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ATP finalmente suspende Kyrgios, mas o que isso significa?
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Alexandre Cossenza

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A notícia parece boa para o tênis. A ATP anunciou nesta segunda-feira que suspendeu Nick Kyrgios após o episódio de Xangai. No Masters 1.000 chinês, o australiano jogou desinteressado, perdeu pontos de propósito, discutiu com um torcedor e ainda foi mal educado na coletiva pós-derrota para Mischa Zverev.

Ainda em Xangai, Kyrgios foi multado em US$ 16.500. Um valor risível para quem vinha de um título no ATP 500 de Tóquio e já embolsou US$ 1.757.289 na temporada. O australiano, vale lembrar, é mais do que reincidente. Ano passado, foi colocado em uma espécie de liberdade condicional após falar mais do que devia durante uma partida – lembram de Wawrinka-Kokkinakis-Vekic?

Não dava mais para deixar passar. Agora, Kyrgios foi multado em mais US$ 25 mil e está suspenso por oito semanas de torneio e pode voltar a competir apenas a partir de 15 de janeiro de 2017. A punição ainda estipula que a suspensão cairá para apenas três semanas de o atleta passar por um plano sob direção de um psicólogo esportivo ou um plano equivalente aprovado pela ATP.

O que significa?

A princípio, significa que o circuito está perdendo a paciência com Kyrgios. Não importa o quão talentoso e espontâneo seja o jovem de 21 anos, atual #14 do mundo, fica claro que a “condicional” de 2015 ficou no passado e que a ATP finalmente sentiu a necessidade de estabelecer um limite.

Ao mesmo tempo, mostra que a ATP continua leve nas sanções. Logo, o tal limite já parece um tanto flexível. Primeiro porque uma suspensão de “oito semanas de torneios” aplicada no meio de outubro significa, na prática, que Kyrgios não poderá jogar em quatro delas (seriam cinco se ele se classificasse para o ATP Finals). Além disso, a punição de oito semanas acabaria, coincidentemente, na véspera do Australian Open. Ou seja, a ATP puniu, sim, mas sem tirar Kyrgios do seu Slam local. Aí, sim, seria uma sanção severa.

E também há a questão do psicólogo, que supostamente terá a tarefa de fazer o tenista aprender a respeitar fãs, torneios, adversários e jornalistas. Coisas que uma família ensina, não um profissional contratado.

Para começar, Kyrgios deu uma declaração pedindo desculpas e dizendo basicamente o contrário do que declarou na coletiva desastrosa de Xangai. Até pelas cenas registradas na China, o texto não pareceu sincero. Posso estar sendo injusto. Quero estar sendo injusto. Seria bacana mesmo se Kyrgios passasse por essa suspensão com olhos e ouvidos abertos. Mas será que adianta?


Muguruza, uma campeã mais Serena do que a própria Serena
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Alexandre Cossenza

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Posição firme na linha de base, empurrando consistentemente a adversária para trás. Saques precisos em break points. Coragem para agredir e arriscar em momentos delicados. Precisão, potência e profundidade. Três linhas que costumam definir Serena Williams, mas que hoje servem para descrever Garbiñe Muguruza, nova campeã de Roland Garros.

A espanhola de 22 anos fez uma final espetacular, sufocando e encurralando a número 1 do mundo justamente no estilo de jogo que a americana prefere. Neste sábado, Garbiñe Muguruza foi mais Serena Williams do que a própria Serena Williams. Confirmou o que todos viram ao longo de duas semanas. Foi ela que mostrou o melhor nível de tênis desde os primeiros dias deste Roland Garros.

A final

A número 1, que entrou em quadra com uma lesão no adutor (e jamais culpou a lesão pela derrota), até teve suas chances no set inicial. Muguruza quase sempre encontrou respostas. Tanto no quarto game, quando salvou dois break points, quanto no sexto, saindo de um 0/30. Por fim, no 12º, saiu de 15/40 para confirmar o saque e fechar a parcial.

Tudo ficou ainda mais claro quando Muguruza abriu a segunda parcial quebrando o serviço de Serena. A escalada seria dura para a americana, que até devolveu a quebra em seguida, mas perdeu o saque outra vez no terceiro game. Tanto quanto no mérito técnico, a espanhola foi louvável ao manter seu plano de jogo e não aliviar em momento algum. Não teve medo, não tirou o braço, não esperou erros da oponente. Manteve a pressão, impedindo que a americana estabelecesse uma posição mais perto da linha de base.

Muguruza tampouco titubeou quando teve o saque para fechar o jogo. Nem depois de perder quatro match points no saque de Serena. Ganhou quatro pontos seguidos, inclusive com um golpe de vista lamentável de Serena, que tinha a corda no pescoço. Jeu, set et match, Muguruza: 7/5, 6/4.

Uma marca inédita para Serena

Pela primeira vez na carreira, Serena Williams perdeu duas finais de Slam consecutivas, já que vinha de derrota também no Australian Open. Atual campeã de Wimbledon e líder folgada do ranking, a americana pode obter o raro feito de ocupar o topo do ranking sem ter um título de Slam na sua somatória caso não repita a conquista em Londres.

Serena agora soma vices em todos os quatro Slams. Além dos dois reveses deste ano, a americana perdeu finais no US Open em 2001 e 2011 e em Wimbledon nos anos de 2004 e 2008.

Os recordes que não vieram

Fosse campeã, Serena igualaria a marca de Steffi Graf, recordista de títulos em torneios do Grand Slam na Era Aberta (a partir de 1968) do tênis, com 22. O recorde geral é da australiana Margaret Court, que levantou 24 troféus. Serena também se tornaria a mais velha campeã da história de Roland Garros. A honra é da húngara Zsuzsi Kormoczy, campeã com 33 anos e 279 dias em 1958.

O ranking

Após a final deste domingo, o top 10 feminino ficou assim:

1. Serena Williams
2. Garbiñe Muguruza
3. Agnieszka Radwanska
4. Angelique Kerber
5. Simona Halep
6. Victoria Azarenka
7. Roberta Vinci
8. Belinda Bencic
9. Venus Williams
10. Timea Bacsinszky

A homenagem

Amélie Mauresmo foi homenageada pouco antes da partida. A cerimônia foi para lembrar sua entrada no Hall da Fama Internacional do Tênis e contou com vários nomes gigantes do tênis. Estavam na Chatrier Rod Laver, Billie Jean King, Yannick Noah, Guillermo Vilas e Guga, entre outros.

O bolão impromptu do dia

A pergunta era: quem será a campeã e quantos games terá a final?

Os campeões de duplas

Pelo segundo ano seguido, Bob e Mike Bryan foram vice-campeões de Roland Garros. O título, desta vez, ficou com os espanhóis Feliciano e Marc López, que venceram a final deste sábado por 6/4, 6/7(6) e 6/3.

O resultado impediu que Bob Bryan voltasse à liderança do ranking e colocou o francês Nicolas Mahut no topo da lista. Marcelo Melo, que perde a liderança, cai para o oitavo posto, logo à frente de Bruno Soares, que é o nono.

Melhores lances

Não foi exatamente um lance espetacular, mas reflete o que aconteceu em boa parte do jogo. Garbiñe Muguruza mais perto da linha de base, empurrando Serena Williams para trás e ditando o ponto. Neste caso específico, a espanhola abriu a quadra, se aproveitando da movimentação não tão boa da número 1 do mundo, e matou o ponto com a quadra aberta.


RG, dia 13: Muguruza, Serena, Djokovic e Murray. Quem está surpreso?
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Alexandre Cossenza

Choveu muito, houve zebras e partidas divertidas, mas treze dias de jogos depois, Roland Garros definiu seus finalistas no óbvio. Serena Williams e Garbiñe Muguruza na decisão feminina, Novak Djokovic e Andy Murray brigando pelo título no domingo. O resumo do dia analisa as quatro semifinais e o que esperar nos próximos dois dias de torneio. O texto também atualiza o cenário na briga pelo número 1 das duplas e traz vídeos de pontos interessantes, que ilustram os porquês de alguns dos resultados do torneio francês.

