Saque e Voleio

Categoria : Pré-Temporada

Por dentro da pré-temporada em BH – Dia 2
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Alexandre Cossenza

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O telefone toca, e a voz do outro lado pede que eu espere: “Mudança de planos”. Volta a chover em Belo Horizonte, e o treino de Bruno Soares, marcado para a LOB, no bairro de Estoril, é cancelado. O plano B é um bate-bola com o veterano Pedro Braga, ex-top 300. O local é mais do que uma quadra indoor. É uma quadra subterrânea, construída alguns lances de escada abaixo do condomínio onde mora a mãe de Bruno. É dona Maisa, aliás, que me recebe.

Enquanto o filho não chega ao bunker, batemos papo. Não é difícil notar de onde vem a simpatia do tenista. Dona Maisa fala sobre a felicidade que sentiu na viagem a Paris e Londres, onde acompanhou Bruno de perto e assistiu a todas partidas de duplas – de todo mundo – que conseguiu. O número 3 do mundo chega às 10h30min, e o bate-bola começa dez minutos depois, com o tradicional aquecimento do fundo de quadra.

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A primeira pausa é com 15 minutos de treino. Bruno toma alguns goles de Accelerade e me pergunta se eu filmei a última série de forehands. Ele pede para ver e analisa. Há três meses, o tenista de 31 anos vem fazendo ajustes no seu golpe de direita. A intenção é bater com o cotovelo mais afastado do corpo. E ele fica satisfeito com o que vê nas imagens. Também quer ajustar o movimento do punho no golpe, mas é algo imperceptível no vídeo, ele diz.

Não é a primeira vez que Bruno faz mudanças sutis em seu tênis. Um tempo atrás, um ajuste no saque “deu muito resultado”. No fim de 2011, tomou uma decisão um pouco mais tática: era preciso sacar e volear sempre, no primeiro e no segundo serviços. Foi outra atitude que lhe trouxe benefícios.

O treino continua com Bruno pedindo para treinar forehands cruzados. Quer angular, acertar todas no corredor. Depois, são backhands cruzados. As bolas andam bem, e o top 5 segue elogiando a corda nova. Às 11h20min, Bruno passa a volear. Às 11h35min, o treino pega fogo. Os dois estão batendo muito forte na bola, e Bruno é uma parede na rede. Quando Pedro encaixa uma série de backhands violentos, o duplista devolve tudo.

O treino vai até o meio-dia, e ainda resta tempo para Bruno treinar saque-e-voleio. “Vou dar uns segundos saques no corpo, aí você devolve”. Antes do fim, avisa que vai dar um primeiro saque. O serviço limpa a linha, e Pedro nem reage. Antes de sair da quadra, entretanto, o número 3 do mundo faz o que todo mundo deveria fazer depois de um jogo. Pega o vassourão e percorre a quadra, deixando o saibro preparado para os próximos usuários. Simples, não?

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O fim de treino é seguido por uma entrevista. Como já não chove mais, gravamos na área externa do condomínio, e as imagens ficam bem melhores do que as da noite anterior, com Marcelo. O conteúdo é o mesmo: pré-temporada e o circuito de duplas. Nos despedimos ali porque Bruno não treinaria mais. A tarde seria dedicada aos estudos. Afinal, há uma prova de “recuperação” a fazer.

Bruno e Chris, aliás, estavam certos: o restaurante que Marcelo indicou não existe mais. Volto para o hotel e, por sorte, uma das melhores casas de comida mineira da cidade fica pertinho. Dá tempo de comer e encontrar Marcelo antes das 15h, quando começa seu treino da tarde.

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Desta vez, é possível jogar na quadra ao outdoor, que fica exatamente acima da indoor, local do treino do dia anterior. O lugar é agradável, com uma invejável vista. Como evidência da manhã chuvosa, restam ainda algumas pequenas poças. Marcelo não encontra um rodo, mas traz uma vassoura e tira a água da área de jogo. A temperatura é amena, e, logo que acaba o aquecimento, Daniel Melo, seu irmão e técnico, pede bolas ofensivas.

