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Saque e Voleio

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Murray perde jogão de 4h e dá 'último adeus' a Melbourne, mas dá esperança de retorno

Alexandre Cossenza

14/01/2019 10h00

Três dias antes de estrear neste Australian Open, Andy Murray avisou: seria sua última vez no torneio. Após lutar contra uma lesão no quadril há cerca de 20 meses, o ex-número 1 do mundo e bicampeão olímpico pretende se aposentar no meio do ano, em Wimbledon. E, para quem está lesionado, a estreia contra o espanhol Roberto Bautista Agut, #24 do mundo, não poderia ser pior. As longas trocas de bola, aos poucos, desgastaram o britânico, que lutou como sempre e, por pouco, não saiu de quadra com uma vitória memorável. No fim, Murray acabou eliminado após 4h09min de jogo por 6/4, 6/4, 6/7(5), 6/7(4) e 6/2 e deu seu último adeus ao torneio.

Só que foi um "último adeus" assim, entre aspas. Depois de dizer que era seu último jogo no torneio, Murray revelou que talvez passe por uma nova operação e, quem sabe, volte ao tênis. Por enquanto, ele se despede com um histórico invejável no Australian Open, mas sem título. O escocês de 31 anos disputou cinco finais em Melbourne, mas acabou derrotado em todas. Em 2010, caiu diante de Roger Federer. Em 2011, 2013, 2015 e 2016, foi superado por Novak Djokovic.

A partida

Bautista Agut chegou a Melbourne em ótimo momento, após conquistar o título do ATP 250 de Doha, há pouco mais de dez dias. Na campanha, o espanhol superou, em sequência, Stan Wawrinka, Djokovic e Tomas Berdych. Ele voltou a apresentar o mesmo tênis sólido nesta segunda-feira, forçando o lesionado Murray a jogar longos ralis e a se deslocar de um lado para o outro da quadra. O britânico ainda teve uma pequena chance no set inicial, com um break point no oitavo game, mas o espanhol se salvou com uma bela direita paralela. Pouco depois, no game seguinte, Bautista Agut conseguiu a quebra que lhe valeu a parcial graças a um belo voleio seguido de um erro de Murray.

O britânico seguiu lutando, mas sem conseguir jogar no nível que mostrou durante a maior parte da carreira era difícil superar a solidez do espanhol. Bautista Agut seguiu firme no fundo de quadra, aceitando e alongando todos ralis possíveis. No quinto game, no único momento de inconsistência de Murray, o #24 do mundo deu o bote e conseguiu uma quebra. O esforço do ex-número 1 até o último game, quando forçou Bautista Agut a sacar em 30/30, não adiantou. O espanhol ganhou os dois pontos seguintes e fez 6/4.

Murray não se despediu sem algumas lindas jogadas. Deu curtinhas, winners paralelos e angulados e, como sempre, lobs impecáveis. E não seria uma partida de Andy Murray sem luta e drama. O britânico esteve dois sets e uma quebra abaixo, lesão no quadril e tudo mais, mas jamais se entregou. Como fez em toda a carreira, brigou. Com quatro pontos perfeitos, devolveu a quebra e igualou o terceiro set em 2/2. Mais tarde, ainda salvou um break point no delicado nono game. A torcida reconheceu o esforço e aplaudiu de pé o britânico quando Bautista Agut antes do décimo game. Empurrado pelo público, o escocês até conseguiu um set point, mas outro rali terminou com vitória do espanhol. A parcial só acabou no tie-break, e o esforço de Murray foi recompensado. Sacando em 4/5, Bautista Agut errou um voleio nada complicado. O escocês, então, sacou para o set e fez 7/6(5).

Quando o quarto set começou, a partida já tinha mais de 2h30min de duração. O desgaste e a dor ficavam evidentes no rosto e nos gestos de Murray. Ainda assim, sacando bem e usando mais variações – curtinhas e subidas à rede, o ex-número 1 conseguiu se manter vivo e equilibrando o jogo até forçar um novo tie-break e, novamente, levar a melhor – desta vez, por 7/6(4).

Parecia impossível duas horas antes, mas a partida foi para o quinto set. A torcida, insana com a reação de seu queridinho, tomou um balde de água gelada no terceiro game da parcial decisiva, quando Bautista Agut conseguiu voltar a quebrar o serviço do britânico. Murray já não aguentava as dores. Não conseguia se movimentar bem o bastante para sustentar as trocas de bola. O espanhol, fisicamente inteiro, finalmente aproveitou e disparou na frente até fechar a partida.

Homenagem pós-jogo e esperança de retorno

Ao fim da partida, a organização do Australian Open exibiu no telão uma coletânea de declarações de tenistas sobre Andy Murray. Nomes como Federer, Nadal, Djokovic, Wozniacki, Pliskova, Stephens, Isner, Cilic e outros deram ao britânico os parabéns pela carreira e pelo legado que o bicampeão olímpico deixa ao tênis (assista abaixo).

Aos fãs, resta um pingo de esperança. Na entrevista em quadra, o escocês chegou a dizer que era sua última partida no Australian Open, mas depois deixou uma fresta aberta. Afirmou que talvez volte a ver o público de Melbourne, mas que precisaria passar por outra cirurgia e um longo procedimento de recuperação. "Não sei. Talvez eu veja vocês novamente. Eu farei tudo que for possível para tentar. Se eu quiser tentar de novo, vou precisar passar por uma grande cirurgia, sem garantia nenhuma de voltar, mas vou tentar meu melhor. Obrigado mais uma vez."

Será?

Pedaços de história

Andy Murray fez sua primeira participação na chave principal do Australian Open em 2006. Naquele ano, o britânico era o #62 do mundo e perdeu na estreia para o argentino Juan Ignacio Chela em três sets: 6/1, 6/3 e 6/3. O britânico também entrava em algumas chaves de duplas e, em 2006, jogou em Melbourne ao lado de Novak Djokovic, que viria a ser seu maior algoz no torneio. Escocês e sérvio não passaram da primeira rodada e tombaram diante de Nenad Zimonjic e Fabrice Santoro: 7/6(5) e 6/3.

Em toda a carreira, Murray acumulou 48 vitórias e 13 derrotas no Australian Open. Anotou vitórias inclusive sobre Roger Federer e Rafael Nadal, mas saiu derrotado sempre que encontrou Djokovic. Ele e o atual número 1 do mundo duelaram cinco vezes em Melbourne: quatro finais e uma semi. O mais perto que Murray chegou do título foi em 2013, quando venceu o primeiro set da final e perdeu o tie-break da segunda parcial. Nole acabou campeão por 6/7(2), 7/6(3), 6/3 e 6/2.

Um dos momentos mais marcantes da história de Murray no torneio aconteceu em 2016, após mais uma final perdida diante de Djokovic. Na época, a esposa do britânico, Kim Sears, estava grávida e prestes a dar à luz. No discurso de premiação, Andy se emocionou e, enquanto tentava conter as lágrimas, disse: "você foi uma lenda nas últimas duas semanas. Muito obrigado pelo seu apoio. Estarei no próximo voo de volta para casa." Assista acima.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.