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Saque e Voleio

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15 Anos do Boicote - Ricardo Mello: 'Não consigo tirar tantas coisas boas'

Alexandre Cossenza

2024-04-20T19:07:00

24/04/2019 07h00

Em 2004, Gustavo Kuerten e os melhores tenistas do país executaram um boicote e não disputaram a Copa Davis. Era uma medida contra a gestão de Nelson Nastás, então presidente da Confederação Brasileira de Tênis (CBT). O Brasil acabou rebaixado para a terceira divisão da competição e entrou num turbilhão político que só acabou no ano seguinte, quando o catarinense Jorge Lacerda assumiu a presidência da entidade.

Desde o começo da semana passada, o blog publica uma série de entrevistas com pessoas ligadas ao boicote e suas consequências. A intenção é lembrar dos fatos de 2004 e analisar o tênis brasileiro nos últimos 15 anos. O quanto o esporte evoluiu no país? Que passos à frente a CBT deu no período? Houve retrocesso em algum setor? Por que Jorge Lacerda, condenado a quatro anos de prisão por peculato, não foi cobrado da mesma maneira pelos melhores tenistas do país?

O entrevistado de hoje é Ricardo Mello, número 3 do país em 2004, na época do boicote. Em ascensão, o campineiro deixou passar a chance de estrear na Copa Davis em nome do movimento político. Hoje com 38 anos e trabalhando como técnico, o ex-top 50 fala que o tênis brasileiro não avançou e ressalta que Lacerda não cumpriu a promessa de ter um relacionamento mais próximo dos tenistas. Mello aponta ainda a falta de torneios, a dependência da Lei de Incentivo e a falta de credibilidade da CBT: "Que empresa forte vai querer patrocinar uma instituição como essa?" Leiam a conversa e, no fim, confiram as outras entrevistas da série "15 Anos do Boicote".

Qual a primeira lembrança que você tem do boicote?

Eu estava numa transição, entre estar na equipe como reserva, treinando, e estar pronto para jogar. Lembro que eu já estava dentro da equipe, mas não tinha jogado ainda. Ainda estava esperando meu momento. Eu estava louco para jogar, mas entrei no boicote por um motivo maior, pelo bem de todos. Acho que foi necessário para haver uma mudança naquele momento, mas olhando hoje tantas coisas que aconteceram, não consigo tirar tantas coisas boas da mudança. Se olhar da época que eu jogava juvenil para hoje, 25-30 anos depois, eu continuo vendo pais com os mesmos problemas, perdidos, buscando uma solução. Você vê que não tem uma organização ainda. Falando de competição, de alto rendimento, a gente engatinha ainda.

Você chegou a ser chamado pelo Chapecó [Carlos Chabalgoity assumiu o posto de capitão para o duelo com o Paraguai] ou pelo Kirmayr [Carlos Alberto Kirmayr foi o capitão em Brazil x Peru] para algum dos confrontos daquele ano?

Não. Eu entrei na equipe dizendo que eu ia fazer parte do boicote. Todos já sabiam, já estava na imprensa. Como eu já estava dentro, de certa forma, da equipe a participando dos confrontos – não na quadra, mas estava em todos – já participava das conversas com os jogadores lá no Sauípe. Já era sabido que eu não ia participar.

Você tinha uma relação bom com o Nastás na época?

Eu conhecia. Conhecia, mas relação próxima, não. Não tinha contato.

E o Jorge, você conhecia antes de ele assumir a CBT?

Não conhecia. Não conhecia, não. Ele era da chapa concorrente para tirar o Nelson, junto com o Nelson Aerts. Aí que a gente ficou sabendo, né? "É a chapa que está contra [Nastás], que propõe mudanças" e tudo mais, mas conhecia muito pouco. Depois de assumir, ele era bem solícito com todos os jogadores, dizendo que o diálogo ia ser muito próximo e tudo mais, mas não aconteceu tanto assim depois que ele assumiu realmente. As brigas que ele teve depois, com um comportamento autoritário, não aceitando diálogo, fazendo as coisas do jeito dele… Tanto é que logo que ele assumiu, um pouco tempo depois o Meligeni foi capitão e acabou saindo, não explicou bem o motivo… Aí veio briga com o Neco e todo esse problema. No final das contas, quem acaba perdendo é o tênis do Brasil.

