Saque e Voleio

Categoria : Análise

Como Sharapova foi de suspensa a favorita para Roland Garros em três jogos
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Alexandre Cossenza

Depois de 15 meses de suspensão por doping, Maria Sharapova voltou às quadras na última quarta-feira, dia 26 de abril, no WTA de Stuttgart. Cerca de 48 horas e três vitórias depois, a russa, que ainda nem aparece no ranking mundial, já é favorita ao título de Roland Garros. Quem diz isso são as casas de apostas, e elas têm bons motivos para colocar a ex-número 1 no alto de suas listas.

Primeiro, as cotações: na australiana Sportsbet, um título de Sharapova paga 8/1, ou seja, oito dólares para cada um apostado na russa – é a mesma cotação de Simona Halep; na britânica William Hill, a principal favorita é Garbiñe Muguruza (9/2), seguida de Halep (6/1) e Sharapova (7/1); e na casa virtual Bet365, a russa lidera as cotações (7/1), novamente empatada com Halep (7/1) e com Muguruza (7,50/1) logo atrás. Veja as listas no tweet abaixo.

Mas como alguém sobe tão rápido assim nas cotações? Não é tão difícil entender. A começar pelo nível de tênis que Sharapova apresentou até agora. Ainda que seus triunfos tenham vindo sobre tenistas fora do top 30 (Vinci, Makarova e Kontaveit), a ex-número 1 foi sólida, cuidou bem de seus games de serviço e deu raras chances às rivais. Seu tênis, bem adaptado ao saibro ao longo da carreira, trouxe excelentes resultados no piso recentemente. Em Roland Garros, foram 20 vitórias em 21 jogos de 2012 ate 2014. Ninguém não chamado Serena Williams mostrou tanta consistência assim nos últimos anos no slam francês.

A ausência da americana (grávida) é outro fator a favor de Sharapova nesta temporada de saibro. Serena é a única tenista do circuito atual que tem triunfos regulares contra a russa. E não é só isso. Victoria Azarenka e Petra Kvitova também estão afastadas (não que seu histórico na terra batida seja espetacular), e Angelique Kerber faz uma péssima temporada. Por fim, Muguruza e Halep, que dividem a “liderança” nas casas de apostas com Maria Sharapova, são tão previsíveis e consistentes quanto o humor de Bernard Tomic.

Outro motivo é a questão financeira. Afinal, o objetivo de toda casa de apostas é fazer dinheiro. Logo, é preciso considerar o potencial de Sharapova. É óbvio que é muito cedo para fazer previsões para daqui a um mês (a chave principal começa no dia 29 de maio), mas não é nada impossível que a bicampeã de Roland Garros ganhe ritmo em Roma e Madri e chegue ao slam francês jogando um tênis ainda melhor. Listar Sharapova como favorita agora evita que muitas pessoas apostem agora e embolsem um prêmio gordo lá na frente. Já pensaram se Sharapova estivesse cotada em 20/1 e cada apostador colocasse 100 dólares nela? Daria um prejuízo enorme.

Com tudo isso em mente, é justificável a postura de quem vive do dinheiro de apostadores. Mesmo levando em conta que Sharapova ainda nem tem a certeza de que vai estar na chave principal em Paris…

Coisas que eu acho que acho:

– Se Sharapova foi brilhante dentro da quadra, não dá para dizer o mesmo de sua postura nas entrevistas coletivas. Em vez de responder perguntas relevantes sobre seu retorno e ainda sobre o doping (já que as entrevistas concedidas durante a suspensão foram todas leves, sem perguntas duras), a ex-número 1 ou se esquivou ou debochou de jornalistas. Em alguns casos, fez os dois.

– A começar pela pergunta de quinta-feira sobre se ela havia encontrado um medicamento alternativo para tratar seus problemas de saúde. Sharapova respondeu que “essa informação é entre mim, a WTA e o médico ortopedista com quem estou trabalhando agora.”

– Na sequência, respondeu apenas com “next question” quando um jornalista indagou se ela estava trabalhando com mais alguém para tratar os problemas de diabetes e cardíacos que ela mencionou quando falou na primeira vez sobre seu caso de doping.

– Nesta sexta, indagada se sua equipe tinha ficado chateada quando descobriu os medicamentos que ela tomava para sua saúde, a russa se esquivou de novo e se deu, inclusive, o direito de julgar a pergunta. Falou que a questão era inadequada, deu um risinho irônico e pediu que fosse feita outra pergunta, por outra pessoa.

– Sharapova também debochou quando um jornalista se apresentou como funcionário do “Sun”, respondendo um “oh, deus” e perguntando se o “Sun” já havia mandado alguém a Stuttgart antes.

– Não, ninguém é obrigado a responder nada. Porém, no caso de Sharapova, um doping que envolveu justificativas questionadas por muita gente (e pelo tribunal que a condenou), quanto menos ela esclarecer, mais margem dá para especulações e para que quem não acreditou nas suas justificativas siga sem acreditar em suas boas intenções. O deboche, então, é mais difícil ainda de defender.

– Sobre o possível (ou provável?) wild card para Roland Garros, o torneio francês disse que só vai fazer o anúncio no dia 16 de maio. Assim, o torneio ganha tempo e foge de polêmicas. Isso também faz bem para Sharapova, que já vem mostrando ótimo nível de jogo. Com mais vitórias e mais resultados, ficará difícil para a organização do torneio negar o benefício.


Sinais positivos de Djokovic
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Alexandre Cossenza

Desde o segundo semestre do ano passado, parece que alguém baixou um decreto exigindo que toda conversa sobre um certo sérvio passasse pela questão “o que acontece com Novak Djokovic?” Afinal, o cidadão que dominou o circuito por mais de dois anos e venceu os quatro slams em sequência perdeu a liderança do ranking, a aura de invencibilidade e ainda ouviu críticas do ex-técnico Boris Becker por causa de suas novas prioridades na vida.

O 2017 do sérvio também não empolgou até agora. Depois de começar o ano com título em cima de Andy Murray em Doha, Nole tombou diante de Istomin no Australian Open, perdeu para Kyrgios em Acapulco e Indian Wells e não jogou em Miami por causa de uma lesão no cotovelo direito. Fora a zebra em Melbourne, nada trágico. Seu domínio nos anos anteriores, porém, provocou expectativas super-humanas. Como se precisasse estar acontecendo algo de muito errado na vida do sérvio para causar os tais resultados “decepcionantes”.

Uma entrevista em especial repercutiu bastante. Djokovic afirmou que o tênis não era a prioridade número 1 em sua vida. A frase foi vista quase como um crime por alguns. Como se Andy Murray, casado, pai e número 1 do mundo, fosse dizer algo diferente. O britânico, aliás, chegou a afirmar que largaria um slam se fosse necessário para ver o nascimento da filha. Como se muitos outros tenistas tivessem prioridades diferentes. O fato é que a tal frase, aliada às críticas de Becker, foi um prato cheio para quem queria questionar Djokovic. Mas eu divago.

Pois o sérvio voltou ao circuito da ATP esta semana, mais de um mês depois de Indian Wells – embora tenha feito um jogo de Copa Davis no fim de semana. Um ingrato retorno, diga-se, diante de um afiado Gilles Simon. O francês foi sólido ao extremo e exigiu um bocado de Djokovic. Aprofundou bolas, alongou ralis, subiu bem à rede. Foi tanto uma prova técnica quanto um teste para a paciência e a força de vontade do atual número 2 do mundo.

Nem foi a mais brilhante das atuações de Nole, mas é aí que entra seu maior mérito do dia e que serve como bom indício de que ele está com a cabeça no lugar e disposto a brigar por vitórias. Simon teve quebras de vantagem no terceiro set. Primeiro, abriu 3/2. Djokovic devolveu imediatamente. Depois, o francês sacou em 5/4. Valia a vitória. Outro game impecável do sérvio. Outra quebra. E Djokovic embalou, venceu três games seguidos e avançou às oitavas de final do torneio monegasco por 6/3, 3/6 e 7/5.

É cedo? Claro que é. Mas Djokovic foi tão exigido em tantos ralis que um tenista menos concentrado ou faminto teria cedido. Não seria vergonha alguma tombar diante do Simon que esteve em quadra nesta terça-feira. O sérvio ficou na briga e saiu vencedor. Como fez tantas e tantas vezes na careira e, numa chave com Carreño Busta, Thiem e Nadal, provavelmente precisará fazer novamente em Monte Carlo, nesta semana. Os próximos dias darão um panorama melhor sobre que Djokovic vamos ver na temporada de saibro europeia, mas esta terça já trouxe sinais positivos.


Sobre Thomaz Bellucci e chances perdidas
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Alexandre Cossenza

Experimente jogar “Bellucci perde chances” no Google, e você vai encontrar links para diversas partidas em vários torneios e contra adversários diferentes. Um tempo atrás, esses títulos costumavam vir direto de sua assessoria de imprensa. Como eram reproduzidos por tantos veículos de imprensa, proliferaram e viraram piada recorrente. Gracinhas maldosas à parte, é bem verdade que Thomaz Bellucci tem no currículo uma quantia considerável de derrotas em jogos contra oponentes inferiores ou em que ele esteve em situação favorável.

Neste domingo, na final do ATP 250 de Houston, aconteceu de novo. E doeu. Primeiro porque Bellucci perdeu uma quebra de vantagem depois de ter 4/2 de frente sobre o americano Steve Johnson, #29 do mundo, um tenista sólido, mas que soma mais derrotas do que vitórias na carreira em quadras de saibro. Só que viria, mais tarde, outra chance. Johnson teve cãibras. Sem poder ser atendido durante o game (a regra não permite), o americano sacou no improviso, mal tendo condições de se movimentar. Empurrou a bolinha. O placar mostrava 5/5, 40/30, segundo saque, e Bellucci enfiou a mão na devolução. A bolinha parou na rede. Johnson fechou o game e foi, mancando, caminhando na direção do banco para receber uma massagem na virada de lado.

Nem foi só isso. Johnson entregou o 12º game. Nem tentou devolver os saques. Quatro aces de Bellucci. O americano apostou tudo no tie-break e foi recompensado. Depois de ganhar o primeiro ponto, o brasileiro subiu mal à rede, espirrou um backhand e errou um slice de forehand. Logo, o placar mostrava 3/1 para Johnson. Em nenhum momento, o paulista conseguiu se aproveitar da movimentação deficiente do rival. Tomou duas passadas, errou duas devoluções (sim, Johnson ainda sacava mais fraco do que o normal, embora não tão fraco quanto no vídeo acima) e perdeu o último ponto numa direita suicida do americano. Game, set, match: 6/4, 4/6, 7/6(5).

Mas e o copo meio cheio? Ele lembra que Bellucci voltou à final de um ATP 15 meses depois da decisão de Quito, no ano passado. O paulista topou jogar na semana logo após um confronto de Copa Davis e entrou em um torneio modesto, com uma chave quase sem especialistas no saibro. Aproveitou, superando, em sequência, Francis Tiafoe (#89), Máximo González (#163), Sam Querrey (#25) e Ernesto Escobedo (#91). Não é todo dia que uma chance assim se apresenta. Bellucci somou 150 pontos derrotando apenas um adversário entre os 80 melhores do ranking mundial. Mais dois games de saque contra Johnson, e ele teria somado 250. O que faltou? Aproveitar a chance!

