Saque e Voleio

Categoria : Bruno Soares

Bruno Soares: vaidade, implante capilar e mais de quatro anos de tênis
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Alexandre Cossenza

Demorou um pouco mais do que o habitual, mas finalmente chega o momento de publicar o entrevistão anual com Bruno Soares. Quem lê o Saque e Voleio sabe que com o mineiro há sempre material interessante – desde sempre. A conversa deste ano foi um pouco diferente. Falamos de tênis, claro, mas também conversamos bastante sobre o implante capilar a que o mineiro se submeteu há pouco tempo. Bruno ainda anda de boné por toda parte porque evitar o sol é uma das precauções pós-operatórias.

O descontraído papo é sobre vaidade, temores e decisões, mas se você só quer ler sobre tênis, tem assunto para você também. Bruno lembra dos momentos marcantes de 2016, fala da sensação de começar o ano como dupla a ser batida, compartilha os planos para a carreira e avalia a chance de mudanças no circuito de duplas em breve. Tem assunto para todos os gostos. É só rolar a página…

A gente faz essas entrevistas desde 2012, se não me engano. Na primeira delas, seu objetivo era classificar pra Londres. Mais tarde, era ganhar um slam de duplas masculinas. Hoje, você já tem dois slams de duplas, três de mistas, terminou 2016 como dupla #1 do mundo, tem um filho, está bem casado e – dizem – bem de dinheiro. Qual a motivação pra continuar jogando com 34 anos, a dez dias de completar 35?

Tenho alguns objetivos ainda. O número 1 do ranking “individual” é um deles. A medalha olímpica é outro. Ganhar o Rio Open, outro. Tem um bocado de coisa ainda que eu posso conquistar, mas o principal disso tudo é que eu ainda amo jogar tênis. Acho que esse é o mais importante. Independentemente de objetivo e coisas que você quer alcançar, quando o prazer de ficar duas horas no sol acabar, aí a luzinha vai começando a apagar e aí é hora de repensar a carreira. Acho que isso é o principal. Os objetivos a gente vai traçando para ter um norte, para rumar naquela direção e conquistar. Eu, felizmente, venho conquistando a grande maioria das coisas que eu venho traçando, e espero… Quem sabe mais cinco grand slams nos próximos quatro anos? Tô feliz da vida!

No fim de quatro temporadas, você vai estar com 39?

É. Na próxima Olimpíada, eu estou com 38.

É essa conta que você faz agora? Jogar pelo menos até Tóquio 2020?

É essa conta. Em Tóquio, eu quero estar com certeza. Depois disso, vamos ver como estou de ranking, físico, vontade e tudo mais. Mas acho que me surpreenderia eu parar por minha vontade antes de Tóquio. Eventualmente, se o nível cai, você não aguenta tanto torneio, e uma série de coisas que podem acontecer nessa jornada, mas por vontade minha, estando bem ranqueado e jogando bem, acho muito difícil.

O ano passado começou muito bom, com dois slams (duplas e mistas) na Austrália, terminou como número 1 com um slam em Nova York, e no meio disso teve a medalha que não veio e o número 1 “individual” que escapou por um jogo. Foi uma temporada de altos muito altos e – não sei se baixos muito baixos, mas de sensações muito intensas?

De sensações, sim. Quando você tem um ano olímpico como no ano passado, no Rio, e juntando com as coisas que a gente conseguiu conquistar e estando muito perto do número 1, acho que foi um ano de grandes emoções. A gente pode definir assim. Umas, muito boas. Outras que acabaram muito perto de eu conquistar. É o que eu falo sempre. Quem está no circuito e está acostumado a jogar 25, 26, 27 torneios no ano e tem um torneio de uma semana que é a Olimpíada, todo mundo sabe que a variável é enorme. Você chega lá um dia, o cara mete uma bola na linha, você acorda mais ou menos… É um tiro que você tem. É cruel! Nesse esportes que vivem da Olimpíada, é muito cruel com a turma. O cara se prepara quatro anos, de repente ele acorda e está ventando… acabou!

E aí são mais quatro anos para tentar de novo.

Mais quatro anos para tentar de novo! O cara não tem circuito. Acabou. Isso que é o cruel das Olimpíadas. E a gente… Se você tem o sonho de conquistar a medalha olímpica, é a mesma coisa. É cruel também. Batemos na trave em Londres, batemos na trave no Rio, vamos tentar de novo em Tóquio.

Eu ia perguntar que sensação tinha sido mais doída, mas pelo que você falou, não conquistar a medalha foi muito mais forte do que o número 1 que não veio…

Acho que Olimpíadas, cara. Justamente por isso. Aquilo ali, a gente estava num momento muito bom, a gente estava na briga… Hoje eu estou mais longe do número 1. Perdemos dois mil pontos da Austrália, para chegar no número 1 é um processo de novo, mas a gente estava na boa. E Olimpíada é o que eu te falei. Você perde nas quartas, acabou. Quando é a próxima? Tóquio 2020. Você fala “puta merda”, acabou. É porque você faz muita coisa pelas Olimpíadas. São dois anos que a gente estava no planejamento. Tudo que a gente faz é pensando em Olimpíadas. Em tudo que a gente montou, as Olimpíadas estavam envolvidas também. Você passa um tempo muito grande martelando aquilo ali. Obviamente, é um negócio completamente diferente. Você tem vila olímpica, cerimônia de abertura, tudo aquilo, e quando acaba, você fala “acabou”. Mais quatro anos agora. Senta e espera.

E qual foi o alto mais alto? Aquelas 16 horas de Melbourne quando você tomou 12 xícaras de café? (Bruno foi campeão de duplas e mistas em dias consecutivos)

Acho que foi. Estou tentando comparar com o número 1, que foi do caralho também, mas aquele fim de semana de Melbourne foi algo. Porque foi meu primeiro grand slam de duplas masculinas, da forma que aconteceu… A gente acabou de madrugada, não consegui dormir, naquela pilha, adrenalina, entrevista, aquela loucura… E você para pra pensar, “o que você tem amanhã? Outra final de grand slam!” Então foi um negócio meio doido, na base da adrenalina mesmo. Pouquíssimos jogadores conseguiram ganhar dupla e dupla mista no mesmo torneio. Consegui colocar meu nome num lugar muito seleto e muito especial.