[Fernando Meligeni pediu demissão do cargo de capitão da Davis alguns meses após a derrota para a Suécia, em Belo Horizonte, nos playoffs do Grupo Mundial de 2006. Na época, Fino disse o seguinte em entrevista ao jornal Lance!: "No momento que a gente entrou, deixou coisas bem claras. Lado técnico é do técnico. A entidade é dos jogadores. O político não pode subir em cima do técnico" e "A gente abdicou de jogar em um lugar quente e ao nível do mar para zerar as contas. E não zerou. Alguém tem culpa. Quem, eu não sei. Eu não tive."]

Isso era uma coisa que eu ia te perguntar porque conversei com o Saretta, que é da sua geração, e ele fala da quantidade de torneios juvenis e que isso incentivava a galera a jogar e ajudava a atrair gente para o tênis…

Realmente, da época que a gente jogou juvenil, voltando a falar de 20-25-30 anos atrás, assusta. A gente tinha equipe juvenil jogando. A gente tinha interclubes com equipes de todos os lugares. Hoje, a gente não vê. Tinha jogadores do Brasil todo treinando com a gente. Vinham de fora e moravam aqui. Hoje, não existe mais isso. A gente está muito engessado em alguns projetos de Lei de Incentivo, aí depende da captação. Se não capta, não consegue dar sequência no projeto. Acaba gerando muita insegurança. Este ano a gente tem, mas a gente não sabe o que vai ser no ano seguinte. Não tem muita estabilidade. A gente tinha torneios com chaves de 32, 64, às vezes até 128 jogadores. Agora, a gente vê torneio esperando para ver se dá chave. Isso é o reflexo e que acaba assustando um pouco.

E você acha que, nesses 15 anos, o tênis brasileiro melhorou em alguma área? Porque a pergunta que eu faço para todos vem do fato de a gente sair de um presidente acusado de irregularidades – e, depois, inocentado – para um dirigente que acabou condenado a quatro anos de prisão. Então onde andamos para a frente?

Olha… A gente sempre teve jogadores com muito potencial aqui no Brasil. Todos os jogadores que saíram, que foram profissionais e se destacaram, acabaram nunca dependendo de uma Confederação Brasileira ou de algum órgão para desenvolver o trabalho. Foi sempre com ajuda da família ou de algumas poucas pessoas que ajudaram ou incentivaram na caminhada do próprio jogador. De repente, você chega e vê… Acho que este ano não vai ter nenhum jogador de simples na chave de Roland Garros. Você olha dez, 15 anos atrás, tinha 4-5 dentro da chave em todos os slams. Acho que vale a pergunta: será que a gente está caminhando para o lado certo? Será que isso é um reflexo do que foi feito nos últimos anos? Para estar onde está… A gente tem o Marcelo [Melo] e o Bruno [Soares] que estão jogando super bem, tem o [Marcelo] Demoliner, que vem crescendo aí nas duplas, mas é isso que a gente quer? A gente vai partir agora para…

Formar duplistas?

A gente quer ter mais jogadores. A gente não quer só jogadores de duplas, a gente quer jogador de simples. Na verdade, a simples tem muito mais relevância que a dupla. A gente sempre teve bons jogadores aqui, então acho que vale essa pergunta. Eu vejo o Westrupp [Rafael, atual presidente da CBT] com boas intenções, é um cara que jogou e tudo mais, mas… E o Frick [Eduardo, ex-476 do mundo e gerente de esportes ad CBT],que vem ajudando bastante, mas o quanto eles podem fazer? Hoje, o capitão de Copa Davis nosso é o Jaime [Oncins]. Achei uma ótima indicação, acho que teria que ser um cara como ele mesmo, que representou e jogou muito bem, mas é um cara que está onde? Nem mora no Brasil mais! Trabalha com tênis fora do país. E aí a gente vê alguns jogadores que a gente vê que estão se destacando e podem jogar bem… Já estão treinando na Espanha! Então quando o nosso tênis realmente vai fortalecer? Quando vai haver realmente uma união entre técnicos e jogadores para nos tornarmos fortes? Tem um encontro no final do ano lá, de três ou quatro dias, com jogadores e técnicos [Mello cita o encontro nacional promovido pela CBT no fim do ano em Florianópolis]. É uma coisa super legal, mas são 3-4 dias por ano, vira as costas e cada um segue o seu caminho. Então é isso que a gente precisa? Ou a partir desse encontro, dessa troca de informações e experiências, é para seguir esse caminho ao longo do ano e não só durante três ou quatro dias? Acho que é muito pouco. Deveria ser feito muito mais.

