Saque e Voleio

Categoria : Andy Murray

AO, dia 7: os tombos dos líderes e a comovente história de Mischa Zverev
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Alexandre Cossenza

É bem verdade que o domingo australiano começou devagar, com jogos sem empolgar, mas o resto do dia foi dos melhores. A começar pelo fim de tarde, quando Mischa Zverev fez uma apresentação gloriosa na Rod Laver Arena (RLA) para chocar o planeta e derrubar o número 1 do mundo, Andy Murray. Depois foi a vez de Roger Federer apagar um péssimo começo de jogo e duelar com Kei Nishikori por cinco sets. Por fim, quase entrando pela madrugada, a número 1 do mundo no circuito feminino também tombou – cortesia de Coco Vandeweghe.

O resumaço de hoje traz a história desses três jogos e um relato da fantástica volta de Mischa Zverev, que quase largou o circuito mundial para virar técnico, mas voltou inspirado pelo talentoso irmão dez anos mais novo.

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A zebra

De um lado, Andy Murray, o número 1 do mundo, vice-campeão cinco vezes no Australian Open, vindo de 30 vitórias nos últimos 31 jogos, com a única derrota vindo diante de Novak Djokovic, o vice-líder do ranking. Do outro, Mischa Zverev, 29 anos, 50º no ranking, em sua primeira aparição nas oitavas de final em um Slam, irmão dez anos mais velho de Alexander, o mesmo que foi eliminado por Rafael Nadal na RLA um dia antes.

E é preciso mais contexto. O último jogo da sessão diurna deste domingo em Melbourne tinha um dos melhores devolvedores de saque do circuito – um pesadelo para sacadores – contra alguém que tenta manter vivo o estilo do saque-e-voleio, subindo à rede o tempo todo. Parecia quase impossível a missão de Mischa diante de um dos melhores passadores do tênis moderno.

O jogo começou, Andy Murray abriu 3/1, chegou a 5/4 e parecia tudo sob controle. Pois o número 1 perdeu o saque duas vezes seguidas, e Mischa fez 7/5. A segunda parcial teve mais drama, mas o britânico fez 7/5, quebrando Zverev pela terceira vez no set no 12º game. Era claramente uma atuação abaixo da média para Murray, que já tinha sido quebrado cinco vezes em dois sets. Ainda assim, ao fim do segundo set ficava a impressão que a primeira parcial havia sido um acidente e que o favorito tomaria o controle da situação logo, logo.

Só que Mischa continuava sacando, subindo e voleando. E fazendo tudo isso bem, com muito mais sucesso do que o esperado – e com mais sucesso do que no começo do jogo. No terceiro set, encaixou 74% dos primeiros serviços. Fez 6/2. E aí virou drama. Mais ainda quando o #1 perdeu o serviço no primeiro game do quarto set. Mischa, por sua vez, continuava sacando e voleando e acertando a maioria.

Murray, sejamos justos, fez winners de todo tipo. Terminou a partida com 71 deles e apenas 28 erros não forçados. Hoje em dia, não se vê ninguém perdendo com esses números, mas está aí o brilho do saque-e-voleio. Ao subir à rede, Zverev força erros dos adversários – e isso não entra nos números (não no Australian Open, pelo menos). E saque após saque, voleio após voleio, Mischa foi se aproximando da zebra.

No décimo game, com 5/4 no placar, o alemão foi um tanto exigido por Murray. Não mudou a tática, não piscou, não patinou, não engasgou. Fez voleios dificílimos, sacou bem e fechou: 7/5, 5/7, 6/2 e 6/4. “Simples” assim. Sem tremer. E sem conseguir explicar.

A linda história

A arrancada de Mischa aos 29 anos é só a parte mais recente de uma história que só pode ter final feliz. O Zverev mais velho foi top 50 em 2009, mas sofreu com uma série de lesões. Teve uma fratura em um punho, duas costelas fraturadas, uma hérnia de disco e uma ruptura pequena na patela. Saiu do top 100 em 2011. Depois, saiu do top 200 e até do “top” 1000. Caiu para o 1067º lugar.

Mischa quase não voltou a competir quando teve todas essas lesões. Começou a viajar como treinador de dois adolescentes, mas foi aí que sentiu falta dos torneios, da tensão dos jogos. Voltou aos poucos e e sempre disse que o irmão, Alexander, teve muito a ver com isso.

“Meu irmão foi um grande fator porque sempre me empurrou e me fez trabalhar duro de novo para tentar fazer o melhor possível. Ele vem tendo bons resultados nos últimos anos, e eu não quis ficar muito atrás dele. Acho que nos ajudamos porque treinamos muito juntos e tentamos nos desafiar e cada um fazer o outro melhorar. Acho que ainda posso jogar bem e fazer algum estrago aqui e ali”, disse ao site da ATP em outubro do ano passado, quando voltou ao top 100.

O próximo adversário

Ainda na quadra, Mischa falou sobre a possibilidade de enfrentar Federer nas quartas de final e disse que seria um sonho porque o suíço é seu tenista preferido. Bom, o pedido do alemão foi atendido. Depois de um começo preocupante, perdendo os quatro primeiros games, Federer encontrou seu saque, equilibrou os ralis e tomou o controle do jogo.

Nishikori, por sua vez, evitou um desastre ao vencer o tie-break do primeiro set, mas passou a sacar mal, foi afobado em subidas à rede e até perdeu o controle dos ralis – onde mais levou vantagem no início. Desistiu mentalmente no meio do terceiro set, foi ao banheiro ao fim da parcial e parecia batido no jogo quando teve de encarar break points no quarto game do quarto set.

O japonês se salvou e contou com a sorte. Federer jogou um péssimo quinto game, com subidas à rede precipitadas e um smash fácil errado. Pagou caro e precisou ir a um quinto set que nem deveria ter jogado. Se serve de consolo, o suíço não teve tanto trabalho na parcial decisiva. Nishikori se quebrou no segundo game e pediu atendimento no quadril pouco depois. Federer, finalmente, aproveitou a ladeira abaixo até fechar: 6/7(4), 6/4, 6/1, 4/6 e 6/3.

A consequência matemática

Vice-campeão no ano passado, Murray perde a chance de aumentar consideravelmente sua vantagem para Novak Djokovic, atual campeão. O britânico deixa o torneio com 1.715 pontos de frente, mas poderia ter ampliado a diferença para até 3.535 pontos. Nole, no entanto, tem mais pontos a defender nos próximos meses (ganhou Indian Wells e Miami em 2016), por isso é improvável – não impossível – que Murray tenha o #1 ameaçado até Roland Garros.

A segunda zebra do dia

No último jogo do dia na RLA, foi a vez de Angelique Kerber ser testada de verdade pela primeira vez neste Australian Open. A número 1 do mundo, que já vinha fazendo um torneio bem mais ou menos, não resistiu à agressividade de Coco Vandeweghe e deu adeus: 6/2 e 6/3.

Não foi sequer uma partida equilibrada. A americana agrediu desde o começo, massacrou o serviço da alemã e nem no segundo set, quando Kerber abriu 2/0, houve emoção. Vandeweghe, atual #35, venceu cinco games seguidos, saindo de 1/3 para 6/3. Um resultado que só confirmou o começo de ano ruim da #1. Kerber já vinha de derrotas precoces em Brisbane e Sydney.

A alemã, aliás, pode sair de Melbourne sem a liderança do ranking, já que Serena Williams, vice em 2016, voltará a ser a número 1 se conquistar o título este ano.

Vandeweghe, por sua vez, avança para encarar Garbiñe Muguruza nas quartas de final. A espanhola, atual campeã de Roland Garros, passou fácil por Sorana Cirstea (#78): 6/2 e 6/3. Muguruza será um obstáculo bem diferente para Coco, já que tem poder de fogo para responder do fundo de quadra.

Outros candidatos

A chave feminina também teve vitórias de Anastasia Pavlyuchenkova e Venus Williams. Nenhuma teve trabalho além do esperado, embora ambas tenham feito partidas bastante razoáveis. A russa passou pela compatriota Svetlana Kuznetsova por 6/3 e 6/3 enquanto a americana despachou a alemã Mona Barthel por 6/3 e 7/5. Pavs e Venus se enfrentam nas quartas em busca da vaga na semifinal contra a vencedora de Vandeweghe x Muguruza.

Entre os homens, Stan Wawrinka avançou em três tie-breaks, sendo superior nos momentos decisivos em uma partida que poderia facilmente se complicar contra Andreas Seppi: 7/6(2), 7/6(4) e 7/6(4). O #1 da Suíça agora vai enfrentar Tsonga, que passou por Dan Evans por 6/7(4), 6/2, 6/4 e 6/4. Tanto Wawrinka quanto Tsonga têm a vantagem de, até agora, estarem meio longe dos holofotes. Por enquanto, “o” assunto em Melbourne continua limitado ao Big Four, com tudo que envolveu as derrotas de Murray e Djokovic e as campanhas de Federer e Nadal.

É o típico cenário em que Wawrinka costuma aparecer e brilhar nas fases decisivas. E não seria fantástica uma semifinal entre ele e Federer? O retrospecto recente entre Stan e Jo joga a favor desse cenário. O suíço venceu os quatro últimos jogos.

Observação: o trecho sobre Kerber entra mais tarde.


Que Federer tenha razão sobre 2017
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Alexandre Cossenza

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“Acho que o começo do ano, especialmente o verão australiano, vai ser épico.” A frase é de Roger Federer, em entrevista ao New York Times. O suíço fazia uma análise do que pode acontecer em seu retorno ao circuito mundial e afirmou que, tendo em vista o momento dos quatro integrantes do Big Four, o mundo pode ver histórias sensacionais no começo de 2017. Não era nem um exercício de futurologia. Federer falou com propriedade, e parece justo dizer que mundo inteiro espera que o ex-número 1 do mundo esteja certíssimo.

