Saque e Voleio

Arquivo : brasileiros

O balanço brasileiro no saibro
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Alexandre Cossenza

Com o fim do tardio do Brasil Open, parece o momento ideal para fazer um balanço da participação brasileira na perna sul-americana do circuito mundial, que, por enquanto, ainda é toda disputada em quadras de saibro. Digo “ainda” porque, como os leitores do blog sabem, Rio e Buenos Aires estão em busca de aprovação para mudarem para quadras duras.

O motivo carioca/portenho não tem a ver com as campanhas de brasileiros e argentinos. A ideia é conseguir trazer mais nomes de peso. Diretores dizem que o principal argumento de quem não quer vir até aqui é a mudança de piso entre o Australian Open e o Masters de Indian Wells. Mas enquanto a alteração não sai, será que os brasileiros vêm aproveitando o piso mais favorável a seu jogo?

Depois de Quito, Buenos Aires, Rio de Janeiro e São Paulo, dá para dizer que não foi a pior das campanhas brasileiras. Não que tenha sido espetacular. Bellucci, principalmente, poderia ter tirado muito mais de Rio e São Paulo não fossem seus problemas físicos e, ao que parece, de motivação. Vejamos um por um:

Thomaz Bellucci

Como nos dois anos anteriores, o paulista fez boa campanha em Quito. Só perdeu – pela terceira vez seguida – para Vitor Estrella Burgos, o veterano que acabou conquistando o tricampeonato no Equador. Caso curioso, não tão fácil de explicar/entender, mas que precisa entrar para a coluna das “chances perdidas”.

No Rio, Bellucci eliminou o cabeça 1 na estreia, empolgou a torcida e decepcionou no jogo seguinte. No meio do segundo set contra Thiago Monteiro (jogo à noite, 27 graus), o paulista já esteve pregado. Saiu de quadra dizendo “morri” com todas as letras. Depois, em São Paulo, também teve problemas físicos (de outro tipo) na derrota para Schwartzman. Após o revés, deu uma declaração um tanto preocupante. Falou que precisa “reencontrar a alegria e a motivação de estar na quadra que só o dia a dia vai me dar. Tenho que pensar no que a gente tem que fazer para dar a volta por cima.”

De qualquer modo, mesmo com a vitória sobre Nishikori e uma semi em Quito, fica a impressão de que poderia ter sido muito melhor. É duro afirmar, mas é o mesmo que pode ser dito sobre muitos momentos da carreira de Bellucci.

Thiago Monteiro

Talvez tenha sido o momento de consolidação do cearense. Um ano depois de “surgir” ao bater Tsonga no Rio, Monteiro fez uma turnê sólida, com quartas de final em Buenos Aires e no Rio. Perdeu na estreia em Quito e em São Paulo, mas em condições difíceis. Jogou contra Giovani Lapentti na altitude e contra Carlos Berlocq (seu algoz também em Buenos Aires) no Pinheiros.

Ao todo, nada mau. Os ATPs, no entanto, deixaram mais visíveis os buracos no jogo do cearense. Berlocq deixou clara a necessidade de Monteiro melhorar junto à rede. O argentino venceu uma enorme maioria de pontos quando variou e tirou Thiago do basicão “distribuindo-pancada-do-fundo”. No Rio, Ruud expôs as falhas na devolução do cearense. Monteiro não conseguir entrar em um número razoável de pontos no serviço no norueguês.

Monteiro sabe quanto e onde precisa evoluir. Ele mesmo falou sobre isso na última coletiva que deu no Rio de Janeiro. Há tempo para isso. É questão de trabalhar e pensar no jogo como um todo – e não só na pancadaria do fundo de quadra.

Rogerinho

O paulista esteve nos quatro ATPs, inclusive furando o quali em Buenos Aires, mas não conseguiu vencer nenhum jogo em chaves principais. O mais perto que chegou disso foi quando teve dois match points contra Alessandro Gianessi na Argentina. Não dá para dizer que foi uma passagem trágica de Rogerinho pela América do Sul, mas ele teve jogos ganháveis e não aproveitou. Também entra para a coluna de chances não aproveitadas.

Feijão

João Souza também esteve nos quatro ATPs, mas ficou no quali em Buenos Aires (perdeu para Rogerinho) e só venceu um jogo em São Paulo (contra Zeballos na estreia). E se não dá para condená-lo pelas derrotas para Pablo Carreño Busta (Rio e SP), esperava-se mais de seu jogo na altitude de Quito. A derrota na estreia para Federico Gaio não foi o melhor dos resultados.

Bruno Soares

Orale Cabron 🇲🇽 🏆 🏆🏆

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O mineiro só jogou um torneio no saibro. Foi no Rio, onde ele e Murray perderam nas semifinais, quando até tiveram um match point contra Carreño Busta e Pablo Cuevas. Um resultado bom, considerando que Soares ficou dez dias no Rio de Janeiro, mas passou a maior parte do tempo dando entrevistas, participando de eventos com fãs, dando clínicas e aparecendo para seus patrocinadores.

Depois do Rio, o mineiro foi para Acapulco, jogar um ATP 500 na quadra dura, em vez de jogar no Brasil Open, em São Paulo, no saibro. A decisão provocou críticas públicas de Flávio Saretta em uma sequência de tweets.

“Semana de Brasil Open! Torneio que existe desde 2001! Sempre muito valorizado pelos tenistas brasileiros!! Tão valorizado que até o número 1 do mundo jogava! E tive a noticia que Marcelo e Bruno Soares optaram por jogar em Acapulco. Gosto dos dois desde sempre, mas não posso concordar com essa decisão e atitude! Sabemos das imensas dificuldades de se fazer um torneio ATP no Brasil pelos custos, etc! Sempre valorizamos demais esse torneio no Brasil! Um orgulho jogar um ATP no nosso país!! Por isso confesso que achei um absurdo os dois jogarem no México e não no Brasil! Fora a troca que é estar perto de quem torce por vc e não tem a oportunidade de ver vc jogar de perto!!! Escolha errada dos dois! Uma pena…”

Sim, seria ótimo ter Soares e Marcelo Melo (que também foi a Acapulco) jogando mais uma semana no Brasil, mas é preciso entender os motivos de ambos. Primeiro, os dois preferem jogar em quadras duras. Não por acaso, Bruno venceu dois Slams no piso ao lado de Jamie no ano passado. Mas não é só isso. Além de Acapulco ser um torneio mais importante, é uma semana de jogos na quadra dura antes de um evento ainda maior: o Masters de Indian Wells, no piso sintético.

Dizer que Soares e Melo precisariam fazer mais esforço para jogar no Brasil me parece forçar a barra. Os dois, afinal, estiveram no Brasil. E Bruno, especialmente, fez todo tipo de atividade para divulgar o torneio, o tênis e seus patrocinadores. O torcedor brasileiro teve a chance de vê-los. Só quem não foi ao Rio (caso de Saretta) ou não ficou a semana inteira não viu isso.

Além disso, os dois mineiros deveriam ter um pouquinho mais de crédito (é só minha opinião). Soares jogou o Brasil Open todos os anos desde 2009. Sempre trouxe seus parceiros. Foi campeão três vezes e, na maioria das vezes, atuou em quadras secundárias – inclusive naquele precário e improvisado Mauro Pinheiro. Em um de seus títulos, fez apenas um jogo na quadra central (a final). Melo viveu situações parecidas e, até este ano, só havia ficado ausente em 2014.

Por fim (não que o resultado mudaria algum dos argumentos acima), Soares e Murray foram campeões em Acapulco, somando 500 pontos e ganhando embalo antes do primeiro Masters 1.000 do ano.

Marcelo Melo

O mesmo caso de Bruno, só que com um agravante. Marcelo e seu parceiro, Lukasz Kubot, ainda não encontraram ritmo. E como jogam melhor em quadras duras, estavam em Roterdã (um ATP 500) em vez de Buenos Aires. No Rio, perderam para Peralta e Zeballos nas quartas. Depois, partiram para Acapulco, onde caíram na estreia diante de Santiago González e David Marrero.

Depois do Australian Open, Melo já dizia no “Pelas Quadras”, da ESPN, que era preciso encontrar um equilíbrio na parceria. A queixa (velada) era em respeito ao jogo kamikaze de Kubot. No Rio, o mineiro deu declarações parecidas. Disse que gosta de um jogo com menos velocidade e mais equilibrado e deu a entender que o Masters de Miami será o momento para avaliar se o time com Kubot tem futuro.

André Sá

Jogou com Tommy Robredo em Buenos Aires e no Rio e caiu na estreia em ambos. Em São Paulo, ao lado de Rogerinho, foi longe e conquistou o título. Saiu do saibro levando 250 pontos, o que não é nada ruim.

Marcelo Demoliner

Fez Buenos Aires-Rio-SP com seu parceiro habitual, o neozelandês Marcus Daniell. Também passou em branco na Argentina e no Rio. Também foi à decisão no Pinheiros. Somou 150 pontos.


Rio Open, dia 4: Bellucci ‘morto’, Melo em crise e Soares com drama
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Alexandre Cossenza

Que dia para os brasileiros no Rio Open! Primeiro, houve drama na Quadra 1 com Bruno Soares e Jamie Murray desperdiçando chances e match points. Depois, a eliminação nas quartas de final deixou Marcelo Melo chateado e reavaliando a parceria com o polonês Lukasz Kubot. Por fim, o duelo brasileiro na quadra central terminou com uma cena desagradavelmente familiar: Thomaz Bellucci esgotado fisicamente. Melhor para Thiago Monteiro, que avançou, terá o melhor ranking da carreira e uma chance rara de ir até as semifinais de um ATP 500.

Bellucci traído pelo físico mais uma vez

Era para ser uma partida equilibrada entre dois tenistas que se conhecem bastante e treinam juntos. Até foi assim, mas só durante o primeiro set. O segundo foi morno, e o terceiro deixou óbvio: com menos de duas horas de duelo, Thomaz Bellucci estava esgotado. Thiago Monteiro aproveitou e avançou às quartas de final: 7/6(8), 3/6 e 6/3.

Em vez de ver o Bellucci paciente, taticamente inteligente e preciso de terça-feira, o público que esteve no Jockey Club Brasileiro infelizmente viu o Bellucci mais frequente. Irregular, perdendo chances – inclusive um set point no saque no primeiro set – e sofrendo com o preparo físico. Após o jogo, o paulista chegou à zona mista (onde são realizadas as entrevistas curtas pós-jogo) abatido e chateado. “Morri no terceiro set”, disse, com todas as letras.

Bellucci afirmou, inclusive, que já sentia dificuldades no segundo set, sem conseguir imprimir um volume bom de jogo. A declaração é preocupante porque, ainda que disputado na umidade carioca, o duelo foi realizado à noite, em uma temperatura de 27 graus, e Bellucci estava pregado com menos de 2h de jogo.

Tão preocupante quanto a última frase de Bellucci aos jornalistas. “É vida que segue. Não foi o primeiro jogo que perdi porque não consegui aguentar fisicamente. É seguir trabalhando.”

