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João Menezes: do dinheiro escondido na Nigéria ao ouro no Pan, o sucesso na volta para casa

Alexandre Cossenza

04/10/2019 04h00

Menos de um ano e meio atrás, o mineiro João Menezes era o número 500 do ranking da ATP após deixar a academia ADK, em Itajaí (SC), e mudar-se para a 4Slam Tennis Academy, em Barcelona. Foi de lá, baseado na Espanha, que o jovem de Uberaba partiu para uma série de três torneios em Abuja, na Nigéria, que marcaram o início de uma ascensão impressionante e cravaram na memória uma história curiosa sobre como sair com dinheiro do país africano.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Menezes teve uma crise depressiva, deixou a Espanha e retornou para Santa Catarina. A volta ao Brasil, contudo, não foi um passo para trás. Novamente sob a orientação do experiente técnico Patricio Arnold, o mineiro seguiu evoluindo. Hoje, é o número 207 do mundo, 2 do Brasil e campeão pan-americano, o que praticamente lhe garante uma vaga nos Jogos Olímpicos Tóquio 2020 (Menezes precisa estar no top 300 para garantir seu lugar na delegação olímpica brasileira).

Conversamos na última quinta-feira, durante o Challenger de Campinas (onde estou a convite do Instituto Sports), e Menezes mostrou maturidade muito além de seus 22 anos. Falou sobre os motivos da ida para a Espanha e, mais tarde, do retorno. Contou o que aprendeu lá e cá e foi enfático ao apontar que não é necessário estar fora do Brasil para melhorar como tenista. Relatou sua experiências recentes no Pan e na Copa Davis, falou de dinheiro e patrocínio e terminou lembrando – e sorrindo – de como foi sair da Nigéria com US$ 9 mil no bolso. A íntegra do papo segue abaixo. Role a página e conheça melhor um dos tenistas mais promissores do país.

Primeiro, eu queria contar a sua história desde a ida para a Espanha. O que te levou a sair de Itajaí (SC) e ir para lá? O que você estava buscando?

Na verdade, eu não estava buscando nada! A gente estava jogando três torneios em Portugal. Fomos sem treinador. Eu, o Rafa Matos, o [Marcelo] Zormann e o Dudu Ribeiro. Eu estava voltando de muitas lesões em sequência, tinha operado o joelho três vezes, tinha tido hérnia de disco e não conseguia ter uma sequência de jogos. Eu jogava no máximo seis meses e machucava sério. Nessa gira, eu queimei. Perdi três primeiras rodadas. Um jogo eu poderia ter perdido. Dois foram, assim, que eu considerava na minha cabeça que não poderia ter perdido. Estava jogando mal pelo fato de estar ser ritmo. Aí eu liguei e falei "Pai, não quero mais jogar. Tô voltando pra casa." Voltei, fui a Itajaí, comuniquei o Patricio [Arnold, seu treinador na época e, novamente, hoje], falei "Tô parando de jogar, pra mim deu, cansei." Muito frustrado. Voltei pra casa e meu pai, sem eu saber, fez todo o processo para eu ir para a Espanha. Não para ficar lá, mas para passar uma semana de experiência…

Quando foi isso?

Em 2017 [Menezes estava fora do top 500 na época]. Ele fez todo esse processo em segredo, comprou passagem pra mim e pra ele, reservou uma semana de treinamento na academia e foi tentando me convencer. Chegou no ponto que ele falou "Nunca te pedi nada na vida. Vamos eu eu você, uma semana. A gente vai lá. Se você treinar um, dois dias e não gostar, a gente tira uma semana de férias, volta pra casa e tá tudo certo." Falei "Tá bom, vamo." Fui, treinei a semana inteira e decidi ficar.

Por quê?