Dando um desconto pelo manjado uso do adjetivo “épico” (quem me segue no Twitter sabe que acho extremamente irritante e pobre a banalização de termos como “épico” e “histórico”), Federer foi preciso na análise. São quatro grandes histórias em curso. E não digo “histórias” no sentido de carreiras (embora todos tenham feitos, ahem, “históricos”), mas no aspecto jornalístico da coisa. São relatos incríveis que, contextualizados, ganham ainda mais importância. Vejamos:

Andy Murray

É o número 1 do mundo após um segundo semestre espetacular em 2016. É a primeira vez que o escocês abre uma temporada como o homem a ser perseguido. Há certa pressão nisso, mas também conta a seu favor o número menor de pontos a defender até abril em comparação com Djokovic. Resta saber se Murray encontrou/encontrará um nível de conforto em seu tênis para continuar jogando com essa intensidade e vencendo com essa frequência.

Além disso, tem toda a questão psicológica da coisa. Tem gente que se sente à vontade e mais poderoso ainda como número 1 (vide Federer), mas nem todos lidam tão bem assim com todos alvos do planeta apontados para sua cabeça. Como Murray vai se comportar no topo do ranking? Ser número 1 coloca ou tira peso em suas costas? Tudo é questão de perspectiva, e o mundo só vai saber isso com 100% de certeza quando a temporada de 2017 começar.

Novak Djokovic

O homem que dominou o circuito em 2014 e 2015, colocando-se como favorito de uma maneira inédita (mais cotado a vencer qualquer tenista em qualquer piso) no tênis moderno, perdeu gás após completar o Career Slam em Roland Garros. terminou o ano como número 2, contratando uma espécie de guru (embora ele não goste do termo guru) e encerrando a parceria com Boris Becker, que saiu dizendo que faltou dedicação no segundo semestre. Os motivos para a queda de Nole já foram bem discutidos e debatidos neste blog. Os sinais de esgotamento estavam lá para todo mundo ver.

Mas o que vem por aí agora? Becker fará falta? Com Vajda ainda no time, não me parece que o alemão será um desfalque tão grande assim. De qualquer modo, será que o Djokovic faminto e sufocante voltará a dar as caras em 2017? Ou será que vem um ano mais ou menos por aí? É bem verdade que Nole tem tênis de sobra para continuar brigando por títulos mesmo aquém de seu melhor, mas talvez aquele ingrediente que faltou nos últimos meses de 2016 seja necessário para brigar pelo número 1. Ou não? O ATP de Doha, que começa no dia 2 de janeiro, nos dará os primeiros indícios.

Rafael Nadal

A temporada de 2016 deveria ter sido o ano que mostraria onde está de fato o tênis de Rafael Nadal, mas nem isso deu para ver com tanta clareza assim. Uma lesão no punho tirou o espanhol de Roland Garros, que acabou não jogando Wimbledon e até fez uma bela Olimpíada, mas encerrou a temporada mais cedo. Houve (esperados) títulos no saibro, vide Monte Carlo e Barcelona, mas também houve (inesperadas) derrotas doídas, como em Melbourne e Nova York.

Nadal foi melhor quando jogou seu básico – não tão agressivo quanto em 2015 – mas deu a impressão de que seu tênis, hoje, está em uma posição desagradável. Aos 30 anos, Nadal não tem o físico para jogar as partidas e os pontos longos que destruíam mentalmente seus adversários (inclusive fugiu do calor e da umidade de Buenos Aires e do Rio de Janeiro em 2017), mas também não mostrou uma consistência nem técnica nem mental na agressividade que precisa para vencer jogos mais curtos.

Com a contratação de Carlos Moyá para seu time, Nadal mostra que não está satisfeito e busca um olhar diferente para seu jogo. Não ouso especular sobre o que Moyá vai conseguir fazer pelo compatriota, mas é bem possível que 2017 seja o ano do vai-ou-racha para Nadal. Afinal, não me parece que ele ficará satisfeito se repetir os resultados de 2016. Se isso acontecer, será preciso decidir se vale a pena continuar competindo assim.

Roger Federer

A história mais intrigante de 2017. Pela primeira vez na vida, o suíço fará um “retorno” após longa parada. A cirurgia no joelho, no começo do ano passado, já foi uma novidade estranha para Federer. Ele adiou a volta duas vezes (Indian Wells e Miami), disputou torneios no saibro e evitou Roland Garros. Insistiu, jogou três torneios na grama, mas viu que não dava para continuar.

Após seis meses de pausa, é de se esperar que o veterano de 35 anos esteja em plena forma. Afinal, se alguém pode estar em plena forma aos 35, Federer é o nome. Só que o resultado desses seis meses longe do circuito ainda é uma incógnita. É bem provável que ele apareça na Austrália de cabeça fresca e mais motivado do que nunca, o que será extremamente saudável para seu tênis, mas daí a capitalizar isso em resultados é outra história. Que ninguém ouse duvidar do suíço, mas com tanta gente boa surgindo no circuito e com o esporte cada vez mais veloz, a luta pelo 18º Slam só fica mais complicada.

Coisas que eu acho que acho:

– O Big Four caminha para um Australian Open diferente e intrigante. Do jeito que o ranking se mostra, é bem possível que Nadal e Federer estejam fora do grupo dos 8 cabeças de chave. Ou seja, podem enfrentar Murray e/ou Djokovic logo nas oitavas de final, o que encurtaria alguma(s) das quatro histórias acima.

– Além das quatro histórias citadas por Federer, o que não vai faltar é roteiro interessante no início de 2017. Teremos Nick Kyrgios voltando de suspensão (e já falou que pode ganhar este Australian Open); Dominic Thiem ainda tentando se firmar como tenista-de-torneio-grande; Milos Raonic, o #3, indo atrás do sonhado Slam; Wawrinka sendo Wawrinka (leia-se “podendo ganhar de qualquer um a qualquer hora); e até David Ferrer tentando voltar a um lugar mais digno.

– Faltará, obviamente, Juan Martín del Potro, o grande fator de desequilíbrio de 2016. O argentino, campeão da Copa Davis, já anunciou que não vai jogar o Australian Open por questões físicas. Segundo a imprensa argentina, Delpo quer fazer uma boa pré-temporada antes de voltar com força ao circuito.


Andy Murray, o número 1, e a ‘chancela Djokovic’
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Alexandre Cossenza

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Andy Murray foi campeão de Wimbledon, bicampeão dos Jogos Olímpicos e terminou a temporada com o título do ATP Finals. Fez outras duas finais de Slam (perdeu para Djokovic na Austrália e na França), ganhou em Roma, em Queen’s, em Pequim, em Xangai, em Viena e em Paris. A lista é enorme. Venceu 22 jogos seguidos de junho a agosto. De setembro a novembro, estabeleceu outra série enorme, com 24 triunfos. Uma sequência espetacular em que o escocês ainda teve gás para ficar em quadra por 3h38min na semifinal e, no dia seguinte, derrotar o rival na briga pela liderança do ranking.

Os números são, sim, incontestáveis. O número 1 é quem faz mais pontos durante o período de 52 semanas. Ainda assim, pairava para alguns a dúvida: Murray teria assumido a ponta do ranking porque jogou pouco contra o sérvio? Nos quatro confrontos anteriores este ano, Nole triunfou em três. O que aconteceria, então, no embate direto pela ponta do ranking? Pois Murray foi lá e cravou um 6/3 e 6/4 que pareceu mais fácil do que o placar indicou. Não fosse um deslize do britânico no fim do segundo set, Djokovic nem teria tido a chance de esboçar uma reação.

Era a chancela que faltava: número 1 nos pontos, mas com a posição estabelecida em cima do grande rival. Foi o resultado para completar uma temporada memorável. Foi o retrato do segundo semestre, e Murray, é preciso dizer, fez um dos segundos semestres dos mais brilhantes da história. Teria sido ainda mais folgado se os Jogos Olímpicos Rio 2016 dessem pontos no ranking – como em Londres – mas a briga precisava ir até o final. Aos olhos (injustos) de muitos, Murray ainda não tinha a validação necessária como número 1. Pois tem agora.

Sobre a decisão, não há muito a dizer. O britânico foi sólido e agressivo, especialmente com o saque. Apostou em arriscar sempre o primeiro serviço, mesmo dando margem para Djokovic atacar seu segundo saque. Funcionou. O sérvio, por sua vez, atacou menos e mostrou menos precisão. Pouco arriscou com o backhand na paralela – talvez seu golpe mais importante contra Murray. Quando foi para as linhas, quase sempre errou.

Ao insistir na esquerda cruzada, Nole fez o jogo que deixa seu rival mais confortável. Era preciso mexer mais o escocês. Era preciso forçá-lo a usar mais o forehand, golpe bem menos sólido. Djokovic só conseguiu fazer isso no finzinho da segunda parcial. Já era tarde demais. Talvez o sérvio tenha pagado o preço por cair numa chave menos complicada na fase de grupos. Por ter sido menos exigido. Mas a sólida atuação contra Nishikori na semifinal praticamente lhe colocou como favorito ao título.

No entanto, na hora mais importante, o ex-número 1 ficou devendo – como aconteceu quase sempre após Roland Garros. Djokovic falhou em momentos decisivos contra Querrey em Wimbledon, perdeu dois tie-breaks para Del Potro no Rio, tombou na decisão do US Open diante de Wawrinka. Enquanto isso tudo acontecia, Murray fazia sua escalada. Estava mais de oito mil (!!!) pontos atrás do sérvio após o Slam francês. Terminará o ano 630 pontos à frente. Incontestável.