Você já falou bastante sobre o motivo do sucesso da parceria com o Jamie. O que acho interessante é que vocês ganharam em Melbourne, quando as duplas ainda estavam se encontrando, e ganharam de novo em Nova York, quando todo mundo já sabia quem era quem. E agora, começar o ano como #1, como umas das duplas a serem batidas, está sendo muito diferente?

Acho que eu vivi muito isso com o Alex [Peya]. A gente não ganhou um slam, mas se firmou como uma das melhores duplas do mundo muito rápido. Em 2012, a gente começou bem. Já saímos ganhando dois 500. A turma já tinha a gente como uma referência das duplas mais fortes. Obviamente, com o Jamie foi um negócio de ganhar dois grand slams, terminar número 1… Mas eu acho que de uma forma geral, é resultado do que a gente faz. Independentemente do resultado das duplas, a gente está estudando. O Alan [MacDonald, técnico de Jamie Murray], o Hugo [Daibert, técnico de Bruno] e o Louis [Cayer, técnico da federação britânica] vão lá e fazem vídeo, falam para a gente. A gente assiste aos jogos juntos depois. Eu acredito que os outros também estão fazendo, anotando. “O Bruno gosta da sacar ali, essa é a principal jogada deles.” Esse tipo de coisa todo mundo está fazendo. Aí é a hora que entra a qualidade do jogador de variar, se inventar. É a parte mental do jogo. O cara acha que eu vou sacar ali; eu sei que se eu sacar lá, ele vai bater ali. Então fica aquele negócio de quem vai fazer o que primeiro.

Agora, mudando de assunto, o que o pessoal comenta, mas anda meio sem graça de te perguntar… Você fez implante (de cabelo)?

Eu fiz! Vergonha zero de falar! Estou de boné o tempo inteiro porque não posso tomar sol. Eu tinha ido no médico no fim do ano, mas tem um processo que exige que você fique dez dias parado. É muito complicado pra mim. Quando eu machuquei [no Australian Open], liguei para essa médica, Dra. Maria Angélica Muricy, que está sempre com a agenda lotada, e falei. Eu chegava segunda à noite no Brasil. Quarta era feriado em São Paulo. Ela falou “eu não opero feriado e fim de semana, mas vem que eu te opero na quarta-feira.” Ela é nota 1000.

Como funciona isso?

Essa técnica chama “fio a fio”. Você coloca, o cabelo cresce um pouquinho, e em 25, 30 dias, esse cabelo cai. E aí em três meses, nasce o cabelo definitivo. Não, não tenho vergonha nenhuma! Até porque eu era careca, agora não sou mais! (risos) Não posso negar, né? Se o cara pergunta “você fez implante?”, não posso dizer “não, cresceu do nada!” (mais risos de ambos)

Cidade maravilhosa #rio #rioopen

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Mas estava te incomodando visualmente?

Não vou dizer que sou zero vaidoso porque fiz essa parada, mas não tenho vergonha nenhuma de comentar. Mas o que aconteceu? Foi de uma hora para a outra! Eu nunca me incomodei pelo fato de estar ficando careca. Acho que ano passado eu apareci muito na TV e me vi muito e comecei a falar “eu tô careca pra caralho, velho.” Eu, pelo menos, senti isso, que fiquei muito mais careca no ano passado. Entrou demais e tal. Aí estou batendo papo com o Márcio [Torres, empresário], conversando sobre implante, mas o Márcio é cabeludo, não sabia nada. Mas o [pessoa cujo nome foi omitido em nome da amizade], que é nosso amigo, fez. Não sei nem se devia falar o nome dele porque ele pode estar escondendo. Aí mandei um WhatsApp pro cara. Ele falou “velho, zero dor, técnica nova”, e ele me explicou. Marquei uma consulta e, realmente, agora é uma técnica que você tira de trás, implanta na frente. Zero cicatriz, zero dor. É muito mais fácil.

Você então não sofreu bullying nem tem trauma de infância? Nada mesmo?

Zero, zero! Sabe por que eu animei? Porque quando eu falei com o [amigo], ele disse “zero dor”. Aí eu me animei. Fui lá, ela me explicou o processo e falei “ah, vou fazer essa porra antes que eu fique careca completamente.” Mas com quem quiser falar do implante, eu falo abertamente. Nunca tive trauma. Tanto que eu não sabia de nada [sobre o assunto antes do procedimento].

E a Bruna (esposa), o que achou?

A Bruna nunca falou um “a”. Quando eu voltei, ela perguntou, eu falei “vou operar.” Ela falou “o quê??? Não vai me consultar?” Não, já decidi, o trem é simples, vou fazer. Para ela, não muda nada com ou sem cabelo.

Pergunto porque vocês estão juntos há muito tempo, então ela acompanhou todo processo de queda, né?

Ela foi acompanhando o processo, mas quando você convive o tempo inteiro, a pessoa vai “carecando” e você vai acostumando. Você não toma um choque. Não é um cara que me viu com 18 anos e depois só me viu com 34. O cara olha e diz “ele tá carecaço.” Mas se você me vê todo dia, vai acostumando com aquela imagem visual. Mas ano passado me incomodou. No ATP Finals, tinha uns pôsteres enormes que eu olhava assim e falava “tô muito careca!” Mas aí, na conversa com o Márcio, quando ele disse que o [amigo de identidade preservada] fez… Essa técnica nova é outro nível.

Falemos de política um pouco pra fechar… O Andy Murray assumiu a presidência do Conselho dos Jogadores, e um dos primeiros assuntos que ele levantou foi o circuito de duplas. Principalmente o sign-in on-site (quando tenistas se inscrevem no torneio em cima da hora, pouco antes do fim do prazo para o fechamento)…

O lance do sign-in é muito complicado. Por que que existe o sign-in on-site?

Por causa deles, os simplistas, né?

Por causa deles. Mas por que que o Andy viu isso [Andy Murray reclamou do procedimento quando jogou o Masters de Paris em 2015]? Porque ele estava jogando com o [Colin] Fleming, então ele estava na boca do gol [correndo o risco de não entrar na chave por causa do ranking combinado]. Se ele estivesse jogando com o Ferrer, ele assinava e podia ir para o hotel dormir que ele ia entrar. Como ele precisava de conta, ele viu a loucura que é em cima da hora. Mas o sign-in foi feito para esses caras. Os caras que vão entrar mesmo… Ah, o Federer vai assinar com o Wawrinka. Ele assina e vai embora porque vai entrar. Os caras que estão na boca do gol é que ficam naquela loucura. E tem muita que é duplista e precisa entrar.