Porque eu vi que… eu treinei com o Rublev [Andrey, tenista russo, atual número 35 do mundo com 21 anos] todos os dias. Na época, ele estava 110-115 [no ranking]. E no final da semana, nós jogamos e ele me ganhou tipo assim: 7/6, 4/6 e 12/10. Tie-breakão. Meu pai, do lado de fora, ficou meio assim… Os treinadores da academia ficaram meio assim… "Pô, esse moleque pode jogar! Não é bobo." E aí eu decidi ficar.

Era que academia?

A do Galo Blanco e do Fernando Vicente [Blanco e Vicente, ex-tenistas espanhóis, foram #40 e #29 do mundo, respectivamente. Hoje, administram a 4Slam].

Uma coisa que eu ouvi do Felipe Meligeni e do Orlando Luz… Eles me disseram que uma das grandes diferenças de estar na Espanha não é tanto o método de treino, mas ter parceiros de alto nível para bater bola sempre. Para você, foi assim também?

Assim… Com certeza, os parceiros de treino que eu tinha lá eram muito bons. Na época, tinha o Khachanov, o Rublev e mais dois top 100 na academia. Isso conta, sim, mas eu não acho que seja a principal diferença ou qualidade. O que eu acho que aprendi mais e que eu levo, assim, para a minha vida de hoje é que mesmo que você esteja treinando com alguém que seja mais fraco – porque, por exemplo, hoje, eu, no meu centro de treinamento em Itajaí…

É o mais forte.

Não tem quem me puxar, mas eu tenho que colocar o ritmo. Eu tenho que falar "Peraí, a bola do cara não tá me incomodando, não tá me fazendo tanto dano, mas peraí, eu vou apertar ele." E essa mentalidade é muito importante porque às vezes o que acontece? Você vai treinar com um cara inferior, a sua bola já é superior à dele, e você se acomoda. É aí que você não vai pra frente. Foi isso que eu levei pra minha vida. Porque se você for pensar… Nadal treina com quem? O cara, treinando, é monstruoso. E ele treina com quem? Ele bota dois caras do outro lado da quadra lá, ficam os dois parados, e ele senta a mão. Por quê? Porque o ritmo é ele que impõe, ele impõe a velocidade dele. Eu acho que isso foi meu maior ensinamento lá.

E a volta? O que eu li, na época, era que você estava se sentindo sozinho lá. Foi isso?

Foi, foi. Eu passei por uma pequena crise depressiva porque… O que acontece? A mentalidade do europeu é mito diferente da mentalidade do sul-americano. Eles não se juntam muito, sabe? Treinou, tudo certo ali, jogou, tudo certo, acabou o treino e vai todo mundo pra sua casa. E tipo… Você mora num país sozinho, você não tem casa sua, não tem carro…

Não tem como fazer essa viagem de ida e volta…

É clube, clube-casa, treina, joga, aeroporto, torneio, clube, clube-hotel e… O que acontece? Chegou num ponto que eu estava dependendo muito do resultado pra ser feliz. Eu tive uma excelente participação em Futures na Nigéria e depois comecei a jogar só Challenger. Se não me engano, joguei 11 ou 12 Challengers no restante do ano. Ganhei três jogos!

Isso foi no ano passado?

Em 2018, ano passado. Aí eu fui muito bem na Nigéria e depois dali, ganhei três jogos em chave principal. E não passei nenhum quali. Então o que aconteceu? Isso me frustrava muito. Não tinha apoio de amigo, não tinha apoio de família, ficava pior ainda, mais pra baixo. Comecei a me desentender com meu treinador e daí falei "Pra mim, aqui, deu. Basta."

Foi uma conclusão sua ou tinha psicólogo na academia, houve um acompanhamento de alguém?

