempre. Quem está no circuito e está acostumado a jogar 25, 26, 27 torneios no ano e tem um torneio de uma semana que é a Olimpíada, todo mundo sabe que a variável é enorme. Você chega lá um dia, o cara mete uma bola na linha, você acorda mais ou menos… É um tiro que você tem. É cruel! Nesse esportes que vivem da Olimpíada, é muito cruel com a turma. O cara se prepara quatro anos, de repente ele acorda e está ventando… acabou!

E aí são mais quatro anos para tentar de novo.

Mais quatro anos para tentar de novo! O cara não tem circuito. Acabou. Isso que é o cruel das Olimpíadas. E a gente… Se você tem o sonho de conquistar a medalha olímpica, é a mesma coisa. É cruel também. Batemos na trave em Londres, batemos na trave no Rio, vamos tentar de novo em Tóquio.

Eu ia perguntar que sensação tinha sido mais doída, mas pelo que você falou, não conquistar a medalha foi muito mais forte do que o número 1 que não veio…

Acho que Olimpíadas, cara. Justamente por isso. Aquilo ali, a gente estava num momento muito bom, a gente estava na briga… Hoje eu estou mais longe do número 1. Perdemos dois mil pontos da Austrália, para chegar no número 1 é um processo de novo, mas a gente estava na boa. E Olimpíada é o que eu te falei. Você perde nas quartas, acabou. Quando é a próxima? Tóquio 2020. Você fala “puta merda”, acabou. É porque você faz muita coisa pelas Olimpíadas. São dois anos que a gente estava no planejamento. Tudo que a gente faz é pensando em Olimpíadas. Em tudo que a gente montou, as Olimpíadas estavam envolvidas também. Você passa um tempo muito grande martelando aquilo ali. Obviamente, é um negócio completamente diferente. Você tem vila olímpica, cerimônia de abertura, tudo aquilo, e quando acaba, você fala “acabou”. Mais quatro anos agora. Senta e espera.

E qual foi o alto mais alto? Aquelas 16 horas de Melbourne quando você tomou 12 xícaras de café? (Bruno foi campeão de duplas e mistas em dias consecutivos)

Acho que foi. Estou tentando comparar com o número 1, que foi do caralho também, mas aquele fim de semana de Melbourne foi algo. Porque foi meu primeiro grand slam de duplas masculinas, da forma que aconteceu… A gente acabou de madrugada, não consegui dormir, naquela pilha, adrenalina, entrevista, aquela loucura… E você para pra pensar, “o que você tem amanhã? Outra final de grand slam!” Então foi um negócio meio doido, na base da adrenalina mesmo. Pouquíssimos jogadores conseguiram ganhar dupla e dupla mista no mesmo torneio. Consegui colocar meu nome num lugar muito seleto e muito especial.

Você já falou bastante sobre o motivo do sucesso da parceria com o Jamie. O que acho interessante é que vocês ganharam em Melbourne, quando as duplas ainda estavam se encontrando, e ganharam de novo em Nova York, quando todo mundo já sabia quem era quem. E agora, começar o ano como #1, como umas das duplas a serem batidas, está sendo muito diferente?

Acho que eu vivi muito isso com o Alex [Peya]. A gente não ganhou um slam, mas se firmou como uma das melhores duplas do mundo muito rápido. Em 2012, a gente começou bem. Já saímos ganhando dois 500. A turma já tinha a gente como uma referência das duplas mais fortes. Obviamente, com o Jamie foi um negócio de ganhar dois grand slams, terminar número 1… Mas eu acho que de uma forma geral, é resultado do que a gente faz. Independentemente do resultado das duplas, a gente está estudando. O Alan [MacDonald, técnico de Jamie Murray], o Hugo [Daibert, técnico de Bruno] e o Louis [Cayer, técnico da federação britânica] vão lá e fazem vídeo, falam para a gente. A gente assiste aos jogos juntos depois. Eu acredito que os outros também estão fazendo, anotando. “O Bruno gosta da sacar ali, essa é a principal jogada deles.” Esse tipo de coisa todo mundo está fazendo. Aí é a hora que entra a qualidade do jogador de variar, se inventar. É a parte mental do jogo. O cara acha que eu vou sacar ali; eu sei que se eu sacar lá, ele vai bater ali. Então fica aquele negócio de quem vai fazer o que primeiro.

Agora, mudando de assunto, o que o pessoal comenta, mas anda meio sem graça de te perguntar… Você fez implante (de cabelo)?

Eu fiz! Vergonha zero de falar! Estou de boné o tempo inteiro porque não posso tomar sol. Eu tinha ido no médico no fim do ano, mas tem um processo que exige que você fique dez dias parado. É muito complicado pra mim. Quando eu machuquei [no Australian Open], liguei para essa médica, Dra. Maria Angélica Muricy, que está sempre com a agenda lotada, e falei. Eu chegava segunda à noite no Brasil. Quarta era feriado em São Paulo. Ela falou “eu não opero feriado e fim de semana, mas vem que eu te opero na quarta-feira.” Ela é nota 1000.

Como funciona isso?

Essa técnica chama “fio a fio”. Você coloca, o cabelo cresce um pouquinho, e em 25, 30 dias, esse cabelo cai. E aí em três meses, nasce o cabelo definitivo. Não, não tenho vergonha nenhuma! Até porque eu era careca, agora não sou mais! (risos) Não posso negar, né? Se o cara pergunta “você fez implante?”, não posso dizer “não, cresceu do nada!” (mais risos de ambos)

Cidade maravilhosa #rio #rioopen

A post shared by Bruno Soares (@brunosoares82) on

Mas estava te incomodando visualmente?

Não vou dizer que sou zero vaidoso porque fiz essa parada, mas não tenho vergonha nenhuma de comentar. Mas o que aconteceu? Foi de uma hora para a outra! Eu nunca me incomodei pelo fato de estar ficando careca. Acho que ano passado eu apareci muito na TV e me vi muito e comecei a falar “eu tô careca pra caralho, velho.” Eu, pelo menos, senti isso, que fiquei muito mais careca no ano passado. Entrou demais e tal. Aí estou batendo papo com o Márcio [Torres, empresário], conversando sobre implante, mas o Márcio é cabeludo, não sabia nada. Mas o [pessoa cujo nome foi omitido em nome da amizade], que é nosso amigo, fez. Não sei nem se devia falar o nome dele porque ele pode estar escondendo. Aí mandei um WhatsApp pro cara. Ele falou “velho, zero dor, técnica nova”, e ele me explicou. Marquei uma consulta e, realmente, agora é uma técnica que você tira de trás, implanta na frente. Zero cicatriz, zero dor. É muito mais fácil.

Você então não sofreu bullying nem tem trauma de infância? Nada mesmo?

Zero, zero! Sabe por que eu animei? Porque quando eu falei com o [amigo], ele disse “zero dor”. Aí eu me animei. Fui lá, ela me explicou o processo e falei “ah, vou fazer essa porra antes que eu fique careca completamente.” Mas com quem quiser falar do implante, eu falo abertamente. Nunca tive trauma. Tanto que eu não sabia de nada [sobre o assunto antes do procedimento].

E a Bruna (esposa), o que achou?

A Bruna nunca falou um “a”. Quando eu voltei, ela perguntou, eu falei “vou operar.” Ela falou “o quê??? Não vai me consultar?” Não, já decidi, o trem é simples, vou fazer. Para ela, não muda nada com ou sem cabelo.

Pergunto porque vocês estão juntos há muito tempo, então ela acompanhou todo processo de queda, né?

Ela foi acompanhando o processo, mas quando você convive o tempo inteiro, a pessoa vai “carecando” e você vai acostumando. Você não toma um choque. Não é um cara que me viu com 18 anos e depois só me viu com 34. O cara olha e diz “ele tá carecaço.” Mas se você me vê todo dia, vai acostumando com aquela imagem visual. Mas ano passado me incomodou. No ATP Finals, tinha uns pôsteres enormes que eu olhava assim e falava “tô muito careca!” Mas aí, na conversa com o Márcio, quando ele disse que o [amigo de identidade preservada] fez… Essa técnica nova é outro nível.

Falemos de política um pouco pra fechar… O Andy Murray assumiu a presidência do Conselho dos Jogadores, e um dos primeiros assuntos que ele levantou foi o circuito de duplas. Principalmente o sign-in on-site (quando tenistas se inscrevem no torneio em cima da hora, pouco antes do fim do prazo para o fechamento)…

O lance do sign-in é muito complicado. Por que que existe o sign-in on-site?

Por causa deles, os simplistas, né?

Por causa deles. Mas por que que o Andy viu isso [Andy Murray reclamou do procedimento quando jogou o Masters de Paris em 2015]? Porque ele estava jogando com o [Colin] Fleming, então ele estava na boca do gol [correndo o risco de não entrar na chave por causa do ranking combinado]. Se ele estivesse jogando com o Ferrer, ele assinava e podia ir para o hotel dormir que ele ia entrar. Como ele precisava de conta, ele viu a loucura que é em cima da hora. Mas o sign-in foi feito para esses caras. Os caras que vão entrar mesmo… Ah, o Federer vai assinar com o Wawrinka. Ele assina e vai embora porque vai entrar. Os caras que estão na boca do gol é que ficam naquela loucura. E tem muita que é duplista e precisa entrar.

Como é essa loucura?

Eu vou assinar com você. Deu dois minutos, ele assinou. Deu três minutos, fulano assinou. Aí você tem que mudar. Eu já não estou mais com você porque senão a gente não entra. Então eu vou jogar com esse fulano…

Pode mudar depois que assina?

Pode! Rabisca e assina com outro. Acontece esse troca-troca. Mas é normal. É o seguinte: ou a gente faz tudo “advanced”, ou seja, inscreve no sistema e ninguém vê, igual nas simples, que era o formato mais normal, mas esse formato vai, de certa forma, fazer com que os jogadores de simples tenham que se programar. O Andy tem um ponto muito bom, que é organizar a situação. Todo mundo concorda. Mas tira uma das vantagens do on-site, que é atrair mais jogadores de simples de última hora.

E qual é o prazo pra inscrição de vocês?

Duas semanas. A grande maioria já está se programando. E hoje tem muito jogador de simples jogando dupla. Esses caras, antes, não se programavam. De uns dois anos para cá, isso mudou. Tirando o top 10, eles se programam. E o [Dominic] Thiem não assina on-site. Ele se programa.

E outra coisa que foi levantada, também por alguns duplistas, foi o formato da pontuação. Há um movimento ainda pequeno para que volte a pontuação anterior. Você acha possível?

Pela galera que joga e vive disso, com certeza mudaria. Mas uma das coisas que eu vejo que evoluiu muito foi trazer os jogadores de simples. Isso aconteceu. Todo torneio grande tem três, quatro top 10 e oito ou nove top 20. Mais do que isso, não dá. E tem a coisa de quadra central, mas isso está mudando. Eu até nem acho legal ter a dupla na quadra central, dependendo do torneio. Eu briguei muito por isso [no Conselho], pela possibilidade de a pessoa poder ver seu jogador favorito. A gente tinha um gap muito grande, que era só mostrar a quadra central. Com o stream, isso vai mudar. O torcedor vê quem ele quer, não quem só está na TV. Sobre o formato, acho que a mudança pode acontecer, mas principalmente da parte dos torneios, existe uma luta muito grande contra isso. Voltar ao normal, quase impossível. Mudar um pouquinho, eu vejo possível. Ou acabar o super tie-break ou acabar o no-ad, jogar dois sets normais e um super tie-break. Acho que vai ser coisa de experimentar e ver o que funciona melhor.


De Bellucci a Bouchard: um brasileiro na elite da preparação física
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Bouchard_Cassiano_div_blog

Cerca de seis anos atrás, Cassiano Costa deixou de ser preparador físico de Thomaz Bellucci. Foi pouco antes disso que conversamos pela última vez – em fevereiro de 2011, quando o tenista queria ganhar massa muscular. A chegada do técnico Larri Passos, no entanto, fez a carreira de Costa tomar outro rumo.

Hoje, o paulista de 40 anos é um dos profissionais da preparação física mais conceituados do mundo. Depois de três anos a serviço da IMG, empresa que gerencia a carreira de vários tenistas de elite, Costa agora é preparador particular de Eugenie Bouchard, ex-top 5 e considerada um dos maiores talentos do tênis atual – são os dois na foto acima, a propósito. A canadense teve lesões em 2015 e 2016, ocupa hoje o 44º posto na lista da WTA e agora busca dar um fim aos problemas físicos para voltar a subir no ranking.

O brasileiro é peça fundamental nessa engrenagem. Cassiano Costa ajudou a desenvolver uma bebida especial para “Genie” se hidratar e vem fazendo a atleta ganhar massa muscular. A canadense confia tanto em seu trabalho que paga excesso de bagagem em todas viagens só para que Costa leve todo seu equipamento especial.

Batemos um papo por Skype sobre um pouco de tudo. Continuamos de onde “terminamos”, com o fim da parceria com Bellucci, falamos de sua passagem pela IMG e do atual período com Bouchard, mas também falamos de tênis em geral. Do que faz gente como Federer, Djokovic e Nadal se distanciar do resto, de como montar calendários e de quanto as exibições de fim de ano pesam (ou não) na integridade física de atletas da elite. A íntegra está abaixo:

Vamos começar por onde terminou a nossa última conversa, que foi no Brasil Open, quando o Larri estava começando o trabalho com o Thomaz. Naquela época, muita gente dizia que o Larri preferia trabalhar sozinho e você não ficaria na equipe. A sua saída (em abril) pegou de surpresa?

O pessoal falava isso já. O Larri é uma pessoa legal pra caramba, uma pessoa fantástica e um profissional que teve um resultado brilhante com o Guga, criou o sistema e metodologia dele e tinha dificuldade de deixar outras pessoas penetrarem. Não foi novidade isso. Só que eu também tinha minha metodologia, meus resultados e, para nada atingir o Thomaz, nós acabamos decidindo que era melhor cada um seguir seu caminho. Isso acontece muito no tênis. Não é exclusividade do Larri. O pessoal fica massacrando ele, mas isso é do tênis. É difícil às vezes a comunicação entre o preparador físico e o treinador. Às vezes, quem paga o preço é o atleta, mas no nosso caso, a gente detectou rápido, e era mais fácil era mais fácil eu ver outras coisas que já estavam acontecendo e eles continuarem.

Bellucci_2011_get_blog

Nenhum problema na relação, então?

Continua tudo bem com todo mundo. Encontrei com o Larri agora no Australian Open, foi super gentil. Com o Thomaz nós jantamos várias vezes em Sydney. O João [Zwetsch] também é um cara com quem me dou super bem, então não foi tanta surpresa. É um pouco praxe isso no tênis. Está melhorando isso agora.

Esse rompimento foi em abril de 2011. Você foi contratado pela IMG em 2012. Como foi esse processo?

A história é longa. Em 2006, quando eu tive um pequeno intervalo com o Saretta, eu trabalhei com a [americana] Jamea Jackson. O treinador dela é um brasileiro que está nos EUA há muito tempo, o Rodrigo Nascimento, e a gente fez uns três, quatro meses juntos. Ela era agenciada pelo Ben Crandell, que é da IMG. Em 2009, o Rodrigo era treinador do [tenista português] Gastão Elias, e ele teve que se afastar do tênis por quase um ano. Ele teve uma lesão bem séria na coluna, e o Rodrigo me procurou. Foi um projeto exitoso porque alguns médicos tinham falado que ele não ia poder mais jogar. O Ben Crandell era o agente dele também. Em 2010, o Ben me recomendou para a [Vera] Zvonareva, e também foi um bom ano. Ela foi número 2 do mundo, então eu tinha uma boa imagem para o Ben. A IMG decidiu contratar alguém específico para o tênis, e ele me recomendou.

Entendi.

E foi uma coisa de timing. Eu teria que ir aos EUA para fazer o processo seletivo. Na época, eu estava ajudando um garoto chamado Roberto Afonso, e ele estava indo para a IMG fazer um semestre lá. Ele falou “você não quer vir comigo as duas primeiras semanas?” E calhou que o processo seletivo era na semana que nós chegávamos. Então foi um baita timing. Tudo estava encaminhado para acontecer. Já no voo de volta, eu tinha a mensagem de voz deles, dizendo que eu tinha sido selecionado. No dia 3 de setembro de 2012, eu fiz meu primeiro dia lá como preparador geral do tênis.

E esse trabalho era com todos os tenistas da IMG que não tinham preparador particular? Como funcionava?

Na verdade, eu era beeeeem ocupado. A IMG tem a academia normal, para crianças que vão desde o iniciante até o nível avançado, então são crianças de 7 até 18 anos de idade. São grupos grandes, 300 alunos por semestre. Eu tomava conta de todos esses – claro que tinha pessoas que me ajudavam, mas eu era o coordenador desse trabalho. Junto, tem os “campers”, que são as pessoas que vão fazer de uma a três meses, que é outro grupo grande, que tinha que toar conta. E os atletas que elas chamam de “junior elite”, que na época eram o Michael Mmoh, Yoshihito Nishioka, a Fanny Stollar, a Natalia Vikhlyantseva, todo mundo que aí está agora figurando entre os 100, cento e pouquinho. Esse grupo já era bem específico, cheguei a fazer algumas viagens com eles. E a gente tomava conta dos profissionais que ou não tinham preparador ou que tinham preparador que não viajava com tanta frequência, além de gente que vinha só fazer pré-temporada.

Então era bastante coisa mesmo.

Essa era a parte do tênis. Eu tinha que cuidar da parte de velocidade do futebol, uma parte específica que a gente desenvolveu lá. Quando eu saí da IMG, era assistente geral da preparação física de todos os esportes. Estava bem ocupado lá (risos). Fiquei de setembro de 2012 a 31 de dezembro de 2015.

E se somar esse período todo, então você trabalhou com mais de 30 jogadores que estiveram nos Jogos Olímpicos do Rio?

Mas não é que todos fizeram tratamento integral comigo. Alguns fizeram avaliação, alguns fizeram dois treinos, alguns fizeram dois meses, mas tivemos 34 ou 36 na chave da Olimpíada, estou sem o número preciso aqui, mas de alguma forma nós auxiliamos. É que aqui nos EUA eles contam muito o “trabalhei com atleta olímpico”, então a IMG deu um número para mim com “X jogadores que estiveram aqui no seu período.”

Thiem_AO17_get_blog

Hoje, dentro do circuito, como você vê a importância que o os tenistas de elite dão ao aspecto físico? Ainda tem muita gente jogando além do que deve ou já existe uma consciência geral de que não dá para “entupir” o calendário?

Acho que o Dominic Thiem [foto acima] está sendo um pouquinho a exceção da regra agora.

(risos) Se você não falasse, eu ia perguntar sobre ele.

Acho que ele é um cara que é novo, quis se meter no top 10 e, enfim, sai um pouco da regra. A maioria dos atletas bem ranqueados ficam na casa dos 20 a 24 torneios por ano, não muito mais do que isso – o que ainda pode ser considerado alto, mas eles têm a obrigação de jogar 18 torneios de qualquer forma. Eu vejo que os atletas europeus, na maioria, e os americanos estão começando a reduzir o número de jogos e torneios, estão começando a selecionar melhor. Para nós, sul-americanos, e para os asiáticos, é muito mais complicado. Boa parte do tour é nos EUA/Canadá ou na Europa, então quem perde volta para casa, tem uma situação melhor para treino. Nós, não. Você vai para jogar na Europa, tem que jogar tudo. Se você perder, vai ter que pagar quadra de treino, hotel e tudo. É melhor você estar num torneio, que te salva dois, três dias desses custos, do que ir só treinar por conta própria. Então nós acabamos jogando um pouco mais por uma logística complicada. Com a Bouchard, se a gente vai jogar Washington… Deus que me livre, mas se ela perde a primeira rodada, volta para casa. Volta para treinar, para descansar. Um brasileiro tem que colocar um torneio na segunda semana, tem que entrar na dupla, tem que fazer um samba para não ficar tão caro.

Além do custo, o quanto essa viagem de 10h, 11h, 12h atrapalha fisicamente?

Essa é outra parte porque… O que vai acontecer? O europeu perde um torneio, viaja de trem uma hora e está em casa. Imagina nós, 11h, 14, 16h, jet lag, tem que voltar em menos de uma semana. Tem custo, logística, a parte física e a parte mental também. As viagens longas não são algo que todo mundo faz com bom humor, né?

Exibição no fim do ano atrapalha muito fisicamente? Os diretores de torneio reclamam que fizeram um calendário mais enxuto porque os tenistas queriam mais férias. Só que eles pegam as férias e vão jogar IPTL ou exibição em algum lugar qualquer. E aí os diretores ficam putos porque é dinheiro que circula fora do circuito. Mas e fisicamente?

Ah, eu, particularmente, não gosto muito da ideia. Entretanto, você às vezes tem que respeitar as decisões da equipe toda. Você tem a expectativa de várias pessoas dentro de uma equipe. Você tem, primeiro, o trabalho do agente, que vai tentar explorar a imagem do atleta dele e captar recursos financeiros em troca disso. Muitas vezes, nos torneios, por os atletas estarem muito envolvidos com a competição, não se tem muita chance de fazer isso. Nas exibições, você tem uma oportunidade melhor. Junto com isso, o appearance fee [cachê], em geral é altíssimo, então chama atenção do atleta. Para nós, preparadores, claro que preferiríamos que o atleta investisse esse tempo em repouso ou treinamento. O que tem sido feito agora é que os atletas fazem uma pausa anterior ou você tem mais transições durante o ano para já incluir no calendário as exibições.

Entendi.

Se você pergunta “o atleta gosta de jogar?”, ele gosta de jogar. A verdade é essa. Eu ia ficar surpreso se o cara chegasse e dissesse “eu adoro fazer agachamento, ficar dando sprint”. Mas eles estão entendendo também a necessidade de se preparar melhor para o ano, então já não jogam todas as vezes. A liga asiática [IPTL], a maioria do pessoal que está indo acaba não jogando tantos torneios antes de Melbourne ou tiram fevereiro para treinar. Eles estão adaptando o calendário. Quem não fica feliz é o pessoal da ATP e da WTA? Quem está se favorecendo são os empresários das exibições.

Mas causa muito desgaste para quem joga?

