Saque e Voleio

Categoria : Stanislas Wawrinka

NY, dia 14: três wezes Wawrinka, o mistério mais sedutor do tênis
Comentários 19

Alexandre Cossenza

Wawrinka_US16_F_trophy_get2_blog

Num dia, o suíço está quebrando a cabeça e descontando a raiva na raquete enquanto leva uma virada do argentino Federico Delbonis. Duas semanas depois, faz uma das partidas mais memoráveis do ano e bate Novak Djokovic na final de Roland Garros. Num domingo, escapa por um ponto da eliminação diante de um jovem que nem no top 50 está. No outro, faz o número 1 do mundo correr por quatro horas até não conseguir ficar em pé – literalmente – e conquista o US Open. Eis Stan Wawrinka, o mistério mais sedutor do tênis mundial.

O difícil – difícil mesmo – ao ver um jogo do número 1 da Suíça e atual #3 do mundo é não soltar uma expressão de espanto, saudação, admiração e incredulidade – tudo ao mesmo tempo – a cada paralela, de forehand ou backhand, que voa pesada rente à rede, deixa uma marca junto a uma das linhas e morre no fundo da quadra, deixando o adversário frustrado, confuso, meio que desafiando Wawrinka a fazê-lo outra vez, mas ciente de que o suíço é capaz de repetir aquilo nos próximos segundos.

Wawrinka também é o homem que não se importa em estar fora do top 4. Tão consciente que é, sempre é ele mesmo o primeiro a dizer que está longe do grupo de de Djokovic, Murray, Nadal e Federer, não importa o ranking. E não está nem aí para isso. Quando lhe perguntam por que ele tem “só” um título de Masters 1.000, diz que “não sei e só posso dizer que estou feliz com esse troféu hoje.” Pouco importa. Ganhou três Slams, batendo Djokovic – duas vezes – e Nadal nessas finais. E, a cada resposta sobre o assunto, é como se Stan dissesse uma combinação de “e daí se não ganhei mais aqui ou ali?” com “não me encham o saco” da forma mais suíça imaginável.

Wawrinka também é um mistério quando soma 11 vitórias seguidas em finais, algo que Djokovic, por exemplo, não conseguiu. E não seria tão espantoso assim se o consistente sérvio conseguisse. Federer fez isso lá atrás, em 2004-05. Nadal também somou mais de 11 em 2005-06. Mas Wawrinka, um homem que raramente joga bem duas semanas seguidas, vencer 11 finais em sequência? E incluir triunfos sobre Djokovic, Nadal e Federer nessa lista? Vai entender…

“Confiança” e “jogos de cinco sets”, explica Wawrinka como se as 11 finais fossem a estatística mais banal do mundo. O suíço diz que adquire confiança a cada vitória e que jogos mais longos lhe permitem errar mais. “Depois de uns games, começo a acreditar em mim mesmo, começo a entrar no jogo.” Simples, não? Na verdade, não. Nem um pouco. Mas Stan faz tudo soar assim, descomplicado, como se também fossem mundanas a violência e a precisão de seus golpes.

E agora, o que reserva o futuro para Wawrinka? Mais Slams? Uma eventual briga pela liderança do ranking? Ou um título esporádico aqui e outro ali? Pouco importa, acredito eu. E acho que ele mesmo concordaria. Seu poder de sedução está na dúvida. Stan é um homem que num momento segura o troféu como se fosse o melhor presente da vida e, poucos segundos depois, como se estivesse a entornar uma caneca da Oktoberfest.

Seu tênis é aquela colega de faculdade que se mostra disponível num momento e, no dia seguinte, dá a entender que não quer nada. Torcer por Wawrinka, então, é mergulhar de cabeça numa paixão avassaladora sem saber se aquilo vai terminar em relacionamento sério ou num coração em pedaços. Mas quem ousa dizer que todas essas sensações não são gloriosas?

A escolha tática de Djokovic

A questão já foi abordada no post pré-final, mas acho que vale lembrar. Novak Djokovic começou a final de maneira cautelosa, meio que pagando para ver o que Wawrinka tinha na mão. Valeu a pena no primeiro set – como valeu naquela final de Roland Garros – mas quando o suíço achou o tempo e calibrou seus golpes, o cenário mudou. O #1 não achou uma saída, um caminho que lhe desse vantagem consistentemente nas trocas de bola. O plano de jogo que deu certo contra Wawrinka na maioria das vezes falhou neste domingo.

Não me parece tão justo assim criticar a estratégia de Djokovic. Afinal, o sérvio ainda teve muitas chances no segundo e no terceiro sets, quando a partida ainda estava parelha. Foram três break points seguidos não convertidos no quinto game da segunda parcial (0/40), mais três no primeiro game do terceiro set e mais unzinho dois games depois. No fim das contas, a final foi muito mais decidida no velho quesito “chances aproveitadas” do que em planos de jogo.

Mesmo perdendo por 2 sets a 1, Djokovic ainda estaria bastante “dentro” de jogo não fosse pelos problemas nos dedos dos pés, que atrapalharam sua movimentação. Houve polêmica pelo momento em que o atendimento médico foi realizado (após um game par, antes do saque de Wawrinka), mas como o suíço não perdeu o serviço e acabou vencendo o duelo, o assunto perdeu força. Além disso, as imagens da transmissão de TV deixaram claro que o problema de Djokovic era real e bastante sério.

O ponto do jogo

Obrigado à Aliny Calejon por registrar o melhor ponto da partida. Foi, curiosamente, o único ponto vencido por Wawrinka no tie-break do primeiro set.

O top 10

As dez primeiras posições do ranking mundial ficaram assim:

1. Novak Djokovic – 14.040 pontos
2. Andy Murray – 9.485
3. Stan Wawrinka – 6.260
4. Rafael Nadal – 4.940
5. Kei Nishikori – 4.875
6. Milos Raonic – 4.760
7. Roger Federer – 3.745
8. Gael Monfils – 3.545
9. Tomas Berdych – 3.390
10. Dominic Thiem – 3.295

As mudanças mais significativas da lista foram a subida de Nadal do quinto para o quarto posto, o que faz uma diferença enorme no chaveamento de torneios; a ascensão de Monfils, que ganhou quatro postos; e a queda de Federer, que não disputou o US Open e perdeu três posições.


NY, dia 12: por meios incomuns, Djokovic e Wawrinka vão a mais uma final
Comentários COMENTE

Alexandre Cossenza

Do indescritível – ou quase isso – duelo entre Novak Djokovic e Gael Monfils ao impressionante desempenho de Stan Wawrinka diante da fragilidade física de Kei Nishikori, a sexta-feira foi inusitada em Nova York. O dia chega ao fim com sérvio, sempre ele, e suíço classificados para a decisão de domingo. O resumaço de hoje relata as partidas, fala sobre o que esperar da final e ainda cita as duplas mistas e o brasileiro que alcançou a decisão nas duplas masculinas juvenis. É só rolar a página para ficar por dentro.

