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Feijão e a motivação para 2016: “Eu olho meu ranking e digo: ‘Que bosta!'”
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Alexandre Cossenza

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João Souza começou o ano com os melhores resultados de sua vida. Primeiro, fez uma inédita semifinal no Brasil Open. Em seguida, chegou às quartas no Rio de Janeiro, um ATP 500. O bom momento foi recompensado com a correção de uma injustiça: deixado de lado nos playoffs da Copa Davis em 2014, Feijão foi convocado para a primeira rodada do Grupo Mundial, em Buenos Aires.

O fim de semana começou espetacular, com uma vitória sobre Carlos Berlocq em 4h57min de jogo, mas transformou sua temporada em um longo pesadelo que começou nas 6h42min da derrota diante de Leo Mayer e se arrastou até o segundo semestre, incluindo duas longas sequências de nove derrotas cada – uma de fevereiro a junho, a outra de julho a setembro.

Número 69 do mundo em abril, Feijão ocupa hoje o 142º posto. Conversamos durante o evento-teste no Centro Olímpico de Tênis, e o papo não teve declarações bombásticas, mas foi ótimo pela maneira direta com que o paulista de 27 anos abordou os temas. Falou com detalhes sobre tudo que envolveu a doída derrota na Davis, lembrou da política que pode ter pesado em sua ausência no time em 2014 e disse que a motivação vem de olhar seu ranking e dizer “que bosta!”

Ah, sim: como aparentemente tornou-se assunto obrigatório em entrevistas esportivas neste país, também falamos sobre Olimpíadas. E sim, Feijão acredita que suas chances de classificar são boas. A íntegra da conversa segue abaixo e vale a ressalva: em nome da autenticidade (e da intensidade) do diálogo, não cortei os palavrões (nem são tantos assim). Se isso não lhe incomoda, leia!

Incomoda entrar no site da ATP e ver que sua página abre no ranking de dupla em vez de no ranking de simples?

Tá brincando?! Sério?

Você é 113 de duplas e 142 em simples, aí a sua página abre direto com os resultados de duplas.

Ah, é? Não sabia, não. Não entro por esse site. Entro no “player zone”, que só os jogadores têm.

Mas falando de ranking, se alguém que não te acompanhou em 2015 e abre o site da ATP, essa pessoa vê que você começou o ano como #117 e terminou como #142. Ranking nem é sempre o melhor parâmetro para dizer o que aconteceu com a pessoa no ano, mas você achou que depois de tudo que aconteceu, foi um ano positivo?

Não, velho (risos).

Eu pergunto porque teve a experiência da Copa Davis, teve um começo de ano muito legal e, de repente, no seu balanço, isso seria positivo…

Ah, cara, não. Positivo, não foi, mas experiências novas, sim. Mas positivo? Não. Com certeza, não. E óbvio que o ranking é o que conta, né? Ah, foi um ano em que eu aprendi muito, cara. É corrigir para 2016 não cometer os mesmos erros, né?

Quais foram os erros? Todo mundo diz “aprender com os erros”, mas raramente alguém admite esses erros.

Ah, tem o negócio de não ficar expondo, né? Acho que são coisas que…

(interrompendo) O que não te incomoda falar sobre isso?

Não, você sabe que eu falo as coisas, eu não tenho muito problema com isso.

Por isso que eu gosto de te entrevistar (risos).

Acho que… (pausa para pensar) … Não sei, foram coisas… Acho me expus um pouco mais do que devia, perdi um pouco do…

(interrompendo) Depois da Davis?