Como é essa loucura?

Eu vou assinar com você. Deu dois minutos, ele assinou. Deu três minutos, fulano assinou. Aí você tem que mudar. Eu já não estou mais com você porque senão a gente não entra. Então eu vou jogar com esse fulano…

Pode mudar depois que assina?

Pode! Rabisca e assina com outro. Acontece esse troca-troca. Mas é normal. É o seguinte: ou a gente faz tudo “advanced”, ou seja, inscreve no sistema e ninguém vê, igual nas simples, que era o formato mais normal, mas esse formato vai, de certa forma, fazer com que os jogadores de simples tenham que se programar. O Andy tem um ponto muito bom, que é organizar a situação. Todo mundo concorda. Mas tira uma das vantagens do on-site, que é atrair mais jogadores de simples de última hora.

E qual é o prazo pra inscrição de vocês?

Duas semanas. A grande maioria já está se programando. E hoje tem muito jogador de simples jogando dupla. Esses caras, antes, não se programavam. De uns dois anos para cá, isso mudou. Tirando o top 10, eles se programam. E o [Dominic] Thiem não assina on-site. Ele se programa.

E outra coisa que foi levantada, também por alguns duplistas, foi o formato da pontuação. Há um movimento ainda pequeno para que volte a pontuação anterior. Você acha possível?

Pela galera que joga e vive disso, com certeza mudaria. Mas uma das coisas que eu vejo que evoluiu muito foi trazer os jogadores de simples. Isso aconteceu. Todo torneio grande tem três, quatro top 10 e oito ou nove top 20. Mais do que isso, não dá. E tem a coisa de quadra central, mas isso está mudando. Eu até nem acho legal ter a dupla na quadra central, dependendo do torneio. Eu briguei muito por isso [no Conselho], pela possibilidade de a pessoa poder ver seu jogador favorito. A gente tinha um gap muito grande, que era só mostrar a quadra central. Com o stream, isso vai mudar. O torcedor vê quem ele quer, não quem só está na TV. Sobre o formato, acho que a mudança pode acontecer, mas principalmente da parte dos torneios, existe uma luta muito grande contra isso. Voltar ao normal, quase impossível. Mudar um pouquinho, eu vejo possível. Ou acabar o super tie-break ou acabar o no-ad, jogar dois sets normais e um super tie-break. Acho que vai ser coisa de experimentar e ver o que funciona melhor.


Sobre Soares, Piquet, tênis, Fórmula 1 e paixões que se conectam
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Alexandre Cossenza

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Bruno Soares ainda está em Londres comemorando o título de dupla campeã da temporada 2016 e ganhou um segundo troféu neste domingo. Fã de tênis, Nelsinho Piquet trocou presentes com o tenista mineiro, entregando um capacete com dedicatória e parabéns pelo número 1. Em troca, recebeu uma raquete autografada de Bruno Soares e posou para foto com a Torre do Relógio ao fundo.

A paixão da família Piquet por tênis é antiga e tem relação com o automobilismo. Nelson, pai de Nelsinho, foi fazer intercâmbio nos EUA quando jovem porque era um belo tenista. Seu pai achava que seria a melhor maneira de encontrar um caminho no tênis. Nelsão, no entanto, aproveitou para se matricular em uma matéria chamada mechanics, e o resto é a história fantástica que terminou com três títulos mundiais na Fórmula 1 e uma dezena de outras conquistas.

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Nelsão, aliás, nunca abandonou a paixão pelo tênis. Sempre bateu sua bolinha e até usava o esporte para contar vantagem quando era comparado ao britânico Nigel Mansell (vide a marca de 1’30” deste vídeo).

Também tem relação com o tênis o símbolo que muitos acreditam ser uma gota desenhada no capacete de Nelson Piquet (e que depois foi adotada por Nelsinho). O desenho é de autoria do próprio Nelsão, que se inspirou no esporte e fez algo parecido com uma bola de tênis em movimento.

Nesta semana, Nelsinho esteve em Londres e foi acompanhar a campanha de Bruno Soares. O mineiro e seu parceiro, Jamie Murray, venceram as três partidas da fase de grupos e só foram derrotados nas semifinais, quando já haviam assegurado o título de melhor dupla da temporada. Brasileiro e britânico, que começaram a jogar juntos no início deste ano, venceram dois Slams: o Australian Open e o US Open.

No ranking “individual” de duplistas (que soma pontos dos tenistas com diferentes parceiros ao longo do ano), Bruno Soares terminará a temporada como número 3, atrás dos franceses Nicolas Mahut e Pierre Hugues Herbert.

Importante: ainda publicarei aqui mais sobre a campanha de Bruno Soares em 2016. Esperem porque sairá algo bacana.


Davis, dia 2: tombo inesperado encerra fim de semana decepcionante
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Alexandre Cossenza

O golpe fatal veio de onde não se esperava. Ruben Bemelmans e Joris De Loore, a dupla escalada pela Bélgica mais para poupar David Goffin e Steve Darcis do que para ganhar de fato, acabou derrubando os favoritos Bruno Soares e Marcelo Melo em cinco sets. O tombo dos mineiros por 3/6, 7/6(5), 4/6, 6/4 e 6/4 completou um fim de semana decepcionante – mais pelas atuações do que pelo resultado final – para o time do capitão João Zwetsch, que mostrou pouco poder de reação e quase nenhuma variação tática nas simples de sexta-feira.

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Com o 3 a 0, a Bélgica continua no Grupo Mundial, a elite da Copa Davis, enquanto o Brasil volta para o Zonal das Américas, onde esteve em nove das últimas 11 temporadas. Neste sentido, não há grandes e novas conclusões a tirar. O Brasil continuará sendo favorito dentro do continente para alcançar os playoffs, mas ainda dependerá de um sorteio favorável (e o confronto contra a Bélgica não era nem de longe o pior dos cenários) e/ou da ascensão de um segundo simplista.