Andy Murray: a mais longa escalada e um digníssimo número 1
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Alexandre Cossenza

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Rankings e títulos são absolutos. O primeiro do ranking é o melhor de um período específico. No caso do tênis, 52 semanas. O campeão foi o melhor daquele evento. O único que não perdeu. Talvez até por isso a gente goste dos clichês dos melhores que não foram.

O melhor a não vencer um Slam, rótulo frequentemente associado a David Nalbandian e uma meia dúzia de outros nomes. O melhor a não ser número 1 do mundo. O melhor a não vencer Wimbledon. O melhor a não ganhar Cincinnati. O melhor a não derrotar um canhoto francês que usa óculos. O melhor que nunca faz alguma coisa. Qualquer coisa. Mesmo.

Andy Murray deve ter sido tudo isso junto em algum momento. Era o melhor dos sem-Slam até 2012. Era o melhor sem Wimbledon até 2013. O melhor a não ser número 1 desde 2011. Há quem diga que o escocês era o melhor tenista da história a não alcançar o topo. Certamente, foi o mais completo não-número 1 que eu vi jogar. Foi. Pretérito perfeito. Tudo isso, todos os rótulos e clichês, entrará para um passado distante e descartável nesta segunda-feira, quando Andy Murray será oficializado como novo número 1 do mundo.

O enorme feito coroa o momento fantástico do britânico, que encerrou 2015 conquistando a Copa Davis (na hercúlea campanha, jogando todas partidas e suportando com ombros largos uma nação sem um segundo simplista confiável) e continuou em 2016 com três finais de Slam, um título de Wimbledon, uma medalha de ouro olímpica, três conquistas em Masters 1.000, uma sequência de 22 vitórias e outra de 19 (por enquanto).

A ascensão de Murray interrompe outra série incrível: Djokovic, em seu terceiro reinado, permaneceu no topo por 122 semanas e chegou a ter oito mil pontos de vantagem sobre o segundo colocado. São quatro Slams de diferença. O sérvio dominou rivais desde 2014 e colocou 2015 no debate das temporadas mais espetaculares da história do tênis.

Esgotamento de um, ascensão de outro

Em 2016, Nole finalmente alcançou a meta em Roland Garros. Depois disso, o que se viu foram sinais seguidos de esgotamento. Falta de motivação, irritação e derrotas que não aconteceriam em outro momento. Sintomas normais em alguém que manteve tanta concentração e dedicação por tanto tempo.

Murray estava lá para dar o bote. Quando viu a chance e a matemática se mostrou favorável, conquistou Viena e chegou a Paris com a linha de chegada à vista. Quase tropeçou na saída, mas se recompôs e contou com uma forcinha de Marin Cilic, que despachou Djokovic. Faltavam ao escocês duas vitórias.

A primeira veio contra Berdych, que ainda brigava por uma vaga no ATP Finals. Mas quem precisa tanto vencer não pode jogar fora um 6/1 de frente num tie-break. O tcheco fez isso, e Murray avançou. Restava ainda um triunfo contra Milos Raonic, mas o rival dominado na final de Wimbledon nem entrou em quadra. Sofreu uma lesão no quadríceps e abandonou.

A ausência de Raonic impediu, obviamente, a empolgação de Murray se tornar número 1 com uma vitória dentro de quadra. Mas que ninguém se engane: não tirou nem um pinguinho de mérito. O escocês chega ao topo porque foi o melhor do planeta nas últimas 52 semanas. Não há o que discutir. E o título, que veio em cima de John Isner, “apenas” fechou a semana perfeita.

O último do Big Four

Murray é apenas o quarto tenista diferente a chegar ao topo nos últimos 13 anos. Entre os quatro (grupo apelidado de Big Four quase uma década atrás), o escocês foi quem mais demorou entre chegar ao segundo lugar do ranking e dar o salto para a liderança. Curiosamente, ele esteve muito mais perto de Federer em 2009, quando o suíço era número 1 com menos de dois mil pontos de vantagem, do que de Djokovic, em outubro do ano passado, quando Murray tomou de vez a vice-liderança. Naquele momento, estava mais de sete mil pontos atrás do sérvio.

Por que essa demora toda para chegar ao topo? Consigo pensar em três motivos óbvios: 1. Djokovic. 2. Nadal. 3. Federer. Na quase sempre injusta comparação entre tenistas de gerações diferentes, é fácil analisar o tênis de Andy Murray e ver que o britânico é mais completo do que boa parte da lista (vide tweet abaixo) de nomes que lideraram o ranking desde o ano 2000. Mas todo esporte tem atletas memoráveis que carregaram o fardo de nascer em gerações de gênios. A maioria, no entanto, esbarra em só um desses privilegiados. Murray precisou encarar três. Somou vitórias aqui e ali (várias), mas nunca o suficiente para dar o salto ao topo. Agora, em 2016, chegou a hora.

Obstáculos e inspiração

Não dá para não considerar aqui o fato de que Murray foi quem mais teve de ultrapassar barreiras para chegar ao topo. Desde a infância e o Massacre de Dunblane, quando ele e Jamie nem pensavam e se tornar tenistas do calibre atual, incluindo o enorme peso de se tornar o principal nome britânico e esperança de uma nação sedenta pelo fim do jejum de mais de 70 anos em Wimbledon, enfrentando também as menções preconceituosas sobre o britânico-que-vence e o escocês-que-perde vindo de uma imprensa que mal respeita sua privacidade, e ainda tendo de entrar em quadra contra monstros do nível de Federer, Nadal e Djokovic. Não bastasse tudo isso, passou por uma delicada cirurgia nas costas quando vivia o melhor momento de seu tênis e viu Ivan Lendl, técnico com quem conquistou o primeiro Slam, pedir demissão para passar mais tempo em casa.

Murray lidou com tudo isso sem mudar seu jeito de ser. Jamais forçou sorrisos para câmeras, nunca tentou ser quem não é. Aceitou que nunca teria o carisma de um Federer e viveu em paz com isso, construindo uma carreira brilhante (já são três Slams, dois ouros olímpicos em simples e 43 títulos) e tomando as decisões que acreditava serem as melhores em determinados momentos. Aos poucos, foi alcançando seus objetivos. Um ouro, um Slam, uma Davis, e o sonho de ser número 1 nunca deixou de existir. Ele agora é real. Andy Murray alcançou o topo e nos deixou ainda mais uma lição.

If….

A photo posted by Andy Murray (@andymurray) on

No Instagram, o escocês postou o poema “If”, de Rudyard Kipling, o mesmo que tem versos em uma parede do All England Club, em Wimbledon. O texto fala de lidar com adversidades, de tratar vitórias e derrotas de forma semelhante, de manter os valores em qualquer situação, de amadurecer. A escolha não poderia ter sido melhor. Murray é enorme com forehands e backhands, mas um gigante nas entrevistas, nos gestos e nos valores que escolheu para tocar uma carreira e uma vida. O tênis masculino continua muito bem de número 1.


Wimbledon, dia 13: Andy Murray, o campeão, voltou
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Alexandre Cossenza

Três anos, 12 torneios, uma cirurgia nas costas, um pedido de demissão de Ivan Lendl, quatro finais e uma recontratação de Ivan Lendl depois, aconteceu outra vez. Andy Murray é campeão de um Slam. O herói britânico, o homem que carregou o Reino Unido nas costas na Copa Davis, triunfa em casa, em Wimbledon, mais uma vez. Com uma atuação inteligente, consistente e digna de todo seu potencial, fez o gigante Milos Raonic parecer um atleta mediano, de poucos recursos. Aplicou 6/4, 7/6(3) e 7/6(2) e voltou a reinar na Quadra Central.

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A conquista não deixa de ser um prêmio gigante para quem enfrentou tanto em tão pouco tempo. Quando precisou passar por uma cirurgia nas costas, em 2013, Andy Murray vivia provavelmente o melhor momento de sua carreira até então. Disputou quatro finais de Slam seguidas (2012-13) e conquistou a medalha de ouro olímpica em simples. A operação foi realizada em setembro. Em março, Ivan Lendl pediu demissão. Queria mais tempo para seus próprios projetos. Foi um baque enorme para o número 1 britânico, que ainda tentava voltar ao nível competitivo de antes da cirurgia. O timing da separação foi o pior possível.

Era preciso readquirir confiança no corpo, conseguir um novo treinador e, ao mesmo tempo, encontrar uma maneira de ser competitivo e voltar a brigar com gente do nível de Djokovic, Nadal e Federer. A temporada de 2014 mostrou-se cedo demais para isso. Em 2015, já foi bem diferente. Murray fez uma final em Melbourne, semifinais em Roland Garros e Wimbledon e carregou a Grã-Bretanha ao título da Copa Davis em uma campanha fantástica, jogando sempre pressionado e sem um segundo simplista para apoiá-lo.

Faltava pouco, e veio 2016. Uma final na Austrália, um vice. Uma final em Roland Garros, outro vice. O título batia na trave, resvalando no espetacular tênis de Djokovic. Até que veio Wimbledon, onde tudo parece se encaixar para o jogo de Murray. Poderia ter acontecido em 2015, mas Federer tirou da cartola, naquela semifinal, possivelmente seu melhor jogo nos últimos cinco anos. Este ano, não. Tsonga ameaçou, mas não conseguiu; Berdych nem deu para a saída; e Raonic fez o que pôde, mas não foi o suficiente. Andy Murray e seu tênis gigante, cheio de recursos, triunfam novamente no maior dos palcos.

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O jogo

O primeiro set foi maiúsculo. Murray fez tudo que tirou Raonic da zona de conforto. Leu e devolveu saques bem com o backhand, não bateu duas bolas seguidas na mesma direção, forçando o grandão a se movimentar, e foi preciso nas passadas. Enquanto isso, o canadense apostou em variações no serviço que não funcionaram (apenas um ace na parcial) e subiu mal à rede. Foi num desses approaches no meio da quadra, aliás, que Murray conseguiu a única quebra do set.