Depois da Davis. Mas o principal mesmo, o principal-principal… Esse jogo da Davis me derrubou muito. Ninguém imagina, né? Todo mundo diz “ah, perdeu” e vem falar “você foi guerreiro, você foi legal, lutou até o último ponto”, mas e aí? Eu perdi. Só quem perdeu fui eu. Não interessa, quem estava lá era eu. Então isso me matou, né, cara? Nesse fim de semana da Davis eu tive dois extremos. Depois que ganhei do Berlocq, no sábado, eu estava me sentindo um monstro, jogando pra caralho e ganhando de um cara que… Não sei nem se ele já tinha perdido na Davis lá (em Buenos Aires). E no dia seguinte, porra, depois de sete horas, perder aquele jogo, eu estava me sentindo também o pior cara do mundo. Isso me abalou demais, cara! Não foi fácil administrar essa derrota. Foi o Brasil que perdeu. Eu adoro jogar a Davis, adoro torneio em equipe… Porra, depois foi uma depressão fodida com todo mundo no hotel, sabe? E aí, cara, me derrubou! Minha confiança foi do céu para o inferno, total. E aí eu não consegui administrar. Rolou uma indisposição, acabei me desfocando um pouquinho do tênis em si, né? Enfim… Foi basicamente isso. Acabei perdendo um pouco do foco depois disso.

E com isso, a confiança…

Minha confiança, então, foi no chão. Óbvio! Eu estava inscrito nos maiores torneios – eu também não hesitei em arriscar no calendário, né? Joguei, sei lá, três meses só de ATP e Grand Slam, ATP e Grand Slam.

Mas você estava jogando bem, né? Você fez quartas no Rio, um 500…

E semi de um 250 (São Paulo). Eu nunca hesitei! Da outra vez que me meti (no top 100), em 2011, também. Nunca deixei de jogar os maiores torneios, mas fazer o quê? Faz parte. Não me arrependo de nada que eu faço na minha vida. Já foi? Já foi. No fim do ano, estava bem cansado e deixei de jogar Buenos Aires… Não estava mais aguentando, para ser bem sincero. Este ano, tirei até uma semana a mais de férias. Eu precisava bastante relaxar. Agora já estou na terceira semana de pré-temporada, estou me sentindo um cara muito mais forte, muito mais focado eu comigo mesmo, sabe? Parece que eu limpei, sabe? Passei a borracha.

Você está mais magro, não?

Estou, estou fazendo uma dieta que você não tem noção! Dieta que nunca fiz antes. Quero chegar a 88 quilos, estou com 92. Preciso perder quatro quilos.

Mas qual é o seu peso normal de jogo?

No começo do ano, eu estava pesando 90, 89, que é muito bom já, quase 100%, mas quero bater 88 para provar para mim mesmo que eu tenho capacidade, né? Mas estou super bem, super motivado para 2016. Não tem como não estar, principalmente com a Olimpíada do lado da minha casa, é meu foco total. A cada ano que passa… A gente vai ficando mais velho também, vai aprendendo muito mais, né, cara? Vai absorvendo muito melhor os erros que gente comete, né? Acho que as coisas têm tudo para andarem bem em 2016.

Qual foi o melhor momento do ano?

São Paulo e Rio, né?

Escolhe um.

São Paulo.

Algum jogo específico?

Ah, o jogo com o Mayer foi foda, eu acho. Com o Mayer e o com o Klizan foram jogos que… O Carreño Busta eu joguei muito bem, joguei para cacete, mas com o Mayer, ali, o cara era cabeça 4, acho. Foi o jogo do ano, acho. E aqui no Rio, com o Rola, foi muito bom. Foi legal aquela volta, foi muito mais mental (Feijão perdeu três match points e levou a virada no segundo set, esteve uma quebra atrás na parcial decisiva, mas se recuperou e venceu o esloveno Blaz Rola por 6/4, 6/7(9) e 6/4 em mais de 3h de jogo). Mas também tive três derrotas de matar. Três derrotas seguidas. Com o (Luca) Vanni, com break de vantagem no terceiro; depois aqui no Rio, com o Haider Maurer, com break no terceiro para fazer semi e jogar com o Ferrer; e na Davis nem se fala.

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Eu ia chegar nesse momento… Tirando a Davis, qual a derrota mais dura?

A do Luca Vanni.

Foi mesmo?

Ah, foi.

Você entrou “já ganhei” naquele jogo?

Não, você tá louco! O cara vinha do quali, mano.