O risco de lesão é iminente a temporada toda. Não seria a exibição que aumentaria sozinha esse risco. A minha maior questão é como é tratada a temporada como um todo. Se você me fala “o cara não jogou o ATP Finals no fim do ano” e teve uma pausa de duas, três semanas, aí treinou uma semana e meia, duas, foi para exibição e volta para dar continuidade em mais duas, três semanas de preparação… Na verdade, é um bom plano. Não é um plano que vai por tanto em risco em risco a integridade dele. Ou o cara joga o ATP Finals, tira duas semanas de descanso, vai jogar a liga ainda no ritmo que ele teve do ano. Passa a liga, tira três semanas de preparação, joga Melbourne e aí descansa mais umas duas semanas, se prepara em fevereiro e vai jogar Indian Wells… Não é um mau plano. É só um plano que talvez a gente não esteja tão acostumado. A gente estava mais vinculado àquele “termina em novembro, descansa umas semanas em dezembro, prepara e joga no começo do ano.”

Tudo é questão de planejamento, então…

Exato. Pra mim, é complicado se a exibição chega sem muito aviso prévio e você está sobrecarregando o atleta. Aí, sim, eu acho que põe em risco. Eu peguei ela [Bouchard] já no começo da pré-temporada, mas já se tinha em mente que existia a possibilidade dela jogar a Ásia [IPTL], então já havia um plano para aquilo. Ela já sabia, sei lá, desde julho/agosto. Não é algo que foi forçado no calendário dela. Já estava planejado.

Falando mais especificamente sobre a Genie, então… Vocês começaram a trabalhar quando?

Nós começamos a pré-temporada na segunda semana de dezembro de 2016. Em 2015, eu a ajudei por uma semana, enquanto ela estava numa transição de preparadores físicos, e ela foi treinar na IMG. treinamos ela por uma semana, mas ela deu sequência com a equipe dela. Aí agora a gente começou oficialmente na pré-temporada.

Bouchard_Cassiano_div2_blog

E esta parceria de agora veio por causa daquele trabalho de 2015?

É. O Thomas Högstedt, treinador dela… A gente se conhecia da IMG, ele tem duas afilhadas que jogam juniores e elas treinam na IMG. Eu as treinava, aí a gente começou a conversar, estabelecer uma relação, etc., e quando ele treinou a Genie em dezembro de 2015 até março de 2016, sempre falou no interesse de trabalhar junto comigo. Quando eu disse para ele que não tinha mais interesse de continuar no Strykers [Fort Lauderdale Strykers, time de futebol], ele ainda estava com a Madison Keys, que tinha seu próprio preparador físico. E quando ele fechou contrato com a Genie, ele lançou a ideia, ela foi positiva e surgiu a oportunidade.

Como foi a primeira conversa de vocês? Ela já tinha algo em mente sobre o que queria fisicamente?

Foi engraçado porque um pouco do que ela sentia eu, de vê-la jogando, já compartilhava a ideia. A gente só refinou essa ideia. Nossos três pontos principais são os seguintes: o primeiro – isso aí é um pouco regra geral – é deixar ela saudável o suficiente para não ter lesão na temporada. Ela teve em 2015 e 2016 umas pequenas lesões que incomodaram, que não deixaram ela jogar no top dela. O segundo é aumentar um pouco a massa muscular dela. Para não dizer que ela só quer ficar grande, não é bem isso. Ela se sente mais confortável jogando com o peso um pouco acima do que ela estava no começo da pré-temporada. Ela se sente mais forte e, na linha do treinamento físico, a gente sabe que a força é um grande componente da potência, que vai auxiliar os jogadores a não terem lesão, e às vezes, para desenvolver a força, existe um pequeno aumento de massa muscular. Nada grande, nada que vai transformar ela numa Serena Williams. As coisas não acontecem assim. Mas ela vai aumentar uns dois, três quilos de peso total corporal. Visualmente, vai haver uma diferença. Sei que muitas das pessoas do tênis dizem que ela vai ficar mais pesada, é mais massa para carregar. Também não é verdade. Os corredores de 100 metros, que são os mais velozes do mundo, são caras com boa estrutura física. Tudo isso é coordenado. Ganho de massa, tonificação… Não é que a gente está só aumentando o peso dela, mas é algo com o que ela se senta mais confortável jogando. E o terceiro ponto, que eu dialoguei mais com o Thomas e ela concordou, é que nós achamos que existem alguns pontos do footwork que ainda existem chance de melhora, e vai ser outro ponto que a gente vai atacar. Não é que não seja bom, mas a gente quer deixar em um nível ainda mais alto. Ela é uma menina rápida, então dá para explorar isso bastante.

Não sei se foi impressão minha, talvez pelo que ela vestiu em Sydney e Melbourne, mas eu já achei ela mais forte neste começo de ano. Pelo menos o bíceps foi algo que me chamou atenção. Isso já é resultado desse trabalho ou foi só impressão?

Já é. É até um ponto legal porque ela viu uma das fotos dela… Eu e o Thomas já falávamos para ela. “Sua perna já está mais forte”, mas ela dizia que olhava algumas fotos e não percebia. Aí ela viu a primeira foto do primeiro jogo no Australian Open e falou “caramba, não tinha essa impressão”. É mais ou menos o que o pessoal vai vendo. Não vai fugir muito daquilo. Uma coisa que nós percebemos é que em Sydney ela fez semifinal e perdeu um pouquinho de peso na semana. Aí a gente conseguiu recuperar. Em Melbourne, ela também perdeu um pouquinho de peso, então a gente só vai fazer um controle para que aquela imagem do primeiro jogo seja bem similar à do último jogo.

A bebida que ela toma durante os jogos foi desenvolvida também por você, não? Como foi esse processo? O que você pode contar sem revelar o segredo?

A maior preocupação que a gente tem nos EUA, principalmente, é que os atletas tendem a sofrer muito na umidade. Muitos chegando a ter cãibra de corpo inteiro ou síndrome de exaustão ao calor. A Genie nunca teve, mas como outras jogadoras, é uma condição que ela não joga tão confortável. Sendo um pouquinho científico para entender, uma das propriedades que uma bebida precisa é facilitar a entrada das substâncias que ela carrega na passagem pelo estômago, indo para o intestino. Isso depende de um conceito chamado osmolaridade, que é uma troca de pressão entre as moléculas de uma substância. Resumindo: a gente precisa de algo que empurre as coisas para dentro do estômago – ou que facilite isso. A bebida que foi desenvolvida aqui nos EUA, curiosamente, por um grupo de argentinos, tem a osmolaridade diferenciada. Isso ajuda a hidratação. Quando comparada com outras bebidas – que eu não vou citar o nome – ela tem um melhor resultado na hidratação geral. Então a gente adaptou uma outra bebida conhecida para hidratação de crianças, a gente adaptou para o nível de esporte. A gente testou com ela, testou com o [Vasek] Pospisil, e ele é uma pessoa que eu treinei bastante aqui e tinha o interesse de testar. Tivemos bons resultados. Eu levei isso para o futebol, tivemos bons resultados no Strykers. E aí ela [Genie] se interessou em tomar. É uma bebida que, sozinha, não vai fazer todo o segredo. A gente mistura com outras coisas. No caso dela, que é uma atleta patrocinada pela Coca-Cola, a gente mistura com Powerade, então fica tudo organizado.

Quando você fala de hidratação, não consigo não pensar no Thomaz [Bellucci], que é um cara que tem muito problema quando joga em lugar úmido. Já havia essa situação quando vocês trabalharam juntos?

Não. Infelizmente, até a linha de estudo que estava sendo conduzida, o Thomaz seguiu por um tempo e foi muito bom, era uma linha voltada para déficit vitamínico e etc. O grande mérito aí é do Dr. Ronaldo Abud, que ajudou. Por um tempo, surtiu grande efeito. Depois, eu já não estava com ele na equipe, não sei que aconteceu depois, mas uma vez a gente bateu um papo e ele disse “as vitaminas já não são suficientes”, mas eu também não tinha nem muito conceito sobre isso.

Bouchard_Cassiano_div3_blog

Voltando à Genie, o Daniel [Costa e Silva, assessor de imprensa de Cassiano], me contou que ela paga excesso de bagagem para você levar uma mala com seus equipamentos. O que tem de especial nessa mala?

Tem tudo, cara. Primeiro, tem o convencional, que todo jogador de tênis leva ou deveria levar. Corda para pular, borracha elástica para fazer exercício, uma medicine ball leve para usar no aquecimento, uma escadinha… Aí eu levo algumas particularidades. A gente tem umas luzes chamadas fit light, que trabalham reação visual e coordenação óculo manual. Numa característica mais próxima do tênis, eu consigo controlar o tempo, então viajo com isso. A gente tem outros dois sistemas. Um que numa peça sozinha eu consigo fazer vários movimentos feitos numa academia, com maior fundamento para o tênis, para trabalhar aceleração e desaceleração. E, por fim, eu tenho um aparato biomecânico para avaliar se os movimentos dela estão corretos. Fica uma mala extra porque se eu fosse misturar na minha, não ia nem caber, e ela tem muito interesse, então falou “não tem problema, vamos levai isso aonde nós formos.”

Por estar no meio dessa elite, você vê que gente como Federer e Djokovic faz algo especial em preparação física ou só o fato de terem mais dinheiro já ajuda o bastante, com a possibilidade de preparadores físicos e equipes maiores?

Tem vários pontos. O primeiro que você levantou é muito bom. O fato de ter condição de investir num time faz uma diferença tremenda. Por exemplo, não é todo mundo que tem a conveniência de pagar cem ou duzentos dólares numa mala para viajar o mundo inteiro. “Mas só 100, 200?” Quando você multiplica por todas semanas, vira um número grande. É um exemplo chulo, mas é verdade. Então, sim, essa turma tem condição de se preparar melhor já pela logística. Segundo e que eu vejo como característica tremenda que vejo neles, é o nível de profissionalismo e seriedade que eles têm com as coisas. Não que outros não tenham, mas o deles é acima da média. O cara entende o benefício que as coisas vão trazer para ele, e ele vai fazer no seu máximo. Vejo muitos atletas que reclamam “ah, mas não consigo”, “ah, mas o dinheiro” e quando você vê a aplicação da pessoas em todos os aspectos, falhou aqui, falhou ali e justifica. Outra coisa: eles têm uma energia mental muito boa. Alguns deles trabalhando meditação, mental coaching ou algo natural como o Nadal. Mas uma característica similar a todos eles é uma estabilidade e uma força mental, uma capacidade de reagir. Para mim, sendo sincero, em nível técnico tenho a impressão de que Federer e Djokovic desenvolvem um pouco mais do que a maioria, mas a força mental e, depois, a força física é onde vejo que as coisas fazem uma diferença tremenda.

Verdade.

Eu tive a oportunidade de ver o Federer aquecendo para o segundo jogo dele em Melbourne, e você vê que o cara está bem relaxado, conversando com o pessoal, vendo os outros jogos e tranquilo. Aí o técnico fala “vamos lá, vamos aquecer”, e o cara “bum”, se fecha no momento dele, com muita confiança, muita concentração. Acho que nisso a grande maioria ainda está longe. A força mental desses caras é de outro mundo.

Eu acabei esquecendo de perguntar lá no começo, mas você saiu do futebol para o mundo do tênis em 2006, a convite do Raí. E como foi essa transição? Qual foi a maior dificuldade?

Eu tive muita sorte de ter o [Flávio] Saretta como primeiro atleta por vários motivos. Um dele foi ele ser um cara que estava num nível altíssimo e teve a paciência de me ensinar o esporte corretamente. Eu não tinha jogado tênis. Eu não tinha noção de grip, tensão de corda, nada. E são coisas que, no futuro, você vê quanta diferença faz. Mas eu fui ler muito a respeito, perguntei para muita gente, mas quem me ensinou muito foi o Saretta. Ele via que eu fazia uma coisa errada, aí ele vinha e dizia “presta atenção nisso daqui, você tem que saber isso daqui. Eu sei que no futebol é assim, mas no tênis é daquele jeito.” Depois, quando o Jaime Oncins integrou a equipe dele, foi outra pessoa a quem eu devo muito. Esses dois caras foram muito pacientes em me ajudar na transição. Só para você ter uma ideia, o primeiro jogo do Saretta que eu fui ver foi o Aberto de São Paulo. O árbitro chamou uma bola ruim, e eu reagi que nem futebol. Ele e o Jamie me olharam e falaram “calma, calma, o ambiente aqui é diferente.” (risos) Mas é um esporte bárbaro, hoje é minha verdadeira paixão, gosto mais do que de futebol – espero que meus amigos do futebol não leiam isso (risos). É incrível porque reune muitas ações de coordenação, muita agilidade, muito timing, poder de concentração. Você tem que estar atento à forma que o cara joga, a forma que ele segura a raquete… A mínima mudança no serviço pode trazer um monte para o corpo dele, então você tem que estar no topo disso e reagir junto com o atleta. Mas foi um período engraçado (risos). O primeiro mês foi um desastroso feliz. Acho que errei muita coisa, mas o Saretta relevou e mostrou o caminho. Foi um período engraçado. Outro dia, estava lendo uma planilha de treino de 2006 e falei “caramba, que loucura!” Como, graças a deus, eu evoluí.


Bia Haddad: sobre meditação, expectativas, contas a pagar e amor no tênis
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Bia_Ruschel_blog

“Se eu estivesse ganhando jogo, você saberia.” Foi assim, direto, mas sem mágoa, que Bia Haddad reagiu quando lhe disse não saber que ela morava no Rio de Janeiro há um ano. E a paulista foi assim a conversa inteira, que durou 30 minutos marcados no relógio. Direta, sem fugir de respostas e dando opiniões.

O papo era sobre 201/6/17, mas falamos de muito mais do que tênis. O esporte serviu de ponte para abordarmos educação, ioga, finanças e um bocado de outros temas. Bia falou sobre como quer jogar em 2017 – agressiva, mas se movimentando melhor em quadra -, mas também comentou o quão duro é chegar de uma viagem vitoriosa com dois patrocinadores a menos (Correios e Asics).

A paulista de 20 anos, atual #172 do mundo e #2 do Brasil, também falou do trabalho de meditação que faz no dia a dia, do que acha sobre quem larga o colégio cedo para jogar tênis, de aprender a controlar expectativas e do momento do tênis feminino. E falou bastante, sem titubear.

Bia só ficou sem jeito quando comentou – a meu pedido – o namoro com Thiago Monteiro. Procurou palavras, mudou frases, ficou com o resto vermelho. Mas quando começou a falar – e Bia gosta de falar! – mostrou todo orgulho que sente pelo namorado e sua ética de treinos.

Sim, a entrevista é grande (se você é leitor do Saque e Voleio, sabe como as coisas funcionam por aqui), mas é um papo delicioso que vai te fazer conhecer e entender melhor a menina que há muitos anos é vista como maior esperança do tênis feminino no Brasil. Role a página e curta.

Bia_div7_blog

Em 2015, você terminou a temporada como 198 do mundo. Hoje, você é 172. Você usa ranking como parâmetro para dizer se um ano foi positivo, mesmo considerando que ficou seis meses sem jogar no ano passado?

Em 2015, eu terminei sem jogar sete meses, então não dá pra comparar um ano com o outro. O principal foi que neste ano eu tive mudanças. Em 2015, eu ainda morava em Balneário Camboriú. Este ano, vim treinar na Tennis Route, que é um centro de treinamento super diferenciado no Brasil. Estou aprendendo coisas novas aqui, então essas 20 posições aí que eu ganhei não têm nada a ver com ser melhor ou pior. Este ano foi um ano de mudanças, de consolidação de algumas coisas. Técnica, física, mental, alimentação… Mudei várias coisas. Não estava preocupada com resultado em nenhum momento. Tirando essa última gira, não foi um ano de muitas vitórias, mas foi um ano que consegui colher um pouco do que eu trabalhei durante o ano todo agora, no final dessa gira.

Você vem viajando com quem?

Essa última gira eu fiz com o Paulo [Santos], fisioterapeuta, e vou para a Austrália e Shenzhen com ele, mas aqui na Tennis Route eles têm toda a equipe. O João [Zwetsch] e o Duda [Matos] são os coordenadores e tenho alguns treinadores para o dia a dia, mas para viajar, por enquanto estou viajando com o Paulo.

Mas no balanço, você considera um ano positivo, então?

Muito positivo! Independente de resultado, de eu não ter alcançado meu melhor ranking, foi um ano em que eu evoluí muito. Eu me solidifiquei pra entrar em 2017. Isso foi o principal.

Qual foi o melhor momento do ano? O fim mesmo?

Acho que agora (risos de ambos). Essa gira… Essa gira foi essencial pra mim porque o Paulo pôde estar do meu lado, e a gente fez um trabalho mental show que fez muita diferença. Eu também voltei a jogar feliz, mais tranquila. Me apeguei bem às minhas rotinas tanto dentro quanto fora da quadra e foi um ano que eu dei meu melhor. Puxa, saí desse ano sabendo que dei meu melhor em TODOS dias, independente de estar perdendo ou ganhando. Fiz o que eu podia fazer, então estou satisfeita.

Você falou em “mental” e “rotina”. Em março, você já estava fazendo meditação todo dia. Como isso chegou até você? Você procurou alguém, alguém te procurou, como foi?

Na primeira vez que eu tive contato mesmo, eu treinava no Larri [Passos], e ele sempre falou. A mulher dele praticava ioga, e ele sempre falava que pra mim ia ser muito bom fora da quadra. Eu tinha uma professora lá em Balneário que me ajudava duas, três vezes por semana, mas nunca foi uma rotina que… Eu fazia ali como se fosse uma aula de pilates. Fazia uma aula de exercícios também e, quando viajava, muitas vezes eu deixava de fazer. Aqui na Tennis Route, eu voltei a praticar diariamente. Todo dia antes do café da manhã eu faço. São as minhas rotinas. Tem algumas mentalizações, algumas respirações antes do café do manhã, pra começar do dia bem, e antes de dormir, à noite. São momentos do dia que a gente dá para a gente mesmo. Tem gente que se sente bem com outras coisas, mas me apeguei a isso e estou gostando.

Você faz visualização do tipo antes do jogo, de pensar “minha direita tem que estar assim”, minha esquerda…

(interrompendo) Não, não. Na verdade, não é só para o tênis isso. É pra minha vida, tanto que fora da quadra, até atitudes eu estou tendo diferentes. É mais para eu conseguir mais viver o presente e saber que eu estou fazendo o meu melhor. E não é só jogando tênis. É cumprimentando uma pessoa, é no estresse do dia a dia, então influencia muitas coisas.

Bia_div_blog

Você lê alguma coisa sobre zen-budismo? Porque você está me dizendo coisas que eu li em livros desse tipo…

Não, mas eu cheguei a ler uns livros do [guru indiano Paramahansa] Yogananda. Tem muita relação com isso, né? E eu aprendo muito com o João Zwetsch. Ele me ensina muita coisa. Nas poucas gente que a gente conversa, o papo dura bastante. Os dois gostam de falar (risos). No fundo, tem gente que se apega a religião, tem gente que se apega a ioga, meditação, e tem gente que se apega a outras coisas, sei lá. Todo dia de manhã vai lá na praia e volta. Às vezes, aquilo ali coloca a pessoa bem. Então é muito relativo. Pra mim, isso encaixou e independente de ser ioga ou não, eu estou me sentindo bem. Isso é o que vale.

Você já leu um livro do Phil Jackson, aquele que foi técnico do Chicago Bulls do Michael Jordan? Não sei se você curte esse tipo de livro… Um livro chamado Cestas Sagradas…

Não, não. Achei que você estava falando daquele Jogando Para Vencer.

Não.

Esse é muito bom!

De quem é?

John Wooden, um treinador da NCAA. Ele foi dez vezes campeão da liga. É muito bom, muito bom.

Mas nesse livro do Phil Jackson, ele conta que distribuía livros aos jogadores quando tinha uma sequência de jogos fora de casa. Cada livro tinha alguma mensagem que normalmente tinha relação com o papel que o Phil Jackson queria que o jogador fizesse no time. E um desses livros era de um mestre japonês chamado Shunryu Suziki. O livro chama Zen Mind, Beginner’s Mind. E era sobre você aprender ou reaprender a ver as coisas do dia a dia como se fosse criança, como se tudo fosse novidade. Para você não se deixar cair na banalidade do dia a dia, sabe?

É, não criar expectativa! Tem muita gente que espera algumas coisas que não tem que esperar. Tipo assim: se eu ficar esperando ganhar um torneio, eu não vou ganhar. Eu tenho que ir lá, sacar, fazer meu forehand porque ali eu tenho chance de ganhar o ponto pra ter chance de ganhar o game pra ter chance de ganhar o set porque a outra também está fazendo a mesma coisa! O tênis, cara, é muito difícil. Todo mundo hoje está bem fisicamente e mentalmente, e a cabeça comanda, no fundo, né? Tem que estar muito tranquila porque você já tem a bola, a rede e a linha contra você. Tem o outro jogador, tem a torcida… Se você se martirizar toda hora, você está ferrado.

Você falou em “esperar”. Ainda te incomoda as pessoas esperarem tanto de você?

Cara, pra mim não muda nada. Se falarem que eu vou ser boa, que eu saco bem, que eu bato bem… O que eu tenho que fazer é entrar na quadra, dar o meu melhor e acabou. Achar não resolve nada. Pô, eu acho que, sei lá, o Thomaz pode ser número 1 do mundo…

(interrompendo) Mas esperar é pior, né? É mais forte!

É, esperar. Você espera que eu seja número 1 do mundo… É a cultura do brasileiro. Eles são carentes de ídolo, né? Então se não for o Guga, não está bom. Olha o Thomaz. Desculpa a palavra, mas o Thomaz joga pra caralho! Ele joga muito tênis, é um cara que para mim pode estar entre os 20 do mundo tranquilamente. Ele tem cabeça boa, mas é aquilo… Os caras contra quem ele joga… As pessoas não têm noção. Quem fala isso, não tem noção da realidade. É muito mais duro. É muito treino, é muita força de vontade e dedicação pra você ter uma chance. Para você ter chance! Nada está garantido.

Isso vem um pouco porque muita gente não tem noção mesmo da profundidade do tênis, né? O tamanho do buraco…

É muita coisa que influencia. É muita coisa em volta que as pessoas não veem. Como chegar e dizer “é só jogar a bola aqui que a Bia erra”. Pô, você sabe quantas bolas eu treino pra falar isso? Você acha que eu não sei que tenho que melhorar minha movimentação? Sabe quantas vezes por dia eu corro na quadra pra melhorar minha movimentação? Só que eu tenho “dois metros”, você quer que eu faça o quê?

Bia_div5_blog

Você tem quanto de altura mesmo?

1,85m. E querem que eu me mexa que nem a Halep. Não, mas eu vou! Pra mim… Eu quero ser a mulher mais alta que se movimenta melhor. Porque você vê a Kerber, a Halep, a Azarenka, as mulheres correm hoje.

Eu tinha perguntado lá no começo sobre seu melhor momento do ano. E o pior, qual foi?