Os méritos e o melhor ranking de Monteiro

Embora os problemas físicos de Bellucci tenham privado os espectadores de ver um terceiro set equilibrado, é preciso lembrar dos méritos de Thiago Monteiro. Primeiro, ao salvar dois set points no tie-break do primeiro set. Depois, mais tarde, ao sair de um delicado 0/30 no primeiro game do terceiro set e emendar com uma quebra de saque. Foi, inclusive, a única da parcial decisiva.

Com a vitória, Monteiro alcançará o melhor ranking da carreira. Mesmo que perca nas quartas, o cearense de 22 anos deve aparecer entre os 75 melhores na próxima atualização da lista da ATP. Ainda não será suficiente para se tornar o #1 do Brasil, já que Bellucci também está ganhando posições nesta semana. Monteiro só ultrapassará o paulista se vencer mais um jogo no Rio de Janeiro.

Derrota e parceria em xeque para Marcelo Melo

Marcelo Melo e seu parceiro, o polonês Lukasz Kubot, foram eliminados pelo chileno Julio Peralta e o argentino Horacio Zeballos: 6/4 e 6/4. O resultado não deixou o mineiro nada contente. A parceria com Kubot, iniciada em janeiro, só rendeu quatro vitórias e quatro derrotas até agora.

Melo não é conhecido por frases fortes, então é preciso pescar pequenos indícios dentro de suas frases. E as declarações desta quinta deixaram escapar – pelo menos foi essa a impressão de quem estava lá na zona mista – que o mineiro está preocupado quanto ao futuro da parceria com o polonês.

“Normalmente, eu me adapto muito bem [a parceiros de estilos diferentes], mas não adianta a gente jogar muito kamikaze e bomba pra todo lado. Eu gosto de um jogo mais controlado, mais sólido. Às vezes, com menos velocidade e mais porcentagem. A gente precisa encontrar esse balanço porque eu sou mais desse estilo. O Lukasz é mais agressivo. Tem dia que não entra a bola e nós vamos perder para qualquer dupla! Nós precisamos encontrar esse equilíbrio para ver se a gente consegue manter a dupla – para evoluir porque tem que tentar até certo ponto encontrar esse equilíbrio, senão não adianta seguir.”

Drama com Bruno e Jamie na Quadra 1

Bruno Soares e Jamie Murray estiveram a dois pontos da eliminação nesta quarta-feira, mas conseguiram uma apertada vitória sobre os argentinos Diego Schwartzman e Andres Molteni: 6/3, 5/7 e 11/9. Não parecia que seria assim quando brasileiro e escocês venceram cinco games seguidos no primeiro set, mas o jogo ficou nervoso quando o mineiro foi quebrado no 12º game da segunda parcial, o que forçou um match tie-break.

O set de desempate também parecia sob controle quando Soares e Murray abriram 9/5, mas a parceria desperdiçou dois mini-breaks e viu os argentinos empatarem em 9/9. Molteni, então, arriscou uma devolução de backhand, mas mandou a bola ao lado. No quinto match point, Schwartzman estranhamente furou um voleio – o que fez a torcida finalmente comemorar um tanto aliviada.

Será a quarta vez de Bruno Soares nas semis do Rio Open. O mineiro, porém, nunca chegou à final. Na coletiva, ele disse que uma vitória assim, vencida com momentos nervosos, vai ajudar na rodada seguinte. Sobre a partida, os dois ressaltaram as ótimas devoluções de Molteni, que equilibraram o confronto, mas o mineiro ressaltou que perdeu duas boas chances no segundo set. Primeiro, em um voleio no 4/4, com break point a favor. Mais tarde, com uma devolução errada no ponto decisivo do 5/5.

Pelo menos no papel, a semi não será nada simples, já que os adversários serão Pablo Carreño Busta e Pablo Cuevas. Espanhol e uruguaio passaram pelo argentino Facundo Bagnis e pelo português Gastão Elias por 6/4 e 7/5.

O convite bem aproveitado e o telefonema na quadra

Casper Ruud, desconhecido norueguês número 208 do mundo que ganhou um convite da organização para disputar o Rio Open, continua aproveitando a ótima chance. O adolescente de 18 anos bateu, de virada, o espanhol Roberto Carballés Baena e avançou às quartas de final por 6/7(4), 6/4 e 7/6(3).

Agenciado pela IMG, a dona do torneio, Ruud foi mostrado pela transmissão ao telefone ainda antes de sair da quadra. Depois, revelou que a ligação era de seu empresário – o mesmo que conseguiu o convite – que comemorava a vitória do atleta. Já é a melhor campanha da carreira de Ruud no circuito ATP, e o norueguês que mora e treina na Espanha vem mostrando golpes sólidos, cabeça no lugar e um ótimo preparo físico no calor e na umidade do Rio de Janeiro.

De qualquer maneira, será uma chance rara para Thiago Monteiro. Não é todo dia que alguém pode alcançar as semifinais de um ATP 500 enfrentando nas quartas um adversário que não está nem no top 200. Até agora, o cearense aproveitou as oportunidades que teve.

Bolinhas polêmicas são as melhores fabricadas pelo patrocinador

Em quatro anos de evento, o Rio Open acumula queixas sobre as bolinhas usadas pelo torneio. A lista de reclamões inclui Rafael Nadal, Kei Nishikori e Dominic Thiem, só para ficar nas estrelas internacionais. Bruno Soares também sempre falou que as bolas são muito duras e difíceis de controlar.

Perguntei sobre isso a Lui Carvalho, diretor do torneio. Ele afirma que as bolas usadas no Rio são as melhores fabricadas pela Head, patrocinadora do torneio. Vale lembrar que Nadal, uma vez, chegou a dizer que a ATP não deveria aprovar essas bolas para uso em seus torneios.

A quadra que não enche

Há vários motivos para os assentos constantemente vazios na quadra central do Rio Open. Preços, horários, calor, patrocinadores, atrações fora da quadra, falta de um nome de maior peso para a venda de ingressos… Tudo tem sua influência, em grau maior ou menor. Mas não deixa de ser lamentável ver tantos espaços em branco durante os momentos mais emocionantes do torneio.

A foto do tweet acima, por exemplo, foi feita durante o tie-break do primeiro set entre Bellucci e Monteiro. Dois tenistas da casa, jogando em horário nobre, à noite (menos calor), com muita coisa em jogo. Depois, ao fim da partida, com o jogo entrando pela madrugada, o público era bem menor.

O melhor da sexta-feira:

A programação começa mais cedo, às 15h, em vez de às 16h30min. As quatro quartas de final serão na quadra central, com Monteiro fechando o dia contra Ruud. As semifinais de duplas serão na Quadra 1, conforme o previsto, com início marcado para as 17h.


Caricaturas no Rio Open
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Alexandre Cossenza

O Rio Open deu de presente a todos tenistas tags (para malas, bolsas, raqueteiras e afins) com suas caricaturas. É uma lembrancinha a todos atletas que estão na chaves principais de simples e duplas do ATP 500 carioca.

As imagens são bem bacanas. Vi algumas e reproduzo abaixo. Acho até que ficariam bacanas se a galera imprimisse em tamanho real e levasse para a quadra central do Jockey Club Brasileiro. Vejam:

Volto amanhã com uma entrevista reveladora com Bruno Soares.


Quadra 18: S03E02
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Alexandre Cossenza

Roger Federer voltou a vencer um slam em cima de Rafael Nadal, Serena Williams voltou a derrotar a irmã Venus em uma decisão, e o tênis viveu um fim de semana dos mais memoráveis no Australian Open. Mas houve muito mais do que isso nas duas semanas do torneio. Djokovic, Murray e Kerber foram vítimas de zebras, Coco Vandeweghe finalmente surgiu como nome forte em um torneio grande, Mirjana Lucic-Baroni protagonizou a história mais feliz… É muito assunto!

Como sempre, Sheila Vieira, Aliny Calejon e eu nos reunimos para gravar mais uma edição do podcast Quadra 18. Comentamos tudo citado acima e um pouco mais. Falamos dos modelitos bonitos e feios, do noivo de Serena e até do poema de Melbourne! Para ouvir, basta clicar no player abaixo. Se preferir baixar para ouvir depois, é só clicar neste link com o botão direito do mouse e selecione “salvar como”.

Os temas

0’30” – Aliny Calejon apresenta os temas
2’30” – Roger Federer e a campanha até o título
9’15” – A decisão de Federer de abrir mão do 2º semestre de 2016
10’50” – O suíço se defendeu melhor neste Australian Open?
13’55” – O que faltou para Nadal na hora decisiva?
16’45” – O que a final significa para a rivalidade Federer x Nadal?
18’10” – O quão importante é a disputa por mais títulos de slam?
21’20” – Teremos mais finais “vintage” este ano ou foi uma exceção?
22’21” – Qual a importância de Ljubicic e Moyá no “retorno” de Federer e Nadal?
25’45” – Federer e Nadal vão continuar lutando por títulos de slams e Masters?
27’30” – Federer vai pular a temporada de saibro novamente?
29’35” – Nadal já pode ser considerado favorito para Roland Garros?
30’15” – Federer e Nadal teriam feito a final sem as derrotas de Djokovic e Murray?
31’04” – As zebras de Istomin e Zverev em cima de Djokovic e Murray
35’30” – Que zebras em outros slams são comparáveis a essas?
37’33” – O desfecho do AO será motivação extra para Djokovic e Murray?
38’40” – Dimitrov pode entrar na briga pelos slams?
41’18” – As surpresas e decepções do Australian Open
45’40” – O quanto a quadra mais rápida ajudou Federer no torneio?
47’51” – Quadras mais rápidas serão tendência no circuito?
49’48” – The Greatest (Sia)
50’34” – As campanhas das irmãs Williams
57’50” – Por que 18 > 23 na matemática tenística?
59’25” – O quanto o recorde de slams da Court deve ser relevante para Serena?
63’17” – E a campanha da Nike sobre Serena como maior de todos os tempos?
64’32” – Precisamos falar de Coco Vandeweghe
70’50” – A fantástica história de Mirjana Lucic-Baroni
73’25” – O que acontece com Angelique Kerber?
76’18” – Muguruza é tenista de um slam só?
77’48” – O noivo de Serena Williams e o Reddit
79’57” – High and Low (Two Vines)
80’30” – A campanha de Kontinen e Peers, campeões de duplas
84’35” – Qual o segredo de Kontinen e Peers?
85’45” – Os Bryans vão voltar a ganhar um slam?
87’05” – As campanhas dos brasileiros em Melbourne
89’35” – Marcelo Melo acertou na escolha de Kubot como parceiro?
92’45” – A campanha de André Sá e Leander Paes
94’25” – Como o título de Kontinen e Peers afeta a briga pela liderança do ranking
95’45” – Qual foi o GIF mais épico da Aliny no Australian Open?
97’40” – Mais reclamações sobre a camisa de Roger Federer
103’20”- O poema de Melbourne é eficaz ou contraproducente?


AO, dia 9: americanas e suíços sem drama nas semifinais
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Alexandre Cossenza

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Não foram as quartas de final mais emocionantes que um torneio – ainda mais um do Grand Slam – poderia ter. Quatro jogos, quatro vitórias em sets diretos. Duas americanas e dois suíços avançaram e vão se enfrentar na quinta-feira. O resumaço do dia traz um breve relato de cada um desses encontros mais a carta de uma boleira a Jo-Wilfried Tsonga e a lista de indicados ao Hall da Fama, que terá Kim Clijsters e Andy Roddick eternizados em 2017.

