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Thiago Wild: psicólogo de UFC para 'soltar os demônios' e seguir evoluindo

Alexandre Cossenza

02/10/2019 04h00

Campeão do US Open e top 10 como juvenil, Thiago Wild segue como uma das maiores esperanças do tênis brasileiro. Aos 19 anos, o paranaense de Marechal Cândido Rondon vem subindo constantemente no ranking e já é figura comum nos times do país na Copa Davis. Em 2019, deixou para trás os torneios "de entrada" no circuito profissional e já disputa os Challengers, último escalão antes dos renomados ATPs.

Número 615 do mundo no começo de 2018, Wild agora é o 321º do mundo. A subida é relevante, mas ele quer mais. Conversamos nesta terça-feira, no Challenger de Campinas, onde esto a convite do Instituto Sports, e o adolescente ressaltou a importância de elevar seu tênis e falou sobre o trabalho iniciado há alguns meses com o psicólogo Felipe Vardiero, com muita experiência com lutadores do UFC.

O paranaense falou sobre como o trabalho vai lhe ajudar a "soltar os demônios", mas também comentou a "nova" Copa Davis e revelou a meta de alcançar um ranking que lhe permita disputar seu primeiro qualifying de grand slam já em janeiro, no Australian Open. A conversa está na íntegra abaixo:

Em 2018, você saiu de 615 para 449. Em 2019, subiu pra 321, vai cair um pouco esta semana, ficar perto de 350.

Isso aí nem eu sabia.

É uma ascensão estável. Você está contente com como sua carreira vem nesse primeiro ano de profissional?

Nesta semana, completa um ano, né? Olha… Acho que, na verdade, a realidade é uma, meu ranking é um e tenho que seguir com ele, que viver com ele e tenho que jogar o que eu posso jogar com ele. Às vezes, tem alguns wild cards em ATP, às vezes algum quali de ATP que fecha baixo e eu entro, mas com certeza eu queria mais. Eu queria estar num ranking melhor, mas ao mesmo tempo eu não estou num ranking ruim. Eu estou subindo gradativamente e estou focando na evolução de dois fatores: ranking e jogo. Entre os dois, estou focando mais no jogo porque conforme ele sobe, o meu ranking vai subir naturalmente. Se eu focar só no ranking, eu posso muito bem jogar cinco-seis Futures seguidos, ganho dois-três, faço 60 pontos, com esses 60 pontos eu entro no top 300 e beleza. Dou uma beliscada num Challenger, faço umas quartas e estou 260 do mundo. Com que nível? Com que preparação para estar jogando alguns qualis de ATP, qualis de grand slam, talvez? Eu acho que tenho que focar muito mais na evolução de golpes específicos e padrão de jogo do que só o ranking. Como eu disse, é natural a subida de ranking.

E com o seu tênis, você está feliz?

Sim, sim. Acho que nos últimos meses eu dei uma alavancada maior, consegui alguns pontos comigo mesmo, que eu mudei, e acho que venho melhorando significativamente.

No que você mudou com você mesmo?

Ah, coisa minha.

Não é questão mecânica, de golpes, então…

Não. Coisa mental.

Já que você tocou no assunto, o Fabrizio [Gallas, assessor de imprensa da Tennis Route, onde Wild treina] que você está trabalhando com um psicólogo desde antes da Copa Davis. Como foi isso?

Quem iniciou isso, foi o João [Zwetsch, técnico de Wild]. O nome dele é Felipe Vardiero, ele já trabalhou com lutadores de UFC, defendeu alguns quantos cinturões, tem isso no currículo dele. Ele trabalha também com um baita jogador de beach tennis. Eu acho que a perder eu não tenho nada, né? É alguém que eu posso soltar meus demônios para cima dele, e ele tem que resolver eles. Acho que é um trabalho a menos pra mim e pro João.

Como é isso? Sem querer entrar no mérito do que é falado, mas como funciona a relação?

Eu passo para ele como eu me sinto, ele me passa o que eu tenho que fazer. A gente entra num complô contra algumas loucuras, digamos assim, que eu tenho. Não sei se são loucuras, se são características, o que seja, mas a gente meio que criou um complô pra fechar essas coisas na minha cabeça e conseguir blindar, principalmente dentro da quadra, que é onde eu tenho que melhorar mais o meu padrão tático e a minha obediência tática.

Não sei se existe isso muito ainda no tênis, mas ainda existe um certo preconceito com a coisa de ter um psicólogo, de se consultar com alguém…

Eu tive psicólogo a minha vida inteira. Nos últimos anos, dei uma diminuída drástica, digamos assim, e pra mim sempre foi bom. Sempre me ajudou, apesar de que quando eu era menor, eu era exatamente o oposto do que eu sou hoje. Eu era uma criança muito fechada em relação à psicologia, não em relação a outras pessoas. Eu não lembro exatamente o que eu sentia porque eu era muito pequeno. Não sei se era vergonha, medo, não sei, mas eu nunca contava nada para ela. O nome dela é Elisa Mara, é lá de Marechal [Cândido Rondon, no Paraná], e sempre me ajudou muito. É uma pessoa de confiança minha hoje.