Wawrinka_US16_SF_get_blog

Se as semifinais femininas de ontem foram partidas normais, o jogo entre Novak Djokovic e Gael Monfils foi o equivalente a Dorothy caindo na toca do Coelho Branco, tomando a pílula azul, acordando do lado de uma morena perdida, com uma chave azul, um monte de dinheiro na bolsa e um tigre no banheiro. Aí elas entram num Honda, atropelam um negão, brigam com um estuprador com uma espada de samurai, pegam a Chopper do Zed, cruzam um portal e vão parar numa realidade paralela onde a moto virou um cavalo que levava uma carruagem que virou abóbora.

Mas eu divago. Na prática, o que aconteceu foi que Gael Monfils tentou jogar seu normal, viu que não daria certo e começou a se fazer de morto em quadra. O plano era desconcentrar Djokovic, o que até deu certo. O francês saiu de 0/5 para 3/5 e ainda teve mais dois break points no game em que o número 1 fechou a parcial.

O problema é que esse tipo de comportamento/tática/malandragem/catimba (escolha o substantivo que preferir) costuma ter prazo de validade, especialmente contra alguém do nível do sérvio. Djokovic passeou no segundo set e fez 6/2. Foi aí que o público de Nova York mostrou seu descontentamento com a postura “finjo que não tô nem aí” de Monfils e saltou uma sonora vaia.

O francês, então, voltou a jogar seu normal. Saiu de 0/2 para 5/2 no terceiro set, pediu uma Coca-Cola e até foi ao banheiro. Enquanto isso, Djokovic rasgou uma camisa, pediu atendimento no ombro direito e, depois, no ombro esquerdo. Os dois também faziam longas pausas entre os ralis. Segundo Djokovic, culpa da umidade, que causou um desgaste acima do normal, embora esperado.

No quarto set, Monfils não conseguiu bater a consistência de Djokovic. Não que o número 1 estivesse em um dia espetacular, o que seria mesmo difícil diante das circunstâncias. Mas a questão é que, ainda assim, a margem de erro para derrotar Djokovic é mínima. O francês não estava em nível tão alto assim. No fim, o placar mostrou 6/3, 6/2, 3/6 e 6/2.

O clima também afetou a segunda semifinal, assim como as chances aproveitadas por Kei Nishikori quando este ainda estava bem fisicamente. O japonês venceu o primeiro set, abriu a segunda parcial com uma quebra e, mesmo depois de perder o saque, teve seis break points. Não converteu nenhum e pagou o preço quando Stan Wawrinka soltou o braços nos games finais e empatou o jogo.

No terceiro set, com menos de 2h de jogo, Nishikori já dava sinais de cansaço. Sacava mal e acelerava a definição dos pontos, subindo à rede rapidinho. Wawrinka, que tinha uma quebra de vantagem, se desconcentrou com a mudança de postura do rival e perdeu a vantagem que tinha. Até o fechamento do teto ajudou o japonês, mas Wawrinka elevou seu nível a tempo de evitar um desastre. Salvou break point no nono game, quebrou Nishikori no décimo e fechou o set.

Se houve drama no quinto set, foi pela irregularidade de Wawrinka, que abriu 3/0, mas permitiu uma quebra quando tinha o controle do confronto. Ainda assim, o suíço, mais inteiro, foi melhor sempre que necessário. Quebrou o serviço outra vez antes que o japonês empatasse o jogo e levou a vaga na final: 4/6, 7/5, 6/4 e 6/2.

O que esperar?

Palpite para a final? Se é inegável que Djokovic é favorito contra qualquer um, é também fato concreto que Wawrinka é um dos poucos nomes capazes de derrotá-lo em uma final de Slam – vide Roland Garros/2015. O número 1 da Suíça será um teste físico para o número 1 do mundo. Djokovic ainda não precisou defender tanto neste US Open quanto costuma fazer quando enfrenta Wawrinka.

Será interessante ver a resistência do sérvio se o domingo for tão úmido quanto esta sexta-feira. Sem correr tanto, Djokovic saiu bem desgastado do jogo contra Monfils. Como seria diante dos forehands e backhands tão agressivos do suíço?

Minha maior curiosidade é saber se Djokovic apostará mais uma vez em uma postura cautelosa contra Wawrinka. A estratégia deu certo na maioria dos jogos, mas falhou na Austrália em 2014 e em Roland Garros, no ano passado. Em ambas ocasiões, o suíço foi campeão. É uma decisão enorme para Djokovic. Agredir correndo riscos ou esperar pelo nível de Wawrinka? Aguardemos…

Desconhecidos campeões

O roteiro não é tão raro assim, mas continua sendo curioso. Mate Pavic e Laura Siegemund se juntaram por força de ranking perto do fim do prazo para o fim das inscrições e foram juntos até o título de duplas mistas. Na entrevista pós-jogo, Siegemund admitiu que nunca tinha nem ouvido falar no nome de Pavic. Ele, por sua vez, disse que ficou amarrado a ela, já que não havia muitas opções. O título veio com um triunfo na final sobre Rajeev Ram e Coco Vandeweghe: 6/4 e 6/4.

O brasileiro juvenil

Felipe Meligeni Rodrigues Alves, sobrinho de Fernando, o campeão pan-americano de Santo Domingo 2003, está na final de duplas juvenis. Ele e o boliviano Juan Carlos Manuel Aguilar garantiram a vaga ao superarem o time formado pelo belga Zizou Bergs e o israelense Yshai Oliel: 4/6, 7/6(1) e 10/2.

Na final, Felipe e Juan Carlos vão enfrentar os canadenses Felix Auger Aliassime e Benjamin Sigouin, que são os cabeças de chave número 3 do torneio.


Wawrinka, um marawilhoso wilão
Comentários 16

Alexandre Cossenza

Wawrinka_RG_F_trophy_get_blog

Woilà! À wossa vista, um humilde weterano do Waudewille, escalado
para os papéis de wítima e wilão pelas wicissitudes do destino.

Era para ser o ano de Novak Djokovic. Rafael Nadal wiweu seu pior momento no saibro e tombou antes da hora. Andy Murray, outro perigoso nome, traçawa caminho diferente. Cabia ao sérwio, número 1 do mundo, inwicto há 28 jogos e faworitíssimo desde o desenho das chawes, conquistar o que parecia seu de direito. Após seis reweses diante de Nadal e um nas mãos de Federer (talwez o mais doído), Nole parecia firme em sua missão de cumprir o destino e conquistar o Career Slam em 2015 – especialmente depois de derrubar o brawo britânico.