As americanas

A primeira semifinal feminina do Australian Open será entre duas americanas: Venus Williams e Coco Vandeweghe. No primeiro jogo do dia, a veterana de 36 anos bateu Anastasia Pavlyuchenkova por 6/4 e 7/6(3) numa partida com quase nenhuma variação tática. Venus ganhou nos detalhes – atacou melhor nos momentos mais delicados. É sua primeira semifinal em Melbourne desde 2003, quando foi vice-campeã, perdendo para Serena na decisão. Venus agora é a semifinalista mais velha do Australian Open na Era Aberta (a partir de 1968).

Vandeweghe entrou em quadra na sequência e passou por cima de Garbiñe Muguruza: 6/4 e 6/0. O primeiro set nem foi tão parelho quanto o placar sugere. A americana perdeu várias chances de quebra até que a espanhola, com o segundo serviço pressionado o tempo inteiro, cometeu uma dupla falta e perdeu o saque. Cheia de confiança, Coco (ou Hot Coco, para alguns americanos) soltou ainda mais o braço na segunda parcial. Enquanto isso, Muguruza não mostrou poder de reação nem tentou alguma variação tática. Seguiu tentando bater forte na bola – sem sucesso.

Os suíços

O primeiro jogo das quartas de final masculinas fechou a sessão diurna da Rod Laver Arena com Stan Wawrinka vencendo de maneira surpreendentemente fácil: 7/6(2), 6/4 e 6/3. Jo-Wilfried Tsonga, em uma tarde pouco inspirada, só conseguiu manter o saque na primeira parcial. No segundo set, até conseguiu quebrar na frente, mas Wawrinka respondeu rápido e virou a parcial. O francês não encontrou uma maneira de emparelhar as ações e sucumbiu rápido. Pelo lado do #1 da Suíça, o maior mérito foi brilhar sempre que necessário, fosse salvando break points ou tomando controle rápido do tie-break.

Na sessão noturna, a carruagem de Mischa Zverev, o azarão que derrubou Andy Murray nas oitavas, virou abóbora rapidinho. Roger Federer não se incomodou nadinha com o saque do alemão e venceu o primeiro set em 19 minutos. Mischa até que teve seu momento quando quebrou o oponente no segundo set, mas mal deu emoção ao jogo, já que Federer devolveu logo em seguida. Nada mudou o plano de Zverev de fazer saque-e-voleio o tempo inteiro. Logo, nada mudou no andamento do jogo. No fim, o favorito fez 6/1, 7/5 e 6/2 em 1h32min.

A carta de agradecimento

Ano passado, durante seu jogo de segunda rodada, Tsonga ajudou uma boleira que não passava bem. O francês levou a menina para fora de quadra para que ela fosse atendida (lembre no tweet abaixo):

Pois este ano, antes de enfrentar Wawrinka, Tsonga recebeu uma carta de Giuliana, a boleira. Ela pede desculpas por não ter sido uma boleira tão eficiente, mas explica que havia contraído um vírus que afetava sua visão e sua audição. Ela também agradece pelo gesto de carinho do tenista e desejou boa sorte a Tsonga no resto do torneio. A carta inteira está no link do tweet abaixo.

No Hall da Fama

O Hall da Fama Internacional do Tênis anunciou nesta terça-feira a sua turma de 2017: Kim Clijsters, Andy Roddick, Monique Kalkman-van den Bosch, Steve Flink e Vic Braden. A lista foi revelada em uma cerimônia na Rod Laver Arena, em Melbourne, com a presença do americano, ex-número 1 do mundo, e do “dono” da casa, Rod Laver – além de outros integrantes do Hall.

No Twitter, Roger Federer prestou sua homenagem a Roddick, com quem compartilhou tantas partidas importantes e de quem tirou o número 1 do mundo no início de 2004. “Um chefe, uma lenda, um pai, um marido”, escreveu o suíço, dando os parabéns e se dizendo muito feliz pelo americano.

E talvez tenha passado sem que muitas pessoas notassem, mas Federer podia ter escolhido publicar uma foto dos dois juntos, mas a maioria delas teria o suíço como vencedor. Não seria humilde. Em vez disso, postou imagens neutras. Bacana.

Os brasileiros

Nenhum brasileiro jogou hoje, mas como não fiz resumaço ontem, fica aqui o registro. Marcelo Melo e Lukasz Kubot foram eliminador por Ivan Dodig e Marcel Granollers: 7/6(5) e 7/6(5). Sim, o ex-parceiro de Marcelo levou a melhor e avançou. E não dá para deixar de comentar o “climão” entre brasileiro e croata, que mal se olharam – inclusive durante o aperto de mãos ao fim do jogo.

Como escrevi em um post anterior, o fim da parceria não foi exatamente amistoso. Já ficou claro durante o ATP Finals do ano passado, quando mal havia diálogo. Depois, houve os unfollows nas redes sociais. E Dodig e Granollers, aliás, foram eliminados pelos irmãos Bryan nesta terça-feira.

A participação brasileira acabou quando Marcelo Demoliner e o neozelandês Marcus Daniell foram derrotador por Sam Groth e Chris Guccione: 7/6(9) e 6/3. Bruno Soares desistiu das duplas mistas por conta de dores nas costas.


Thiago Monteiro: sobre ascensão, confiança, inconformidade e pé no chão
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Alexandre Cossenza

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É difícil conversar com Thiago Monteiro e não sair do papo uma dose forte de otimismo. O cearense de 22 anos, atual 87º do planeta, fala de sua evolução com a confiança e a esperança de um jovem da sua idade, mas também com a consciência de um veterano de circuito.

Todas as palavras “certas” aparecem ao longo da entrevista abaixo. “Seguir melhorando”, “não me acomodei”, “pés no chão”, “não ficaria me gabando”, “investir na equipe”, “ajudar minha família”… Lendo assim, com todas essas expressões amontoadas, parece que Monteiro fez leitura dinâmica de um texto de autoajuda antes da conversa. Na real? Longe disso. O garotão é autêntico. Diz essas coisas todas sem ensaiar, sem forçar. É o jeitão dele, que acaba sendo o melhor jeito – o jeito necessário – para encarar o tênis.

A entrevista é sobre um pouco de tudo que envolveu uma temporada em que Monteiro começou no 463º posto, derrotou nomes como Tsonga e Almagro, entrou no top 100, estreou na Copa Davis e por pouco não se tornou número 1 do Brasil. Você, leitor, não vai encontrar declarações bombásticas, mas talvez vá conhecer um pouco mais sobre o jovem e certamente vai entender os motivos de sua ascensão em 2016. Ao fim da leitura, diga se o copo não parece meio cheio…

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Foi um ano muito “doido” no bom sentido, né? Começou o ano mais de 400 do mundo e entra agora já entre os 90. Muda muita coisa, não? Qual é a parte mais difícil desse ajuste?

Eu estou entrando num novo processo para tentar me firmar num nível maior, o nível ATP. É como se fosse uma segunda transição. Tem a transição do juvenil (para o profissional) e tem essa transição agora de manter no alto nível. Tive a experiência de jogar alguns ATPs este ano, poder treinar mais com melhores jogadores, fiz bons jogos e vai ser uma adaptação que a gente está fazendo que está andando de certa forma um pouco rápida, né? Mas são ajustes. Nesse tipo de torneio, a gente consegue identificar mais fácil (as dificuldades) e seguir melhorando. Adaptar melhor às quadras rápidas, a questão de devolução de saque, defesas… Isso a gente tem aprendido bastante nesses jogos e vem tentando evoluir o mais rápido para se firmar.

E a parte boa disso tudo? Óbvio que são mudanças legais, tanto no ranking quanto financeiramente, mas qual é a melhor parte dessa subida?

Acho que é mais a realização de um sonho de criança. Desde pequeno, eu vim almejando poder competir nesse alto nível, tentar me firmar como um jogador de tênis profissional mesmo. Poder viver esse sonho é um privilégio, uma felicidade que me motiva cada vez mais. Mantendo essa linha de trabalho, acho que estamos fazendo o caminho certo. Essa animação eu espero que fique para o resto da minha carreira e que cada vez eu me motive mais e siga nessa linha.

Tem também a parte de mais gente te reconhecer e querer te conhecer mais. Você já sente isso nos torneios?

Aqui no Brasil, o pessoal tem reconhecido mais, especialmente depois das semanas de Rio Open e de São Paulo, então eu comecei a aparecer um pouco mais. Também tem mais gente seguindo nas redes sociais, mandando apoio. É um reconhecimento legal. Agora eu pude jogar um Challenger em Santos com um apoio incrível do pessoal de lá. Foi um carinho muito grande e isso me motivava para seguir dando meu melhor para a torcida. Na verdade, eu não sei muito o que te dizer. Não é aquele assédio, não sou famoso nem nada. Eu passei a ser reconhecido no mundo do tênis, mas não tem acontecido de ser parado na rua.

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Depois daquele jogo contra o Tsonga (Monteiro derrotou o francês no Rio Open), você disse que foi uma vitória que mostrou que seu trabalho estava dando certo. Mas não foi algo passageiro. Você teve um tênis mais ou menos estável durante a temporada inteira. Já são sete meses disso. Por que esses resultados vieram agora? Foi algo diferente que você fez na preparação em comparação com os anos anteriores ou foi só sua evolução natural?

Na transição de dezembro para este ano, eu comecei a ser muito mais focado em questões de físico, de alongamento, de cuidar do corpo e da alimentação. Também fiz muito trabalho de meditação e visualização que mudou muito a minha forma de encarar o jogo em si e momentos tensos da partida. Isso me deixou mais tranquilo e muda muito, principalmente na recuperação de um dia para o outro e na qualidade do treino em si, na questão de conseguir ficar mais tempo concentrado no que você se propõe a fazer. Comecei a dar muito mais valor a essas coisas extraquadra e também a cada momento do treino em si.

Quando você fala de cuidar da alimentação, isso mudou especificamente o que para você?

É comer a coisa certa no momento certo, especialmente com carboidratos, que me ensinaram que mantêm a energia do corpo e que te fazem recuperar de um dia para o outro. São várias explicações, várias coisas complexas, que não sou nenhum especialista para te dizer, mas me passaram, e eu sou muito disciplinado. Venho seguindo isso, e isso faz uma diferença muito grande. São coisas que até evitam lesões, inflamações no corpo. Quando eu era mais novo, no período juvenil e um pouco depois, refrigerante e hambúrguer era todo dia (risos). Isso eu parei e desde que eu parei, as coisas começaram a dar certo. Juntando com tudo que eu vim fazendo, foi uma união de várias coisas que fizeram isso acontecer.

Tem também uma questão de confiança que veio com essas vitórias, né?

