Saque e Voleio

Categoria : Gustavo Kuerten

Conversas curiosas e inconclusivas, parte I
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Alexandre Cossenza

O diálogo a seguir aconteceu (ou não) num bar de um famoso clube de tênis. Dois amigos, identificados aqui como Catê Imoso e Jessé Tico, assistiam a uma das reprises do SporTV da final da Masters Cup de 2000, entre Gustavo Kuerten e Andre Agassi. Entre uma Paulaner e uma Hoegaarden, nossos personagens abrem o debate no segundo game da partida, quando Guga confirma o serviço com um ace.

Catê: Olha esse saque, o Guga era foda.
Jessé: Muito foda.

C: Não sei como ele não ganhou mais com esse saque.
J: É porque ele não sacava assim todo dia.

(cinco minutos depois)

C: Como ele não sacava assim sempre? Olha esse saque aberto na esquerda do Agassi! Ninguém devolve essa bola.
J: Você vai julgar o saque do Guga baseado em um jogo só?

C: Mas ele tá fazendo isso contra o Agassi, a melhor devolução da história.
J: Da história? Já viu o Djokovic devolvendo?

C: Mas o Djokovic não precisa devolver o saque do Sampras, que era monstro.
J: (irônico) É, não tem mais Sampras. Só tem Federer, Isner e Karlovic hoje em dia. Tá fácil, né?

C: Ah, para com isso. Vai criticar o Agassi só pra menosprezar o Guga?
J: Não. Agassi era um monstro na devolução, mas levava mais ace do que todos outros tops da época. E o segundo saque do Guga era vulnerável. Ele sacava todas com spin no backhand do adversário. O circuito inteiro sabia disso.

C: Você bebeu?! E olha esse backhand agora! (vendo Guga mudar a direção e bater o backhand de dentro pra fora)
J: Esse backhand era espetacular!

C: Nunca mais apareceu um backhand assim.
J: O do Wawrinka é melhor.

C: Mas você não pode comparar gerações diferentes.
J: Quem comparou foi você.

C: Mas o Guga é mais tenista que o Wawrinka.
J: Não tô comparando.

C: Vai dizer que o Wawrinka tem algum outro golpe melhor que o Guga?
J: Todos. Saque, direita, esquerda e voleio.

C: Você não pode estar falando sério.
J: Golpe a golpe, Wawrinka faz tudo melhor.

C: Isso não faz dele mais tenista que o Guga.
J: Eu não disse isso.

C: Guga foi número 1, ganhou três Slams! Wawrinka nunca chegou perto de ser número 1!
J: Concordo com tudo isso. Mas o que o ranking tem a ver com isso?

C: Prova que Guga foi o melhor da geração dele.
J: Mas quem era a geração dele?

C: Você está sugerindo que a geração dele era fraca?
J: Não. Só perguntei.

C: A geração dele era tão forte quanto qualquer outra.
J: Mas quem era?

C: Hewitt, Safin, Norman…
J: (interrompendo) Peraí, Hewitt é cinco anos mais novo que ele.

C: E daí?
J: E daí que Sampras é cinco anos mais velho que o Guga.

C: E daí?
J: E daí que se o Hewitt, cinco anos mais novo, pertence à mesma geração do Guga, por que você não incluiu Sampras e Agassi?

C: Porque Sampras e Agassi já estavam em fim de carreira e Hewitt apareceu muito jovem, enquanto o Guga ainda estava no auge.
J: Mas peraí, Guga não venceu Roland Garros em 1997?

C: Ganhou, e daí?
J: E daí que o melhor ano da carreira do Agassi foi 1999.

C: Tudo bem, então o Agassi era da mesma geração que o Guga.
J: Se o Agassi era da mesma geração do Guga, o Sampras, que era um ano mais novo, também era. Logo, o Guga não foi nem o segundo o melhor tenista da geração dele.

C: Mas em 2000 ele foi o melhor.
J: Ah, então ele foi o melhor do mundo, mas só durante aquele período?

C: É.
J: Mas um ano não é pouco para determinar que alguém foi o melhor de uma geração?

C: Tudo bem, admito que o Guga não foi o melhor.
J: Então, enfim, concordamos?

C: Concordamos. A única unanimidade é Federer, o melhor de todos os tempos. Aí não tem discussão, né?
J: Ai, meu deus….

(continua em um post futuro)

Coisas que eu acho que acho:

– Excelente a iniciativa do SporTV de exibir reprise do jogo que colocou Gustavo Kuerten como número 1 do mundo. É ótimo para mostrar à geração que começou a ver tênis com Federer e Nadal como um brasileiro terminou uma temporada no topo do ranking. Para os fãs mais velhos, é uma chance de matar a saudade.