Pior momento? (pensativa)

Teve um pior momento?

Cara, não tive um pior momento. Acho que todos momentos foram especiais.

Fed Cup, talvez? Ficou com um gosto amargo porque era um confronto ganhável [o Brasil perdeu da Argentina por 2 a 1]?

Não, não. A menina jogou muito, a Nadia [Podoroska]. Eu tinha ganhado dela na semana anterior, tinha feito duas semis seguidas, estava cansada, e a menina foi superior. Mérito total da Argentina.

E a Olimpíada, como você viveu? Tanto a parte de não jogar quanto a de ver os Jogos Olímpicos na cidade…

Ah, eu curti. Estava aqui, fui lá. Vi basquete, vi handball, tênis de mesa, achei demais! Tênis de mesa foi o mais legal de ver, o handball do Brasil foi show, os meninos estavam jogando muito bem, uma equipe unida. Acho que todos estádios onde o Brasil estava jogando, a energia estava sensacional. Não esperava que fosse repercutir tão bem. A abertura foi linda, o encerramento foi maravilhoso. Lá fora todo mundo dizia que era no Rio, “tem tiro, vou morrer”…Foi demais. A gente mostrou para o mundo que Brasil é tão ou mais capaz do que outros países de fazer qualquer coisa. Foi sensacional.

Do tênis, você viu alguma coisa?

Na TV só. Eu tentei ir um dia, mas não tinha como pegar ingresso…

A CBT não tinha ingresso pra dar?

Não, não [foi isso]. Até tinha algumas opções, mas coincidia porque eu tinha treino. Acho que eu podia ir na final ou um dia, mas não coincidiu os horários, por isso eu fui nos outros esportes. Mas só de estar todo mundo aqui do lado de casa, achei demais.

Avançando… você terminou com ano com dez vitórias seguidas e dois títulos em ITFs de US$ 50 mil. Aí volta pra casa, acaba o contrato com os Correios, e a Asics está saindo do tênis. Bate um desânimo?

Está sendo um momento delicado para todos. Eu sei porque para o Thiago [Monteiro] também sei que está difícil. Para o Thomaz também está difícil. Para todos está difícil. Hoje, assim, estou muito tranquila no que eu tenho que fazer, que é jogar e seguir nessa pegada. O que vai acontecer fora da quadra vai depender do meu dia a dia e de como eu for este ano [2017]. Não esquento com esse negócio de patrocínio e dinheiro porque se você ficar jogando pelo dinheiro, “putz, não vou pagar minha conta”, não [dá certo].

Com o que você tem de patrocínio e com a IMG, você consegue jogar tranquila o ano, no calendário que você quer?

Não, não. Não, vou te falar que, pô, terminei com dez jogos invictos, número 1 do Brasil até agora [Bia estava à frente de Paula Gonçalves no dia da conversa], e começar o ano sem saber como vai começar é muito difícil. Hoje, para você, por exemplo, pagar um treinador, um centro de treinamento, para ter uma viagem e pagar alimentação sua e do seu treinador, hotel do treinador, transporte… Às vezes tem que trocar uma passagem, tem que treinar aqui, ali… É muita coisa que envolve. É muito caro, e vou te falar que o momento está duro para o Brasil. Eu estou no meu melhor momento do ano, e a gente está tentando achar alguma coisa porque… Eu tento não me preocupar com isso, mas sei o quanto é importante. Sei que vou conseguir resolver meus problemas dentro da quadra.

Nesse calendário que você montou, começa no WTA Shenzhen, onde você ganhou convite…

Aí tem Austrália, Fed [Cup], [ITF de] Surprise, [ITF de] Santa Fe e [WTA de] Acapulco.

Isso já está fechado, dá pra fazer com tudo pago?

Não, hotel e passagem ainda não comprei, mas é o plano A. Aí tudo depende. É claro… Se você toma cinco primeiras rodadas, aí você vai pra Challenger. Você ganha um WTA, muda. Tudo depende de como você estiver indo, mas a ideia é essa.

Bia_div3_blog

E você estabeleceu uma meta pra 2017?

Na Tennis Route, eu tenho meta de estudo, meta de tênis e meta minha comigo. Essas três. A minha comigo é terminar bem fisicamente. Graças a deus entrei numa linha que não estou mais me lesionando, não existe mais cãibra, essas coisas. já passei por isso e já estou muito bem de cabeça. A gente está trabalhando coisas muito específicas do meu jogo, então quero começar na quadra, independente de ganhar ou de perder, começar a colocar o que eu venho fazendo no treino dentro do jogo.

O quê, especificamente?

Ah, eu acho que o tênis hoje está muito agressivo. É buscar mais a rede. As meninas estão cortando o tempo, usando muitas paralelas. O tênis está renovando toda hora. As meninas acabaram emagrecendo e isso, você correr mum rali, jogar em pontos longos, ter a possibilidade de, num ponto importante, a menina dar um drop shot, e você chegar na bola… Minha maior arma sempre foi meu saque e minha força, só que eu posso treinar para ser sólida que nem a Kerber? Por que eu não posso fazer isso? Então emagreci para tentar estar rápida. Tem muita coisa que envolve. Eu sou grande, sou canhota, tenho que jogar agressiva, mas tenho que buscar onde melhorar. Ficar mais magra já está me ajudando muito. Você se sentir bem, saber que ganhou o ponto sem usar tua maior arma, isso é demais! É muito legal.

E isso passa a confiança para o resto. Em qualquer jogo que estiver pau a pau, se você ganha dois ralis realmente longos, isso muda muito a balança do jogo porque mexe com a cabeça da outra…

E mulher oscila. A gente oscila muito, né? Você vê direto jogo de 4/0 ficando 4/4 e aí uma faz 6/0, a outra faz 6/1…

O saque tem um peso menor também, né?

Aí eu acho que já tenho mais vantagem porque sou uma menina alta e saco pra ganhar o ponto no saque. Isso é bom, mas ao mesmo tempo eu tenho que treinar mais a minha devolução. Cada uma tem suas especificidades. Mas a minha meta é isso aí. Em relação a ganhar jogo, cara, se eu fizer meu melhor e ganhar ou perder, já está bom.

A meta de estudo como é?

E faço administração na Estácio. Tenho as minhas notas, minhas médias, então minha meta é sempre estar bem. Sempre fui bem no colégio, nunca tive problema, e sempre quis manter isso. Até o Thiago faz o mesmo curso que eu, e a gente faz as mesmas provas. Essa semana, a gente tem quatro provas. A gente tem a pré-temporada também, mas dá tranquilo porque tem muito tempo de viagem, aeroporto, onde dá tempo de estudar. Estou curtindo, terminando o segundo ano.

Você sempre estudou em colégio com aula presencial?

Eu fui até o último ano. Eu fiz o terceiro ano [do ensino médio] à distância porque deu um problema com o colégio, e eu tive que fazer à distância.

Eu imagino que seja complicado isso…

Você indo pra aula, já perde meio período de treino, mas acho que nessa idade é importante ir pra aula. Tem gente que é louco, larga o colégio na sétima, oitava série. Pra mim, isso é totalmente loucura. Largar o colégio, jamais! Acho que a pessoa que faz até o terceiro ano pode tranquilamente jogar tênis. Eu hoje faço faculdade e jogo tênis. E hoje tem ensino à distância, que facilita muito. Eu sei de outros atletas que fazem, não é só tenista. Porque não é um país de cultura do esporte. Não é que nem nos EUA, onde o cara vai para o college. E no college também não sei se dá pra você ser profissional. É duro, você tem que ver o que é melhor pra você e suas prioridades. Se você tem a prioridade de estudo, talvez treinar meio período não é ruim. Se sua prioridade é ser um bom jogador, um profissional, então às vezes tem que abrir mão de outras coisas. Mas tão cedo não é necessário.

Bia_div8_blog

Agora vem cá… Foi um grande agito em fóruns – não sei se você costuma ler isso – quando se soube que você e o Thiago [Monteiro] estavam namorando. Como é namorar tenista?

A gente é muito parecido, assim. É… (pensando) A gente é muito tranquilo, não é de sair muito…

Vocês se conhecem desde Camboriú, né?

É, a gente é muito amigo desde muito tempo. A gente viajava junto, né? Acho que teve uma viagem que eu fiz que eu tinha 11 anos, ele tinha 13, pra jogar um Sul-Americano de 14 na Venezuela. A gente nunca imaginou que fosse namorar! A vida é muito louca, né? Mas o importante é que ele me ajuda, eu ajudo ele. A gente tem noção que o tênis na nossa vida é o nosso trabalho, é o mais importante no momento. A gente tem uma vida em que se vê muito pouco também porque quando um está viajando, o outro volta. Ele está aqui no Rio, eu tô na China. Aí eu volto, ele está não sei onde, é duro. Mas o mais importante é que a gente está bem, está tranquilo.

Ele estava com você nessa última viagem, não?

Ele estava, ele estava.

E como é ganhar um torneio com o namorado ali do lado?

Ah… (envergonhada)

Você ficou vermelha agora… Por que você tá com vergonha?

É que a gente sempre foi muito amigo, então…

Vocês namoram há quanto tempo? Começou este ano?

É… (pensativa) Não (envergonhada)

Tá bom, não precisa dizer (risos de ambos).

Mas é que a gente começou muito como amigo. É muito louco porque no começo a gente sempre… Como a gente conviveu muito como colega de treino… É recente que a gente começou a namorar, então…

Muda uma chave em algum lugar, né?

É! É muito louco (risos de ambos). Porque eu… Pra mim… Quando eu estou com ele aqui, a gente treina junto. Não tem essa de “você é meu namorado, senta aqui comigo”. Não! Estamos no treino. A gente é muito à vontade, se ajuda. Ele é muito tranquilo, eu sou muito tranquila. A gente não briga por nada. A gente só se apoia. Então… A gente se gosta, é o mais importante (risos).

E como você viu este ano dele?

Ah, foi demais. Vou te falar que para mim o diferencial dele não é este ano. As pessoas olham porque ele ganhou do Tsonga, ganhou do Almagro, mas quem conhecia a pessoa que ele é, de onde ele veio… Cara, a humildade dele! Ser um menino que sempre quer o bem de todo mundo e, dentro da quadra, que é o mais importante, ele dá o melhor dele. Você vê ele treinando, você fica preso naquilo ali. Ele é um menino muito diferente, independente dos resultados. Ele lesionou ano passado, faz um ano dessa lesão, e ele aprendeu muito com isso. Ali, ele tomou um tempo e aprendeu algumas coisas que fizeram total diferença para este ano. Ele sempre teve um sonho e tenho certeza que só está começando a carreira dele. Ele merece. É um ano muito especial.

Verdade.

É que eu vejo muito mais a pessoa dele. Todo mundo vê ele na TV e fala “nossa, ele joga muito”, “é o próximo Guga”, mas eu vejo a pessoa dele, vejo que o tênis dele é… Você vê que é um menino que treina muito. Eu vejo muito mais por esse lado, da personalidade, do trabalho duro dele, que é muito mais do que só ter ganho aqui ou ali. Os resultados não vêm por acaso.


Thomaz Koch: ícone, ídolo e mestre zen
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Koch1_JoaoPires_blog

Aconteceu duas noites seguidas, durante a última etapa do Itaú Masters Tour, em Angra dos Reis. Thomaz Koch, 71 anos, faz uma jogada linda e é aplaudido de pé pela arquibancada inteira. É mais do que uma salva de palmas pelo lance. É reconhecimento, respeito pela história, por tudo que o gaúcho fez no tênis. É também admiração por saber que um senhor de 71 anos consegue jogar naquele nível contra adversários 20, 30 anos mais jovens.

Thomaz Koch é a referência para a maioria dos jogadores do Itaú Masters Tour, um evento que reúne muitos dos grandes nomes do tênis brasileiro – feito que a Confederação Brasileira de Tênis (CBT) falha feio a alcançar. Tão feio que nem tenta mais, e ainda há quem se orgulhe disso. Mas eu divago. É mais do que isso. Para grandes nomes como Nelson Aerts, Givaldo Barbosa, William Kyriakos, Ricardo Mello, Mauro Menezes, Ricardo Acioly e outros, Koch é um ícone. É o carisma, o cabelo comprido, é o mestre zen, é o vitorioso.

Para os tenistas (homens) que vieram antes de Guga, Koch era a referência. Maria Esther Bueno sempre foi a maior do país, mas seus feitos foram 50 anos atrás. A maioria não viu. Koch era mais próximo. E era “o” cara. E foi nesse ambiente de reverência, no mês passado, no resort onde o Itaú faz anualmente a última etapa do circuito, que batemos um papo.

Entrevistar Thomaz Koch é tão fascinante quanto difícil, pelo menos para mim. Vergonha nenhuma de admitir isso. Com ele, é sempre difícil prever o rumo da conversa, então é preciso estar pronto para jogar o “roteiro” fora a qualquer momento. Não tem como (repito: para mim, pelo menos) estar 100% preparado para o rumo que um papo com Thomaz Koch vai tomar. E isso, em tempos de tenistas treinados, atletas bitolados e assessorias de imprensa, é glorioso.

Conversamos por cerca de meia hora, enquanto ele almoçava. Começamos falando sobre a admiração que todos lá tinham por ele, abordamos a homenagem que Koch recebeu em Barcelona este ano e de sua figura na época dos hippies, da luta contra o establishment. O papo, então, entrou no curiosíssimo período em que ele viajou pelo circuito treinando André Ghem, quando os dois quase nunca falavam sobre tênis (!).

O papo englobou o filósofo indiano Jiddu Krishnamurti, o cantor e compositor canadense Leonard Cohen e o “Sugar Man”, Sixto Rodríguez. E aí o papo voltou ao Brasil (culpa minha, admito) para abordar o reconhecimento das gerações pré e pós-Guga, a possibilidade de Thomaz Koch voltar a treinar algum tenista, e sobre como a CBT alijou ex-tenistas que poderiam ajudar o esporte. Leiam!

É bom ver que as pessoas ainda têm essa reverência por você…

Eu estive em Bauru este ano e foi mais ou menos parecido. As pessoas muito contentes. É um lugar de muita tradição, a expectativa era muito grande. Só o fato de eu estar lá já era muito legal. O que acontece também em Porto Alegre, no Leopoldina Juvenil. Inclusive mês que vem [dezembro] vai ter uma comemoração dos 50 anos que a gente ganhou dos americanos na Copa Davis. Estão trazendo o [Edison] Mandarino da Espanha, eu estou indo lá, então acho que é uma coisa bem grande, significativa. Um negócio bem legal.

Como foi em Barcelona?

Uns anos atrás eles estavam comemorando 50 anos do torneio nesse clube, que é o Real Clube de Tênis. Me mandaram um convite, e eu só recebi depois do torneio. Dois anos atrás, o diretor do me falou “a gente vai te convidar quando fizer 50 anos que você ganhou o torneio”. Eu disse “ah, tá legal” e não levei muita fé. Aí, no início do ano, me mandaram um e-mail me convidando para ir com acompanhante. Eu disse “claro”. Eu não estava esperando. Achei ótimo.

E qual foi a sensação quando você chegou lá?

Eu fui com a minha filha. No dia que eu cheguei, me pegaram e me levaram para uma sala lá. Estavam todos os grandes tenistas espanhóis. [Manolo] Santana, [Andrés] Gimeno, [Emilio] Sánchez, [Sergio] Casal, Ángel Giménez, José Arilla, Juan Gisbert… E aí, quando eu cheguei, todo mundo levantou e bateu palma. Era uma coisa muito emocionante. Todos os dias, tinha alguma festividade, jantar, almoço, não-sei-o-que, e no último dia me puseram na tribuna presidencial junto com o Plácido Domingo e o Santana. Foi uma coisa muito reverenciada. Também me botaram na tribuna em um jogo do Barcelona. O presidente do clube me convidou especialmente. Foi muito incrível. Teve um carinho, uma atenção muito grande. Eu não esperava, entende? Claro, fiquei muito grato por isso.

Koch4_JoaoPires_blog

Há quanto tempo você não ia a Barcelona?

Eu estive um ano lá acompanhando o vôlei de praia porque as filhas e o filho da minha ex-mulher (Isabel) jogavam o circuito mundial. Essa tinha sido a última vez.

Então você não ia ao torneio sempre, né? Pergunto porque me parece o tipo de reverência que é exclusivamente pelo seu mérito como tenista. Não é porque você foi ou é amigo de alguém do clube…

Basicamente, mas os ex-tenistas, gente que ganhou Roland Garros e tudo… Inclusive quando eu comecei a jogar o circuito, eu era o mais novo, então todo mundo me chamava de Thomazinho. Até hoje, me chamam lá de Thomazinho. O pessoal lá com Arilla, Santana, Gisbert… Então tem uma parte afetiva também, sabe? Mas do torneio, claro. Convidam todo ano o campeão de 50 anos atrás. Mas eu achei que foi uma coisa especial, entende? Teve mais atenção.

Eu estava falando com o Neco (Nelson Aerts) ontem, falei com o Danilo (Marcelino) também… Você é a referência de todos eles aqui no Masters Tour. Eles falam do seu tênis, mas falam do seu jeito, do cabelo comprido, era a sua figura.

Foi muito impactante. Inclusive na época, era tempo dos hippies, da contracultura, era você lutar ou brigar contra o establishment. Tinha tudo isso, essa referência de ser contra a ordem estabelecida. O cabelo comprido era uma maneira de destacar isso.

Esse é um assunto sobre o qual eu realmente nunca li nada no Brasil. Como o tênis e os tenistas viam a questão política dessa época?

Eu fui o primeiro cara cabeludo no esporte no Brasil, na América do Sul.

Nem os argentinos usavam cabelo comprido naquela época?

Quem? Todos vieram depois de mim. O Vilas me copiava até no jeito de caminhar. Borg, tudo isso, veio depois, Nós somos os primeiros. Éramos três. Torben Ulrich, Ray Moore e eu.

Vocês eram mais do que tenistas…

Muito mais!

Isso não te causou problema nenhum?

Muito! Muitos problemas. No torneio de Los Angeles, por exemplo, cabeludo não entrava. Eu não podia jogar lá. Isso foi antes da ATP. Quando veio a ATP, eles tiveram que abaixar a cabeça porque não tinha mais discriminação. Era uma época diferente. Tinha o apartheid lá na África do Sul, que o [Arthur] Ashe foi quebrar essa coisa. Ele jogou lá e foi muito incrível o movimento que ele criou. Na época, a gente não jogava na África do Sul. Em represália, sabe? Eu lembro até que ofereceram um milhão pro Borg e pro McEnroe, e o McEnroe disse “não vou, não”. Na época, um milhão de dólares era algo impensável.

Koch2_JoaoPires_blog

Aí eu queria entrar em outra questão. Porque você era o ídolo deles, mas…

(interrompendo) Eu não era referência só no Brasil. Eu era uma referência mais forte na América do Sul, tudo bem, mas nos EUA e na Europa também. Era muito forte. Isso me incomodou tanto que eu tive que me afastar. Eu não estava a fim desse buchicho todo. Eu queria ter meu canto, minha paz e tchau, entende? Mas era um movimento forte, grande, intenso, e isso fez eu me afastar um pouco do buchicho.

Isso é uma coisa que muita gente fala até hoje. Que você foi e continua muito “zen”. E não de prática zen budista, mas de ser um cara tranquilão, de não esquentar a cabeça com muita coisa, de levar a vida numa boa. E eu quero muito saber como foi o período que você treinou o André Ghem porque ele também é um cara muito diferente da maioria dos tenistas. Ele é outro papo, outra cabeça! Isso tem alguns anos já (a parceria ocorreu em 2014), mas como isso aconteceu?

Anteontem, ele até me mandou um WhatsApp com uma foto dele com o Robert Marcher, que era um cara que eu convivia bastante na época. A gente se conheceu numas Copas Davis que a gente conviveu. Ele foi convidado como sparring e eu fui lá também, na época que a gente ainda acreditava na Confederação. Eu fui lá e participei de algumas etapas da Davis. Então eu acompanhei ele num torneio no Rio e dei uns toques. Aí ficou aquela coisa, mas ele nunca… Eu que falei pra ele, perguntei se ele não estava interessado que eu acompanhasse ele um tempo. Ele ficou amarradão, e aí foi. Ele é um cara muito legal, gosto muito dele.

Que tipo de conversas vocês tinham? Era mais mecânica de golpe, estratégia de jogo, estilo de vida ou o quê?

Olha, de tênis nem se falava muito, não. Acho que a gente tratava mais da vida.

Isso é bom, né? Difícil ver uma relação assim entre jogador e técnico hoje…

Quando o McEnroe queria que eu treinasse ele, ele não estava querendo que eu arrumasse os golpes dele. Ele queria alguém pra trocar ideia no dia a dia e, de repente, deixar ele mais tranquilo. Eu acho que tem muita coisa fora do tênis, fora de jogar… Por exemplo, você passa muito mais tempo entre pontos do que jogando. Então a importância maior é o que você faz nesse intervalo de tempo entre um ponto e outro. É um tempo muito grande e que geralmente é decisivo. Então o cara fala “bate de direita, esquerda”, tudo bem, bate. Claro que é importante, mas esse intervalo aí, pra mim, é mais importante.

Sem querer entrar demais na intimidade de vocês, tem como dar um exemplo de um papo desses?

Não sei, porque não era nada programado, entende? As coisas acontecem. De repente, um evento, um fato, uma coisa cria um comentário, e daí você vai e entra em situações assim. Eu te dou um exemplo mais antigo. Uma vez, eu estava em Gstaad, na Suíça, era o dia da final. Depois do café da manhã, estava chovendo e eu estava falando com o Vilas. A final tinha sido transferida para as 2h da tarde. Ele perguntou “onde você vai?”, e eu disse “vou ver o [Jiddu] Krishnamurti”. É um filósofo indiano que é muito conhecido. Era num lugar a 17 quilômetros de Gstaad. Ele [Vilas] disse “também vou”. Eu disse para ele ficar porque ele tinha jogo. Ele: “Não, não. Vamos lá!” A palestra dele era de 1h30min, e todo ano ele ia lá, ficava numa tenda, e as pessoas se reuniam lá, acampavam e não sei o quê. Ele [Vilas] foi junto. Eu meio preocupado com o horário dele, mas “vambora” e tal. Assistimos à palestra. Ele [Vilas] ficou tão tocado com essa pessoa, que tinha uma aura, um negócio assim muito incrível, e comprou tudo que tinha. Livros dele e tudo. É um cara que marcou muito ele. Aconteceu ali de o Vilas ficar encantado. E fala nele até hoje. Isso é um exemplo de que, de repente, pá, acontece alguma coisa.

Sei, sei.