Comecei a entender o jogo de uma forma melhor. Meus treinadores, o Duda Matos e toda equipe da Tennis Route, sempre tentaram estabelecer isso na minha cabeça e sempre acreditaram muito mais no meu potencial muito do que eu acreditava em mim. Aos poucos, eu fui aceitando, fui acreditando mais, especialmente depois dessas duas semanas do Brasil. Realmente, eu vi que poderia competir em alto nível, que poderia estar estabelecido nos torneios maiores. Fui acreditando nisso, fui me dedicando, fui evoluindo bastante com o passar das semanas e mantendo os bons resultados. Independentemente dos bons resultados no Brasil, não me acomodei. Isso passou a me motivar a trabalhar mais duro e evoluir mais. Eu acabo perdendo um jogo ou outro e vejo que tenho muita coisa para evoluir ainda, e o nível que eu pretendo chegar ainda está um pouco longe. Sigo nessa mesma dedicação, tentando identificar essas falhas para tentar seguir evoluindo.

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Foi um ano olímpico, mas imagino que não estivesse nos seus planos estar nos Jogos. Só que no fim das contas, você acabou não ficando nem tão longe assim da zona de classificação. Como foi essa sensação?

Eu encarei de uma forma tranquila. Na verdade, não era o objetivo. Achei que era praticamente impossível de jogar uma Olimpíada. Eu janeiro, eu era 460 do mundo. Eu queria mesmo poder estar bem e disputando os torneios que disputei ali e fui bem. Não tinha expectativa nenhuma de entrar na Olimpíada. No final, ficou por pouco. Seria uma honra, a realização de um sonho. Todos que jogaram falaram que é algo diferente de qualquer coisa que já sentiram. Não foi este ano, mas quem sabe em Tóquio? Se conseguir manter esse bom nível e evoluir bem, quem sabe a gente consegue traçar um objetivo de estar em Tóquio?

Não teve Olimpíada, mas teve Copa Davis. Não foi um ambiente completamente novo porque você já esteve com a equipe antes, mas como foi sentir ser titular, a sensação do “eu vou jogar”?

Todos me receberam super bem, me passaram todas experiências de como é uma Davis, as sensações que eles tiveram a primeira vez que jogaram. Foram me tranquilizando aos poucos. Eu estava muito bem. Tive uma estreia bem dura contra o Goffin. Apesar de ele ter dominado o jogo de certa forma tranquila, eu acho que também não joguei mal. É que ele realmente está num nível acima ainda e mostrou por que está entre os 15 do mundo há uns dois, três anos já. Não é fácil se manter nesse nível. É um cara diferenciado. Mas foi uma experiência incrível, fiquei feliz de poder estar lá. Tentei dar o meu melhor, tive para mim uma estreia boa e espero poder futuramente voltar e me firmar na equipe.

Num jogo assim, em que você joga bem, mas vê que o outro está muito acima, é o tipo de jogo que te faz pensar “puxa, falta muito ainda para estar onde eu quero?” Foi assim que você encarou isso?

Não, não. Tem um pouco desse sentimento, mas o que fica mesmo é motivação mesmo. De realmente saber que por mais que eu tenha melhorado muito, esses caras são minha referência, é contra esses caras que quero continuar competindo. Eu pego como motivação para seguir nessa linha de trabalho, de pés no chão, de estar ciente de que eu tenho que trabalhar muito duro para manter nesse alto nível. Aprendi muito naquele jogo. Você percebe mais as deficiências do seu jogo.

Sobre essas deficiências, o que você vê como próximo passo no seu jogo? Qual seria a prioridade número 1 para você melhorar agora?

Uma das prioridades é a devolução de saque, sim. Eu posso ser mais sólido nas devoluções, mais agressivo também, especialmente nos segundos saques. E as transições, né? Ganhar a quadra um pouco mais rápido, conseguir fechar melhor o jogo na rede, matar nos voleios. São essas duas adaptações que eu preciso fazer bem no meu jogo e, de certa forma, eu vou conseguir pegar bem porque vou começar a jogar mais em quadras duras. Devo ter garantido (uma vaga na chave principal) o Australian Open com esse resultado (final em Santos). Joguei muito pouco em quadras duras. Dois ATPs e um Challenger este ano. Nunca tinha jogado torneios desse nível nesse tipo de quadra. Por mais que os resultados não tenham sido excepcionais, acho que fiz bons jogos e evoluí bastante nesses aspectos. Com o tempo, jogando mais, posso evoluir mais ainda.

Você ficou a uma vitória de ser o número 1 do Brasil. Quando um jornalista pergunta sobre isso, normalmente a resposta é que “número 1 do Brasil é só um número”. Você acha isso também?

Ah, acredito também que seja só um número. Não define nível, não define ninguém como jogador. Até porque o Thomaz, por mais que caia no ranking, vai ser o número 1 porque foi o último cara a estar ali perto dos 20 do mundo. Teve títulos de ATP, várias vitórias contra top 10, entre outros resultados incríveis que ele teve. Eu uso ele como referência, a gente tem treinado bastante junto, e por mais que tivesse acontecido em Santos, não seria algo que eu iria ficar me gabando. Acho que o nosso objetivo é outro e, sem dúvida, ainda tem muita coisa pela frente.

Você tem uma série de Challengers (Campinas, Buenos Aires, Santiago, Lima e Guaiaquil) pela frente agora e pouca coisa para defender. O objetivo mesmo é somar para se garantir nos ATPs do começo do ano e encarar uma sequência forte já no início de 2017?

Dependendo de como for a gira, de como forem as pontuações, eu pretendo realmente começar o ano nos ATPs mesmo e na chave do Australian Open. Se eu conseguir uma boa margem, dá para seguir se mantendo nos ATPs. A gente vai definir dependendo de como for essa gira, mas o objetivo é que comece nos ATPs e continue assim.

Vai ser o primeiro começo de temporada que você vai ficar despreocupado financeiramente, sabendo que vai poder viajar e jogar aqui e ali sem depender de resultado?

Ah, vai ser uma parte boa porque posso investir um pouco mais na equipe. Posso levar meu treinador. Como vai ser uma gira longa e com jogo de cinco sets, posso levar meu preparador físico também. Então acho que essas premiações têm me ajudado muito com isso. Eu prezo muito por investir nas pessoas que estão sempre ao meu lado, que trabalham comigo e que, sem dúvida, me fazem crescer no dia a dia para, quem sabe, ganhar mais ainda.

O Fabrizio (Gallas, assessor de imprensa da Tennis Route) me disse que você está procurando apartamento no Rio (Monteiro mora no alojamento da academia). Isso também faz parte desse processo, né? De um amadurecimento financeiro e como pessoa, digo…

Sim, sim. Quando eu morei seis anos no sul (em Camboriú, SC), nos últimos quatro anos eu alugava um apartamento, pagava minhas despesas, me sentia um homenzinho (risos) independente, então… Mas são coisas que o tênis proporciona. Eu tive que lutar muito por isso e também tenho a possibilidade de ajudar minha família. São essas coisas que me motivam a querer melhorar cada vez mais.


Davis, dia 2: tombo inesperado encerra fim de semana decepcionante
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Alexandre Cossenza

O golpe fatal veio de onde não se esperava. Ruben Bemelmans e Joris De Loore, a dupla escalada pela Bélgica mais para poupar David Goffin e Steve Darcis do que para ganhar de fato, acabou derrubando os favoritos Bruno Soares e Marcelo Melo em cinco sets. O tombo dos mineiros por 3/6, 7/6(5), 4/6, 6/4 e 6/4 completou um fim de semana decepcionante – mais pelas atuações do que pelo resultado final – para o time do capitão João Zwetsch, que mostrou pouco poder de reação e quase nenhuma variação tática nas simples de sexta-feira.

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Com o 3 a 0, a Bélgica continua no Grupo Mundial, a elite da Copa Davis, enquanto o Brasil volta para o Zonal das Américas, onde esteve em nove das últimas 11 temporadas. Neste sentido, não há grandes e novas conclusões a tirar. O Brasil continuará sendo favorito dentro do continente para alcançar os playoffs, mas ainda dependerá de um sorteio favorável (e o confronto contra a Bélgica não era nem de longe o pior dos cenários) e/ou da ascensão de um segundo simplista.

A maior expectativa agora fica por conta de Thiago Monteiro, que obteve ótimos resultados em 2016. Seria bom mesmo que o cearense de 22 anos desse outro passo adiante na carreira e se firmasse como tenista de nível ATP. Até porque entre os brasileiros mais novos que ele ainda não há ninguém mostrando tênis suficiente para defender o país internacionalmente.

O favoritismo era brasileiro, claro. Afinal, dois vencedores de Slam com muito tempo de quadra juntos enfrentariam jogadores que só haviam atuado juntos uma vez – uma derrota na primeira rodada de um Challenger. Um deles, De Loore, nunca havia vestido as cores do país na Copa Davis. O nervosismo ficou evidente. O jovem de 23 anos fez um foot fault e errou um voleio fácil logo no segundo game. A quebra veio, e os brasileiros não deram chance para reação. Os belgas não ameaçaram em momento algum e venceram apenas dois (dois!) pontos de devolução no primeiro set inteiro.

Se parecia um passeio de fim de semana, logo apareceu aquele engarrafamento que ninguém espera porque a PM montou uma blitz às 10h no único caminho até a praia. Bemelmans e De Loore acharam um ritmo melhor, sacaram espetacularmente (83% de aproveitamento de primeiro serviço) e arriscaram nas devoluções. Tiveram dois break points em games diferentes, mas De Loore, jogando no lado da vantagem, não conseguiu encaixar devoluções. No tie-break, a postura agressiva junto à rede que vinha dando certo saiu pela culatra. Bemelmans acertou um belo lob sobre Marcelo, e a Bélgica abriu 6/4. Foi o único mini-break do game, e os donos da casa empataram a partida.

O equilíbrio continuou, com pequenas chances para os dois lados. O terceiro set só teve um break point. Foi no décimo game, e Melo converteu com uma devolução vencedora (vide tweet acima). A quarta parcial começou com uma quebra da Bélgica, e o time da casa salvou dos break points em games diferentes antes de devolver o 6/4 anterior e mandar a decisão para o quinto set.

A essa altura, Bemelmans já tinha o tempo dos saques brasileiros e cravava devoluções impressionantes. Quando De Loore fazia o mesmo, significava perigo de quebra. Aconteceu no terceiro game, e Melo perdeu o saque. Os donos da casa abriram 3/1 e continuaram melhores nos games de serviço. O time mineiro tentou e ainda venceu um pontaço (vídeo abaixo), mas não conseguiu devolver a quebra. Game, set, match, Bélgica: 3/6, 7/6(5), 4/6, 6/4 e 6/4.

Uma temporada nada memorável

Se não voltarem a jogar juntos em 2016 (não há nada previsto até agora), Bruno Soares e Marcelo Melo terminarão a temporada com uma campanha de seis vitórias e quatro derrotas atuando juntos. Ainda que os mineiros tenham ficado a uma vitória de brigar pela medalha olímpica, trata-se de um histórico nada memorável para o potencial de ambos – especialmente considerando que três dessas vitórias aconteceram contra duplas irrelevantes no circuito: Fabiano de Paula/Orlandinho, Emilio Gómez/Roberto Quiroz e Nicolás Almagro/Eduardo Russi.