É obvio que durante o processo você não tem como adivinhar o que vai acontecer, mas é injusto dizer agora que o boicote não valeu a pena?

Eu acho que, de certa forma, no momento, era uma coisa que não tinha como… Acho que aquela união, aquela primeira vez que a gente teve em comum… Eu estava louco pra jogar! Era a melhor fase da minha carreira. Eu, de certa forma, poderia ter jogado, mas se era pelo bem do tênis e para colocar uma gestão nova e realmente as coisas caminharem, nós, jogadores, acreditávamos que ia acontecer. Agora… Naquele momento, foi válido. Precisava ser feito. Mas entrou uma nova gestão que gerou muita expectativa e não conseguiu produzir e fazer o que tinha que ser feito. Muitos falam que não aproveitaram o momento do Guga, enquanto ele estava jogando bem, mas ele faz parte do processo. Ele ajudou na indicação [de Lacerda], então, de certa forma, ele também estava envolvido. Eu me pergunto o que era mais válido. Seguir com o Nastás? Ir com o Jorge? Quem vai entrar no lugar? A gente vê os argentinos agora… Quem acabou de assumir são ex-jogadores. Podem não saber tanto de gestão, mas estão lá envolvidos e tiveram o espaço deles. Prefiro que sejam ex-jogadores preocupados com o tênis do país do que caras que pensem em arrecadar patrocínios… Nunca houve tanto dinheiro no tênis como nos últimos anos e, de repente, os patrocínios se vão e não existem mais torneios. E tudo que foi arrecadado? Essas perguntas que eu me faço e isso preocupa! Eu trabalho com tênis até hoje, vivo intensamente o tênis desde os 6 anos de idade… Para onde vai caminhar o tênis nos próximos anos?

E tem a questão da credibilidade da CBT…

O Westrupp e o Frick são ex-jogadores, mas pouco conseguem fazer com o valor que tem em mãos hoje. Isso aí é um reflexo da gestão anterior, com todos esses problemas. Briga judicial, condenado aqui, condenado ali… Que empresa forte vai querer patrocinar uma instituição como essa? Mostrando tudo isso… Agora a gente paga o preço pelo que vem acontecendo, por não ter aproveitado, pela falta de visão ou por não seguir exemplos de sucesso de outras escolas, de outros países… E a gente vai seguindo, cada um na sua.

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* Jaime Oncins foi procurado em fevereiro para falar sobre o boicote, mas não quis dar entrevista sobre o assunto.
* Jorge Lacerda foi contactado em fevereiro e não quis dar entrevista sobre o boicote e sua gestão.
* Também em fevereiro, Nelson Aerts não quis falar sobre o boicote e a gestão de Jorge Lacerda.
* Gustavo Kuerten ainda não respondeu as perguntas enviadas por email para sua assessoria.

Leia as outras entrevistas da série 15 Anos do Boicote:

Pardal lamenta momento pré-Rio 2016 perdido: 'Faltou gestão'

Meligeni lembra rusga com Oscar e critica tenistas: 'Não se posicionam'

Sá elogia gestão Lacerda: 'Cuidou mais do alto rendimento'

Saretta aponta crise do juvenil e queda do tênis brasileiro: 'A gente regrediu'

Nelson Nastás: exílio forçado e uma década para limpar o nome

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.