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Muguruza voando x Serena em modo avião

Por caminhos estranhos e menos espinhosos do que o previsto, deu o óbvio. Serena Williams (#1) e Garbiñe Muguruza (#4) farão a final de Roland Garros. O curioso mesmo é que algumas casas de apostas colocam a espanhola como favorita para derrubar a americana (outra vez) em Paris.

É curioso, mas compreensível. Muguruza foi a tenista que melhor jogou durante as duas semanas. Fora a primeira rodada descalibrada e que por pouco não se terminou numa grande zebra, a espanhola foi firme e passou por cima de toda chave, sem perder sets. Nem depois do susto de ser quebrada sacando para a final. A vitória sobre Sam Stosur, nesta sexta, foi relativamente tranquila, sem que a australiana liderasse em momento algum. No fim, o placar de 6/2 e 6/4 foi um bom reflexo do que aconteceu em quadra.

Serena, por sua vez, não anda bem das pernas – literalmente. Segundo Marion Bartoli, a americana vem lidando com uma lesão no adutor. Isso explica a movimentação limitada e a tentativa de limitar trocas longas. Na semifinal contra Kiki Bertens (#58), foi como se Serena estivesse jogando em modo avião – aquilo que a gente faz pra poupar bateria quando não encontra um carregador por perto para manter o celular ligado.

Foi um jogo interessante, mas só porque Bertens saiu na frente e sacou para fechar o primeiro set. O nível técnico ficou bastante aquém do esperado para uma semi de Slam – e até mesmo para qualquer partida envolvendo Serena Williams. Nem a holandesa fez uma partida excepcional enquanto liderou. O placar final, 7/6(7) e 6/4 refletiu um equilíbrio que só existiu porque a #1 esteve abaixo de seu normal.

A lógica é apostar no velho “se Serena jogar assim, não ganha”, mas é uma condicional bastante grande para uma final, até porque Serena confirmou a lesão sem dizer o quão séria ela é e também porque, como todo mundo sabe, a número 1 tem muito mais tênis do que mostrou na final. Ainda assim, não são nada ruins as chances de Muguruza. E não custa lembrar que sua única vitória sobre Serena aconteceu justamente em Paris.

Djokovic e Murray se encontram outra vez

Entre os homens, chegaram lá também os dois mais cotados desde o princípio para estarem na final. Djokovic mostrou que aproveitou bem a chave acessível para chegar em forma na decisão. Nesta sexta, diante de Dominic Thiem (#15), também deixou claro ainda estar pelo menos um nível acima do jovem e talentoso austríaco. Fez 6/2, 6/1 e 6/4 em um jogo que foi mais divertido do que equilibrado.

Thiem fez o possível, batendo forte na bola e tentando empurrar Djokovic para trás, mas ainda não possui a consistência para esse tipo de situação (melhor de cinco + semifinal de Slam + número 1 do mundo). Ainda conseguiu abrir 3/0 no terceiro set, dando um pouco de emoção ao duelo, mas o sérvio abafou a reação vencendo cinco games seguidos e deixando claro quem é quem.

O adversário será Andy Murray, décimo tenista da Era Aberta (desde 1968) a estar nas finais de todos os torneios do Grand Slam. A vaga foi conquistada com mais um plano de jogo inteligente e bem executado. Em quatro sets, encerrou a série de três derrotas para Stan Wawrinka: 6/4, 6/2, 4/6 e 6/2.

Não foi uma partida tão parelha quanto muitos esperavam, ainda que Wawrinka não tenha feito uma apresentação especialmente ruim. O suíço ficou naquilo que fez durante todo o torneio, e isso talvez diga muito sobre a chave fraquíssima que ele encontrou para alcançar a semi. Murray, em melhor forma e mais exigido quando jogou mal, chega à decisão bem forte.

O favorito para final é Djokovic, que joga por um punhado de feitos espetaculares. O Djokoslam (ganhar os 4 seguidos), o Career Slam (os quatro em anos diferentes), a dobradinha AO-RG (que ninguém faz desde 1992) e as chances de completar o Grand Slam de fato (os quatro no mesmo ano) e o Golden Slam (os quatro mais a medalha de ouro olímpica).

Tudo isso, claro, pode pesar contra o sérvio, que vem de uma derrota no saibro para Murray (final do Masters de Roma). Muita coisa, no entanto, pesa a favor. O histórico favorável contra o britânico, o “encaixe” dos estilos de jogo e sua maior consistência. Parece que todos disseram o mesmo no ano passado, antes da decisão contra Wawrinka, mas parece novamente que Novak Djokovic terá a melhor chance da carreira para triunfar em Roland Garros.

O Big Four de volta

Convém lembrar também que a derrota de Wawrinka na semifinal coloca Rafael Nadal de volta no quarto lugar do ranking mundial. Ou seja, o chamado Big Four estará novamente completo no alto da lista da ATP, embora continuem insistindo em dizer que o “Big Four acabou”.

O brasileiro

Marcelo Melo e Ivan Dodig deram adeus ao torneio nesta sexta-feira, derrotados nas semifinais. Os atuais campeões de Roland Garros foram derrotados pelos espanhóis Feliciano e Marc López (que, repito, não são irmãos) em uma partida nervosa que terminou com Dodig errando um voleio e cedendo a quebra decisiva no serviço do mineiro: 6/2, 3/6 e 7/5.

Com o resultado, o ranking de duplas terá um novo número 1. Marcelo Melo deixará o posto, que ficará com Nicolas Mahut ou Bob Bryan. O americano precisa conquistar o título para voltar ao topo. Caso contrário, o francês assumirá a ponta.

Se vira nos 30

Rafael Nadal completou 30 anos nesta sexta-feira em uma das raras oportunidades que teve de festejar seu aniversário junto com toda família em Mallorca. Na maior parte da última década, o espanhol soprou velinhas em Paris, rumo a um de seus nove títulos de Roland Garros.

A Telefónica, um de seus patrocinadores, preparou um vídeo cheio de gente conhecida dando os parabéns ao tenista. Até Casemiro (sim, o brasileiro do real Madrid) e Kaká fazem aparições.

Piada Pós-Paris

Eugenie Bouchard chegou à imigração na Holanda e teve de explicar o motivo de sua visita ao país: “torneio de tênis”. O oficial, então, perguntou à canadense se ela não deveria estar em Paris ainda…

Os melhores lances

Plasticamente, não aconteceu nada de espetacular no ponto abaixo, mas vale ver pelos 30 golpes do rali e pelo fantástico trabalho de construção de ponto que Djokovic fez até colocar Thiem na defensiva. Vale notar também o quanto o austríaco fez de força a mais do que o sérvio para manter-se no ponto. Uma aula.

Outro lance do sérvio. Velocidade, defesa, precisão, contra-ataque, potência. Em 20 segundos, o porquê de Djokovic ser o número 1 do mundo.

Para finalizar, um exemplo do que Murray fez em muitos momentos da partida. Ofereceu o lado direito, desafiando Wawrinka a atacar com a paralela de backhand, e ficou plantado na esquerda, esperando a chance de matar com seu melhor golpe, o backhand. No caso do ponto abaixo, um break point, Stan fugiu do backhand e deixou a quadra escancarada para a passada.


O que significou o espetacular Djokovic x Nadal em Roma?
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Alexandre Cossenza

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Foi a melhor partida da semana e, possivelmente, a melhor de 2016 no saibro. Novak Djokovic, vindo de um título em Madri, contra Rafael Nadal, cada vez mais afiado na temporada europeia de saibro. O resultado final – 7/5 e 7/6(4) para o sérvio – pode ser visto de algumas maneiras. Por um lado, apenas estendeu a série de vitórias do número 1 sobre o espanhol. Agora são sete triunfos consecutivos, com 15 sets vencidos e nenhum perdido. Por outro, mostrou um Nadal mais competitivo – foi o mais duro dos sete jogos – e mais perto de seu melhor nível. Como, então, devemos analisar as consequências do duelo de Roma?