Por isso mesmo. Era o cara que ninguém esperava, você passou por uma chave que não era tão fácil e chegou ali na semi conta um qualifier…

Mas você vê que o cara tava… Tanto é que ele teve match point contra o Cuevas, pô (Vanni derrotou Feijão na semifinal e perdeu a final do Brasil Open para o uruguaio Pablo Cuevas). Você tá louco! Jamais! Podia ser o… Podia ser você jogando lá a semi e eu ia falar “caralho, o cara tá na semi”, né, meu?

(risos de ambos)

Não, não… Ele é duro. Ele joga bem parecido comigo. Saca, gosta de dar na bola. Eu já conhecia ele.

Teve um pior momento do ano?

(interrompendo) Lógico!

Não digo um jogo, digo um dia. O pior dia.

O dia que eu perdi na Davis.

Não foi o dia seguinte, dois dias depois, ou mais tarde, nas séries de derrotas?

Não. Na hora, ali, foi o pior momento. Esse dia, com certeza, óbvio.

Que horas você foi dormir?

Ah, nem lembro, cara. Imagina uma pessoa destruída. Era eu.

Não passou a noite acordado nem nada?

Não, foi normal, mas dormi pouco. No dia seguinte, já estava com tudo dolorido pra caralho.

Quanto tempo leva para começar a doer de verdade?

No dia seguinte. Para mim, foi o dia seguinte. Passei três dias, até quarta-feira, destruído. Dolorido só, também, nada de mais. Na quinta-feira, eu estava bem já. Mas no dia foi… Imagina se eu ganho aquela porra, velho! Estive a dois pontos de ganhar, velho. Saquei 6/5, 15/15, ele devolveu, eu bati uma direita na paralela e saiu isso (mostrando um espaço pequeno com os dedos). Perdi um ponto, 15/40. Ganhei um ponto, 30/40, aí fiz dupla falta. Aí ele empatou 6/6 e virou aquela guerra.

Essa sequência você não esquece…

Não tem como, né, cara? No 15/15, eu dou uma direita paralela que eu não tinha errado nenhuma… Lógico que eu estava destruído já, né? Era winner, na verdade. Ele nem foi na bola, eu lembro até hoje. A bola saiu “isso”.

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Não tem mais tática nenhuma nessa hora, né?

Não adianta. E eu olhava para o lado, o Mayer destruído. Bem antes do que eu. Bem antes! Ele estava sacando 7/6, 7/6, 4/1, eu quebrei no 4/2 e foi a hora que eu dei a volta no jogo. Eu olhei para o banco, ele estava destruído. Eu falei “fodeu, se eu ganhar este set, acabou.” Ganhei 7/5, 7/5, não sei como ele aguentou. Ele também se superou pra caralho!

Algo que ficou perdido no meio disso tudo é que antes daquele jogo de quase sete horas, você voltou ao time da Davis depois de um fim de ano tumultuado em 2014, com aquela não convocação para jogar com a Espanha. O João (Zwetsch) falou algumas coisas que você não gostou, você disse algumas coisas que ele não gostou… Como foi essa conversa com o João para você voltar ao time?

Cara, para ser bem sincero… (pausa para pensar) Na minha cabeça…

(interrompendo) Vocês brigaram ou foi uma conversa amistosa?

Não, no meu modo de ver, naquela época, eu tinha um jeito de ver e ele tinha o modo dele. Ele tinha as razões dele, e eu tinha as minhas. Acho até que a imprensa ficou do meu lado na época, né?

Eu fiquei.

Muita gente me defendeu e falou “porra, não é o momento do Rogerinho.” Meu ranking estava melhor, eu vinha ganhando mais jogos, só que na época ele falou que o Rogerinho, como tinha jogado muito bem contra o Equador, tinha levado o Brasil e ganhado os dois pontos dele e coisa tal… E aí começou. Também não sei, né? Se entra o lado político ou não.

O João não abriu isso para você?