Faltawa apenas um obstáculo para o último grande triunfo de Djokovic. Do outro lado da rede estaria Stan Wawrinka, o catiwante suíço que passou a maior parte da carreira no papel de coadjuwante. “O suíço que perde”, diziam alguns. A werdade, contudo, é que Stan sempre tewe tênis para mais, mas quase sempre tropeçou nas oscilações inerentes a seu jogo de alto risco. E, se não estewe mais cotado ao título no saibro de Paris este ano, é porque quase sempre, como os melhores wilões hollywoodianos, logo depois de mostrar seu poder de destruição ao herói, acaba wendo seu plano ruir de forma espetacular.

Todo bom wilão também é catiwante. Quanto tudo dá certo para Stan, saques, forehands e – principalmente – backhands são hipnotizantes. A plateia se apaixona e, como neste domingo em Roland Garros, se entrega de corpo e alma. E foi este o roteiro que se desenrolou sob o sol de Paris. Enquanto Djokovic apostawa em seu jogo de riscos calculados, como sempre fez diante do suíço, Wawrinka mostrou a habitual coragem de colocar todas fichas na mesa. Despachou direitas e esquerdas para todos os lados, de todos locais da quadra, em todos ângulos imagináweis – e até um inimagináwel (weja no wídeo).

Assim, enquanto a partida se desenrolawa e mudawa de direção, o público francês se derretia de amores ao homem que estragawa o que seria um feito fantástico para o número 1 do mundo. Forehands e backhands woawam welocíssimos e inalcancáweis até para o elástico Djokovic. Houwe wacilos aqui e ali, como sempre, mas Wawrinka compensawa com mais um lance de cair o queixo. Até que um backhand na paralela – um dos mais banais do domingo – colocou um ponto final na witória do wilão. Game, set, match: 4/6, 6/4, 6/3 e 6/4.

Houwe aplausos. Uma longa e linda owação para o herói sérwio derrotado. Djokovic, segurando as lágrimas, ganhou um raro reconhecimento do público parisiense. A festa, contudo, era do wencedor do dia, o homem que fez waler o preço do ingresso. Das mãos de Gustavo Kuerten, um wilão 15 anos atrás para seu atual treinador, Magnus Norman, Stan recebeu seu troféu. E, com o mocinho abatido ao lado, Wawrinka, o marawilhoso wilão, wiweu seu dia de Keiser Soze.

Werdade se diga, esta werborreica werbosidade wai já muito werbosa.

Wawrinka_RG_F_trophy_reu_blog

Coisas que eu acho que acho:

– Wawrinka foi tão mágico que fez esses shorts ganharem Roland Garros.

– Concordo com o Edgar:

– Até o “coisas que acho que acho”, sem os trechos em itálico (traduzidos do filme “V de Vingança”), o post acima usa a letra “W” 60 vezes. Uma para cada winner de Wawrinka na espetacular vitória deste domingo.

– A estatúpida do dia, repetida até a exaustão nas redes sociais: todos tenistas que derrotaram Nadal em Roland Garros foram derrotados por suíços na final.

– Nos últimos cinco anos, Stan Wawrinka é o suíço com mais títulos de Grand Slam. Venceu dois, somando também o Australian Open de 2014. Roger Federer foi campeão de um Major pela última vez em Wimbledon/2012.


Porque Federer precisava vencer a Davis
Comentários 7

Alexandre Cossenza

Federer_DC_final_get_blog

Nos últimos 11 anos, desde que se estabeleceu como número 1 do mundo e senhor do circuito, Roger Federer tentou ganhar a Copa Davis apenas duas vezes. A primeira foi em 2004, quando a Suíça sucumbiu diante da França. Seus parceiros, Ivo Heuberger, Michel Kratochvil e Yves Allegro, não seguraram a onda. A segunda tentativa, em 2012, aconteceu quando vislumbrava-se uma campanha só com jogos em casa e terminou em um decepcionante 5 a 0 para os EUA.

Na maior parte do tempo, Federer priorizou calendário e ranking, optando por vestir o vermelho e branco da Suíça quase sempre só nos playoffs. Só que um tenista com tantas conquistas, troféus e, claro, dinheiro, não poderia não tentar mais uma vez. Ele até falou que não precisava. “Ganhei tanto na minha carreira que não precisava marcar um X numa caixinha”, disse neste domingo. Bobagem. A grande história do fim de semana é simples: Roger Federer conquistou a Copa Davis. Empurrado por Stan Wawrinka, grande nome do fim de semana, o ex-número 1 do mundo finalmente alcança um dos poucos feitos relevantes que faltavam em seu currículo.

O triunfo veio num fim de semana especial, com recorde de público (mais de 27 mil pessoas por dia) em Lille, no saibro e na casa dos adversários. E veio depois de uma lesão nas costas que o forçou a não disputar a decisão do ATP Finals, uma semana atrás. E veio depois de uma derrota doída na sexta-feira, um 3 a 0 diante de Gael Monfils em que Federer esteve longe de seu melhor e não esboçou reação diante do tenista número 2 do time da casa.

Mas veio com uma recuperação física impressionante. Nada abalado pelo resultado da sexta-feira, o número 1 suíço não só entrou nas duplas como voltou à arena no domingo. E veio, meio que como uma recompensa dos deuses do tênis, com ele em quadra, em uma atuação impecável diante de um confuso Richard Gasquet. Sim, senhores: Roger Federer, 33 anos, é campeão da Copa Davis. Porque não fazia sentido o tenista mais vitorioso de sua geração chegar ao fim da carreira sem vencer a mais legal das competições.

Suica_DC_reu_blog

Coisas que eu acho que acho sobre a Suíça:

– Wawrinka merece como ninguém a Copa Davis. Nas muitas ocasiões em que Federer priorizou seu calendário pessoal e sua posição no ranking, foi Stan the Man que segurou a barra sozinho, levando consigo Lammer, Chiudinelli, Allegro, fosse quem fosse. Contou com a ajuda de Federer em alguns playoffs, claro, mas esteve sempre ali, vestindo as cores do país.

– A campanha suíça em 2014 tem méritos de ambos. Federer, então número 2 do país, carregou o time contra o Cazaquistão, no que poderia ter sido uma zebra gigante em Genebra. Wawrinka no entanto, foi o nome do fim de semana em Lille. Esteve fantástico contra Tsonga (e talvez tenha sido o responsável pela lesão do francês) e foi o melhor em quadra também nas duplas.

– O banco suíço durante a final tinha 11 pessoas. Difícil imaginar o mesmo com o Brasil, que enche o espaço com juvenis, ex-tenistas, preparadores físicos, médicos, fisioterapeutas e, às vezes, até dirigentes de clubes e assessores de imprensa (ou seja, todo mundo menos Fernando Meligeni).