Pelo lado de Djokovic, trata-se de mais uma vitória extremamente relevante no circuito. O sérvio, afinal, tinha muito mais a perder no confronto. Um revés poderia (ou não, claro) abalar sua confiança às vésperas do torneio que é o mais importante de seu calendário. Roland Garros é o grande título que lhe falta, então cada pequeno ingrediente dessa receita que leva forma técnica, preparo físico e força mental, entre outros temperos, torna-se realmente importante.

Mas não é só isso. O número 1 do mundo sai de quadra com uma noção melhor de quem é o Nadal de agora. E, como todo bom gato escaldado, Djokovic também sabe que chegar a Paris com vitórias nos Masters 1.000 não significa tanto assim. Em 2014, por exemplo, bateu Nadal em Roma, mas perdeu a final do Slam do saibro para o espanhol. Todo cuidado é pouco.

Nadal era quem realmente tinha a ganhar com a partida e dá até para dizer que, apesar da derrota, o espanhol sai mais forte de Roma. Primeiro porque apesar do ótimo momento no saibro, que começou em Monte Carlo, ainda lhe faltava o maior dos testes. A partida contra Djokovic aconteceu, e o espanhol saiu da quadra sabendo precisamente onde está no circuito e no que ainda precisa evoluir.

Além do mais, Nadal passou tanto tempo sem jogar nesse nível altíssimo de tênis que a falta de vivência recente nesses momentos lhe custou pontos cruciais – como os cinco set points na segunda parcial. Passar por isso em Roma fez bem. Ele mesmo admitiu isso depois do jogo e comemorou o fato de ter feito uma belíssima partida contra Djokovic sem fazer nada “ultraespetacular” (leia aqui).

O que eu acho disso tudo? Djokovic ainda é o claro favorito para Roland Garros, mas neste momento não consigo imaginar Nadal perdendo de nenhum outro tenista em um duelo melhor de cinco sets (deixo para comentar Murray em outro momento). Mais um encontro em Paris seria fantástico em qualquer que seja a fase – até porque o mais memorável dos jogos entre eles lá aconteceu em uma semifinal.

E as cotações?

Nada mudou. Ou melhor, quase nada. Djokovic continua como favorito, e Nadal segue sendo o segundo mais cotado nas casas de apostas. No dia 21 de abril, publiquei aqui no blog que um título do sérvio pagava 1,66/1 na Bet365. Significa que o apostador recebe US$ 1,66 para cada dólar apostado. Enquanto isso, uma conquista de Nadal pagaria 4/1. Hoje, depois da final de Roma, as cotações na mesma casa são, respectivamente, 1,72/1 e 4/1.

Trocando em miúdos, não houve nenhuma alteração relevante. Talvez haja depois da divulgação da chave de Roland Garros, mas aí é outra história. Não caberia uma comparação 100% justa.

No ranking

O resultado do jogo desta sexta-feira também significa que Nadal não será um dos quatro principais cabeças de chave no Slam do saibro, o que pode ocasionar um novo duelo como Djokovic nas quartas. A não ser, é claro, que Roger Federer não melhore da lesão nas costas e decida não jogar em Paris. Neste caso, Wawrinka subiria para cabeça três e Nadal só enfrentaria o número 1 nas semifinais – na pior das hipóteses. Murray será o número 2 independentemente do resto de sua campanha no torneio italiano.

Bônus track

Desenterrado por Rob Koenig, comentarista do TennisTV, o jogaço entre Rafael Nadal e Guillermo Coria que decidiu o título de Roma em 2005. Serve para muita gente comparar com o tênis atual: 1) a velocidade geral do jogo; 2) a velocidade de Nadal; e 3) o estilo que quase sempre predominou no saibro.

É obrigatório para quem acredita que Nadal só sabia se defender quando venceu Roland Garros pela primeira vez.


Eva Asderaki 100%
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Alexandre Cossenza

A grega Eva Asderaki-Moore tornou-se a primeira mulher a trabalhar como árbitra de cadeira em uma final masculina de US Open. Sua competência é inquestionável há algum tempo no circuito mundial, mas não deixou de ser um feito interessante em uma sociedade em que mulheres ainda precisam provar seus méritos. E teria sido bacana por si só, mas a presença de Eva na partida entre Novak Djokovic e Roger Federer ficou marcada por algo ainda mais impressionante: a juíza acertou TODAS intervenções que fez durante os quatro sets. Nenhum replay flagrou um erro seu. O vídeo abaixo, publicado recentemente, tem, lance a lance, todas as chamadas perfeitas da árbitra grega. Vejam!

Posted by Tennis Library on Monday, September 21, 2015

Aliás, não custa lembrar, o US Open teve mulheres arbitrando as duas finais de simples. A partida entre Flavia Pennetta e Roberta Vinci, que determinou a campeã feminina, teve a croata Marija Cicak na cadeira.


Condicional para Kyrgios
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Alexandre Cossenza

A ATP anunciou nesta segunda-feira o resultado de seu inquérito sobre o comportamento do australiano Nick Kyrgios, que ultrapassou alguns limites na partida contra Stan Wawrinka no Masters de Montreal.

No texto distribuído à imprensa, a entidade declara que Kyrgios estará sob uma espécie de “liberdade condicional” nos próximos seis meses. Caso volte a se comportar mal, pagará uma multa de US$ 25 mil e será suspenso de torneios sancionados pela ATP por um período de 28 dias.

Os critérios para a punição estão bem claros no aviso. Kyrgios não poderá:
– Ser multado por abuso físico ou verbal em um torneio sancionado pela ATP; ou
– Acumular mais de US$ 5 mil em multas por outras infrações cometidas em torneios sancionados pela ATP.

Resumindo: nos próximos seis meses, se Kyrgios se encaixar em um dos itens acima, levará uma suspensão de 28 dias. Caso se comporte bem, a “liberdade condicional” acaba no prazo de seis meses.

Um ponto importante a ressaltar é que a punição da ATP se limita a “torneios sancionados pela ATP”, ou seja, não inclui Grand Slams nem Copa Davis. E isso vale para as duas extremidades do cenário. Caso Kyrgios jogasse e fosse punido nesta semana, em Winston-Salem, poderia disputar normalmente o US Open, que é um evento da ITF, e não da ATP. Do mesmo modo, uma eventual confusão envolvendo o australiano em Nova York não resultaria em violação da condicional. Qualquer problema no US Open será julgado pela ITF e não vale para a ATP.

Já li todo tipo de reação à decisão. Há quem ache uma pena branda, já que não há suspensão nem multa imediata. Há quem considere, por outro lado, uma medida severa. Principalmente pelo item que cita acúmulo de US$ 5 mil dólares em multa. Eu explico: essa quantia vale para todo tipo de violação. Uma punição por “abuso de bola”, por exemplo, significa multa de US$ 350. Quebrar raquete, US$ 500. Falar palavrão (desde que punido pelo árbitro durante o jogo com “obscenidade audível”), US$ 5 mil. Logo, a conta acumulada de tudo isso ao longo de seis meses não pode passar de US$ 5 mil para Kyrgios. O garotão vai precisar mesmo se comportar.

A favor do australiano conta o fato de a condicional durar seis meses, mas a temporada tem só uns quatro meses pela frente. Ou seja, não é tão complicado assim. Além do mais, se ele for punido no Masters de Paris, ficará suspenso por 28 dias justamente no período de férias. É uma brecha perigosa que a ATP deixa.

Coisas que eu acho que acho:

– A condicional sempre me pareceu o cenário mais provável (inclusive escrevi isso no post da confusão, linkado no primeiro parágrafo deste texto). A ATP tenta mostrar firmeza ao mesmo tempo em que não quer parecer injusta. A impressão que dá é que Kyrgios foi julgado como réu primário, merecendo direito a uma segunda chance para se encaixar na sociedade.

– Ao não punir de forma imediata, a ATP corre o risco de ver Kyrgios reincidir. E se isso acontecer em Paris, como escrevi acima, vai sair barato demais. Transformará em piada uma medida com o objetivo de mostrar firmeza.

Coisas que eu acho que acho sobre outro assunto:

– Outra medida recente da ATP foi avisar aos tenistas que será adotada uma política de TOLERÂNCIA ZERO (escrita em negrito e caixa alta na carta abaixo) com quem não mostrar seu “melhor esforço” em quadra. Ou seja, quem “entregar” pontos/partidas será duramente punido.