Não, mas ah… Acho que quem está ali, sabe o que rola. Eu me dou muito bem com todo mundo, estou com o Pardal (Ricardo Acioly, seu treinador) há 11 anos, então acho que… Acho, não. Estou do lado dele em qualquer coisa. Até hoje, não só no tênis, mas em qualquer esporte, a gente tem um pouco o lado político. Então pode ser que tenha contado também, mas não sei, cara. Eu conversei com o João em Quito, eu lembro, e foi tudo bem, meu negócio com ele estava tudo certo. Ele falou “vou te chamar para jogar com a Argentina”, eu falei que “eu tô pronto” e meio que a gente passou uma borracha rápido. Eu – eu, Feijão! – nunca tive problema com ninguém. Jogador, treinador, nada. Nem Confederação nem ninguém. Por isso que eu acho que pode ter sido influência dessa parte, desse lado político.

A equipe te recebeu bem?

Claro. Marcelo, morei três anos com ele. Thomaz, pô, me dou super bem com ele, joguei juvenil com ele a vida inteira. O Bruno, nem se fala. Não, nada. Sou um cara aberto, né, cara? Acho que a galera gosta de mim. (risos de ambos)

O que te faz acreditar que 2016 vai ser melhor que 2015?

Ah, cara, acho que a minha idade está chegando e estou ficando como aquele vinho mais encorpado. Estou me sentido mais forte, tudo está parecendo mais natural. Na hora de treinar, comer um negócio, abdicar de uma coisa aqui, treinar de um jeito ali… Estou me sentido mais forte na parte de escolhas, eu acho. É o que eu te falei… Algumas escolhas acho que errei em 2015, que foi um ano de aprendizado. Então isso me fez mais forte. Acho que às vezes a gente tem que dar dois passos para trás para das três ou quatro para a frente. Acho que é isso. Estou num momento muito bom, até na minha vida pessoal também. Estou tranquilo, morando sozinho, fazendo as coisas que eu gosto, treinando com muito prazer, treinando bem, coisa que eu sempre fiz. O principal mesmo é o olhar meu ranking e ver 140… É uma motivação bem… Eu olho e digo “que bosta!”

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Eu já devo ter e perguntando isso lá atrás, em 2012, mas talvez valha perguntar de novo porque você é uma pessoa diferente hoje. Como foi este ano, depois daquele começo bom, de quartas de ATP 500, semi de ATP 250, e ter que voltar para o primeiro Challenger? Bate uma sensação de frustração?

Não, não porque eu não tinha jogado nenhum Challenger até Prostejov (em junho), que eu fiz semi ainda. Ganhei do Mathieu e do Granollers. Depois da Davis, foi o único torneio que joguei pra caralho. São dois caras que estão top 100. E perdi um jogo ganho contra o moleque que foi fazer a final (o sérvio Laslo Djere, do 20 anos, venceu por 6/7(3), 7/6(4) e 7/5). Não, a sensação foi normal, cara.

Mas não bate um desânimo começar um ano jogando Challenger em vez de…

(interrompendo e voltando a falar do segundo semestre) Ah, bate um pouquinho, mas não é nem “estou jogando Challenger.” É mais “preciso jogar bem, cara.” Porque eu sabia que tinha ponto para defender (no segundo semestre) e no momento eu não estava bem. Eu não estava confiante, não estava bem, mas estava fazendo as coisas que eu tinha que fazer. O que estava ao meu alcance, eu estava fazendo. E essa semana (Prostejov) foi a única semana que eu joguei muito bem depois das três primeiras semanas do ano. O pensamento foi “preciso ganhar, preciso somar porque senão a casa vai cair.” E caiu (risos). Tinha ponto para defender pra caralho, mas até que joguei legal no fim do ano. Joguei com o Rogerinho (em Santiago) e tive match point, ele ganhou o torneio. Depois com o Hernandez, em Lima, perdi 7/6, 7/6. O moleque perdeu na semi com match point para ir para a final. Em Bogotá, perdi para o Struvay, ele foi campeão ganhando do Zeballos e do Lorenzi. Enfim, eu estava jogando bem já. Os últimos três torneios do ano, eu estava bem já. Óbvio que não estava jogando um tênis galático, mas estava conseguindo competir bem, fazer as coisas bem. Ainda fiz uma semi em Pereira, virando três jogos perdidos… Essa gira sul-americana me fez… (interrompendo) Não chega nem a cem pontos o que fiz, mas foi legal, deu uma motivação a mais para eu sair desse buraco, ganhar alguns jogos.