Onde estavam as chances?

Thomaz Bellucci e seu técnico, João Zwetsch, sempre dizem que o objetivo é voltar a frequentar a região entre 20-30 do ranking. Ambos acreditam que o paulista pode entrar até no top 20. Não deixa de ser ousado, considerando que Bellucci alcançou seu melhor ranking (#21) sete anos atrás. Por outro lado, de que adianta jogar o circuito sem estabelecer uma meta realmente grande? Além disso, Bellucci esteve no top 30 em fevereiro do ano passado. Não faz tanto tempo assim.

Mas o que falta? Dá para listar uma série de itens em que o número 1 do Brasil pode evoluir (leitura de jogo, movimentação, subidas à rede, aspecto físico), mas consideremos, apenas num exercício de imaginação, que o Bellucci de hoje é o melhor possível. Se este Bellucci não evoluir em nada, ainda pode ser top 20? O que faltaria? “Aproveitar chances” viria no topo da lista. E não se trata de ser excessivamente crítico – ou otimista, dependendo do ponto de vista – sobre ele. Lembremos alguns dos momentos das últimas 52 semanas (as que contam para o ranking atual) de Bellucci.

ATP 250 de Munique: a derrota para Ivan Dodig nas oitavas custou 25 pontos.

ATP 250 de Gstaad: um revés diante de Dustin Brown onde Bellucci já foi campeão duas vezes, logo na primeira rodada (oitavas). Bellucci deixa de somar 45 por aquele jogo e perde a oportunidade de enfrentar Youzhny por mais 45. Brown acabou eliminado por Feliciano López (outro jogo ganhável), que foi campeão em uma final contra Robin Haase. No geral, uma chave bastante acessível.

Challenger de Biella: Bellucci perdeu a final para Federico Gaio (#213). Teria somado 45 pontos a mais com o título.

ATP 250 de Quito: Bellucci foi superado pelo terceiro ano seguido por Victor Estrella Burgos (#156), que se sagrou campeão. Uma vitória naquela semifinal de dois tie-breaks renderia 60 pontos a mais com uma chance excelente de jogar pelo título contra Paolo Lorenzi (#46). O paulista poderia ter saído do Equador com 140 pontos a mais e não precisaria de nenhum milagre para isso.

ATP 500 do Rio de Janeiro: com problemas físicos, Bellucci foi derrotado por Thiago Monteiro nas oitavas. Teria conquistado 45 pontos a mais e uma chance de enfrentar Casper Ruud (#208) por mais 90. Seriam 135 pontos se tivesse apenas confirmado o favoritismo, mesmo que perdesse para Carreño Busta (embora fosse outro jogo ganhável) nas semifinais.

ATP 250 de São Paulo: novamente com problemas físicos, Bellucci não passou da estreia contra Diego Schwartzman (#44). Enfrentaria Gerald Melzer (#107) nas oitavas, com ótima chance de chegar às quartas e somar 45 pontos. Enfrentaria, então, Cuevas. Duro, mas ganhável.

Challenger de Irving: Bellucci perde para Aljaz Bedene (alternate, #105) nas oitavas do torneio. Bedene, que acabou com o título, enfrentaria Jared Donaldson (#93) nas quartas, Andrey Rublev (#134) na semi e Kukushkin (#90) na final. O britânico somou 125 pontos no evento.

A matemática

O que isso tudo quer dizer? Na frieza da matemática, Bellucci aparece nesta segunda-feira na 53ª posição do ranking mundial, com 876 pontos. Imaginemos que o paulista tivesse aproveitado todas as chances acima – além, claro, da final de Houston. Seriam pouco mais de 700 pontos de diferença. E Bellucci estaria justamente ali entre 20 e 30 do mundo (curiosamente, Steve Johnson é o atual 25º, com 1.585 pontos). Sem contar que estar com um ranking melhor lhe colocaria como cabeça de chave em grand slams e mais ATPs, o que criaria novas oportunidades.

Receio que a conta acima vá soar otimista para uns e pessimista para outros. Seria esperar demais de Bellucci? Seria superestimar o tênis do número 1 do Brasil? Bellucci já tirou o máximo de seu tênis? Alcançou mais do que deveria? Ficou abaixo das expectativas? Converse com dez pessoas, e você corre o risco de ouvir dez respostas diferentes. Cada um com seu ponto de vista. Sem problema. Só me parece absurdo o discurso vitimista de que Bellucci é um grande azarado em sorteios de chaves. Qualquer análise, mesmo que superficial, derruba essa tese.

Coisas que eu acho que acho:

– Alguém pode considerar injusta ou exigente demais a lista acima, mas Bellucci era grande favorito na maioria das partidas citadas. Em outras, “apenas” favorito. Uma matemática mais exigente ou ousada poderia considerar um título em Gstaad, um vice no Rio, a derrota para Delbonis em Genebra, o revés diante de Mahut em Sydney, o tombo para Herbert em Indian Wells e até a derrota para um esgotado Kuznetsov na primeira rodada do US Open.

– Um grande mérito de Bellucci na semana foi sair da altitude de Ambato e vencer no nível do mar (ou quase isso) em Houston. Okay, a chave ajudou. Francis Tiafoe, o rival da estreia (que foi apenas na quarta-feira), nunca venceu um jogo de chave principal de ATP no saibro. Mesmo assim, o paulista não se permitiu usar a adaptação como desculpa e seguiu adiante com méritos.

– Outro ponto positivo da semana foi jogar cinco partidas de três sets e chegar inteiro ao tie-break da final. Ou, pelo menos, mais inteiro do que Steve Johnson. É o tipo de coisa que Bellucci precisa apresentar com mais frequência para chegar ao tal objetivo de ser 20-30 do mundo. Quem pensa alto assim não pode montar calendário fugindo de torneios no calor ou com muita umidade.

– Já escrevi algo parecido no Twitter, mas não custa repetir aqui. Não procuro rótulos, mas não sei, quando a carreira de Bellucci acabar, se o paulista será visto como um overachiever (alguém que conquista mais do que o esperado para seu nível de tênis) ou um underachiever (alguém que fica abaixo das expectativas). O que parece unânime é que Bellucci nunca se tornou o tenista que, anos atrás, os brasileiros esperavam que ele viesse a ser. Essa visão é justa? Talvez, sim. Talvez, não. Mas isso é outra questão e este post já está longo demais.


Sobre Copa Davis e competências
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Alexandre Cossenza

O fim de semana do confronto entre Equador e Brasil chega ao fim com o resultado mais provável. Vitória brasileira garantida no sábado, com Thomaz Bellucci, Thiago Monteiro e a dupla mineira vencendo. Foi, no entanto, um duelo mais interessante e divertido (dependendo da sua torcida) do que o imaginado. O mérito – ou a culpa – disso é de Thomaz Bellucci, que complicou um jogo não tão duro e quase acabou superado por Emilio Gómez, número 272 do mundo.

O Equador, claro, teve seus méritos. Dono de uma equipe muito mais fraca, com Roberto Quiroz (#232) como número 1, o país fez o dever de casa. Colocou os jogos na altitude de Ambato, 2.500m acima do nível do mar, e nivelou os confrontos por baixo. Ainda que levado em conta o bom histórico de Bellucci em condições semelhantes, era mesmo o melhor a se fazer.

Não dá para dizer que os donos da casa erraram. O nível foi tão para baixo que Bellucci se empolgou na sexta-feira e cavou um buraco enorme depois de abrir 2 sets a 0 contra Gómez. O equatoriano virou o jogo e chegou a ter uma quebra de frente no quinto set. Para a sorte de Bellucci, Gómez nunca foi (ainda?) o tal futuro top 50 que um dia venderam na TV brasileira (coisas que o pachequismo tenta empurrar goela abaixo do espectador para justificar escolhas erradas de parceiros de negócios). Emilio sentiu os nervos, perdeu a vantagem num game com duas duplas faltas e um erro não forçado e voltou a perder o saque antes de um tie-break decisivo: 6/2, 6/4, 6/7(1), 4/6 e 6/4.

Pessimismo meu? Nem tanto. Gómez saiu da quadra dizendo que nem fez uma ótima partida e que se tivesse ganhado, não seria por mérito de seu tênis. Bellucci, por sua vez, afirmou que a experiência fez diferença, reconheceu que Gómez sentiu os nervos no quinto set e concluiu que o rival lhe “permitiu ganhar a partida”. Ambas parecem declarações bastante conscientes sobre o que aconteceu em quadra.

Thiago Monteiro era um ponto de interrogação maior. Jogou em Quito duas vezes na vida e perdeu ambas. E nenhuma outra apresentação em tanta altitude em toda a carreira. Bom para Quiroz, que conseguiu equilibrar um jogo que, em outras condições, seria muito mais favorável ao brasileiro. Mesmo assim, o cearense foi melhor nos momentos importantes: 6/7(6), 7/6(0), 6/3 e 7/6(7).

Com 2 a 0 no sábado, restava à dupla fechar o caixão. Bruno Soares e Marcelo Melo, que raramente decepcionam juntos, fizeram 6/3, 6/4 e 6/3 em 1h38min sobre Gonzalo Escobar e Roberto Quiroz. Sem drama. Brasil de volta ao playoff.

Coisas que eu acho que acho:

– Em Ambato, a delegação brasileira contou com a presença de Luís Eduardo Nunes, presidente da federação paraibana de tênis, que exerceu a função de “auxiliar da delegação”, segundo a assessoria de imprensa da Confederação Brasileira de Tênis (CBT).

– Segundo a CBT, Nunes foi a Ambato pagando de seu próprio bolso – sem pedir nada à entidade. No entanto, como o chefe da delegação, Eduardo Frick, não conseguia tratar de todas questões logísticas necessárias por conta própria, Nunes foi agregado ao time, ganhando uniforme, participando de eventos oficiais, sentando no banco junto com a equipe durante as partidas e até comemorando a vitória dentro de quadra. Nunes participou até do teatrinho dos jogadores, “fantasiado” de Lampião (é ele no centro da imagem abaixo).

– Estranha o fato de Frick, recém-contratado, não ter competência para cuidar da logística de uma equipe de Copa Davis. Paulo Moriguti, seu antecessor na função, nunca precisou de auxiliar. Moriguti, aliás, deixou a CBT depois que Rafael Westrupp assumiu a presidência no lugar de Jorge Lacerda.

– Merece elogios o altruísmo de Luís Eduardo Nunes. Além de pagar de seu bolso para viajar a Ambato (!!!) para ver de perto nomes como Roberto Quiroz e Emilio Gómez (porque Bellucci e Monteiro ele poderia ver no Rio ou em São Paulo), o presidente da federação paraibana ainda trabalhou de graça para o tênis brasileiro. Que a CBT e Frick, aquele que não conseguiu fazer seu trabalho sozinho, sejam eternamente gratos a ele.