– A carta enviada aos jogadores, vide tweet acima, cita expressamente que isso vem acontecendo com mais frequência em eventos de nível Challenger. Ou seja, é bom que todo mundo fique ligado com isso. Especialmente a molecada que acha que pode “entregar” na chave de duplas depois de ser eliminada nas simples.

– São raros os casos assim nos torneios maiores, mas houve um bem recente, em Wimbledon, envolvendo Kyrgios (sempre ele!), que enfrentava Richard Gasquet. O australiano desistiu de jogar alguns pontos – o que ficou bastante óbvio. Felizmente, a postura durou só alguns pontos. Kyrgios “voltou” para o jogo e lutou até o fim (acabou derrotado), escapando da punição e da multa.


A bronca que resolve
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Alexandre Cossenza

Semifinal do Masters 1.000 de Cincinnati, jogo duro entre Novak Djokovic e Alexandr Dolgopolov, e o torcedor chato estava se manifestando em momentos nada adequados – interrompendo os jogadores.

O brasileiro Carlos Bernardes, árbitro de cadeira do jogão, então pegou o microfone e disse, para encerrar de vez o assunto: “Cavalheiro, é a segunda ou terceira vez. Está atrapalhando a partida inteira. As pessoas estão aqui para ver tênis, não para ouvir você. Por favor, veja o tênis.”

A atitude do brasileiro resolveu o problema. Quem também solucionou seu drama foi Novak Djokovic, que perdeu o primeiro set e viu Dolgopolov sacar para o jogo antes de quebrar o serviço do ucraniano e virar um jogo quase perdido. Por 4/6, 7/6(5) e 6/2, o número 1 do mundo se garantiu na final do torneio.

Coisas que eu acho que acho:

– Quem acompanha tênis há mais tempo (uns dez anos pelo menos) deve sentir falta de árbitros de cadeira com mais personalidade (e coragem) dentro de quadra. Bernardes, um dos mais experientes do circuito, é também um dos últimos com esse perfil. A turma mais nova, a “Geração Hawk-Eye”, é bem diferente. Pura questão de opinião/gosto, mas acho que o perfil do brasileiro (e de gente como Cedric Mourier, Pascal Maria e Mohamed Lahyani) faz muito bem ao esporte.


McEnroe, Trump e a idiotice humana
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Alexandre Cossenza

John McEnroe foi um tenista fantástico. Foi número 1 do mundo, ganhou 17 Grand Slams (sete em simples) e venceu jogos memoráveis. O americano, hoje com 56 anos, também é um grande comentarista. Acompanha o circuito, tem uma ótima leitura de jogo e, na maior parte do tempo, mostra ótimo timing em suas análises. Só que nem o mais laureado dos currículos isenta seu dono de falar grandes bobagens. McEnroe é prova disso. O exemplo mais recente veio nesta semana. Em entrevista a Jimmy Kimmel, disse que conseguiria derrotar Serena Williams em uma partida séria. Veja a partir da marca de 2’00” do vídeo.

Difícil entender a motivação de uma pessoa que já realizou tanta coisa para fazer esse tipo de comentário, menosprezando uma das maiores tenistas de todos os tempos e incluindo uma dose considerável de machismo quando Kimmel lhe perguntou por que esse confronto nunca aconteceu.

“Quinze anos atrás, Donald Trump fez uma oferta, que eu achei que não era suficiente. E Serena tem muito a perder se for derrotada por um velho como eu. E eu tenho muito a perder porque se for derrotado por – deus me livre – uma mulher, não vou poder entrar num vestiário masculino pelos próximos 15 anos, possivelmente até o fim da minha vida.”

A parte nada surpreendente da história é o envolvimento de Donald Trump, um bilionário candidato à presidência dos Estados Unidos que tem tanta competência para fazer dinheiro quanto para vomitar um discurso por vezes racista e sempre preconceituoso em relação a imigrantes mexicanos – em nome de uma suposta crítica ao reinado do politicamente correto.

Coisas que eu acho que acho:

– No início do vídeo, McEnroe também diz que as duplas “contam menos” do que as simples porque são uma “versão mais lenta” do tênis em comparação com as simples e porque os duplistas não são tenistas tão bons quanto os simplistas. Existe uma parcela de verdade no que diz o ex-número 1, mas também parece existir uma dose de recalque (a palavra preferida das redes sociais) que nasceu junto com a enorme ascensão de Bob e Mike Bryan como parceria de mais sucesso na história.

– Diminuir o valor das duplas hoje soa como uma tentativa de reduzir os feitos dos gêmeos. O mesmo McEnroe (que tem 78 títulos em duplas) já afirmou, inclusive, que nem reconhece mais o jogo de duplas hoje em dia.


Talento não falta…
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Alexandre Cossenza

O francês Benoit Paire pode não ser o mais consistente ou o mais dedicado dos tenistas, mas é inegável que o atual número 42 do mundo tem talento de sobra com a raquete. Isso ficou um tanto óbvio nesta quarta-feira, quando Paire precisou enfrentar Novak Djokovic no Masters 1.000 de Cincinnati. Vale conferir a sequência do vídeo abaixo!

Vale ressaltar o respeito do francês pelo número 1 do mundo. Depois de bater a bola por baixo das pernas, sorriu e pediu desculpas. Djokovic levou na esportiva. O sérvio, aliás, venceu por 7/5 e 6/2 para avançar às oitavas de final.


Nick Kyrgios e o cubo mágico mental
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Alexandre Cossenza

A definição é do ex-tenista sul-africano Johan Kriek: o cérebro de Nick Kyrgios é como um cubo mágico (ou Cubo de Rubik). Quando uma parte está perfeita, o australiano muda a peça de posição e releva outras três faces em estado de caos. Vamos à polêmica da vez. Vejam o vídeo.

“Kokkinakis comeu sua namorada”

A cena é da partida de ontem à noite contra Stan Wawrinka, válida pelo Masters 1.000 de Montreal. O garotão australiano vai lá e solta que (tradução livre) “Kokkinakis comeu sua namorada.” Como está bem nítido nas imagens, não foi provocação de vestiário nem cochicho para tirar o adversário do sério. Kyrgios falou alto e claro, para o mundo inteiro ouvir (e, óbvio, estamos todos vendo e ouvindo). Não é a primeira (e suspeito que não seja a última) polêmica do australiano de 20 anos. Desta vez, contudo, Kyrgios incluiu na confusão seu compatriota Thanasi Kokkinakis (19 anos, #76 do mundo) e, aparentemente, a namorada do suíço, a croata Donna Vekic – que, por sua vez, esteve envolvida no tumultuado (e público) processo de divórcio de Wawrinka. O vídeo acima foi parar no Twitter enquanto a partida estava em andamento. Não demoraram para surgir tenistas e jornalistas comentando. Magnus Norman, atual técnico de Wawrinka, foi um dos mais enfáticos, dizendo que o gesto de Kyrgios teve nível baixíssimo e esperando que alguém ensine uma coisa ou outra sobre a vida ao australiano.

Wawrinka disse que Kyrgios tentou evitá-lo no vestiário após a partida, mas o suíço tirou satisfação assim mesmo. Sem revelar o conteúdo da conversa, o campeão de Roland Garros foi incisivo ao comentar o comportamento do australiano.

“Não é a primeira vez que ele tem um grande problema em quadra no que diz respeito ao que ele fala ou como se comporta. Espero que a ATP tome medidas contra ele porque é um jovem – mas não tem desculpa. Em toda partida ele tem problemas. Em toda partida ele se comporta muito mal. Além disso, o problema é que ele não se comporta mal apenas em relação a ele mesmo. Ele se comporta mal com as pessoas ao redor: outros jogadores, boleiros, árbitros. Realmente espero que a ATP tome uma grande atitude desta vez” (vídeo e tradução abaixo são da jornalista canadense Stephanie Myles).