Ou é um show ou é música ou palestra, enfim, alguém marcante. Por exemplo, três dias atrás morreu Leonard Cohen. Então o Ghem, por exemplo, no meu iPhone eu mostraria uma música dele, o Ghem ia ficar amarradão e ia começar a pesquisar sobre o cara, entende? Aqui no Brasil, pouca gente conhece Leonard Cohen. E ele é da época de Bob Dylan, anos 60. Quando ele morreu, muitas pessoas me mandaram WhatsApp, dizendo “sinto muito”, “Leonard morreu” e tal. Porque é uma relação. Como teve o Sixto Rodríguez, que era americano e lançou dois discos nos Estados Unidos. Ninguém conhece ele, não vendeu nenhum disco. Aí uma menina levou o disco dele pra África do Sul, e ele se tornou herói da contracultura lá. Ficou mais famoso do que os Rolling Stones. Fizeram um documentário da vida dele chamado Sugar Man. Descobriram ele, ninguém sabia onde ele estava. Esse é outro assunto. Então são coisas assim, entende? São as minhas referências, que eu passo para um e para outro, aí o papo engrena, sabe?

Koch3_joaoPires_blog

Mudando um pouquinho de assunto, aqui temos Givaldo Barbosa, João Soares, William Kyriakos… Personalidades diferentes, gente que teve carreiras diferentes, mas todos estiveram entre os melhores do país em algum momento. Se você sair do meio do tênis, são pessoas muito pouco conhecidas. De quem é a culpa por isso? É da imprensa, a confederação deveria fazer um trabalho maior nesse sentido…

O que aconteceu… Quando a gente fundou, com o Luis Felipe Tavares, a Koch Tavares, a ideia era fazer torneios aqui no Brasil. O Givaldo, o Júlio Góes, o Mauro [Menezes] foram crias desses torneios aqui. Eles não tinham condição de ir para o exterior para jogar torneio. Os pontos deles eram aqui. Chegamos a ter ano com 13 torneios seguidos assim. Isso revelou tenistas e fez eles conhecidos. A Maria Esther [Bueno], se tivesse jogado no Brasil, seriam muito mais conhecida. Infelizmente, ela é um ídolo lá fora. Aqui no Brasil, ela é conhecida, mas não é idolatrada.

Um Júlio Silva, um Ricardo Mello, por exemplo, seriam mais reconhecidos ou até respeitados se tivessem jogado mais aqui dentro, você acha?

Muito mais, muito mais! Desde que viessem jogadores internacionais que atraíssem a mídia. O negócio é que hoje em dia é difícil você atrair um destaque. Ficou inviável. A Koch Tavares foi criada para fazer torneios aqui no Brasil e prestar esse serviço ao tênis brasileiro. Por isso que eu saí de lá depois de um tempo.

Hoje você passa a maior parte do tempo fazendo o quê?

(resposta rápida) Nada. Absolutamente nada.

(risos) Mas você não entra na quadra aqui sem pelo menos bater uma bolinha antes, né? Quantas vezes por semana você joga?

Se tiver alguém legal pra jogar, eu jogo. Se não tiver, eu não jogo. Ultimamente eu tenho até jogado um pouco mais porque vi que isso aí me faz circular o sangue, entende? Me faz bem, então mais do que jogar, vou no paredão, bato uma parede, pulo um pouco de corda e pronto.

Mais duas perguntinhas só… Você voltaria a viajar, treinar alguém no circuito?

Claro.

Que tipo de jogador? Ou nenhum específico?

Nenhum específico.

O que precisaria pra “casar”?

Acho que principalmente interesse do tenista, e o cara acreditar que eu pudesse fazer alguma coisa por ele. Porque o pessoal hoje acha que a gente está antiquado, que a gente está defasado, que é um tênis antigo. A quadra é igual, a pontuação é igual e a maneira de jogar mudou um pouco, mas você tem que tirar o que o tenista tem de melhor. Não estratificá-lo. É dar a chance para ele ser mais criativo. Acho que hoje em dia o tênis está muito…

Bitolado?

Bitolado, é! Eu preferia ver os caras fazendo mais coisas. Acho que eu seria muito bom nessa parte de dar asas à imaginação do tenista, à criatividade dele. E, principalmente, à cabeça do cara. Eu sou muito bom nessa parte entende? Eu acho.

Quem você gosta de ver jogar? Tirando o Federer, que é unânime…

Gosto daquele alemão… Esqueci o nome dele…

Dustin Brown?

Esse! Gostava do Tsonga, do Monfils…

E o Kyrgios?

Acho lindo o jogo dele. Acho incrível! Mas não gosto da cabeça dele. Mas acho um tênis fantástico.

É o que você dizia… Não é um cara bitolado.

Não!

Koch5_JoaoPires_blog

E, pra terminar, como você vê o tênis brasileiro hoje, com uma confederação mudando de sede porque perdeu patrocínio, um centro olímpico que não se sabe se vai ser utilizado para o tênis…

Quanto ao fato de perder o patrocínio, acho que ele estava sendo muito mal direcionado. A grana estava toda indo pra quem não precisa, pra quem já tem. Precisa é canalizar essa grana pro pessoal infanto-juvenil na minha opinião. Treinamento, pré-temporada, essas coisas, sabe? Pra mim, é uma incógnita o que vai acontecer com a Confederação agora. Mudou de sede, de presidente. Torço para que aconteça, entende? Mas sinto que o pessoal do tênis, em geral, não está satisfeito com a situação. Não pode estar. A gente foi alijado do tênis, entende? Quem podia prestar um serviço ao tênis simplesmente foi barrado, está de fora. Acho isso uma pena, um absurdo. E quem mais perde é o tênis.

Acho que é o pensamento geral de quem não está na “panela”, né?

É uma coisa muito amadora, que não condiz com o esporte hoje em dia. O esporte hoje em dia é profissional. Acabou o amadorismo. E as federações, confederações, não do tênis, mas de todos esportes, são regidas de uma maneira muito amadorística. Infelizmente.

Isso sem falar em Copa Davis, na organização, na produção…

Ano passado, em Florianópolis [no confronto entre Brasil e Croácia], eu fui por conta própria. Eu paguei minha passagem, estadia, todo negócio. Cheguei lá, não tinha nem convite. No fim, o [Paulo] Moriguti [diretor técnico da CBT] que me conseguiu um convite. É uma falta de consideração com o pessoal das antigas. O Adriano Ferreira foi pra lá e ficou lá no final da arquibancada.

Eu fui a esse confronto de Floripa, e até as instalações para a imprensa eram precárias.

Eu fui, aluguei um carro, paguei estacionamento… Quando você vai ver, é uma despesa que… Está errado!

Uma despesa que ex-jogador não deveria ter. E muito menos o tenista que mais venceu jogos pelo país na história da Copa Davis.

É. Se tem um cara que tem história na Davis, sou eu. No site da Confederação, se você olhar, o Mandarino é um cara muito importante. Tem um monte de foto lá, e ele não aparece lá. Eu fico muito puto com isso, sabe? O Mandarino não estar? A gente jogou 15 anos de Copa Davis com sucesso! Não ter a foto do cara no site da CBT. Então passa batido, sabe? Nunca chamaram ele para nada aqui no Brasil!


Teliana e a confiança inabalada mesmo fora do top 200: ‘Sei como funciona’
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Teliana_Rio2016_Andujar2_blog

Se 2016 não foi o ano dos sonhos de Roger Federer nem de Rafael Nadal, tente se imaginar no lugar de Teliana Pereira. A pernambucana começou o ano no 46º lugar do ranking mundial e ocupa hoje a 206ª posição. De janeiro até agora, amargou duas longas sequências de derrotas (seis, de janeiro a março; e oito, de julho até setembro), perdeu o posto de número 1 do Brasil e precisará voltar a torneios menores e qualifyings.

A cabeça cansou, e Teliana encerrou a temporada em setembro, mas engana-se quem pensa que ela ficou abatida. É óbvio que houve momentos de dúvida e falta de confiança, mas não ficou mágoa nem arrependimento. Em conversa por telefone, a pernambucana se mostrou consciente das dificuldades que enfrentou, das limitações de seu jogo e seu corpo e, principalmente, do que precisa fazer para voltar ao top 100 – seu grande objetivo para 2017.

Sempre otimista, Teliana também lembrou de ótimos momentos que viveu em 2016 e da confiança que tem em si mesma para alcançar suas metas: “Já estive lá, sei como funciona.”

Teliana_Hobart16_get_blog

Foi um ano em que as coisas não saíram como você esperava. Vamos começar com o momento em que você decidiu encerrar a temporada…

Eu não tive os resultados que eu esperava. É claro que eu sabia que ia ser difícil porque eu só joguei os grandes torneios. Eu sabia que só ia ter jogo duro pela frente, mas achei que ia ter resultados melhores. Depois de Biarritz, que foi meu último torneio, eu ainda tinha alguns eventos para jogar, mas preferi parar porque mentalmente eu estava muito cansada. Não é fácil. Eu não acho que estava jogando mal. Eu estava bem até, estava treinando bem, só que os resultados não estavam aparecendo. Você sempre quer jogar bem, mas o resultado também conta. Mentalmente, eu já estava me sentindo bem cansada, então eu preferi parar, ter um descanso maior. Já estava planejado. Ficou um pouquinho maior do que a gente esperava, mas eu estava precisando desse tempo para descansar, colocar as ideias no lugar e começar tudo de novo. As pessoas falam muito como se fosse algo terrível, e não foi porque eu joguei todos os maiores torneios. Toda tenista quer jogar, e eu consegui. Praticamente só joguei com meninas de alto nível. Se for falar em resultados, foi muito ruim, mas se for falar em torneios, só foram torneios de alto nível.

Mas nesse momento que você tomou a decisão de encerrar o ano, a sensação era mais de alívio, frustração, raiva ou o quê?

A primeira sensação foi a de que eu estaria descansando. Eu estava querendo já há muito tempo. É claro que tinha momentos que eu pensava “nossa!” porque os resultados não estavam saindo como eu queria. Claro que teve, mas eu estava muito certa de que o que eu estava fazendo era correto. Parar, descansar a cabeça, descansar o corpo. Foi uma sensação de “agora eu vou descansar” (risos).

Foi o ano que você menos jogou ITFs recentemente…

Exatamente! A gente apostou. A gente sabia que era um risco. Nesses torneios, só tem jogo duro. Arriscamos um pouco mais e… (pausa para pensar)… não deu muito certo (risos). Na verdade, é difícil falar assim, sabe?

Falar depois que acontece é mais fácil, né?

É. Mas eu só joguei com meninas de alto nível, joguei bem e simplesmente não estava acontecendo. Não estava fluindo muito bem. Eu comecei a perder um pouco a confiança porque, querendo ou não, a confiança vem de vitórias. Como eu não tive vitórias este ano, comecei a não ter tanta confiança na quadra. Aí a cabeça começa a baixar um pouco, começa a sentir mais, então foi isso. No final, eu fui jogar os torneios menores, os ITFs, mas a minha cabeça já não tava ali mais, entendeu? Fica um pouco mais difícil de voltar.

É uma bola de neve…

Com certeza.

Teliana_Instagram_blog

Ano passado, ainda no primeiro semestre, você jogou uma sequência de ITFs em Campinas, Curitiba, Medellín, começou a ganhar ali e quando voltou para os WTAs, ganhou Bogotá, furou quali em Marrocos e Roland Garros e a coisa fluiu bem melhor.

Com certeza.

Você se arrepende de não ter feito a mesma coisa este ano ou você não pensa assim porque agora é tarde?

Não, não, não penso nisso. Acho que a programação que eu fiz foi a programação certa. A gente tinha planejado e era o que tinha que ser feito. Não acho que foi erro de calendário. A gente não optou por torneios errados. Muito pelo contrário. Foram torneios certos, só que não tive os resultados que eu queria. Não tenho arrependimento nenhum. Faz parte, na verdade. O tenista tem altos e baixos, e este ano foi baixo. Mas ano que vem vai ser alto! (risos)

Quando você faz um calendário assim, a margem pra erro é bem menor. Você pode pegar três top 10 em semanas seguidas, e não tem pra onde correr.

É complicado. Vai jogar Madri e Roma, você pega duas top 10. Aí na outra semana, você não pega uma top 10, mas pega uma menina que faz o jogo da vida dela. É arriscado, sabe? Mas eu senti que tinha nível pra isso.

E qual foi o momento mais difícil dessa sequência? Qual foi o dia mais duro? Alguma derrota específica ou um momento maior de desânimo?

Eu fiquei bem decepcionada quando eu perdi em Wimbledon porque o jogo estava muito na minha mão [Teliana abriu 7/5 e 4/1 sobre a americana Varvara Lepchenko, mas acabou perdendo por 5/7, 7/6(3) e 6/2]. Este ano, eu estava treinando bem. O jogo estava na minha mão, e tudo saiu do controle. Na grama, é complicado. É um momentozinho que você relaxa a atenção, e o jogo vai embora. Ali foi o momento que eu fiquei mais decepcionada. No Rio Open, eu também senti um pouquinho, apesar de ser o começo da temporada. Eu vinha treinando super bem, estava com boas expectativas, e não joguei, mas a menina fez um belo jogo [Petra Martic venceu por 6/3 e 7/5]. Mas houve momentos ótimos também!

Essa era minha próxima pergunta!

Aaaah, foram momentos maravilhosos! Em Roland Garros, eu tive um jogo duríssimo na primeira rodada…

Teliana_Rio2016_Andujar_blog

(interrompendo) Eu ia chegar aí: o melhor foi ganhar da (Kristyna) Pliskova ou jogar contra a Serena?

(risos) O melhor momento foi jogar as Olimpíadas, pra ser bem sincera! (mais risos).

Mesmo?

Ah, sim. Com certeza. Pra mim, foi o momento mais mágico! Mas jogar com a Serena em Roland Garros, na Suzanne Lenglen, tem seu lado bom também. Mas foram dois momentos mágicos, muito bons, que me emocionaram bastante. Jogar contra ela é uma história, né? Você pode guardar no seu livrinho pra contar isso para todo mundo pelo resto da minha vida (risos). Mas houve momentos bons. Não dá para focar só nos momentos ruins.

Mas eu perguntei da Serena e acabei te interrompendo… Você estava falando da vitória contra a Pliskova. Aquele foi um jogão também, né?

Foi um jogão! O jogo em si teve muitos altos e baixos, tanto meus quanto dela, mas tinha muita gente vendo o jogo. O clima ficou muito bom e eu sabia que ia jogar contra a Serena depois, então… Porque eu não olho a chave, né? Eu vou jogo por jogo.

Ah, mentira. Você olha, vai… (brincando)

Não olho! Eu não olho a chave! Às vezes, tem uns repórteres, sabe (provocando em tom de brincadeira), que soltam sem querer e eu fico brava (risos de ambos)!!! Por isso que eu não gosto muito de dar entrevista durante o torneio porque às vezes eles falam, e eu odeio saber a chave. Não gosto, eu não olho! Agora, no último torneio, na França, foi difícil porque eu estava sozinha e eu tinha que ver contra quem eu jogava, mas eu não queria olhar a chave. Foi bem complicado (risos). Mas em Roland Garros, o Renato [Pereira, irmão e técnico] me falou porque… Poxa, é legal. Ele me falou antes e eu disse “nossa!”. Entrei na quadra [contra a Pliskova] pensando que precisava daquela vitória “sim ou sim”. E foi exatamente isso que me fez ganhar, tenho certeza. Foi muito tenso o jogo. No terceiro set, eu pensava “eu vou dar mais e mais” porque jogar contra a Serena em Roland Garros é mágico, e eu queria muito passar por essa experiência [Teliana venceu por 7/5, 3/6 e 9/7].

Fisicamente, como você está? E seu joelho? Acho que sempre te pergunto isso, mas sempre existe essa preocupação.

Nossa, meu joelho foi muito bem este ano. Não tem nem do que reclamar. Eu sofri um pouquinho no começo da temporada com bastante dor no cotovelo. Isso me atrapalhou bastante até Roland Garros. É que meu joelho é muito de altos e baixos. Eu posso estar falando pra você “meu joelho tá bom”, aí amanhã ele acorda ruim. É assim que funciona.

É assim mesmo, essa loucura, de um dia para o outro?

É, de um dia para o outro. Não tem padrão, sabe? É claro que se eu estiver com a musculatura boa, não posso engordar, isso ajuda bastante. Mas já teve dias que eu treinei super bem, saí sem dor, aí no dia seguinte acordei com ele não tão legal. Mas já melhorou bastante.

E o que você pensa para 2017? A gente fala de você há bastante tempo, mas você tem só 28 anos ainda. Não dá pra te chamar de veterana…

Pois é, não sou tão velha assim (risos). Ah, mas acho assim… Claro que vou ter que jogar o quali do Aberto da Austrália e tal. Muda em relação a isso. Não vou poder estar jogando logo de cara os grandes torneios. Vou ter que jogar quali, mas já passei por isso e é normal, sabe? O que as pessoas não entendem é que é normal ter essa queda. Então vou entrar muito tranquila. Já passei por isso, não é algo super novo pra mim. Vou estar no quali da Austrália. É claro que preferia estar na chave, mas é pauleira, é legal. Com certeza, vou jogar torneios menores, mas vou entrar confiante. Estou fazendo uma bela pré-temporada. Comecei antes porque também parei antes. Agora… Vou começar super positiva. É que as pessoas se baseiam muito no ranking. Claro que eu queria estar entre as 100 melhores. É óbvio. Mas não estou numa situação tão difícil. Faz parte. Estou preparada para isso.

A minha impressão é que a WTA é bem mais equilibrada que a ATP nesse nível, fora do top 20, 30. Você vê até a Sorana Cirstea, que foi 21 do mundo, caiu pra fora das 200 e agora está entre as 100 de novo…

É, é que tudo pode mudar muito rápido. Ano passado, eu era 150 e alguma coisa, aí deu três, quatro meses, eu estava no top 100 já. Ganhei Bogotá, depois ganhei Florianópolis, sabe? É tudo muito rápido. Tem que estar preparado para quando o momento chegar, você conseguir. Então vou estar preparada e não duvido. Posso voltar a ganhar grandes torneios, posso voltar rapidamente a estar entre as 100 melhores. Eu já estive lá, sei como funciona.

Você voltou a treinar quando?

Estou na segunda semana [de pré-temporada]. Essas primeiras duas, três semanas são bastante focadas na parte física, menos na quadra, até para o corpo ir assimilando tudo de novo. Semana que vem já começo a fazer um pouco mais de quadra e menos de físico. Conforme vai passando o tempo, vou começar a diminuir o físico e focar mais na quadra.

E, tecnicamente falando, qual sua prioridade neste momento?

Estou trabalhando bastante o saque, que é algo que eu sempre falo. Eu acho que preciso melhorar bastante, então estou fazendo alguns ajustes que a gente acredita que vão dar uma boa diferença. É claro que tem que melhorar tudo, mas a gente está treinando já na quadra rápida. Antes, a gente começava a pré-temporada no saibro e depois passava para a rápida – pelos incômodos físicos que eu tinha. Hoje, já não tenho mais isso com o joelho. Não sinto mais esse incômodo na quadra rápida. É claro que eu me sinto muito melhor, é só ver meus resultados – tudo no saibro – mas eu queria muito ano que vem jogar bem na quadra rápida também pra não ficar dependendo do saibro. É o que eu mais tenho que melhorar e isso inclui tudo. Sacar melhor, devolver melhor, ser mais agressiva, me mexer melhor em quadra porque é diferente você correr no saibro e você correr na quadra rápida. É difícil falar uma coisa. É um ajuste total. Mas se falar da parte técnica, o que estou ajustando mais é o saque.

Pra terminar, o quanto esse fim de apoio dos Correios à CBT te afeta? Porque esses contratos foram encerrados antes da hora, e isso pegou todo mundo de surpresa…

Vou ser bem sincera, não estou muito por dentro do que está acontecendo. Gosto mais de deixar essa parte para o Márcio [Torres, empresário] e para o Alexandre [Zornig]. Eles que estão cuidando disso para que eu não tenha essa preocupação. Acho uma pena pelo tênis brasileiro, mas a gente precisa ver que foi feito um bom trabalho. Não tenho do que reclamar. Eu pude jogar, pude fazer meu calendário sem pensar na parte financeira. Isso é muito importante e faz uma diferença bem grande. Mas é isso, eu não estou muito por dentro. O Márcio cuida dessa parte de patrocínios, aí ele fala com o Alexandre. Quando chega em mim, chega já encaminhado e tranquilo, entendeu? Pra eu não ter que esquentar a cabeça. O tênis já é um esporte que exige tanto da parte mental… Se ficar querendo cuidar de tudo, não dá certo.


André Sá: parceiro supercampeão e otimismo perto dos 40
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Sa_USOpen_div_blog

André Sá tem 39 anos, quatro Jogos Olímpicos, 20 temporadas completas no circuito e zero sinal de cansaço da vida de tenista profissional. Pelo contrário. A seis meses de se tornar um quarentão, o mineiro, que já foi top 60 nas simples e top 20 nas duplas, tomou uma decisão ousada: vai jogar em 2017 ao lado do indiano Leander Paes, ex-número 1 do mundo, dono de oito título de Slam em duplas e recordista em participações olímpicas, com sete.

Juntos, os dois terão 84 anos a partir de junho. Não parece importar. Não para o brasileiro. Em bate-papo por telefone, André Sá contou como foi a aproximação com o indiano e analisou como a parceria pode dar certo dentro de quadra. Para o mineiro, a experiência de ambos combinada com a atitude de Paes pode ser uma mistura potente. E o indiano já avisou: quer “fazer história” com o brasileiro.

Como foi essa conversa? Quem chegou em quem e como vocês chegaram à conclusão de que pode dar certo?

Essa ideia da dupla… Ele que me ligou, na verdade. Eu estava na Antuérpia ainda, estava na semifinal, de repente tocou o telefone, “Leander Paes”. Esquisito, mas eu meio que sabia porque é nessa época que o pessoal começa a se ajeitar pro ano que vem. Ele falou “André, a gente pode jogar bem, a gente está com ranking parecido, dá pra fazer um calendário legal pra 2017, principalmente no começo do ano. Me diz se você está interessado.” Eu falei que dependendo do meu resultado lá [Antuérpia], de repente a gente jogaria o quali de Viena juntos, mas como eu fiz semi e botaram meu jogo só no sábado, não consegui chegar. O primeiro contato foi esse. Aí passou um tempo, eu dei uma esperada para ver se tinha mais ofertas, aí ele me ligou no fim de semana passado, na sexta à noite. A gente conversou também um pouquinho sábado e acabamos definindo que vamos jogar 2017. A gente começa ali em Chennai, Auckland, Melbourne e depois vê pra frente como vai ser o calendário. Mas a conversa é para jogar o ano inteiro.