A segunda parcial não foi muito diferente no ponto-a-ponto, mas as falhas vieram nos momentos mais delicados. Break points vieram e se foram em três games diferentes. No nono game, o escocês jogou duas ótimas chances na rede. Primeiro, com um slice. Depois, com uma direita nada forçada. Raonic tentou coisas diferentes. Arriscou do fundo, subiu à rede, sacou mais forte. Disparou, inclusive, o serviço mais rápido do torneio. E olha o que aconteceu…

Ainda assim, o canadense poderia ter equilibrado o jogo no tie-break do segundo set. Só que o dia era de Murray. O escocês foi perfeito. Abriu 6/1, fechou em 7/3. Faltava só um set para o bicampeonato em Wimbledon.

Raonic tentou um pouco de tudo. Do fundo de quadra, ficava no prejuízo. Quando tentava subir, era vítima de passadas precisas, quase sempre de backhand e na cruzada. Curtinhas não eram opção contra a velocidade de Murray. Slices não faziam diferença. Ainda assim, o canadense teve uma fresta para entrar no jogo. Dois break points no quinto game. Errou uma devolução e um slice. Ambos na rede. Murray confirmou, e outro tie-break foi necessário.

Era o momento para decidir, e Murray foi enfático. Uma passada de backhand lhe deu o primeiro mini-break. Um par de winners lhe colocou na frente de vez. Quando Raonic fez seu primeiro ponto, já perdia por 5/0. Faltava pouco, e o adversário não teve mais chances. Andy Murray, de volta a seu melhor nível, de volta com Ivan Lendl, e com o troféu de volta às mãos.

O efeito Lendl

Tudo bem, são três títulos de Slam ao lado de Ivan Lendl. Nenhum sem ele. Ainda assim, talvez seja o caso de não superestimar a influência do técnico. Ou não de subestimar a importância de Amélie Mauresmo, que esteve ao lado de Murray em dias mais complicados. As duas finais em Melbourne foram ao lado da francesa. A semi de Wimbledon/2015 também. Não faltou tanto assim. De qualquer modo, os números ao lado de Lendl são relevantes:

O ranking

Com o resultado deste domingo, Andy Murray reduziu significativamente a vantagem de Novak Djokovic na liderança do ranking. Ainda assim, o sérvio continua com folga no topo, somando 15.040 pontos contra 10.195 do escocês. A diferença, que era de 8.035 pontos, cai para 4.845.

O top 10 não sofreu grandes mudanças e fica assim: Djokovic, Murray, Federer, Nadal, Wawrinka, Nishikori, Raonic, Berdych, Thiem e Tsonga. Raonic, não sobe, mas cola em Nishikori e se aproxima de Wawrinka. Tsonga subiu duas posições e voltou ao grupo, no lugar de Gasquet.

O melhor vídeo

Murray conseguiu uma dúzia de passadas bacanas contra Raonic na final, mas minha imagem preferida deste domingo ainda é essa…

Os melhores momentos

Ainda assim, vale ver os melhores momentos do jogo. Por que não?


Quadra 18: S01E20
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Alexandre Cossenza

Andy Murray colocou o Reino Unido nas costas no início do ano e suportou o peso até o fim. No último domingo, derrotou David Goffin, conquistando sua 11ª vitória em 11 jogos disputados em 2015 e deu à Grã-Bretanha seu primeiro título de Copa Davis desde 1936. Por isso, o podcast Quadra 18 desta semana é inteiramente dedicado à competição.

Aliny Calejon, Sheila Vieira e eu comentamos a decisão contra a Bélgica, os principais méritos do time britânico e, claro, as muitas qualidades de Andy Murray, o maior responsável pelo título.

Para ouvir, basta clicar no player acima. Se preferir, clique com o botão direito do mouse neste link e, depois, em “salvar como” para baixar o episódio e ouvir mais tarde.

Ah, sim: também falamos sobre o que esperar da Copa Davis em 2016, lembrando os primeiros confrontos da próxima temporada e fazendo comentários divertidos sobre os Zonais pelo mundo.

Os temas

Este post será atualizado em breve com a lista de assuntos abordados.

Créditos musicais

A faixa de abertura tinha que ser de uma banda escocesa, né? Michael (Franz Ferdinand) foi a escolhida. No fim, a pouco conhecida Under the Lights (Keith Meisner), sobre – surpresa! – Andy Murray.


Deus salve Andy Murray
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Alexandre Cossenza

Nunca um tenista fez tanto na história do Grupo Mundial da Copa Davis. E não é só isso: nunca um tenista precisou fazer tanto para conquistar o título. Em quatro fins de semana, Andy Murray entrou em quadra 11 vezes. Saiu vencedor em todas, sem exceção. Principal integrante de uma nação que não gerou outro simplista de peso desde Tim Henman, o britânico carregou o Reino Unido nas costas na quadra dura, na grama e no saibro; na Escócia, na Inglaterra e na Bélgica. E, ao derrotar David Goffin por 6/3, 7/5 e 6/3 neste domingo, completou uma das campanhas mais espetaculares da história da competição.

É o primeiro título da Grã-Bretanha na Copa Davis desde 1936, quando Fred Perry deu o quinto e decisivo ponto a seu time. O mesmo Perry que era lembrado anualmente enquanto o jejum de títulos britânicos em Wimbledon aumentava. E foi Andy Murray que, 77 anos depois, deu um título ao país no mais importante e cobiçado torneio do planeta.

Feito atrás de feito, Murray vai escrevendo seu nome nas listas mais relevantes da modalidade. Uma medalha de ouro nas simples (em Wimbledon, derrotando Roger Federer em sets diretos na final), títulos de Grand Slam e, agora, a Copa Davis. Tudo isso precisando lidar com a incômoda imprensa britânica, a eterna e sensível relação Escócia-Inglaterra e uma delicadíssima cirurgia nas costas que interrompeu seu melhor momento no circuito mundial (lembremos do massacre de Dunblane também).

Murray encerra assim a melhor temporada de sua carreira até agora. Dono da Copa Davis e número 2 do mundo mesmo colocando a competição por equipes acima de torneios individuais em sua lista de prioridades. Afinal, quantos tenistas já sacrificaram campanhas no ATP Finals em nome da final da Davis? Essa é só uma das muitas características espetaculares de um atleta que encara de frente todas adversidades extras e uma geração fantástica de oponentes que a vida lhe impôs. E, mesmo diante disso tudo, segue alcançando feitos gigantes.

O confronto

Quando o confronto começou, parecia que Murray nem precisaria desse 11º jogo. Um pouco pelos nervos de Goffin, um pouco pelo talento de Kyle Edmund e mais um pouco pela “inconsciência” do garotão britânico de 20 anos, que fazia sua estreia em Copa Davis logo em uma final e não parecia sentir/entender o peso do momento, parecia que os britânicos levariam o improvável primeiro ponto.

Enquanto Goffin brigava contra a tensão, Edmund soltou o braço, acertou quase tudo e abriu 6/3 e 6/1. Seria um baque enorme para o time da casa, não fosse a recuperação de seu número 1. Goffin entrou nos eixos e, como quase sempre acontece no tênis, a ascensão de um significa a queda de outro. O britânico nascido na África do Sul viu sua carruagem virar abóbora. Depois de fechar o segundo set, venceu apenas três games. Bélgica 1 x 0 Grã-Bretanha: 3/6, 1/6, 6/2, 6/1 e 6/0.

Chegou, então, a hora da estreia do herói do fim de semana. Favoritíssimo contra Ruben Bemelmans, #108, Murray não decepcionou. Teve alguns momentos de oscilação, especialmente quando a torcida cresceu no segundo set. Uma de suas crises nervosas lhe rendeu até um point penalty, mas nada que lhe tirasse da dianteira. No fim, fez 6/3, 6/2 e 7/5, tranquilizando o Reino Unido e mostrando que quem carregou o peso de uma nação inteira nas costas até ganhar seu primeiro Slam não sofreria com a tamanho de uma final de Copa Davis.

O sábado chegou com o momento crítico do jogo de duplas. Uma vitória belga significaria que Murray poderia vencer no domingo e, ainda assim, o time da casa teria uma chance considerável de vitória. Um triunfo britânico deixaria o destino do duelo na raquete de Murray.

Johan van Herck, o capitão belga, talvez visse a vitória no sábado como a única chance real de um triunfo. Por isso, em vez do inicialmente escalado Kimmer Coppejans (21 anos, #128 de simples), quem entrou em quadra foi David Goffin ao lado de Steve Darcis. Uma manobra arriscada, já que Goffin perderia a única vantagem óbvia que teria sobre Andy: chegar menos cansado no domingo.

Diante de um Jamie Murray errático, a dupla belga foi superior durante a maior parte dos dois sets iniciais. Na primeira parcial, Darcis, melhor belga em quadra, teve o primeiro break point do jogo no nono game, mas jogou uma devolução na rede. No game seguinte, o mesmo Darcis jogou um smash para fora, cedendo um set point. O time britânico aproveitou e saiu na frente: 6/4.

No segundo set, uma quebra no terceiro game deixou a Bélgica à frente. Os donos da casa mantiveram a frente, fecharam a parcial e continuaram melhores. Darcis e Goffin quebraram primeiro no terceiro set, mas não conseguiram deslanchar e jogar a pressão nos visitantes. Andy e Jamie quebraram de volta no game seguinte e cresceram no jogo. Fizeram 6/3 e tomaram a dianteira de vez.