Thomaz Bellucci: “Não posso perder 17 jogos seguidos de top 10”
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Alexandre Cossenza

Muito antes do evento que lançou o Rio Open 2016, Thomaz Bellucci e eu nos sentamos em uma das mesas do Jockey Club Brasileiro para bater um papo sobre 2015, o que esperar de 2016 e um pouco mais. O número 1 do Brasil fez uma avaliação positiva de sua última temporada, mas reconheceu que lhe faltam vitórias “grandes” recentemente. Disse, inclusive, que é impossível entrar no top 20 sem quebrar a sequência de derrotas para top 10. Afirmou também que precisa melhorar muito seu jogo defensivo.

De modo geral, foi um papo bem leve. Bellucci, que está em pré-temporada há mais de 15 dias, riu ao lembrar da derrota para Paolo Lorenzi em 2011, fez força para escolher uma vitória mais importante em 2015 e lembrou rápido da derrota mais doída: diante de Djokovic, no Masters de Roma. O paulista de 27 anos também admitiu que já jogou “de salto alto”. Leia a íntegra da conversa abaixo.

Você começou 2015 como #64 do mundo e terminou como #37. Nem sempre dá para fazer essa avaliação pelo ranking, mas neste caso, em 2015, dá para usar o número como um parâmetro de que foi um bom ano?

Foi, foi uma temporada positiva. Eu acho que poderia ter terminado até um pouco mais baixo (Bellucci usa o termo “mais baixo” para se referir a um ranking melhor – de numeração mais baixa), mas dentro das possibilidades… Comecei o ano 64 e passei de 100, se não e engano, mas enfim… Comecei o ano ruim e talvez se eu começasse o ano melhor, poderia ter chegado a um ranking mais baixo no fim do ano. Mas, de uma certa maneira, foi um ano muito positivo. Eu consegui jogar muito melhor do que no ano passado. No ano passado, eu também tive dois ou três momentos ruins, mas este ano, a partir de meio, eu consegui manter uma regularidade muito grande de resultados e acredito que foi um ano positivo, sim.

A impressão que eu tive é que este ano você foi mais consistente até do que no ano que você chegou a #21. Você acha isso ou não?

Não (risos). Eu acho quando cheguei a #21, eu tive um ano melhor. Porque comecei melhor e mantive isso o ano inteiro. Cheguei a #21, mas talvez eu tenha mantido como top 30 o ano inteiro. neste ano, eu entrei no top 40 em Genebra e me mantive até o fim do ano. Hoje, eu sou um jogador melhor do que eu era quando cheguei a #21, mas não consegui ter os resultados daquela época, de oitavas em Grand Slam, de fazer quartas e semis em torneios grandes, então. Em 2015 talvez eu tenha jogado melhor do que em 2010, mas tive resultados mais expressivos naquele ano. Peguei umas chaves um pouco melhores do que neste ano. No final do ano, tive uma sequência de quatro, cinco torneios que, mesmo eu jogando bem, não consegui avançar porque peguei jogadores muito bons. Então tenho que contar um pouquinho com a sorte em certos momentos. Lógico que sorte é um pouco relativo, mas no fim do ano, mesmo jogando bem, eu não consegui avançar porque tive uns jogos difíceis.

Uma coisa que se comenta é que tem faltado para você nos últimos anos uma vitória grande. Ganhar de um top 10, um top 5… Inclusive no último jogo contra o Djokovic, o comentarista do TennisTV lembrou que eram 17 derrotas seguidas suas contra top 10. É uma coisa que te incomoda? E o que você acha que falta para isso começar a acontecer com frequência?

Eu cheguei a ganhar de top 10, mas nos últimos anos eu não consegui… Os últimos anos não foram meus melhores anos, né? Mesmo com o Dani (Daniel Orsanic), com o Pato… Não foram anos que eu joguei tão bem, né? Mas ainda falta um pouco. Este ano, joguei com Ferrer, com Raonic e não fiz jogos extraordinários. Falta um pouco mais de tranquilidade, de não entrar tão nervoso, de não entrar tão ansioso contra esses jogadores. Queira ou não, você entra mais ansioso de saber que essa vitória pode ser importante. Talvez falte um pouco mais de tranquilidade. Acredito que jogo eu tenho para ganhar desses caras, como já ganhei algumas vezes. Então falta mais a parte de manter uma cabeça tranquila, de entrar solto na quadra e tranquilo, acreditando que eu possa entrar na quadra e ganhar de qualquer um. Eu tenho até chegado perto, mas, às vezes, nos momentos importantes, eu acabo não jogando tão bem, o que faz muita diferença.

Você vê isso como condição para entrar no top 20, no top 10, talvez?

Com certeza. Se eu quiser entrar entre os 20, é impossível. Não dá para perder 17 jogos seguidos de top 10, senão nunca vou entrar entre os 20. Tenho que estar preparado para jogar contra esses caras e de cinco, pelo menos ganhar umas duas, por exemplo. Matematicamente, acho que é impossível. Daqui para a frente, se eu não estiver preparado, se eu não conseguir ganhar desses caras, eu não vou conseguir entrar. Então tenho que estar… Meu foco é totalmente para esses jogos, para eu conseguir ter um rendimento melhor nesses jogos importantes.

(O revés diante de Djokovic em Paris aumentou para 18 a sequência negativa contra tenistas do top 10)

Olhando para trás, você mudaria algo de 2015 em termos de preparação, calendário, não sei…

Foi um ano que eu não consegui fazer uma pré-temporada tão boa quanto eu queria. Então este ano acredito que eu já comece 201 com uma vantagem em relação a 2015. Em 2015, eu comecei meio sem técnico, não sabia com quem eu ia ficar. Acabou a temporada e não tive tanto tempo de fazer um planejamento, de conseguir fazer uma pré-temporada completa. Comecei a pré-temporada um pouco machucado, estava me poupando e só no final consegui fazer uns treinos legais, mas este ano acho que vou começar melhor, mais preparado do que comecei 2015. Talvez mesmo se os resultados não vierem, pode ser um ano de mais produtividade e com mais planejamento. Vai ser meu segundo ano com o João (Zwetsch, técnico). Em 2015 eu voltei a trabalhar com ele e, por mais que eu conhecesse o João muito bem, sempre tem coisas novas que ele me passa e, queira ou não, de 2010 a 2015 eu também mudei como pessoa e como jogador. Ele também mudou como técnico. Teve um momento de transição. Nos dois, três primeiros meses, é normal que os resultados piorem um pouco porque a gente estava mudando algumas coisas no meu jogo. Eu estava incrementando certas coisas, então o começo do ano foi um pouco difícil para nós dois. A gente não conseguiu encaixar bem os jogos. Acredito que ano que vem seja um pouco melhor.

O Sylvio Bastos (comentarista do Fox Sports) costuma dizer que alguns técnicos não tiveram tanto sucesso com você porque quiseram mudar seu jogo. O João, por outro lado, faz você jogar bem o jogo que você gosta de jogar. Você concorda? 

Concordo, concordo. O João… Ele mesmo, quando a gente começou a trabalhar, falou “não quero mudar nada no seu jogo, só quero aperfeiçoar a sua maneira de jogar.” Talvez com os outros técnicos… Eles me traziam um pouco mais de… Com o Pato (o espanhol Francisco Clavet), por exemplo, e com o Larri (Passos), eles queriam que eu adaptasse um pouco mais o meu jogo. Jogar um pouco mais atrás, jogar com mais bolas, ser um pouco mais regular e diminuir um pouco a velocidade… E o João tem um estilo diferente. Ele acha que é complicado mudar o estilo de um jogador porque eu aprendi a jogar assim e é a maneira que eu jogo bem. E é assim que a gente tem que aperfeiçoar meu jogo. Não mudar de uma hora para a outra. “Ah, vamos dar dois passos para trás e começar a dar bola alta.” Não é meu estilo de jogo. Por mais que eu possa fazer isso…

(interrompendo) Mas até deu resultado com o Larri em alguns torneios…

(também interrompendo) Eu tive resultados esporádicos com o Larri, né? Eu tive dois, três torneios bons, mas não tive um ano consistente. Não foi um ano bom. Mas com o João acredito que ele me entenda mais tanto dentro da quadra quanto fora. Mesmo nos momentos difíceis, é um cara que me dá muito apoio. Ele consegue ver quando eu estou mal, quando estou bem. Isso também me ajuda muito.

Qual foi a vitória mais legal desta temporada?

A melhor vitória… (pensativo) É… Pô, é difícil.

Tem a final de Genebra…

É, então, essa que eu estava pensando.

Foi essa?

Não sei, talvez no (pensa um pouco mais)… A mais legal? Ah, acho que deve ter sido essa mesma, o jogo contra o João Sousa. Deve ter sido o momento mais marcante da temporada.

E a derrota que incomodou mais?

(responde rápido) Com certeza, foi com o Djokovic em Roma.

O que doeu mais? É porque você sentiu que tinha chance?

É, eu senti que o jogo era meu. O primeiro set eu ganhei, e mesmo no resto do jogo, eu achei que estava melhor do que ele, mas não conseguia passar adiante. No final, por mais que o cara seja número 1, tenha feito uma temporada incrível, de perder muito poucos jogos, eu senti que naquele dia eu estava jogando melhor que ele e poderia ser meu o jogo. Então eu terminei um pouco frustrado (Djokovic venceu por 5/7, 6/2 e 6/3).

A essa altura, você já está acostumado com essas sensações? É uma coisa que você, alguns dias depois, já consegue apagar? Ou esse sentimento vai com você por mais tempo?

É mais fácil apagar quando você joga com o número 1 (sorri). Se você joga com o número 1 e perde, no outro dia você fica frustrado, mas esquece. Quando você joga com um cara que você tem mais condições de ganhar, você fica mais frustrado. Com a experiência, você vai levando melhor isso. Talvez se essa derrota fosse há uns cinco anos, eu levaria de uma maneira pior, mas do jeito que foi, até porque no torneio seguinte tive um bom resultado (Bellucci foi campeão do ATP 250 de Genebra), não deixei aquilo me influenciar.

Você falou “cinco anos atrás”. Madri foi em 2011. Aquela derrota para o Djokovic (o sérvio venceu em três sets na semifinal do Masters 1.000 de Madri após estar um set e uma quebra abaixo no placar) você demorou mais para…

(interrompendo) Ah, foi um momento… Mesmo porque na semana seguinte eu perdi para o (italiano Paolo) Lorenzi, né? Então acho que hoje em dia eu consigo lidar melhor com essas derrotas, apagá-las no dia seguinte e aprender com elas. Talvez, nessa época, eu não conseguia lidar muito bem. E também eu, às vezes, com uma vitória, ficava de salto alto e acabava perdendo um jogo fácil na semana seguinte. Então eu era muito irregular, não conseguia manter uma consistência grande. Com a maturidade, você vai sabendo administrar isso. Por mais que você tenha uma vitória magnífica no dia anterior, isso não vale nada se você não faz um bom jogo de novo no dia seguinte.

Você falou do Lorenzi… O que chateou mais? Perder do Djokovic numa semifinal depois de estar um set e uma quebra na frente ou perder do Lorenzi, que era, sei lá, 300 e alguma coisa do ranking?

Não, ele não era tão ruim assim (risos de ambos). Ele era, sei lá, uns 150, 200?

Sim (rindo), mas você entende o que eu quero saber?