– Chegamos a abril, e a CBT ainda não tem uma empresa grande como fornecedora oficial de material esportivo. O time viajou ao Equador vestindo Companion – marca que também serviu como tapa-buraco durante um período da gestão de Jorge Lacerda.

– Pela primeira vez em muito tempo, um time brasileiro de Copa Davis viaja sem fotógrafo. Talvez por isso a imagem escolhida por todos jogadores e técnicos para postar em redes sociais após a vitória foi a selfie registrada por Marcelo Melo. Não havia opção. Talvez o trabalho de um fotógrafo ajudasse a divulgar o time e valorizasse o espaço no uniforme brasileiro, o que, por sua vez, ajudaria a atrair marcas. Há quem acredite, porém, que estou superestimando o valor do fotógrafo.


Qual é o melhor Federer de todos?
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Alexandre Cossenza

A pergunta surgiu no último domingo, na hashtag do podcast Quadra 18. Apesar de ter dado minha resposta no programa, que pode ser ouvido no post anterior, achei o tema interessante para registrar aqui também. O ouvinte Felipe Ariel Resende perguntou se a versão 2017 de Roger Federer podia ser considerada a melhor de todas – melhor ainda do que o modelo 2004-2007, que dominou o circuito na década passada.

A discussão é tão inútil quando pode ser divertida, desde que todos consigam discordar com educação, tentando entender os pontos de vista alheios. E este post não tem intenção alguma de cravar um acima dos outros. Mesmo assim, quis deixar registrado aqui este texto como mero levantamento de números e variáveis que servem para alimentar um debate saudável.

Em números, o Federer/2006 parece imbatível. Naquela temporada, o suíço somou 92 vitórias contra apenas cinco derrotas (quatro para Rafael Nadal e uma diante de Andy Murray), venceu três slams Australian Open, Wimbledon e US Open), foi vice em Roland Garros e encerrou a temporada com uma sequência de 29 triunfos, período em que foi campeão em Nova York, Tóquio, Madri, Basileia e do ATP Finals, que então levava o nome de Masters Cup, além de superar Novak Djokovic e Janko Tipsarevic na repescagem da Copa Davis. Enorme.

Ainda é cedo para julgar a versão 2017 de Federer em números e, com 35 anos e um calendário praticamente sem saibro, é virtualmente impossível que as estatísticas de 11 anos antes sejam igualadas. Ainda assim, o suíço já venceu o Australian Open e os Masters de Indian Wells e Miami.

Mas se é impossível comparar dados registrados, o que dizer tecnicamente? Parece incontestável que Federer, hoje, é um tenista mais completo. Desde a troca de raquete, efetuada no segundo semestre de 2013, o suíço tem golpes mais limpos e até mais potentes. Seu saque é uma arma ainda mais poderosa. O backhand, que nunca foi tão vulnerável quanto muitos acreditam, é uma arma perigosíssima. E, comparando o vídeo da final do Australian Open deste ano com as imagens do jogo contra Ivan Ljubicic em Miami/2006, é até difícil ver diferença na velocidade de deslocamento em quadra – algo soberbo para um tenista de 35 anos.

Mas será que o Federer de hoje é tão melhor assim do que o Federer de 2014, 2015 e início de 2016? Aí é que, a meu ver, a comparação é mais difícil. Em 2014, suíço foi vice-campeão em Wimbledon. Em 2015, foi finalista em Wimbledon e no US Open. Lembram de quando ele lançou o “SABR”, a devolução quase de bate-pronto? Ali, Federer foi considerado um revolucionário. Por fim, em 2016, antes da lesão, alcançou a semifinal em Melbourne. Não, ele não voltou dos seis meses de pausa como um tenista tão diferente e superior assim.

O elemento comum durante esse período 2014-2016? Novak Djokovic. O sérvio foi tão acima da média que impossibilita qualquer comparação justa. O fato, contudo, é que sempre que Federer brilhou, o então número 1 esteve lá para impedir um título. Sem Nole, o suíço possivelmente teria mais de 20 slams a essa altura. Talvez estivéssemos vendo o Federer de hoje com um olhar menos espantado. Sim, é justo que nos admiremos com um tenista voltando de lesão, seis meses parado, e ganhando tanto – e jogando tão bem. Mas será que ele é tão melhor agora do que dois anos atrás? Difícil julgar.

Duríssimo até porque Novak Djokovic não enfrentou o suíço neste 2017. E, se enfrentasse, o Djokovic de hoje teria o mesmo sucesso de dois ou três anos atrás? É por causa desse tipo de variável que é tão complicado e injusto cravar “melhores de todos os tempos”, qualquer que seja o esporte. Quem consegue equiparar os parâmetros para fazer uma comparação justa entre Federer e Rod Laver, por exemplo? E o tal “maior” é quem domina mais ou quem domina por mais tempo? O maior é necessariamente o melhor? Cada pessoa, com sua lista de critérios e preferências pessoais, pode achar uma coisa diferente. E o assunto está no ar para quem quiser discutir…


Por que Kyrgios x Zverev pode ser o Federer x Nadal do amanhã
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Alexandre Cossenza

O Masters de Miami testemunhou, na noite de quinta-feira, o que pode ter sido o primeiro episódio empolgante da próxima grande rivalidade do tênis mundial. Nick Kyrgios, australiano, 21 anos e #16 do mundo, derrotou Alexander Zverev, alemão, 19 anos e #20 do mundo, em um jogo espetacular, cheio de variações, jogadas espetaculares, discussões com árbitros e match points salvos. É um duelo que tem tudo para acontecer mais vezes e em fases mais importantes de torneios.

“Tem tudo…” é um grande clichê que todo mundo usa o tempo inteiro. Às vezes por preguiça, às vezes por falta de argumento mesmo. É fácil cair diante da tentação de usar uma expressão que supostamente diz muita coisa, mesmo sem especificar nada. Só que no caso de Kyrgios e Zverev, esse “tem tudo” faz sentido. Os dois são tecnicamente admiráveis. Têm slices, spins, bolas chapadas e todo tipo de variação. Ambos também possuem uma característica típica da nova geração: ótima movimentação para sua altura.

Kyrgios tem 1,93m e um saque capaz de acumular 25 aces em dois sets contra Djokovic – a melhor devolução do circuito. Sua mobilidade nunca foi espetacular, mas o australiano, que insiste em não contratar um técnico, decidiu investir em preparação física desde o fim do ano passado. O resultado está se mostrando em quadra. Kyrgios vem chegando mais inteiro em mais bolas. Seu ponto mais frágil, que era sair com pouca frequência da defesa para o ataque, já não é mais tão vulnerável. E isso só tem a melhorar.

Zverev tem 1,98m e um saque capaz de tirá-lo de situações complicadas com frequência. Foi principalmente com ele que o adolescente alemão bateu Roger Federer em Halle, no ano passado, e na Copa Hopman, no início deste ano. Só que Zverev também sabe se defender. Chega em bolas que muitos com sua altura não alcançariam e sabe usar o slice quando necessário para mudar a velocidade do jogo. Há muito tempo o tênis não vê alguém tão jovem com tantos recursos.

Comparar Kyrgios-Zverev a Federer-Nadal talvez seja sonhar muito alto. O clássico entre espanhol e suíço foi (ainda é) muito mais do que uma rivalidade por títulos e rankings. Foi um jogo de contrastes, um duelo que polarizou o mundo. Era o tênis limpo e barishnikovesco de Federer contra a camisa sem manga e suja de saibro de Nadal. Era o metrossexual homem do mundo contra o insular macho man musculoso. Era o penteado capa da Vogue contra o cabelo do Mogli. Era Mercedes contra Kia, Dubai contra Mallorca, Moët & Chandon contra pasta y gambas.

Australiano e alemão, contudo, têm lá seus contrastes interessantes. Zverev é um tenista mais pragmático. Quando precisa, faz só o básico. Kyrgios é o rebelde (aparentemente) incurável que apaga a linha que separa o louco do gênio. Não resiste à tentação de arriscar um golpe improvável, mesmo no mais delicado dos momentos. Em Miami, depois da espetacular passada por baixo das pernas do vídeo acima, o australiano forçou um Gran Willy quando tinha set point contra. Mandou na rede, perdeu o set.

Os dois têm maneiras bem diferentes de se comportar em quadra. Kyrgios é mais tudo. Fala mais, grita mais alto, reclama com mais frequência. Ele leva para a quadra um pouco do swag do basquete, seu esporte referido. Abre os braços de um jeito quase arrogante quando faz um lance de efeito. Chama a galera, ganha os aplausos. Zverev é mais discreto. Comemora consigo mesmo, tenta se manter concentrado falando pouco. A não ser quando a situação pede – como na noite desta quinta. Aí vira circo, no bom sentido da coisa, e é por isso que o mundo já está apaixonado por esse duelo.

Impossível prever o que será da carreira dos dois. Não é a tentativa deste post. Pelo contrário. Este texto é mais torcida do que previsão. Kyrgios e Zverev ainda têm uma geração fortíssima para derrubar. Federer está voando, Murray e Djokovic ainda têm alguns bons anos pela frente, Wawrinka não mostra sinais de queda e Nadal continua forte.

A questão é que fora esses cinco, ninguém atualmente mostra tênis tão versátil e com tanto potencial quanto Kyrgios e Zverev. Os dois podem bater qualquer um jogando de maneiras diferentes, em dias ótimos ou em jornadas não tão boas. E quando (ou “se”) alcançarem o equilíbrio entre físico, maturidade tenística e força mental, serão dificílimos de parar. E aposto aqui minhas pequenas cédulas de Banco Imobiliário que, como Kyrgios pediu no primeiro tweet deste post, as redes sociais vão ficar lotadas de feitos desses dois #NextGênios.

Coisas que eu acho que acho:

– Não, não foi o primeiro jogo entre eles. Quando digo, lá no alto, que pode ter sido “o primeiro episódio empolgante” é porque o primeiro duelo, há duas semanas, em Indian Wells, não empolgou. Terminou sem drama, num 6/3 e 6/4 para Kyrgios.

– Apenas torcendo para que seja uma coincidência feliz: em março de 2004, Nadal venceu o primeiro jogo contra Federer por 6/3 e 6/3. Também sem drama, sem nada realmente memorável. E ninguém imaginava que os dois se enfrentariam tanto, por tanto tempo e com tanta coisa em jogo…

– O que falta para que os dois deem o último grande salto e passem a brigar toda semana com o pessoal do top 5? Para Kyrgios, muito pouco. Com o que vem mostrando este ano, parece ser uma questão de tempo para ele mostrar seu talento com mais consistência, não só nos jogos grandes, mas nas partidas de terças e quartas-feiras sem adversários de nome ou quadras lotadas.

– Para Zverev, acredito que falta um pouco mais. Seu jogo é sólido o bastante. A cabeça, nem tanto. E nem é questão de descontrolar ou de alongar discussões inúteis como Kyrgios faz. O alemão ainda leva um pouco mais de tempo para esquecer erros bobos e superar falhas em momentos importantes. Kyrgios, por sua vez, tem uma capacidade gloriosa de brigar, gritar, quebrar raquetes e jogar o ponto seguinte como se nada tivesse acontecido.