O condomínio é silencioso e só se ouve o gemido de Marcelo batendo na bola. A voz de Daniel também é fácil de entender. “Sem ser flat’, “sem ficar muito perto da bola”, são algumas das instruções do técnico. Ele não grita, e seus comandos soam mais como lembretes e sugestões do que como ordem. Mas que ninguém se engane: de sua maneira, o homem é exigente, e o irmão mais novo segue as orientações sem questionar.

No primeiro intervalo, Marcelo me pergunta sobre a última declaração polêmica de McEnroe. Minha resposta dá início ao velho debate sobre o quanto os melhores simplistas venceriam se jogassem o circuito de duplas durante todo o calendário. Marcelo não está nada convencido de que uma dupla formada por Roger Federer e Rafael Nadal venceria tudo.

Ele volta para a rede e, depois de uma sequência boa, sorri, satisfeito, e pede para eu ficar atento com a câmera: “Pode filmar aí. Vou jogar um set com ele hoje, é 6/2 pra mim!” Não dá nem para dizer que Marcelo “está” de bom humor. Ele, simplesmente, é assim. É seu jeito. Não tem nada forçado ou de diferente porque há um jornalista ali, dentro da quadra. O que se destaca para quem vê seus treinos é justamente a capacidade de fazer uma brincadeira após um drill e, logo depois, entrar 100% concentrado na série seguinte.

Os dois, então, jogam pontos com Marcelo começando atrás do T e avançando. O treino muda para voleios perto da rede seguidos de smashes. São séries puxadas. O número 6 do mundo, então, volta para o fundo de quadra e tenta acertar só bolas fundas. A precisão, desta vez, não é tanta. As bolas entram, mas nem sempre vão perto da linha de base. Às 16h, volta a chover, mas Marcelo fica em quadra treinando saques. Daniel, do outro lado da quadra, pede ângulo e precisão, mesmo sob pingos: “Tira mais. Na orelha dela!”. “Minha tripa agradece”, brinca Marcelo, ciente de que a corda não resistirá à água. Os pingos engrossam, forçando o fim do treino às 16h15min.

Às 17h, já estamos na academia do Chris outra vez. Marcelo chega brincalhão. Como teve sua vaga “roubada”, decide furtar a antena do carro do fisioterapeuta estacionado em frente ao portão. Depois, atira do térreo ao andar inferior uma pilha de revistas. O impacto faz um barulho e assusta o preparador. Mas as brincadeiras duram pouco. Logo depois de ligar o sistema de som – selecionando “Empire State of Mind” – , o número 6 do mundo já está dando “tiros” na esteira. São 15 piques de um minuto, correndo a 17 km/h, com intervalos de três minutos. Às vezes, ele intercala com exercícios funcionais.

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Chris pede para conferir o peso – 94,5kg – e, quando acabam os tiros, restam apenas alguns exercícios abdominais. “Essa música é muito boa!”, diz Marcelo ao ouvir os primeiros acordes de “Get Lucky”. Neste momento, ele é o único na academia. Chris explica o planejamento: “Quando a gente terminar o trabalho, você ainda ganha um pouquinho por duas semanas”. A ideia é fazer Marcelo chegar no melhor da forma durante o Australian Open, não antes. E o tenista já pensa lá na frente. Terá uma pausa após o primeiro Grand Slam do ano e, por isso, poderá continuar o trabalho de ganho de massa muscular.

Ao fim do treino, Marcelo e Chris conversam sobre a campanha Papai Noel dos Correios. O tenista sempre colabora, embora nunca faça disso uma maneira de divulgar sua imagem. É aí que ele lembra que esqueceu de enviar uma camisa autografada que havia prometido para a festa de Natal do Projeto Tênis na Lagoa, do professor Alexandre Borges. Ao sair da academia, ele passa em casa, pega uma camisa novinha, autografa e me dá. Bruno, aliás, também deixaria duas camisas comigo na manhã seguinte.

