Saque e Voleio

Categoria : Diálogos

Conversas curiosas e inconclusivas, parte II
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Alexandre Cossenza

No bar de um famoso clube, tenistas amadores discutiam os méritos de Gustavo Kuerten até que o assunto “Roger Federer como melhor de todos os tempos” veio à tona. O diálogo entre os amigos identificados aqui como Catê Imoso e Jessé Tico começou no post da semana passada e continua a seguir…

Catê: Qual o problema agora?
Jessé: O mesmo de sempre.

C: Não entendi.
J: Sua necessidade de usar “melhor de todos os tempos” nas frases.

C: Você não acha que Federer é o melhor da história?
J: Eu não disse isso.

C: Você não disse nada.
J: É verdade (risos sonsos).

C: Então quem você acha que é o melhor?
J: Ninguém.

C: Como assim?
J: Não dá para estabelecer, não dá para comparar.

C: Mas os números do Federer são imbatíveis!
J: Será? Você realmente acha isso?

C: Ele ganhou 17 Slams, mais do que qualquer outro.
J: É verdade, mas quantos Grand Slams de fato ele completou?

C: Ele ganhou três Slams no mesmo ano algumas vezes.
J: Pois é. Rod Laver fechou o Slam duas vezes. Ganhou os quatro em 1962 e 1969.

C: Mas Laver nem chegou perto de ganhar 17 Slams!
J: Verdade, ele ganhou 11, mas ficou cinco anos proibido de jogar Slams porque se profissionalizou. Imagina quantos Slams ele teria vencido nesses cinco anos!

C: Mas aí você está especulando.
J: Verdade, estou. A gente nunca vai saber. Mas o que quero dizer é que esse número de 17 Slams não prova essa supremacia absoluta que você prega. E tem a questão da porcentagem, que…

C: (interrompendo) Que porcentagem?
J: (pesquisando no celular) Federer ganhou 17 Slams, mas jogou 66, o que dá um aproveitamento de 25,7%

C: Ou seja, a cada quatro Slams disputados, ele ganhou um! Isso é espetacular.
J: Sim, mas Nadal, por exemplo…

C: (interrompendo outra vez) Isso aí é baloeiro, rapaz! Maratonista empurrador de bola! Jogo feio.
J: Bom eu discordo da sua avaliação sobre o jogo dele, mas eu ia citar um número só.

C: Que número?
J: Nadal ganhou 14 Slams em 43 disputados. Ou seja, 32,5% de aproveitamento. É um número bem maior que o do Federer.

C: Federer não tem culpa se esse baloeiro vive machucado.
J: É verdade, mas eu não menosprezaria tanto Nadal se fosse você.

C: Por quê?
J: Porque isso não ajuda seu argumento.

C: Meu argumento é que Federer é o melhor da história. Nadal nem chega perto.
J: Tudo bem, mas faz sentido dizer que o melhor tenista da história jogou 34 vezes e perdeu 23 para um baloeiro, maratonista e empurrador de bola?

C: Mas a maioria desses jogos foi no saibro.
J: É verdade, mas repito. Abre aspas, o melhor da história, fecha aspas, pode perder tanto para um baloeiro-maratonista-empurrador-de-bola? Não sei. Acho que seu argumento se perde aí.

C: Tudo bem, eu admito, Nadal é um bom tenista.
J: E tem a questão do indoor, né?

C: Como assim? Federer atropela ele no indoor.
J: Justamente por isso. Se você descontar o saibro, que é a melhor condição para Nadal, e o indoor, que é a melhor condição para Federer, como fica essa conta?

C: Não sei. Quanto?
J: Deixa ver no Google (abrindo o celular)… 9 a 4!

C: Você está querendo dizer que Nadal é melhor que Federer?
J: Não.

C: Então o que quer com esses números?
J: Te mostrar que os números também podem jogar contra seu argumento de “melhor da história”. E tem outra pergunta que não quer calar, né?

C: Hum. Qual?
J: O melhor da história pode ter retrospecto tão negativo contra um rival de sua geração?

C: Mas Nadal é muito mais novo que ele. Não é a mesma geração!
J: Você está querendo dizer que dois caras que se enfrentam todos os anos há 12 anos não estão na mesma geração?

C: É que Nadal leva vantagem por ser mais novo e ter mais perna.
J: Esse também é um argumento discutível e derrubável.

C: Por quê?
J: Porque Nadal tinha 17 anos e pouquíssima experiência quando enfrentou Federer pela primeira vez. O suíço, inclusive, já era número 1 do mundo e campeão de Slam. Estava no auge, voando, e já perdia do espanhol.

C: Não entendi aonde você quer chegar.
J: Simples. A idade, que você argumenta, deveria pesar a favor de Federer quando Nadal ainda estava se desenvolvendo no circuito. Mesmo assim, Nadal sempre teve vantagem nos confrontos diretos. Desde aquela época.

C: Eu discordo de você.
J: Tudo bem. Eu não disse que é a verdade absoluta. Só disse que seu argumento era questionável. É questão de opinião mesmo. E olhe que nem citei Djokovic…

C: O que tem Djokovic?
J: É um ano mais novo que Nadal. Penou contra Federer nos primeiros ano da carreira. Ou seja, a experiência do suíço pesava contra o sérvio. E olha o retrospecto dos dois hoje em dia…

C: Estão empatados!
J: Pois é. Volto àquela linha de raciocínio: alguém pode ser o melhor da história quando não tem vantagem nos confrontos diretos nem contra os caras da geração dele?

C: Mas Djokovic não é da geração dele!
J: São quase seis anos de diferença entre eles, mas foram 44 jogos em dez anos. Não sei se é justo dizer que eles são de gerações diferentes.