ITF radicaliza para tentar tornar circuito profissional sustentável
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Alexandre Cossenza

A Federação Internacional de Tênis (ITF) anunciou, nesta quinta-feira, uma série de grandes mudanças no circuito profissional e no sistema de transição pós-juvenil. A intenção da entidade é reduzir o número de tenistas profissionais a um “grupo verdadeiramente profissional” de cerca de 750 homens e 750 mulheres. Hoje, segundo estimativas da ITF, há por volta de 14 mil tenistas competindo em torneios profissionais, e quase metade desse número é composta por gente que não recebe prêmio em dinheiro.

Como isso vai funcionar? Segundo o comunicado da ITF, os atuais torneios de US$ 15 mil serão reposicionados e deixarão de fazer parte do circuito profissional. Eles passarão a integrar uma “Transition Tour” – turnê/tour de transição — e não distribuirão dinheiro, mas darão pontos de entrada na ITF. Só quem tiver esses pontos de entrada vai poder jogar o circuito profissional. A ITF ainda enfatiza que esses torneio de transição serão realizados em espécies de pequenos circuitos regionais, o que vai diminuir custos para tenistas e organizadores.

Segundo a entidade, essa nova estrutura vai “introduzir um caminho profissional mais claro e eficiente e garantir que o prêmio em dinheiro no circuito profissional da ITF [o atual nível Future da ATP] seja mais bem direcionado para garantir que mais jogadores possam viver do esporte profissional.”

Na prática, a ITF está criando um funil para reduzir também o número de eventos profissionais (leia-se “que distribuem dinheiro”). A consequência mais desejada do processo é fazer com que o prêmio em dinheiro que existe atualmente no circuito seja suficiente para manter esse “grupo verdadeiramente profissional” de jogadores em atividade – mesmo que exista outro efeito cruel, que é tornar o tênis competitivo um esporte de acesso ainda mais complicado.

A ITF diz ter chegado a essas conclusões após um longo processo de análise do tênis que incluiu dados de 2001 a 2013 e entrevistas com mais de 60 mil pessoas no meio do tênis (jogadores, federações, técnicos e promotores). O novo presidente da entidade, David Haggerty, diz que “foi o maior estudo do tênis profissional já feito e que ressaltou os ‘desafios’ (em corporativês, desafio é sinônimo de problemas e defeitos) consideráveis na base de nosso esporte. Mais de 14 mil tenistas competiram no nível profissional no ano passado, e isso é simplesmente demais. Mudanças radicais são necessárias para tratar das questões de transição entre o tênis juvenil e o profissional, viabilidade financeira e custos de torneios.”

Números de 2013 a considerar:

– Segundo o estudo, um tenista homem gastava, em média, US$ 38 mil por ano, enquanto uma mulher precisava gastar US$ 40.180. Esse número inclui voos, hospedagem, comida, encordoamento, lavanderia, roupas, equipamento e transporte, mas não leva em conta gastos com treinadores.

– O chamado “break even point” (quando o tenista pelo menos não perde dinheiro para se manter jogando) era o 336º posto no ranking da ATP. Na WTA, o mesmo era o 253º lugar.

– Um total de 3.896 tenistas homens disputaram torneios profissionais e não receberam prêmio em dinheiro nenhum; no circuito feminino, 2.212 atletas jogaram e não ganharam nada.

– Apenas 1% dos tenistas homens abocanhou 60% (US$ 97.448.106) do total do prêmio em dinheiro (cerca de US$ 162 milhões). Entre as mulheres, o mesmo 1% da elite levou 51% da premiação total (cerca de US$ 120 milhões).

Coisas que eu acho que acho:

– Talvez mais importante do que a ITF tomar medidas para mudar o tênis tenha sido a postura de abrir o jogo, citando números e sem esconder o tamanho da desigualdade no esporte e o quão difícil é sobreviver jogando em torneios pequenos. Os relatórios citam várias estatísticas, ilustradas com gráficos e planilhas de todo tipo. Quem quiser se aprofundar pode ler sobre o circuito profissional aqui e sobre o circuito juvenil aqui. O relatório com as entrevistas dos jogadores está neste link, e as entrevistas com não-tenistas estão aqui.

– Uma dos pontos que achei interessante nas pesquisas de opinião é que 70% dos não-tenistas concordaram que havia uma necessidade de mudar a distribuição do prize money. Entre essas mesmas pessoas, a maioria era favorável a aumentar o dinheiro nas primeira rodadas e reduzir nas fases finais. E a opção menos popular foi eliminar as chaves de duplas.


Precisamos considerar a hipótese de Federer como número 1 outra vez
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Alexandre Cossenza

Tudo bem, são só dois meses e meio de temporada. Tudo bem, Andy Murray ainda lidera o ranking mundial com folga. A contar desta segunda-feira, 20 de março, o britânico tem mais de 3 mil pontos sobre Novak Djokovic, o vice-líder. Só que esses dois meses e meio incluíram um slam, um Masters 1000, e Roger Federer venceu ambos. Não dá para jogar o assunto para baixo do tapete. Já é preciso considerar a possibilidade de ver o suíço como número 1 do mundo mais uma vez.

Não só pelo começo de ano estrondoso do suíço. Novak Djokovic ainda não fez nada de relevante em 2017, e o máximo que Andy Murray conseguiu foi vencer um ATP 500. O britânico caiu na estreia em Indian Wells e não estará em Miami. O sérvio, eliminado nas oitavas na Califórnia, também será ausência na Flórida. Enquanto isso, Federer viaja embalado, dono do melhor tênis jogado no ano.

Ainda faltam três slams, oito Masters 1.000 e um ATP Finals. Ninguém está dizendo que é provável ou muito provável a volta de Federer ao topo. Mas talvez seja um momento bom para observar o que joga a favor ou contra esse cenário.

O que ajuda

– O que já aconteceu: Federer jogou três torneios, ganhou dois e somou 3.045 pontos. O segundo colocado no ranking da temporada é Nadal, com 1.635 – pouco mais da metade. É de se esperar que Djokovic e Murray somem mais pontos nos próximos meses. Até agora, contudo, o sérvio somou só 475, enquanto o britânico acumula 840. A vantagem do suíço é considerável.

– O pequeno desgaste: Não dá para dizer que Federer está cansado. Até agora, esteve em três torneios. Perdeu na segunda rodada em Dubai e ganhou AO e IW, dois eventos com um dia de intervalo entre a maioria dos jogos. Na Califórnia, venceu uma partida por WO e só entrou em quadra cinco vezes. Não jogou três sets nenhuma vez, e a apresentação mais longa durou 1h34min. Resumindo? Somando o estilo de jogo “econômico” para o corpo e a facilidade das vitórias recentes, o suíço está em ótima forma e sem desgate acumulado.

O que pode jogar contra

– A idade é sempre o primeiro ponto de interrogação. Lesões são mais frequentes quando um atleta tem 35 anos. Embora não lide com nenhum incômodo no momento, esse tipo de coisa acontece sem aviso. Foi assim ano passado. Oficialmente, o problema no joelho, aquele que exigiu uma cirurgia e deixou o suíço seis meses sem jogar, começou fora de quadra.

– O calendário reduzido. Quanto menos torneios, menor a margem para atuações ruins. Federer já avisou que vai jogar menos em 2017, mas ainda não está claro o quão enxuta será a lista de eventos. Ele vai cortar a temporada de saibro inteira? Parece improvável. Ficará fora de algum outro Masters 1000? Possivelmente, mas de quantos? Ninguém sabe ainda.

Administrando as expectativas

Federer e qualquer outro tenista sabem a loucura que é repercussão quando alguém diz “vou atrás do número 1”. Por isso, o discurso padrão do Big Four quase sempre foi “o ranking não é minha prioridade”, “quero jogar bem”, “se estiver jogando bem, o ranking vai refletir isso”, etc. e tal. A versão atual do suíço não é muito diferente. Após vencer a semi, Federer disse com todas as letras que há uma possibilidade e que ele adoraria ser número 1 de novo. Mas isso tudo vem numa análise realista de suas chances e numa tentativa de conter a expectativa. Leiam:

“Como não vou jogar muito, é de se imaginar que eu precisaria ganhar provavelmente outro grand slam para isso acontecer. Como já tenho um no bolso, acho que existe uma possibilidade. Além disso, estou jogando bem aqui, fora dos grand slams, mas os slams dão tantos pontos que é provavelmente onde eu teria que ir longe mais uma novamente. E um talvez não seja suficiente porque eles vão elevar seu nível de jogo.”

“Eles vão elevar seu nível e vão ganhar torneios de novo. Então só porque Novak pode não jogar em Miami e porque Andy não vai e estou na final aqui, não muda nada no meu calendário. Eu adoraria ser número 1 outra vez, mas qualquer coisa que não seja número 1 do mundo não é interessante para mim. Então é por isso que o ranking não é uma prioridade agora. É ficar saudável curtir os torneios que eu jogar e tentar vencê-los.”

Entre o possível e o provável

É claro que é cedo para fazer previsões e dizer que Federer tem uma enorme chance de voltar ao topo do ranking. O que não se pode fazer é, diante de seu altíssimo nível de jogo e do começo de ano pouco empolgante de Murray e Djokovic, ignorar essa possibilidade. Se o próprio suíço hoje em dia adota cautela, é de se esperar que a postura mude à medida em que o número 1 começar a se tornar algo palpável. Até o calendário enxuto pode ganhar umas datas a mais. O certo é que hoje essa hipótese não pode ser ignorada. Quem sabe?

Coisa que eu acho que acho:

– Sobre o calendário reduzido de Federer, não me parece nada impossível que ele alcance o número 1 jogando de 13 a 15 torneios na temporada. Quinze parece um número bastante razoável, nada exagerado, e não deve ser muito menos do que Djokovic, Murray e Nadal disputarão. Basta lembrar que em 2016, sem contar os Jogos Olímpicos e a Copa Davis (que não contam pontos para o ranking mundial), Murray esteve em 16 torneios, enquanto Djokovic disputou 15.


Um sinal animador para Marcelo Melo
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Alexandre Cossenza

Marcelo Melo e Bruno Soares, os dois que apostaram em Acapulco como adaptação às quadras duras e preparação para Indian Wells, tiveram seus planejamentos recompensados. Soares, campeão no ATP 500 mexicano, somou sete vitórias consecutivas ao lado de Jamie Murray até ser eliminado nas semifinais em India Wells. E seu algoz na Califórnia foi o conterrâneo. E é justamente a parceria Melo/Kubot o assunto mais interessante no momento.

Depois de um início de ano sem os resultados desejados, Melo finalmente encaixou uma boa semana ao lado de Lukasz Kubot. Brasileiro e polonês estiveram perto do título, mas foram derrotados de virada por Rajeev Ram e Raven Klaasen por 6/7(1), 6/4 e 10/8.

Kubot fez um primeiro set excelente e foi o melhor em quadra durante o primeiro tie-break. O polonês só não manteve o nível altíssimo e acabou dando três pontos de graça no match tie-break. Errou dois voleios fáceis, devolvendo mini-breaks, e ainda jogou na rede uma devolução de segundo saque no 7/8. As falhas custaram caro, e Kubot parecia saber disso na cerimônia de premiação.

