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15 Anos do Boicote - Guga aprova gestão Lacerda: 'Acertou um pouco mais do que errou'

Alexandre Cossenza

2002-05-20T19:07:00

02/05/2019 07h00

Em 2004, Gustavo Kuerten e os melhores tenistas do país executaram um boicote e não disputaram a Copa Davis. Era uma medida contra a gestão de Nelson Nastás, então presidente da Confederação Brasileira de Tênis (CBT). O Brasil acabou rebaixado para a terceira divisão da competição e entrou num turbilhão político que só acabou no ano seguinte, quando o catarinense Jorge Lacerda assumiu a presidência da entidade.

Ninguém foi mais importante no processo do que Guga. Se ele não aceitasse, provavelmente não haveria boicote. O tricampeão de Roland Garros também apoiou integralmente o nome de Lacerda, que era presidente da Federação Catarinense e conhecido da família. Mesmo depois que Lacerda perseguiu uma promotora, ameaçou árbitros e tenistas e agiu nos bastidores contra sua ex-assessora de imprensa, Guga apoiou inclusive a mudança no estatuto da CBT que permitiu a reeleição do cartola para um terceiro mandato.

Em dezembro do ano passado, Lacerda foi condenado a quatro anos de prisão em regime aberto por crime de peculato – por atos cometidos enquanto presidente da CBT, que teve de devolver mais de meio milhão de reais à União. Hoje, Guga aprova a gestão do ex-dirigente. Ao responder as perguntas enviadas em março por email, o ex-número 1 do mundo disse que Lacerda acertou mais do que errou, que o tênis brasileiro evoluiu desde o boicote de 2004 e que a prioridade da CBT agora deve ser investir e incentivar os profissionais do esporte, do professor de clube até o técnico do alto rendimento. Leiam!

Lembrando do boicote, qual foi o momento que você considerou a gota d'água para o boicote? O momento em que você disse "agora é preciso fazer algo"? Foi a nomeação do Jaime para capitão sem consultar os tenistas?

Minha filosofia nesses episódios ruins é não ficar apegado e carregando isso por muito tempo, e sim sempre extrair o máximo possível de aprendizado, analisar a situação naquele determinado momento e pronto, depois passar a borracha e bola para frente. Do que eu lembro, o momento determinante foi durante o confronto Brasil x Canadá [em setembro de 2003, o Brasil foi derrotado fora de casa nos playoffs do Grupo Mundial, o que determinou o rebaixamento para o Zonal das Américas]. A gente sentia que o processo já estava esgotado, não tinha mais margem para evoluir, ficou claro que já era o limite e precisava de uma transição, uma mudança drástica, uma nova gestão para o tênis brasileiro.

Qual foi a sensação de ver, pela TV ou fora da quadra, o Brasil perdendo para times como Paraguai, Peru e Venezuela?

A sensação de fora da quadra de Copa Davis sempre é difícil, porque a vontade de todos nós, tenistas brasileiros, desde criança, é defender o país em todas as competições, especialmente na Davis. No confronto contra o Paraguai, foi um pouquinho mais dolorido, porque tínhamos boas chance de ganhar e acabou escapando. Nas outras disputas, a garotada foi representar mais para compor tabela e evitar o WO, então o resultado já era esperado. O mais delicado foi, sem dúvida, a decisão de ficar de fora e assumir esse risco de a curto prazo ter resultados negativos.

Na última coletiva que você deu no Rio Open, você falou que "o tênis brasileiro ainda precisa existir". O boicote aconteceu 15 anos atrás. Em que aspectos o tênis brasileiro evoluiu nesses 15 anos? Em que aspectos andamos para trás?

Eu acho que de uma maneira geral o tênis brasileiro vem evoluindo. E mesmo em situações drásticas e delicadas como essa, são experiências que precisam acontecer dentro da nossa realidade no processo de desenvolvimento até um dia alcançar um ambiente propício. E observando um plano geral, num âmbito maior, o tênis está mais organizado, com projetos mais claros e definidos, incentivos para jogadores, alguns treinadores e preparadores físicos… Nesse cenário, eu percebo atualmente um programa de gestão mais eficiente. De qualquer forma, sempre ao longo dos anos existirão algumas iniciativas específicas que melhoram ou pioram durante todo o processo, é natural.