Kyrgios, por sua vez, disse que falou aquilo no calor do momento porque a partida estava nervosa e os dois estavam trocando provocações. Wawrinka, no entanto, devia continuar espumando de raiva. O suíço voltou ao Twitter e declarou que não diria aquilo nem a seu pior inimigo. “Não há necessidade para esse tipo de comportamento, dentro ou fora da quadra, e espero que o órgão responsável por esse esporte não ature isso e se levante em nome da integridade deste esporte que trabalhamos tão duro para construir.”

(Atualizado às 20h55 de Brasília com informações sobre a punição a Kyrgios no parágrafo abaixo, em itálico)

A ATP anunciou que Kyrgios foi multado em US$ 10 mil pelo insulto dirigido a Wawrinka. Após rever o vídeo da partida, a entidade obrigou o australiano a pagar mais US$ 2.500 por conduta antiesportiva dirigida a um boleiro durante a partida. Além disso, Kyrgios recebeu um “aviso de investigação” que inicia um processo para determinar se seus gestos se enquadram como ofensa grave (“major offense” no livro de regras). A investigação, informa o comunicado da ATP, abre a possibilidade para punições adicionais que podem ser multas em dinheiro ou suspensão de eventos da ATP. Antes do anúncio da punição, o australiano já havia publicado um pedido formal de desculpas em sua página no Facebook.

Coisas que eu acho que acho:

– Nem faz tanto tempo assim que escrevi um post sobre Kyrgios, abordando o limite que separa sua autoconfiança de uma dose considerável de arrogância. De lá para cá, no entanto, os problemas de Kyrgios têm ido muito além disso. A impressão que fica é que o australiano “comprou” a ideia do personagem.

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É meio como se, depois de ouvir muitos elogios por sua personalidade diferente e curiosa em quadra, Kyrgios tivesse adotado esse personagem e levado adiante, como se fosse dono absoluto do direito de falar e fazer o que quisesse dentro de quadra. De janeiro para cá, já discutiu com árbitros, “entregou” games e falou palavrões para torcedores no meio de um jogo. Muita coisa em pouco tempo.

Passo longe de querer que alguém seja santo. Uma boa provocação faz bem a qualquer esporte. Esquenta partidas, cria rivalidades, chama atenção, ganha manchetes. Até aí, tudo bem. Mas quando Kyrgios envolve terceiros e uma relação amorosa na confusão (repito, com negrito e itálico: para o mundo inteiro ouvir), a coisa muda de figura.

– Quanto à punição que pode vir após a investigação, A ATP encontra-se diante de uma questão delicada, especialmente em uma modalidade sem rivalidades quentes. Federer x Nadal nunca rendeu grandes atritos publicamente, e o mesmo pode se dizer de Federer x Djokovic e Nadal x Djokovic, que tiveram pequenas turbulências no máximo.

– O dilema é estabelecer um limite para atitudes como a desta quarta-feira, em Montreal – seja de Kyrgios ou de quem for – sem deixar o esporte estéril e sem personalidade. Não é tarefa das mais fáceis, convenhamos. A essa altura, parece provável uma espécie de “liberdade condicional” para o australiano. Um aviso de que “da próxima vez, você leva um gancho sério.” Algo parecido com a advertência que deram a Serena Williams após o incidente com a juíza de linha no US Open de 2009.

– Johan Kriek, embora não muito conhecido pelo público brasileiro pós-Guga, foi top 10 na década de 80 e venceu o Australian Open duas vezes. Mas o que faz valer a pena segui-lo no Facebook são suas opiniões nem sempre politicamente corretas, mas frequentemente intrigantes e “fora da caixa”.

– Ah, sim: Kyrgios venceu o jogo quando Wawrinka abandonou no terceiro set. O australiano liderava por 6/7(8), 6/3 e 4/0. Mas a essa altura da coisa, quem ainda se importa com o placar, hein?


WTA aposta nas estatísticas: desvirtuando ou modernizando?
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Alexandre Cossenza

A WTA anunciou esta semana uma novidade que pode ser gigante para o mundo do tênis. Já nesta temporada, técnicos e tenistas terão acesso a estatísticas durante as partidas. Em uma parceria com a SAP, a entidade que controla o circuito mundial feminino (não os Slams nem os ITFs) disponibilizará números e outras informações em “tablets autorizados” em “tempo real”.

Segundo o texto distribuído pela WTA, os dados “ajudarão jogadores e técnicos e analisarem desempenho e otimizarem estratégias. Isso pode significar a diferença entre vencer e perder o próximo ponto, set, jogo – ou até o torneio.”

Nessa mesma parceria com a SAP, a WTA já havia criado o “coaching app”, um aplicativo que recebia as estatísticas para análise depois das partidas. Agora, a partir do WTA de Stanford (em andamento), os tablets serão abastecidos durante os jogos e poderão ser levados para dentro de quadra. Alguns dos dados serão:

– Lista de estatísticas lado-a-lado das duas tenistas atualizada a cada 15 segundos;
– Dados que analisam o desempenho no saque, a taxa de sucesso em fechar um game no saque e o número de break points salvos; e
– Dados que mostram o direcionamento dos saques, o ponto de contato nas devoluções e o direcionamento dos golpes durante os ralis.

Modernizar x desvirtuar

Antes de entrar no debate propriamente dito, faz-se necessária uma ressalva: o tênis precisa de mais estatísticas. As poucas que existem hoje explicam muito pouco sobre o que acontece em quadra. Quer um exemplo? Se um tenista teve “2/17” em break points e perdeu o jogo, é fácil “concluir”, baseado neste número, que ele desperdiçou ótimas chances. Bobagem. Ele pode: 1) ter conquistado todas essas chances de quebra em apenas dois games; 2) ter quebrado o serviço do rival em ambos games; 3) ter quebrado duas vezes no mesmo set; 4) ter perdido o jogo em três sets. Ou seja, o número não “disse” quase nada.

Os casos são muitos. Os números do fim do jogo dizem que fulano cometeu 20 erros não forçados, mas quantos foram de forehand? E desses forehands errados, quantos foram na paralela? Quantos foram em mudança de direção? Quantos ficaram na rede? Quantos saíram ao lado? É que nem o diabo da estatística de escanteios no futebol. Por que raios eu iria querer saber que time cobrou mais tiros de canto? Mas eu divago. São tantas as informações omitidas pelos números “tradicionais” do tênis que realmente já passou da hora de as entidades (ITF, ATP e WTA) repensarem os números que colocam à disposição do público durante as transmissões. Tudo ali fica na superfície. Aprofundar é preciso.

Agora, a parte polêmica. A crítica que se faz e que se fez (e eu mesmo sempre fiz) quando a WTA decidiu permitir a entrada de técnicos em quadra durante as partidas é simples: a regra muda um dos preceitos básicos do esporte. O tênis, em sua essência, foi criado e regulamentado para que os atletas encontrem soluções por conta própria dentro das partidas. Isso valoriza tenistas com mais capacidade de “ler” o jogo. Com os técnicos em quadra, a mudança foi grande. E agora, com as informações à disposição? Seria um passo a mais para desvirtuar o esporte?

Tradicionalista que sou, tendo quase sempre a opinar contra mudanças radicais no tênis – e essas alterações promovidas pela WTA são as mais ousadas das últimas décadas. Se os atletas têm acesso a toda essa informação durante o jogo (e, como escrevi acima, o esporte foi imaginado para privilegiar competidores com capacidade de análise e raciocínio), alimentá-los com tantos dados não seria desvirtuar e (por que não?) “emburrecer” a coisa toda? Ou será que a versão moderna do “raciocínio próprio” passa a ser a capacidade da analisar essa informação e decidir o que fazer com ela? É um bom debate, não?

Ilustrando

Quanto às estatísticas, não tenho opinião formada, mas continuo contra técnicos em quadra. Principalmente por causa do elemento “desvirtualizador” que citei acima, mas não só por isso. Não é raro vermos cenas embaraçosas como tenistas “fazendo a egípcia” (um beijo, Sheila) ou discutindo com os treinadores no meio dos jogos. Há também aqueles casos em que o técnico manda o tradicional “continue assim porque ela não vai conseguir jogar nesse ritmo o jogo inteiro.” Será que essa é mesmo a coisa mais inteligente a se dizer num intervalo?