Embora a semana tenha terminado com uma derrota doída, Melo e Kubot talvez tenham encontrado o sinal que precisavam para levar a parceria além de Miami. Após o Australian Open e, mais tarde, depois do Rio Open (vide aspas abaixo), o mineiro disse que era preciso encontrar um equilíbrio na dupla e que jogar com agressividade excessiva (como Kubot faz boa parte do tempo) deixava o time vulnerável diante de duplas contra as quais deveria ser favorito.

“Normalmente, eu me adapto muito bem [a parceiros de estilos diferentes], mas não adianta a gente jogar muito kamikaze e bomba pra todo lado. Eu gosto de um jogo mais controlado, mais sólido. Às vezes, com menos velocidade e mais porcentagem. A gente precisa encontrar esse balanço porque eu sou mais desse estilo. O Lukasz é mais agressivo. Tem dia que não entra a bola e nós vamos perder para qualquer dupla! Nós precisamos encontrar esse equilíbrio para ver se a gente consegue manter a dupla – para evoluir porque tem que tentar até certo ponto encontrar esse equilíbrio, senão não adianta seguir.”

Resta saber se o vice em Indian Wells é o início de um momento interessante e que pode levar a bons resultados ou se foi uma campanha isolada que, vista com otimismo excessivo, pode fazer os dois continuarem juntos por mais tempo do que o ideal, atrasando a vida de ambos. Miami vem aí para ajudar a esclarecer o tema.

Coisa que eu acho que acho:

– Sobre os altos e baixos do kamikaze Kubot, a impressão que tenho é que isso tudo vem no pacote com o polonês. Ele vai fazer jogos ótimos nos dias bons, mas também vai cometer duplas faltas em sequência nos dias ruins. Não adiante, por exemplo, culpá-lo pela derrota deste sábado. Talvez sem ele, a dupla nem tivesse vencido o primeiro set. Tudo é questão de avaliar o custo-benefício e ver se vale a pena investir no produto.

– Podem reclamar e dizer quanto quiserem que Marcelo Melo e Bruno Soares deveriam ter feito mais esforço, que não foram patriotas e tudo mais porque não jogaram em São Paulo, no Brasil Open. Já debati este tema num post anterior e, depois, no podcast Quadra 18. Agora, vendo os resultados em Indian Wells, fica ainda mais clara a lógica por trás da opção por Acapulco. Não há o que questionar.


O balanço brasileiro no saibro
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Alexandre Cossenza

Com o fim do tardio do Brasil Open, parece o momento ideal para fazer um balanço da participação brasileira na perna sul-americana do circuito mundial, que, por enquanto, ainda é toda disputada em quadras de saibro. Digo “ainda” porque, como os leitores do blog sabem, Rio e Buenos Aires estão em busca de aprovação para mudarem para quadras duras.

O motivo carioca/portenho não tem a ver com as campanhas de brasileiros e argentinos. A ideia é conseguir trazer mais nomes de peso. Diretores dizem que o principal argumento de quem não quer vir até aqui é a mudança de piso entre o Australian Open e o Masters de Indian Wells. Mas enquanto a alteração não sai, será que os brasileiros vêm aproveitando o piso mais favorável a seu jogo?

Depois de Quito, Buenos Aires, Rio de Janeiro e São Paulo, dá para dizer que não foi a pior das campanhas brasileiras. Não que tenha sido espetacular. Bellucci, principalmente, poderia ter tirado muito mais de Rio e São Paulo não fossem seus problemas físicos e, ao que parece, de motivação. Vejamos um por um:

Thomaz Bellucci

Como nos dois anos anteriores, o paulista fez boa campanha em Quito. Só perdeu – pela terceira vez seguida – para Vitor Estrella Burgos, o veterano que acabou conquistando o tricampeonato no Equador. Caso curioso, não tão fácil de explicar/entender, mas que precisa entrar para a coluna das “chances perdidas”.

No Rio, Bellucci eliminou o cabeça 1 na estreia, empolgou a torcida e decepcionou no jogo seguinte. No meio do segundo set contra Thiago Monteiro (jogo à noite, 27 graus), o paulista já esteve pregado. Saiu de quadra dizendo “morri” com todas as letras. Depois, em São Paulo, também teve problemas físicos (de outro tipo) na derrota para Schwartzman. Após o revés, deu uma declaração um tanto preocupante. Falou que precisa “reencontrar a alegria e a motivação de estar na quadra que só o dia a dia vai me dar. Tenho que pensar no que a gente tem que fazer para dar a volta por cima.”

De qualquer modo, mesmo com a vitória sobre Nishikori e uma semi em Quito, fica a impressão de que poderia ter sido muito melhor. É duro afirmar, mas é o mesmo que pode ser dito sobre muitos momentos da carreira de Bellucci.

Thiago Monteiro

Talvez tenha sido o momento de consolidação do cearense. Um ano depois de “surgir” ao bater Tsonga no Rio, Monteiro fez uma turnê sólida, com quartas de final em Buenos Aires e no Rio. Perdeu na estreia em Quito e em São Paulo, mas em condições difíceis. Jogou contra Giovani Lapentti na altitude e contra Carlos Berlocq (seu algoz também em Buenos Aires) no Pinheiros.

Ao todo, nada mau. Os ATPs, no entanto, deixaram mais visíveis os buracos no jogo do cearense. Berlocq deixou clara a necessidade de Monteiro melhorar junto à rede. O argentino venceu uma enorme maioria de pontos quando variou e tirou Thiago do basicão “distribuindo-pancada-do-fundo”. No Rio, Ruud expôs as falhas na devolução do cearense. Monteiro não conseguir entrar em um número razoável de pontos no serviço no norueguês.

Monteiro sabe quanto e onde precisa evoluir. Ele mesmo falou sobre isso na última coletiva que deu no Rio de Janeiro. Há tempo para isso. É questão de trabalhar e pensar no jogo como um todo – e não só na pancadaria do fundo de quadra.

Rogerinho

O paulista esteve nos quatro ATPs, inclusive furando o quali em Buenos Aires, mas não conseguiu vencer nenhum jogo em chaves principais. O mais perto que chegou disso foi quando teve dois match points contra Alessandro Gianessi na Argentina. Não dá para dizer que foi uma passagem trágica de Rogerinho pela América do Sul, mas ele teve jogos ganháveis e não aproveitou. Também entra para a coluna de chances não aproveitadas.

Feijão

João Souza também esteve nos quatro ATPs, mas ficou no quali em Buenos Aires (perdeu para Rogerinho) e só venceu um jogo em São Paulo (contra Zeballos na estreia). E se não dá para condená-lo pelas derrotas para Pablo Carreño Busta (Rio e SP), esperava-se mais de seu jogo na altitude de Quito. A derrota na estreia para Federico Gaio não foi o melhor dos resultados.

Bruno Soares

Orale Cabron 🇲🇽 🏆 🏆🏆

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O mineiro só jogou um torneio no saibro. Foi no Rio, onde ele e Murray perderam nas semifinais, quando até tiveram um match point contra Carreño Busta e Pablo Cuevas. Um resultado bom, considerando que Soares ficou dez dias no Rio de Janeiro, mas passou a maior parte do tempo dando entrevistas, participando de eventos com fãs, dando clínicas e aparecendo para seus patrocinadores.

Depois do Rio, o mineiro foi para Acapulco, jogar um ATP 500 na quadra dura, em vez de jogar no Brasil Open, em São Paulo, no saibro. A decisão provocou críticas públicas de Flávio Saretta em uma sequência de tweets.

“Semana de Brasil Open! Torneio que existe desde 2001! Sempre muito valorizado pelos tenistas brasileiros!! Tão valorizado que até o número 1 do mundo jogava! E tive a noticia que Marcelo e Bruno Soares optaram por jogar em Acapulco. Gosto dos dois desde sempre, mas não posso concordar com essa decisão e atitude! Sabemos das imensas dificuldades de se fazer um torneio ATP no Brasil pelos custos, etc! Sempre valorizamos demais esse torneio no Brasil! Um orgulho jogar um ATP no nosso país!! Por isso confesso que achei um absurdo os dois jogarem no México e não no Brasil! Fora a troca que é estar perto de quem torce por vc e não tem a oportunidade de ver vc jogar de perto!!! Escolha errada dos dois! Uma pena…”

Sim, seria ótimo ter Soares e Marcelo Melo (que também foi a Acapulco) jogando mais uma semana no Brasil, mas é preciso entender os motivos de ambos. Primeiro, os dois preferem jogar em quadras duras. Não por acaso, Bruno venceu dois Slams no piso ao lado de Jamie no ano passado. Mas não é só isso. Além de Acapulco ser um torneio mais importante, é uma semana de jogos na quadra dura antes de um evento ainda maior: o Masters de Indian Wells, no piso sintético.

Dizer que Soares e Melo precisariam fazer mais esforço para jogar no Brasil me parece forçar a barra. Os dois, afinal, estiveram no Brasil. E Bruno, especialmente, fez todo tipo de atividade para divulgar o torneio, o tênis e seus patrocinadores. O torcedor brasileiro teve a chance de vê-los. Só quem não foi ao Rio (caso de Saretta) ou não ficou a semana inteira não viu isso.

Além disso, os dois mineiros deveriam ter um pouquinho mais de crédito (é só minha opinião). Soares jogou o Brasil Open todos os anos desde 2009. Sempre trouxe seus parceiros. Foi campeão três vezes e, na maioria das vezes, atuou em quadras secundárias – inclusive naquele precário e improvisado Mauro Pinheiro. Em um de seus títulos, fez apenas um jogo na quadra central (a final). Melo viveu situações parecidas e, até este ano, só havia ficado ausente em 2014.

Por fim (não que o resultado mudaria algum dos argumentos acima), Soares e Murray foram campeões em Acapulco, somando 500 pontos e ganhando embalo antes do primeiro Masters 1.000 do ano.

Marcelo Melo

O mesmo caso de Bruno, só que com um agravante. Marcelo e seu parceiro, Lukasz Kubot, ainda não encontraram ritmo. E como jogam melhor em quadras duras, estavam em Roterdã (um ATP 500) em vez de Buenos Aires. No Rio, perderam para Peralta e Zeballos nas quartas. Depois, partiram para Acapulco, onde caíram na estreia diante de Santiago González e David Marrero.

Depois do Australian Open, Melo já dizia no “Pelas Quadras”, da ESPN, que era preciso encontrar um equilíbrio na parceria. A queixa (velada) era em respeito ao jogo kamikaze de Kubot. No Rio, o mineiro deu declarações parecidas. Disse que gosta de um jogo com menos velocidade e mais equilibrado e deu a entender que o Masters de Miami será o momento para avaliar se o time com Kubot tem futuro.

André Sá

Jogou com Tommy Robredo em Buenos Aires e no Rio e caiu na estreia em ambos. Em São Paulo, ao lado de Rogerinho, foi longe e conquistou o título. Saiu do saibro levando 250 pontos, o que não é nada ruim.

