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'Fatos ou não?' Vídeo de Kyrgios com Nadal engana quem assiste

Alexandre Cossenza

17/08/2019 04h00

Durante a partida contra Karen Khachanov em Cincinnati, Nick Kyrgios reclamou insistentemente de como o árbitro era rigoroso com o shot clock – relógio que marca os 25 segundos entre os pontos – e citou Rafael Nadal como exemplo de alguém que seria protegido pela arbitragem. Não foi a primeira vez que ele mencionou o espanhol durante um jogo. Quando encarou Rafa em Wimbledon, este ano, Kyrgios queixou-se um bocado também.

Em Cincy, Kyrgios agiu de maneira tão reprovável que acabou multado em US$ 113 mil dólares (esse valor inclui cinco multas diferentes por conduta antiesportiva, outra por sair da quadra sem permissão, outra por isolar uma bolinha, mais outra por falar um palavrão e, finalmente, outra por abuso verbal).

No entanto, depois da punição – e da derrota para Khachanov – Kyrgios foi ao Instagram "provar" que estava certo e publicou um vídeo comparando intervalos entre os pontos em duas partidas: seu duelo contra Khachanov em Cincinnati e a final de Montreal entre Nadal e Daniil Medvedev. Nas duas imagens, mostradas lado a lado, Kyrgios leva 28 segundos entre um ponto e outro. Rafa demora 41. Pela regra, o shot clock marca 25. Na legenda da postagem, o australiano escreveu 'Fatos ou não?' Vejam abaixo:

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Facts or nah

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Contexto é essencial

A cronometragem é exata. De fato, o jogo entre Nadal e Medvedev leva 13 segundos a mais para reiniciar do que Kyrgios x Khachanov. A edição, contudo, é enganosa e tira os lances de contexto, levando os espectadores a crer que Kyrgios tem razão. Só que não é bem assim. Rafa está longe de ser o culpado na história.

A primeira coisa importante a observar é que o ponto anterior jogado por Nadal e Medvedev teve 32 golpes. Foi um rali longo, jogado num domingo à tarde, com a quadra ensolarada e lotada. Logo, o árbitro de cadeira, o brasileiro Carlos Bernardes, deu tempo para que o público aplaudisse (e os jogadores respirassem) antes de dizer o placar e, consequentemente, iniciar o shot clock. Só a partir daí é que os 25 segundos começaram a correr. E quem cronometrar vai constatar que Nadal sacou 23 segundos depois disso. Obviamente, dentro do que manda a regra.

O árbitro usou bom senso, como é recomendado em qualquer curso de primeiro nível de arbitragem (eu sei porque sou graduado pela ITF). O vídeo de Kyrgios, por sua vez, esconde dois momentos cruciais: a duração do rali anterior entre Nadal e Medvedev, e o áudio que mostra quando Bernardes cantou o placar. Sem eles, não é possível fazer um julgamento justo da cena. Vejam o momento completo de Nadal x Medvedev abaixo:

Por que, então, a diferença no começo do shot clock entre as duas partidas? Isso também é simples de explicar: o ponto anterior entre Kyrgios e Khachanov teve oito golpes. O australiano errou a nona bola do rali. Ninguém correu demais, não houve grande desgaste (além de tudo, era uma partida noturna), e o público mal aplaudiu. Por tudo isso, o árbitro de cadeira, Fergus Murphy, cantou mais rapidamente o placar, iniciando o shot clock naquele momento.

Kyrgios, contudo, prefere acreditar em uma teoria de perseguição. Disse que Murphy é o pior árbitro de todos os tempos, chamou o oficial de fucking tool (algo como um grande babaca), cuspiu em sua direção (sem a intenção de atingi-lo, é bom dizer) ao fim da partida e saiu sem cumprimentá-lo. A sequência inteira pode ser conferida abaixo:

Em que parte a discussão é válida?

Nos dois casos, os árbitros agiram corretamente, mas Kyrgios teria alguma razão não tivesse tentado forçar a barra elegendo Nadal como queridinho e protegido da ATP. Não é bem assim. Longe disso. Há quem diga até que a introdução do shot clock foi uma medida adotada especificamente para evitar que o espanhol se alongasse demais entre os pontos. Ainda assim, Rafa segue somando vitórias e boas campanhas em quadras duras. Além de semifinalista do US Open no ano passado, foi vice-campeão do Australian Open este ano e conquistou o título do Masters de Montreal.

A bandeira que vale a pena levantar – e Kyrgios é capaz de encontrar os exemplos certos se procurá-los – é a questão da padronização do shot clock. Até em pontos igualmente curtos, nem sempre árbitros iniciam a contagem no mesmo momento, e é aí que nasce a confusão. Se cada árbitro fizer a coisa como quiser, sem que exista um padrão, vira bagunça. E falo aqui de algo recorrente, que já acontecia no fim de 2017, quando o relógio foi testado pela primeira vez e fiz essa mesma ressalva aqui no blog (leiam isto e lembrem).

Essa briga, sim, é válida. Usar Nadal como alvo, especialmente depois do comportamento patético de Cincinnati, e num vídeo toscamente editado, não levará Kyrgios a lugar algum.

Coisa que eu acho que acho:

– Kyrgios abusa de ingenuidade ao publicar um vídeo em que Nadal é beneficiado justamente por Carlos Bernardes, um dos árbitros mais rigorosos na aplicação da time violation, a punição dada a quem demora mais a sacar. O próprio Rafa já foi "vítima" do árbitro brasileiro um punhado de vezes…

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Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.