Mas eu divago. Para amenizar, deixo aqui um caso desses fresquinho. Aconteceu nesta quarta-feira, no WTA de Stanford. Durante a partida contra a espanhola Carla Suárez Navarro, a americana Alison Riske chamou o “técnico” Stephen Amritraj em quadra e começou a se lamentar quando o rapaz retirou o microfone obrigatório e soltou um “shut the f*ck up” (um “cale a bola” com um palavrão no meio).

O vídeo acima não demorou a parar no Vine. Quando o jornalista americano Ben Rothenberg mostrou a cena no Twitter comentando a atitude do técnico, Riske respondeu: “Ele não é meu técnico, é meu namorado. Veio aqui usando um dia de férias e me ajudou a conseguir uma vitória sobre uma top 10.”

A cena ilustra algumas das coisas que considero falhas graves da regra. A primeira delas é que um tenista pode nomear qualquer um para entrar na quadra. Não precisa ser técnico. Em tese, eu, você, minha avó ou seu tio, qualquer um poderia estar lá. Não é uma regra que joga necessariamente a favor dos técnicos. Outro ponto é o microfone. Como o tempo técnico tem a função de entretenimento, retirar/desligar o microfone é proibido. Pela regra, Amritraj não deveria mais poder entrar em quadra até o fim do torneio nem Riske pode indicar outro técnico. A WTA, no entanto, nem sempre aplica essa punição.

Coisa que eu acho que acho:

– Uma pena que, pelo menos por enquanto, fãs não terão acesso às mesmas informações recebidas pelos técnicos em seus tablets. Fica a expectativa para saber quando esses dados serão incorporados às transmissões de TV.


Teliana e o dilema do “fazer o quê?”
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Alexandre Cossenza

Aconteceu nesta quinta-feira, nas oitavas de final do WTA de Bucareste, na Romênia, e vale o registro mais pela curiosidade das imagens que por qualquer conclusão profunda que alguém se sinta tentado a tirar baseado em um pequeno caso em uma partida só. Então vamos a ele.

Teliana Pereira enfrentava Monica Niculescu, número 41 do mundo. Um jogo sempre complicado, já que a romena tem um tênis pouco tradicional. Joga com muitos slices, de direita e esquerda, e raramente deixa a adversária à vontade para se posicionar em quadra. Como a brasileira não tem peso de bola para tomar a dianteira dos pontos na base da força, seria preciso encontrar uma solução.

Antes de Teliana sacar em 2/3 no primeiro set, seu técnico e irmão, Renato Pereira, entrou em quadra para dar instruções (a WTA – e só a WTA – permite entradas de treinadores e capta quase tudo com os microfones) e pediu uma postura mais agressiva de Teliana, que perdeu sete dos oito games seguintes.

Quando voltou à quadra, já com 2/6 e 1/4 no placar, Renato pediu o contrário. Que Teliana jogasse com bolas mais altas para ganhar tempo. Vale ver o vídeo e constatar a reação da número 1 do Brasil e atual 83 do mundo.

Parecia tarde para iniciar uma reação, mas a partida foi até equilibrada nos games seguintes. Quando Niculescu sacou para o jogo, Teliana conseguiu seis break points. Desperdiçou todos com erros não forçados (inclusive um com um smash e outro com um voleio na mão) e pagou o preço. A romena fez 6/2 e 6/3 e avançou às quartas de final do torneio em seu país.

A brasileira terá mais duas boas chances de somar pointos no saibro nas próximas semanas. Primeiro, jogará o WTA de Bad Gastein, na Áustria. Em seguida, será a estrela da casa no fraquíssimo (escrevo sobre isso mais terde) WTA de Florianópolis, que trocou de data e piso e será na terra batida este ano.


Wimbledon, dia 13: Djokovic derruba Federer e come grama outra vez
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Alexandre Cossenza

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Durante duas semanas, Roger Federer roubou os holofotes. Mostrou, página por página, o livrinho de golpes. Ganhou pontos espetaculares. Executou lances improváveis. Sacou como nunca, venceu como sempre. E, quando derrubou Andy Murray em uma atuação memorável nas semifinais, lembrou o planeta (como se alguém tivesse esquecido) por que venceu Wimbledon sete vezes.

Djokovic, por sua vez, foi competentíssimo nos últimos 15 dias, mas só foi o foco das atenções quando passou perigo diante de Kevin Anderson, nas oitavas de final. Na semi, jogou para o gasto. Parecia que o atual campeão de Wimbledon teria sérios problemas para manter seu reinado no All England Club.

Neste domingo, Djokovic teve, sim, sérios problemas contra o suíço. Precisou salvar set points antes de fechar uma parcial. Perdeu sete set points antes de perder outra parcial. No fim, contudo, o número 1 teve mais de onde tirar. Venceu o xadrez tático e, quando conseguiu anular o serviço do adversário, navegou até seu terceiro título de Wimbledon: 7/6(1), 6/7(10), 6/4 e 6/3.

O set quase perfeito

Um início nervoso, mas com poucos erros. A partida começou com nível altíssimo e poucas chances para os devolvedores. Federer conseguiu uma quebra no sexto game, no primeiro break point que conseguiu, mas Djokovic deu o troco imediatamente depois. O suíço ainda conseguiu dois set points no 12º game, mas o #1 se salvou com dois ótimos saques abertos. No tie-break, Djokovic foi perfeito. Iniciou o game com uma passada espetacular quase por fora da rede, abriu 4/1 vencendo um rali duríssimo de 22 golpes e fechou em 7/1.

Os sete set points

A segunda parcial foi igualmente parelha, mas com papéis invertidos. Desta vez, foi o suíço que salvou set point antes do game de desempate. Nole novamente fez um game de desempate impecável e chegou a abrir 6/3. Teve, inclusive, o set point no 6/5, em seu serviço, mas não aproveitou. Federer salvou um set point atrás do outro e até evitou mais um no serviço do adversário. Djokovic cometeu sua única falha grave no 10/10, jogando um forehand afobado na rede. O suíço, então, subiu à rede no 11/10 e empatou o jogo depois de salvar sete set points.

As cenas no intervalo deixam bastante claro que o número 1 do mundo tinha plena consciência das chances desperdiçadas e de quanto o jogo se complicaria.

A chuva que não mudou nada

A Quadra Central, que fez um barulho absurdo durante os 15 minutos do tie-break e festejou muito a parcial vencida por Federer (sim, a maioria torcia pelo suíço), ainda se recuperava dos momentos de tensão quando aconteceram os lances mais importantes do terceiro set. Primeiro, quando o #2 brilhou ao sair de um 15/40 no game inicial. Depois, com o sérvio salvando um break point. Por fim, com Federer cometendo seu erro mais bobo logo em um lance tão importante. Ao jogar para longe uma direita fácil, alta e perto da rede, o suíço perdeu o saque no terceiro game e viu o atual campeão abrir vantagem.

Os primeiros pingos – bem finos – apareceram no meio do quarto game. Não demorou para que a partida fosse interrompida. Como a previsão era de chuva passageira, a organização preferiu não fechar o teto retrátil, o que faz sentido. As regras dizem que o jogo deve seguir com teto fechado até o fim, e o ideal é sempre manter as características originais de jogo. Afinal de contas, Wimbledon, como os outros três torneios do Grand Slam, é um torneio outdoor.

A interrupção durou cerca de 15 minutos, e nada mudou quando os tenistas voltaram. Djokovic só perdeu dois pontos no serviço até o fim do set a aproveitou a vantagem. O #1 fez 6/4 e voltou a abrir vantagem.

As devoluções massacrantes

Quando o quarto set começou, Djokovic estava em um nível acima do de Federer. O suíço tentou um pouco de tudo, mas não encontrou uma tendência que lhe favorecesse consistentemente. Fugir do backhand e atacar o direita de Djokovic permitia o sérvio contra-atacar e pegar Federer na corrida o tempo quase inteiro. Atacar de dentro para fora dava ao número 1 a opção da paralela de backhand. Com Nole afundando a bola o tempo inteiro, subir à rede era arriscado demais.

