Saque e Voleio

Arquivo : Becker

AO, dia 5: um Federer ‘vintage’ e um Murray impecável
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Alexandre Cossenza

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Quem esteve na Rod Laver Arena para a sessão noturna saiu de lá com um sorriso no rosto e a sensação de ter testemunhado algo especial. Foi Roger Federer, “aquele” Federer, fazendo de tudo com o esforço de quem está fazendo nada. Lembrou o melhor Federer, o que foi número 1, que deu seguidas aulas em Andy Roddick, que encantou e dominou o circuito anos atrás.

Durante os 90 minutos de jogo – tão pouco que deixou todos querendo mais – o atual número 17 do mundo tirou tudo da cartola. Aces, curtas, slices, bloqueios de devolução, paralelas de backhand, bate-prontos da linha de base, voleios… Uma atuação para emoldurar e que terminou com o placar mostrando 6/2, 6/4 e 6/4.

Taticamente falando, o Federer desta sexta-feira foi bastante diferente do tenista teimoso que trocou pancadas o jogo inteiro contra Noah Rubin, na segunda rodada. Diante do mais perigoso Berdych, o suíço já entrou bloqueando nas devoluções, tirando peso da bola e forçando o tcheco a arriscar.

É bem verdade que foi um dia ruim do tcheco, mas é preciso avaliar o peso de Federer nessa equação. As variações impostas pelo suíço foram tantas que Berdych jamais se sentiu confortável e não encontrou ritmo algum. Nem no serviço, nem no fundo de quadra e muito menos junto à rede. Federer aplicou um xeque-mate em 10 minutos e depois ficou jogando damas.

O melhor ponto

Foram tantos grandes pontos que é quase impossível apontar o melhor momento do suíço nesta sexta-feira, só que o ponto do tweet abaixo tem algo de especial. Primeiro porque Federer sai de uma posição defensiva para anular os ataques de Berdych. Depois porque constrói o ataque com um par de golpes até conseguir a posição perfeita para o golpe final. Magistral.

O próximo adversário

Agora, nas oitavas de final, Federer vai encontrar Kei Nishikori, alguém que provavelmente vai exigir mais em ralis – se o japonês estiver 100% fisicamente, claro. Nesta sexta, diante de Lukas Lacko, Nishikori ficou pouco tempo em quadra. Fez 6/4, 6/4 e 6/4 em 2h11. O japonês mandou na maioria dos ralis e terminou o jogo com 46 winners e 32 erros não forçados. Números de respeito.

Se Nishikori não tem a mesma potência de saque de Berdych (e tem um segundo serviço um tanto vulnerável para um top 5), é de se imaginar que ele não deixará Federer dominar os ralis como fez contra Berdych. Além disso, como o próprio #17 disse na entrevista em quadra após a partida, Nishikori tem um dos melhores backhands do circuito e pode se dar ao luxo de ficar cruzando bolas contra a esquerda do suíço pelo tempo que quiser. Por outro lado, como será que o japonês vai lidar com o serviço do suíço, que vem fazendo grande estrago até agora? De qualquer modo, não convém acreditar que o Federer x Berdych desta sexta seja um grande parâmetro para prever o que acontece no encontro de suíço e japonês. O “casamento” dos jogos é bastante distinto.

Os favoritos

Dizem que o primeiro jogo de um tenista após a derrota de seu maior rival no torneio diz muito sobre como ele vai lidar com a pressão do favoritismo. Bom, neste quesito, Andy Murray tirou nota 10. Nesta sexta, o número 1 do mundo esteve em ótima forma diante dos saques pesados de Sam Querrey. Deu pouquíssimas chances ao americano, disparou 40 winners (22 erros não forçados) e até superou o adversário em aces: 8 a 5. Venceu por 6/4, 6/2 e 6/4 e avançou pra enfrentar Mischa Zverev nas oitavas de final.

Vale lembrar que a cada vitória, Murray vai aumentando sua distância para Novak Djokovic, eliminado por Denis Istomin. Caso não vença mais em Melbourne, o britânico deixará o torneio com 1.715 pontos de vantagem. Se levantar o troféu, Murray terá 3.535 pontos a mais que Djokovic.

A atual campeã do Australian Open, Angelique Kerber, finalmente venceu em dois sets: fez 6/0 e 6/4 em cima de Kristyna Pliskova – não confundir com Karolina, a gêmea mais famosa, que foi vice-campeã do US Open no ano passado. O triunfo veio sem grandes dramas, mas Kerber não chegou a empolgar. Terminou com 14 winners e 14 erros não forçados e se aproveitou das 34 falhas de Pliskova. Ainda assim, a tcheca teve chances de complicar o jogo para a alemã no segundo set, mas não aproveitou por conta de erros próprios.

O confronto de oitavas de final de Kerber será contra Coco Vandeweghe (#35), que venceu um jogo duríssimo contra Eugenie Bouchard (#47): 6/4, 3/6 e 7/5. Depois de sair na frente no segundo set, a canadense controlou bem o saque e parecia estar administrando bem as tentativas de Vandeweghe. Bouchard, porém, vacilou no finzinho e perdeu o serviço no oitavo game do set decisivo. Os últimos games foram nervosos, e a americana aproveitou as chances que teve.