O maior desafio para os britânicos era fazer Jamie subir à rede com eficiência, sem ficar exposto no fundo de quadra, onde Goffin e Darcis são mais consistentes, nem ser pego com um golpe violento na subida. No quarto set, os escoceses tiveram mais sucesso. Conseguiram uma quebra no terceiro game e sobreviveram a um longuíssimo quarto game, salvando sete break points e consolidando a vantagem. Depois disso, não olharam mais para trás. O placar no fim do dia mostrava Bélgica 1 x 2 Grã-Bretanha, com as parciais do dia em 6/4, 4/6, 6/3 e 6/2.

O domingo não poderia ser muito diferente. Depois de dez vitórias, a 11ª parecia questão de tempo. Goffin, justiça seja feita, fez uma tentativa digna. Esteve bem nas trocas do fundo de quadra e tentou sempre comandar os pontos. Pecou, porém, taticamente ao insistir com o segundo saque no backhand do britânico. Pagou o preço por isso no primeiro set e só não lhe custou tanto no segundo porque Murray errou mais devoluções do que de costume.

Goffin também bobeou no 11º game, quando tentou uma curtinha com Murray batido e errou. Em vez de abrir 30/0, deixou o placar em 15/15. O britânico acabou quebrando o serviço do belga no embalo e, depois, saiu de 0/30 para fechar a segunda parcial com um dos pontos mais espetaculares do dia.

O número 1 da Bélgica ainda teve uma pequena chance de reagir, quando conseguiu quebrar Murray no início do terceiro set. O britânico, no entanto, respondeu rápido, quebrando de volta no game seguinte. E seguiu no jogo, enquanto Goffin lutava bravamente. mas era pedir demais do tenista da casa, que já vinha com 11 sets nas costas a essa altura. Murray quebrou, abriu 4/3 e não olhou para trás. Fechou a partida com um lob top spin – marca registrada – em mais um ponto memorável e desabou em lágrimas com a bandeira britânica.

Coisas que eu acho que acho:

– Desde 2007, uma dupla formada por irmãos não jogava uma final de Copa Davis. Antes da grande ocasião, Andy e Jamie toparam a brincadeira que resultou no vídeo publicado pela federação britânica. Vale a pena ver:

– Desde a adoção do formato do Grupo Mundial, em 1981, John McEnroe tem o recorde de melhor campanha, com 12 vitórias e nenhuma derrota. Naquele ano, porém, o americano jogou três dead rubbers – partidas realizadas com o confronto já decidido. Andy Murray fez as 11 partidas válidas (live rubbers).

– Sobre a atuação de Jamie, é bem verdade que o Murray mais velho ficou abaixo do esperado, e foi Andy quem carregou o time durante a maior parte do tempo. Não vale a pena, contudo, entrar em pânico antecipado a respeito do futuro parceiro de Bruno Soares. Primeiro, é preciso considerar o tamanho da ocasião e tudo que havia em jogo. Depois, lembremos que o saibro não é lá o melhor piso para o jogo de Jamie, um tenista bem mais eficiente na rede do que no fundo. E não esqueçamos de como ele carregou John Peers a duas finais de Slam em 2015. É equivocado – ou, em alguns casos, burrice mesmo – julgar Jamie por uma partida.

– Em toda campanha britânica na Davis este ano, a única vitória de um tenista não chamado Murray aconteceu na primeira rodada, quando James Ward bateu John Isner por 15/13 no quinto set, em Glasgow. Foi esse resultado, aliás, que possibilitou o descanso para Andy no sábado. Jamie jogou ao lado de Dominic Inglot e foi derrotado pelos irmãos Bryan por 9/7 no quinto set.

– Aconteceu logo depois do match point. A equipe britânica invadiu a quadra e foi comemorar com Andy Murray, que estava estirado no saibro. Andy, então, levantou e deixou seu time ali enquanto correu para cumprimentar Goffin e o resto da delegação belga. Gesto lindíssimo de uma pessoa fantástica.

– A maior vitória do fim de semana foi, felizmente, da paz. Depois dos dias tensos na Bélgica – principalmente em Bruxelas -, com suspeitos presos, caçadas a terroristas e até uma ameaça de atentado, é um alívio ver a Copa Davis chegar ao fim sem incidentes do tipo. O planeta agradece.


O número 1 ao alcance de Marcelo Melo
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Alexandre Cossenza

Já são 18 torneios, cinco parceiros diferentes e quatro títulos conquistados. Em 2015, Marcelo Melo jogou com Max Mirnyi, Julian Knowle e Bruno Soares. Com Ivan Dodid, seu parceiro habitual, venceu Acapulco e Roland Garros, Com o sul-africano Raven Klaasen, companheiro das últimas duas semanas, varreu Japão e Xangai. E agora, depois de dois títulos consecutivos, Marcelo Melo se aproxima enormemente do posto de duplista número 1 do mundo. Sim, é verdade.

Foi na quinta-feira que a Aliny Calejon, colega do podcast Quadra 18, alertou para a nada desprezível chance de o mineiro encostar e, talvez, ultrapassar os irmãos Bryan. Segundo as contas dela, Marcelo pode sair de Viena, seu próximo ATP, apenas 190 pontos atrás de Bob e Mike. Os gêmeos americanos, vale lembrar, têm 2.300 pontos a defender no Masters 1.000 de Paris e no ATP Finals, já que venceram ambos no ano passado. Enquanto isso, Marcelo somou “apenas” 800 no torneio londrino em 2014, depois de zerar na França. Ou seja, a chance existe e não é nada, nada pequena.

Em Viena, Melo joga ao lado do polonês Lukasz Kubot em uma chave pequena, mas nada fácil. A estreia será contra os colombianos Juan Sebastián Cabal e Robert Farah. A curiosidade da semana, contudo, fica por conta de Mike Bryan, que jogará sem o irmão pela primeira vez desde 2002. Seu parceiro no torneio será o também americano Steve Johnson.

O resultado disso é que os dois irmãos podem se separar no ranking. E como todo “pode” deveria vir sempre acompanhado de “ou não”, vale apontar que Mike e Steve Johnson estrearão em Viena contra Jamie Murray e John Peers, vice-campeões de Wimbledon e do US Open. Se escocês e australiano vencerem, manterão os gêmeos juntos no ranking e darão uma forcinha a Marcelo Melo.

Público existe ou se faz?

A nota triste sobre isso é que o SporTV novamente não mostrou uma final de Masters 1.000 envolvendo Marcelo Melo. Já havia acontecido dois anos atrás, quando ele venceu o mesmo torneio, junto com Ivan Dodig. Conversei na época com uma pessoa do canal sobre isso. Ela me respondeu o seguinte: “É dupla e de madrugada. Não tem público.”

Esse raciocínio tem lá sua lógica. Por que gastar e movimentar uma equipe de transmissão na madrugada se a audiência não é tanta assim? Há quem diga, no entanto, que “público se faz.” Quando o canal faz uma cobertura boa e valoriza o produto que tem, a audiência cresce. Um bom exemplo seria o público de NFL, que cresceu bastante no Brasil desde que a ESPN adquiriu os direitos exclusivos e mostra vários jogos por rodada. Parece ser um debate interessante.

A temporada espetacular

Desde o US Open, última vez que postei sobre o circuito masculino, pouca coisa mudou – a não ser pela espantosa derrota de Roger Federer para Albert Ramos-Viñolas na primeira rodada em Xangai. No topo do ranking, Novak Djokovic continua imbatível. Venceu Pequim (500) e Xangai (1.000) de forma absoluta. Foram dez vitórias sem perder sets e apenas dois rivais conseguiram vencer pelo menos quatro games em um set: Tomic e Tsonga, ambos em Xangai.

A sequência, não esqueçamos, incluiu partidas contra David Ferrer, John Isner, David Ferrer, Rafael Nadal e Andy Murray. É assustadora a superioridade do sérvio neste momento. Sua vantagem sobre o escocês, atual número 2 do ranking, já é de mais de oito mil pontos (o equivalente a quatro títulos de Grand Slam). Seus resultados são comparáveis aos da fantástica temporada de 2011. Melhores, talvez? É outro debate interessante.

Há até quem considere a possibilidade de ser a melhor temporada da Era Aberta, mas é um argumento difícil de se fazer. Além de todas as ressalvas costumeiras (momentos, adversários e tecnologias diferentes), é preciso considerar que Rod Laver, lá atrás, venceu os quatro Slams no mesmo ano. Seria, então, a melhor campanha da Era Aberta com três Slams no mesmo ano? Talvez, mas “três Slams no mesmo ano” já é um asterisco que, pelo menos para mim, faz a comparação perder o sentido. Nada disso, no entanto, altera o inegável: é um ano memorável para o sérvio.

O recorde que não foi

Outro tema interessante (desde o último post sobre ATP aqui no Saque e Voleio) foi o recorde de aces quebrado por Ivo Karlovic, que superou o compatriota Goran Ivanisevic durante o ATP de Pequim. Dr. Ivo agora tem 10.247 (considerando que ele não sacará mais nenhum até a publicação deste post) saques indefensáveis na carreira contra 10.237 de Ivanisevic.

Entretanto, a marca de Karlovic, muito divulgada pela ATP (que precisa de assunto nesse período pós-US Open e pré-Finals), também já vem sendo bastante contestada. Não pelos números que existem, que são incontestáveis, mas pelos que nunca foram (nem serão) registrados. Este texto do Tennis Abstract, por exemplo, lembra que são muitas as partidas não contabilizadas de Ivanisevic. Segundo uma estimativa do site, Goran teria algo perto de 12.550 aces – número que dificilmente seria alcançado pelo compatriota.


Quadra 18: S01E12
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Alexandre Cossenza

Andy Murray foi campeão em Montreal, Belinda Bencic derrubou o mundo inteiro – inclusive Serena Williams em Toronto, e australianos se envolveram em confusões (barracos, tretas, você escolhe a palavra) no Canadá e nos Estados Unidos. Cheio de assunto, o podcast Quadra 18 está de volta, com seu 12º episódio.