– Não lembro quem escreveu isso no Twitter durante este domingo, mas impressionou a recuperação física de Federer. Fosse Djokovic ou Nadal na mesma situação, a internet estaria cheia de teorias de conspiração. Que tal adotarmos critérios iguais a todos? Que tal entender que hoje em dia a recuperação é muito mais rápida, até para tenistas com mais de 30?

Gasquet_DC_final_reu_blog

Coisas que eu acho que acho sobre a França:

– Richard Gasquet esteve entre os trending topics do Twitter nos últimos dois dias, e não de maneira positiva. Sua escalação foi questionada, e as atuações deixaram muito a desejar. Normal que se questione a convocação, mas é compreensível que o capitão, Arnaud Clément, tenha apostado em um tenista que foi importante, vencendo dois jogos nas semifinais.

– Ainda assim, era difícil imaginar Gasquet derrotando Wawrinka ou Federer. Dada a condição física desconhecida do número 1 suíço antes do confronto, faria sentido escalar Gilles Simon, que poderia ter, no mínimo, alongado uma partida contra Federer na sexta-feira. Ainda assim, Gasquet não era a primeira opção de Clément. A intenção era jogar com Tsonga, que foi mal contra Wawrinka e ficou fora do resto do confronto alegando uma lesão no cotovelo (em Copa Davis, sempre convém duvidar das explicações oficiais).

– Com a quantidade de tenistas disponíveis, é fácil questionar a escalação francesa (eu mesmo acho que, no saibro, Simon e Chardy teriam mais chances contra Federer do que Gasquet e Tsonga), mas o time que foi pensado inicialmente por Clément, com Tsonga e Monfils nas simples e Tsonga/Benneteau nas duplas, poderia ter vencido o confronto. No fim das contas, o time francês não jogou o bastante e tem muito a lamentar sobre o fim de semana.


O que muda sem Wawrinka e Nishikori?
Comentários 4

Alexandre Cossenza

Rafael Nadal passeou. Novak Djokovic, idem. Roger Federer, Serena Williams e Maria Sharapova fizeram o mesmo. Primeira rodada de Grand Slam nunca traz muitas surpresas. Em compensação, quando elas aparecem, vêm para mudar consideravelmente o panorama. Foi o que aconteceu com as eliminações de Kei Nishikori e Stanislas Wawrinka nesta segunda-feira.

Wawrinka_RG_r1_get_blog

Não que tenham sido resultados muito inesperados. O japonês não jogava desde o abandono na final do Masters de Madri, quando não resistiu a dores nas costas. Em Paris, dentro de uma quadra muito mais lenta do que as espanholas, encontrou problemas e tombou em três sets diante de Martin Klizan. O suíço, que jogou lesionado em Roma, teve dois problemas: o espanhol Guillermo García-López, um adversário perigosíssimo e em ótima fase, e ele mesmo, Wawrinka. Impreciso e impaciente, Stan, the Man não resistiu muito. Tombou em quatro sets.

Parece paradoxal dizer que os resultados não foram totais surpresas e, ao mesmo tempo, afirmar que mudaram consideravelmente o panorama do torneio. É preciso entender, porém, que Grand Slams são assim – nem todos precisam começar o evento afiadíssimos. Com uma semana de jogos e vitórias, Nishikori e Wawrinka teriam condições de ameaçar Djokovic e Nadal na segunda semana. Suas quedas facilitam consideravelmente as caminhadas dos favoritos.

Nishikori poderia enfrentar Nole nas quartas. Sim, o japonês precisaria passar por Milos Raonic antes, mas o ponto é que Kei parece, hoje, um rival que oferece mais perigo ao sérvio. Raonic, embora em grande momento, ainda não se mostrou capaz de tirar três sets de um tenista tão consistente do fundo de quadra. Muito menos no saibro. Muito menos ainda na segunda semana de um Slam, quando todos esperam que o atual número 2 do mundo esteja perto do máximo de sua performance.

Nishikori_RG_r1_reu_blog

A eliminação de Wawrinka abre caminho não só para Nadal, mas para Andy Murray, que poderia enfrentá-lo nas quartas. O britânico, cabeça de chave 7, agora tem uma chave com Golubev na estreia, Matosevic/Brown na segunda fase, Kohlschreiber na terceira e Gasquet/Verdasco nas oitavas. Não é nada impossível ver o campeão de Wimbledon nas quartas. E se chegar lá, terá Fognini/Monfils/Feliciano (ou algum azarão, claro) como adversário…


Perguntas em um cenário incomum
Comentários 4

Alexandre Cossenza

Djokovic_Roma_pre_get_blog

Roma não costuma ser um cenário de surpresas. Não no tênis masculino. Fosse com o habitual domínio de Rafael Nadal ou até mesmo quando Novak Djokovic tomou o circuito de assalto em 2011, o público sempre soube o que esperar no Masters 1.000 da capital italiana. Cinco semanas de jogos no saibro sempre foram suficientes para compor o desenho, mostrar quem é quem.

Desta vez, não é o caso. A temporada 2014, que começou com Stanislas Wawrinka vencendo o Australian Open, é a mais incomum desde 2003 (e não há nada de errado nisso) e agora, a pouco menos de duas semanas do início de Roland Garros, o circuito desembarca na Cidade Eterna na forma de um ponto de interrogação do tamanho do Coliseu. As perguntas sem resposta não são poucas.

– Como anda a forma de Novak Djokovic? O sérvio perdeu a semifinal de Monte Carlo sentindo dores no braço direito e, pelo mesmo motivo, não foi a Madri. Considerando que Nole já treina em Roma há alguns dias, a impressão que fica é que a lesão não preocupa. A opção por não jogar na capital espanhola parece ter sido puramente por cautela. Mas o que podemos esperar de seu tênis? E quanto ritmo e confiança o sérvio vai adquirir até Roland Garros?

– Rafael Nadal começou a temporada europeia de saibro de forma estranha. Perdeu para Ferrer em Monte Carlo e, depois, tombou diante de Almagro em Barcelona. Quando tudo parecia se alinhar em Madri, veio uma atuação abaixo da média na final. Não fosse a lesão de Nishikori, o número 1 do mundo provavelmente teria de se contentar com o vice. E agora, as dúvidas que Nadal admitiu ter antes de Madri ainda existem?

Nadal_Rainha_Madri_get_blog

– Stanislas Wawrinka venceu em Melbourne e, logo depois, jogou mal na Copa Davis e em Indian Wells. Venceu Monte Carlo e perdeu na estreia em Madri. O atual número 1 da Suíça é uma grande incógnita. Ninguém sabe ao certo se o cidadão entrará em quadra calibrado ou mandando seus backhands em Milão. Qual dos dois é o verdadeiro Stan? A resposta mais provável é “nenhum”. Resta saber se quem vai dar as caras no Foro Italico é aquele que venceu todos os seis jogos que disputou contra top 10 na temporada…

– Roger Federer foi pai de gêmeos (sim, outra vez – o parêntese é para quem esteve em outro planeta nos últimos dias ) e não jogou em Madri. Será que o ex-número 1 conseguiu treinar na intensidade ideal durante o período? Vice em 2003, 2006 e 2013, o suíço está longe de ser “o” favorito em 2014, mas não estão catalogados todos tipos de feitiço que a Varinha das Varinhas é capaz de produzir.