Durante o torneio inteiro, se nada funcionasse, Federer tinha a eficiência do saque para manter-se no jogo. Só que contra Djokovic nem isso dava ao suíço uma zona de conforto. As devoluções do número 1 estavam calibradíssimas, tanto quando buscavam a linha de base quanto com o suíço subindo à rede.

E não era Federer sacando mal. O suíço foi quebrado quando tinha cerca de 80% de aproveitamento de primeiros serviços. No fim, buscou mais aces – consequentemente errando mais – e, ainda assim, terminou o último set com respeitáveis 67%. A diferença estava nas devoluções de Djokovic, que destruíram a principal arma do adversário no torneio. O match point é o melhor exemplo.

This is the moment Novak Djokovic became a three-time #Wimbledon champion.

Posted by Wimbledon on Sunday, July 12, 2015

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O bom perdedor

Um dos melhores momentos do dia foi ver Roger Federer na Quadra Central, após o fim da partida, dando todos os méritos do mundo a Djokovic. “Novak jogou um grande tênis não só hoje, mas nas duas semanas inteiras, em todo o ano, mais o ano passado, mais o ano anterior, então ele merece. Parabéns, Novak.”

O comedor de grama

Djokovic fez pela primeira vez em 2011, quando levantou o troféu pela primeira vez em Londres. Desde então, vem repetindo a cena. Não podia ser diferente neste domingo. Depois de fechar o jogo, o sérvio se agachou e provou um pedacinho minúsculo do piso da Quadra Central. Na entrevista, ainda brincou e disse que a grama tinha ótimo gosto.

A transmissão

Ao fim do torneio, faz-se necessário um elogio à transmissão da ESPN, que sublicenciou os direitos de transmissão do SporTV e acabou mostrando muito mais quadras e jogos do que o canal concorrente. Fez um negócio da China. Não acertou em tudo, é verdade. Volta e meia, um comentarista despreparado compromete a transmissão. Um exemplo: Osvaldo Maraucci, que passou a maior parte do tempo na ESPN+, comentou a final de duplas sem saber identificar Rojer e Tecau. Passou mais de um set chamando um pelo nome do outro.

Felizmente, os Fernandos (Nardini e Meligeni) dão conta do recado na ESPN, que mostrou os jogos mais relevantes. O mais importante de tudo, entretanto, foi constatar que o canal fez esforço para disponibilizar um grande número de jogos e passar muita informação – junto com o programa diário Pelas Quadras, à noite.

O golpe de misericórdia foi o encerramento da transmissão. Enquanto o SporTV já havia encerrado seus trabalhos, a ESPN seguiu no ar, mostrando Novak Djokovic dentro do All England Club, recebendo os parabéns dos convidados especiais, dando autógrafos e acenando para os fãs.

A câmera que acompanhava o sérvio pelos corredores mostrou ainda um longo abraço do campeão e sua esposa, Jelena. Enquanto isso, Roger Federer passava de cara fechada ao lado do casal. Um momento impagável.

O top 10

O ranking fica assim após o encerramento de Wimbledon:

1. Novak Djokovic: 13.845
2. Roger Federer: 9.665
3. Andy Murray: 7.810
4. Stan Wawrinka: 5.790
5. Kei Nishikori: 5.525
6. Tomas Berdych: 5.140
7. David Ferrer: 4.445
8. Milos Raonic: 3.810
9. Marin Cilic: 3.540
10. Rafael Nadal: 3.000


Wimbledon, dia 12: Serena reina absoluta e um “avada kedavra” de Jo Rowling
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Alexandre Cossenza

Este texto não vai tentar explicar por que Serena é tão melhor que o resto do mundo. Esse debate ficou para trás há pelo menos uns oito Slams. A vitória por 6/4 e 6/4 sobre Garbiñe Muguruza, a 28ª seguida de Serena Williams nos quatro maiores torneios do circuito, foi só mais uma evidência disso. Hoje em dia, a número 1 do mundo reina sozinha. Seus números são comparáveis apenas com as maiores da história. Aliás, antes de falar sobre o jogo, comecemos por eles:

O Serena Slam

É a segunda vez na carreira que a americana conquista o chamado “Serena Slam”, ganhando os quatro Slams de forma consecutiva, mas não todos na mesma temporada. Até hoje, só Steffi Graf tinha vencido os quatro Slams de forma consecutiva duas vezes. Além de seu calendar-year Grand Slam em 1988, a alemã venceu RG, Wimbledon e o US Open em 1993 e o Australian Open em 1994.

Faltam sete

Serena agora tem a chance de completar o Grand Slam de fato, também chamado de calendar-year Grand Slam (vencer os quatro torneios na mesma temporada). Na história, só três tenistas conseguiram isso: Maureen Connolly (1953), Margaret Smith (1970) e Steffi Graf (1988). Faltam sete vitórias.

Melhor e mais velha

Com 33 anos e 289 dias, Serena é a campeã de Grand Slam mais velha da Era Aberta (Navratilova foi campeã de Wimbledon em 1990 com 33 anos e 263 dias). A americana, aliás, é quem mais venceu Slams depois dos 30. Já são oito triunfos, contando Wimbledon. Juntando todas as outras seis tenistas que conseguiram vencer depois dos 30, são 13 troféus. Margaret Court e Martina Navratilova, com três cada, eram as maiores vencedoras de “Era pré-Serena”.

Melhor nas finais

Wimbledon marcou 21º título de Grand Slam para Serena Williams. O impressionante é que ela venceu tudo isso jogando “só” 25 finais. É o segundo melhor aproveitamento da Era Aberta. Só perde para Margaret Court, que somou 11-1 (91,7%). Em toda a carreira, contudo, o aproveitamento de Court foi de 82,7% (24v e 5d). Serena, hoje, tem 84%.

Faltam três

Serena tem 21 títulos de Grand Slam. Na Era Aberta, apenas Steffi Graf (22) tem mais. Em toda a história, a maior campeã ainda é Margaret Court, com 24.

As sequências

O recorde de mais títulos de Grand Slam consecutivos é dividido por Margaret Court e Martina Navratilova: 6. Court venceu do US Open de 1969 até o Australian Open de 1971, enquanto Navratilova começou sua sequência em Wimbledon/83 e foi até o US Open/84. A maior sequência de vitórias de Serena em torneios desse porte veio no embalo do primeiro Serena Slam, em 2002-03. Foram 33 triunfos, com a série sendo interrompida em Roland Garros/2003.

O jogo

Não seria justo não citar a bravura e a competência da jovem Garbiñe Muguruza, 21 anos, em sua primeira final de Grand Slam. Quando Serena abriu a partida cometendo três duplas faltas no game inicial, a espanhola aproveitou as chances e tomou a dianteira. Mais do que isso: quando a #1 se encontrou e conquistou dois break points, Muguruza jogou quatro pontos perfeitos em sequência, confirmou o saque e abriu 4/2.

A reação de Serena foi exatamente o que o nome diz: uma reação de Serena. Não foi um deslize, uma tremedeira ou uma amarelada da espanhola. Muguruza seguiu jogando bem, mas encontrou outro nível da americana, que atropelou, vencendo quatro games seguidos e fechando a parcial: 6/4.

Era difícil imaginar uma reação da espanhola a essa altura. Além do tênis superior da favorita, as estatísticas jogavam seriamente contra Muguruza. Em Wimbledon, Serena tinha um retrospecto de 69 vitórias e duas derrotas após vencer os sets iniciais (agora são 70v e 2d).

Não houve mais dúvida sobre quem ficaria com o troféu. Houve, sim, uma incerteza sobre quando o jogo acabaria. Depois que abriu 5/1 no segundo set, talvez por ansiedade, talvez por sei lá que outro motivo que acometa pessoas de outro planeta, Serena começou a errar. Perdeu o serviço no sétimo game e foi quebrada outra vez no nono. De repente, Muguruza, que continuava lutando bravamente, tinha a oportunidade de igualar a parcial.

A espanhola, então, viveu um momento “mortal”. Foi seu único game realmente ruim na partida. Em quatro pontos, Serena quebrou e fechou o jogo. Depois de permitir que a rival encostasse e de ver o estádio acordar e fazer barulho, a americana ficou tão surpresa com a rapidez do último game que precisou de alguns instantes para ouvir o árbitro e perceber que a final estava mesmo encerrada.