Marcelo Demoliner

Fez Buenos Aires-Rio-SP com seu parceiro habitual, o neozelandês Marcus Daniell. Também passou em branco na Argentina e no Rio. Também foi à decisão no Pinheiros. Somou 150 pontos.


Rio, dia 5: o melhor golpe da vida de Thiem e o fim da linha para o Brasil
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Alexandre Cossenza

A sexta-feira do Rio Open não foi o dia dos sonhos para o tênis brasileiro. Primeiro, Thiago Monteiro foi superado pelo convidado Casper Ruud, 18 anos e número 208 do mundo. Mais tarde, nas duplas, Bruno Soares teve match point, mas acabou superado ao lado de Jamie Murray em mais uma semifinal.

Quem comemorou mesmo foi Dominic Thiem, cabeça de chave 2. Além de vencer em dois sets e alcançar a semi, o austríaco realizou o que ele mesmo classificou como o melhor golpe de sua carreira (vide vídeo abaixo). O resumão de hoje tem tudo isso em declarações, imagens e vídeos.

O adeus de Monteiro

Thiago Monteiro não passou das quartas de final. O cearense demorou a equilibrar ações, permitiu que Casper Ruud abrisse 4/0 no primeiro set e, depois disso, o norueguês de 18 anos jamais perdeu a calma. O brasileiro não conseguiu um break point sequer e acabou eliminado por 6/2 e 7/6(2).

Ruud, atual #208 do mundo, nunca tinha vencido uma partida em um torneio da ATP antes do Rio Open e só ganhou um convite porque é agenciado pela IMG, dona do torneio. O adolescente aproveitou a chance e mostrou um tênis sólido, potente e com variações, além de um ótimo preparo físico. Jogou uma partida sob calor intenso e fez um duelo longo de três sets. Em ambos, saiu inteiríssimo da quadra. Contra Monteiro, impôs seu forehand pesado e cheio de spin, criando problemas para o backhand do cearense. Além disso, variou saques e jamais deixou Monteiro à vontade. Nem a torcida brasileira, empurrando o tenista da casa, tirou o norueguês do sério.

O adversário da semi será Pablo Carreño Busta, que avançou depois que Alexandr Dolgopolov abandonou ao fim do segundo set por causa de dores no quadril esquerdo. O ucraniano, campeão em Buenos Aires no domingo, já vinha se queixando aqui no Rio. O curioso é que ele desistiu da partida logo depois de jogar um excelente tie-break e empatar a partida contra o espanhol. O placar final mostrou 7/6(4) e 6/7(2).

Thiem: a segunda semi e o melhor golpe da vida

No primeiro set, foi mais complicado do que o placar mostrou. No segundo, mais fácil. No fim, Dominic Thiem bateu Diego Schwartzman por 6/2 e 6/3 e avançou pelo segundo ano seguido às semifinais do Rio Open. Com direito a um momento glorioso: uma passada de Gran Willy que levantou a galera e que o próprio austríaco definiu como o melhor tiro da carreira.

“Eu já tinha tentado o tweener muitas vezes, mas foi meu primeiro winner limpo. Não acreditei porque eu estava muito atrás da linha de base. Provavelmente, foi o melhor golpe que acertei na vida.”

Ressalte-se, porém, que o argentino deu trabalho. No primeiro set, teve break points em três games de serviço de Thiem, inclusive um 0/40 no 3/2. O mérito do austríaco foi ser superior e não cometer erro nenhum em todos momentos delicados. Schwartzman também ensaiou uma reação na segunda parcial, vencendo três games (duas quebras) depois estar 0/5 atrás, mas, novamente, Thiem foi mais sólido quando a coisa apertou.

Em busca da vaga na final, Thiem vai enfrentar Albert Ramos Viñolas, que não teve problemas diante do qualifier argentino Nicolas Kicker: 6/2 e 6/3. Atual número 25 do mundo e ocupando o melhor ranking da carreira, o espanhol venceu o único duelo que fez contra Thiem. Foi nas quadras duras de Chengdu, no ano passado, nas quartas de final, e o placar foi 6/1 e 6/4. Será que no saibro, com a bola quicando alto – condições perfeitas para Thiem – Ramos consegue repetir?

Bruno Soares e a derrota mais doída

A final já seria complicada, afinal os colombianos Robert Farah e Juan Sebastian Cabal, atuais bicampeões do Rio Open e tradicionais pedras no sapato de Bruno Soares, garantiram cedo seu lugar na decisão quando superaram Julio Peralta e Horacio Zeballos por 6/7(4), 7/6(6) e 10/6.

O pior é que a final acabou não vindo. Bruno Soares e Jamie Murray fizeram um jogo duríssimo contra Pablo Cuevas e Pablo Carreño Busta e acabaram eliminados. Brasileiro e britânico até tiveram um match point no match tie-break, mas a devolução de Soares não teve o efeito desejado, e a chance não foi aproveitada. Dois pontos depois, graças principalmente a um lob defensivo de Pablo Cuevas que caiu na linha, uruguaio e espanhol fecharam: 6/4, 3/6 e 12/10.

Foi a quarta chance de Bruno Soares nas semifinais do Rio Open (a primeira com Murray) e a quarta derrota. O mineiro saiu de quadra hoje dizendo que foi o revés mais doído.

“Nos outros anos, achei que nós jogamos bem mais ou menos. Chegar na semifinal era meio que lucro. Eu saía falando ‘não fiz muita coisa para estar na final.’ Este ano, fiquei chateado porque achei que, dentro das condições [Soares já havia reclamado das bolas usadas no Rio Open], a gente jogou bem. A gente conseguiu ter match point jogando um nível bom de tênis. Nos outros anos, a gente foi meio que se arrastando até a semi, e eu meio que saía aceitando o que tinha acontecido. Este ano… faltou um ponto, cara.” … “Ter match point doeu. Preferia ter perdido no 9/7 ali, pá-pum. Seria um pouco menos doído.”

O melhor do sábado

A sessão começa às 17h, com Dominic Thiem x Alberto Ramos Viñolas. Em seguida, Casper Ruud encara Pablo Carreño Busta. A programação ainda prevê um show de Nina Miranda antes da decisão de duplas, que fecha a noite no Rio Open.


O que falta para o Centro Olímpico ser mesmo do tênis brasileiro?
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Alexandre Cossenza

GigantesdaPraia_cbv2_blog

No último fim de semana, a CBV realizou, em parceria com a TV Globo, um evento de vôlei de praia no Centro Olímpico de Tênis. Cerca de 280 toneladas de areia foram colocadas na quadra central, transformando o palco da final entre Andy Murray e Juan Martín del Potro em uma praia tropical, com direito a pequenas palmeiras e tudo mais.

Visualmente, ficou tudo muito bonito – como mostra a foto acima. Mas a imagem também levanta uma série de perguntas:

– Por que a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) está usando as instalações do tênis, enquanto a Confederação Brasileira de Tênis (CBT), que tanto falou em usar o local como sua casa, acaba de levar sua sede de São Paulo para Florianópolis?

– Por que a Asics, que tanto investiu no tênis recentemente, optou por não renovar os contratos de quase todos seus tenistas (só Bruno Soares foi renovado) e levar seu dinheiro para o vôlei?

Seria porque a CBV tem um CEO profissional? Ou porque tem um CT organizado e bem estruturado? Ou porque tem um trabalho de base eficiente, que gera novos talentos a cada ano? Ou porque organiza uma bela liga profissional? Ou porque simplesmente conquista resultados em nível mundial? Ou porque seu presidente não é réu em um processo na Justiça Federal?

Nos últimos dias, procurei CBT, CBV, Asics e Ministério do Esporte. Também consultei pessoas do meio que falaram em condição de anonimato. As respostas, infelizmente, trazem poucas novidades. A CBT continua falando em “intenções”, com nenhum resultado prático. O Ministério do Esporte ainda trabalha para estabelecer procedimentos. De prático mesmo, só as ações e o evento da CBV. Vejam quem disse o quê:

GigantesdaPraia_cbv3_blog

Gigantes da Praia

Por que a CBV teve direito a usar a quadra central para seu evento? Porque foi competente e reconheceu no espaço uma oportunidade. Procurou o Ministério do Esporte, fez uma proposta e teve sucesso. Em vez de gastar mais de R$ 1 milhão de reais em um evento na praia, fez tudo com um orçamento de aproximadamente R$ 500 mil no Centro Olímpico. No espaço do tênis, a CBV deixou de gastar com montagem de estrutura e com taxas pagas à União pelo uso do espaço na praia. No fim das contas, uma economia estimada em mais de 50%.

Em troca pelo uso do local, a CBV se comprometeu a instalar alguns guarda-corpos, a fazer a limpeza do Centro Olímpico de Tênis e a dar retoques de pintura na instalação. A entidade que comanda o vôlei também prometeu tomar todos cuidados para não danificar a quadra de tênis. Usou três camadas de lona de alta resistência para cobrir o espaço que recebeu a areia, evitando contato direto; instalou um tablado no percurso onde a mini carregadeira passava levando areia; e vedou o sistema de escoamento com mantas impermeáveis para evitar que chuva ou vento levassem areia aos dutos.

A operação de montagem da arena de vôlei de praia contou com 11 pessoas e durou quatro dias. Números e informações foram passadas ao autor deste blog pela própria CBV.

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CBT: ainda só na intenção

Se há uma possibilidade de usar o Centro Olímpico como casa do tênis, por que a CBT se apressou tanto ao levar sua sede de São Paulo para Santa Catarina no fim do ano passado? Será mesmo que a entidade quer se basear no Rio? Há tempos, o presidente da CBT, Jorge Lacerda, fala em aproveitar o Centro Olímpico. No entanto, não se viu nada de prático até hoje. Enviei perguntas à CBT e obtive as respostas abaixo – assinadas por Lacerda.

A CBT ainda tem interesse de usar o COT como sede da entidade?
A CBT foi a primeira Confederação a buscar o diálogo com as entidades então responsáveis, demonstrando total interesse desde sempre.

Que medidas a entidade tomou junto ao Ministério?
Tivemos uma conversa produtiva hoje (segunda-feira, dia 6 de fevereiro) com o ministro Leonardo Picciani e vamos buscar avançar na parceria e viabilidade de absorção do legado olímpico de tênis.

O que falta para que o COT venha a ser, de fato, a sede da CBT?
O Ministério assumiu no dia 23/12/16 a administração do Parque Olímpico. Embora recente, o ME já está buscando conversar com as Confederações, inclusive a CBT para, em conjunto, encontrar a melhor solução de forma que o parque olímpico do tênis seja dirigido pela CBT.

CidadeOlimpica_publicas_blog

Ministério: fase de estudos

O Ministério do Esporte, que passou a ser o responsável pelo Parque Olímpico em dezembro, ainda não definiu um conjunto de procedimentos para o uso das instalações. Segundo a assessoria de imprensa do órgão, que enviou as respostas abaixo (reproduzidas na íntegra), tudo ainda está em fase de estudos.

Qual o procedimento para que alguém tenha o direito de usar o Centro Olímpico de Tênis?
Havendo interesse de alguma entidade/órgão em utilizar qualquer uma das arenas sob responsabilidade do Ministério do Esporte, deverá enviar um ofício manifestando interesse e data do evento.