Sem ir na toalha (para ler em até 25 segundos):

– O título em Madri garantiu Rafael Nadal na ponta do ranking por pelo menos uma semana. Tudo leva a crer, entretanto, que o número 1 estará em jogo quando ele e Djokovic chegarem a Paris, onde o espanhol defende 1.280 pontos a mais do que o rival. A briga promete esquentar nos próximos 30 dias.

– Entre os tenistas inscritos em Roma, apenas dois já levantaram o troféu no torneio: Nadal (2005-07, 2009-10 e 2012-13) e Djokovic (2008 e 2011).

Nishikori_Madri_trofeu_get_blog

– A lista de tenistas com mais vitórias na temporada é encabeçada por Nadal, com 29 triunfos. O top 5 ainda tem Roger Federer com 28, Kei Nishikori e Marin Cilic com 27, e Tomas Berdych e Fabio Fognini, com 26.

– Com um título de Masters 1.000 e um vice no Australian Open, Nadal também é quem mais somou pontos em 2014. Ele tem 3.865 e é seguido por Wawrinka (3.545), Djokovic (3.050), Federer (2.920) e Berdych (2.465).

Coisas que eu acho que acho:

– Deve doer demais estar a dois games de derrotar o número 1 do mundo e não conseguir fazê-lo por causa de uma lesão. Nishikori, que já sentia dores nas semifinal, abriu 6/2 e 4/2 antes de não conseguir mais se movimentar. Acabou forçado a abandonar quando perdia por 2/6, 6/4 e 3/0. Mesmo assim, garantiu sua entrada no top 10. Hoje, é o nono do ranking mundial e, mais do que isso, um nome a ser mais respeitado ainda em Roland Garros.


Novas tendências
Comentários 3

Alexandre Cossenza

Wawrinka_MC_final_trofeu_get_blog

Não é um ano de velhas tendências para o tênis masculino, e Stanislas Wawrinka ofereceu ao mundo mais uma prova neste domingo, ao conquistar o título do Masters 1.000 de Monte Carlo. Um pouco pelo fato de ser sua primeira conquista em um torneio deste porte, mas mais, muito mais, porque o triunfo por 4/6, 7/6(5) e 6/2 veio em cima do compatriota e algoz habitual Roger Federer.

O resultado significa que Wawrinka não apenas jogou um patronus em outro dementador, mas assumiu a liderança da Corrida da ATP. Traduzindo: Stan, campeão do Australian Open, de Chennai e, agora, de Monte Carlo, é o tenista que mais somou pontos em 2014. São 3.535, contra 3.050 de Novak Djokovic, 2.920 de Roger Federer e 2.780 de Rafael Nadal. Uma temporada que, com lesões aqui e ali, certamente está mais equilibrada do que se imaginava.

A final deste domingo demorou a esquentar. Até porque o início foi, tecnicamente falando, bem abaixo das expectativas. Wawrinka começou atacando demais – e errando demais. Federer, inteligentemente, adotou uma postura mais cautelosa. Também cometeu erros, mas levou vantagem e fez 6/4, mesmo disparando apenas cinco winners e cometendo 12 erros não forçados.

O segundo set começou com uma quebra de Wawrinka, mas três erros não forçados deram a Federer a chance de quebrar de volta. Uma linda passada de backhand na paralela, então, igualou o placar. Parecia aquela velha tendência. Stan joga bem, cria chances e acaba sucumbindo antes do fim. Só que é um ano diferente para Wawrinka. Antes do fim da parcial, o número 3 do mundo encontrou um balanço na sua agressividade. Não parou de atacar, mas correu menos riscos desnecessários. Deu certo. No tie-break, não cometeu nenhum erro não forçado e fez 7/6(5), estendendo a partida.

Quando o terceiro set começou, a confiança de Stan era outra. Sem errar, forçou falhas de Federer, ganhou pontos em ralis do fundo de quadra, em subidas à rede, em belos saques… Abriu 4/0 e transformou os quatro games seguintes em protocolo. Firme até o fim, manteve a dianteira até levantar o troféu.

Wawrinka_Federer_mc_final_get_blog

Sem ir na toalha (para ler em até 25 segundos):

– A última partida em Monte Carlo foi a primeira final entre suíços desde Marselha/2000, quando Federer encarou Marc Rosset e perdeu. O ex-número 1 do mundo jamais derrotou um compatriota em uma decisão.

– O histórico em confronto diretos agora aponta 13 vitórias de Federer contra apenas duas de Wawrinka. Os outro triunfo de Stan, curiosamente, aconteceu justamente em Monte Carlo, nas oitavas, em 2009. Federer, após quatro finais, jamais foi campeão no Principado. Em 2006, 2007 e 2008 caiu diante de Rafael Nadal.

– Com o título, Wawrinka continua como número 3 do mundo, deixando Federer em quarto. As posições se inverteriam caso o resultado da final fosse outro.

– É o primeiro título de Wawrinka em um Masters 1.000. O atual campeão do Australian Open já havia disputado duas finais em torneios deste porte, mas foi superado por Djokovic em Roma/2008 e por Nadal em Madri/2013.

– Vale a curiosidade: o torneio de Monte Carlo agora é o único Masters 1.000 cujo título não está nas mãos de Rafael Nadal ou Novak Djokovic.


Não esperem Wawrinka no Brasil
Comentários 17

Alexandre Cossenza

“Duvido que ele vá”.

Foi assim, direto, que Lawrence Frankopan, empresário de Stanislas Wawrinka, falou sobre a chance de o suíço, campeão do Australian Open, viajar até São Paulo para disputar o Brasil Open. Seria, de fato, estranhíssimo se ele viesse.

Wawrinka_AO_sf_get_blog

Quase tão estranho quanto o e-mail que foi enviado à imprensa na tarde de segunda-feira, pouco mais de 24h depois de Wawrinka derrotar Rafael Nadal em Melbourne. O cabeçalho dizia: “Brasil Open convida Wawrinka”. Mas por que é estranho, você pergunta? Vejamos aqui:

1. É muito raro um torneio anunciar para a imprensa quando convida um jogador. A não ser, claro, depois que o tenista aceita o wild card. Não é o caso aqui. O normal é um torneio tentar vários jogadores até acertar com um. Então, só então, anunciar a negociação. Divulgar um convite oferecido (e não aceito) para a imprensa pode dar a impressão de que o torneio está querendo chamar atenção.