Essa pré-temporada agora tem algo de diferente, além da dieta?

Estou tomando alguns cuidados a mais na parte física principalmente. A gente está segurando um pouco mais. Antigamente, como eu era mais nvo também, a gente focava muito mais em volume, volume, volume e se matar na quadra. Lógico, você é moleque, tem 20, 21, 22 anos, você aguenta três horas de manhã e três horas à tarde. Eu já estou com 27. então a gente está ficando mais esperto nessa parte de dosar. Mas só um pouquinho também. Com 27 não quer dizer que eu estou velho, né? Se eu estou velho, o André Sá está o quê, então, um ancião! (risos)

(risos) Li nas suas entrevistas depois da Davis que as Olimpíadas eram um sonho para você. Como está vendo suas chances hoje?

Ah, cara, eu vejo grandes, para ser bem sincero com você. Eu tenho 240 pontos (para defender) até o Rio Open. Vou jogar só Challengers até ali. Já tenho quatro Challengers para jogar. Jogo Quito (um ATP 250 em fevereiro), que é um torneio onde eu sei do meu potencial…

(interrompendo) Tem um Challenger aqui no Rio, né?

Dois na Argentina, um no Marapendi (clube carioca) e um em Bucaramanga. Em Bucaramanga, já ganhei um torneio. Aqui, vou estar jogando em casa… Enfim, são torneios que se ganha um, faz uma final, uma semi… Já defendi os pontos. Depois, também… Sabe? Foi como na primeira vez, que me meti (no top 100) jogando Challenger, com a confiança lá em cima. Acho que o importante no começo do ano é ganhar jogo, agarrar ritmo de jogo, um pouco de confiança e ir embora. Depois, jogando Rio (Open) e São Paulo (Brasil Open), que são dois torneios que eu amo jogar… E aí, cara… Não vou arriscar nada no calendário.

Esse ranking para as Olimpíadas fecha por volta de 80, né?

Eu acho que 80. Mas é isso, cara. Acho que (as chances) são altas. Estou super motivado, como te falei.


Feijão: uma vitória sem match point
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Alexandre Cossenza

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Foram 11h39min em quadra, 807 pontos disputados, dez sets jogados, dez match points salvos e um recorde quebrado. João Souza deixa Buenos Aires com uma vitória improvavelmente fantástica contra Carlos Berlocq, a honra de ter disputado a partida de simples mais longa da história da Copa Davis (6h42min na derrota para Leo Mayer), e um currículo com a adição de, somando sexta-feira e domingo, um fim de semana épico, histórico, titânico… Boyhoodiano!

No que foi possivelmente a maior atuação de um brasileiro na Copa Davis desde Guga em Lérida/1999, Feijão não conseguiu dar a vitória ao time brasileiro, mas deixou em quadra muito mais do que isso. Mostrou coragem em pontos importantes, foi persistente (nas muitas e muitas vezes) quando tudo parecia perdido e teve raça quando o corpo não respondia mais. Apagou as dúvidas que (supostamente) existiam sobre seu preparo físico e, muito mais do que isso, deu à torcida alguém por quem ela pode ter orgulho de torcer – na vitória ou na derrota. Mesmo sem match point para chamar de seu, Feijão foi um vencedor.

Mayer, que lutou bravamente quando também estava exausto, mereceu vencer e estender o confronto. E seria igualmente justo se tivesse fechado a partida antes. Abriu 7/6(4), 7/6(5) e 3/0 e parecia estar no controle das ações. Só não contava com uma furiosa reação do número 1 do Brasil. Onde muitos tenistas veriam areia movediça, João Souza enxergou uma escada. Virou um set quase perdido, ganhou mais um e forçou a quinta parcial. Então, lutando contra as limitações do corpo, salvou match point atrás de match point. Foram dez ao todo.