Como é a relação de vocês? Sempre foi tranquila ou já teve atrito?

Não, o relacionamento é bom, normal. Nada de excepcional, fora do normal do dia a dia. Às vezes, um estresse aqui e ali porque ele é… Ele é daquele jeito! Sempre dá uma olhadinha depois que ganha um ponto, dá uma vibrada na cara, gosta de gritar “vamos” quando joga contra sul-americanos… Isso aí de vez em quando dá um certo estresse, mas normal. É o jeito dele se motivar. Fora isso, tranquilo.

Uma hipótese que sempre levantam é a possibilidade de duplas brasileiras. O Marcelo (Melo) estava sozinho, o (Marcelo) Demoliner não tem parceiro fixo, e você também estava de mudança. Chegou a haver alguma conversa sua com algum brasileiro?

A questão principal é o ranking. Você tem que tentar fazer um calendário legal, principalmente no começo do ano. O Demo veio falar comigo, mas como o ranking dele estava 64, 65 na época, não dava pra fazer um calendário. A gente jogaria uns torneios muito picados e ainda estava correndo risco de ficar fora do Australian Open também. Os torneios estão fechando forte. O Australian Open fechou 125 [o número equivale à soma dos ranking dos dois tenistas], um negócio desse, então está complicado. Estar 60, 50, não é garantido. E o Marcelo… Acredito que é a mesma coisa. É muito melhor pra ele pegar alguém com quem ele vá estar dentro de todos Masters 1.000 do que ter que começar procurando gente. Essa questão de brasileiro com brasileiro… A questão é sempre ranking.

Sa_Rio2016_Andujar4_blog

Jogar com o Paes vai ser muito diferente de jogar com o (Chris) Guccione, que é um cara com um saque muito forte, mas que se mexe muito pouco. Como vocês imaginam que pode dar certo a parceria de vocês? Porque fica uma dupla muito forte na rede, mas nem tanto no saque.

É exatamente isso. É completamente diferente do Guccione. Na força do saque, a gente fica devendo, mas acho que um vai ajudar muito mais o outro. Nosso objetivo não é ganhar o ponto no saque. É colocar o saque bom o suficiente para colocar o cara da rede em situação confortável pra definir o ponto, entendeu? Não ver como o Guccione, que dá varada três vezes e acabou o game. Só que também no meu saque, ele não ajudava muito. Ele é um cara que fica mais parado ali, a gente tinha que fazer certas jogadas diferentes. Com dupla nova, é difícil dizer se vai dar certo ou não. Tem que jogar, pegar a química da dupla dentro e fora da quadra, mas acho que a gente sentando e conversando, treinando bastante e ganhando jogos, passando pelo processo de passo a passo para melhorar… Tem tudo pra dar certo. Os dois têm boas qualidades. A minha devolução com ele na rede é uma arma incrível. Ele fecha muito bem a rede. Qualquer devolução que eu colocar baixinha ali, ele vai complicar demais. Com o Gooch, não era bem assim. Eu tinha que ir pro winner de devolução porque sabia que ele não ia cruzar em várias bolas, não ia conseguir chegar. Com o Paes, é diferente. Eu só coloco ali no chão, e ele faz o resto. Igual ao Jamie Murray. O Bruno coloca qualquer coisa abaixo da rede, e o Jamie parece que tem três metros de largura na rede.

E experiência não falta…

E também tem a experiência dele, né? Se tirar o lado técnico e tático, o emocional vai fazer muita diferença. É um cara que acredita que pode ganhar de qualquer um. Um cara que já ganhou Grand Slam, que não vai sentir pressão nos momentos importantes, na hora de fechar jogo. Isso faz muita diferença, muita diferença. isso vai ajudar, e a gente tem experiência pra isso, pra se ajustar na parte técnica e tática. No emocional, nós dois temos experiência de sobra pra jogos importantes. Isso que é o principal.

Em termos de ranking, 2015 e 2016 foram mais ou menos parecidos. Você ficou ali entre 40, 50, por aí, o que foi melhor que os anos anteriores. E você fez quartas de final de um Slam este ano. Dá pra dizer que 2016 foi o melhor dos seus últimos cinco anos, mais ou menos?

Ano passado foi o melhor deles. Eu ganhei três títulos no ano passado. isso geralmente define um ano bem sucedido. É quando você ganha títulos. Este ano obviamente foi bom, mas não cheguei no meu objetivo, que era terminar o ano entre os 50, mas fiquei 52, 53, fiz final de um ATP 500, quartas de um Grand Slam, que fazia tempo que eu não conseguia também. Meus resultados em 250 ficaram a desejar. Eu joguei bastante e fiz uma final só [Bucareste]. Nisso, dá pra dar uma melhorada.

Sa_Rio2016_Andujar_blog

Se você fez duas temporadas muito boas aos 38 e 39 anos, fisicamente você não vem sentindo diferença? Pergunto porque não vejo tantos jogos de duplas, mas quando vejo não consigo identificar uma diferença óbvia do seu tênis hoje para o que você jogava cinco anos atrás. Como você vê isso? O que você acha que caiu ou deixou de cair no seu jogo com a idade?

Acho que não caiu. O formato das duplas hoje, com match tie-break e ponto decisivo [no-ad], não é nada desgastante para o corpo. É mais o desgaste emocional, da pressão, da expectativa, ansiedade… Porque todo ponto importante. Você pode ganhar 6/4 e 6/2, mas você olha o 6/2 e foram três pontos decisivos. Você poderia ter perdido por 6/2. O lado emocional é o que mais pega. Mas os jogos são relativos. Na Olimpíada, com o [Thomaz] Bellucci, ele joga de fundo, eu preciso me mexer muito mais. No US Open também. No jogo que passou na TV, contra o Almagro e o Estrella Burgos, você tem que se mexer muito mais porque os dois jogam no fundo. Mas isso é a minoria. A maioria é o padrão de duplas: saque-e-voleio, no máximo três ou quatro bolas. Se você sentar pra ver 30 jogos de duplas, você vai ver dois ou três jogos iguais a esses.

O momento do Paes é um pouco diferente do seu, né?. Ele foi número 1 do mundo 15 anos atrás e se manteve no top 10 por muito tempo, mas 2016 foi praticamente o pior ano da vida tenística dele. Na conversa de vocês, ele disse se estava bem fisicamente…

Ele me falou porque teve um ano tão ruim. Ele teve um problema sério pessoal com a filha dele. Ele ficou muitos meses afastado este ano e também falou que em alguns torneios ele não estava focado no evento, estava com a cabeça em casa. Por essa razão, ele deu essa despencada no ranking. Ele falou “fiquei praticamente nove meses sem jogar. Eu joguei, mas minha cabeça estava em outro lugar.” Ele disse “agora minha filha está bem, ela se recuperou.” Eu não perguntei, não sei exatamente a doença que ela teve, mas foi algo bem sério [relatos na imprensa indiana dão conta de que Ayiana, filha de Paes, foi diagnosticada com um tumor no cérebro]. Ele disse que agora está tudo certo. A frase dele (risos) foi “let’s make history together” [“vamos fazer história juntos”]. (mais risos)

Ele sempre solta essas frases de efeito, né?

Sempre tem uma. Ele adora! É o jeito dele. Mas tem que aproveitar essa personalidade dele porque, querendo ou não, isso é que faz ele ser número 1, oito vezes campeão de Grand Slam! O cara tem atitude, está jogando até os 43 anos. O cara pode ser ótimo tecnicamente, mas se não tem atitude…

Sa_Bucareste_div_blog

Pra terminar, preciso mudar de assunto. Como você acompanhou esse fim de ano do tênis brasileiro, com fim de patrocínio dos Correios, CBT mudando de sede e jogadores ficando sem apoio? Como isso repercutiu entre vocês jogadores?

É ruim. Obviamente, não é o ideal. A culpa não é da Confederação. Os Correios e o nosso país estão numa fase ruim. O pós-Olimpíada, que todo mundo questionou lá atrás… Todo mundo especulou que não ia acontecer e essas especulações estão se tornando realidade… Meu maior medo era esse, de um centro olímpico de tênis não virar nada. Do jeito que está aí, pode ser que isso aconteça. Na questão da CBT, o que mais me preocupava era a situação do juvenil e da formação de professores. Isso eu acho que não vai mudar muito. Tive uma conversa com o [Rafael] Westrupp [presidente eleito da CBT] ontem sobre isso. O apoio aos juvenis vai continuar, mas de uma forma menor. E os detalhes que ele me passou de como era… Era uma coisa meio fora do real, entendeu? Todos os juvenis da chave [no circuito Correios] tinham gratuidade através dos Correios. Isso é fora da realidade. Agora, vão entrar na realidade. De repente, só os quatro melhores do Brasil vão continuar tendo um certo apoio, entendeu? É o que a gente falou: a Disneylândia vai acabar. Normal. Acho que o cenário dos últimos oito anos era uma coisa fora da real. E os jogadores têm que ser gratos por isso. Todo mundo foi ajudado e todo mundo teve um certo apoio. Eu, Marcelo, Bruno, Bellucci, Rogerinho, Feijão, Teliana… Todo mundo teve algum apoio, entendeu? Então não é falar mal quando acaba. Tem também que dar crédito porque durante oito anos teve gente ajudando e apoiando. Obviamente, a situação não é ideal. Eles [CBT] estão correndo atrás. Se for comparar agora com a administração passada, do [Nelson] Nastás, tem que ver que o Jorge [Lacerda] pegou numa situação horrível com dívidas de milhões e vai deixar sem dívida. Isso já é positivo. Essa é minha opinião quanto à Confederação. Se a gente pudesse continuar com os Correios, melhor. Se tivesse menos denúncias e projetos com o Ministério do Esporte funcionassem mais, melhor.


Thiago Monteiro: sobre ascensão, confiança, inconformidade e pé no chão
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Monteiro_Davis_Belgica_CBT2_blog

É difícil conversar com Thiago Monteiro e não sair do papo uma dose forte de otimismo. O cearense de 22 anos, atual 87º do planeta, fala de sua evolução com a confiança e a esperança de um jovem da sua idade, mas também com a consciência de um veterano de circuito.

Todas as palavras “certas” aparecem ao longo da entrevista abaixo. “Seguir melhorando”, “não me acomodei”, “pés no chão”, “não ficaria me gabando”, “investir na equipe”, “ajudar minha família”… Lendo assim, com todas essas expressões amontoadas, parece que Monteiro fez leitura dinâmica de um texto de autoajuda antes da conversa. Na real? Longe disso. O garotão é autêntico. Diz essas coisas todas sem ensaiar, sem forçar. É o jeitão dele, que acaba sendo o melhor jeito – o jeito necessário – para encarar o tênis.

A entrevista é sobre um pouco de tudo que envolveu uma temporada em que Monteiro começou no 463º posto, derrotou nomes como Tsonga e Almagro, entrou no top 100, estreou na Copa Davis e por pouco não se tornou número 1 do Brasil. Você, leitor, não vai encontrar declarações bombásticas, mas talvez vá conhecer um pouco mais sobre o jovem e certamente vai entender os motivos de sua ascensão em 2016. Ao fim da leitura, diga se o copo não parece meio cheio…

Monteiro_Davis_Belgica_CBT2_blog_col

Foi um ano muito “doido” no bom sentido, né? Começou o ano mais de 400 do mundo e entra agora já entre os 90. Muda muita coisa, não? Qual é a parte mais difícil desse ajuste?

Eu estou entrando num novo processo para tentar me firmar num nível maior, o nível ATP. É como se fosse uma segunda transição. Tem a transição do juvenil (para o profissional) e tem essa transição agora de manter no alto nível. Tive a experiência de jogar alguns ATPs este ano, poder treinar mais com melhores jogadores, fiz bons jogos e vai ser uma adaptação que a gente está fazendo que está andando de certa forma um pouco rápida, né? Mas são ajustes. Nesse tipo de torneio, a gente consegue identificar mais fácil (as dificuldades) e seguir melhorando. Adaptar melhor às quadras rápidas, a questão de devolução de saque, defesas… Isso a gente tem aprendido bastante nesses jogos e vem tentando evoluir o mais rápido para se firmar.

E a parte boa disso tudo? Óbvio que são mudanças legais, tanto no ranking quanto financeiramente, mas qual é a melhor parte dessa subida?

Acho que é mais a realização de um sonho de criança. Desde pequeno, eu vim almejando poder competir nesse alto nível, tentar me firmar como um jogador de tênis profissional mesmo. Poder viver esse sonho é um privilégio, uma felicidade que me motiva cada vez mais. Mantendo essa linha de trabalho, acho que estamos fazendo o caminho certo. Essa animação eu espero que fique para o resto da minha carreira e que cada vez eu me motive mais e siga nessa linha.

Tem também a parte de mais gente te reconhecer e querer te conhecer mais. Você já sente isso nos torneios?

Aqui no Brasil, o pessoal tem reconhecido mais, especialmente depois das semanas de Rio Open e de São Paulo, então eu comecei a aparecer um pouco mais. Também tem mais gente seguindo nas redes sociais, mandando apoio. É um reconhecimento legal. Agora eu pude jogar um Challenger em Santos com um apoio incrível do pessoal de lá. Foi um carinho muito grande e isso me motivava para seguir dando meu melhor para a torcida. Na verdade, eu não sei muito o que te dizer. Não é aquele assédio, não sou famoso nem nada. Eu passei a ser reconhecido no mundo do tênis, mas não tem acontecido de ser parado na rua.

Monteiro_RioOpen_Fotojump2_blog

Depois daquele jogo contra o Tsonga (Monteiro derrotou o francês no Rio Open), você disse que foi uma vitória que mostrou que seu trabalho estava dando certo. Mas não foi algo passageiro. Você teve um tênis mais ou menos estável durante a temporada inteira. Já são sete meses disso. Por que esses resultados vieram agora? Foi algo diferente que você fez na preparação em comparação com os anos anteriores ou foi só sua evolução natural?

Na transição de dezembro para este ano, eu comecei a ser muito mais focado em questões de físico, de alongamento, de cuidar do corpo e da alimentação. Também fiz muito trabalho de meditação e visualização que mudou muito a minha forma de encarar o jogo em si e momentos tensos da partida. Isso me deixou mais tranquilo e muda muito, principalmente na recuperação de um dia para o outro e na qualidade do treino em si, na questão de conseguir ficar mais tempo concentrado no que você se propõe a fazer. Comecei a dar muito mais valor a essas coisas extraquadra e também a cada momento do treino em si.

Quando você fala de cuidar da alimentação, isso mudou especificamente o que para você?

É comer a coisa certa no momento certo, especialmente com carboidratos, que me ensinaram que mantêm a energia do corpo e que te fazem recuperar de um dia para o outro. São várias explicações, várias coisas complexas, que não sou nenhum especialista para te dizer, mas me passaram, e eu sou muito disciplinado. Venho seguindo isso, e isso faz uma diferença muito grande. São coisas que até evitam lesões, inflamações no corpo. Quando eu era mais novo, no período juvenil e um pouco depois, refrigerante e hambúrguer era todo dia (risos). Isso eu parei e desde que eu parei, as coisas começaram a dar certo. Juntando com tudo que eu vim fazendo, foi uma união de várias coisas que fizeram isso acontecer.

Tem também uma questão de confiança que veio com essas vitórias, né?

Comecei a entender o jogo de uma forma melhor. Meus treinadores, o Duda Matos e toda equipe da Tennis Route, sempre tentaram estabelecer isso na minha cabeça e sempre acreditaram muito mais no meu potencial muito do que eu acreditava em mim. Aos poucos, eu fui aceitando, fui acreditando mais, especialmente depois dessas duas semanas do Brasil. Realmente, eu vi que poderia competir em alto nível, que poderia estar estabelecido nos torneios maiores. Fui acreditando nisso, fui me dedicando, fui evoluindo bastante com o passar das semanas e mantendo os bons resultados. Independentemente dos bons resultados no Brasil, não me acomodei. Isso passou a me motivar a trabalhar mais duro e evoluir mais. Eu acabo perdendo um jogo ou outro e vejo que tenho muita coisa para evoluir ainda, e o nível que eu pretendo chegar ainda está um pouco longe. Sigo nessa mesma dedicação, tentando identificar essas falhas para tentar seguir evoluindo.

Monteiro_Davis_Belgica_CBT4_blog

Foi um ano olímpico, mas imagino que não estivesse nos seus planos estar nos Jogos. Só que no fim das contas, você acabou não ficando nem tão longe assim da zona de classificação. Como foi essa sensação?

Eu encarei de uma forma tranquila. Na verdade, não era o objetivo. Achei que era praticamente impossível de jogar uma Olimpíada. Eu janeiro, eu era 460 do mundo. Eu queria mesmo poder estar bem e disputando os torneios que disputei ali e fui bem. Não tinha expectativa nenhuma de entrar na Olimpíada. No final, ficou por pouco. Seria uma honra, a realização de um sonho. Todos que jogaram falaram que é algo diferente de qualquer coisa que já sentiram. Não foi este ano, mas quem sabe em Tóquio? Se conseguir manter esse bom nível e evoluir bem, quem sabe a gente consegue traçar um objetivo de estar em Tóquio?

Não teve Olimpíada, mas teve Copa Davis. Não foi um ambiente completamente novo porque você já esteve com a equipe antes, mas como foi sentir ser titular, a sensação do “eu vou jogar”?

Todos me receberam super bem, me passaram todas experiências de como é uma Davis, as sensações que eles tiveram a primeira vez que jogaram. Foram me tranquilizando aos poucos. Eu estava muito bem. Tive uma estreia bem dura contra o Goffin. Apesar de ele ter dominado o jogo de certa forma tranquila, eu acho que também não joguei mal. É que ele realmente está num nível acima ainda e mostrou por que está entre os 15 do mundo há uns dois, três anos já. Não é fácil se manter nesse nível. É um cara diferenciado. Mas foi uma experiência incrível, fiquei feliz de poder estar lá. Tentei dar o meu melhor, tive para mim uma estreia boa e espero poder futuramente voltar e me firmar na equipe.

Num jogo assim, em que você joga bem, mas vê que o outro está muito acima, é o tipo de jogo que te faz pensar “puxa, falta muito ainda para estar onde eu quero?” Foi assim que você encarou isso?

Não, não. Tem um pouco desse sentimento, mas o que fica mesmo é motivação mesmo. De realmente saber que por mais que eu tenha melhorado muito, esses caras são minha referência, é contra esses caras que quero continuar competindo. Eu pego como motivação para seguir nessa linha de trabalho, de pés no chão, de estar ciente de que eu tenho que trabalhar muito duro para manter nesse alto nível. Aprendi muito naquele jogo. Você percebe mais as deficiências do seu jogo.

Sobre essas deficiências, o que você vê como próximo passo no seu jogo? Qual seria a prioridade número 1 para você melhorar agora?

Uma das prioridades é a devolução de saque, sim. Eu posso ser mais sólido nas devoluções, mais agressivo também, especialmente nos segundos saques. E as transições, né? Ganhar a quadra um pouco mais rápido, conseguir fechar melhor o jogo na rede, matar nos voleios. São essas duas adaptações que eu preciso fazer bem no meu jogo e, de certa forma, eu vou conseguir pegar bem porque vou começar a jogar mais em quadras duras. Devo ter garantido (uma vaga na chave principal) o Australian Open com esse resultado (final em Santos). Joguei muito pouco em quadras duras. Dois ATPs e um Challenger este ano. Nunca tinha jogado torneios desse nível nesse tipo de quadra. Por mais que os resultados não tenham sido excepcionais, acho que fiz bons jogos e evoluí bastante nesses aspectos. Com o tempo, jogando mais, posso evoluir mais ainda.

Você ficou a uma vitória de ser o número 1 do Brasil. Quando um jornalista pergunta sobre isso, normalmente a resposta é que “número 1 do Brasil é só um número”. Você acha isso também?

Ah, acredito também que seja só um número. Não define nível, não define ninguém como jogador. Até porque o Thomaz, por mais que caia no ranking, vai ser o número 1 porque foi o último cara a estar ali perto dos 20 do mundo. Teve títulos de ATP, várias vitórias contra top 10, entre outros resultados incríveis que ele teve. Eu uso ele como referência, a gente tem treinado bastante junto, e por mais que tivesse acontecido em Santos, não seria algo que eu iria ficar me gabando. Acho que o nosso objetivo é outro e, sem dúvida, ainda tem muita coisa pela frente.

Você tem uma série de Challengers (Campinas, Buenos Aires, Santiago, Lima e Guaiaquil) pela frente agora e pouca coisa para defender. O objetivo mesmo é somar para se garantir nos ATPs do começo do ano e encarar uma sequência forte já no início de 2017?

Dependendo de como for a gira, de como forem as pontuações, eu pretendo realmente começar o ano nos ATPs mesmo e na chave do Australian Open. Se eu conseguir uma boa margem, dá para seguir se mantendo nos ATPs. A gente vai definir dependendo de como for essa gira, mas o objetivo é que comece nos ATPs e continue assim.

Vai ser o primeiro começo de temporada que você vai ficar despreocupado financeiramente, sabendo que vai poder viajar e jogar aqui e ali sem depender de resultado?

Ah, vai ser uma parte boa porque posso investir um pouco mais na equipe. Posso levar meu treinador. Como vai ser uma gira longa e com jogo de cinco sets, posso levar meu preparador físico também. Então acho que essas premiações têm me ajudado muito com isso. Eu prezo muito por investir nas pessoas que estão sempre ao meu lado, que trabalham comigo e que, sem dúvida, me fazem crescer no dia a dia para, quem sabe, ganhar mais ainda.

O Fabrizio (Gallas, assessor de imprensa da Tennis Route) me disse que você está procurando apartamento no Rio (Monteiro mora no alojamento da academia). Isso também faz parte desse processo, né? De um amadurecimento financeiro e como pessoa, digo…

Sim, sim. Quando eu morei seis anos no sul (em Camboriú, SC), nos últimos quatro anos eu alugava um apartamento, pagava minhas despesas, me sentia um homenzinho (risos) independente, então… Mas são coisas que o tênis proporciona. Eu tive que lutar muito por isso e também tenho a possibilidade de ajudar minha família. São essas coisas que me motivam a querer melhorar cada vez mais.