– O canal tem essa partida arquivada há 15 anos e precisou esperar Guga se tornar funcionário das Organizações Globo para exibi-las. Uma ótima ideia seria mostrar outras vitórias clássicas do tricampeão de Roland Garros. Que tal uma por mês? Grade é o que não falta. Seria bom aproveitar enquanto Guga está sob contrato…


Guga: cinco Roland Garros e uma pessoa comum
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Alexandre Cossenza

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“Eu teria chances reais de ganhar cinco Roland Garros. Muito provável.” Ao lançar sua biografia no Rio de Janeiro, na noite desta quarta-feira, Gustavo Kuerten falou sobre o que poderia ter sido de sua carreira não fosse uma lesão no quadril que abreviou seus dias dentro de quadra. E falou com a naturalidade de um catarinense pegando uma onda numa segunda-feira, longe das câmeras. Sem forçar para produzir uma frase de efeito. Sem exagerar. Guga realmente acredita que, com seu corpo funcionando 100%, poderia ter triunfado em Paris outras vezes. “ E “outros Grand Slams também. Esticar para ser número 1 do mundo por muitas semanas.”

E o lançamento do livro “Guga, um brasileiro” não foi só para falar do passado e do que teria sido. Na meia hora que conversou com a imprensa, o tricampeão de Roland Garros falou sobre a criação do livro e de como, ao longo do processo, percebeu o que conectava com milhões de fãs. E as mensagens de sua biografia estiveram todas presentes no bate-papo. Guga reforçou a ideia de que é uma pessoa comum e que qualquer um que enxergue suas oportunidades pode alcançar seus objetivos. Ressaltou também que tem um número 1 não garante a país algum o crescimento do esporte e deu um recado: com uma base em feita e investimento em profissionais capacitados, é possível ter cinco tenistas entre os 100 melhores do mundo. Veja (e ouça) abaixo os trechos mais interessantes.

Sobre o desafio de criar a biografia

“Eu sabia que queria contar a minha história, mas ao longo do caminho ficou muito claro que definitivamente o que eu queria passar era a minha sensação, a emoção que transcorria na minha cabeça durante todo esse tempo percorrido.”

“Foi bacana porque ao longo do caminho, foi ficando claro para mim. Foi isso que serviu para me ligar tão forte aos milhões de pessoas. De alguma forma, não em palavras, eu conseguia transmitir o que eu estava vivenciando: a minha paixão, aquela felicidade.”

“O livro tem muito disso. Fala do que eu represento, do que eu valorizo como importância”.

Sobre o porquê do nome “um brasileiro” para seu livro

“Essa história é fantástica, é uma façanha extraordinária, mas é um cara normal, uma pessoa comum! Eu me enxergo com muita facilidade assim e gosto de viver assim também. Demonstra, de uma forma até provocativa e conflitante, que está à disposição. Obviamente, eu tive minhas oportunidades, as pessoas ao lado, mas talvez passe na vida de muita gente e se não tiver vários passos adiante, se não conseguir enxergar, às vezes coisa que ninguém vê, o sonho pode passar batido ou nem aparecer na cabeça. No meu caso, foi construído dessa forma. Tinha situações que eu consegui sonhar quando tinha só 18. Fui construindo a minha força através de situações normais.”

“Acho que está à mercê das pessoas. Cada um com o seu horizonte e seus desejos, mas… dá pra fazer. Tem jeito de fazer. Se quiser de verdade, uma conquista ou realizar alguma coisa, tá aí. É possível. Se me contassem, eu não acreditava, mas como aconteceu comigo, fica mais fácil.”

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Sobre como seria sua carreira sem a lesão no quadril
(resposta brevemente interrompida pela visita de Carlos Arthur Nuzman)

“Isso vem naturalmente, diversas vezes, na minha cabeça. A minha carreira, se for ver, estava começando ali, com 25. Até os 30, ia melhorar a cada ano.”

“Eu teria chances reais de ganhar cinco Roland Garros. Muito provável. Outros Grand Slams também. Esticar para ser número 1 do mundo para muitas semanas. Ao mesmo tempo, eu vejo tudo que aconteceu e já foi infinitamente muito maior do que eu sempre sonhei. Mas tem que respeitar que essa sensação, ainda mais em um competidor, um cara que esteve lá em cima, de que ela pode flutuar na cabeça naturalmente. Até hoje, volta e meia eu pego no sono e vejo que, no sonho, dá para ganhar de um monte ali (risos).”

“Eu tive três anos dos oito ou dez que viriam pela frente do auge do meu tênis. Eu deixo tu fazer as contas, senão eu vou ficar meio ‘poxa, que pena mesmo’.”