Coisas que eu acho que acho:

– Bruno Soares e Marcelo Melo me receberam de braços abertos em Belo Horizonte. Os dois foram atenciosos, indicaram hotel e restaurantes e facilitaram meu acesso aos treinos (em quadra e na academia) o máximo possível. Se querem minha opinião, a postura dos mineiros mostra que caráter, seriedade e profissionalismo têm muito a ver com as posições que ambos ocupam no ranking hoje. Nenhum dos dois acha que imprensa atrapalha ou tira privacidade. Basta que haja respeito dos dois lados. Meu trabalho é (também) mostrar quem são os tenistas. Quando não há nada para esconder, a vida de todo mundo é muito mais fácil.

– Talvez, no meio de tanta informação, poucos tenham dado a justa ênfase, mas é bom não esquecer que, com chuva ou sol, os mineiros não dão desculpa para não treinar. Mesmo com mudanças de última hora, procuram e encontram soluções. Bruno treinou no saibro porque precisava estar em quadra e bater bola. Fosse um tenista menos dedicado, aceitaria a falta de uma quadra dura e treinaria só no dia seguinte. E o que dizer de Marcelo, que treinou saques debaixo d’água?


Por dentro da pré-temporada em BH – Dia 1
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Alexandre Cossenza

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São 9h50min da manhã de uma segunda-feira em Belo Horizonte, e uma figura de 2,03m, vestindo um casaco preto da Centauro e calçando um par de tênis ainda desamarrados, abre o portão do Studio Chris Personal. O carro ficou estacionado em frente ao portão da garagem, o que não é problema, já que o “Chris” no letreiro é Chriszogno Bastos, seu preparador físico e dono do espaço. É o começo de um dia cheio na pré-temporada de Marcelo Melo, e eu estava lá em Belo Horizonte para acompanhar o atual duplista número 6 do mundo.

Quando se está na capital mineira para cobrir tênis, é complicado falar de um nome só. Bruno Soares chega pouco depois, às 10h. Ele também tem Chris como preparador físico. Os dois trabalham juntos há 11 anos. Marcelo juntou-se a Chris depois, quatro anos atrás. Talvez por isso o Girafa sempre brinque, dizendo-se vítima de um complô dos outros dois. “É o maior puxa-saco do Bruno!”

As atividades começam no horário previsto. Os dois se pesam. Marcelo, que terminou o ATP Finals com 89kg, está com 94kg agora. Bruno, por sua vez, está com 75kg. São dois objetivos distintos. Enquanto um vem ganhando massa muscular, o outro tenta manter o peso em uma época de muitas viagens e compromissos com patrocinadores. Bruno diz que tem tendência a engordar e que tem sido difícil manter a alimentação. De quinta a domingo, o vice-campeão do US Open passou por Maranhão, Paraná, Rio Grande do Sul e chegou a Minas na noite de domingo. Na prática, sua pré-temporada começa hoje.

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O treino começa com os dois se alternando em esteira, bicicleta. Marcelo faz careta levantando 45kg no supino. Quando levanta, pede Coldplay no som da academia. “Coldplay é muito bom”, emenda Bruno. O pedido é atendido, e o clima é descontraído – como quase sempre é com os dois. Os assuntos entre os exercícios variam de ingressos para a Copa do Mundo da FIFA (não consigo mais escrever “Copa” abreviando) até a confusão no jogo entre Vasco e Joinville. Bruno brinca comigo sobre o rebaixamento do Gigante da Colina. “Sou Mengão”, digo. Mas é um engano comum. Minha admiração pelo Vascão confunde as pessoas.