2. O Brasil Open, que começa dia 24 de fevereiro, ainda não anunciou um patrocinador máster. O site do torneio está no ar, limpinho, sem nenhuma marca.

3. A reputação do torneio com os jogadores não anda nada boa. Além de ninguém achar divertido jogar no calor do Ibirapuera ou no precário Mauro Pinheiro (um ginásio que tem um balde amarrado no teto), o evento de 2013 teve problemas com as bolas, o saibro e as linhas. Duvido que alguém aponte outro ATP 250 no calendário com tantos problemas.

Mesmo assim, o Brasil Open teve a ousadia de entrar em contato com o manager de Wawrinka e oferecer o convite. É uma conduta admirável, de quem pensa grande. Só que a chance de o suíço topar vir ao Brasil nunca foi grande (o que faz do release algo ainda mais estranho).

Wawrinka vai disputar o ATP 500 de Roterdã na semana do dia 10 de fevereiro e, em seguida, jogará o 250 de Marselha, a partir do dia 17. Os dois torneios são em quadra dura. Por que o número 3 do mundo viajaria às pressas de Marselha até São Paulo, que começa dia 24, para jogar um ATP 250 no saibro?

Não faz sentido nenhum. É por isso que Wawrinka não vem.

Quando seu empresário escreve “duvido que ele vá”, o faz com bastante sinceridade. Managers não gostam de se antecipar às “respostas oficiais” dos torneios enquanto há uma negociação de fato. Resta ao Brasil Open torcer para Thomaz Bellucci vencer e vender os ingressos que estão encalhados.

Coisas que eu acho que acho:

– Li que muitos veículos de imprensa noticiaram o convite a Wawrinka. Só espero que nenhum leitor e fã de tênis interprete “Brasil Open convida Wawrinka” como “Wawrinka virá ao Brasil”. Não é por aí.

– A chave do Brasil Open não é tão fraca assim. A lista de inscritos tem Tommy Haas, Nicolás Almagro, Marcel Granollers e Juan Mónaco. O torneio também terá Thomaz Bellucci e Guilherme Clezar, e resta um wild card. A organização tem um mês para atrair alguém que ajude a vender entradas.

Sem ir na toalha (para ler em até 25 segundos):

– Na outra ponta da Dutra, o Rio Open tem ingressos praticamente esgotados. As vendas foram impulsionadas pela presença de Rafael Nadal e David Ferrer, claro. E patrocinador é o que não falta: Claro hdtv, Itaú, Rolex, Peugeot, Correios, Raízen, Light, TAM, Xerox, Corona, Furnas, Asics, Amil, Head, Estácio, On, Sheraton, Perrier, Antonio Bernardo, Artefacto, Faberg e Jockey Club Brasileiro.

– Nesta semana, o Rio Open anunciou uma interessante ação promocional: o sorteio das chaves será realizado no Shopping Leblon, com participação do público. Quem estiver lá pode ter o privilégio de sortear os adversários de Rafael Nadal e Thomaz Bellucci, por exemplo. Marquem a data: dia 15 de fevereiro, a partir das 18h.


Fracassa melhor
Comentários 28

Alexandre Cossenza

“Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez.
Fracassa de novo. Fracassa melhor.”

Wawrinka_AO_f_trophy_get3_blog

A frase, tatuada no braço esquerdo do tenista suíço diz mais do que todas linhas deste post. Siga adiante ciente disto, caro leitor. Porque há pouco mais a dizer sobre o mais novo campeão de Grand Slam. A coroação de Stanislas Wawrinka, neste domingo, é nada mais do que uma celebração de fé, luta, persistência, uma dúzia de adjetivos que, como escrevi linhas acima, não reproduzem a relação entre a frase de Samuel Beckett e o título do Australian Open.

Contra Novak Djokovic, eram 14 derrotas seguidas, incluindo um traumatizante quinto set lá mesmo, em Melbourne, pouco mais de um ano atrás. Contra Rafael Nadal eram 12 reveses. Nenhuma vitória, nenhum set vencido. Seis tie-breaks perdidos. “Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez”. E Wawrinka tentou. E tentou. E tentou. E, enfim, conseguiu. E não foi em uma primeira rodada de ATP 500 nem em uma quase relevante final de aquecimento. Foi em Melbourne, na Rod Laver Arena, para conquistar um título de Grand Slam.

Não foi de um dia para o outro, claro. Talvez o Australian Open de 2013 tenha acordado o mundo para o potencial de Wawrinka. Sim, o suíço já havia sido top 10 lá em 2008, mas ninguém via, até então potencial para vencer um Slam. E talvez aquele torneio do ano passado tenha despertado o próprio Wawrinka, ainda que grandes resultados não tenham aparecido imediatamente depois. Mas o jogo estava lá esse tempo inteiro. O saque, o forehand angulado, os voleios… Tudo funcionava. Talvez não com a consistência necessária, mas estava tudo ali.

“Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez.”

Wawrinka_AO_qf_get_blog2

E o backhand? Nunca esteve melhor, mais pesado, mais contundente. Obsceno, eu diria, só para discordar logo depois. Nu artístico descreveria melhor o que Wawrinka faz com o golpe. Nem Djokovic, nem Berdych, nem Nadal. Nenhum dos três encontrou uma solução para a esquerda de Stan.

A coroação, ironia do destino, veio com a manifestação de mais um dementador. Depois fazer de um primeiro set brilhante e de atropelar um Nadal abalado fisicamente na segunda parcial, Stan desandou a errar. Talvez pelos nervos do título que se aproximava, talvez pela incerteza sobre a lesão do oponente, Wawrinka perdeu o terceiro set por méritos próprios. E depois de quebrar o rival no quarto set, falhou espetacularmente. Errou três bolas fáceis e cedeu a quebra.

“Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez.”

Nadal não tinha como jogar de igual para igual. O jogo estava na raquete do suíço, que fez o patronus, colocou a cabeça no lugar e quebrou o espanhol outra vez. O placar mostrava 5/3. Mais quatro pontos, e Stanislas Wawrinka tornou-se, aos 28 anos, campeão do Australian Open.

“Fracassa de novo. Fracassa melhor.”

Wawrinka_AO_f_get2_blog

Sem ir na toalha (para ler em até 20 segundos):

– No meio do segundo set, a ITF mandou um e-mail com a seguinte estatística: desde Sergi Bruguera em Roland Garros/1993, um tenista não vencia um Grand Slam após derrotar os números 1 e 2 do mundo. Bruguera bateu Sampras e Courier naquele ano. Na Era Aberta, é a nona vez que isso acontece.

– Com os resultados do Australian Open, Nadal passa a ter 14.330 pontos, contra 10.620 de Novak Djokovic. Stanislas Wawrinka, que subiu para o terceiro post, soma 5.710. Roger Federer, com 4.355, é agora o número 8. É seu pior ranking em mais de 11 anos. Andy Murray cai para o sexto posto.