A maior expectativa agora fica por conta de Thiago Monteiro, que obteve ótimos resultados em 2016. Seria bom mesmo que o cearense de 22 anos desse outro passo adiante na carreira e se firmasse como tenista de nível ATP. Até porque entre os brasileiros mais novos que ele ainda não há ninguém mostrando tênis suficiente para defender o país internacionalmente.

O favoritismo era brasileiro, claro. Afinal, dois vencedores de Slam com muito tempo de quadra juntos enfrentariam jogadores que só haviam atuado juntos uma vez – uma derrota na primeira rodada de um Challenger. Um deles, De Loore, nunca havia vestido as cores do país na Copa Davis. O nervosismo ficou evidente. O jovem de 23 anos fez um foot fault e errou um voleio fácil logo no segundo game. A quebra veio, e os brasileiros não deram chance para reação. Os belgas não ameaçaram em momento algum e venceram apenas dois (dois!) pontos de devolução no primeiro set inteiro.

Se parecia um passeio de fim de semana, logo apareceu aquele engarrafamento que ninguém espera porque a PM montou uma blitz às 10h no único caminho até a praia. Bemelmans e De Loore acharam um ritmo melhor, sacaram espetacularmente (83% de aproveitamento de primeiro serviço) e arriscaram nas devoluções. Tiveram dois break points em games diferentes, mas De Loore, jogando no lado da vantagem, não conseguiu encaixar devoluções. No tie-break, a postura agressiva junto à rede que vinha dando certo saiu pela culatra. Bemelmans acertou um belo lob sobre Marcelo, e a Bélgica abriu 6/4. Foi o único mini-break do game, e os donos da casa empataram a partida.

O equilíbrio continuou, com pequenas chances para os dois lados. O terceiro set só teve um break point. Foi no décimo game, e Melo converteu com uma devolução vencedora (vide tweet acima). A quarta parcial começou com uma quebra da Bélgica, e o time da casa salvou dos break points em games diferentes antes de devolver o 6/4 anterior e mandar a decisão para o quinto set.

A essa altura, Bemelmans já tinha o tempo dos saques brasileiros e cravava devoluções impressionantes. Quando De Loore fazia o mesmo, significava perigo de quebra. Aconteceu no terceiro game, e Melo perdeu o saque. Os donos da casa abriram 3/1 e continuaram melhores nos games de serviço. O time mineiro tentou e ainda venceu um pontaço (vídeo abaixo), mas não conseguiu devolver a quebra. Game, set, match, Bélgica: 3/6, 7/6(5), 4/6, 6/4 e 6/4.

Uma temporada nada memorável

Se não voltarem a jogar juntos em 2016 (não há nada previsto até agora), Bruno Soares e Marcelo Melo terminarão a temporada com uma campanha de seis vitórias e quatro derrotas atuando juntos. Ainda que os mineiros tenham ficado a uma vitória de brigar pela medalha olímpica, trata-se de um histórico nada memorável para o potencial de ambos – especialmente considerando que três dessas vitórias aconteceram contra duplas irrelevantes no circuito: Fabiano de Paula/Orlandinho, Emilio Gómez/Roberto Quiroz e Nicolás Almagro/Eduardo Russi.


NY, dia 13: o enorme Bruno Soares conquista seu quinto título
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Alexandre Cossenza

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A conversa abaixo pode ou não ter acontecido entre um jornalista e o pai de um conhecido juvenil brasileiro antes deste US Open.

Jornalista: Oi, tudo bom? Estou esperando pra conversar com seu filho depois do treino.
Pai: Opa, e ai? Legal, mas ele não tá dando entrevista, não.

Ah, não? Poxa.
Não. A gente não quer que ele perca o foco. Desde que ele apareceu mais, digamos assim, muita gente procurou ele. Se ele falar com todo mundo, acaba perdendo o foco. E ele está numa idade importante, né?

Certamente. Então o senhor acha que dar entrevista atrapalha ele?
Claro. É um tempo que ele perde que poderia estar fazendo outra coisa.

Sim. Poderia estar no Facebook, no WhatsApp, caçando Pokémon, qualquer coisa.
Mas não é só o tempo, não. É muita pressão, sabe?

Pressão?
Claro. Ele é o melhor juvenil do país.

Mas tem muito jornalista escrevendo que espera muito dele?
Não, mas porque a gente não deixa ele dar entrevista. Tem que ficar quieto, né? Porque se ficar falando, a pressão só aumenta.

Não entendi. O senhor acha que a pressão aumenta se ele der mais entrevista?
Claro.

Sei. Mas essa pressão que o senhor diz que existe… Isso é porque o seu filho é bom tenista. Uma promessa, né?
É.

Não é todo tenista bom que tem isso?
Acho que sim, né?

Então talvez, de repente, só pensando alto aqui… Não seria melhor ele se acostumar logo com essa pressão que o senhor diz?
Ah, mas pressão só atrapalha.

Entendi. Quer dizer, acho que entendi.
A gente não pode deixar o menino muito exposto.

Bom, já que o seu filho não vai dar entrevista, vou indo. Um bom dia pro senhor.
É difícil trabalhar com tênis, né? Jogador não fala muito com jornalista, né?

Alguns até que falam, viu? Aliás, olha que coisa curiosa… O senhor sabe quem é o brasileiro que mais dá entrevista?
Quem?

Bruno Soares. Ganhou quatro Slams. Parece que ele não se incomoda muito com esse negócio de pressão…

O quinto título

A final-final foi hoje, neste sábado, mas Bruno Soares e Jamie Murray deram o maior dos passos rumo ao título do US Open quando venceram um duelo tenso com Nicolas Mahut e Pierre-Hugues Herbert. A decisão acabou sendo com Guillermo García-López e Pablo Carreño Busta, que deram uma força e eliminaram Feliciano López e Marc López.

De drama mesmo, só o primeiro game, quando Jamie teve seu serviço quebrado. Depois disso, brasileiro e escocês dominaram. Fizeram 6/2 e 6/3 e conquistaram seu segundo título na temporada. O circuito de duplas não via um time triunfar duas vezes no mesmo ano desde Bob e Mike Bryan, em 2013.

É o quinto título de Slam de Bruno Soares. Ganhou três nas mistas(US Open 2012 e 2014; Australian Open 2016) e dois nas duplas (Australian Open e US Open 2016). É o mais acessível dos tenistas brasileiros – e não só aos jornalistas. Sincero, simpático e campeão. Um enorme tenista. Uma pessoa gigante.