C: Mas a diferença de idade é enorme.
J: É, mas a gente já discutiu isso, né? Se Federer continua fazendo final de Slam contra Djokovic até hoje, a gente não pode colocar os dois em gerações diferentes.

C: Mas isso só acontece porque Federer é um fenômeno e continua jogando um tênis espetacular aos 34 anos.
J: Nisso eu concordo.

C: Ufa, concordamos em algo!
J: Concordamos! Só que ainda não cheguei no dilema Djokovic.

C: Calma, vamos ali jogar um setzinho antes?
J: Vamos!

(continua em um post futuro)


Conversas curiosas e inconclusivas, parte I
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Alexandre Cossenza

O diálogo a seguir aconteceu (ou não) num bar de um famoso clube de tênis. Dois amigos, identificados aqui como Catê Imoso e Jessé Tico, assistiam a uma das reprises do SporTV da final da Masters Cup de 2000, entre Gustavo Kuerten e Andre Agassi. Entre uma Paulaner e uma Hoegaarden, nossos personagens abrem o debate no segundo game da partida, quando Guga confirma o serviço com um ace.

Catê: Olha esse saque, o Guga era foda.
Jessé: Muito foda.

C: Não sei como ele não ganhou mais com esse saque.
J: É porque ele não sacava assim todo dia.

(cinco minutos depois)

C: Como ele não sacava assim sempre? Olha esse saque aberto na esquerda do Agassi! Ninguém devolve essa bola.
J: Você vai julgar o saque do Guga baseado em um jogo só?

C: Mas ele tá fazendo isso contra o Agassi, a melhor devolução da história.
J: Da história? Já viu o Djokovic devolvendo?

C: Mas o Djokovic não precisa devolver o saque do Sampras, que era monstro.
J: (irônico) É, não tem mais Sampras. Só tem Federer, Isner e Karlovic hoje em dia. Tá fácil, né?

C: Ah, para com isso. Vai criticar o Agassi só pra menosprezar o Guga?
J: Não. Agassi era um monstro na devolução, mas levava mais ace do que todos outros tops da época. E o segundo saque do Guga era vulnerável. Ele sacava todas com spin no backhand do adversário. O circuito inteiro sabia disso.

C: Você bebeu?! E olha esse backhand agora! (vendo Guga mudar a direção e bater o backhand de dentro pra fora)
J: Esse backhand era espetacular!

C: Nunca mais apareceu um backhand assim.
J: O do Wawrinka é melhor.

C: Mas você não pode comparar gerações diferentes.
J: Quem comparou foi você.

C: Mas o Guga é mais tenista que o Wawrinka.
J: Não tô comparando.

C: Vai dizer que o Wawrinka tem algum outro golpe melhor que o Guga?
J: Todos. Saque, direita, esquerda e voleio.

C: Você não pode estar falando sério.
J: Golpe a golpe, Wawrinka faz tudo melhor.

C: Isso não faz dele mais tenista que o Guga.
J: Eu não disse isso.

C: Guga foi número 1, ganhou três Slams! Wawrinka nunca chegou perto de ser número 1!
J: Concordo com tudo isso. Mas o que o ranking tem a ver com isso?

C: Prova que Guga foi o melhor da geração dele.
J: Mas quem era a geração dele?

C: Você está sugerindo que a geração dele era fraca?
J: Não. Só perguntei.

C: A geração dele era tão forte quanto qualquer outra.
J: Mas quem era?

C: Hewitt, Safin, Norman…
J: (interrompendo) Peraí, Hewitt é cinco anos mais novo que ele.

C: E daí?
J: E daí que Sampras é cinco anos mais velho que o Guga.

C: E daí?
J: E daí que se o Hewitt, cinco anos mais novo, pertence à mesma geração do Guga, por que você não incluiu Sampras e Agassi?

C: Porque Sampras e Agassi já estavam em fim de carreira e Hewitt apareceu muito jovem, enquanto o Guga ainda estava no auge.
J: Mas peraí, Guga não venceu Roland Garros em 1997?

C: Ganhou, e daí?
J: E daí que o melhor ano da carreira do Agassi foi 1999.

C: Tudo bem, então o Agassi era da mesma geração que o Guga.
J: Se o Agassi era da mesma geração do Guga, o Sampras, que era um ano mais novo, também era. Logo, o Guga não foi nem o segundo o melhor tenista da geração dele.

C: Mas em 2000 ele foi o melhor.
J: Ah, então ele foi o melhor do mundo, mas só durante aquele período?

C: É.
J: Mas um ano não é pouco para determinar que alguém foi o melhor de uma geração?

C: Tudo bem, admito que o Guga não foi o melhor.
J: Então, enfim, concordamos?

C: Concordamos. A única unanimidade é Federer, o melhor de todos os tempos. Aí não tem discussão, né?
J: Ai, meu deus….

(continua em um post futuro)

Coisas que eu acho que acho:

– Excelente a iniciativa do SporTV de exibir reprise do jogo que colocou Gustavo Kuerten como número 1 do mundo. É ótimo para mostrar à geração que começou a ver tênis com Federer e Nadal como um brasileiro terminou uma temporada no topo do ranking. Para os fãs mais velhos, é uma chance de matar a saudade.

– O canal tem essa partida arquivada há 15 anos e precisou esperar Guga se tornar funcionário das Organizações Globo para exibi-las. Uma ótima ideia seria mostrar outras vitórias clássicas do tricampeão de Roland Garros. Que tal uma por mês? Grade é o que não falta. Seria bom aproveitar enquanto Guga está sob contrato…


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