Minha. Foi uma discussão que eu tive com um treinador meu num torneio. Eu joguei a final do quali e perdi um jogo duríssimo por 6/3 ou 6/4 no terceiro, três horas, no saibro, e acabei entrando de lucky loser. Falei pra ele assim: "Pô, preciso repensar um pouco o meu jogo porque não é possível, tem alguma coisa errada, preciso de ajuda." Ele falou "Não é isso, não. É porque você não quer realmente jogar tênis." Eu falei "O quê? Não quero? Tô a 10.000 quilômetros de distância da minha casa, longe dos meus pais, minha irmã, minha família, e você está falando que eu não quero?" Ele falou "É." Eu: "Então vamos fazer o seguinte: eu tenho jogo amanhã, você quer assistir o jogo? Porque por mim eu te mando pra Barcelona agora. Eu jogo sozinho. Pra mim, é melhor." Ele falou "Não, não, vou ficar aqui contigo." Ele ficou do lado de fora da quadra e durante o jogo… Tipo, eu peguei o melhor jogo da chave e perdi 7/6, jogando muito mal, e no segundo entreguei, 6/1. Saí da quadra, comprei passagem pro dia seguinte. "Vou pro Brasil." Não falei mais uma palavra com ele. Eu estava na Itália, ia pra Barcelona de manhã e tinha o voo pro Brasil à noite. Eu fui, arrumei minhas coisas e fui embora. Ele perguntou: "Você quer treinar amanhã?" Falei "Não, estou indo pro Brasil." "Sério?" Falei "Sério. Pra mim, deu daqui. Só vou me despedir do pessoal lá na academia, estou indo arrumar minhas coisas." E foi isso.

Uma das coisas que eu ouvi – e não sei se chega a ser um preconceito – mas é aquele comentário do tipo "ah, o cara está na Espanha, se vai voltar é porque não quer o bastante." Tem um pouco desse mito sobre o brasileiro que está fora e volta para o país. Você chegou a ouvir algo assim?

Não. E discordo totalmente.

Era aí que eu queria chegar.

Este foi o meu melhor ano e cheguei a top 200 aqui no Brasil! Então você vê que não é questão de o cara estar treinando lá ou treinando aqui que vai diferenciar. Por que que tem um monte de argentino treinando na Argentina que joga e… Por exemplo: o [Carlos] Berlocq agora foi morar em Barcelona. Pergunta pra ele como é que ele tá [ex-top 40, Berlocq é atualmente o número 266 do mundo]. E aí? Não é porque o cara foi pra lá que lá é melhor, que lá os caras são espanhóis e não sei o quê. Discordo totalmente. Passei por isso por experiência própria.

Era nesse ponto que eu queria chegar e foi uma das coisas que conversei com o Patricio ontem: esse mito. Até porque você evoluiu quando saiu do país, o mesmo aconteceu com o Felipe Meligeni e o Orlandinho, então passa essa impressão de que, "pô, será que precisa sair do país?" Mas agora está aí você de volta, subindo e continuando a evoluir.

Eu acho que depende de cada um, né? Não é só… É muito particular. Tem gente que sai e às vezes se dá bem. Um cara que é mais, sei lá… Eu tive uma puta experiência lá, me ajudou muito na carreira, muito mesmo, achei totalmente válido, mas chegou um momento que eu falei "Preciso voltar. Não dou conta mais de ficar aqui. Se ficar aqui, vou pirar!" E voltei e vi que ajustando coisas extraquadra, jogar bem e jogar melhor fica muito mais fácil.

O que você acha que evoluiu no seu tênis nessa volta ao Brasil?

Ah, muita coisa. Primeiro, eu acho que fisicamente eu melhorei muito. Eu te confesso que agora no fim do ano, principalmente depois da Copa Davis, começou a bater um cansaço, sabe, de todo o decorrer dos jogos durante o ano. Mas eu consegui aguentar muito bem jogos duros, lesão zero, e aguentando jogos longos, conseguindo virar bastante jogo, e estando mais rápido também. Isso, pra mim, é o ponto principal. O segundo ponto: ajustes técnicos específicos. Hoje, eu acho que estou chegando na rede bem melhor do que antes, o saque é um dos principais objetivos a melhorar, mas acredito que já melhorei um pouco, e, principalmente, algumas bolas específicas. A direita, embora eu tenha jogado aqui e não meti uma bola de direita, mas acontece, são jogos atípicos. Também tive outros problemas [Menezes treinou pouco em Campinas porque precisou deixar a cidade por conta da morte de seu avô no fim de semana anterior ao torneio], mas acredito que melhorei bastante a direita e também estou conseguindo, no backhand, jogar com mais top spin, mais efeito e mais segurança. Antes, era muito reto. Dependia de estar sempre dentro da quadra para ser reto. Agora eu consigo girar um pouco mais a bola.