– Com a vitória sobre Nadal, Wawrinka agora soma cinco triunfos nos últimos sete confrontos contra tenistas do top 10.

– A frase citada no primeiro parágrafo é a tradução oficial do trecho retirado da prosa “Worstward Ho”, do irlandês Samuel Beckett, publicada em 1983, seis anos antes da morte do escritor. A versão tatuada no braço de Wawrinka é a original, em inglês, que diz: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail Better.”

Nadal_AO_f_get2_blog

Coisas que eu acho que acho:

– A comemoração de Wawrinka não foi nada escandalosa, o que seria compreensível em um primeiro título de Slam. Foi, sim, de muito respeito pela condição de Rafael Nadal, fisicamente incapaz de produzir seu melhor tênis na hora mais importante. Sem deixar de festejar, Wawrinka reconheceu o momento e foi, também, um cavalheiro. Campeão com “C” maiúsculo.

– Sobre a lesão de Nadal, dois pontos. O espanhol disse que sentia dores já no início da partida e que elas pioraram muito no início do segundo set – foi quando fez-se necessário o tempo médico. Registre-se, porém, que antes disso Wawrinka era muito superior em quadra. Que ninguém tire seus méritos por isso.

– Vaiado quando voltou do vestiário, onde recebeu atendimento, Nadal foi muito aplaudido pelo público australiano na cerimônia de premiação. A torcida viu, afinal, o esforço que o número 1 do mundo fez para continuar em quadra, mesmo sem chance alguma de sair vitorioso.

– Ao mesmo tempo em que o mundo festeja a conquista de Wawrinka, não há como não lamentar um pouco por Nadal. Chegar a uma final de Grand Slam e não conseguir jogar por causa de uma lesão deve ser uma das piores sensações da carreira de um tenista. As lágrimas são de partir o coração.

– “Nu artístico” é uma expressão registrada que emprestei do amigo e (ex?) blogueiro Marden Diller. Não pode ser usada sem prévia autorização escrita.


Quando a história mudou
Comentários 20

Alexandre Cossenza

Wawrinka_AO_qf_get_blog

Desde 2006, eram 14 vitórias seguidas sobre o adversário. As últimas duas de Grand Slam (Melbourne e Nova York em 2013) terminaram em cinco sets. Desde o ano passado, eram 28 triunfos consecutivos. Em Melbourne, desde 2011, eram 25 partidas com comemoração no fim. Não, não parecia que Novak Djokovic seria derrotado por Stanislas Wawrinka. Não pelo freguês. Não pelo rival que já parecia esgotado após 4h de jogo nesta terça-feira. Não por um oponente com uma longa lista de derrotas doloridas no currículo. Hoje não? Hoje sim! Neste 21 de janeiro de 2014, a história mudou. E como mudou!

E de que maneira! Depois de quatro árduos sets e de uma inesperada (ainda que breve) chuva na parcial decisiva, Djokovic e Wawrinka duelavam brilhantemente. O suíço parecia pregado, já não corria com a velocidade dos sets iniciais, mas se sustentava porque seus golpes do fundo de quadra seguiam sólidos. Nole, por sua vez, compensava a imprecisão de golpes com defesas elásticas e devoluções de saque improváveis. Até que aconteceu o inacreditável. Sacando em 7/8, 30/30, o número 2 do mundo cometeu duas falhas imperdoáveis. Veja no vídeo.

E assim, senhores, a história mudou.

E começou a mudar quando o habitualmente agressivo Wawrinka resolveu bater um pouco menos na bola. Depois de um set inicial abaixo do esperado, com 16 erros não forçados, Stan tentou calibrar os golpes, encontrar um ritmo capaz de levar um jogo contra um adversário tão perigoso. Tática perfeita, execução idem. E bastou uma quebra no sétimo game para despertar a esperança – de todos. Quando o suíço venceu a parcial e empatou o jogo, voltava à mente do público a lembrança do jogaço de 2013, que terminou com o sérvio vencendo por 12/10 no quinto set.

Wawrinka encontrou um ritmo fantástico. E não só isso: no segundo e terceiro sets, foi impecável mesmo quando sacou pressionado. Em quatro vezes, viu-se com 0/30 no placar. Nas quatro vezes, encontrou um ace, dois aces, uma direita vencedora, uma subida à rede, uma esquerda na paralela… Stan fez de tudo. Levantou a Rod Laver Arena, deixou todos nas beiras de seus sofás, poltronas, cadeiras. Fez até eu abrir uma cerveja às 8h. E, claro, fez Roger Federer tuitar.

 

Stanimal foi implacável e fez 6/2 no terceiro set. Seis games o separavam de uma vitória inédita (Histórica? Épica? Com certeza, alguém usou estes adjetivos em algum momento…), de um triunfo que vinha com atraso. Wawrinka merecia. Mas não merecia vencer em quatro. Depois do doído revés de 2013 em Melbourne e de uma derrota quase tão amarga em Nova York, não podia ser em “apenas” quatro sets. Ainda faltava drama. E ele veio quando o suíço sacou em 40/0 e foi quebrado no oitavo game do quarto set. O mesmo game em que Djokovic acertou uma devolução improvável na linha. Parecia um sinal de que a maré mudaria. O campeão venceria mais uma vez.

Nole forçou o quinto set e quebrou Wawrinka cedo: 2/1 e saque para o sérvio, que parecia forte como sempre. Depois de uma virada dessas, o triunfo obviamente estava assegurado. Afinal, o adversário não era forte mentalmente, certo? Errado. Muito errado! Nole jogou um game ruim: 2/2. Stan estava de volta. Visivelmente desgastado, mas lutando com todas as forças, com saques fazendo estrago, com forehands jogando o oponente de um lado ao outro. Sim, Stan estava de volta. E precisava ser assim, com drama, com o improvável, com a chuva interrompendo o duelo quando o placar mostrava 5/5. Sim. Para compensar os sete anos, as 14 derrotas seguidas, os dois traumatizantes quintos sets, precisava ser assim. E aconteceu, da forma mais inacreditável possível. Com Djokovic, um dos melhores e mais bravos tenistas de nossos tempos, falhando em dois lances bobos, banais. Errou uma curta por muito, errou um voleio com a quadra aberta. E com dois lances inconcebíveis, acabou: 2/6, 6/4, 6/2, 3/6 e 9/7. Foi assim, porque precisava ser assim, que a história mudou.

 

Sem ir na toalha (para ler em até 20 segundos):

– Hoje, a diferença de Nadal para Djokovic no ranking é de 870 pontos. Com a eliminação do sérvio, que defendia o título, o espanhol já tem garantidos 2.870 pontos de vantagem. Caso seja campeão, Rafa terá 4.510 pontos a mais do que Djokovic, uma distância que, fora um afastamento por lesão, deve lhe manter na liderança até depois de WImbledon.