Não, uma derrota contra o Lorenzi dói muito mais do que uma contra o Djokovic. Sem dúvida nenhuma (mais risos).

(Registrando: Lorenzi era, de fato, número 148 do mundo naquela semana de 2011, no Masters 1.000 de Roma)

Seu calendário para 2016 muda alguma coisa?

Muda um pouco, mesmo porque o calendário também mudou, né?

Ficou uma zona com os Jogos Olímpicos encaixados ali…

É, a gente vai para os Estados Unidos, volta, vai para os Estados Unidos de novo, então… Eu nem sei, na verdade. Mas no começo do ano muda também. A gente joga Brisbane, depois Sydney, depois Australian Open. Sydney eu nunca joguei, e Brisbane nos últimos anos eu não joguei também. A gente quer tentar…

(interrompendo) Você não gosta de Auckland?

Gosto, mas eu nunca joguei bem lá (risos). Esse que é o problema. Eu até gosto, é um dos meus torneios favoritos, mas não adiante se você vai lá e não consegue jogar bem. E também Sydney tem condições mais parecidas com o Australian Open, então vamos ver se a gente consegue chegar mais bem preparado.

Não tem como fazer preparação diferente para Jogos Olímpicos, né? Tem um Masters duas semanas antes, depois Rio, depois outro Masters… Não dá para parar dois meses e treinar só para uma coisa, né?

No tênis, não tem isso como nos outros esportes. A gente tem competições importantes o tempo inteiro. Não tem como falar “vou ficar um mês sem jogar porque quero estar bem preparado para aquele torneio.” No tênis, não existe isso. Não tem como fazer preparação especial. Lógico que eu gostaria, mas é um calendário complicado para todo mundo. Para mim, as Olimpíadas talvez sejam o torneio mais importante do ano que vem.

Tiraram os pontos do ranking para o torneio olímpico de tênis. Você acha que isso afeta muito?

Não, acho que não. Nos últimos anos, os jogadores já têm priorizado as Olimpíadas. Por mais que dê ponto, não sei se é a razão principal para a gente jogar. As coisas que você acaba ganhando em Jogar Olimpíadas são muito mais que a pontuação que você ganha. E também não é uma pontuação magnífica.

Eram 750 pontos para o campeão…

Era como se fosse um ATP 500. Para os jogadores no topo, não faz tanta diferença. Para os lá de baixo, pode ser, mas para o Federer, o Djokovic, 750 pontos não muda quase nada no ranking deles. Não acredito que seja um empecilho para eles.

É possível que o Brasil entre com uma dupla mista nos Jogos. E tem você, Marcelo, Bruno, André talvez esteja… Quem vai jogar com a Teliana?

Ah, não sei (sorriso), mas os especialistas em dupla são o Marcelo e o Bruno, Não tem muito sentido a gente pegar um jogador de simples para estar na dupla porque é o que eles fazem de melhor.

Eu sei que não funciona exatamente assim porque ninguém trabalha uma coisa só numa pré-temporada, mas se você tivesse que estabelecer uma prioridade máxima para a pré-temporada, o que seria?

A parte principal, que a gente já vem conversando durante o ano, é a parte de defesa. Conseguir me defender melhor e aguentar mais os pontos quando eu estou sendo deslocado. Isso, contra esses jogadores, é muito importante porque jogadores que estão entre os (top) 10 geralmente devolvem bem saque, e é muito difícil ganhar o ponto em duas, três bolas. Por mais que eu tenha um jogo agressivo, eu tenho que jogar defendendo, mesmo que seja uma parte pequena durante o jogo. Então eu tenho que fazer melhor isso. A maioria dos pontos em que eu começo me defendendo, eu não consigo ganhar. Preciso melhorar isso daqui para a frente. É uma prioridade.

É questão mais de velocidade lateral, de arranque para chegar nas bolas, ou é a execução do golpe defensivo mesmo?

Os dois. A parte física também é importante, de eu conseguir me deslocar melhor… Ah, você vê que o diferencial dos grandes jogadores hoje em dia é a parte física. Antigamente, não tinha tanta diferença assim. Você pega dos jogadores número 1 do passado… Não necessariamente eles tinham o melhor físico. Hoje em dia, é ao contrário. Você pega os cinco primeiros e vê que fisicamente eles são melhores que os outros. Essa é uma coisa que eu tenho que tentar trabalhar com o André (Cunha, preparador físico). Mas, de qualquer maneira, a parte técnica também é importante, de melhorar minha técnica de chegar nessas bolas e me defender melhor.


O que deveria significar o número 1 de Marcelo Melo
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Alexandre Cossenza

Sou fã assumido de Marcelo Melo. Os leitores deste blog sabem disso, os ouvintes do podcast Quadra 18 sabem, o próprio Marcelo sabe. Não tenho, contudo, ilusões quanto ao que vai significar para o tênis brasileiro ter um número 1 nas duplas. Que ninguém ache que os clubes vão voltar a ter quadras lotadas por isso. Que não esperem grande alarde da imprensa “não especializada”. Não imaginem que a Confederação Brasileira de Tênis terá um plano para aproveitar a imagem de Marcelo. No máximo, darão um prêmio e uma plaquinha naquele evento de fim de ano feito mais para patrocinadores do que para fãs (o que é uma pena).

O cenário mais provável é que o novo ranking de Marcelo, que está na França para a disputa do Masters de Paris, será um distante coadjuvante para a vitória do Corinthians sobre o Atlético Mineiro nos noticiários “esportivos” desta segunda-feira. Não precisa ser gênio para fazer essa previsão. E sejamos sinceros: a enorme maioria dos comentários sobre o grande feito do mineiro de 32 anos provavelmente será rebatida com “mas é só dupla.” Não, Marcelo Melo não será visto por muitos como um exemplo a ser seguido. Mas deveria.

Deveria porque Marcelo fez (e faz!) muito para chegar a número 1 do mundo. Porque nasceu em uma família de tenistas que já tinha dois garotos “paitrocinados” e não lhe sobrou muito dinheiro. Por isso, ia sozinho, ainda adolescente, batendo de porta em porta entregando currículos e pedindo patrocínio. Quando não fazia isso, mandava seu CV por fax(!).

Deveria porque Marcelo teve a coragem de abandonar o sonho de ser um simplista para mergulhar de cabeça no circuito de duplas. E fez isso deixando um excelente centro de treinamento no Rio de Janeiro em uma época em que o Brasil não tinha duplistas de ofício em evidência. Bruno Soares só brilharia dois anos depois, e André Sá iniciava sua ascensão junto com o conterrâneo (até meados de 2006, o duplista número 2 do Brasil era Marcos Daniel).

Deveria porque Marcelo evoluiu enormemente seu jogo. Nos últimos dez anos, com a ajuda do irmão e técnico Daniel, diminuiu seus pontos fracos e foi, pouco a pouco, se aproximando do topo. É humilde desde o início da caminhada e tem como recompensa títulos ao lado de muitos parceiros.

Deveria porque Marcelo acreditou que era possível tirar Bob e Mike Bryan do topo. Os gêmeos foram senhores do circuito durante a maior parte dos últimos 15 anos e lideravam juntos e ininterruptamente o ranking desde o início de 2013. O brasileiro, no entanto, viu a janela da oportunidade se abrir em Roland Garros e lutou para agarrar sua chance. Sonhou, lutou e conseguiu.

Deveria porque Marcelo tem caráter. É fiel aos amigos ao ponto de ir à imprensa para sair em defesa deles. Foi assim na Costa do Sauípe em 2011, quando reclamou de uma manchete sobre Thomaz Bellucci, e em São Paulo, em 2013, quando tentou justificar a convocação de Rogerinho para o confronto de Copa Davis contra a Espanha. Concordando ou não (e eu discordo dos argumentos de Marcelo em ambas ocasiões), é preciso admirar a coragem e a disposição de quem compra brigas em nome de amigos e colegas de time.

Deveria, deveria, deveria… Marcelo Melo, número 1 ou não, foi e é exemplo de muita coisa. Se nem tanta gente percebeu antes, seja pela timidez mineira ou pela falta de interesse na modalidade, que seu novo ranking sirva para abrir os olhos de muitas pessoas. Não há muitos seres humanos como ele por aí.

Número 1 do mundo! Eu que sempre acreditei no sonho de ser tenista profissional, posso dizer que a ficha ainda não caiu. Desde pequeno sempre sonhei em ser profissional, corri atrás dos meus objetivos, cheguei a passar fax por vários dias em busca de patrocínios, fazendo de tudo para realizar meu sonho. Tenho que agradecer todos que me ajudaram, porque seria impossível chegar lá sozinho. Pelo caminho tiveram pessoas que sempre tentaram me ajudar, umas mais outras menos. O que dizer dos meus pais ? Eles que sacrificaram as próprias vidas fazendo de tudo para eu seguir o sonho de ser tenista, não só para mim, mas para os meus irmãos também, um sacrifício que somente eles sabem o que é ter três filhos tenistas em casa. Sebastião Bomfim, uma pessoa que eu não tenho palavras para agradecer o que ele fez por mim, com certeza eu não estaria onde estou sem ele, toda minha família é eternamente grata pelo o que ele fez e faz por mim. O Daniel, vocês já devem imaginar o tanto que eu devo a ele, que muitas vezes deixa a família em BH para ir junto comigo em busca do sonho, ele que acreditou desde o primeiro dia que treinamos, isso há 8 anos atrás. O Ernane como irmão mais velho sempre me fazendo acreditar que eu seria capaz. Meus amigos que ficam horas acompanhando os jogos por pontos online, algumas vezes pegam um avião para assistir um torneio ou até mesmo uma final, como aconteceu em Roland Garros.Muito obrigado ao Chris que sempre faz de tudo para me deixar com o melhor físico possível, aos fisioterapeutas (Daniel, Paulo e Tatá)que me consertam deixando novo em folha. Logicamente agradecer ao meu parceiro Ivan Dodig que me ajudou e muito para chegar lá. Agradeço mais uma vez a todos os torcedores que hoje se alegram em dizer que #somostodosgirafa , sempre ajudando a levar o nome do Brasil para o mundo.

A photo posted by Marcelo Melo (@marcelomelo83) on

Coisas que eu acho que acho:

– Quase todos os casos citados nos parágrafos acima estão relatados no podcast Quadra 18 especial pelo número 1 de Marcelo Melo. São histórias contadas pelo próprio Marcelo, mas também por Bruno Soares, André Sá, Thomaz Bellucci, Márcio Torres, Daniel Melo, Felipe Lemos, Ricardo Acioly e até pelo sr. Paulo Ernane, pai de Marcelo. É um programa especialíssimo que está no ar desde a manhã desta segunda-feira. Ouçam aqui!

– Com a produção e a edição do podcast, sobrou pouco tempo para escrever sobre as finais do fim de semana, então seguem abaixo os registros de Cingapura e da Basileia, acompanhados de breves comentários.