O tênis brasileiro saiu de um presidente (Nelson Nastás) que não aproveitou a Era Guga para um presidente (Jorge Lacerda) que não criou uma estrutura para aproveitar o período pré-Rio 2016, quando houve a maior injeção de dinheiro no esporte no país. O que faltou?

O que mais faltou e ainda falta é o conhecimento, que acontece através de experiência e aprendizado. Nem sempre o dinheiro traz a solução e, aliás, às vezes leva a pessoa a se acomodar. É justamente na crise que o ser humano encontra soluções para situações muito mais complicadas. Eu vejo que o fundamental é a gente conseguir desenvolver mais e especializar a nossa mão-de-obra, apostar no calibre e no potencial dos nossos treinadores, principalmente, para acompanhar a garotada, ter um ciclo de segurança da formação para o início da competição e depois um nível internacional até chegar a transição para o profissional, então são muitas etapas que precisam ainda ser fomentadas, construídas, montadas e depois amadurecidas. E quando esses processos estiverem prontos e estabelecidos, o resultado vai vir ao natural. O ambiente do tênis brasileiro é muito confuso, essa é a grande questão que atrapalha bastante e dificulta os processos saudáveis de construção aqui no Brasil. Infelizmente nós precisamos ainda levar os jogadores para incentivar e aprender no exterior, que sempre é mais custoso e mais difícil. Mas, acho que é uma realidade também que o tênis propõe atualmente. É difícil imaginar que os melhores estímulos estejam aqui no Brasil. O circuito é bastante distante da nossa realidade e a gente tem que fazer esse alicerce que dê condições de segurança para as pessoas trabalharem bem, desenvolverem seu conhecimento e no final os jogadores serem bem atendidos. E pensar também além do profissional e do jogador que é o grande ídolo, temos que pensar em servir o tenista do dia-a-dia, as pessoas que gostam de saborear os eventos, o jogo, brincar, o tênis de lazer, todos esses agentes também contribuem muito para encontrar um denominador em comum.

Pergunta parecida: o tênis brasileiro saiu de um presidente acusado de irregularidades (Nastás foi acusado, mas não condenado) para um presidente (Lacerda) que fez a CBT devolver meio milhão de reais à União e foi condenado à prisão por peculato. Por que você acha que os jogadores atuais não cobraram mais da gestão Lacerda? É uma geração que se importa menos com política?

Eu acho que os jogadores estão relacionados com a política sim, tem envolvimento dentro de confederações, da ATP e, possivelmente, eles entendem até melhor a necessidade deles ocuparem esse espaço. E mundialmente acredito que esse é um fenômeno que aumenta cada vez mais. Sim, a grande diferença comparando a base da nossa equipe com os últimos 10-15 anos de Copa Davis é que nós tínhamos um time extraordinário, bem definido, com jogadores de ponta, um número 1 do mundo. Isso dá muito peso, dá condição de discutir com mais calibre e ter experiência suficiente para dialogar e saber que em todo aquele período que nós estivemos juntos, durante dez anos, as coisas faziam mais sentido entre todos. Eu o Fino e o Jaime jogamos Copa Davis juntos durante praticamente uma década, isso é incomparável com qualquer outro momento dos últimos 15 anos. Uma outra diferença importante e também uma vantagem para os jogadores que eu vejo é que atualmente existe uma atenção, uma dedicação e eficácia muito maior das autoridades controladoras, que aí sim tem que fazer o papel da cobrança, fiscalizar contrapartidas e prestação de contas nos mínimos detalhes. Analisando o cenário completo, hoje o envolvimento político do atleta é similar ao que nós vivemos e o que eu percebo de mudanças são dois atributos: o primeiro é que existem os órgãos responsáveis confiáveis para tratar da gestão administrativa com inteligência, competência e controle de cada detalhe, assim o atleta está melhor respaldado. O outro é que isso gera uma nova concepção do esporte, da gestão, do profissionalismo, de trazer a meritocracia de dentro das quadras e dos campos para o âmbito político. E com esses dois componentes avançando, o benefício vem integralmente para o esporte. Esse é o cenário ideal que a gente tem que buscar.