Observação: por um compromisso familiar, não verei a final feminina na noite deste sábado. Escreverei sobre a partida no domingo, depois de ver a gravação.


Quando o sonho acaba e é preciso dizer ‘segue o baile’
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Alexandre Cossenza

A noite de terça-feira foi especialmente dura para o tênis brasileiro. Sim, Thomaz Bellucci derrotou Pablo Cuevas e passou para a terceira rodada na chave de simples, mas a maior chance de medalha do país na modalidade acabou. Bruno Soares e Marcelo Melo foram eliminados nas quartas de final pelos romenos Florin Mergea e Horia Tecau.

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Faltava uma vitória para que os mineiros jogassem por uma medalha. Faltou, no fim das contas, um set. Foi um golpe e tanto. Foi um baque na torcida, que encheu a Quadra 1 e deu show nos três jogos de Soares e Melo em uma sintonia rara de ver; foi duro para a imprensa, que acompanhou a trajetória bacana de dois campeões de Grand Slam; e, claro, foi devastador para Bruno e Marcelo.

Machucou porque foi em casa, porque coincidiu de os Jogos Olímpicos acontecerem no Brasil e justamente durante o auge da carreira de ambos. Doeu porque os dois queriam muito. Bruno disse durante a semana que nunca viveu o tênis tão intensamente quanto nestes dias. Nunca curtiu tanto ir dormir pensando no jogo do dia seguinte. Abalou porque era possível. Quase palpável. Tecau e Mergea são uma ótima dupla, mas não são um Phelps. “Só” jogaram como se fossem. Ainda assim, duas bolas aqui, outras duas ali, e o jogo teria outro fim.

Só que o que dá o sabor tão especial ao Jogos Olímpicos é o mesmo ingrediente da crueldade. Não há margem para erro. A próxima chance vem só daqui a quatro anos e será longe de casa, em Tóquio, trocando o dia pela noite. Marcelo terá 36 anos. Bruno, 38. É possível que ambos já não estejam jogando seu melhor tênis. E isso faz doer mais ainda. Talvez a melhor chance – não a única – tenha passado.

Bruno e Marcelo não fazem parte de nenhuma minoria social ou étnica. Não foram criados na favela, não são nordestinos nem negros. São homens criados em famílias que nunca passaram fome. Não precisaram lidar com preconceitos. Nem por isso são menos brasileiros ou merecedores que outros. Encararam o mais duro dos esportes individuais, abraçando uma vida em que não há clubes bancando treinadores nem viagens. É cada um por si, e os patrocinadores são escassos.

A dupla mineira nunca se escondeu atrás de assessores de imprensa e jamais fugiu de uma entrevista depois de uma derrota. Bruno e Marcelo não são de desculpas. Reconhecem suas falhas, dão mérito aos rivais. Uma medalha coroaria duas carreiras fantásticas, mas mais do que isso: duas pessoas fantásticas.

Uma entrevista pós-derrota quase sempre inclui um “segue o baile” vindo de Bruno. Não é minimizar o revés. É aceitar o que aconteceu e olhar para a frente. Foi assim que ele fez a vida inteira. Marcelo também. Sempre deu certo. E pode ser que em menos de um mês um deles esteja comemorando outro título de Slam. Acabam os Jogos Olímpicos. É difícil engolir e aceitar que o sonho acabou. Talvez nunca tenha sido tão difícil pedir ao DJ ou voltar à pista, mas não tem jeito. “Segue o baile.”


Bruno Soares: campeão também com as palavras
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Alexandre Cossenza

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De tudo que li sobre a primeira coletiva de Bruno Soares em sua chegada ao Brasil, o que mais me interessou não foram suas declarações sobre os títulos (até porque nada foi grande novidade para quem ouviu o podcast Quadra 18). O que me chamou a atenção foi a posição tomada pelo mineiro sobre o “escândalo” de apostas “revelado” pela BBC e pelo BuzzFeed no primeiro dia do torneio.

“”Felizmente, eu nunca foi abordado por este tipo de gente. A gente sabe, escuta histórias de que esse tipo de coisa acontece. Mas é muito difícil você falar qualquer coisa se não tem nome. Achei até um pouquinho antiético eles soltarem uma matéria, aproveitando o início de um Grand Slam, quando as atenções estão voltadas para o tênis, para soltar uma matéria em que eles falaram, falaram, e não falaram nada. A pessoa chegar lá e fazer um monte de acusação, mas depois falar ‘beleza, estou colocando isso no ar e depois vocês se viram’.”

A declaração na íntegra está neste texto da Sheila Vieira, que também comenta o assunto. Eu também fiz um post sobre o tema logo quando os veículos todos repercutiram o assunto, mas acho que o momento agora é melhor – e mais calmo -para lembrar o que aconteceu e analisar com calma as consequências.

Resumindo a coisa toda, BBC e BuzzFeed publicaram, simultaneamente, reportagens sobre manipulação de resultados no tênis. Os veículos diziam ter posse de uma lista de partidas investigadas pela ATP, lembravam o famoso caso do jogo entre Davydenko e Vassallo Arguello, e afirmavam inclusive que havia campeões de Grand Slam na tal lista que nunca foi divulgada.

E esse é o ponto, certo? Ninguém divulgou nomes. Tanto a BBC quanto o BuzzFeed explicaram, aliás, que a lista e os nomes não seriam publicados porque os veículos não tinham acesso a dados bancários e telefônicos dos atletas, então não tinham como conferir seu envolvimento na manipulação de resultados. Logo, que sentido faz dizer “temos uma lista”?

A consequência mais nefasta de tudo isso foram listas pipocando em um punhado de sites, sem verificação alguma, com vários jogos supostamente suspeitos. Brotaram nomes aqui e ali sem prova alguma. O que se alcançou com a reportagem? Como bem disse Bruno Soares, “estão basicamente falando que todo mundo é corrupto até que se prove o contrário.”

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É uma das grandes qualidades de Bruno Soares, é preciso frisar. O mineiro não é daqueles tenistas que acham que a vida é dentro de quadra e que pouco importa o que acontece no mundo ao seu redor. Muita gente – aqui no Brasil inclusive – vive o circuito de antolhos, do treino para o jogo, do jogo para o avião, do avião para o hotel, do hotel para o próximo treino. É difícil evoluir como pessoa e como tenista assim. E a culpa não é só dos tenistas, mas eu divago.