Entrevista: diretor explica os porquês do ‘novo’ Brasil Open
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Marcher_SP16_MarcelloZambrana3_blog

Um torneio de cara nova, em data diferente, com capacidade para menos público e com uma chave modesta. É assim que o Brasil Open faz sua estreia no Esporte Clube Pinheiros, uma sede que deu ao evento mais “cara” de torneio. A missão no (meu) primeiro dia aqui em São Paulo era conversar com o diretor, Roberto Marcher, e entender alguns dos porquês das mudanças. Por que o novo local? Por que não participar das negociações conjuntas para trazer nomes de mais peso? O quanto a alta do dólar pesou? Qual o tamanho do prejuízo da mudança de data imposta pela ATP?

Marcher conversou comigo e com o jornalista Matheus Martins Fontes (por opção editorial, incluí neste post apenas as minhas perguntas) e explicou tudo. Falou muito mais do que o necessário, é bom que se diga – o que é ótimo. Com 70 anos e algumas décadas de experiência na organização de torneios, o diretor do Brasil Open lembrou o quanto o Rio sofreu um baque de público este ano e afirmou que Tsonga “parecia um elefante caminhando” no torneio carioca. A sinceridade foi tanta que Marcher disse até que o wild card para Benoit Paire em São Paulo é um risco porque “ele não bate bem da cabeça”. Confira as partes mais importantes:

O que pesou mais na decisão de deixar o Ibirapuera e vir para o Pinheiros?

São vários fatores, mas o principal é que a gente não acredita ainda – não temos tradição no tênis, né? Imagina se isso tivesse acontecido com Buenos Aires, que é o segundo torneio de terra com mais charme e appeal? Com a tradição argentina, se os caras tiram do Buenos Aires Lawn Tennis Club e levam para outro, sei lá, o Estudiantes? Ali havia uma tradição. Nós, no Brasil, ainda não temos um estádio, um local que tenha tradição. (…) O Ibirapuera foi um sucesso. Começamos em 2011, tivemos casa cheia duas vezes, com problemas ou não, mas isso não vem ao caso aqui, estamos falando de outra coisa. Lotamos o Ibirapuera e depois vimos as coisas baixando. Aí começaram a aparecer problemas… Com agente, o dinheiro começou a… o dólar já… Não dá! Esse torneio aqui foi feito sem nenhuma garantia. Hoje, eu estava com nosso cabeça de chave número 1, Benoit Paire, muito simpático… Não recebeu um centavo. Nada. Cuevas? Não tem, não tem, não tem. Chegou uma hora que a gente disse: “Vamos, em primeiro lugar, tratar dos jogadores.” Eles não gostam de jogar em um lugar que não tenha tradição de tênis. Que seja um clube…. Eles detestam quando a quadra é feita em cima da hora. No Ibirapuera ou no próprio Rio de Janeiro, que as quadras do Jockey eram horríveis e eles deram uma acertada… “Vamos usar o Pinheiros, tem 70 anos, quadra sólida, os jogadores vibram com a atmosfera do clube, que é lindo, etc.” Muito por causa dos jogadores, que se sentiam muito melhor aqui. O Ibirapuera era legal para deixar a casa cheia e etc., mas não tinha charme, não tinha nada. O sujeito ia fora, ia aonde? Num food truck? Não, ele ficava lá por dentro. (…) Então foi principalmente (por causa) dos jogadores, como eles se sentem, aqui foi bem mais em con… (interrompendo) Bem mais, não, mas melhorou tudo. Mudou do conceito de um torneio indoor. Nosso grande inimigo é a chuva, mas que é muito melhor, todo mundo elogiando. Perdemos um pouco a arquibancada – ano que vem vamos aumentar – porque o plano era abrir aquelas duas quadras, quebrar no meio, fazer uma só, aí daria para fazer uma arquibancada enorme, mas a ATP falou que ficaria muito em cima da hora. (…) Claro que os custos caíram, enxugamos muito devido a… acho que qualquer um que lê jornal sabe da crise que atravessa o Brasil. Você me pede hoje, eu te paguei 200 para jogar, como garantia. Aí você me pede a mesma coisa em dólar, torna-se quatro vezes mais caro. Não tem condições. Vamos reduzir um pouco, fazer essa experiência aqui, ver como funciona. Estamos aprendendo com o Pinheiros. Acho que neste momento a gente está surfando a onda da crise.

Publico_SP16_MarcelloZambrana_blog

Sobre a questão da data, houve a inversão com Buenos Aires, que acabou ficando com uma chave fortíssima…

(interrompendo) Ali tem a data e… não sei de onde eles conseguem dinheiro. O Tsonga, por exemplo, queria fazer uma “tripartida” com Rio, Buenos Aires e nós. Caímos fora. Aí eles pegam grana não sei daonde. Eles têm Claro, governo… Ele fala: “Olha, querido, preciso de tanto para o Tsonga. Ok.” O Nadal tinha um acerto com eles para terminar, aí acabou o Nadal, né? O Ferrer foi lá, gastaram uma grana também. E pagaram pouco para o Isner, não tanto. Ele quase veio aqui, mas “quero tanto”, “te dou tanto”, mexe pra lá, mexe pra cá, graças a Deus. Eles pegaram o Tsonga, que literalmente não quer nada com a bola. Já em Buenos Aires foi ridículo. E tomou uma primeira rodada no Rio de Janeiro. De um jogador que acho que vai ser o próximo grande jogador do Brasil, o Thiago (Monteiro). Mas o Tsonga estava um desastre, parecia um elefante caminhando na quadra. Queria nada com a bola. Isolando direita, chegou uma hora que se ele encheu o saco… Enfim, os caras pagaram um puta granapara esses dois aí e jogaram dinheiro fora. O Isner tomou duas primeiras rodadas. Se esforçou. Tudo 7/6 no terceiro, mas já de cara tomaram uma bela duma porrada. Eu falei para o meu CEO: “Vamos jogar com o que a gente tem aqui.”

Esse custo-benefício não compensaria nem com o que vocês teriam vendido a mais de ingresso?

Não. Nós estamos com uma quadra menor, mas nem no Ibirapuera. A gente não vende antecipado, entende? Não faz essa sacanagem de chegar para o trouxa que comprou e se o Nadal perdeu, problema é teu, né? Mas mesmo assim sofreram bem um baque no público e tudo. Nadal, acho que está quase no fim e, enfim, o Rio tomou um baque. Para nós, não. Estamos sold-out. Nossa quadra aqui está perfeita. É pouquinho? É pouquinho. E também com o dólar a R$ 4, para nós, não compensa.

O que atrapalhou mais? A data ou o dólar? Se é que dá para fazer essa distinção…

Dá: o dólar. E os dois atrapalharam.

Com o dólar, suponhamos, a R$ 2, daria para trazer mais gente de peso mesmo com essa data?

Sim. A data é ruim porque somos o único torneio da ATP que compete com dois ATPs 500. Não existe no calendário da ATP. Nenhum torneio – isso é uma sacanagem – compete contra dois… E tem outro detalhe. Se o cara for top, eles terminam aqui, e o técnico já convoca para treinar (para a Copa Davis). O Benoit, apesar de ser um craque, não vai. Fora da quadra, ele é uma moça. Muito legal! E é namorado de uma popstar, que enche estádio na França (Shy’m), e nem se importa. Ele disse “Eu tô a fim de jogar aí. Você me dá wild card?” Eu digo “Você não quer nada? Vinte e um do mundo? Tá dado o wild card.” Os caras todos cobrando uma fortuna, gente que… Sabe? Não dá para acreditar que o Verdasco me peça dinheiro. Você tá me gozando? Não tem dinheiro. Wild card, não te dou. Se você não se inscreveu, não quero ver você aqui. Esse aí (Paire) eu quero. Tomando um risco… Ele não bate bem da cabeça. Dentro da quadra, pode acontecer qualquer coisa. É um Fognini piorado. Você não sabe o que pode acontecer. Mas de qualquer forma, a gente pegou e não pagou nada. Mas a data foi péssima, mas quem escolhe… Tudo é política e dinheiro. Eu sei que os caras (ATP) olharam o Brasil em crise, os caras (argentinos) forçaram, e a data foi para eles. Posso fazer o quê?

Tsonga_Rio16_JoaoPires2_blog

E o que o torneio pode fazer? Existe possibilidade de brigar para mudar outra vez de data?

No outro ano, não dá mais. Só para o outro.

Para 2018?

Sim.

Mas a ideia…

(interrompendo) A ideia… Essa data é péssima, cara! Os caras já querem ir embora, compete contra Acapulco… Está tudo sendo estudado. Nunca se sabe o que vai acontecer. De repente, a Argentina dá um treco. É uma luta… Não vou dizer que não seja de igual para igual. É. Argentina e Brasil é uma guerra em tudo…

Chance zero de pleitear, de repente, a data de Quito?

Não, não é chance zero, mas também é outra data de merda…

Porque é colada na Austrália…

Quito foi um horror o torneio. Esses torneios que dependem do governo ficam muito problemáticos. Para você ter o patrocinador, o patrocinador no ano que vem não quer mais o Tsonga. Agora ele vai querer o Djokovic.

Última coisa… O contrato com o Pinheiros é só para este ano?

Não, não é não. É para o ano que vem e depois tem opção de renovação. É um contrato bem feito.


Feijão e a motivação para 2016: “Eu olho meu ranking e digo: ‘Que bosta!'”
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Feijao_BrasilOpen_LeandroMartins_blog

João Souza começou o ano com os melhores resultados de sua vida. Primeiro, fez uma inédita semifinal no Brasil Open. Em seguida, chegou às quartas no Rio de Janeiro, um ATP 500. O bom momento foi recompensado com a correção de uma injustiça: deixado de lado nos playoffs da Copa Davis em 2014, Feijão foi convocado para a primeira rodada do Grupo Mundial, em Buenos Aires.

O fim de semana começou espetacular, com uma vitória sobre Carlos Berlocq em 4h57min de jogo, mas transformou sua temporada em um longo pesadelo que começou nas 6h42min da derrota diante de Leo Mayer e se arrastou até o segundo semestre, incluindo duas longas sequências de nove derrotas cada – uma de fevereiro a junho, a outra de julho a setembro.

Número 69 do mundo em abril, Feijão ocupa hoje o 142º posto. Conversamos durante o evento-teste no Centro Olímpico de Tênis, e o papo não teve declarações bombásticas, mas foi ótimo pela maneira direta com que o paulista de 27 anos abordou os temas. Falou com detalhes sobre tudo que envolveu a doída derrota na Davis, lembrou da política que pode ter pesado em sua ausência no time em 2014 e disse que a motivação vem de olhar seu ranking e dizer “que bosta!”

Ah, sim: como aparentemente tornou-se assunto obrigatório em entrevistas esportivas neste país, também falamos sobre Olimpíadas. E sim, Feijão acredita que suas chances de classificar são boas. A íntegra da conversa segue abaixo e vale a ressalva: em nome da autenticidade (e da intensidade) do diálogo, não cortei os palavrões (nem são tantos assim). Se isso não lhe incomoda, leia!

Incomoda entrar no site da ATP e ver que sua página abre no ranking de dupla em vez de no ranking de simples?

Tá brincando?! Sério?

Você é 113 de duplas e 142 em simples, aí a sua página abre direto com os resultados de duplas.

Ah, é? Não sabia, não. Não entro por esse site. Entro no “player zone”, que só os jogadores têm.

Mas falando de ranking, se alguém que não te acompanhou em 2015 e abre o site da ATP, essa pessoa vê que você começou o ano como #117 e terminou como #142. Ranking nem é sempre o melhor parâmetro para dizer o que aconteceu com a pessoa no ano, mas você achou que depois de tudo que aconteceu, foi um ano positivo?

Não, velho (risos).

Eu pergunto porque teve a experiência da Copa Davis, teve um começo de ano muito legal e, de repente, no seu balanço, isso seria positivo…

Ah, cara, não. Positivo, não foi, mas experiências novas, sim. Mas positivo? Não. Com certeza, não. E óbvio que o ranking é o que conta, né? Ah, foi um ano em que eu aprendi muito, cara. É corrigir para 2016 não cometer os mesmos erros, né?

Quais foram os erros? Todo mundo diz “aprender com os erros”, mas raramente alguém admite esses erros.

Ah, tem o negócio de não ficar expondo, né? Acho que são coisas que…

(interrompendo) O que não te incomoda falar sobre isso?

Não, você sabe que eu falo as coisas, eu não tenho muito problema com isso.

Por isso que eu gosto de te entrevistar (risos).

Acho que… (pausa para pensar) … Não sei, foram coisas… Acho me expus um pouco mais do que devia, perdi um pouco do…

(interrompendo) Depois da Davis?

Depois da Davis. Mas o principal mesmo, o principal-principal… Esse jogo da Davis me derrubou muito. Ninguém imagina, né? Todo mundo diz “ah, perdeu” e vem falar “você foi guerreiro, você foi legal, lutou até o último ponto”, mas e aí? Eu perdi. Só quem perdeu fui eu. Não interessa, quem estava lá era eu. Então isso me matou, né, cara? Nesse fim de semana da Davis eu tive dois extremos. Depois que ganhei do Berlocq, no sábado, eu estava me sentindo um monstro, jogando pra caralho e ganhando de um cara que… Não sei nem se ele já tinha perdido na Davis lá (em Buenos Aires). E no dia seguinte, porra, depois de sete horas, perder aquele jogo, eu estava me sentindo também o pior cara do mundo. Isso me abalou demais, cara! Não foi fácil administrar essa derrota. Foi o Brasil que perdeu. Eu adoro jogar a Davis, adoro torneio em equipe… Porra, depois foi uma depressão fodida com todo mundo no hotel, sabe? E aí, cara, me derrubou! Minha confiança foi do céu para o inferno, total. E aí eu não consegui administrar. Rolou uma indisposição, acabei me desfocando um pouquinho do tênis em si, né? Enfim… Foi basicamente isso. Acabei perdendo um pouco do foco depois disso.

E com isso, a confiança…

Minha confiança, então, foi no chão. Óbvio! Eu estava inscrito nos maiores torneios – eu também não hesitei em arriscar no calendário, né? Joguei, sei lá, três meses só de ATP e Grand Slam, ATP e Grand Slam.

Mas você estava jogando bem, né? Você fez quartas no Rio, um 500…

E semi de um 250 (São Paulo). Eu nunca hesitei! Da outra vez que me meti (no top 100), em 2011, também. Nunca deixei de jogar os maiores torneios, mas fazer o quê? Faz parte. Não me arrependo de nada que eu faço na minha vida. Já foi? Já foi. No fim do ano, estava bem cansado e deixei de jogar Buenos Aires… Não estava mais aguentando, para ser bem sincero. Este ano, tirei até uma semana a mais de férias. Eu precisava bastante relaxar. Agora já estou na terceira semana de pré-temporada, estou me sentindo um cara muito mais forte, muito mais focado eu comigo mesmo, sabe? Parece que eu limpei, sabe? Passei a borracha.

Você está mais magro, não?

Estou, estou fazendo uma dieta que você não tem noção! Dieta que nunca fiz antes. Quero chegar a 88 quilos, estou com 92. Preciso perder quatro quilos.

Mas qual é o seu peso normal de jogo?

No começo do ano, eu estava pesando 90, 89, que é muito bom já, quase 100%, mas quero bater 88 para provar para mim mesmo que eu tenho capacidade, né? Mas estou super bem, super motivado para 2016. Não tem como não estar, principalmente com a Olimpíada do lado da minha casa, é meu foco total. A cada ano que passa… A gente vai ficando mais velho também, vai aprendendo muito mais, né, cara? Vai absorvendo muito melhor os erros que gente comete, né? Acho que as coisas têm tudo para andarem bem em 2016.

Qual foi o melhor momento do ano?

São Paulo e Rio, né?

Escolhe um.

São Paulo.

Algum jogo específico?

Ah, o jogo com o Mayer foi foda, eu acho. Com o Mayer e o com o Klizan foram jogos que… O Carreño Busta eu joguei muito bem, joguei para cacete, mas com o Mayer, ali, o cara era cabeça 4, acho. Foi o jogo do ano, acho. E aqui no Rio, com o Rola, foi muito bom. Foi legal aquela volta, foi muito mais mental (Feijão perdeu três match points e levou a virada no segundo set, esteve uma quebra atrás na parcial decisiva, mas se recuperou e venceu o esloveno Blaz Rola por 6/4, 6/7(9) e 6/4 em mais de 3h de jogo). Mas também tive três derrotas de matar. Três derrotas seguidas. Com o (Luca) Vanni, com break de vantagem no terceiro; depois aqui no Rio, com o Haider Maurer, com break no terceiro para fazer semi e jogar com o Ferrer; e na Davis nem se fala.

Feijao_RioOpen_agif_blog

Eu ia chegar nesse momento… Tirando a Davis, qual a derrota mais dura?

A do Luca Vanni.

Foi mesmo?

Ah, foi.

Você entrou “já ganhei” naquele jogo?

Não, você tá louco! O cara vinha do quali, mano.

Por isso mesmo. Era o cara que ninguém esperava, você passou por uma chave que não era tão fácil e chegou ali na semi conta um qualifier…

Mas você vê que o cara tava… Tanto é que ele teve match point contra o Cuevas, pô (Vanni derrotou Feijão na semifinal e perdeu a final do Brasil Open para o uruguaio Pablo Cuevas). Você tá louco! Jamais! Podia ser o… Podia ser você jogando lá a semi e eu ia falar “caralho, o cara tá na semi”, né, meu?

(risos de ambos)

Não, não… Ele é duro. Ele joga bem parecido comigo. Saca, gosta de dar na bola. Eu já conhecia ele.

Teve um pior momento do ano?

(interrompendo) Lógico!

Não digo um jogo, digo um dia. O pior dia.

O dia que eu perdi na Davis.

Não foi o dia seguinte, dois dias depois, ou mais tarde, nas séries de derrotas?

Não. Na hora, ali, foi o pior momento. Esse dia, com certeza, óbvio.

Que horas você foi dormir?

Ah, nem lembro, cara. Imagina uma pessoa destruída. Era eu.

Não passou a noite acordado nem nada?

Não, foi normal, mas dormi pouco. No dia seguinte, já estava com tudo dolorido pra caralho.

Quanto tempo leva para começar a doer de verdade?

No dia seguinte. Para mim, foi o dia seguinte. Passei três dias, até quarta-feira, destruído. Dolorido só, também, nada de mais. Na quinta-feira, eu estava bem já. Mas no dia foi… Imagina se eu ganho aquela porra, velho! Estive a dois pontos de ganhar, velho. Saquei 6/5, 15/15, ele devolveu, eu bati uma direita na paralela e saiu isso (mostrando um espaço pequeno com os dedos). Perdi um ponto, 15/40. Ganhei um ponto, 30/40, aí fiz dupla falta. Aí ele empatou 6/6 e virou aquela guerra.

Essa sequência você não esquece…

Não tem como, né, cara? No 15/15, eu dou uma direita paralela que eu não tinha errado nenhuma… Lógico que eu estava destruído já, né? Era winner, na verdade. Ele nem foi na bola, eu lembro até hoje. A bola saiu “isso”.

Feijao_Davis_BuenosAires_Andujar_blog

Não tem mais tática nenhuma nessa hora, né?

Não adianta. E eu olhava para o lado, o Mayer destruído. Bem antes do que eu. Bem antes! Ele estava sacando 7/6, 7/6, 4/1, eu quebrei no 4/2 e foi a hora que eu dei a volta no jogo. Eu olhei para o banco, ele estava destruído. Eu falei “fodeu, se eu ganhar este set, acabou.” Ganhei 7/5, 7/5, não sei como ele aguentou. Ele também se superou pra caralho!

Algo que ficou perdido no meio disso tudo é que antes daquele jogo de quase sete horas, você voltou ao time da Davis depois de um fim de ano tumultuado em 2014, com aquela não convocação para jogar com a Espanha. O João (Zwetsch) falou algumas coisas que você não gostou, você disse algumas coisas que ele não gostou… Como foi essa conversa com o João para você voltar ao time?

Cara, para ser bem sincero… (pausa para pensar) Na minha cabeça…

(interrompendo) Vocês brigaram ou foi uma conversa amistosa?

Não, no meu modo de ver, naquela época, eu tinha um jeito de ver e ele tinha o modo dele. Ele tinha as razões dele, e eu tinha as minhas. Acho até que a imprensa ficou do meu lado na época, né?

Eu fiquei.

Muita gente me defendeu e falou “porra, não é o momento do Rogerinho.” Meu ranking estava melhor, eu vinha ganhando mais jogos, só que na época ele falou que o Rogerinho, como tinha jogado muito bem contra o Equador, tinha levado o Brasil e ganhado os dois pontos dele e coisa tal… E aí começou. Também não sei, né? Se entra o lado político ou não.

O João não abriu isso para você?

Não, mas ah… Acho que quem está ali, sabe o que rola. Eu me dou muito bem com todo mundo, estou com o Pardal (Ricardo Acioly, seu treinador) há 11 anos, então acho que… Acho, não. Estou do lado dele em qualquer coisa. Até hoje, não só no tênis, mas em qualquer esporte, a gente tem um pouco o lado político. Então pode ser que tenha contado também, mas não sei, cara. Eu conversei com o João em Quito, eu lembro, e foi tudo bem, meu negócio com ele estava tudo certo. Ele falou “vou te chamar para jogar com a Argentina”, eu falei que “eu tô pronto” e meio que a gente passou uma borracha rápido. Eu – eu, Feijão! – nunca tive problema com ninguém. Jogador, treinador, nada. Nem Confederação nem ninguém. Por isso que eu acho que pode ter sido influência dessa parte, desse lado político.

A equipe te recebeu bem?

Claro. Marcelo, morei três anos com ele. Thomaz, pô, me dou super bem com ele, joguei juvenil com ele a vida inteira. O Bruno, nem se fala. Não, nada. Sou um cara aberto, né, cara? Acho que a galera gosta de mim. (risos de ambos)

O que te faz acreditar que 2016 vai ser melhor que 2015?

Ah, cara, acho que a minha idade está chegando e estou ficando como aquele vinho mais encorpado. Estou me sentido mais forte, tudo está parecendo mais natural. Na hora de treinar, comer um negócio, abdicar de uma coisa aqui, treinar de um jeito ali… Estou me sentido mais forte na parte de escolhas, eu acho. É o que eu te falei… Algumas escolhas acho que errei em 2015, que foi um ano de aprendizado. Então isso me fez mais forte. Acho que às vezes a gente tem que dar dois passos para trás para das três ou quatro para a frente. Acho que é isso. Estou num momento muito bom, até na minha vida pessoal também. Estou tranquilo, morando sozinho, fazendo as coisas que eu gosto, treinando com muito prazer, treinando bem, coisa que eu sempre fiz. O principal mesmo é o olhar meu ranking e ver 140… É uma motivação bem… Eu olho e digo “que bosta!”