A academia está quase vazia. Só nós quatro falamos. Marcelo levanta de um aparelho empolgado: “Vou chegar um touro na Austrália!” O ambiente leve até engana. As brincadeiras são só nos intervalos entre as séries. Chris, atento, intervém quando necessário. “Tem muito peso aí!”, alerta. Marcelo olha e reduz a carga. Nos intervalos, o número 6 do mundo dá uma mordida numa barra de proteína. Marcelo me indica um restaurante de comida mineira. Bruno e Chris dizem que o lugar fechou “há uns dez anos”. E volta à tona a história do complô. “Tudo que o Bruno diz está certo.” O preparador cobra outra vez: “Vai, Marcelo! Tá passando mais de dois minutos”. E assim as atividades vão até as 11h20min, quando os dois voltam para suas casas.

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A parte da tarde é em quadra, no condomínio de Ernane, irmão mais velho de Marcelo, que me fala sobre a escassez de quadras duras em Belo Horizonte. Tudo tem relação com a exploração imobiliária e o crescimento da cidade. “No espaço de duas quadras, já dá para subir um prédio”, ele diz. E é preciso treinar no piso sintético porque é nele que começa a temporada. Por causa de seu parceiro, Ivan Dodig, Marcelo começará o ano em Doha. Bruno também estará lá. E a chuva que caiu de manhã faz o treino ser em uma quadra coberta.

Entro no condomínio junto com Marcelo e não consigo disfarçar um sorriso ao ouvir o porteiro confirmar a identidade do tenista. “Marcelo do quê?” É normal no país do futebol, mas é um dos melhores do mundo que está do meu lado. Ele nem liga. Já acostumou, imagino. Mas essa é a sensação que tenho nas conversas com o top 10. Parece uma mistura de humildade/simplicidade natural com um quê de ainda-não-me-acostumei-com-o-fato-de-ser-um-dos-melhores-do-mundo.

Às 14h55min, começa o aquecimento. Cinco minutos depois, o bate-bola. E aqui entra uma curiosidade que poucos conhecem ou reparam. Marcelo bate na bola sempre com o mesmo lado da corda, seja de forehand ou de backhand. Ninguém ensinou. Ele mesmo só reparou quando percebeu, num belo dia, que a tinta das cordas só desgastava em uma face (veja no trecho em câmera lenta do vídeo abaixo).

São só Marcelo e seu irmão, Daniel Melo, na quadra silenciosa. Os drills começam leves. Daniel solta uma bola, Marcelo rebate. Primeiro, paralelas. Depois, cruzadas de forehand. O treinador troca de lado, e agora o top 10 precisa entrar na bola e atacar. De repente, com a bola no meio da trajetória, Daniel força o improviso: “Cruza!” Em seguida, são “meia dúzia de cruzadinhas”, que de diminutivo não têm nada. Marcelo ataca buscando o ângulo e erra só uma bola. “Acelerar um pouco mais”, pede Daniel. E irmão bate mais seis, com mais força e mais ângulo ainda, e acerta cinco. E os drills vão ficando mais intensos, com sequências de voleios seguidos de smashes. O único empecilho é o teto baixo, que desvia alguns lobs lançados pelo irmão mais velho.

Bruno chega às 15h35min, e Marcelo continua em quadra. No intervalo, vê a raquete do amigo: “Pesada, hein?” Bruno responde, dizendo o peso, em gramas: “Três, três, dois. E a sua?” “Trezentos”. Marcelo volta para o fundo de quadra, enquanto o número 3 do mundo coloca grip um grip branco na raquete, que tem a mesma cor na pintura. “Ficou muito branca”.

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São 16h cravadas quando Bruno entra em quadra. É seu primeiro dia de fato de pré-temporada. Os dois batem do fundo de quadra, e Daniel entra do lado de Bruno. Marcelo tem que trocar a direção da bola e ser agressivo. Uma cruzada na direção do amigo, uma paralela em cima do irmão. Quinze minutos depois, o número 6 do mundo termina o drill ofegante. Os três erraram muito pouco no período. Bruno terminou a última troca de bolas batendo muito forte. “Essa corda é boa, cara!”, diz, empolgado com a 4G, produzida pela Luxilon. “É a evolução da Big Banger Alu Power, que já era famosa na época do Guga”, explica.