Qual o custo por dia?
Ainda não há definição de custo. O Ministério está elaborando uma proposta de custos por meio de estudos da legislação específica. Os eventos testes servem para ajustar os parâmetros de cobrança a serem estabelecidos.

Qualquer empresa (pública ou privada) pode alugar o local?
Nas áreas de propriedade da União a permissão de uso é aberta para todos (empresa pública ou privada). No caso do Parque Olímpico, em posse do Ministério do Esporte, os estudos avançam para a utilização dos mesmos parâmetros das áreas de propriedade da União.

Que requisitos são necessários preencher para que alguém tenha o direito de usar o Centro Olímpico de Tênis?
Consideramos que estamos na fase de estudos para definição de critérios objetivos, estamos realizando eventos testes exclusivamente com entidades do desporto.

A CBT já procurou o Ministério para negociar o uso do Centro Olímpico de Tênis como sede da entidade?
Positivo, inclusive a CBT na data de hoje [segunda-feira, 6 de fevereiro] formalizou sua intenção em construir um calendário futuro para a utilização do Centro de Tênis. A negociação ainda está em andamento.

BananaBowl_2017_MauricioVieira_blog

Banana Bowl: é possível?

É inevitável mencionar o Banana Bowl, importante evento juvenil realizado pela CBT e que mudou de sede novamente este ano – foi levado para Criciúma e Caxias do Sul, onde está sendo realizado nesta semana. Seria fantástico – e simbólico inclusive – se um evento desse porte fosse realizado no Centro Olímpico. Seria o maior dos legados. Uma instalação herança dos Jogos Olímpicos sendo usada para o benefício de jovens atletas.

É óbvio que não é simples assim. As quadras do Centro Olímpico são de piso duro, e o Banana Bowl é jogado em saibro – inclusive está encaixado em uma parte do calendário internacional que prioriza a terra batida. Mas será que um dia poderíamos ver algo assim acontecendo? Seguem respostas de Jorge Lacerda sobre o assunto:

Por que o Banana Bowl foi levado para Caxias e Criciúma?
O Banana Bowl não tem sede fixa. É um torneio que possui um caderno de encargos robusto, e que exige a necessidade que a CBT busque parceiros para a realização do mesmo. As Federações gaúcha e catarinense, juntamente com os clubes e governos locais, que estão recebendo as categorias 14/16 (Recreio da Juventude/Caxias) e 18 anos (Sociedade Recreativa Mampituba/Criciúma), estão engajadas nesse processo e viabilizando parceiros locais, mantendo a qualidade do evento e minimizando os custos.

O que seria necessário caso a CBT desejasse realizar o Banana Bowl no Centro Olímpico de Tênis? Quais seriam as formalidades junto à ITF?
A CBT sempre vai buscar equacionar as questões financeiras com a melhor entrega do evento para os tenistas, técnicos e espectadores. Para encontrar a fórmula ideal, é necessária a participação das entidades regionais, inclusive os Governos Estaduais e/ou Municipais. Não há dúvidas de que uma vez tendo estas questões dirimidas, o Centro Olímpico de Tênis tem todas as condições de receber o Banana Bowl. De qualquer forma, a CBT nunca falou em fazer o Banana Bowl neste ano no COT, pois a decisão teve que ser tomada no ano passado, época em que o COT ainda estava sobre posse da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, sem definição de quando poderia ser utilizado.

É viável financeiramente fazer o Banana no COT?
É viável, mas são necessárias as parcerias citadas anteriormente. O Banana Bowl demanda, por regra, oferecer hospedagem, alimentação e transporte para todos os técnicos e jogadores, em hotel padrão 4 estrelas, só para citar um dos exemplos de custos que se tornam elevados para a promoção do mesmo.

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Asics: os números e a opção pelo vôlei

O grande elefante na sala é a Asics, fabricante de material esportivo que deixou o tênis no fim de 2016 para investir pesado no vôlei. O porquê da mudança? Algum porta-voz da empresa poderia ter escolhido um dos motivos que listei no quinto parágrafo deste texto. No entanto, a assessoria de imprensa da Asics informou que a marca não se pronunciaria sobre o assunto.

Sem uma posição oficial, recorri a contatos com bom trânsito no meio e que tiveram acesso a detalhes de conversas contratuais. Segundo essas pessoas, que falaram em condição de anonimato, a decisão foi tomada unicamente pelo atual presidente da Asics Brasil, Gumercindo Moraes Neto, que assumiu o cargo em agosto de 2015. Na época, os contratos do tênis estavam em curso. Ao fim de 2016, quase nenhum compromisso foi renovado na modalidade (Bruno Soares é exceção).

Gumercindo Moraes Neto é visto no meio como uma pessoa “de números” e com pouca intimidade com o esporte. Com essa visão, é fácil entender o investimento em um esporte com mais visibilidade em TV aberta, que traz medalhas e todo tipo de resultados e que, segundo todas pesquisas, é a segunda modalidade mais praticada no país. Mas será que a volta ao vôlei precisava significar a saída quase total do tênis?

Coisas que eu acho que acho:

– Pode ser paranoia ou pessimismo (e meu pessimismo não é segredo nenhum), mas me preocupa o fato de a CBT insistir em dizer que tem interesse em usar o Centro Olímpico como sua sede, mas o Ministério do Esporte responder que a CBT fala “na intenção em construir um calendário futuro para a utilização do Centro de Tênis”. Mas se você é otimista, a ausência da palavra “sede” na resposta do Ministério não deve indicar nada.

– Com a CBV deixando bastante claro o quanto se economiza ao aproveitar as instalações prontas do Centro Olímpico de Tênis, fica mais difícil para a CBT justificar, no futuro, a realização de um confronto de Copa Davis fora do Rio de Janeiro. Digo “mais difícil”, não “impossível”. Afinal, já ouvimos explicações, digamos, “criativas” durante a gestão de Jorge Lacerda.

– O Centro Olímpico também poderia ser palco do torneio WTA que a CBT realizou em Florianópolis nos últimos anos. Após uma primeira edição promissora, a entidade não conseguiu atrair nomes e transformou um evento internacional em um torneio minúsculo, com apelo apenas regional. O último, realizado na semana anterior aos Jogos Olímpicos, beirou a insignificância. O evento foi vendido pela CBT e será realizado em outro país.

– A nota triste do fim de semana fica por conta do furto de uma câmera e uma lente do fotógrafo Alexandre Loureiro, que trabalhou no Gigantes da Praia, no Centro Olímpico de Tênis. São deles, inclusive, as primeiras imagens deste post.

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O que me incomoda na Copa Davis
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Alexandre Cossenza

Este não é um texto sobre fatos. É um post essencialmente de opinião, como quase tudo neste blog. Se você vem ao Saque e Voleio em busca só de notícias, está no lugar errado. E hoje, fim de semana de Copa Davis, é daqueles dias em que volta à tona o velho discurso do “a Davis precisa mudar”, baseado em qualquer que seja o motivo da semana – sempre há um diferente.

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Sou apaixonado por Copa Davis. Se um dia eu comecei a gostar de tênis, a competição por países tem muito a ver com isso. Gosto do formato em melhor de cinco sets, gosto dos zonais, gosto de o duelo ser sempre na casa de um dos times e gosto – até disso – de nem todos grandes tenistas estarem sempre na Davis. E é esse o argumento da vez para os críticos. Apenas cinco tenistas do top 20 estão em ação nesta semana. Muito pouco, dizem. Trato disso mais à frente. Por enquanto, meu desabafo tem dois pontos, e o que me incomoda na Copa Davis não é exatamente a Copa Davis.

Um: tenistas são chatos. Dois: tenistas têm poder demais. Chatos porque gostam de encher a boca e dizer que é sempre preciso se adaptar no tênis, que tenista é um animal adaptável, blablabla, mas querem jogar sempre nas mesmas condições. Não gostam de trocar de piso no meio da temporada e querem os torneios pré-slam com as mesmas condições dos slams. As bolinhas em Cincinnati são diferentes das do US Open? Nossa, um crime! O Rio Open é no saibro, mas tem Indian Wells na dura três semanas depois? Não jogo!

Tudo tem que ser igualzinho e perfeitinho para que o tenista chegue num Masters 1000, jogue bem, suba no ranking e aumente em US$ 100 mil aquele cachê que ele recebe para chegar num ATP 250, tirar foto num ponto turístico, jogar um tênis meia-boca e perder nas oitavas.

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E não adianta reclamar porque eles têm o poder nas mãos. Todo ATP 250 e 500 precisa puxar saco desses caras (é só olhar o papel ridículo que fazem as redes sociais de alguns eventos) porque sem eles não existe público. Quando aceitaram criar mini-circuitos (torneios de saibro antes de RG, eventos de grama só antes de Wimbledon), concentraram mais ainda os títulos nas mãos de uns poucos. Não por acaso, três tenistas completaram o career slam nos últimos anos. Mas isso é outro assunto. Aqui, agora, o que importa é que os torneios viraram reféns.

É inútil, por exemplo, o diretor do Rio Open dizer que os torneios são a plataforma para os atletas porque se ano que vem não houver Rio Open, vai haver um evento em Ladário, Cochabamba ou Samoa Ocidental disposto a pagar cachês milionários. O poder é dos atletas e quanto maior seu lobby por mudanças na Davis, maior a chance de elas acontecerem – cedo ou tarde.

E podem me chamar de saudosista porque é saudade mesmo. Quando comecei a ver tênis, Copa Davis era aquela ocasião em que o tenista mostrava seu patriotismo abrindo mão de interesses pessoais para defender o país, saindo, sei lá, do inverno europeu para jogar no calor do capeta do Rio de Janeiro (e nem naquela época todos os tops jogavam). Hoje, mais e mais tenistas veem a Davis como um incômodo. Aquilo que atrapalha sua preparação, que atravanca seu ranking, que reduz o potencial de seu cachê.

Melhor de cinco ou melhor de três?

Há quem diga que mudar o formato para melhor de três atrairia mais tenistas da elite. É um argumento discutível que existe apenas no reino do teórico hoje em dia. Sim, reduziria o desgaste. Talvez funcionasse. Talvez. Mas certamente mudaria radicalmente a dinâmica coletiva da Copa Davis.

A essência da competição, afinal, é que times vençam. E se você reduz a duração das partidas, facilita a vida dos capitães que têm um jogador acima da média. Seria muito fácil escalar esse tenista nos três dias. Em melhor de cinco, nem tanto. O time tem mais importância. Mas quem será que está preocupado com a essência ou com a esportividade da Copa Davis? Há quem diga que nem a ITF, dona do negócio, dá muita bola para isso hoje em dia…

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Coisas que eu acho que acho:

– Em números, o que se diz é que apenas 5 tenistas do top 20 estão atuando neste fim de semana na Copa Davis. É verdade, como Bruno Soares mencionou na última quinta-feira. O tweet sugere que isso seria motivo para mudanças na Davis. Não concordo totalmente. E há questões de contexto importantes.