Feijao_BrasilOpen_LeandroMartins2_blog

Eu já devo ter e perguntando isso lá atrás, em 2012, mas talvez valha perguntar de novo porque você é uma pessoa diferente hoje. Como foi este ano, depois daquele começo bom, de quartas de ATP 500, semi de ATP 250, e ter que voltar para o primeiro Challenger? Bate uma sensação de frustração?

Não, não porque eu não tinha jogado nenhum Challenger até Prostejov (em junho), que eu fiz semi ainda. Ganhei do Mathieu e do Granollers. Depois da Davis, foi o único torneio que joguei pra caralho. São dois caras que estão top 100. E perdi um jogo ganho contra o moleque que foi fazer a final (o sérvio Laslo Djere, do 20 anos, venceu por 6/7(3), 7/6(4) e 7/5). Não, a sensação foi normal, cara.

Mas não bate um desânimo começar um ano jogando Challenger em vez de…

(interrompendo e voltando a falar do segundo semestre) Ah, bate um pouquinho, mas não é nem “estou jogando Challenger.” É mais “preciso jogar bem, cara.” Porque eu sabia que tinha ponto para defender (no segundo semestre) e no momento eu não estava bem. Eu não estava confiante, não estava bem, mas estava fazendo as coisas que eu tinha que fazer. O que estava ao meu alcance, eu estava fazendo. E essa semana (Prostejov) foi a única semana que eu joguei muito bem depois das três primeiras semanas do ano. O pensamento foi “preciso ganhar, preciso somar porque senão a casa vai cair.” E caiu (risos). Tinha ponto para defender pra caralho, mas até que joguei legal no fim do ano. Joguei com o Rogerinho (em Santiago) e tive match point, ele ganhou o torneio. Depois com o Hernandez, em Lima, perdi 7/6, 7/6. O moleque perdeu na semi com match point para ir para a final. Em Bogotá, perdi para o Struvay, ele foi campeão ganhando do Zeballos e do Lorenzi. Enfim, eu estava jogando bem já. Os últimos três torneios do ano, eu estava bem já. Óbvio que não estava jogando um tênis galático, mas estava conseguindo competir bem, fazer as coisas bem. Ainda fiz uma semi em Pereira, virando três jogos perdidos… Essa gira sul-americana me fez… (interrompendo) Não chega nem a cem pontos o que fiz, mas foi legal, deu uma motivação a mais para eu sair desse buraco, ganhar alguns jogos.

Essa pré-temporada agora tem algo de diferente, além da dieta?

Estou tomando alguns cuidados a mais na parte física principalmente. A gente está segurando um pouco mais. Antigamente, como eu era mais nvo também, a gente focava muito mais em volume, volume, volume e se matar na quadra. Lógico, você é moleque, tem 20, 21, 22 anos, você aguenta três horas de manhã e três horas à tarde. Eu já estou com 27. então a gente está ficando mais esperto nessa parte de dosar. Mas só um pouquinho também. Com 27 não quer dizer que eu estou velho, né? Se eu estou velho, o André Sá está o quê, então, um ancião! (risos)

(risos) Li nas suas entrevistas depois da Davis que as Olimpíadas eram um sonho para você. Como está vendo suas chances hoje?

Ah, cara, eu vejo grandes, para ser bem sincero com você. Eu tenho 240 pontos (para defender) até o Rio Open. Vou jogar só Challengers até ali. Já tenho quatro Challengers para jogar. Jogo Quito (um ATP 250 em fevereiro), que é um torneio onde eu sei do meu potencial…

(interrompendo) Tem um Challenger aqui no Rio, né?

Dois na Argentina, um no Marapendi (clube carioca) e um em Bucaramanga. Em Bucaramanga, já ganhei um torneio. Aqui, vou estar jogando em casa… Enfim, são torneios que se ganha um, faz uma final, uma semi… Já defendi os pontos. Depois, também… Sabe? Foi como na primeira vez, que me meti (no top 100) jogando Challenger, com a confiança lá em cima. Acho que o importante no começo do ano é ganhar jogo, agarrar ritmo de jogo, um pouco de confiança e ir embora. Depois, jogando Rio (Open) e São Paulo (Brasil Open), que são dois torneios que eu amo jogar… E aí, cara… Não vou arriscar nada no calendário.

Esse ranking para as Olimpíadas fecha por volta de 80, né?

Eu acho que 80. Mas é isso, cara. Acho que (as chances) são altas. Estou super motivado, como te falei.


Bruno Soares: sobre autoanálise, otimismo e uma grande revelação
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Soares_blog_col

A agenda de Bruno Soares é cheia, e a conversa rola durante o almoço, entre compromissos e treinos mineiro de 33 anos. Quando ele começa a falar, porém, não há pressa. O papo é sobre sua pior temporada nos últimos cinco anos. Top 10 de junho de 2013 até o começo de 2015 e número 3 do mundo por quase um ano inteiro, Soares é agora “apenas” o 22º do ranking de duplas. E, como é típico de um tenista que quase foi forçado a encerrar a carreira por lesão, sem drama.

Na conversa, o mineiro revelou um sério problema extraquadra que afetou o rendimento de sua dupla com o austríaco Alexander Peya, mostrou-se frustrado com a falta de resultados e falou das derrotas que mais machucaram em 2015. Não faltou, porém, otimismo. Com seu nível de tênis, o recente título no ATP 500 da Basileia e a futura parceria com o britânico Jamie Murray.

Soares também falou sobre o momento das duplas no Brasil, com Marcelo Melo ocupando o topo do ranking, e no mundo, com os gêmeos Bob e Mike Bryan perdendo a hegemonia do circuito. Ah, e quem será que vai jogar duplas mistas com Teliana Pereira nos Jogos Olímpicos, hein? A íntegra da (longa e esclarecedora) conversa está abaixo. Leiam!

Vamos começar do começo de 2015. A última vez que a gente conversou foi no Rio Open e você disse que estava sem aquela confiança que ganha jogo. A coisa melhorou depois dali, mas não o bastante pra te satisfazer, né?

Não. A sensação deste ano é que em nenhum momento a gente conseguiu embalar. A gente teve bons momentos, que a gente jogou um tênis muito bom, ganhamos jogos muito bons, mas em nenhum momento a gente conseguiu embalar. A gente acabou sempre esbarrando em alguma coisa. Uma coisa que a gente esbarrou muito este ano foi o super tie-break, que custou muito caro. Nossa campanha eu nem olhei nem quero olhar, quero esquecer, mas deve ter sido horrível, né? Isso, no formato que a gente joga, pesa demais. Super tie-break é uma coisa muito de momento e confiança. Quanto melhor seu momento, melhor você consegue jogar ali. Foi o grande problema deste ano. O mais legal foi depois que decidimos que a gente ia separar, que foi um momento muito triste porque a gente é muito amigo, foi ter conquistado o título da Basileia e ter mostrado para a gente que foi um ano complicado, mas quando a gente joga bem, pode ganhar de qualquer um. A gente ganhou de quatro duplas que foram para o ATP Finals (Bopanna/Mergea, Matkowski/Zimonjic, Rojer/Tecau e Murray/Peers), então foi bom nesse sentido de afirmação. Não tivemos um ano bom, a gente sabe disso. Teve muita coisa que não saiu do jeito que a gente queria, mas quando a gente joga bem, a gente sabe do nosso potencial.

Eu estava guardando essa pergunta para o final, mas você já…

(interrompendo) Já te f… de início, né?

(risos de ambos) Mas você citou Basileia, as quatro duplas que vocês derrotaram e… Como é ver Rojer e Tecau ganhando tanto e terminando o ano como número 1 do mundo? Porque você e o Alex têm retrospecto bem favorável contra os dois… O quanto mexe com a cabeça você estar num ano ruim e pensar “eu ganho desses caras?”

Tem os dois lados da moeda. Este ano, a gente não conseguiu render o nosso melhor. A gente tem isso claro. Mas chegou um momento que era meio mostrar para nós mesmos que a gente, junto, ainda podia jogar bem tênis. E este ano foi complicado de alguns problemas da parte do Alex, que não vêm ao caso e não vale a pena dizer. Ele teve alguns problemas extraquadra que ele passou uma barra muito maior. Acabou influenciando em algumas coisas e foi um ano bem complicado para ele. Mas é legal chegar num momento desses, no fim do ano, que é mostrar que a gente pode ganhar de qualquer um. Mas foi um ano difícil nesse aspecto. Você pega o próprio Marcelo e o Ivan, que tiveram um grande ano. Nosso head to head com eles era 5 a 0. Este ano, nós perdemos três. Então é uma coisa de momento. Nos últimos dois anos, nosso momento era melhor que o deles, e a gente ganhava. Aí você fala “por quê?” Não sei. Este ano, a coisa inverteu. Murray e Peers ganharam duas da gente. No fim do ano, a gente até conseguiu “pegar” eles uma vez, mas era uma dupla que a gente tinha 6 a 0 nos confrontos. Rojer e Tecau, a mesma coisa. Mas o que me deixa bem tranquilo é saber que na maior parte do ano, eu estava jogando um tênis de alto nível, apesar de as coisas não estarem acontecendo da forma que eu queria. Isso me deixa tranquilo de saber que ano que vem eu continuo jogando um tênis de alto nível e se continuar nessa linha, vou conquistar algo legal e voltar para o ranking que eu acho que deveria estar, que é melhor do que isso aí.

Soares_Peya_Cincy_get_blog

Você nunca foi chegado a teorias apocalípticas, e com o formato das duplas hoje, uma sequência de três, quatro, cinco derrotas não significa necessariamente um péssimo momento. Mas em alguma parte desta temporada soou um alarme do tipo “tem que mudar alguma coisa”? E não digo nem só de mudar de parceiro…

É… Soou médio. Como foi um ano complicado, principalmente da parte do Alex – extraquadra – a gente tinha muito bem claro na cabeça o porquê de certas coisas, de alguns momentos ruins, de a coisa não estar andando muito bem…

(interrompendo) Essa questão do Alex que você acabou de mencionar eu acho que ninguém sabe…

Ninguém sabe! E ninguém vai saber. Na verdade, são problemas dele e todo mundo sabe que houve problemas. São coisas que influenciaram nos resultados. Então tinha um pouco de a gente saber o porquê disso tudo, mas chega um momento que pinta uma dúvida. Você fala “pô, não é possível, toda hora chegando e batendo na trave.” Chegou um momento na temporada de saibro que a gente perdeu muita coisa chegando muito perto. Chegamos na semifinal de Barcelona, ganhamos dois bons jogos, perdemos dos caras que foram campeões (Draganja e Kontinen) com quatro match points. Isso é aquele negócio: de repente, se a gente ganha aquele jogo, fazia a final contra Murray e Peers, ganhava e são 500 pontos. A coisa poderia mudar de figura. Ao longo do ano, faz muita diferença. O próprio ATP Finals, que ficou parelho no fim do ano… Todos essas pontos fariam diferença, e a gente já estaria classificado. Com esse tipo de coisa, começa a pintar uma dúvida na cabeça. Mas esse é o momento de ter tranquilidade e saber onde você está. Eu senti que estava jogando bem. Agora é questão de ter paciência e continuar insistindo.

Os problemas do Alex jogam uma luz que ninguém tinha na história dessa temporada. Eu, por exemplo, te perguntaria se quando as coisas começaram a dar errado, você pensou na questão da idade (33 anos), se é o começo do fim, se fisicamente tem alguma coisa errada, se os reflexos estão indo embora…

Exatamente. Isso é uma coisa que o atleta tem que olhar. Principalmente hoje em dia, que todo mundo joga até mais tarde. É uma pergunta que a pessoa se faz. “Peraí, vamos ver esse vídeo, conversar com o treinador… Tô mais lento?” Eu faço essa pergunta pro Alex, pro Scottie (Scott Davidoff, técnico da dupla) muitas vezes. “Mas aquela bola… Você acha que eu estava lento, que deveria ter chegado? Eu cobri errado?” E aí muitas vezes você enxerga alguma coisa que de repente não estava vendo. Mas tenho muito bem claro que não foi por nada disso que os resultados não apareceram. Não é porque estou jogando pior, ficando mais velho, mais lento ou não estou aguentando mais a batida. Pelo contrário. Eu me sinto melhor fisicamente, mais maduro e mais preparado para conquistar coisas maiores. Não é o começo do fim, não é o início da descida da ladeira. Acho que tenho alguns anos ainda para subir antes de começar a descer. Vou entrar ano que vem sabendo do nível que eu estou jogando.

Já ouvi algumas pessoas dizerem que a IPTL (liga de exibições disputada em dezembro) te atrapalhou.

A IPTL tem os dois lados. Ela pode, sim, atrapalhar. É difícil eu te falar. Nem eu consigo dizer se ajudou ou atrapalhou. Eu não sei. Foi uma grande experiência para mim, foi muito legar ter participado, principalmente por ser o primeiro ano.

Lembro de você me dizer na época coisas do tipo “hoje treinei com o Agassi com a Serena na beira a quadra!”

Exatamente. Foi uma experiência fantástica. Mas tem isso… Você vem de cinco, seis, sete anos fazendo a mesma coisa. O seu corpo está acostumado com aquele momento não ser de competir. Você está tirando suas férias. De repente, parece que tem dois anos seguidos (de competições). E realmente é extremamente desgastante. Foi positivo ou negativo para o ano? Isso eu não sei te falar. É muito do “e se”. É difícil falar. Se eu tivesse ido para a IPTL, me machucado e perdido três meses, que foi o que aconteceu com o (Marin) Cilic, eu poderia ter falado que me sobrecarregou, mas não foi o meu caso. Pode ter influenciado? Pode, mas não sei te dizer quanto a isso. Foi uma experiência enriquecedora, vivi coisas incríveis para mim e agora é o seguinte: passou, analisou o que deu certo e deu errado, o que eu posso fazer para melhorar e toca o barco. Não adianta ficar remoendo.

Vamos para uma pergunta mais fácil então (risos). Qual foi a vitória mais legal do ano? Foi mesmo na Basileia?

Foi disparado. O grande lance da Basileia veio muito da parte emocional nossa, minha e do Alex. Porque a gente ficou triste com a separação, só que em nenhum momento nós brigamos. Somos grandes amigos. O Alex é um cara que virou um irmão para mim. E foi o que eu falei: pinta aquele negocinho de a gente saber que Rojer e Tecau estão lá, Murray e Peers estão lá, Marcelo e Ivan… E a gente não estava conseguindo render. E a Basileia serviu para dar essa tranquilidade para a gente. Tivemos três anos e meio fantásticos, não vamos terminar pensando neste último ano. Vamos pensar em tudo que a gente fez. Foram 11 títulos juntos, né? Tanta coisa boa… E a Basileia deu isso para a gente. “Quando a gente consegue jogar nosso melhor, é isso que a gente consegue fazer.” A decisão já estava tomada, não tinha como voltar atrás, nem era uma possibilidade, então foi muito importante não só pelo caneco, mas por esse lado emocional nosso.

Soares_Peya_Basileia_div_blog

E a derrota que doeu mais?

(pensativo) Cara… (pensando mais) Vou pensar um pouquinho para não falar besteira. Foram duas. (outra pausa para pensar) Não, vamos voltar. Você perguntou uma, vou falar só uma. Não doeu porque não tenho muito isso de ficar remoendo derrota, mas me incomodou bastante a semifinal do Rio Open. Era um torneio bem duro e, no momento que a gente entrou para jogar a semifinal, os colombianos (Robert Farah e Juan Sebastian Cabal) tinham acabado de perder, que foi uma surpresa, para o (Philipp) Oswald e o (Martin) Klizan. E a gente estava na semi contra o (Oliver) Marach e o (Pablo) Andújar. Ou seja, se você desenhasse a oportunidade de ganhar um ATP 500, e sendo no Rio, em casa, que é obviamente diferente… Não podia ter uma trajetória menos complicada. E essa derrota me incomodou demais. A gente era bem favorito naquele cenário e acabou perdendo a oportunidade de ser campeão no Rio. Essa derrota não me incomodaria tanto se fosse em outro lugar, outro ATP 500.

Agora eu fiquei curioso. Você falou em duas… Qual foi a outra derrota?

Não, a outra que me incomodou um pouco foi a Copa Davis. Até porque perder em Copa Davis envolve muito mais do que a própria derrota. Influencia no time e em muito mais coisa. Realmente, ela incomodou. Tirou uma invencibilidade nossa, mas isso é uma coisa que eu não penso. Uma hora ia acabar. Mas incomodou pelo fato do time, de a gente ter dificultado as coisas para o time do Brasil.

E a parceria com o Jamie? O que te faz acreditar que pode dar certo?

Cara, o Jamie é um cara que os pontos fortes dele potencializam os meus pontos fortes. Ele joga muito bem na rede, então entra muito bem naquela combinação: eu devolvendo e ele fechando a rede. Mas não só isso. O Jamie evoluiu demais nos últimos dois anos. Ele é um grande jogador, muito mais maduro. Acho que a Copa Davis vai fazer um bem enorme para ele. Os caras foram campeões. E ele, coitado, tem uma pressão enorme pelo fato de carregar o nome do Andy em tudo que ele faz. Querendo ou não, o Jamie conquista isso, e sempre tem aquela perguntinha sobre o irmão do Andy. Querendo ou não, deve incomodar o cara. E tem essa pressão de jogar a Davis ao lado do Andy. Ele vai trazer muita coisa positiva nesse sentido. E tem esse lance de estar preparado para conquistar coisa grande.

Depois de dois vices em Slam, é essa a hora dele?

Hoje, é moldar o nosso jogo, ver qual vai ser nossa forma de jogar, o que a gente poder fazer, mas acho que o mais importante é perguntar: “esses jogadores estão prontos para ganhar um Grand Slam?” Eu acredito que sim. Eu acho, e isso é achismo meu porque não conversei com o Jamie e não sei, mas acho que ele tinha essa sensação com o Peers. Que ele é um grande jogador, mas eles bateram na trave na maioria das coisas. Acho que isso é uma das coisas que fez o Jamie me chamar. O Peers chegou agora, tem menos experiência nesse aspecto. Acho que o Jamie vê isso em mim. Ele vai conseguir manter o nível que vinha jogando com o Peers, mas agora com um cara mais experiente e acostumado a jogar esses momentos. Isso, para mim, faz diferença. Aconteceu com o Marcelo este ano. Você vê a maturidade. Quando chegou numa final de Grand Slam, de Masters 1.000, já era uma coisa natural para ele. Alguns anos atrás, era uma novidade. Quanto mais acostumado, mais fácil é você jogar o seu melhor.

(leia aqui entrevista exclusiva com Jamie Murray)

Ter um brasileiro número 1 do mundo muda muito alguma coisa? Seja exposição, mais gente se interessando ou qualquer outro elemento do cenário no Brasil?

Acho que muda. O tanto que vai mudar nós vamos ficar sabendo agora. A gente conseguiu transformar isso aí nos últimos anos e trazer as pessoas para o mundo das duplas. Muita gente se interessou mais, a TV mostrou mais, a turma passou a conhecer e torcer pela gente. A gente está mostrando um caminho diferente. O lance, para mim, é que o Marcelo chegar a número 1 do mundo é um feito enorme, absurdo, todo mundo sabe. Acho que é diferente do caso do Guga porque é o seguinte: a gente vem há um tempo jogando no mais alto nível. Em 2013, eu fui número 3 do mundo, mas já era top 10. Tem cinco anos que a gente vem jogando assim. Isso foi sendo moldado aos poucos. O Marcelo alcançou o número 1 do mundo, mas o pessoal já estava acostumado com aquelas coisas. Ele não fez nada de diferente do que ele já vinha fazendo. A grande diferença foi sair de 3 para 1, que é um feito enorme.

Soares_Melo_Davis_Andujar3_blog

Enquanto o Guga, quando venceu Roland Garros, ninguém conhecia.

Nada. Exatamente. O lance do Marcelo é muito disso. Essa mudança a gente começou há muito tempo. Então não dá para dizer “o Marcelo está número 1 do mundo e não mudou nada.” Peraí, já vem mudando há muito tempo. Hoje, a atenção é muito maior. Os nossos patrocinadores, a nossa visibilidade, a quantidade de horas na TV… Isso já é muito maior. Então o lance de o Marcelo ser número 1 vai contribuir ainda mais.

E o quanto esse efeito (pensando) … Não tenho um nome pra isso…

(interrompendo) Efeito Pão de Queijo!

Gostei disso. Você inventou agora?

Eu estudo marketing na Estácio, né, cara? Então estou preparado! (risos)

(risos) Então tá: o quanto esse Efeito Pão de Queijo “rouba” tenistas para as duplas?

Eu acho que zero. Ninguém. Toda pessoa vai sempre começar com o foco nas simples.

Mas não acelera o processo?

Eu acho que racionaliza o processo. O cara vai sempre começar nas simples. É que duplas não era uma opção antes. A turma não pensava. Agora o cara já tem um banco de dados. “Fulano foi dessa forma, Siclano foi dessa forma…” Antes, o cara que ficava tentando até os 29, 30, naquele negócio… Hoje, vai encurtar a distância. Tem o Demo! (Marcelo Demoliner) O cara tem 24, 25, 26, diz “estou 200 em simples e achei que nessa época os caras que começaram comigo já estão top 100. Dupla eu tenho potencial maior, conquistei mais coisa.” Então racionaliza o processo. Vamos tirar zero das simples. Apenas vamos abrir o leque de possibilidades para os jogadores.

Falando de Rio 2016, quem vai jogar dupla mista com a Teliana?

Isso é uma boa pergunta. Não sei. Acho que a primeira coisa a ser feita, que não foi conversado, é criar um critério. E aí quem alcançar esse critério vai jogar. Vai ser por ranking? Vai ser por histórico de dupla mista? Vai ser par ou ímpar? Vamos escolher o critério, que é o mais correto. Aí você tira todo tipo de chance de as pessoas falarem que teve alguma influência de alguma outra coisa que não seja justo com o jogador.

Última pergunta: como você está vendo a situação dos Bryans?

É uma pergunta que hoje não sei te responder e para mim vai ser o grande ponto de interrogação para o ano que vem. Este ano foi a primeira vez desde que eu acompanho que vi eles realmente perdendo o controle da situação. Em 2009, quando Nestor e Zimonjic terminaram como número 1, os Bryans não dominaram tanto, mas você via que eles estavam jogando bem. Tinha aquela sintonia dos Bryans. Este ano foi a primeira vez que vi eles meio perdidos, sem um plano de jogo, sem saber o que fazer. As coisas que eles fazem não estavam dando certo e estavam meio perdidos nessa busca de como jogar. E no fim do ano isso potencializou um pouco. Acho que a derrota no US Open (para Steve Johnson e Sam Querrey na primeira rodada) abalou demais a confiança deles. Eles vinham jogando muito bem, e o US Open deu uma martelada neles. O fim de ano foi a pior época dos Bryans. Isso, para mim, é a grande dúvida para o ano que vem. Se você perguntar para mim “os caras estão ladeira abaixo, decadentes?”, eu acho que longe disso. Eles jogaram no piloto automático por muito tempo por serem muito bons e muito melhores. Eles perderam um pouco disso aí e precisam se reencontrar. Agora depende do tanto que eles querem. Pelo que eu conheço, eles vão estar mordidos. Esses caras adoram competir e ganhar. Se eles vão conseguir executar, é outra coisa.