Às 16h35min, Bruno sente a falta de ritmo. Pergunta a hora e, em seguida, diz que até aguentou bastante. Foram 35 minutos intensos. Marcelo, então, começa a treinar saque, mas falta luz na quadra. Daniel sai para tentar descobrir o que aconteceu, mas os dois continuam sacando como se fosse de dia. Às 17h, acaba o treino. É hora de voltar para a academia.

Antes, acompanho Marcelo em um lanche. Ele pede um açaí com banana e conversamos sobre assuntos amenos. Como eu, ele adora carros e vê Top Gear (o britânico, claro). Deu muito assunto. Chega a ser curioso que Marcelo dirija um carro bem discreto. Seria compreensível ver alguém esbanjar em um importado luxuoso depois de um ano de tanto sucesso. Não é o caso. A preocupação de Marcelo é não chamar atenção. Chamar atenção é a última de suas intenções.

Chegamos juntos à academia, e Bruno já está lá. Marcelo explica que a parte física é sempre duas vezes por dia. A ênfase na parte da tarde é nos exercícios funcionais. Chris explica que Marcelo trabalha mais com pesos de manhã porque está trabalhando a hipertrofia (o aumento de massa muscular) e tem mais força naquele período, com o corpo descansado. À tarde, faz o funcional logo que sai da quadra. Os exercícios são complicados, mas Marcelo mostra disposição. Entre uma série e outra, uma mordida em uma barra de Whey e um gole de energético.

O trabalho vai até as 19h. Bruno já tinha ido embora quando Marcelo encerra os exercícios e grava uma entrevista comigo. Começamos com a parte séria, falando de pré-temporada, mas o fim do papo é descontraído. Ele diz quem são os tenistas mais encrenqueiros, chatos, vaidosos, bonitos, feios… O longo dia acaba de forma descontraída. Nem sobra tempo para descobrir se o restaurante indicado por ele ainda existia. O mistério só seria desvendado no dia seguinte.

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Por dentro da pré-temporada no Rio
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Alexandre Cossenza

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São 9h35min de uma quarta-feira de tempo bom no Rio de Janeiro. Quatro rapazes chegam sem chamar muita atenção e cumprimentam o jornalista sentado à beira da quadra. As raqueteiras e um garrafão de água vão logo para o chão. É o terceiro dia de uma pré-temporada intensa. E ainda que “intensa” e “pré-temporada” sejam expressões quase redundantes, fui ao Marina Barra Clube para acompanhar de perto o ritmo de treinos.

Um dos quatro era Rogerinho, número 2 do Brasil, que viveu um ano difícil. Seu momento alto veio no US Open, onde avançou uma rodada e ganhou, de prêmio, um confronto com Rafael Nadal. No geral, entretanto, o paulista de 29 anos teve um punhado de lesões que atrapalharam a temporada. O último problema foi uma inflamação em um dente siso, que exigiu uma extração às pressas e lhe deixou de molho por cinco dias.

Quem se sente mais em casa no grupo era Fabiano de Paula. O carioca de 25 anos vem se recuperando de uma lesão no punho direito. As dores o afastaram dos torneios em um momento importante: a temporada de Challengers na América do Sul. Fabiano deixou de lutar por pontos e caiu no ranking. Em maio, era o 212. Hoje, é apenas o 450 na lista da ATP.

O sotaque gaúcho de Marcelo Demoliner e Guilherme Clezar é fácil de reconhecer. O segundo está de mudança para a Cidade Maravilhosa. Ele vem junto com João Zwetsch, que também estabelecerá residência na cidade. Clezar ainda não sabe onde vai morar, e uma de suas necessidades pré-treino nesta quarta-feira é encontrar uma lavanderia que cobre por quilo.

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Pouco antes das 10h, é a vez de Thomaz Bellucci aparecer, acompanhado por seu técnico, Pato Clavet, e por seu preparador físico, André Cunha. Zwetsch, que vinha do Recreio dos Bandeirantes, chega dez minutos atrasado. A essa altura, o trânsito do Rio de Janeiro já é um dos assuntos. Bellucci concorda quando digo que deslocar-se no Rio é bem mais complicado do que em São Paulo.