Aliny Calejon, Sheila Vieira e eu falamos bastante sobre tudo acima, lembramos do título de Rogerinho no Challenger de Praga, respondemos perguntas de ouvintes ilustres (Bruno Soares participou) e voltamos a falar de Brasil x Croácia pela Copa Davis. Cliquem abaixo para ouvir.

Se preferir, faça o download do arquivo e ouça depois. Para isso, basta clicar no link com o botão direito do mouse e “gravar como”. E divirta-se!

Os temas

Como de costume, segue abaixo a lista de assuntos abordados no programa, com o momento em que falamos sobre cada um dos temas. Quem preferir, pode avançar direto até o trecho que quiser ouvir primeiro.

01’55” – Momento “Chupa Kyrgios”
02’45” – Kyrgios x Wawrinka: dissecando o barraco
06’48” – “Cogumelo no palito”
07’38” – Como Kyrgios pode aprender com o episódio
09’42” – Redes sociais afetando a repercussão das brigas
12’52” – O barraco Harrison x Kokkinakis
15’40” – Austrália, a terra da polêmica
20’00” – Montreal: Murray vira número 2 do mundo
21’04” – O retorno de Murray ao topo
22’52” – Cossenza analisa a final Muurray x Djokovic
23’50” – Sheila questiona a motivação de Djokovic em Montreal
25’35” – A vitória fácil de Nishikori sobre Nadal
27’00” – Nishikori sente fisicamente outra vez
28’55” – A incrível campanha de Bencic em Toronto
33’34” – Serena se irrita com fogos de artifício
35’10” – Azarenka perde outra grande oportunidade
37’30” – O vestido dourado de Radwanska
38’25” – Petra Kvitova e a mononucleose
40’57” – Aliny repassa a ótima campanha de Peya/Soares em Montreal
43’00” – Bruno Soares alcança 300 vitórias na carreira
45’23” – Explicação e desabafos sobre as transmissões dos jogos de duplas
52’57” – “Volta, Sarney”
52’40” – O retorno de Rogerinho
55’20” – O lugar de Feijão na Davis está ameaçado?
59’00” – Bruno Soares pergunta: “Que tal Florianópolis para sediar a Davis?”

Créditos musicais

A faixa de abertura do podcast, chamada “Rock Funk Beast”, é de longzijun. As demais faixas deste episódio são chamadas “Hang For Days” e “Game Set Match”. As duas últimas fazem parte da audio library do YouTube.


Sobre balões, doppelgangers e favoritismo
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Alexandre Cossenza

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Mais uma semana no saibro, mais um título de Novak Djokovic, mais uma atuação abaixo do esperado de Rafael Nadal. O Masters 1.000 de Roma teria sido mais interessante se Andy Murray não tivesse abandonado e se Stan Wawrinka tivesse dado as caras na semifinal, mas há, assim mesmo, um bocado de pontos interessantes a levantar sobre os últimos dias.

Novak Djokovic terminou o torneio de forma espetacular. Deu respostas a tudo que Federer tentou. Fez curtinhas, devoluções vencedoras e sacou como nunca. Sua velocidade lateral e seus contragolpes foram muitos e com muita frequência para o suíço. Como sempre, Nole também usou ângulos magistralmente, conseguindo manter o rival na defensiva em muitos momentos. Não foi uma semana perfeita, mas foi uma final fantástica do sérvio.

Em números, Djokovic agora tem 22 vitórias seguidas no circuito – e são 37 se contarmos apenas os torneios de nível mais alto (Masters, ATP Finals e Grand Slams). O número 1 do mundo venceu todos Masters que jogou em 2015 (Indian Wells, Miami, Monte Carlo e Roma) e chegará a Roland Garros invicto no saibro, mais favorito do que nunca a completar seu Career Slam (todos os títulos de Grand Slam, mesmo que em temporadas diferentes).

Nole perdeu sets em três jogos na semana, mas em apenas um teve de correr atrás. Foi contra Thomaz Bellucci, que fez uma belíssima apresentação durante a maior parte do tempo. Sobre essa partida em especial, vale destacar o momento em que, no começo do segundo set, Djokovic resolveu usar bolas mais altas e mais lentas. Fez isso uma vez e ganhou o ponto (vejam no vídeo abaixo). E, coincidência ou não, foi naquele mesmo game que o sérvio quebrou o serviço Bellucci pela primeira vez, iniciando a virada. A partida tomou um rumo diferente a partir dali.

Balões não são um meio de vida nesse nível. Tanto que Djokovic tentou o mesmo no ponto seguinte e levou um winner. Mas variar peso e altura de bola, especialmente se o oponente se mostra confortável do fundo de quadra, é um recurso interessante. Possivelmente não teria funcionado por muito tempo. Deu, no entanto, o resultado que Nole precisava naquele momento. Leitura de jogo e mudanças táticas são qualidades um tanto menosprezadas em tenistas tão talentosos como o sérvio. Ainda há quem o considere um robô devolvedor de bolas. Bobagem (e Djokovic já seria espetacular se fosse “só” isso). Inteligência e variação ganham jogo. E o atual número 1 é o tenista mais completo da atualidade.

Sobre Thomaz Bellucci, as três últimas semanas são animadoras. Fez quartas de final em Istambul, furou o quali e avançou uma rodada em Madri, e foi uma fase ainda mais longe em Roma. Bons resultados, ainda que com um par de chances desperdiçadas pelo caminho (escrevo o post antes do ATP de Genebra).

Talvez seja mais interessante basear o otimismo no conjunto das três semanas e não na atuação diante de Djokovic. Bellucci, afinal, tem um quê de doppelganger. Não é de hoje que o paulista faz partidas excelentes contra grandes tenistas como Nole, Federer e Nadal, mas também sofre com atuações bem abaixo do esperado contra adversários com menos recursos. Vale lembrar que sua última partida contra o sérvio (aquela excelente semifinal de Madri/2011) foi seguida de um revés diante de Paolo Lorenzi, então número 148 mundo. Logo, cabe uma pitada de cautela nesse otimismo bellucciano pré-Roland Garros.

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O curioso sobre o cenário do saibro este ano é que, segundo a maioria das casas de apostas, Andy Murray é o terceiro mais cotado ao título do Grand Slam parisiense. O escocês, afinal, chegará à capital francesa invicto no piso – ganhou Munique e Madri e desistiu em Roma alegando cansaço (méritos por não usar o cada vez mais popular recurso de inventar uma lesão). Está em boa fase e tem tantas armas que candidata-se seriamente ao título – pela primeira vez.

Federer é o quarto e, às vezes, o quinto nome nas casas de apostas (há quem coloque Nishikori à sua frente na lista de favoritos). Ninguém duvida que o suíço seja capaz de ir longe em Paris, mas derrotar Djokovic ou Nadal em uma melhor de cinco sets no saibro parece menos provável a cada dia. Apesar do ótimo resultado em Roma, Federer ainda é quem mais oscila nesse grupo de cima.

O segundo nome mais cotado ainda é o de Rafael Nadal. Pesa, nitidamente, o histórico de nove títulos em Paris. Entra nessa conta também o fato de Roland Garros ser disputado em melhor de cinco sets, onde sua consistência costuma fazer diferença. Ah, sim: para muitos, falta pouco para o espanhol reencontrar o caminho até as vitórias. Nas últimas três derrotas, jogou um belíssimo tênis em alguns momentos. Faltou, porém, encaixar sequências e aproveitar as quebras de vantagem que teve contra Fognini e Wawrinka. Nadal ainda terá uma semana até o começo de Roland Garros e, provavelmente, outra semana para calibrar seu jogo até encontrar os adversários mais fortes da chave.

O ponto de interrogação continua e, com Nadal em sétimo lugar no ranking, o sorteio da chave de Roland Garros pode fazer uma diferença enorme no resultado final. Resta esperar até lá.


Sobre Murray e o mais intrigante dos cenários no saibro
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Alexandre Cossenza

Murray_Madri_F_afp_blog

Após quatro semanas de torneios na Europa, todo mundo já sujou as meias e deu aquelas raquetadas no tênis para tirar o saibro da sola. Logo, o circuito já passou por um CTRL+Z no blur e começa a ficar claro quem é quem no período que antecede o Grand Slam da terra batida. É o momento, então, de avaliar em que pé estão os principais candidatos ao título de Roland Garros.

O nome do momento, claro, é Andy Murray. O britânico, que nunca venceu um torneio de ATP no saibro como solteiro, casou-se na semana de Monte Carlo e não perde desde então. Faturou Munique, um torneio tumultuado pela chuva e que só terminou na segunda-feira, e deu sequência com uma semana fantástica em Madri. Nas semifinais, derrubou Kei Nishikori – campeão em Barcelona – e, na decisão, superou Rafael Nadal em menos de 1h30min, num 6/3 e 6/2 surpreendentemente sem drama. Um resultado que o coloca instantaneamente como forte candidato ao título em Paris – não confundir “forte candidato” com “favorito”, por favor.

Sobre as campanhas do escocês, que soma nove vitórias seguidas, vale apontar alguns pontos. O mais importante deles é que Murray vem usando bem todos seus recursos – que não são poucos – e variando inteligentemente o jogo de acordo com adversário e momento. Na final, sacou muito bem quando esteve diante de break points e distribuiu o jogo do fundo de quadra, encontrando um equilíbrio quase perfeito, sem correr riscos desnecessários numa noite em que Nadal estava claramente jogando um tênis abaixo de seu normal.