– David Ferrer perderá o posto de número 3 do mundo. A posição ainda não tem dono, podendo ficar com Juan Martín Del Potro, Andy Murray, Tomas Berdych, Stanislas Wawrinka ou Roger Federer.

– Djokovic vinha de 14 semifinais de Grand Slam consecutivas. Desde Roland Garros/2010, quando foi derrotado por Jurgen Melzer, também em cinco sets, o sérvio sempre esteve entre os quatro melhores nos Majors. É a segunda maior sequência da história. O recorde, 23, é de Roger Federer.

Coisas que eu acho que acho:

– Obrigado, Papai Noel. Já posso riscar o penúltimo item da lista.

– Alguém antes do torneio apostaria em uma semifinal com Wawrinka e Berdych? Pois é. Este Australian Open fica mais interessante a cada dia que passa. E do outro lado da chave, ainda nas quartas, restam Nadal x Dimitrov e Federer x Murray. Quem quiser palpitar, fique à vontade para usar a caixinha.


A criatividade comercial de Wawrinka
Comentários 3

Alexandre Cossenza

Acaba a temporada, e Stanislas Wawrinka embarca para seu último voo de 2013. É hora de voltar para casa, e o tenista suíço, número 8 do mundo, vai de jatinho particular. A bordo, ele publica o tuíte abaixo:

 

Não, Wawrinka não está nadando em dinheiro nem comprou seu próprio jatinho. E antes que você pense “ele ganhou bem no ATP Finals, então pode esbanjar no táxi aéreo”, preste atenção no agradecimento à Fly7. Agora veja uma das fotos do suíço durante a última temporada: está lá, no peito, a marca da empresa suíça.

Bancos, relógios, carros, planos de saúde… talvez nenhum patrocínio faça tanto sentido quanto uma companhia de aviação executiva exibindo sua marca no peito de um tenista. É difícil identificar um atleta com uma marca. Pense bem, leitor. Quando você viu um tenista indo ao banco? Ou usando seu plano de saúde? Quase ninguém usa relógio em quadra, e a maioria deles faz uso de carros oficiais e seus respectivos motoristas em torneios.

Tudo bem, patrocinar um tenista que aparece muito na TV garante exposição a uma marca, mesmo que não haja identificação da pessoa com o ramo de atividade. Mas, só para dar um exemplo prático, qual a relação entre Thomaz Bellucci e o Grupo Votorantim, que foi seu patrocinador por alguns anos?

Wawrinka_Finals_uol_ap_blog

O caso de Wawrinka com a Fly7 é bem diferente. Primeiro porque faz sentido um tenista, que viaja a cada semana, usar voos privados. Não tem fila para embarque, não tem voo desmarcado nem atrasado, não tem bagagem perdida. E depois porque todo mundo pode ver nas redes sociais que o top 10 realmente faz uso daquele serviço, o que leva a relação a outro nível.

Liguei, então, para o empresário de Wawrinka, Lawrence Frankopan. Na conversa, o dono da Starwing Sports enfatizou a importância da criatividade com o mercado nada aquecido de hoje. Do mesmo modo, cita que é possível mostrar a marcas não tão conhecidas que é possível ter exposição sem gastar fortunas. Leiam!

Como começou a relação entre Wawrinka e a Fly7? Quem procurou quem para colocar no papel um contrato de patrocínio?
Stan e muitos desses atletas, como você sabe, usam a aviação privada ao longo do ano. Stan já possuía uma relação comercial com a Fly7, e isso se tornou uma relação de patrocínio naturalmente.

E estão todos felizes com o resultado após uma temporada completa?
Sim. Obviamente, quando você se associa com nomes como Roger ou Rafa, você garante mais divulgação. Stan teve, sem dúvida, o melhor ano de sua carreira, então ele criou muita exposição para a Fly7. É um exemplo interessante de como uma empresa menor (em comparação com gigantes que estão associadas ao tênis) como a Fly7 pode conseguir uma exposição tremenda em uma plataforma global. Ele não é tão caro como Roger ou Rafa.

A parceria continua para 2014?
Estamos discutindo agora para o ano que vem. Foi um período de teste para eles e para nós. As regras da ATP mudaram no começo do ano. Antes, você podia ter dois patches nas mangas. Agora, você pode ter dois patches a mais. Foi um período de teste para nós, para descobrirmos o valor disso, e a exposição que conseguiria. Acho que a frente da camisa vale bastante.

Wawrinka_Finals_uol_afp_blog

Por que todos tenistas não tem um contrato assim (risos)? Todo mundo viaja tanto que parece lógico que empresas de aviação estejam envolvidas…
É duro conseguir patrocínios pessoais para muitos atletas no mundo. Não é tão fácil como muita gente pensa. O mercado está obviamente mal no mundo. No ano passado, os orçamentos estiveram muito apertados. As empresas também acreditam que conseguem mais exposição gastando dinheiro em um evento do que em um indivíduo. Acho que os empresários e as agências têm sido muito pró-ativos encontrando contatos, construindo essas relações e provando para essas marcas que sim, vale a pena investir em um atleta. Olhe para Novak Djokovic! Ele era número 1 do mundo, é o número 2 agora, e não tem um contrato. Ele tem patrocínios de raquete e roupas, mas nada mais. Andy Murray tem, além da roupa, uma empresa do setor bancário, o RBS, mas é só isto. Ele tem um espaço livre na manga! E é Andy Murray, primeiro britânico campeão de Wimbledon em 77 anos! Isto te dá uma indicação de o quão difícil é este negócio, de como é duro encontrar patrocínios. Não é tão fácil. Mas estamos felizes com os patrocínios que temos, seja BCV, que é um banco, seja a FROMM, uma companhia internacional de empacotamento, Audemars Piguet, a companhia de relógios, Yonexx e outros vários patrocínios que temos. Stan tem feito um ótimo trabalho, é sponsorship-friendly, articulado, inteligente, fala línguas diferentes, tudo isso ajuda.

Mais criatividade, então, é a chave hoje em dia?
Acho que Stan e eu, nossa agência, somos muito criativos. Uma coisa é chegar até o patrocinador e dizer “é assim que você tem que fazer”. Agora é preciso criar mais valor, como nas mídias sociais. Stan, como você sabe, faz muito disso. Ele gosta dessa face do negócio e é muito ativo. Patrocinadores, hoje, gostam disso. O mercado é duro. Eles preferem gastar meio milhão de dólares em um evento, em hospitalidade. Quando você associa sua marca com um atleta, ela fica bastante visível. Não sei no Brasil, mas na Europa há muitos bancos e empresas de primeira linha (blue chips) indo mal. A última coisa que elas querem é serem vistas investindo em um indivíduo.


< Anterior | Voltar à página inicial | Próximo>