Outro ponto curioso interessante de ressaltar sobre a história das manipulações é que as reportagens tinham um tom crítico em relação à Unidade de Integridade no Tênis (TIU, na sigla em inglês), criada para averiguar partidas suspeitas. Como se faltasse transparência em suas ações. A impressão passada pelos textos é que não vinha sendo feito o suficiente para desmascarar e punir os manipuladores.

Só que não é bem assim que essa banda indie toca. É bem verdade que ATP, WTA e os Slams anunciaram medidas para divulgar melhor o trabalho dos investigadores, mas essa é uma transparência que não pode existir 100%. Já imaginaram se o FBI anunciasse que estava investigando José Maria Marin e um montão de gente com cargo na FIFA antes das prisões em Zurique? Será que algum daqueles suspeitos teria viajado até a Suíça?

Existe também a questão moral da coisa que, aparentemente, não é tão óbvia para muita gente. Qual o benefício de divulgar que uma partida entre, digamos, Fabio Fognini e Nicolás Almagro (é só um exemplo, pelamordedeus) foi ou está sendo investigada? Isso levantaria suspeitas sobre ambos sem que algo fosse comprovado. Ou seja, mancharia a reputação dos dois tenistas.

Vale lembrar que Nikolay Davydenko, investigado publicamente, é até hoje visto por muita gente como culpado por algo pelo qual nunca foi condenado, por mais estranho que tenha sido o desenrolar dos acontecimentos naquele dia. Alguém já ouviu falar em benefício da dúvida? Pois é. O russo nunca recebeu isso. Aliás, o conceito de “partida suspeita” é um tanto amplo. Até uma partida de Gustavo Kuerten na Costa do Sauípe já foi vista assim (falei dela no texto linkado).

Além de tudo isso, é muito fácil levantar suspeita sobre uma partida. Uma sequência estranha no placar, erros bobos de um tenista, uma lesão inesperada, um atleta sem sangue… Especialmente depois de uma reportagem como a de BBC/BuzzFeed, tudo isso dá margem para que se suspeite de algo. Na maioria dos casos – que a gente vê todo dia, em todo nível de torneio – não passa disso: algo estranho. Mas é assunto para o próximo post, com um par de vídeos e jogos com games decisivos um tanto esquisitos.

Coisas que eu acho que acho:

– Não sou contra a existência de casas de apostas. Já até fui contra patrocínios de empresas desse tipo a torneios de tênis. Hoje, não sou. Estou convencido de que não faz diferença alguma. Se não houvesse casas legalizadas, as pessoas continuariam apostando em eventos esportivos de forma clandestina.

– As casas de apostas, no fundo, são tão vítimas das manipulações quanto o público fã de tênis. Uma partida manipulada nada mais é do que uma tentativa de ganhar muito dinheiro driblando as cotações impostas pelas casas.

– O que parece contradição, no entanto, é que casas de apostas podem patrocinar torneios de tênis, mas não podem fazer contratos publicitários com atletas. Essa é uma grande reclamação dos tenistas junto às entidades que regem o esporte.


AO, dia 14: Dezesseis horas, dois Slams e R$ 1 milhão para Bruno Soares
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Alexandre Cossenza

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O relógio marcava 0h58min em Melbourne quando Bruno Soares fechou, ao lado de Jamie Murray, a final de duplas. Eram 17h27min quando o mineiro, desta vez ao lado de Elena Vesnina, se sagrou campeão também nas mistas. Foram 16h29min entre um match point e outro. E assim terminam as espetaculares duas semanas de Bruno Soares neste Australian Open.

As vítimas deste domingo – ou melhor, da tarde deste domingo – foram o romeno Horia Tecau e a americana Coco Vandeweghe, e as parciais do jogo foram 6/4, 4/6 e 10/5. Foi uma atuação irregular da parceria formada por brasileiro e russa, mas que terminou com sucesso graças a um impecável match tie-break de Vesnina, que contou com poucas, mas igualmente precisas intervenções de Bruno.

A conta de Bruno Soares engordou em 396 mil dólares australianos, valor equivalente a R$ 1,135 milhão pelo câmbio da última sexta-feira. A lista de seus principais feitos também dobra de espaço no currrículo. O mineiro de 33 anos, que chegou a Melbourne dono de dois títulos nas mistas, sai com mais dos Slams – um deles, nas duplas.

A comemoração

O quarto título de Slam de Bruno Soares foi festejado assim:

O discurso

Depois de falar por mais de dois minutos (uma eternidade em cerimônias de premiação) ao vencer as duplas na madrugada, Bruno prometeu ser mais rápido na cerimônia das mistas e até conseguiu ser, mas não antes sem pedir desculpas por não ter mencionado sua família após o primeiro título do dia.

A coletiva

Na entrevista pós-jogo, Elena Vesnina contou que recebeu uma mensagem do brasileiro às 4h30min (locais!). No texto, Bruno dizia estar pronto para entrar em quadra. O mineiro, em seguida, explicou que deixou Melbourne Park por volta das 3h e ainda atendeu veículos de imprensa brasileiros, por isso só foi dormir às 5h. Acordou às 8h30min, tentou voltar a dormir, mas não conseguiu e decidiu tomar café da manhã: “Estou vivendo à base de café desde então.”

Lembra disso?

Não foi hoje, mas não custa lembrar do estupendo match point que Elena vesnina jogou nas semifinais, contra Sania Mirza e Ivan Dodig. Ela e Bruno venceram aquele jogo por 7/5 e 7/6(4).


AO, dia 13: sobre Bruno, Jamie, timing e título
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Alexandre Cossenza

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Um dos grandes clichês do tênis diz que dupla é como um casamento. Juntos na alegria e na tristeza, na saúde a na doença, até que a morte, ou melhor, as derrotas os separem. E, como na vida “real”, tão importante quanto a química ou a soma das habilidades de cada um dos parceiros, o timing é essencial.

Sejamos sinceros: quantas vezes você, leitor, se pegou imaginando como seria seu namoro/casamento se tivesse conhecido seu parceiro em outro momento, outro lugar, outro dia da semana? Para Bruno Soares e Jamie Murray, o casamento veio na hora perfeita e com todas peças do destino se encaixando. O mineiro, vale lembrar, queria jogar em 2016 ao lado do conterrâneo Marcelo Melo. Girafa, porém, preferiu manter a parceria de sucesso com Ivan Dodig.