O outro ponto a destacar foi a pitada de sorte na chave. Murray chegou a Madri atrasado por causa da final na segunda-feira em Munique e deve ter ficado um tanto feliz ao saber que seu primeiro adversário seria Philipp Kohlschreiber, o mesmo que derrotou no torneio alemão. Não só pelo triunfo recente, mas porque não seria necessário encarar um oponente mais descansado ou mais adaptado às condições de Madri. De resto, jogou muito tênis e fim de papo. Em sete dias, colocou-se entre os nomes mais fortes em Paris.

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Rafael Nadal, por sua vez, continua com um ponto de interrogação de tamanho considerável sobre sua bandana. Ao longo dos três torneios que disputou (Monte Carlo, Barcelona e Madri), foi evoluindo e, quando fez uma ótima partida contra Tomas Berdych na semifinal do último sábado, levou muita gente a acreditar que atropelaria na final. Pois viveu outro dos dias inconstantes que vêm lhe incomodando desde o início da temporada. Não me parece alarmante, ainda que seja incomum vê-lo ficar três semanas sem ser campeão no saibro.

Vale a ressalva: boa parte da preocupação com os resultados do ex-número 1 do mundo vem de seu currículo no saibro: nove títulos em Roland Garros, oito em Monte Carlo, oito em Barcelona e sete em Roma. Tamanho domínio não duraria para sempre. E já não aconteceu no ano passado, quando, lembremos, Nadal tornou-se eneacampeão em Paris. A falta de títulos em 2015 talvez signifique que o espanhol não será tão favorito quanto em outras temporadas, mas ainda será um feito e tanto se alguém derrotá-lo na terra batida em um jogo melhor de cinco sets.

O grande favorito ainda é Novak Djokovic, e sua ausência em Madri não enfraqueceu em nada seu status – pelo menos nos olhos de seus oponentes. Para muitos, Andy Murray só levantou o Dildo Dourado (vide foto acima) porque o número 1 do mundo não esteve na capital espanhola. Portanto, o sérvio ainda chega (descansado!) a Roma como o homem a ser batido no momento.

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Quanto a Roger Federer, o torneio de Istambul provou-se inconclusivo. Somando Monte Carlo e Madri, o suíço fez três jogos e perdeu dois – em chaves complicadas, é bom frisar. A derrota para Nick Kyrgios na Espanha foi tão precoce que quase forçou o número 2 do mundo a ir a Roma, que não estava nos planos. Ainda há tempo para adquirir ritmo e confiança, já que o sorteio italiano lhe foi mais favorável. Por enquanto, Federer corre por fora, talvez emparelhado com Kei Nishikori, que venceu Barcelona (onde escapou dos nomes mais fortes da chave) e fazia um grande torneio em Madri até esbarrar em Murray.

Também fazendo a curva por fora, mas alguns corpos atrás, vem uma turma com Berdych, Isner, Kyrgios (os três estavam no quadrante de Federer em Madri!), Raonic e Ferrer. Wawrinka e Dimitrov também estão por ali. Todos esses nomes são capazes, no dia certo, de derrotar qualquer nome na chave. Logo, o cenário que se desenha para Roland Garros é o mais interessante dos últimos tempos.

Coisas que eu acho que acho:

– O jejum era curioso, mas não tão difícil assim de explicar. Murray nunca deu preferência ao saibro em seu calendário e jogou pouquíssimos torneios pequenos. Quando jogou um bom tênis no piso, sempre esbarrou em Nadal ou Djokovic. Sempre foi, no entanto, curioso como alguém com tantos recursos, ótimos golpes com top spin e boa velocidade para se defender levou tanto tempo para levantar um troféu na terra batida.

– A falta de tempo (leia-se “Dia das Mães” neste caso) não me permitiu escrever um texto apenas para a chave feminina. Vale registrar, porém, a semana espetacular de Petra Kvitova, que atropelou Serena Williams na semifinal e fez o mesmo com Svetlana Kuznetsova na decisão. A tcheca não vem conseguindo resultados consistentes ultimamente e optou por não ir a Indian Wells e Miami. Desde então, venceu oito jogos e perdeu apenas um. E quando tudo encaixa em seu jogo, que tem um bocado de opções, até Serena encontra problemas.


Djokovic 2015: espetacular até quando não é espetacular
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Alexandre Cossenza

Djokovic_Miami2015_F_efe_blog

Australian Open, Indian Wells e, agora, Miami. Pela segunda vez na carreira, Novak Djokovic vence os três primeiros torneios grandes de quadra dura em uma temporada. A outra vez que isso aconteceu todo mundo lembra (ou deveria lembrar) muito bem: foi em 2011, quando o sérvio, então à caça de Rafael Nadal no ranking, chegou a 43 vitórias consecutivas e só foi derrotado em Roland Garros – por Roger Federer, nas semifinais.

O ano de 2015 não tem números tão espetaculares para Nole (ainda?). Depois de sofrer reveses em Doha (para Ivo Karlovic) e Dubai (para Federer), o número 1 do mundo encerra Miami com “apenas” 12 vitórias seguidas. E, enquanto Rafael Nadal não encontra seu melhor tênis, Roger Federer evita o calor da Flórida, Andy Murray não tem a regularidade necessária e o resto do circuito ainda não se mostra pronto para desbancar o top 4 consistentemente, o sérvio dispara na ponta do ranking.

A vantagem de Djokovic sobre Roger Federer, atual número 2, é de 4.310 pontos (pouco mais de dois Slams), mas, no momento, o que vem chamando a atenção no circuito é o quanto o sérvio não vem jogando um tênis espetacular. Isso não é uma crítica. Muito pelo contrário. O fato é que Nole já venceu 25 jogos em 2015 e, com uma visão um pouco mais exigente, quem consegue dizer que ele jogou um tênis espetacular-do-começo-ao-fim em mais de meia dúzia?

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Djokovic vem oscilando um bocado entre os jogos e até mesmo durante as partidas. Miami, mesmo com condições mais duras de jogo (calor e umidade), foi um belo exemplo. Desde o set perdido na estreia em um jogo aparentemente sob controle contra Martin Klizan, passando por um set inicial muito ruim contra Alexandr Dolgopolov e chances perdidas contra David Ferrer, até a final em que Andy Murray teve um bocado de chances nos primeiros dois sets. A única apresentação boa do começo ao fim veio na semi, contra John Isner.

O que é espetacular, isso sim, é que Djokovic vem vencendo todos esse jogos. Traduzindo: sua superioridade no circuito é tão grande que lhe permite um bocado de momentos abaixo da média (sua média é altíssima, lembremos, mas o julgamento deve ser proporcional ao nível do tenista). Na final de Indian Wells, contra Roger Federer, Nole saiu de belíssimo início de jogo para um péssimo tie-break no segundo set. Ainda assim, venceu confortavelmente no fim. Não foi muito diferente neste domingo, na decisão do Masters de Miami.

O resumo disso tudo? Hoje em dia, Novak Djokovic é espetacular até errando smashes e fazendo duplas faltas. O circuito inteiro está muito, muito atrás.

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Coisas que eu acho que acho:

– Embora não esteja jogando no nível fabuloso de 2011, Djokovic leva uma vantagem enorme para a temporada de saibro: já perdeu este ano. É um pouco de pressão a menos, algo que nunca pode ser subestimado – especialmente em um momento em que o título de Roland Garros parece mais palpável do que nunca.

– Sobre Andy Murray e suas oscilações – mais mentais do que técnicas -, o lado positivo é que o escocês faz três ótimos torneios justamente nos eventos mais importantes da temporada. Calhou de trombar (e cair!) em Djokovic em todos eles, o que provocou três derrotas. Mas vale lembrar que Môri é o vice-líder em pontos conquistados neste início de ano. São 2.420, contra 4.385 de Djokovic e 1.890 de Berdych, o terceiro colocado. Federer, em sexto nesta lista, somou 1.515, e Nadal, em uma incomum nona posição, acumula 1.015.


Djokovic na cabeça
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Alexandre Cossenza

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“Hoje em dia, faz-se necessária uma combinação improvável de fatores para que Djokovic saia de quadra derrotado.” Foi assim que encerrei o post anterior sobre Novak Djokovic e sua vitória sobre Stan Wawrinka e é assim que acho justo iniciar este texto sobre o pentacampeonato do sérvio no Australian Open. A vitória sobre Andy Murray por 7/6(5), 6/7(4), 6/3 e 6/0 foi mais uma prova das muitas qualidades do número 1 do mundo.

Por dois sets e meio, Andy Murray fez uma partidaça. Administrou um começo de partida espetacular de Djokovic, distribuiu pancadas com seu forehand, fez o adversário correr, subiu à rede com inteligência e se defendeu bem. Por boa parte das primeiras três horas da partida, o britânico levou vantagem quando conseguiu atacar o backhand de Djokovic e manteve o duelo parelho, apesar de sofrer com um segundo serviço excessivamente vulnerável às devoluções do sérvio.

E aí veio o terceiro set. O número 1, que já havia sido atendido com dores em um dedo no primeiro set e demonstrado dificuldade na movimentação durante um breve período da segunda parcial, voltou a exibir sinais de vulnerabilidade física. “Fraqueza”, explicou depois do jogo. Murray, que abriu 2/0 e perdeu o saque, teve nova chance no sétimo game. Tivesse convertido, abriria 4/3 e saque. Mas o escocês ainda estava “concentrado” na aparente lesão do adversário. “Ele faz isso o tempo inteiro”, disse para seu camarote.

Assim, antes que Kim Sears conseguisse pronunciar vice-de-novo-e-um-palavrão-à-sua-escolha, Murray já tinha desperdiçado o break point e iniciado o oitavo game com dois erros não forçados. Perdeu o saque, a cabeça e nove games seguidos. E assim, uma partida que alcançou 3h de duração no meio do terceiro set e parecia destinada a terminar só depois de o pequeno Stefan aprender a dizer “papai”, acabou rapidinho no mesmo tempo em que um escocês faz descer uma Tennent’s num pub de Dunblane.