O único pecado, tão perdoável quanto soa injusto chamar de pecado qualquer falha nessas condições, foi não confirmar o serviço quando teve 6/5. Paciência. Se chegou à chance de fechar a partida foi porque, antes, anulou muitas e muitas chances do adversário. Àquela altura, tudo parecia lucro. O curioso – e elogiável – é que agora, pós-ponto derradeiro, a sensação não é muito diferente. Ninguém vai enfatizar o 12º game que escapou nem a direita que saiu quando Mayer sacava em 15/30 no 27º game. A imagem que fica é a do “lucro”. Da batalha, da raça, da fé, da esperança, do orgulho de torcer. Feijão foi hercúleo e é isso que importa.

#feijãomágico

Coisas que eu acho que acho:

– O quinto ponto foi suspenso quando Thomaz Bellucci perdeu o primeiro set para Federico Delbonis por 6/3. O número 2 do Brasil começou mal, viu o tenista da casa abrir 5/1 e, quando “entrou” no jogo, já era tarde. A partida recomeça às 11h desta segunda-feira, e o Brasil continua a três sets das quartas de final da Davis.

– Logo que a última partida começou, li muitas críticas a Bellucci nas redes sociais. Tidas acentuadas, claro, pelo contraste de estilos e pelo fim de semana espetacular de Feijão. Entendo até certo ponto, mas não acho justo usar o brilho de um para ofuscar o outro. Criticar a postura de Bellucci na Davis é esquecer de atuações memoráveis como a virada sobre Alejandro Falla, os dois triunfos sobre a Espanha e a vitória sobre John Isner nos Estados Unidos. Feijão foi monstruoso, sim, mas isso não faz de Bellucci nem mais nem menos.

– Uma derrota brasileira significaria uma repescagem dura, mas provavelmente em solo brasileiro. Entre os possíveis cabeças de chave da repescagem estão República Tcheca, Suíça, Itália, Estados Unidos, Alemanha, Croácia e Japão/Canadá. E ainda existe a possibilidade de a Espanha alcançar os playoffs via Zonal da Europa. Não seria nada fácil para o Brasil.


Feijão: para apagar dúvidas e salvar o dia
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Alexandre Cossenza

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Em um breve instante, ficou muito claro. Feijão perdia o jogo por 2 sets a 1 e vivia seu pior momento, sacando em 1/3 e 15/40 na quarta parcial. O poço parecia fundo demais. Já se passavam 4h de duelo. Foram dois break points salvos e quatro igualdades, mas o número 1 do Brasil confirmou aquele saque. No último ponto, uma comemoração intensa. Olhos bem abertos, punho fechado. Não era alívio, era vontade de continuar ali. Ali, naquele segundinho, deu para ver. Feijão poderia perder a partida, mas não se entregaria mental nem fisicamente.

O atual número 1 do Brasil comportou-se como seu posto de líder exige. Ficou em quadra e brigou até que, depois de outras duas igualdades, devolveu o saque de Carlos Berlocq e empatou o set. Mas teve mais. Feijão ainda salvou um break point antes de abrir 4/3 e embalar para quebrar de zero o argentino. O que faltou de decisão no terceiro set (Feijão teve três set points – dois no saque – e não fechou) sobrou no quarto. Sacando em 5/3, o paulista ainda escapou de duas chances de quebra antes de fazer 6/3 e adiar a decisão para o quinto set.

Berlocq abriu a parcial decisiva vibrando e chamando a torcida. Uma tática inteligente contra um Feijão que disputava seu primeiro quinto set na vida. No fim das contas, mostrou-se uma estratégia desesperada. Além das 4h de jogo, o argentino não tinha mais físico para correr atrás dos forehands de Feijão como vinha fazendo até então. Tentou dar curtinhas e até teve sucesso moderado, mas ninguém vive disso. Tentou, então, agredir um pouco mais, só que também errou um pouco mais. Enquanto isso, Feijão, inteiro no fundo de quadra, seguia distribuindo pancadas. No fim, sem piscar, o brasileiro comemorou uma vitória maiúscula por 6/4, 3/6, 5/7, 6/3 e 6/2.