O número 1 do país é o primeiro a entrar em quadra para aquecer. Fabiano conversa com o fisioterapeuta da CBT, Paulo Roberto Santos, que coloca uma fita preta no punho do carioca. “Apenas para limitar a movimentação”, explicou o tenista após o treino. Ele não sentiu dores durante o dia e sorriu quando falou da sensação de estar em quadra novamente.

As bolas são “Wilson Australian Open”, iguais às que serão usadas em Melbourne. Difíceis de adquirir no Brasil, as amarelinhas são uma cortesia da Koch Tavares, que administra a carreira de Clezar.

O treino começa com Bellucci sozinho em um dos fundos de quadra, só batendo forehands. Fabiano e Rogerinho estão do outro lado da rede. O ritmo é mesmo forte. E não há intervalo entre os pontos, como nos torneios. Errou, recebe logo outra bola e continua. Clavet orienta o treino. “Dois minutos aqui, uma e uma, vale?” Bellucci, então, vai para o lado esquerdo e só bate backhands, mudando de direção. A intensidade é impressionante. Contei algumas vezes, e os drills eram de 50, 60 rebatidas até algum intervalo.

Os três se revezam nas posições. Bellucci é, disparado, quem bate mais forte e com mais precisão. Às 11h, uma pequena pausa. Paulo Santos chega com um coco, e todos comem uma lasca. Bellucci volta ao fundo de quadra, agora mudando a direção da bola com o forehand. De 54 bolas, sem intervalo, erra duas. O clube é silencioso. Só se ouve o gemido de Bellucci ao bater na bola. A seriedade é quebrada momentaneamente quando Rogerinho começa a gemer ainda mais alto e bater mais chapado na bola. Os dois trocam golpes violentos até que Bellucci erra. Zwetsch, esboçando um sorriso, olha para Rogerinho, depois vira-se para Bellucci
e diz: “o instinto lenhador sempre sobressai”.

O número 1 deixa a quadra e busca algo na raqueteira. Uma fã pede foto, ele atende. Antes do treino, já havia posado outras vezes e dado autógrafos.

Agora são 11h15min, o sol é mais forte e o treino fica mais intenso. Clavet orienta de novo: “uma cruzada, uma paralela, uma cruzada, uma paralela. Dois e dois. Dois minutos. Vale?” São duas bolas em cada lado da quadra, e Bellucci precisa correr. É o mais exigente dos drills do dia. Em um jogo oficial, um ponto raramente chega a 30 segundos. Aqui, são dois minutos sem intervalo. Todos acabam esgotados. Rogerinho, que começou a pré-temporada ainda se recuperando, sente ainda mais o cansaço. Clavet incentiva: “Mais um minuto”. Zwetsch também: “Só mais um pouco”. E o paulista aguenta os dois minutos.

O drill agora é outro. Rogerinho e Fabiano tiram o peso da bola, e Bellucci precisa atacar. Pode ser só impressão minha, mas parece ser um exercício mais divertido para o número 1. Ele começa tentando uma curtinha. A bola fica na rede, e ele lamenta: “Ai, Thomaaaaaaz”. Bellucci dá outra curta. Rogerinho chega e faz um slice na paralela. A bola é duvidosa, mas o canhoto de Tietê marca fora. Os dois discutem, mas com bom humor. “Não rouba. Vai roubar essa?”, diz Rogerinho. Mas Bellucci só ri e conta o ponto a seu favor.

Na mudança de lado, uma fã pede foto com Fabiano. Ele atrasa o treino em alguns segundos, mas para e atende a moça. Depois, corre para o fundo de quadra. Faz calor, e o sol bate na quadra inteira. A sombra onde estou é uma delícia.