Algumas pessoas com quem conversei argumentaram que criticar publicamente a gestão Lacerda não resolveria o problema. E que, hoje em dia, no tênis brasileiro, um boicote nunca aconteceria. Você concorda com isso?

Eu acho impossível emitir, apontar uma opinião definida sobre esse assunto, porque a margem de imprevisibilidade é muito grande. Nessas horas é melhor considerar todas as hipóteses possíveis ao invés de escolher e afirmar que seria de um jeito ou de outro.

Quase todos com quem falei apontaram a questão financeira (pagar dívidas e colocar as contas da CBT em dia) como um bom feito da gestão Lacerda. Por outro lado, foi uma gestão com disputas políticas e pessoais que afetaram o tênis e pessoas que trabalham com o esporte. Houve problemas com a Try Sports por conta de um desentendimento pessoal com Nelson Aerts, houve ameaça a árbitros e atletas do circuito universitário do Itaú, houve o caso da influência contra a jornalista Diana Gabanyi junto à ITF e outras questões do tipo. No geral, você avalia a gestão Lacerda como mais positiva ou negativa para o tênis brasileiro?

Para mim a gestão do Jorge acertou um pouco mais do que errou. Houve bons avanços, mas também alguns erros importantes. Mas para o tênis, de uma maneira geral, se parar para analisar, o saldo foi positivo.

Como você vê o primeiro ano da gestão Westrupp? Qual seria sua primeira prioridade para o tênis brasileiro no momento?

O primeiro ano do Westrupp está consistente. Ele tem experiências amplas em diversas áreas, acho que é o grande trunfo, tem um bom relacionamento com as instituições e todos os agentes, incluindo os jogadores. O desafio é o dinheiro que encurtou. Mas, como eu falei, a crise pode se transformar em grandes oportunidades. No meu ponto-de-vista a principal prioridade ainda é investir e incentivar os profissionais do ramo, para eles aperfeiçoarem cada vez mais e conseguir aprimorar essa mão-de-obra para depois espalhar o conhecimento ao redor do país. É necessário dar melhores condições para o professor dos clubes até o grande treinador dos profissionais em todas as áreas para que eles tenham boas condições de trabalho, formação, garantir segurança, mais autoestima, mais convicções para eles conseguirem desenvolver esse amor pelo tênis. Esse é o primeiro passo para sacramentar esse trabalho: incentivar novos profissionais. Um desafio importante também é conseguir formar novos profissionais no tênis, sabendo que hoje é obrigatório ter o curso superior de Educação Física, poucas pessoas têm interesse em trabalhar com o tênis, até mesmo para o jogador profissional que precisa investir nesses quatro anos do curso… Esse processo acaba afugentando muita gente e a mão-de-obra que vinha do boleiro e do rebatedor que se formava no clube, acaba sendo reprimida pela falta de condições de frequentar a faculdade, estrangulando a mão-de-obra. Acho que esse é um ponto crítico do tênis que precisa ser melhor investigado para conseguir encontrar uma nova solução que tenha um efeito propulsor nesse processo de desenvolvimento, e aí sim dar condições para essa engrenagem começar a funcionar bem.

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* Jaime Oncins foi procurado em fevereiro para falar sobre o boicote, mas não quis dar entrevista sobre o assunto.
* Jorge Lacerda foi contactado em fevereiro e não quis dar entrevista sobre o boicote e sua gestão.
* Também em fevereiro, Nelson Aerts não quis falar sobre o boicote e a gestão de Jorge Lacerda.

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Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

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