E o circuito vê isso como?

Esse ponto entra muito num lance muito parecido com o do Nadal. As pessoas começaram a acreditar muito mais que podem ganhar dos Bryans agora. Isso é um fator importantíssimo. Cansei de ver jogo nos últimos dez anos de eles ganharem com o nome. Até comigo já aconteceu! Obviamente, você nunca entra com o jogo perdido. De repente, você abaixa a guarda e… Depois da primeira quebra, você fala “é, realmente hoje não vai dar de novo.” E é ladeira abaixo para você. E eles sentem isso! Eles montam e é impressionante. Hoje, a galera está sentindo isso. “Eles estão sentindo a pressão na hora de fechar o jogo.” É que antes eles não te davam chance de respirar. Agora, não. A galera começou a ver que tem sempre uma luz no fim do túnel. E isso é um fator que eles vão ter que encarar. Jogar todo jogo até o final.


Thomaz Bellucci: “Não posso perder 17 jogos seguidos de top 10”
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Muito antes do evento que lançou o Rio Open 2016, Thomaz Bellucci e eu nos sentamos em uma das mesas do Jockey Club Brasileiro para bater um papo sobre 2015, o que esperar de 2016 e um pouco mais. O número 1 do Brasil fez uma avaliação positiva de sua última temporada, mas reconheceu que lhe faltam vitórias “grandes” recentemente. Disse, inclusive, que é impossível entrar no top 20 sem quebrar a sequência de derrotas para top 10. Afirmou também que precisa melhorar muito seu jogo defensivo.

De modo geral, foi um papo bem leve. Bellucci, que está em pré-temporada há mais de 15 dias, riu ao lembrar da derrota para Paolo Lorenzi em 2011, fez força para escolher uma vitória mais importante em 2015 e lembrou rápido da derrota mais doída: diante de Djokovic, no Masters de Roma. O paulista de 27 anos também admitiu que já jogou “de salto alto”. Leia a íntegra da conversa abaixo.

Você começou 2015 como #64 do mundo e terminou como #37. Nem sempre dá para fazer essa avaliação pelo ranking, mas neste caso, em 2015, dá para usar o número como um parâmetro de que foi um bom ano?

Foi, foi uma temporada positiva. Eu acho que poderia ter terminado até um pouco mais baixo (Bellucci usa o termo “mais baixo” para se referir a um ranking melhor – de numeração mais baixa), mas dentro das possibilidades… Comecei o ano 64 e passei de 100, se não e engano, mas enfim… Comecei o ano ruim e talvez se eu começasse o ano melhor, poderia ter chegado a um ranking mais baixo no fim do ano. Mas, de uma certa maneira, foi um ano muito positivo. Eu consegui jogar muito melhor do que no ano passado. No ano passado, eu também tive dois ou três momentos ruins, mas este ano, a partir de meio, eu consegui manter uma regularidade muito grande de resultados e acredito que foi um ano positivo, sim.

A impressão que eu tive é que este ano você foi mais consistente até do que no ano que você chegou a #21. Você acha isso ou não?

Não (risos). Eu acho quando cheguei a #21, eu tive um ano melhor. Porque comecei melhor e mantive isso o ano inteiro. Cheguei a #21, mas talvez eu tenha mantido como top 30 o ano inteiro. neste ano, eu entrei no top 40 em Genebra e me mantive até o fim do ano. Hoje, eu sou um jogador melhor do que eu era quando cheguei a #21, mas não consegui ter os resultados daquela época, de oitavas em Grand Slam, de fazer quartas e semis em torneios grandes, então. Em 2015 talvez eu tenha jogado melhor do que em 2010, mas tive resultados mais expressivos naquele ano. Peguei umas chaves um pouco melhores do que neste ano. No final do ano, tive uma sequência de quatro, cinco torneios que, mesmo eu jogando bem, não consegui avançar porque peguei jogadores muito bons. Então tenho que contar um pouquinho com a sorte em certos momentos. Lógico que sorte é um pouco relativo, mas no fim do ano, mesmo jogando bem, eu não consegui avançar porque tive uns jogos difíceis.

Uma coisa que se comenta é que tem faltado para você nos últimos anos uma vitória grande. Ganhar de um top 10, um top 5… Inclusive no último jogo contra o Djokovic, o comentarista do TennisTV lembrou que eram 17 derrotas seguidas suas contra top 10. É uma coisa que te incomoda? E o que você acha que falta para isso começar a acontecer com frequência?

Eu cheguei a ganhar de top 10, mas nos últimos anos eu não consegui… Os últimos anos não foram meus melhores anos, né? Mesmo com o Dani (Daniel Orsanic), com o Pato… Não foram anos que eu joguei tão bem, né? Mas ainda falta um pouco. Este ano, joguei com Ferrer, com Raonic e não fiz jogos extraordinários. Falta um pouco mais de tranquilidade, de não entrar tão nervoso, de não entrar tão ansioso contra esses jogadores. Queira ou não, você entra mais ansioso de saber que essa vitória pode ser importante. Talvez falte um pouco mais de tranquilidade. Acredito que jogo eu tenho para ganhar desses caras, como já ganhei algumas vezes. Então falta mais a parte de manter uma cabeça tranquila, de entrar solto na quadra e tranquilo, acreditando que eu possa entrar na quadra e ganhar de qualquer um. Eu tenho até chegado perto, mas, às vezes, nos momentos importantes, eu acabo não jogando tão bem, o que faz muita diferença.

Você vê isso como condição para entrar no top 20, no top 10, talvez?

Com certeza. Se eu quiser entrar entre os 20, é impossível. Não dá para perder 17 jogos seguidos de top 10, senão nunca vou entrar entre os 20. Tenho que estar preparado para jogar contra esses caras e de cinco, pelo menos ganhar umas duas, por exemplo. Matematicamente, acho que é impossível. Daqui para a frente, se eu não estiver preparado, se eu não conseguir ganhar desses caras, eu não vou conseguir entrar. Então tenho que estar… Meu foco é totalmente para esses jogos, para eu conseguir ter um rendimento melhor nesses jogos importantes.

(O revés diante de Djokovic em Paris aumentou para 18 a sequência negativa contra tenistas do top 10)

Olhando para trás, você mudaria algo de 2015 em termos de preparação, calendário, não sei…

Foi um ano que eu não consegui fazer uma pré-temporada tão boa quanto eu queria. Então este ano acredito que eu já comece 201 com uma vantagem em relação a 2015. Em 2015, eu comecei meio sem técnico, não sabia com quem eu ia ficar. Acabou a temporada e não tive tanto tempo de fazer um planejamento, de conseguir fazer uma pré-temporada completa. Comecei a pré-temporada um pouco machucado, estava me poupando e só no final consegui fazer uns treinos legais, mas este ano acho que vou começar melhor, mais preparado do que comecei 2015. Talvez mesmo se os resultados não vierem, pode ser um ano de mais produtividade e com mais planejamento. Vai ser meu segundo ano com o João (Zwetsch, técnico). Em 2015 eu voltei a trabalhar com ele e, por mais que eu conhecesse o João muito bem, sempre tem coisas novas que ele me passa e, queira ou não, de 2010 a 2015 eu também mudei como pessoa e como jogador. Ele também mudou como técnico. Teve um momento de transição. Nos dois, três primeiros meses, é normal que os resultados piorem um pouco porque a gente estava mudando algumas coisas no meu jogo. Eu estava incrementando certas coisas, então o começo do ano foi um pouco difícil para nós dois. A gente não conseguiu encaixar bem os jogos. Acredito que ano que vem seja um pouco melhor.

O Sylvio Bastos (comentarista do Fox Sports) costuma dizer que alguns técnicos não tiveram tanto sucesso com você porque quiseram mudar seu jogo. O João, por outro lado, faz você jogar bem o jogo que você gosta de jogar. Você concorda? 

Concordo, concordo. O João… Ele mesmo, quando a gente começou a trabalhar, falou “não quero mudar nada no seu jogo, só quero aperfeiçoar a sua maneira de jogar.” Talvez com os outros técnicos… Eles me traziam um pouco mais de… Com o Pato (o espanhol Francisco Clavet), por exemplo, e com o Larri (Passos), eles queriam que eu adaptasse um pouco mais o meu jogo. Jogar um pouco mais atrás, jogar com mais bolas, ser um pouco mais regular e diminuir um pouco a velocidade… E o João tem um estilo diferente. Ele acha que é complicado mudar o estilo de um jogador porque eu aprendi a jogar assim e é a maneira que eu jogo bem. E é assim que a gente tem que aperfeiçoar meu jogo. Não mudar de uma hora para a outra. “Ah, vamos dar dois passos para trás e começar a dar bola alta.” Não é meu estilo de jogo. Por mais que eu possa fazer isso…

(interrompendo) Mas até deu resultado com o Larri em alguns torneios…

(também interrompendo) Eu tive resultados esporádicos com o Larri, né? Eu tive dois, três torneios bons, mas não tive um ano consistente. Não foi um ano bom. Mas com o João acredito que ele me entenda mais tanto dentro da quadra quanto fora. Mesmo nos momentos difíceis, é um cara que me dá muito apoio. Ele consegue ver quando eu estou mal, quando estou bem. Isso também me ajuda muito.

Qual foi a vitória mais legal desta temporada?

A melhor vitória… (pensativo) É… Pô, é difícil.

Tem a final de Genebra…

É, então, essa que eu estava pensando.

Foi essa?

Não sei, talvez no (pensa um pouco mais)… A mais legal? Ah, acho que deve ter sido essa mesma, o jogo contra o João Sousa. Deve ter sido o momento mais marcante da temporada.

E a derrota que incomodou mais?

(responde rápido) Com certeza, foi com o Djokovic em Roma.

O que doeu mais? É porque você sentiu que tinha chance?

É, eu senti que o jogo era meu. O primeiro set eu ganhei, e mesmo no resto do jogo, eu achei que estava melhor do que ele, mas não conseguia passar adiante. No final, por mais que o cara seja número 1, tenha feito uma temporada incrível, de perder muito poucos jogos, eu senti que naquele dia eu estava jogando melhor que ele e poderia ser meu o jogo. Então eu terminei um pouco frustrado (Djokovic venceu por 5/7, 6/2 e 6/3).

A essa altura, você já está acostumado com essas sensações? É uma coisa que você, alguns dias depois, já consegue apagar? Ou esse sentimento vai com você por mais tempo?

É mais fácil apagar quando você joga com o número 1 (sorri). Se você joga com o número 1 e perde, no outro dia você fica frustrado, mas esquece. Quando você joga com um cara que você tem mais condições de ganhar, você fica mais frustrado. Com a experiência, você vai levando melhor isso. Talvez se essa derrota fosse há uns cinco anos, eu levaria de uma maneira pior, mas do jeito que foi, até porque no torneio seguinte tive um bom resultado (Bellucci foi campeão do ATP 250 de Genebra), não deixei aquilo me influenciar.

Você falou “cinco anos atrás”. Madri foi em 2011. Aquela derrota para o Djokovic (o sérvio venceu em três sets na semifinal do Masters 1.000 de Madri após estar um set e uma quebra abaixo no placar) você demorou mais para…

(interrompendo) Ah, foi um momento… Mesmo porque na semana seguinte eu perdi para o (italiano Paolo) Lorenzi, né? Então acho que hoje em dia eu consigo lidar melhor com essas derrotas, apagá-las no dia seguinte e aprender com elas. Talvez, nessa época, eu não conseguia lidar muito bem. E também eu, às vezes, com uma vitória, ficava de salto alto e acabava perdendo um jogo fácil na semana seguinte. Então eu era muito irregular, não conseguia manter uma consistência grande. Com a maturidade, você vai sabendo administrar isso. Por mais que você tenha uma vitória magnífica no dia anterior, isso não vale nada se você não faz um bom jogo de novo no dia seguinte.

Você falou do Lorenzi… O que chateou mais? Perder do Djokovic numa semifinal depois de estar um set e uma quebra na frente ou perder do Lorenzi, que era, sei lá, 300 e alguma coisa do ranking?

Não, ele não era tão ruim assim (risos de ambos). Ele era, sei lá, uns 150, 200?

Sim (rindo), mas você entende o que eu quero saber?

Não, uma derrota contra o Lorenzi dói muito mais do que uma contra o Djokovic. Sem dúvida nenhuma (mais risos).

(Registrando: Lorenzi era, de fato, número 148 do mundo naquela semana de 2011, no Masters 1.000 de Roma)

Seu calendário para 2016 muda alguma coisa?

Muda um pouco, mesmo porque o calendário também mudou, né?

Ficou uma zona com os Jogos Olímpicos encaixados ali…

É, a gente vai para os Estados Unidos, volta, vai para os Estados Unidos de novo, então… Eu nem sei, na verdade. Mas no começo do ano muda também. A gente joga Brisbane, depois Sydney, depois Australian Open. Sydney eu nunca joguei, e Brisbane nos últimos anos eu não joguei também. A gente quer tentar…

(interrompendo) Você não gosta de Auckland?

Gosto, mas eu nunca joguei bem lá (risos). Esse que é o problema. Eu até gosto, é um dos meus torneios favoritos, mas não adiante se você vai lá e não consegue jogar bem. E também Sydney tem condições mais parecidas com o Australian Open, então vamos ver se a gente consegue chegar mais bem preparado.

Não tem como fazer preparação diferente para Jogos Olímpicos, né? Tem um Masters duas semanas antes, depois Rio, depois outro Masters… Não dá para parar dois meses e treinar só para uma coisa, né?

No tênis, não tem isso como nos outros esportes. A gente tem competições importantes o tempo inteiro. Não tem como falar “vou ficar um mês sem jogar porque quero estar bem preparado para aquele torneio.” No tênis, não existe isso. Não tem como fazer preparação especial. Lógico que eu gostaria, mas é um calendário complicado para todo mundo. Para mim, as Olimpíadas talvez sejam o torneio mais importante do ano que vem.

Tiraram os pontos do ranking para o torneio olímpico de tênis. Você acha que isso afeta muito?

Não, acho que não. Nos últimos anos, os jogadores já têm priorizado as Olimpíadas. Por mais que dê ponto, não sei se é a razão principal para a gente jogar. As coisas que você acaba ganhando em Jogar Olimpíadas são muito mais que a pontuação que você ganha. E também não é uma pontuação magnífica.

Eram 750 pontos para o campeão…

Era como se fosse um ATP 500. Para os jogadores no topo, não faz tanta diferença. Para os lá de baixo, pode ser, mas para o Federer, o Djokovic, 750 pontos não muda quase nada no ranking deles. Não acredito que seja um empecilho para eles.

É possível que o Brasil entre com uma dupla mista nos Jogos. E tem você, Marcelo, Bruno, André talvez esteja… Quem vai jogar com a Teliana?

Ah, não sei (sorriso), mas os especialistas em dupla são o Marcelo e o Bruno, Não tem muito sentido a gente pegar um jogador de simples para estar na dupla porque é o que eles fazem de melhor.

Eu sei que não funciona exatamente assim porque ninguém trabalha uma coisa só numa pré-temporada, mas se você tivesse que estabelecer uma prioridade máxima para a pré-temporada, o que seria?

A parte principal, que a gente já vem conversando durante o ano, é a parte de defesa. Conseguir me defender melhor e aguentar mais os pontos quando eu estou sendo deslocado. Isso, contra esses jogadores, é muito importante porque jogadores que estão entre os (top) 10 geralmente devolvem bem saque, e é muito difícil ganhar o ponto em duas, três bolas. Por mais que eu tenha um jogo agressivo, eu tenho que jogar defendendo, mesmo que seja uma parte pequena durante o jogo. Então eu tenho que fazer melhor isso. A maioria dos pontos em que eu começo me defendendo, eu não consigo ganhar. Preciso melhorar isso daqui para a frente. É uma prioridade.

É questão mais de velocidade lateral, de arranque para chegar nas bolas, ou é a execução do golpe defensivo mesmo?

Os dois. A parte física também é importante, de eu conseguir me deslocar melhor… Ah, você vê que o diferencial dos grandes jogadores hoje em dia é a parte física. Antigamente, não tinha tanta diferença assim. Você pega dos jogadores número 1 do passado… Não necessariamente eles tinham o melhor físico. Hoje em dia, é ao contrário. Você pega os cinco primeiros e vê que fisicamente eles são melhores que os outros. Essa é uma coisa que eu tenho que tentar trabalhar com o André (Cunha, preparador físico). Mas, de qualquer maneira, a parte técnica também é importante, de melhorar minha técnica de chegar nessas bolas e me defender melhor.


Entrevista com Jamie Murray: “Estamos desesperados para ganhar um Slam”
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Novo parceiro do brasileiro Bruno Soares, o britânico Jamie Murray encerrará nesta semana a melhor temporada de sua carreira. O escocês, número 7 do mundo – melhor ranking da vida até agora, conquistou em 2015 dois títulos e seis vices. Entre estes, os de Wimbledon e US Open.

Dois anos atrás, era Soares quem batia na trave do sonho de ganhar um dos quatro títulos mais importantes do circuito de duplas masculinas. Naquela final de US Open, porém, o austríaco Alexander Peya entrou em quadra com dores nas costas e mal conseguiu jogar. A maior chance das vida do mineiro (e do austríaco!) passou sem ser sequer uma chance propriamente dita.

Nada mais justo, então, que após estarem tão perto de grandes troféus, Jamie Murray e Bruno Soares tenham um objetivo só como parceria em 2016: ganhar um Slam. E o escocês, irmão mais velho e menos famoso de Andy, não precisa de eufemismos. Em entrevista concedida por e-mail, foi franco e direto: “Nós dois estamos desesperados para ganhar um Slam.”

Nas respostas de Jamie, cheias de pontos de exclamação e sorrisos (nota: o comentário em parênteses sobre Wimbledon foi reproduzido exatamente como estava no email), fica nítida a empolgação por atuar com um amigo de longa data. Entre tudo que escreveu, o escocês sugeriu um nome para a parceria e ainda fez uma piada sobre os jogos entre seu irmão e seu novo parceiro. Leia abaixo!

Bruno conta que vocês se encontraram pela primeira vez em um torneio Challenger na Colômbia, em 2006, em que ele te derrotou nas simples. Você lembra de algo sobre esse dia?
Eu vi o Bruno jogar pela primeira vez quando eu tinha 14 anos e assisti à partida em que ele disputava a final do Orange Bowl de 18 anos em Miami. Então, cinco anos depois, estava jogando contra ele nesse qualifying de simples na Colômbia. Acho que ele tinha se lesionado por um bom tempo e estava tentando voltar. Fico feliz por ele ter vencido porque teria abalado a confiança dele perder para mim nas simples!!! E no saibro!!! Eu só jogo no saque e voleio :))

Obviamente, já passou muito tempo desde aquele dia. Quando você convidou o Bruno para formar parceria em 2016, qual foi a motivação? O que pesou mais para você optar por ele?
Eu tive um ótimo ano com meu parceiro, John Peers, mas estava pronto para um novo relacionamento e estava muito animado para jogar com o Bruno. Nunca joguei com um grande devolvedor antes e acho que isso vai tirar o melhor de mim, com meus pontos fortes na rede, então fiquei bastante empolgado quando ele concordou em jogar comigo. Ele é normalmente calmo sob pressão, o que dá confiança e faz você acreditar nos momentos importantes, então estou esperando que seja uma combinação de sucesso.

Uma das coisas que todo mundo diz é que Bruno é um cara fácil de lidar e que isso ajuda muito numa parceria. Vocês sempre se deram bem durante esses anos todos?
Bruno é um ótimo cara, Parece sempre feliz quando passo algum tempo com ele. É sempre divertido. Espero que continue assim em 2016! 😉

Com você vindo de duas finais de Slam e Bruno também já tendo jogado uma decisão de US Open, é justo dizer que vocês esperam lutar por títulos de Slam em 2016 e, quem sabe, pelo topo do ranking?
Acho que nós dois estamos esperando alcançar coisas grandes no ano que vem, mas entendo que leva tempo para construir uma parceria. É claro que quando entrarmos em quadra vamos tentar fazer nosso melhor. Espero que isso nos traga grandes títulos. Acho que é o objetivo de todos jogadores ganhar um Grand Slam, já que é o maior prêmio do nosso esporte e nós dois estamos desesperados para ganhar um! (preferencialmente em Wimbledon!) 😉

Bruno finalmente vai jogar com a segunda metade de Booty & Stretch, parceria que você formou com Eric Butorac e que tem um dos nomes mais legais da história do tênis de duplas. Você já tem um nome legal para o time com Bruno?
Nós podemos ser o time soirée. :))

Uma das peculiaridades de 2016 é a presença das Olimpíadas no calendário. Em anos assim, normalmente vemos tenistas formando duplas com seus compatriotas, o que obviamente não é o caso de vocês. Bruno costuma dizer que isso nunca foi um problema porque ele conhece bem Marcelo, então os dois não precisam jogar juntos o tempo inteiro. A sensação é a mesma para você e Andy?
As Olimpíadas no Rio serão uma experiência sensacional, tenho certeza. Se eu jogar com Andy, isso só fará tudo ser mais especial e faremos tudo para tentar uma medalha. Jogamos muitas vezes juntos, então não precisamos passar tanto tempo juntos em quadra para entender a melhor maneira de ter sucesso. Precisamos nos preparar bem, dar tudo em quadra e veremos o que vai acontecer. Ninguém nunca sabe o que vai acontecer no esporte.

Manter você em forma para jogar as Olimpíadas com um dos melhores simplistas do mundo pode ser muita pressão para o Bruno?
Bruno sempre chuta o traseiro do Andy nas duplas, então não acho que ele vai sentir pressão alguma!! Pelo menos espero!!!

Bom, você sabe que sua mãe é uma celebridade no mundo inteiro. Alguma chance de ela aparecer no Rio de Janeiro se você vier para o Rio Open, em fevereiro do ano que vem?
Acho que minha mãe estará no Rio porque ela é capitã da Fed Cup, então estará lá com as meninas britânicas que estiverem competindo. E fazendo muito barulho nos apoiando, tenho certeza!