Kerber chega às oitavas com dois sets perdidos e, mesmo assim, parece justo dizer que Coco será seu primeiro teste de verdade. Não apenas pela potência do saque da americana, que pode fazer diferença nas quadras rápidas de Melbourne (ainda mais se o jogo for na sessão diurna), mas porque Vandeweghe tem poder de fogo para agredir o frágil segundo serviço da alemã.

Os outros candidatos

Stan Wawrinka venceu mais um jogo complicado. E complicado tanto por méritos do adversário, Viktor Troicki, quanto pela inconstância do próprio suíço. Depois de um ótimo começo e uma péssima segunda metade de primeiro set, Wawrinka se aprumou e parecia navegar tranquilo para fechar o confronto, mas bobeou na reta final. Foi quebrado duas vezes sacando para o jogo (5/4 e 6/5), perdeu um match point no tie-break e precisou salvar um set point antes de, finalmente, avançar por 3/6, 6/2, 6/2 e 7/6(7).

Seu próximo jogo será contra Andreas Seppi, que não era o favorito para chegar às oitavas, mas derrubou Nick Kyrgios na segunda rodada e passou por Steve Darcis nesta sexta: 4/6, 6/4, 7/6(1) e 7/6(2). Aos 32 anos e atual #89 do mundo, o italiano tem experiência e jogo suficientes para se aproveitar de uma jornada ruim do suíço. É mais um jogo complicado para Wawrinka, que vem numa chave espinhosa e já passou por Klizan, Johnson e Troicki.

Na chave feminina, Venus Williams (#17) ficou em quadra por apenas 58 minutos e bateu a chinesa Ying-Ying Duan (#87) por 6/1 e 6/0. Com a velocidade da quadra ajudando seu estilo, a americana chega nas oitavas como favorita contra Mona Barthel, que faz a melhor campanha de sua vida em Grand Slams. A alemã, que já foi #23 mas hoje é apenas a #181 do mundo, furou o quali e aproveitou uma chave acessível – já que Simona Halep caiu na estreia.

No último jogo da noite, Garbiñe Muguruza entrou em quadra lembrando bem de sua última derrota em um Slam. A espanhola até disse depois da partida, em tom de brincadeira, que queria vingança. E foi isso. Jogou bem e bateu Anastasija Sevastova (#33) por 6/4 e 6/2 (a tenista da Letônia eliminou Muguruza em Nova York por 7/5 e 6/4, na segunda rodada).

Em sua melhor campanha num Slam desde o título de Roland Garros, a espanhola, atual número 7 do mundo, agora vai enfrentar Sorana Cirstea (#78), que bateu a americana Alison Riske por 6/2 e 7/6(2). A romena, que já foi #21 do mundo, ainda não perdeu sets e foi a responsável pela eliminação de Carla Suárez Navarro, a cabeça de chave 10 em Melbourne.

As oitavas já definidas

Até agora, o cenário está assim na chave masculina:

[1] Andy Murray x Mischa Zverev
[17] Roger Federer x Kei Nishikori [5]
[4] Stan Wawrinka x Andreas Seppi
[12] Jo-Wilfried Tsonga x Daniel Evans

Os quatro primeiros jogos das oitavas femininas ficaram assim:

[1] Angelique Kerber x Coco Vandeweghe
Sorana Cirstea x Garbiñe Muguruza [7]
Mona Barthel x Venus Williams [13]
[24] Anastasia Pavlyuchenkova x Svetlana Kuznetsova [8]

Boris sobre Novak

Ao New York Times, Boris Becker falou sobre o que achou da atuação de Novak Djokovic na derrota para Denis Istomin. A declaração do alemão não traz novidades, mas é interessante até porque vai ao encontro do que muitos analistas consideraram: que faltou emoção para Nole.

Entre outras coisas (leia na íntegra aqui), Becker afirmou que “acho que ele tentou e jogou cinco sets e quatro horas e meia, mas não vi a intensidade, não vi a vontade absoluta de vencer, não o vi ficando louco mentalmente” e que “esse não é o Novak que eu conheço. Prefiro vê-lo quebrar uma raquete ou rasgar uma camisa para que ele jogue com emoção. Acho que ele esteve muito equilibrado durante toda a partida e foi incomum, não sei o que pensar disso.”


Djokovic imita Becker
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Alexandre Cossenza

Ainda não se sabe o quanto a presença de Boris Becker como técnico vem influenciando o tênis praticado por Novak Djokovic. O que parece fácil de constatar, contudo, é que a relação dos dois anda às mil maravilhas. Após derrotar o italiano Fabio Fognini e avançar às quartas do Australian Open, o sérvio retomou um velho hábito e imitou seu treinador diante do público na Rod Laver Arena. Vejam!

Djokovic ainda brinca, dizendo que aquele movimento seria nos “bons dias” da carreira de Becker. O sérvio, então, começa a mancar em quadra, dizendo que é assim a postura de seu treinador hoje em dia. Quem quiser comparar pode ver o alemão sacando neste vídeo aqui.