Mais do que um lindo resultado e mais até do que um importantíssimo ponto em Grupo Mundial de Copa Davis, Feijão deu ao país inteiro uma prova de sua maturidade como tenista. Em seu primeiro jogo fora de casa vestindo as cores do Brasil, jamais se deixou atrapalhar pela torcida, mostrou força mental para superar um momento duríssimo e deixou claro que tem condições físicas de encarar partidas longas, sob forte calor, chegando ao fim melhor do que o adversário. Uma atuação para apagar quaisquer dúvidas que o capitão João Zwetsch (ou qualquer outra pessoa na CBT) ainda tivesse sobre sua capacidade de defender o país.

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Um brilha, um oscila

O primeiro ponto, conquistado por Feijão, fez-se mais importante ainda na medida em que Thomaz Bellucci não fez um grande começo de jogo contra Leo Mayer. Enquanto o tenista argentino mostrava-se mais sólido e no controle da maioria dos ralis, o número 2 brasileiro pouco brilhava. Um lampejo no terceiro set, impulsionado por um momento instável de Mayer, deu sobrevida a Bellucci, que conseguiu forçar um quarto set.

Só que o paulista nunca teve o controle das ações. O tenista da casa, número 29 do mundo, voltou a mostrar um tênis mais sólido e aproveitou a porta que Bellucci lhe abriu depois de fazer 40/0 no oitavo game. No fim, o placar de 6/4, 6/3, 1/6 e 6/3 refletiu bem a superioridade de Mayer.

Coisas que eu acho que acho:

– Contra quem quer que seja, a dupla brasileira será favorita. Acredito que a escalação (ou não) de Berlocq neste sábado vai dizer um bocado sobre as intenções de Orsanic para o domingo. Caso Charly entre em quadra para as duplas, deve ser substituído no domingo. Se descansar, aumentam suas chances de estar em quadra no último dia do confronto.

– É aí que entra em jogo a força do conjunto argentino. Diego Schwartzman e, principalmente, Federico Delbonis são duas ótimas opções para as simples. Orsanic não tem um tenista que desequilibre um confronto, mas pode trocar nomes aqui e ali e não perder poder de fogo.


Copa Davis: enfim, Feijão
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Alexandre Cossenza

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No último dia do prazo para o anúncio dos times que disputarão a primeira rodada do Grupo Mundial da Copa Davis, a Confederação Brasileira de Tênis confirmou a (inevitável) escalação que todos sabiam há semanas (desde que José Nilton Dalcim divulgou): João Souza, Thomaz Bellucci, Marcelo Melo e Bruno Soares.

O complicado confronto em Buenos Aires, contra a Argentina, em uma quadra de saibro, possivelmente com muito calor e umidade, marca a volta de Feijão ao time brasileiro. O paulista de 26 anos é atualmente o número 77 do mundo e será o mais bem ranqueado simplista do país na semana do duelo. Só que mais do que rankings e números, a convocação vem para coroar oito meses de belo tênis. Desde as ótimas campanhas em Challengers no segundo semestre do ano passado até as vitórias em torneios de nível ATP em 2015.

O Feijão de hoje é um tenista mais qualificado e, principalmente, mais equilibrado. Não só na parte técnica, na qual seus pontos fracos (a movimentação e o backhand) já não são tão fracos, mas também na questão mental. João Souza, hoje, deixa se incomodar com muito menos facilidade do que anos atrás. E se às vezes ainda mostra instabilidade e perde chances (como no voleio fácil que errou quando teve match point contra Blaz Rola no Rio de Janeiro), também mostra capacidade de recuperação maior (vide a reação no terceiro set do mesmo jogo).

O Feijão de hoje, repito, é mais maduro do que aquele de 2011, que deixou já decidido o confronto contra o Uruguai, em Montevidéu, quando soube que não iria jogar. É também mais experiente do que o João Souza de 2012, que treinou brilhantemente, mas não rendeu o mesmo quando estreou na competição contra Santiago Giraldo, da Colômbia.