Sobre suas Escolinhas e a Semana Guga Kuerten

“Eu mirei nos desafios de conseguir, aí sim, transformar a realidade do tênis”.

“Até mesmo ter um número 1 não significa nada para o esporte. Não vai transformar, ter ciclos de formação adequados e uma nova realidade. Foi momentâneo. Deu dez, 12 anos, já deu uma caída e realmente é incrível como ainda sustenta. Essa imagem ainda dá um segundo, um terceiro suspiro porque o último título que eu tive já faz 10, 15 anos – os grandes títulos que eu tive. Mas a coisa parece que está aí”.

“Independente disso, se se constrói uma base bem consolidada, com pessoas capacitadas, com conhecimento e investimento nos professores, aí acontece. Se um dia tiver 100, 150 escolinhas dessas boas… Aí, independente de quaisquer outras etapas, a gente vai ter uns cinco caras entre os 100 do mundo com certeza absoluta.”


Guga revela cirurgia “secreta”
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Alexandre Cossenza

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“Guga, um Brasileiro” não é um livro de grandes revelações. É uma bela biografia de Gustavo Kuerten que traça o perfil do tricampeão de Roland Garros desde sua infância, recheada de casos pitorescos, mas com poucas novidades sobre o período de atleta. A não ser por uma, citada quase casualmente na página 345: Guga passou por três cirurgias no quadril, e não duas, como sempre afirmou (e como sempre foi dito por sua assessoria de imprensa).

A terceira operação foi realizada em março de 2006, na cidade de Vail, no estado americano do Colorado, pelo mesmo médico que conduziu o procedimento anterior: o americano Marc Philippon. No livro, Guga conta que o pós-operatório foram “os dois meses mais agoniantes da vida”. “Fazia um frio glacial no inverno americano de 2006. Mal dava para pôr o nariz para fora. Passava os dias no quarto minúsculo de um hotel de terceira categoria. Minha perna ficou inchada, parecia que tinha um elefante embaixo de mim. Por dois meses, não pude colocar o pé no chão. Dormia com a perna para cima, amarrada a uma roldana. Só saía do hotel três vezes por dia para as sessões intermináveis de fisioterapia, a primeira às sete, depois às onze, por fim às cinco da tarde, todas a peso de ouro, numa conta que chegava fácil a dez mil dólares por mês”.

O catarinense conta ainda que, assim como na segunda cirurgia (realizada em 2004), os médicos disseram que o procedimento havia sido um sucesso. Logo ficou claro – e hoje todo mundo sabe disso – que Guga nunca esteve sequer perto de retomar o nível atlético de antes. Isso e a frustração por estar esgotando os recursos na tentativa de voltar a jogar o tênis de antes fizeram com que o tricampeão de Roland Garros preferisse nunca falar abertamente sobre essa terceira cirurgia. A informação, até a publicação de “Guga, um brasileiro”, só era conhecida por pessoas íntimas e do meio do tênis.

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A mensagem
A biografia de Guga não é bombástica como a de Agassi. Pelo contrário. O catarinense sempre evitou polêmicas e não fez diferente agora. As únicas brigas políticas relatadas no livro são as que todo mundo já conhecia, como a disputa com o Comitê Olímpico Brasileiro antas dos Jogos de Sydney, em 2000, e o boicote à Copa Davis em 2004, em protesto contra a direção de Confederação Brasileira de Tênis. Vale pelas memórias, não pelas novidades.

Se há uma comparação que pode ser feita, é que o livro de Guga segue uma direção parecida com a da biografia de Rafael Nadal, escrita pelo inglês John Carlin. Enquanto lembra da infância e relata momentos que contribuíram para formar a personalidade de Guga como atleta e pessoa, a publicação conta, pelos olhos e com as palavras do tenista, seus maiores feitos dentro de quadra.

A intenção de Guga com o livro está estampada na capa, logo abaixo de seu nome. “Um brasileiro” significa que o catarinense é produto do país que nasceu e que “com suor, sorrisos e lágrimas, aconteceu comigo o que poderia acontecer com qualquer brasileiro”. Vale a leitura até para quem não é fã de tênis.

No Rio de Janeiro
Guga, que lançou seu livro em São Paulo, durante a semana que antecedeu a Copa Davis, fará uma noite de autógrafos quarta-feira, no Rio de Janeiro. O evento será na Livraria da Travessa do Shopping Leblon a partir das 18h. Recomendo que cheguem cedo. A fila de autógrafos em São Paulo era de contornar o quarteirão. A quem quiser comprar desde já, segue o link.

Tags : Guga livro


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