Quase tão indelével quanto o nome de Serena Williams na história no tênis será a memória da cena de Garbiñe Muguruza sendo aplaudida de pé por toda a Quadra Central após a partida – por cerca de um minuto e meio! Até a rival, sorridente, ergueu-se do banco (ou trono?) para bater palmas. A espanhola não segurou as lágrimas. Nem deveria. Chegou a uma final de Wimbledon com 21 anos e portou-se como veterana.

A huge ovation for the runner-up Garbine Muguruza on Centre Court. Who thinks she'll win #Wimbledon one day? http://bit.ly/W15Gabine

Posted by Wimbledon on Saturday, July 11, 2015

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Depois de passar as últimas duas semanas sem mencionar o Serena Slam, a número 1 do mundo pôde enfim comemorar o feito: 28 vitórias e quatro títulos consecutivos em torneios do Grand Slam. Enquanto isso, Andy Roddick, comentarista na cabine da BBC, avisava a todos que sua compatriota já estava pensando no US Open, onde poderá completar o Grand Slam de fato. Quando soube do comentário, Serena respondeu no Twitter, como sempre trollando o amigo: “Andy, você está 20 minutos atrasado.”

Avada kedavra

J.K. Rowling, autora da série de livros de Harry Potter, usou o Twitter para festejar Serena Williams e acabou colocando no lugar um desses idiotas anônimos e sem rosto que gostam de rebater pessoas famosas. Pouco depois de a escritora inglesa falar sobre como Serena era “que atleta, que exemplo, que mulher!”, o bobão respondeu “irônico que a principal razão para seu sucesso seja ter o corpo como o de um homem.” Rowling rebateu com uma foto de Serena em um vestido vermelho com a resposta: “É, meu marido fica igualzinho em um vestido. Você é um idiota.”


Wimbledon, dia 11: o imbatível Roger Federer volta à final
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Alexandre Cossenza

Roger Federer pode até vir a perder jogos bobos durante a maior parte o tempo. Pode vir a sentir dores aqui e ali. Pode decidir tirar férias de seis meses. Sei lá. O que quer que aconteça na vida do suíço nos próximos meses e anos, se esse cidadão fizer uma vez por ano, uma vezinha só, o que fez nesta sexta-feira, ele não pode aposentar. Não pode.

Torcida contra, talvez o oponente mais perigoso da atualidade em uma quadra de grama, uma das melhores devoluções do circuito… Muita coisa jogava contra na Quadra Central e, não por acaso, algumas casas de apostas davam vantagem a Andy Murray. Eis, então, que Roger Federer aparece com uma das maiores atuações de sua carreira. Uma vitória por 7/5, 7/5 e 6/4 com números espantosos e inúmeros lances espetaculares.

Em 2h07min de jogo, o heptacampeão de Wimbledon fez 20 aces, encaixou 76% de primeiros serviços, ganhou 84% desses pontos, disparou 56 (!) winners e cometeu apenas 11 erros não forçados. Números tão iluminados que ofuscam a grandíssima partida feita por Andy Murray.

O jogo do dia

Desde o início, o jogo foi espetacular – e dos dois lados. Fora um break point no primeiro game, Federer e Murray confirmaram com relativa tranquilidade. Aliás, era impossível imaginar na hora, mas seria a única chance de quebra do tenista da casa em toda a partida. E, embora o suíço tenha vencido em três sets, o confronto foi tão equilibrado que não havia muita diferença nem entre as esposas na Quadra Central.


Brincadeiras à parte, Murray havia perdido apenas cinco pontos no seu serviço até o décimo game. No 12º, porém, Federer conseguiu a quebra e fechou a parcial. Os números – de ambos – eram fantásticos.

Não é difícil entender o quanto o serviço de Federer é essencial para seu sucesso na grama. Quando consegue encaixar o primeiro saque, quase sempre coloca o adversário em posição defensiva, algo que fica claro no gráfico abaixo. No meio da segunda parcial, o suíço acumulava 77% de golpes executados de dentro da quadra em seus games de serviço – em posição ofensiva. A comparação com as rodadas anteriores (gráfico à esquerda) assusta, ainda mais considerando que a partida desta sexta-feira era contra uma das melhores devoluções do circuito.

O game do dia

Se a partida já estava excepcional, veio o décimo game do segundo set. Murray sacava pressionado, em 4/5, e o buraco do britânico era fundo quando o placar chegou a 0/40. O britânico salvou os três set points brilhantemente, mas seguiu com problemas para confirmar. Federer teve mais dois set points – ambos salvos pelo insistente escocês. Ao todo, foram sete nervosas igualdades até que Murray conseguisse alongar o set.

Foi o momento de mais tensão de todo o jogo porque havia a impressão de que Federer não permitiria a virada uma vez que abrisse 2 sets a 0. Motivou até o tweet acima do sueco Robin Soderling – aquele Soderling. E Murray não resistiu à pressão por muito tempo. Novamente no 12º game, não conseguiu frear o adversário. Federer quebrou e abriu uma vantagem que, num dia assim, seria impossível de apagar.

O lance do dia

Murray não desistiu, mas tampouco teve chances reais de equilibrar o jogo. Com o primeiro saque entrando, Federer tinha sempre a vantagem. Tanto no comando dos pontos quanto no placar, já que sacava sempre antes de Murray. E aí, com o escocês mais uma vez apertado contra a parede, Roger Federer aprontou isso:

Roger Federer espetacular contra Andy Murray

No fim, foi uma das maiores apresentações da carreira de Federer. Veio contra um adversário de altíssimo nível, em um Grand Slam e com muita coisa em jogo. Certamente, sua melhor atuação nos últimos três anos. Possivelmente, a melhor desde aquele jogo de 2011 contra Nadal no ATP Finals. Talvez melhor que aquela. Talvez a melhor da carreira. Quem sabe ao certo?

Certeza mesmo é que no domingo, quando voltar ao palco onde levantou o troféu sete vezes, Federer, 33 anos, será o tenista mais velho desde Ken Rosewall a disputar uma final de Wimbledon. E quem aí ousa dizer que a idade do suíço pesará contra Djokovic?

A preliminar

Não havia como tratar Djokovic x Gasquet de outra maneira. O número 1 do mundo e atual campeão do torneio entrou em quadra favoritíssimo, apesar da bela atuação do francês contra (um inconsistente) Wawrinka dois dias atrás. E, depois de 2h21min de jogo, os dois saíram da Quadra Central provando que a expectativa era justificada. Djokovic venceu por 7/6(2), 6/4 e 6/4.

Justiça seja feita a Gasquet: foi uma ótima atuação do francês, que abusou de seu backhand e terminou a partida com 36 winners. E a questão é justamente essa: mesmo com o francês atingindo esse nível, Djokovic venceu sem ser ameaçado e passando a impressão de estar jogando para o gasto.

O momento de maior apreensão para os fãs do sérvio veio quando Nole pediu atendimento médico e recebeu tratamento no ombro esquerdo. Fora isso, Gasquet jamais esteve à frente no placar. Até o tie-break do primeiro set foi amplamente controlado pelo número 1.

Será a 17ª (!) final de Grand Slam para Djokovic, que tem oito vitórias e oito derrotas em ocasiões assim. Em Wimbledon, ele e Federer duelaram duas vezes. A primeira, em 2012, terminou com vitória do suíço por 3 sets a 1 nas semifinais. A segunda, no jogão que foi a decisão de 2014, o sérvio venceu por 3 sets a 2.

A oportunidade

Mesmo depois de uma partida como a de Roger Federer hoje, há casas de apostas que colocam Novak Djokovic como o mais cotado para o título. Será? Para quem gosta de arriscar a sorte, pode estar aí uma boa oportunidade.

Apostar no sérvio é acreditar que o ex-número 1 não conseguirá duas atuações espetaculares em sequência. Até porque não parece tão fácil assim acreditar que Federer (que vem sacando monstruosamente desde o início do torneio), especificamente este Federer de hoje, pode ser derrotado.