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A Argentina continua sendo um time mais forte. Ganhável, porém mais forte do que o Brasil. Com Daniel Orsanic (ex-técnico de Bellucci) no posto de capitão, os hermanos jogarão com Leonardo Mayer, Federico Delbonis, Diego Schwartzman e Carlos Berlocq. Nenhum cracaço, nenhum tenista imbatível, mas uma equipe homogênea que dá muitas opções ao capitão. Um exemplo? Mayer, 29 do mundo e mais bem ranqueado entre os argentinos, vem de derrota para Feijão em São Paulo. Schwartzaman, por sua vez, é o 64º na lista da ATP, mas derrotou João Souza nos dois últimos encontros.

Orsanic, que optou por deixar o mais experiente Juan Mónaco fora do time (segundo Orsanic, a dúvida era entre ele e Schwartzman), deve saber que jogará como azarão na partida de duplas (Berlocq e Mayer, que jogaram juntos no Australian Open, em São Paulo e no Rio são uma opção), mas sabe que tem chance de ganhar os outros quatro jogos de simples.

A favor da Argentina, obviamente, pesarão a barulhenta torcida e o calor. A combinação de altas temperaturas e umidade são cruéis para Bellucci, que teve problemas recentemente em Buenos Aires. Em 2014, esgotado, abandonou seu primeiro jogo no qualifying. Nesta semana, voltou a sofrer e dava sinais de exaustão já no fim do segundo set. Como talvez precise jogar até cinco na Copa Davis, sua condição física será sempre uma preocupação brasileira.

Coisas que eu acho que acho:

– A polêmica na Argentina fica por conta da ausência de Mónaco. Como relatei acima, Orsanic afirmou que estava na dúvida entre ele e Schwartzman. Contudo, um grande ponto de interrogação paira no ar. Juan Martín del Potro fez as pazes com a federação argentina e já se mostrou disposto a voltar ao time. Mónaco, por sua vez, não esconde de ninguém que nem fala com Delpo. E agora?

– Dada a insegurança com a durabilidade de Thomaz Bellucci, talvez fosse, no mundo ideal, o caso de Zwetsch convocar mais um simplista. O problema é que incluir Guilherme Clezar, André Ghem, Rogerinho, Fabiano de Paula ou quem quer que seja significaria abrir mão de um duplista e, consequentemente, colocar em risco o ponto mais provável do Brasil no confronto. Além disso, no mundo ideal o Brasil teria mais um simplista capaz de ganhar jogos neste nível. E ninguém além de Feijão e Bellucci vem mostrando tênis para isso.

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– Não sei qual o critério adotado pela CBT, mas o timing do anúncio, especialmente nesta convocação, acabou sendo o pior possível. Todos no meio do tênis sabiam que Feijão seria convocado (José Nilton Dalcim publicou a informação semanas atrás), e o tenista, proibido de revelar, teve de passar duas semanas dando respostas idiotas à imprensa. Nos últimos dias do Rio Open, o próprio Feijão ria das respostas toda vez que incluía um “se eu for chamado”.

– Para quem não sabia que Feijão seria convocado, o anúncio pós-Brasil Open e Rio Open pode passar a impressão de que João Zwetsch não queria o atleta, mas teve de engolir a boa fase de um jogador que foi equivocadamente preterido (vide o desempenho de Rogerinho) no confronto anterior. Não foi o que aconteceu (pelo menos na parte que diz respeito aos ATPs brasileiros), mas a CBT deveria trabalhar para não dar margem a esse tipo de pensamento.

– Por que alguém pensaria como o que sugeri no parágrafo acima? Por causa de toda polêmica do confronto contra a Espanha. Para quem não lembra, Zwetsch explicou mal a opção por Rogerinho (alegou questões físicas, depois falou em recompensa pela atuação contra o Equador); Feijão reclamou e inclusive afirmou que o capitão da Davis não deveria ser treinador de outros atletas; Ricardo Acioly, ex-capitão da Davis e técnico de Feijão, criticou duramente a postura de Zwetsch; e Zwetsch culpou “fantasmas” pela má atuação de Rogerinho.


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