Ao mesmo tempo, eu não conheço ninguém que tenha feito análise e diga que não fez bem, mas muita gente diz que não precisa.

Na verdade, independentemente do trabalho que a pessoa faça, se ela tiver fé e acreditar no que está fazendo, alguma coisa vai resultar. Pode não ser o melhor resultado do mundo, mas vai pelo menos encontrar um caminho de melhorar o que ela estava fazendo sem estagnar no caminho.

E você já sente o resultado disso dentro de quadra ou ainda é muito cedo?

Sim. A gente começou logo antes de Cordenons – uma semanas antes de Cordenons [no Challenger de Cordenons, em agosto, Wild alcançou as quartas de final – foi seu melhor resultado neste nível em 2019].

Coincidência ou resultado do trabalho?

Não. Como eu disse, todo trabalho dá frutos. Posso ter perdido na primeira aqui, posso ter perdido não sei pra quem, posso ter feito o que tiver feito. Os resultados não condizem com o que o cara faz, se ele está trabalhando mais ou menos… Às vezes, tem algum fator externo, aconteceu alguma coisa na família dele, qualquer coisa, qualquer problema. Aí não há psicólogo que….

Ano passado, em uma das nossas conversas, você contou que vinha fazendo meditação…

(interrompendo) Tem tempo que eu não faço.

…porque queria algo para o "meu jeito porra louca"

Sim.

Isso você parou?

Tem um tempo que eu não faço.

Não sente falta? De modo geral, você se sente mais calmo em quadra hoje? Ou menos porra louca?

Sim. Sim.

E este ano você jogou mais Challengers do que torneios de US$ 15 e US$ 25 mil…

Joguei um de US$ 25 mil, que eu ganhei [Wild foi campeão do M25 de Montauban e também jogou o M25 de Ajaccio, onde parou nas quartas de final]. Joguei porque vi que ia mudar o ranking. "Vou jogar um torneio pelo menos e tentar ganhar pra nessa virada de ranking, não perder tanto. Eu estava 330 [no ranking] e iam voltar os pontos de todos os tenistas [em agosto, a ATP voltou a computar em seu ranking todos os pontos obtidos em torneios de US$ 15 mil e US$ 25 mil]… Daí eu falei 'e agora?' Caí de 342 pra 372 de domingo pra segunda. Falei 'que isso, não entro mais em nenhum torneio!' E fiz quartas em Cordenons e subi de novo pra 342.

E qual foi o impacto, tecnicamente, de passar a jogar só Challengers? Onde está a maior diferença?

Não tem nada a ver um torneio com o outro, na verdade. Às vezes, os Futures têm alguns jogadores com um nível um pouco maior, mas o que mais muda é a consistência dos jogadores, o profissionalismo com que eles levam o dia a dia. Está todo mundo ali brigando para estar 200, pelo menos 250 do mundo para jogar os grand slams, os ATPs, e os caras que estão jogando Future normalmente não têm essa mesma mentalidade.

Sobre a Copa Davis, te frustrou de algum modo não ter jogado contra Barbados?

Não.

Perguntei isso porque eu tinha a impressão de que seria a sua vez de jogar, pelo menos o salto do João [Menezes]. Aí ele fez resultados, subiu, ganhou o Pan e ficou com a vaga na Davis e meio que "pulou" na tua frente.

Não, na verdade o espírito de você estar numa equipe de Copa Davis não é você jogar ou não jogar. É estar numa semana completamente diferente do que é a vida de tenista, do que é qualquer semana no ano que você possa ter. E você está ali pro Brasil ganhar, não é pra você ganhar. Se eu jogasse e perdesse, ou jogassem o João e o Thiago e ganhassem os dois jogos, e ganhasse a dupla, 3 a 1, eu ia sair como se tivesse ganhado. Quem tem que ganhar é o Brasil, não eu.

Ano passado, quando a gente conversou aqui em Campinas, você estava chateado porque mudaram o formato, "acabaram com a Davis" e tudo mais. Já está conformado com o que vai ser?

Eu não tenho muita opção, né? (risos) Eu não tenho muito o que falar sobre isso. A única pessoa que pode mudar isso é o Piqué [Gerard Piqué, zagueiro do Barcelona, é um dos investidores e motivadores da mudança radical no formato da competição]! Quem fala todas as baboseiras é ele, quem mete a boca é ele. Jogador de futebol querendo se meter no tênis, tá certo. Vou lá eu também dar palpite na La Liga. Vou virar palpiteiro.

E para essa sequência de fim de ano, você estabeleceu uma meta?

A meta seria classificar para o quali da Austrália. Eu preciso estar 250 do mundo, por ali. Às vezes mais, às vezes menos, mas por ali. Precisa fazer uma final, ganhar um torneio, duas finais…

Mas você está confiante nisso?

Tô treinando e tô aí, né? Se eu não jogasse, seria um problema, mas estou jogando, tenho chance de entrar.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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