Murray, depois da partida, reconheceu sua falha e disse que ficou chateado consigo mesmo por ter se deixado incomodar com o que via do outro lado da rede. E é um problema cíclico. Ao preocupar-se mais do que o necessário com Djokovic, perde um break point e a paciência. Depois, perde o serviço e começa a se irritar consigo mesmo. Logo, não consegue mais pensar na partida e fica em quadra soltando pancadas sem objetivo. É um buraco sem fim. Durou nove games hoje, e só deus sabe o quanto duraria se a partida não acabasse no quarto set.

É aí que a primeira frase do post faz mais sentido ainda. Murray equiparou-se ao número 1 do mundo em todos fatores técnicos e táticos neste domingo. Só que depois de três horas de jogo, uma falha mental decidiu o jogo. É o que separa Nole da maioria do circuito. Entre os poucos que conseguem trocar golpe por golpe, ainda são os raros que conseguem finalizá-lo.

Coisas que eu acho que acho:

– Como Andy Murray bem reconheceu durante a partida, não é a primeira vez que Djokovic mostra problemas físicos em uma partida e volta a se movimentar como um guepardo no Serengueti. Há quem chame de teatro/catimba, há quem diga que o sérvio apenas não esconde as dores que tem.

– Não sou médico nem pretendo brincar de Quero-Ser-John-Malkovich com Djokovic. A única constatação que posso fazer é lembrar que, sim, acontece com frequência. Nas vitórias (como naquele jogão de quase 6h com Nadal) e nas derrotas (contra Murray na final do US Open de 2012).

– Nole termina o Australian Open com 3.800 pontos de vantagem sobre Roger Federer, o atual vice-líder do ranking. Além disso, o Big Four voltou a ficar completo nas quatro primeiras posições, com Nadal em terceiro e Murray colado atrás, em quarto. Nishikori, Raonic, Berdych, Cilic, Wawrinka e Ferrer completam o top 10.


Sobre Andy Murray, rótulos, pesos e medidas
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Alexandre Cossenza

“Quando tive cãibras e ganhei no US Open ano passado, fui drama queen, estava fora de forma, precisava ver um psicólogo, fingi. Estranho…” Foi só um tweet, mas não precisou mais. Andy Murray deu todo recado que precisava. E o mundo do tênis, concordando ou não, entendeu o recado.

Rafael Nadal, que teve tonturas, quase vomitou em quadra e derrotou Tim Smyczek em cinco sets, foi aclamado como herói. Aquele jogo, para grande parte dos fãs de tênis e da imprensa, foi mais uma demonstração hercúlea da força do espanhol. Quando Murray teve problemas físicos em sua estreia no US Open do ano passado, foi duramente criticado e até acusado de fingir dores para atrapalhar o adversário.

Andy Murray não está criticando Rafael Nadal. Longe disso. Está, sim, sendo irônico – algo que faz como poucos no circuito. E, mais do que qualquer coisa, está fazendo uma inequívoca crítica aos rótulos que levam à adoção de pesos e medidas diferentes para todo tipo de atleta. E o britânico, qualquer que seja o motivo, sempre cai do lado errado de qualquer polêmica.

O exemplo escolhido por Murray foi o melhor possível. Os dois casos são recentes e incomuns. Ambos envolvem atletas fisicamente privilegiados que sofreram problemas raros – em estágios iniciais de um Grand Slam – e venceram suas partidas. Só que o tribunal público, composto por jornalistas e integrantes de redes sociais, deu vereditos bem diferentes.

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Murray raramente culpa problemas físicos por derrotas ou atuações abaixo do esperado, mas tem o hábito de resmungar, se alongar e colocar a mão aqui e ali (como pessoas normais fazem quando sentem dores). O circuito inteiro sabe disso. O circuito inteiro também sabe que, quando a bolinha entra em jogo, Murray sempre se esforça ao máximo. Só que em algum momento e por algum motivo, o escocês ganhou fama de catimbeiro. E esse rótulo não sai com água.

É o caso inverso de Roger Federer. O suíço é o melhor exemplo possível de gentleman. Suíço, educado, dono de golpes plásticos e uma movimentação baryshnikovesca. Raramente pede tempo médico (porque raramente se lesiona – uma relação que poucos fazem), quase nunca reclama com árbitros e jamais bate boca com um adversário. Mas quando, malandramente, pediu para ir ao banheiro em uma partida que perdia (a sombra em quadra lhe incomodava, e o tempo de paralisação foi o suficiente para que a sombra desaparecesse), foi chamado de “gênio até na privada”. Dois pesos, duas medidas.

É inegável que há uma questão de reputação. Novak Djokovic, quando galgava postos no ranking mundial, abandonou um punhado de partidas. Victoria Azarenka tem um passado não muito diferente. Se um dos dois, hoje, entra em quadra com dores e abandona, o currículo é logo levantado por alguém. Djokovic já entrou em quadra lesionado (Monte Carlo, lembram?) só para não passar por isso. Vika foi pior. Agravou uma lesão séria porque se recusou a deixar a partida no meio. Não queria ouvir as queixas de sempre. Passou um bom tempo sem jogar.

Rafael Nadal, provavelmente o top 10 com mais lesões na história do tênis, vive um dilema não muito diferente. É acusado sempre de fingir e culpar lesões quando perde (ao mesmo tempo em que ignora-se a lógica que aponta que um tenista de seu nível não perde muitas vezes quando está bem fisicamente). Mas vale lembrar: não foi o espanhol que culpou o joelho em sua única derrota em Roland Garros. O mundo só soube da lesão algum tempo depois, quando ele desistiu de Wimbledon.  No dia daquele revés para Soderling, ninguém mencionou nada. Fast forward para um ano depois. Em Wimbledon/2010, Tomas Berdych eliminou Federer. Na segunda resposta da entrevista coletiva, sem ser indagado sobre alguma espécie de lesão, o suíço falou que não conseguiu jogar seu melhor porque tinha dores nas costas e nas pernas. Um gesto deselegante que a reputação do gentleman suíço praticamente apagou da história.

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O que incomoda (e me incomoda um bocado no caso específico de Andy Murray) é  o surgimento dessa fama. De onde veio? É porque Murray não sorri durante as partidas? Será que é porque ele não dança após as vitórias? Ou porque nunca publicou videozinhos engraçadinhos no YouTube? Ou será que é porque ele não desiste mesmo quando sente alguma espécie de desconforto? Neste caso, qual é o caminho? Para que lado fica a saída? É melhor desistir e ser chamado de frouxo ou continuar em quadra e ganhar o rótulo de catimbeiro? Não tem saída nesse beco.

O resumo dessa história toda é que o tweet de Andy Murray pode servir para despertar muita gente. “Por que este tenista aqui é um Oscar winner, e aquele lá, a reencarnação de Perseu?” é a pergunta que todos deveriam se fazer a cada caso desses.  Não que isso vá mudar a percepção dos fãs. Haters gonna hate, já diz o poeta. O mesmo torcedor que suspeita de uma apendicite orgulha-se da mononucleose mais curta e mais branda da Era Aberta. Mas eu divago. Murray deu a deixa. Cabe a todos, especialmente comentaristas e jornalistas, usar a balança antes de emitir uma opinião.

Coisas que eu acho que acho:

– Não acho (mesmo!) que nenhum dos tenistas citados neste post seja desonesto, catimbeiro ou mentiroso. Acho, sim, que todos eles já se aproveitaram das regras para tirar algum tipo de vantagem. Isto, contudo, não faz de ninguém um mau caráter incorrigível.

– O benefício da dúvida deve ser concedido a todos. Não somente aos sorridentes, dançarinos e videomakers. Que ninguém precise pagar o preço por optar manter um mínimo de autenticidade.


Murray, Robredo e o jogo do ano
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Alexandre Cossenza

Novak Djokovic e Rafael Nadal, exaustos, agachados ao fim de quase seis horas de jogo. Serena Williams ameaçando uma juíza de linha. As lágrimas de Roger Federer ao perder uma final na Rod Laver. O discurso de aposentadoria de Andre Agassi no Arthur Ashe. O coração desenhado por Guga no saibro da Philippe Chatrier. Os dedos médios de Tommy Robredo em Valência. Simples assim.

Foi “só” uma final de ATP 500, mas talvez tenha sido “a” final masculina de 2014 – um ano atípico, sem decisões espetaculares nos Grand Slams e nos Masters 1.000. E foi um jogaço. Pelo pelo roteiro, que teve suas primeiras linhas escritas em Shenzhen, um mês atrás, pelo nível do tênis e pelo drama do cansaço e dos match points salvos pelos dois tenistas. Tudo isso, claro, multiplicou-se com as demonstrações de respeito e admiração ao fim do encontro.

Só assisti à partida mais tarde, no fim do domingo, quando já sabia do resultado. Mesmo assim, não consegui ver aquilo tudo sem me envolver com a partida. Imagino, então, as reações de quem viu a história se desenvolvendo ao longo do jogo. Desde o set inicial, quando Murray já parecia esgotado, até os últimos games da terceira parcial, com Robredo salvando um match point antes do tie-break, passando pelas cãibras e até pela bolinha caindo do bolso de espanhol.

E, depois disso tudo, ainda houve um tie-break memorável, com três match points salvos por Andy Murray. Até aquele ponto que está no vídeo, lá no alto do post. Não, senhores, 2014 não viu um jogo melhor que este. Ainda não. E a cena com Robredo, apoiado na rede e dirigindo os dois dedos médios ao britânico, no que provou ser uma das mais sinceras e simpáticas demonstrações de fair play, será lembrada para sempre.

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