– Desses 15 ausentes, três não foram convocados (Monfils, Tsonga e Pouille) e dois pertencem a países que não jogam neste fim de semana (Thiem e Dimitrov). O número de ausências já cai para dez – ainda alto, mas tudo bem.

– Mas dessas dez ausências, é preciso considerar questões importantes como o envelhecimento do circuito. Federer, Wawrinka, Nadal, Berdych e Karlovic já passaram dos 30. O croata, inclusive, já havia se aposentado da Davis e voltou só para a final do ano passado – e apenas para ocupar o lugar do lesionado Coric. Esses nomes nem sempre jogam temporadas completas. Será que é justo colocá-los na conta do “formato da Davis”? Tenho minhas dúvidas.

– Outro ponto: quantos desses ausentes estiveram na segunda semana do Australian Open? Federer, Nadal, Wawrinka, Raonic e Goffin. Mais avaliada do que o formato da Davis, com melhor de cinco sets, talvez deveria ser a insanidade de quem encaixa a competição logo após um Slam. É um convite (às avessas) para que os melhores não joguem. E isso não é só formato. É calendário.

– Ainda sobre o calendário, tudo gira em torno de dinheiro. Nenhum torneio quer essas datas pós-slam, então parece fácil encaixar a Davis ali. Tão fácil quanto alegar que a competição precisa mudar de formato. No fim das contas, talvez seja possível fazer muita coisa para melhorar a Davis sem mexer no formato, mas aí algumas pessoas perderiam dinheiro. E quem está disposto a isso, hein?


AO, dia 14: choremos juntos com Roger Federer
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Alexandre Cossenza

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“Acho que o começo do ano, especialmente o verão australiano, vai ser épico.” Foi assim que Roger Federer falou sobre suas expectativas para janeiro de 2017. Profético. Oracular. E o suíço nem falava sobre o que tinha guardado para mostrar em Melbourne. Exigiria outro nível de adjetivos. Mas este texto vai chegar lá.

Talvez ele mesmo não soubesse. Estava, afinal, há seis meses sem competir, sem a certeza de como o corpo de 35 anos reagiria e incapaz de imaginar o que a chave reservaria ao cabeça 17. Pois foi ele próprio o protagonista de quase tudo “épico” nas últimas duas semanas. Bateu Berdych, Nishikori, Wawrinka e guardou o melhor para este domingo. Contra o retrospecto, contra o maior rival, e em cinco sets: 6/4, 3/6, 6/1, 3/6 e 6/3, em 3h37min de partida.

Foi o 18º Slam, um feito gigante por conta própria, mas foi “O Retorno do Rei”, “Tempo de Glória”, “Coração Valente”, “A Máquina do Tempo” e “Uma Nova Esperança”, uma coleção de épicos, tudo ao mesmo tempo (e desde já candidato ao Laureus de “Retorno do Ano”). Foi, em momentos, plástico. Em outros, corajoso. Quase sempre gracioso. Quando necessário, fulminante. Sempre insinuante. E, no fim, no pódio, ao lado de Rafael Nadal e Rod Laver, majestoso.

Foi a consagração de um atleta-milionário-e-pai-de-família-bem-sucedido que, aos 34 anos, escolheu lutar contra uma lesão e continuar correndo de um lado para o outro contra pessoas às vezes 15 anos mais jovens. Foi a recompensa pelo trabalho árduo que Federer insiste em fazer quando não há câmeras ligadas. Foi o momento maior de uma carreira cheia de momentos maiores. E que terminou com Roger Federer de joelhos e às lágrimas em uma quadra em plena reverência. Que compreendamos o momento. Que choremos juntos com Roger Federer.

O xadrez até o troféu

Sobre a final, o plano de Federer esteve sempre claro. Atacar primeiro para evitar o desgaste e encurtar pontos, o que reduziria a chance de Nadal adquirir um bom ritmo do fundo de quadra. Quanto mais longos os ralis, maior a chance de o espanhol ficar à vontade no jogo.

O plano era simples. Afinal, era o mesmo de sempre. Executar é que sempre foi o problema. Exige precisão em um nível muito acima do normal. Federesco, eu diria. Mas a precisão apareceu nos momentos mais essenciais. Nos três aces para salvar break points no primeiro game do terceiro set, no bate-pronto de forehand do fundo de quadra que ajudou a quebrar Nadal na sequência ou no outro bate-pronto espetacular, que veio no oitavo game do quinto set – o game da última quebra.

É claro que a quadra, mais rápida do que em anos anteriores, ajudou. Obviamente, a longa semifinal de Nadal também teve seu peso. Só que também ajudou a devolução de backhand, sempre empurrando Nadal para o fundo. Foi, talvez, a grande mudança do suíço em relação à maioria dos duelos anteriores. Federer trocou o retorno de slice/bloqueado por um mais agressiva.

O jogo de xadrez que atormentou boa parte da carreira do suíço também teve uma execução fundamental. O backhand do fundo de quadra. Mesmo quando não conseguia definir pontos rapidamente, Federer tinha sucesso com a esquerda. Às vezes, matando na paralela, às vezes angulando a cruzada e tirando Nadal da zona de conforto. E sempre perto da linha, tirando o tempo do espanhol. De novo: o plano não foi inovador; a execução é que foi gloriosa.

E o forehand… Bem, o forehand foi uma fábrica de melhores momentos. Paralelas, cruzadas, de dentro para fora, de dentro para dentro, com break point a favor ou contra. E foi o Federer Forehand, talvez o golpe mais perfeito do tênis, que decidiu o duelo deste domingo. Primeiro, com uma bola indefensável no 30/40 do último game. Depois, no segundo match point, com uma cruzada que beliscou a linha. Tão preciso que Nadal pediu replay, permitindo que o mundo visse a perfeição de novo, em câmera lenta e definição 4K. Como o tênis de Federer merece.

O bravo rival

Nadal teve muitos méritos. Com o suíço em um nível tão alto e pressionando com tanta intensidade, é admirável que o espanhol tenha levado até o quinto set. Lutou, esperou chances e fez o que dava. Até saiu na frente no quinto set e salvou cinco break points antes de ceder a virada.

Difícil dizer o que faltou para o espanhol neste domingo. Saque? Talvez. Mas é injusto condenar alguém que colocou em jogo 85% dos primeiros serviços no quinto set. Poderia ter acelerado e arriscado mais? Certamente. Mas ficaria vulnerável à devolução do adversário, que estava num dia “daqueles”.

O resumo é que Nadal jogou pressionado a maior parte das 3h37min de jogo. Até para um gigante como ele, é difícil resistir por tanto tempo.

O ranking

Após o Australian Open, Federer volta ao top 10 e passa a ocupar o décimo posto, com 3.260 pontos. Nadal, que teria subido para quarto com o título do Australian Open, fica em sexto. A lista dos dez fica nesta ordem:

1. Andy Murray – 11.540 pontos
2. Novak Djokovic – 9.825
3. Stan Wawrinka – 5.695
4. Milos Raonic – 4.930
5. Kei Nishikori – 4.830
6. Rafael Nadal – 4.385
7. Marin Cilic – 3.560
8. Dominic Thiem – 3.505
9. Gael Monfils – 3.445
10. Roger Federer – 3.260


AO, dia 13: Serena, Venus e uma celebração de sucesso em família
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Alexandre Cossenza

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Foi mais do que uma final de Grand Slam, até porque a partida não foi tão especial nem equilibrada assim. Mas foi um evento, uma cerimônia, uma celebração de duas carreiras fantásticas na mesma família. Foi o especial retorno de Venus Williams a uma decisão, mas também foi o 23º Slam de Serena, a irmã mais nova, a maior vencedora de Slams da Era Aberta – e agora de forma isolada.

Neste sábado, a Rod Laver Arena foi um palco para Venus reverenciar a irmã pelo #23, mas também pela carreira.

A quadra central do Australian Open também foi cenário de um emocionado discurso de Serena, reverenciou igualmente a irmã, dizendo que não teria sequer vencido um Slam sem ela – muito menos 23. “Ela é minha inspiração, o único motivo pelo qual estou aqui hoje e pelo qual as irmãs Williams existem.”

Sobre a partida, levou algum tempo para que Serena se impusesse. Foram quatro quebras de saque nos quatro primeiros games. Daí em diante, Venus não teve mais nenhuma chance de quebra. A número 2 do mundo quebrou no sétimo game, tanto no primeiro quanto no segundo set. O placar final mostrou 6/4 e 6/4.

De volta ao topo + top 10

Com o título Serena volta a ocupar a liderança do ranking da WTA. Ela sai de Melbourne com 7.780 pontos, contra 7.115 de Angelique Kerber, campeã do Australian Open no ano passado e que começou a semana como #1.

O top 10 a partir de segunda-feira terá, além das duas, Karolina Pliskova como #3, no melhor ranking de sua carreira, seguida de Simona Halep, Dominika Cibulkova, Agnieszka Radwanska, Garbiñe Muguruza, Svetlana Kuznetsova, Madison Keys e Johanna Konta. Venus aparece na 11ª posição, logo à frente de Petra Kvitova.

O lugar na história

A conversa sobre quem é/foi a melhor tenista de todos os tempos volta à tona sempre que Serena vence um Slam. Não é diferente desta vez. Em números, ela fica atrás apenas da australiana Margaret Court, que ganhou 24 torneios desse nível de 1960 até 1973.

Serena também é a maior campeã do Australian Open (sete troféus) e tem o maior número de vitórias (316) em Slams na Era Aberta – a partir de 1968.

Aos 35 anos, ela é ainda a mais velha a vencer um Slam na Era Aberta, a mais velha a chegar ao topo do ranking, e a dona do maior número (dez) de títulos de Slam na Era Aberta conquistados após completar 30 anos.

Além disso, a americana também é quem mais ganhou dinheiro em prêmios na carreira, com US$ 85,4 milhões, deixando muito longe atrás a segunda colocada – Maria Sharapova, com US$ 36,8 milhões.

O presente do #23

Michael Jordan, o #23 mais famoso do mundo e quase nunca contestado como o maior jogador de basquete da história, enviou, via ESPN, um presente especial.

Os campeões

Na chave de duplas masculinas, não foi desta vez que Bob e Mike Bryan voltaram a levantar um troféu de Slam. Os gêmeos americanos foram derrotados por Henri Kontinen e John Peers por 7/5 e 7/5.

Finlandês e australiano, aliás, nunca perderam para os Bryans. O jogo deste sábado marcou sua terceira vitória em três duelos. Em grande fase, Kontinen e Peers agora somam 16 vitórias nos últimos 17 jogos.

Os Bryans, que disputaram sua 30ª final de Slam, tentavam igualar o recorde do australiano John Newcombe, que conquistou 17 títulos de Slam nas duplas. Por enquanto, os americanos seguem empatados com Roy Emerson e Todd Woodbrigde, com 16 troféus.

P.S. Por causa de uma série de compromissos neste sábado, este post saiu mais curto do que eu desejava. Também estava nos planos um texto de prévia sobre a final masculina, mas a falta de tempo não me deixou fazer. Agradeço a compreensão. Volto depois de Federer x Nadal.