Nas quartas de final, Nole vai encarar o vencedor do jogo entre Stanislas Wawrinka e Tommy Robredo. Pode acontecer, afinal, a esperada reedição do jogaço que sérvio e suíço fizeram em Melbourne no ano passado. Quem sabe?

Mais imagens curiosas

A “produção de vídeos” deste domingo foi interessante em Melbourne. Outra cena rara aconteceu na partida entre a canadense Eugenie Bouchard e a australiana Casey Dellacqua. A norte-americana teve um smash relatiamente tranquilo para matar um ponto, mas fez isso aqui…

Na partida entre David Ferrer e Florian Mayer, o alemão devolveu um saque e acertou em cheio a cabeça de um boleiro. Olha só:


Djokovic e Becker: blefe ou royal straight flush?
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Alexandre Cossenza

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Eis que o período de férias do tênis ganhou algum ânimo quando Novak Djokovic anunciou Boris Becker como seu novo “head coach” – técnico principal. Sim, Boris Becker, o alemão de 46 anos que foi número 1 do mundo na década de 90 e ganhou seis Grand Slams em simples na carreira. Um currículo invejável para qualquer treinador, a não ser por um detalhe: Becker nunca treinou um tenista de ponta.

Não que seja um problema, necessariamente. Ivan Lendl passou um bom tempo afastado do circuito antes de formar parceria com Andy Murray. Desde então, o escocês venceu dois Majors e conquistou um ouro olímpico. E Becker, desde que parou de jogar, ocupou a maior parte de seu tempo jogando pôquer, cuidando de suas atividades no Laureus, promovendo sites de apostas, reconhecendo uma paternidade e paquerando modelos.

Boom Boom também comenta tênis para a BBC e frequentemente usa o Twitter para divulgar notícias que aconteceram duas horas antes. O “atraso” até ganhou o apelido mundial de Boris Delay, que certamente será reproduzido quando Djokovic começar uma partida sonolento. Será a tradicional piada pronta. Aguardem.

É importante lembrar que o anúncio da contratação coloca Becker como “head coach”, o principal, com o eslovaco Marian Vajda (o cidadão que ganhou abraço na foto abaixo) explicando que terá mais tempo para a família. O alemão acompanhará Djokovic em 12 eventos: Australian Open, Dubai, Miami, Monte Carlo, Roma, Roland Garros, Wimbledon, Cincinnati, US Open, Xangai, Paris e Londres. Vajda, por sua vez, vai a Indian Wells, Madri, Toronto e Pequim.

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O que esperar, então, da parceria? Acho que qualquer análise precisa partir de um princípio básico. Tenistas não contratam técnicos baseados necessariamente no que eles fizeram de melhor dentro de quadra. Aliás, muitos grandes técnicos sequer foram atletas de destaque. Basta ver o resultado das relações Vajda-Djokovic e Larri-Guga (só para ilustrar com um exemplo caseiro). Partindo deste princípio, contratar Becker não significa, necessariamente, que Nole quer se tornar um mestre do saque-e-voleio.

É compreensível que os fãs do atual número 2 do mundo estejam preocupados. Primeiro porque em time que está ganhando, não se mexe, já diz o ditado. Depois porque Becker não é lá muito conhecido por comentários profundos em suas participações na BBC. Pelo contrário. O alemão geralmente faz observações rasas, que pouco adicionam às transmissões. Além disso, a imagem construída por Becker deixa todos imaginando se ele será capaz de se dedicar integralmente a tudo que envolve acompanhar um tenista top – longas sessões de treino,partidas, viagens, entrevistas, etc..

Por que diabos, então, Novak Djokovic contratou Becker e não alguém com mais experiência como treinador de ponta? Já li especulações sobre o sérvio querer mais exposição publicitária no oeste europeu, onde o alemão é muito reconhecido. Neste cenário, Becker atuaria como fantoche, fazendo aparições e “divulgando” o pupilo por onde passasse. Faz sentido esta teoria? Até faz, se considerarmos que Nole já está bem grandinho para conduzir sua carreira sem um treinador full-time. Afinal, não há muitos aspectos de seu tênis que necessitem de evolução.

Outra tese, também baseada no princípio de que Djokovic pode administrar seus passos, treinos e jogos por conta própria, é a de que Becker seria uma distração para a imprensa. Enquanto o sérvio segue vencendo, o alemão atrai todas atenções e deixa o tenista mais à vontade para seguir concentrado em conquistar mais vitórias e mais títulos. O pensamento tem sua dose lógica, mas não compro. Até porque não acho que o número 2 do mundo, ex-líder do ranking e acostumado aos holofotes (que ele tanto gosta!), precise de um “cordão de isolamento”.

A única verdade incontestável por enquanto é que não saberemos o porquê da parceria até que Djokovic e Becker deem mais detalhes. O que será que os dois conversaram? O que o alemão disse para convencer Nole de que a união terá sucesso? Quaisquer que tenham sido os motivos, o número 2 tem um título a defender em Melbourne. Não convém arriscar um all-in esperando pelo que vai aparecer no river


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