Veio, então, o convite de Jamie. O ascendente escocês, vivendo o melhor momento da carreira e vindo de duas derrotas em finais de Slam, queria alguém com uma boa devolução, que lhe permitisse fazer o que sabe de melhor junto à rede, mas também precisava de alguém calmo sob pressão. Bruno, por sua vez, fez em 2015 sua pior temporada em cinco anos. Precisava mudar e viu a evolução de Jamie como um sinal de que talvez fosse a hora certa.

Entrevistei os dois no período de férias, e a sensação de ambos era a mesma, ainda que os dois não tivessem sequer conversado a fundo sobre os planos para a temporada. Era a hora de ganhar um Slam. Jamie, autor do convite para a formação da parceria, foi categórico: “Estamos desesperados para ganhar um Slam.” Com Bruno, não foi muito diferente. O mineiro ressaltou que “o mais importante é perguntar: ‘esses jogadores estão prontos para ganhar um Grand Slam?’ Eu acredito que sim.” O troféu do Australian Open agora é testemunha disso.

O ranking

Até agora, são três torneios e dois títulos. Uma derrota na semifinal em Doha, um troféu em Sydney e o sonhado título do Australian Open. Bruno Soares e Jamie Murray, que já lideravam, disparam na ponta do ranking da temporada, aquele que deixa mais fácil ver quem tem melhores chances de se classificar para o ATP Finals. A essa altura, já com 2.340 pontos, é improvável que brasileiro e escocês não se qualifiquem. E Jamie, que subirá para número 2 no ranking de 52 semanas, fica mais perto da liderança.

O número 1, vale lembrar, ainda é Marcelo Melo, o que deixa o Brasil na liderança das duas listas e o torcedor brasileiro sonhando com a medalha de ouro olímpica (as chances são interessantes, mas isso é discussão para outro post).

A cerimônia

A premiação foi uma nuvem colorida num caderno de desenho infantil. Os duplistas mais simpáticos do circuito comemorando o maior título da carreira, com direito à entrada inesperada de Andy Murray, que disputa a final no domingo e estava à 1h da manhã acompanhando o irmão.

Primeiro, Bruno abre o discurso dizendo que sonhou a vida inteira com esse momento, mas depois fala por mais de dois minutos. “Muitas palavras para quem não sabia o que dizer”, disse Jamie. O escocês, aliás, falou menos, mas o discurso transpirou emoção. Inclusive com um agradecimento à esposa, com que estava em casa e com quem Jamie está junto há sete anos “nos tempos bons, tempos ruins, ela sempre esteve comigo, é minha rocha.”

Ah, sim, Jamie ganhou algumas risadas do público quando lembrou que o irmão mais novo “deveria estar na cama. Não sei por que você está aqui tirando fotos. Vamos torcer por você amanhã.”

Melhores momentos

Bruno Soares arriscou um violento swing volley do fundo de quadra, e a bola viajou rápido na direção da cabeça de Radek Stepanek. O tcheco conseguiu desviar por pouco e ganhou o ponto, já que a bola saiu no fundo de quadra. Stepanek se levantou e gritou na direção do brasileiro, comemorando.

Coincidência ou não, o tcheco foi quebrado no mesmo game. Foi, inclusive, o primeiro break point convertido por Bruno e Jamie, que cresceram no jogo a partir do segundo set, e o resto é história.

E também rolou esse ponto aqui, que foi “pouco” importante…

O jogo

Parece formalidade, a essa altura da coisa, descrever a partida, mas fica aqui o registro para quem não acompanhou. Bruno e Jamie não começaram bem e encontraram problemas especialmente no serviço do brasileiro, que, não sei se por nervosismo ou por um simples momento ruim, foi o pior em quadra no primeiro set. O mineiro teve o serviço quebrado no quarto e no oitavo games, e Nestor e Stepanek fizeram 6/2. O domínio era amplo por parte de canadense e tcheco, que também tiveram break points em um dos games de serviço do britânico.

O panorama começou a mudar aos poucos. Primeiro, Stepanek se salvou de três break points no seu serviço, no terceiro game. Depois, com Nestor no saque, a dupla não resistiu e foi quebrada com um voleio errado de Stepanek. Foi o mesmo game, inclusive, da bola que passou voando perto da cabeça do tcheco. A vantagem se manteve, apesar de Bruno continuar tendo problemas com o saque, e Jamie sacou para fechar a parcial em 6/4.

O terceiro set começou com Bruno e Jamie como a melhor dupla em quadra, disparado. Eles tiveram chance de quebra no terceiro e no sétimo games, mas só quebraram no quinto, no serviço de Stepanek. Nesse momento, Bruno já fazia uma ótima partida, só que Jamie, praticamente impecável até então, bobeou quando sacou para o jogo e teve o serviço quebrado no décimo game, depois de um match point salvo com uma devolução estranha de Nestor.

Foi aí que Bruno brilhou. Preciso nas devoluções e junto à rede, levou o time a mais uma quebra no serviço de Nestor. Na sequência, sacou para o título: 2/6, 6/4 e 7/5.

A coletiva

Quando uma entrevista começa com Bruno Soares dizendo ser mais bonito do que Jelena Jankovic (campeã de duplas mistas em Wimbledon ao lado de Jamie Murray em 2007), é bom deixar esse vídeo registrado. Porém, considerem-se avisados: a imprensa britânica fez quase todas perguntas para o escocês.

Lá por volta dos 8’30’’, Bruno finalmente fala sobre o rápido sucesso da parceria e ressalta que fez sua melhor pré-temporada em uns cinco anos.

A outra entrevista

O papo oficial com o torneio começa com Bruno dizendo, em tom de brincadeira, que ele e Jamie sempre amaram jogar na Austrália, mas nunca haviam recebido esse amor de volta no país. O britânico, então, fala sobre como o time se recuperou aos poucos em uma partida que começou pouco animadora.

O áudio e o divórcio

Para quem não sabe a história de como Bruno e Jamie formaram a parceria, fica aqui o áudiocom o próprio mineiro contando como foram o processo de separação com o austríaco Alexander Peya e as conversas com Marcelo Melo e Jami Murray.