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Ao meio-dia, Clezar e Demoliner, que faziam trabalho físico, voltam. Zwetsch dá a ordem: “Cancha dos“. Enquanto Bellucci, Rogerinho e Fabiano treinam voleios, os gaúchos se aquecem trocando bolas na Quadra 2. O treino na Quadra 1 vai até as 12h20min. Nessa hora, Zwetsch acompanhava de perto seu pupilo, o “Gui”. Com o gaúcho de 20 anos, o capitão da Davis é mais específico. Ele corrige movimentos e instrui durante um treino de ataque – Demoliner, batendo só backhands por causa de um incômodo no punho direito, joga bolas sem peso para o conterrâneo atacar.

O bate-bola vai até as 13h. Fabiano, Rogerinho e Bellucci já almoçam. Todos comem no restaurante do clube. Ninguém quer perder tempo no trânsito carioca.

Às 16h, o treino recomeça. Não tenho um termômetro à mão, mas a sensação de calor é ainda maior do que ao meio-dia. Enquanto Paulo Santos avalia o punho de Demoliner, Fabiano e Clezar batem bola na Quadra 2. Às 16h30min, os dois já batem bem mais forte. É quando Bellucci chega e entra na Quadra 1. É hora de trabalhar diretamente com seu técnico. Clavet está falante, animado, e André Cunha já tem um líquido amarelado e esquisito pronto para o tenista.

Depois de um breve trabalho físico em quadra, Bellucci começa a bater bola. Primeiro, do fundo de quadra. Em seguida, drills. Voleios, approaches, golpes da linha de base… O calor assusta. Nem a “minha” sombra, agradável mais cedo, alivia muito. O número 1 pede para trocar de lado na quadra. O outro fundo de quadra tem uma quase-sombra formada pela lona da grade. Na Quadra 2, sem Rogerinho, que faria treino físico, e Demoliner, poupando o punho, Fabiano e Clezar seguem jogando, com eventuais pausas para orientações de seus técnicos. Zwetsch está em um fundo de quadra. Duda Matos, técnico da Tennis Route, no outro.

Por volta das 17h20min, Bellucci, já está esgotado. As pausas entre os drills são cada vez maiores. Às vezes, o paulista senta no fundo de quadra com a cabeça baixa. Marquei seis minutos de intervalo na mais longa das pausas. Bellucci volta, faz outro drill, bate 15 bolas e para outra vez. Desde o começo do dia, já são 4h30min em quadra. Mas o trabalho estava programado para acabar só às 18h, e o número 1 não desiste. Fica em quadra até o fim.

Rogerinho é o primeiro a ir para a sala de musculação. Para ele, é quase um trabalho de fisioterapia. Vou junto para fazer imagens. Ele me pergunta se posso fazer as fotos de outro ângulo. De onde eu estava, a marca dos Correios não sairia nas imagens. Pouco depois, o resto da equipe chega. As seis horas de quadra ficaram para trás. Demoliner e Fabiano ainda mostram bom humor. Combino com Zwetsch de voltar no dia seguinte. É o fim de um dia longo, mas só o começo da pré-temporada. O dia seguinte teve mais. E o próximo também.

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Coisas que eu acho que acho:

– Infelizmente, uma mudança na programação me impediu de acompanhar um segundo dia de pré-temporada, como havia sido combinado. Por isso, alguns trechos do post ficam sem explicação. Não tive tempo, por exemplo, de conversar com André Cunha e perguntar o que era o “líquido amarelo e esquisito” nem qual era a ênfase do início de trabalho com Bellucci.

– Também foi combinado que eu não entrevistaria ninguém durante minha visita. A intenção nunca foi tirar a concentração ou atrapalhar os treinos. Ressalto, porém, que todos atletas foram bastante simpáticos. E a recepção calorosa também veio de Duda Matos e de Paulo Santos. A todos, agradeço.

– Ainda que não tenha sido possível fazer um post como eu queria (minha intenção era acompanhar alguns dias), fica registrado aqui como é uma jornada de treinos no início de uma pré-temporada. Como expliquei em papo rápido com João Zwetsch, é importante que os fãs de tênis saibam como e o quanto dão duro os tenistas brasileiros antes de encarar o circuito.


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