Uma coisa que o Patricio contou é que quando você voltou, você queria algo específico para você. Um preparador para você, um técnico que, quando viajasse, estivesse só com você. O quanto isso faz diferença também?

Eu acho que, pelo tempo que vivi ali em Barcelona, eu vi que, principalmente comigo, as coisas que são em conjunto não dão muito certo. Vou te explicar por quê. Lá, eu estava num baita esquema, numa baita academia, só que o que acontece? A preparação física não era personalizada, era com vários meninos. Embora tivesse um treinador sempre comigo, às vezes nos treinos eles iam alternando. Não é uma coisa que você fala que o cara está ali o tempo inteiro contigo. Eu tenho uma confiança muito grande no Patricio, a gente se entende muito bem, então às vezes uma coisa que ele me fala, eu já pego mais rápido e consigo… aplicar em quadra é mais fácil. Então se você tem um time, uma equipe, um cara em quem você confia bastante, e ele está perto de ti, isso aí, pra mim, ajuda muito. Esse foi um dos motivos que eu saí também de Itajaí (no passado) porque via que tinha muita gente, estava num bolo, e não tinha atenção individualizada que cada um precisava ter. E daí, quando eu conversei com o Patricio, falei "Se for para eu voltar, tem que ser assim, assim e assim." O Patricio, na época, não viajava. Eu falei "Tu vai viajar?" Ele disse "Viajo. A gente começa entre 10 e 15 semanas e vai ajustando." E aí acertamos e começamos de novo.

Imagino que financeiramente tenha sido mais pesado para os seus pais…

Onde?

Nessa volta, precisando de um técnico só pra você, viajando sempre…

Não. Era mais pesado lá na Espanha.

Ah, sim. Eu me expressei mal. Eu quis dizer mais pesado do que se você estivesse treinando em um grupo, dividindo técnico.

Sim, mas em comparação com o que eu estava pagando em euro, é bem mais barato. Saiu mais barato e melhor. Porque é complicado. Você vai jantar lá… Se eu gastava 15-20 euros, são 60-80 reais. Na época. Hoje, o euro está mais caro. Quando eu estou em Itajaí, almoço por R$ 20. Janto por R$ 30. É mais barato. Lá, em gastava, em média, 30 euros por dia. São R$150, então aqui eu gasto R$ 60 e olhe lá. É menos da metade.

Isso em um dia, né? Se multiplicar…

Um dia. O que eu gasto pouco a mais aqui é com passagens. Porque você estava ali, pertinho, gastava 100-200 euros e comprava uma passagem. gasta um pouquinho mais com passagem, mas tirando isso, é mais barato.

E aí veio o Pan… O objetivo era só defender o país quando você decidiu jogar em Lima, né?

Foi meio estranho, né? Porque quando se fala de Pan-Americano para os tenistas, muita gente não quer ir. Porque não tem ponto, não tem dinheiro, e às vezes você pega os jogadores que estão nos ATPs, eles deixam de jogar uma-duas semanas e perdem a premiação dos ATPs, que é relativamente alta, então muita gente não quis ir. Mas cara, eu joguei pelo Brasil três vezes só, que foram os dois Pan-Americanos e a Copa Davis agora. Como juvenil, nunca joguei. E não sei, mas tenho uma coisa que o Patricio compartilha a opinião, que é quando te chamam para jogar, você não vai representar seu país? Óbvio que eu vou. E você vê que eu estava jogando em quadra rápida, fui jogar no saibro… Coisa nada a ver. Falei "Vou porque tem que ir", de boa e tal, e foi sensacional.