– Sem Serena Williams, o WTA Finals acabou com um emocionante título de Agnieszka Radwanska, que esteve quase eliminada na fase de grupos, mas escapou por pouco e aproveitou a chance que conquistou, coroando um excelente final de temporada, que teve títulos em Tóquio e Tianjin, além de uma semi em Pequim. Em Cingapura, na maior conquista de sua carreira, aproveitou a quadra lenta para fazer valer sua capacidade defensiva e sua variação de jogo. No sábado e no domingo, conseguiu fazer estrago nas cabeças de Garbiñe Muguruza e Petra Kvitova, respectivamente. Sua consistência provou-se um obstáculo formidável para as duas tenistas agressivas.

– No ATP 500 da Basileia, Roger Federer e Rafael Nadal fizeram um duelo digno da longa rivalidade, ainda que longe do altíssimo nível de outros tempos. Neste domingo, os dois oscilaram, mas o suíço, que jogava com tudo a favor (torcida caseira, quadra rápida e arena indoor), levou a melhor em três sets. No balanço geral, foi uma semana irregular para ambos, mas nenhum dos dois deve sair lá muito insatisfeito. Federer faturou o sétimo título na Basileia, enquanto Nadal, em seus altos e baixos, foi longe em um torneio com características que pouco favorecem seu estilo de jogo. Não é mau sinal.

– Bruno Soares e Alexander Peya, pouco depois de anunciarem sua separação, foram campeões na Basileia e se mantiveram vivos na briga pela última vaga para o ATP Finals. Com os 500 pontos conquistados, brasileiro e austríaco agora somam 3.330 e ficam na nona posição, atrás de Rohan Bopanna e Florin Mergea (3.455). A boa notícia é que a matemática é simples: Soares e Peya vão ao Finals se alcançarem as semifinais no Masters 1.000 de Paris. A parte ruim é que a chave é duríssima. A estreia é contra Colin Fleming e Andy Murray. Caso vençam, os dois encaram Marcelo Melo e Ivan Dodig. Se chegarem às quartas, Soares e Peya podem, então, fazer o confronto direto contra Bopanna e Mergea, valendo o lugar em Londres. Não é fácil, mas não é impossível.


Quadra 18: Especial Marcelo Melo #1
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Alexandre Cossenza

Marcelo Melo é oficializado como duplista número 1 do mundo nesta segunda-feira, e o podcast Quadra 18 tem uma edição especial só para homenageá-lo. Com depoimentos do próprio Marcelo, do sr. Paulo Ernane (pai), de Daniel Melo (irmão e técnico), além de Bruno Soares, André Sá, Márcio Torres, Ricardo Acioly, Felipe Lemos e Thomaz Bellucci (sim, essa gente toda falou ao podcast), o programa desta semana revê as partes mais importantes da carreira do mineiro, releva características curiosas da personalidade do novo #1 e aborda os elementos que o levaram ao topo do ranking.

Aliny Calejon, Sheila Vieira e eu comandamos o programa, mas apenas como coadjuvantes. O brilho fica por conta de Marcelo e seus colegas, conterrâneos, parentes e treinadores. Clique no player acima para ouvir e fazer parte da homenagem que o podcast e todos convidados especiais fazem ao novo número 1 do mundo. Se preferir fazer o download do podcast para ouvir depois, basta clicar neste link com o botão direito do mouse e, depois, em “salvar como”.

Os temas

Primeiro bloco: arrancada e infância
0’00” – Best Day Of My Life, American Authors + Aliny apresenta o podcast
1’07” – O som da girafa
1’39” – Cossenza e Sheila comentam o que terá no programa
3’54” – “Vou pedir pro Marcelo procurar emprego pra mim”
4’09” – Aliny repassa a temporada do Marcelo
5’09” – Marcelo: “Depois de RG eu comecei a acreditar”
5’36” – O número 1 com vários parceiros
6’22” – Marcelo fala sobre como escolhe seus parceiros
6’57” – Lista de façanhas dos Bryans, “os caras que o Marcelo tirou do topo”
8’36” – Cossenza compara a temporada do Marcelo com o 2013 de Bruno Soares
10’00” – Marcelo revela quais são suas próximas metas
11’08” – Hora de falar do “mini Marcelo”
11’52” – Seu Paulo Ernane, o Papa Melo: “Com 3 anos de idade, já ia pra quadra de velotrol chupando bico”
14’00” – Marcelo revela: “O Bruno, eu sempre dava uma coça nele”
15’13” – Bruno Soares diz que a história não é bem assim
17’10” – Paulo Ernane fala sobre o ‘paitrocínio’ e a garra de Marcelo pedindo dinheiro por fax
19’04” – Bruno: “o Marcelo desde pequeno correu demais atrás”
21’06” – Cossenza fala sobre sua relação com Marcelo
21’57” – Um brinde aos introvertidos
23’40” – Clocks, Coldplay

Segundo bloco: transição e sucesso
24’50” – Sheila repassa a carreira de Marcelo em simples
26’08” – Márcio Torres fala sobre a viagem para a Europa que mudou a carreira de Marcelo
29’55” – Pardal fala sobre o momento em que Marcelo comunicou a decisão de virar duplista e chorou
32’42” – Daniel explica por que Marcelo seria um bom duplista
33’36” – Bruno conta história do Future em que eles acordaram a 15 min da final
36’00” – A parceria Melo/Sá e a semifinal de Wimbledon em 2007
38’30” – Mais stats de Melo/Sá
39’15” – André Sá fala sobre seu papel de mentor de Marcelo
41’39” – André conta história de quando Marcelo “arregou” na hora de falar inglês no estádio Louis Armstrong
44’16” – Cossenza relembra o caso de doping e a suspensão de Marcelo
45’54” – Daniel fala o que eles aprenderam com a situação
47’22” – Aliny repassa a era Melo/Soares
48’26” – Marcelo comenta a parceria e como a separação deu certo para ambos
50’56” – Bruno: “Na minha opinião, foi muito cedo”
53’23” – Geronimo, Sheppard

Terceiro bloco: histórias de amigos 
54’14” – Apresentação do bloco
54’37” – Thomaz Bellucci: ‘Ele é um grande parceiro’
56’39” – Cossenza conta a história de Marcelo defendendo Bellucci no Sauípe e Rogerinho na Copa Davis
59’29” – Bellucci conta suas aventuras com Marcelo no Rock Band
60’46” – Felipe Lemos fala sobre o Marcelo pão duro: “Ele dorme com a roupa do patrocinador”
63’14” – Mais Felipe: “Ele é muito devagar. Come quietíssimo”
64’24” – “Vamos ver o lado positivo? O Marcelo nunca foi suspenso do Flamengo”
65’23” – Depoimento final do Papa Melo: “Ele merece pela luta, pelo empenho, pelo bom menino que é. É emocionante”
66’53” – Agradecimos e despedidas

Créditos musicais

As músicas deste episódio foram escolhidas pelo próprio Marcelo Melo. A faixa de abertura é “Best Day of my Life” (por que será, né?), da banda American Authors. A segunda é “Clocks” (Coldplay), e a terceira é “Geronimo” (Sheppard).


Sobre Bruno Soares e o “timing” do número 1 de Marcelo Melo
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Alexandre Cossenza

Tênis, no fundo, no fundo, é como quase tudo na vida. É preciso dedicação, talento e um pouco de sorte. “Estar no lugar certo na hora certa”, já diz o clichê. E é assim que veio o número 1 de Marcelo Melo: em uma temporada brilhante, com um título de Grand Slam, mas também com uma pitadinha de “timing”.

Afinal, o melhor momento na carreira do mineiro veio coincidentemente em uma temporada abaixo da média dos irmãos Bryan, que dominam a modalidade há mais de dez anos e lideram o ranking juntos e de forma ininterrupta desde fevereiro de 2013. Os dois juntos conquistaram pelo menos um Slam por ano desde 2005. Este ano, a sequência acabou. Não seria exagero dizer que Bob e Mike são, em números, a dupla de mais sucesso da história.

E a série pão de queijo continua hoje aqui no blog usando outro brasileiro para ilustrar o quão importante é o “timing”. Bruno Soares, afinal, é o exemplo perfeito. Eu explico. Na quinta-feira, quando Marcelo Melo assegurou a conquista do posto de número 1 do mundo, ele encerraria o ATP de Viena com 7.980 pontos se não tivesse vencido nenhum outro jogo. Pois sabem quanto pontos Soares somou em 2013, sua melhor temporada? Os mesmos 7.980!

Naquele 2013, porém, Bob e Mike Bryan venceram três Slams, cinco Masters 1.000 e ainda foram vice-campeões do ATP Finals. O ranking de fim de ano mostrou os gêmeos americanos com 14.960 pontos. na mesma data, Soares tinha 7.380 – menos da metade – após descartes.

Os confrontos diretos pesaram um bocado nessa diferença em 2013. Naquele ano, foram sete partidas de Bob e Mike contra Bruno e Alex. Brasileiro e austríaco venceram apenas uma, em Valência. Perderam nas semis do ATP Finals, de Roland Garros e de Memphis e nas finais de Paris, Queen’s e Madri.

E nem foi só isso. No US Open, quando escapou dos irmãos Bryan e tinha uma chance melhor de conquistar seu primeiro Slam em duplas-duplas (sem contar mistas), Bruno Soares viu Peya sofrer uma lesão nos últimos pontos da semifinal. O austríaco entrou em quadra para a decisão sem condições de jogo, e a partida foi uma formalidade que acabou com os troféus nas mãos de Paes e Stepanek.

Em 2015, dois anos depois de Soares ser o simbólico “número 1 entre os mortais”, os irmãos Bryan deram sinais de vulnerabilidade e não conseguiram manter o ritmo absurdo das temporadas anteriores. O “timing” para brasileiro e austríaco, entretanto, já havia passado. Os dois viveram um ano nada brilhante. Bons resultados vieram aqui e ali, mas sem a consistência necessária – e desejada. A parceria chegou ao fim, e o mineiro de 33 anos começará 2016 ao lado de Jamie Murray. Que a sorte lhe sorria um pouco mais no ano que vem.

Coisas que eu acho que acho:

– Importante não deixar de citar: se Bob e Mike Bryan não conquistaram um Slam em 2015, Marcelo Melo e Ivan Dodig têm sua parcela de “culpa”. Os dois fizeram um partidaço na final de Roland Garros  e conquistaram o título.

– Nos outros três Slams, os Bryans foram eliminados por Inglot e Mergea (Australian Open, oitavas de final), Bopanna e Mergea (Wimbledon, quartas) e Johnson e Querrey (US Open, primeira rodada).


Marcelo Melo e o #1 em números: quem é o melhor parceiro?
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Alexandre Cossenza

Nem soluções para a crise na Síria, nem uma trégua para o leste da Ucrânia, nem conclusões definitivas sobre duplas e o ranking de Marcelo Melo. A intenção deste post é apenas dar sequência à série de posts pão de queijo e levantar números, ilustrando o cenário que levou o mineiro de 32 anos ao posto de número 1.

Ao longo da ascensão de Marcelo, que já vem de alguns anos, foi possível ler e ouvir algumas teorias sobre seu momento. “Ele precisava jogar com um simplista”, disse um comentarista da ESPN. “Ele escolhe bem parceiros” e “o Ivan carrega a dupla” são outras teses ditas por aí. Mas será que os números confirmam ou desprovam alguma dessas explicações? Ou nem uma coisa nem outra?