Qual foi o momento em que você sentiu "opa, acho que dá"? Depois do Jarry?

Não. Antes. Contra o Cerúndolo [Menezes superou o argentino Francisco Cerúndolo nas oitavas de final]. Eu joguei a final do Challenger nos Estados Unidos e perdi. A quadra estava rápida, bem rápida. Eu peguei um voo à noite, cheguei 1h da tarde no clube. Fui direto pro clube. Dormi a noite inteira no avião. Comecei a treinar lá, a quadra estava super lenta, super diferente, falei "Putz, vou passar aperto aqui." (risos) Comecei a correr e tal. Na terça, perguntaram "Você quer descansar?" Falei "Não, cara, eu quero treinar. Quero treinar porque se eu não treinar aqui, vai dar ruim." Treinei mais, jogamos a dupla terça de noite, ganhamos a primeira rodada. Quarta eu joguei a primeira simples. Peguei um uruguaio, o cara era mais fraco. Fiz 3/0 e saque, o jogo ficou 3/3, 4/3, 4/4, 6/4 e 6/0, mas jogando mal. Depois disso, saí jogando contra o Cerúndolo. Saí 6/2 abaixo, mal e…

E ele é um cara bem chato, que não dá nada de graça. Virar um jogo contra ele não é fácil.

Não! Ele é bem sólido e tal. Eu tive que evoluir e evoluí, subi no jogo, melhorei o nível e ganhei, 6/4 no terceiro. Quando eu saí desse jogo, eu falei "Agora… Posso perder, posso ganhar, mas estou preparado. Me sinto adaptado pra jogar, me sinto pronto." Eu ia jogar com o Jarry [Nicolas Jarry, cabeça de chave 1 do Pan], falei "Posso jogar." E a partir dali me senti confiante que podia fazer um bom resultado. Quando eu ganhei do Jarry… Aí a moral vai lá em cima.

Hoje, passou mais ou menos um mês, você consegue descrever a sensação de estar no pódio, com a medalha, ouvindo o hino?

É bem… Foi bem legal, né?

"Bem legal" é uma análise bem modesta da coisa, né? (risos)

É que na verdade eu não estava esperando, né? Mas eu estava com a minha família toda lá, foi uma sensação… Incrível. Acho que foi a semana mais incrível da minha vida até hoje, sem dúvidas.

E isso já trouxe patrocínios pra você, né?

Sim.

Quem passou a te patrocinar depois do Pan?

Eu já tenho dois patrocinadores certos. Um é a Taroii, que é a roupa que estou utilizando. É uma marca ali de Itajaí mesmo. A outra é uma empresa chamada Porto Real, de Uberaba, que fabrica água e laticínios. Leite, iogurte, isso aí. Então já tenho esses dois patrocinadores na conta.

E imagino que isso ajude bastante porque tanto na Europa quanto quando voltou, você estava só com a ajuda dos pais, né?

Sim.

E a Copa Davis, como é que foi?

Foi uma sensação muito diferente, é totalmente diferente. As pessoas falam "Ah, mas você jogou o Pan." Não tem nada a ver. É outra coisa, outra atmosfera, mas cara… Juro por deus, foi muito legal, muito legal mesmo, embora quando eu joguei estava muito nervoso, muito nervoso mesmo [Menezes perdeu sua única partida para Darian King, de Barbados]. Enfim, espero poder estar de novo na equipe ano que vem. Vou trabalhar pra isso.

Eu lembro de uma entrevista que fiz com o Thiago Alves, quando ele estreou na Davis… Ele falou depois "Cara, a raquete pesava uma tonelada."

Sim.

Pesa isso mesmo? (risos)

Pra mim, pesava mais as pernas. Tipo… A raquete pesa também, mas o braço fica duro. A diferença que eu sinto mais é que as pernas ficam pesadas. Pra correr, você fica pesado, você não sai na bola direito, sabe? É diferente.

Queria que você falasse um pouquinho também sobre esse primeiro salto no ranking que você deu o ano passado, nas três semanas na Nigéria. Você foi campeão em dois torneios e vice em outro (todos com premiação de US$ 25 mil). Como é que foram esses torneios? E queria que você contasse também a situação do dinheiro, que tem uma peculiaridade lá…

Sim (risos).

… que pra sair da Nigéria com dinheiro, não é simples.

Sim (risos). Foi assim: primeiro que lá, eu fui porque meu treinador era africano, de Togo. E Togo é do lado da Nigéria, ele jogou lá e conhecia. Ele armou o calendário e falou "Eu conheço lá, já fui, lá são condições extremas e você é forte de cabeça. Se você for forte de cabeça lá, você vai se sair bem." Porque é muito quente. Fazia 35-36 graus todo dia, muito úmido, e a quadra era rápida, mas as bolinhas eram mais duras, então a bola picava muito. Sacava kick lá e ajudava muito. E aí o que aconteceu? Eu fui e era muito quente mesmo, mesmo, mesmo! Aí eu ganhei o primeiro jogo, na segunda rodada safei perdendo o primeiro e me senti confiante e fui. Como a bola estava voando muito lá, a galera tinha muita dificuldade de botar a bola na quadra, e eu me adaptei mais rápido. Consegui jogar legal. E lá tinha uma particularidade que eram os três torneios no mesmo lugar. Não é que nem aqui que a gente joga em Campinas, semana que vem estamos em Santo Domingo, depois vamos pra Lima, que as condições são um pouquinho diferentes. Imagina você jogar com as mesmas pessoas, três torneios, no mesmo lugar.

E estando mais adaptado, jogando bem…

E aí eu falei: "Tenho que bancar fisicamente e de cabeça." Aconteceu isso, eu fui muito bem mesmo, e quando eu vi que eram as mesmas pessoas, falei "Tô confiante, estou num território que estou dominando mais que eles." E foi isso.

Como é Abuja? Deu pra conhecer a cidade?

Não. Nem me arrisquei muito. é muito ruim, perigoso. Perigoso mesmo de sair na rua! A gente tinha escolta do exército pra ir pro clube. E a particularidade do dinheiro que você tinha perguntado e eu esqueci: eu saí de lá com US$ 9 mil em dinheiro. E aí dei pro meu treinador e falei "Se vira aí, cara! Tu é africano, conhece os caras aqui, te vira aí, meu! Eu não vou passar com esse dinheiro nem a pau!"

A polícia lá pede dinheiro, é isso?

Eles perguntam "Você tem dinheiro aí?" Eu falei "Não, não tenho." Dei o dinheiro pra ele [o técnico].

E se você falar que tem?

Aí eles iam falar "Quanto?" Tipo, se for 50 dólares, 100 dólares, não, mas se tem mil dólares, os caras falam "Não, você não sai daqui." E perguntaram pra ele: "Você tem dinheiro?" "Não tenho." Olharam pro cara… O cara de chinelo Havaianas, não sei o quê, tipo nativo, os caras "ah, vai embora." (risos).

E esses torneios foram algo que te deu confiança pra sair dali acreditando que podia fazer mais?

Não, porque se você olhar depois o meu ano, eu te falei que tive 11 ou 12 Challengers e ganhei três jogos! Então foi uma situação muito boa, que me possibilitou jogar torneios de médio porte, e aí, depois, o que que eu acho? Mesmo que eu tinha ganhado ali, ainda tinha uma diferença de nível, sabe? Daí eu comecei a jogar, jogar, jogar… Levar pau, levar pau, levar pau, até que este ano fiz algumas mudanças e comecei a me encontrar melhor nesse nível de torneio. E aí foi isso.

Valeu a pena mais pelo ranking porque você chegou lá como 500 do mundo e saiu como 320…

Sim. E de ter a possibilidade de jogar torneio maior…

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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