Ao fim desta semana, após sua 12ª vitória consecutiva e o título do ATP 500 de Viena, Marcelo Melo alcançou a marca de 7.680 pontos conquistados desde janeiro. Destes, 5.140 vieram ao lado de Ivan Dodig, seu parceiro habitual. Outros 2.540 foram somados em dupla com outros tenistas. Ou seja, o croata esteve ao lado do mineiro em 66% dos pontos – ou, arredondando, 2/3. O outro terço veio com Max Mirnyi, Julian Knowle, Bruno Soares, Raven Klaasen e Lukasz Kubot.

Outros números interessantes: Marcelo Melo conquistou 34,2% dos pontos possíveis nos torneios que jogou ao lado de Ivan Dodig. Quando teve outro parceiro, teve aproveitamento superior: 63,5%. São números, obviamente, que precisam de contexto. O brasileiro esteve ao lado de Dodig nos quatro Slams e em seis Masters 1.000. Com os “outros”, foram apenas dois Masters, três ATPs 500 e dois ATPs 250. É uma grande diferença de nível.

Por último, uma observação que parece um tanto importante a esta altura do calendário. Em pontos, as melhores campanhas de Ivan Dodig, Raven Klaasen e Lukasz Kubot aconteceram ao lado de Marcelo Melo (são três de seus seis parceiros em 2015). E Bruno Soares, lembremos, também não conseguiu ao lado de Alexander Peya mais do que os 360 que somou com o conterrâneo em Miami (embora tenha igualado a pontuação em Wimbledon, Montreal e Roland Garros).

Após ler o parágrafo acima, me sinto tentado a perguntar: é Marcelo Melo que escolhe bem os parceiros ou o contrário?

Coisas que eu acho que acho:

– Está dito no início do post, mas reforço aqui: nenhum número é apresentado aqui como definitivo para comprovar tese alguma. O texto tem como objetivo principal ilustrar a temporada memorável de Marcelo Melo.

– A única conclusão que me sinto tentado a tirar parece um tanto óbvia: Marcelo Melo é um tenista fantástico que não depende deste ou daquele parceiro para ir longe em um ou outro torneio. É um duplista que não chega ao posto de número 1 isolado por acaso. Não precisou que ninguém o colocasse lá.

– Bruno Soares fez a pergunta do tweet acima antes do início do ATP 500 de Viena. Será que o mineiro estava confiante no conterrâneo?


O número 1 que ninguém vê
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Alexandre Cossenza

O diálogo abaixo aconteceu na manhã deste sábado, quando fiz uma visita à minha mãe, no Rio de Janeiro. Foi mais ou menos assim.

– Você viu que o Marcelo vai ser número 1 do mundo?
– Vi. Mas como isso?!
– Ele tem ponto pra c… , mãe!
– Mas eu não vejo ele jogar.
– Ninguém vê, mãe. Ninguém vê.

Não, o assunto nem é novo, mas vem à tona sempre que um brasileiro se destaca. Por isso, aproveito o número 1 de Marcelo Melo (o mineiro assumirá o posto no dia 2 de novembro) para repassar alguns dos motivos pelos quais o melhor duplista brasileiro de 2015 não teve mais do que um punhado de jogos televisionados na melhor temporada de sua carreira.

Culpado #1: a ATP

Sim, há outros elementos a considerar, mas a ATP é a principal responsável se o público não conhece o circuito de duplas. Na maioria dos torneios, quase não há transmissão de jogos da modalidade. Nem uma assinatura do TennisTV, que custa mais de R$ 400 por ano (com esse câmbio, né?), garante que você vai conseguir acompanhar a modalidade decentemente.

Se nos ATPs 250, as transmissões são poucas, nos ATPs 500 elas são mais raras ainda. Quem aí lembra que a final de Marcelo Melo no Rio Open de 2014 não foi mostrada pelo SporTV? E nos Masters 1.000, então, o cenário escancara o quanto a entidade pouco se importa para a coisa toda. Em muitos casos, mesmo quando os torneios escalam jogos de duplas para as quadras centrais, onde há todo o aparato de transmissão, as câmeras são desligadas e os operadores ganham folga assim que um duplista sai do vestiário em direção à arena de jogo. É sério.

Os canais brasileiros

As finais, sim, são transmitidas sempre pelo TennisTV durante os Masters. Só que aí entra outro problema. É preciso que o canal dono dos direitos de transmissão mostre interesse nos jogos, que são adquiridos separadamente – ou seja, não fazem parte daquele pacote comprado e válido para toda a temporada. No Brasil, os direitos dos Masters 1.000 são do SporTV. E a final de Xangai, exibida pelo TennisTV, não foi mostrada no brasil pelo canal da Globosat. Já inclusive comentei o assunto neste post e no último episódio do podcast Quadra 18.

Restam, então, os Slams. Para a sorte do público interessado, Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e US Open disponibilizam transmissões de quase todas as quadras. Só que os canais brasileiros nem sempre vão atrás das duplas. Juntando tudo, Marcelo Melo e Ivan Dodig estiveram nas TVs brasileiras menos uma dúzia de vezes. E antes que você diga “mas 12 vezes é muita coisa”, pare e pense em qual seria o número mais justo de transmissões de TV para um top 10 (não precisa nem ser número 1!). E, a não ser que algum mude radicalmente em breve – e nada indica até agora que isso vá ocorrer – Marcelo Melo será um número 1 que ninguém vê.

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Coisas que eu acho que acho:

– Sobre o diálogo no alto do post, peço desculpas por quase reproduzir o palavrão. A questão é que “pra c…” transmite intensidade como nenhuma outra expressão da língua portuguesa.

– Enquanto escrevo este post, Melo venceu mais um jogo (sem transmissão, claro) no ATP 500 de Viena. Ele e o polonês Lukasz Kubot aplicaram 6/3 e 6/4 em cima de David Marrero e Andreas Seppi. Na final, Melo e Kubot vão enfrentar Jamie Murray e John Peers.

– Com o número 1 garantido, a briga de Melo parece agora ser para fechar a temporada no topo. A briga promete ser duríssima contra os irmãos Bryan.

– As fotos deste post são de Getty Images.


Simplesmente Marce1o Me1o
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Alexandre Cossenza

A temporada começou com um excelente Australian Open, ganhou dimensões completamente novas quando veio o título de Roland Garros e, agora, caminha para seu fim com uma arrancada fantástica no pós-US Open. Depois de títulos em Tóquio e Xangai longe de Ivan Dodig, seu parceiro habitual, Marcelo Melo faz nova ótima campanha. E agora, ao avançar às semifinais do ATP 500 de Viena, o mineiro garantiu o posto de número 1 do mundo.

Sim, Marcelo Melo assumirá o topo do ranking no dia 2 de novembro, quando serão descontados os pontos do Masters 1.000 de Paris. Os irmãos Bob e Mike Bryan, atuais líderes da lista da ATP, perderão mil pontos, enquanto o mineiro, que nada tem a defender na capital francesa, chegará ao topo. Um momento fantástico.

Este post fica assim, curtinho, apenas para registrar o momento. No dia 2, quando Marcelo for oficializado como número 1, publicarei material especial sobre o mineiro (o conteúdo ainda é surpresa, mas vem muita coisa boa por aí). Por enquanto, deixo aqui apenas um par de observações que ressaltam o quanto significa este feito do mineiro de 32 anos.

O primeiro é que Melo chegou lá com um parceiro “habitual”, mas nem tanto assim. Entre seus resultados mais importantes de 2015 estão a semifinal de Miami, onde jogou com Bruno Soares, e os títulos de Tóquio e Xangai, onde o sul-africano Raven Klaasen foi o parceiro. Esta semana, em Viena, é o polonês Lukasz Kubot quem faz as vezes de parceiro para Marcelo.

E também é importante ressaltar que Marcelo Melo chega ao topo ainda na Era Bryan. Desde 2003 (!), quando chegaram ao topo pela primeira vez, Bob e Mike tiveram pouquíssimos adversários à altura. Além disso, os gêmeos americanos lideram o ranking juntos e de forma ininterrupta desde fevereiro de 2013. Tirá-los de lá sempre exigiu campanhas excelentes e muita consistência.

Coisas que eu acho que acho:

– Será que agora, com o irmão e pupilo ocupando o posto de número 1 do mundo, Daniel Melo terá o reconhecimento que merece dentro de seu país?

– Antes que a gente se empolgue demais e comece a ressaltar um suposto momento fantástico do tênis brasileiro, é bom lembrar que também nesta sexta-feira Feijão e Rogerinho se enfrentavam em uma quadra secundária em um torneio Challenger em Santiago. Então é bom não confundir momento fantástico “para” o tênis brasileiro com momento fantástico “do” tênis brasileiro. E esse Feijão x Rogerinho, aliás, deixou muito a desejar tecnicamente.

– O título deste post foi ideia de Daniel Bortoletto, editor do diário Lance! e autor do blog Saque, o melhor espaço sobre vôlei deste país.

Um dia mais que especial ! Sem palavras!! #somostodosgirafa #marcelomelo

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A separação de Soares, o “não” de Marcelo e o convite de Jamie
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Alexandre Cossenza

A notícia chegou via Aliny Calejon. Bruno Soares não jogará com Alexander Peya em 2016. Depois de uma temporada com resultados aquém do esperado, o mineiro decidiu mudar. Avisou o parceiro que queria algo diferente em 2016 e foi em busca de um novo companheiro (foto acima por Getty Images).

Primeiro, entrou em contato com o conterrâneo Marcelo Melo – bastante consciente da possibilidade de ouvir um “não” de alguém que venceu um Grand Slam ao lado de Ivan Dodig em 2015. Mesmo com as Olimpíadas por perto, é difícil mexer no time que vem dando certo.

Sabe aquele roteiro de filme adolescente americano em que o garotão convida a menina para o baile e, no mesmo dia, é convidado por uma gata diferente? Pois é.
No mesmo dia em que fez a proposta para Marcelo, Bruno recebeu de Jamie Murray, vice-campeão de Wimbledon e do US Open em 2015, um convite para formar uma parceria em 2016.

Bruno disse a Jamie que ainda esperava uma resposta do atual número 3 do mundo. Jamie topou aguardar alguns dias. Marcelo, então, disse não, e Bruno fechou o time com o irmão de Andy Murray. Os dois começam a jogar juntos já em janeiro do ano que vem.

Ouça abaixo a explicação de Bruno Soares.


Coisas que eu acho que acho:

– Primeiro, tiremos do caminho a questão de sempre. Toda vez que escrevo sobre um dos dois, alguém pergunta por que Bruno e Marcelo não jogam mais juntos. Os mineiros fizeram duas temporadas inteiras juntos até Bruno quis tentar algo diferente. A mudança, como o tempo continua provando, foi boa para ambos. E não atrapalhou em nada os resultados na Copa Davis nem em Londres 2012. Não deve ser diferente nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

– Não conversei com Marcelo, mas deve ter sido uma decisão difícil de tomar – especialmente com Ivan Dodig em um momento difícil, vivendo o dilema de querer recuperar seu ranking de simples e conciliar isso com uma temporada vencedora nas duplas. Não é fácil montar um calendário assim. De todo modo, é perfeitamente compreensível – como disse Bruno – que o atual duplista #3 do mundo queira continuar com seu atual parceiro.