Já volto

Não, o blog não ficará sem registrar o título de Angelique Kerber, mas fica para outro post (publicado hoje ou amanhã, não faço promessas).


AO, dia 10: o tombo de Vika, as chances de Raonic, e Bruno em outra semi
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Alexandre Cossenza

A primeira derrota da cotadíssima Victoria Azarenka em 2016, a discussão sobre os méritos (ou não) de Angelique Kerber, o jogão de Andy Murray e David Ferrer, as chances de Milos Raonic e mais uma semifinal para Bruno Soares são os principais assuntos desta quarta-feira, décimo dia do Australian Open 2016.

Este resumaço da jornada inclui também o emocionante abraço de Johanna Konta e Shuai Zhang, os planos dos maiores órgãos do tênis para fortalecer o combate à manipulação de resultados, uma gafe do torneio e um bolão improvisado durante a madrugada. Role a página, clique nos muitos links e fique por dentro.

O jogo mais esperado

No primeiro verdadeiro teste de sua consistência no Australian Open, Victoria Azarenka sucumbiu. O belíssimo torneio da bielorrussa foi jogado fora em dois momentos. Um péssimo começo de partida e um desastroso fim de segundo set, com cinco set points perdidos em seu próprios games de serviço. Angelique Kerber, o retrato da regularidade, sobreviveu mesmo com um saque vulnerável e fez 6/3 e 7/5 para alcançar as semifinais em Melbourne pela primeira vez na carreira.

Obviamente foi um dia ruim de Vika, que nunca esteve à vontade para atacar buscando as linhas, algo necessário para enfrentar Kerber. Depois de deixar a alemã abrir 4/0, a bielorrussa diminuiu um pouco a agressividade, deixou a adversária errar um pouco mais e até equilibrou as ações, devolvendo uma das quebras, mas foi só.

A segunda parcial parecia bem encaminhada, mas a coisa desandou depois que Azarenka abriu 5/2 e 40/0. Kerber venceu três pontos seguidos sendo mais agressiva e salvou mais dois set points quando Vika teve 5/4 e 40/15. O que parecia um terceiro set certo tornou-se um pesadelo para a ex-número 1. Kerber viu a chance e não bobeou. Virou o set, conseguiu sua primeira vitória em sete partidas contra Azarenka e esbanjou alegria na comemoração.

A adversária de Kerber na semifinal será a britânica Johanna Konta (#47), que venceu o duelo de zebras contra a chinesa Shuai Zhang (#133). A inglesa nascida na Austrália fez 6/4 e 6/1 e se tornou a primeira britânica a alcançar a semifinal do Australian Open desde Jo Durie em 1983, ano em que foram lançados Billie Jean (Michael Jackson) e O Retorno de Jedi. Também foi o ano do bicampeonato do espetacular Nelson Piquet na Fórmula 1.

Konta, é bom lembrar, disputa uma chave principal de Slam pela nona vez, mas fez este ano sua estreia entre as 128 em Melbourne. De 2013 a 2015, disputou o qualifying e não conseguiu se classificar.

Eu ganhei, nós empatamos, vocês perderam

Em todo Slam, acontece pelo menos uma vez. Um tenista famoso perde e deixa a quadra dizendo algo do tipo “o jogo estava na minha raquete” ou “eu perdi”, sem dar o devido mérito à adversária. Até que demorou, mas chegou este momento na edição 2016 do torneio australiano, cortesia de Victoria Azarenka – ou da interpretação que deram a sua entrevista coletiva.

A percepção da maioria (e eu nem sei se concordo, mas isso é outra discussão) foi que Vika não deu o devido mérito para Kerber. De fato, Azarenka faz uma grande lista se suas falhas durante o jogo, mas ela também admite que a alemã foi agressiva e que sacou bem nos momentos mais importantes.

A frase que marca mais é a seguinte: “Acho que ela foi agressiva. Ela sacou bem. Especialmente nos momentos importantes ela sacou muito bem, mas para mim é difícil de julgar porque acho que nos conhecemos muito bem. Hoje, eu realmente sinto que foi minha culpa. Não fiz o suficiente com o que tive hoje.”

A avaliação de Kerber (que até onde eu sei, não tinha ideia da declaração de Azarenka) rendeu até o tuíte oficial do Australian Open copiado acima. A alemã crava: “Eu fiz meu jogo desde o primeiro ponto. Fui mais agressiva desta vez. Ela não perdeu; eu venci de verdade.”

E os homens?

Andy Murray (#2) x David Ferrer (#8) foi tudo que se esperava de um jogo entre eles. Um tanto previsível, é bem verdade, mas bem divertido de ver. Ralis impressionantes, defesas incríveis, contra-ataques espetaculares e oito saques quebrados. O nível foi bem alto e se manteve bem alto durante a maior parte das 3h25min de jogo. De novidade, apenas uma paralisação de cerca de dez minutos para fechar o teto retrátil, já que uma chuva forte se aproximava.

No fim, porém, o placar também foi previsível: Murray venceu em quatro sets, com parciais de 6/3, 6/7(5), 6/2 e 6/3. Apenas pela curiosidade, os três últimos duelos entre eles em torneios do Grand Slam terminaram em quatro sets, com o britânico levando a melhor e com o espanhol ganhando um tie-break.

Murray, o vencedor

Soa como piada pronta, mas o grande vencedor desse jogo de quartas de final entre Milos Raonic e Gael Monfils foi… Andy Murray! Pelo menos era isso que estava na chave no site do Australian Open na noite deste quarta.

A verdade verdadeira

No mundo real, Andy Murray vai enfrentar Milos Raonic (#14) nas semifinais. O canadense enfrentou pouca resistência de Gael Monfils (#25), que até venceu um set, mas nem esteve perto nos outros. As parciais foram 6/3, 3/6, 6/3 e 6/4. Será a primeira semifinal em Melbourne na carreira de Raonic – a segunda em um Slam, depois de Wimbledon/2014.

Não dá para ignorar que o canadense agora tem nove vitórias consecutivas, o que é um recorde para ele em torneios de nível ATP. Antes do Australian Open, Raonic foi campeão em Brisbane, onde bateu Roger Federer na final. A sequência de vitórias também inclui triunfos sobre Stan Wawrinka, Viktor Troicki e Bernard Tomic. O momento é realmente estupendo e é justo imaginar que ele terá chances contra Andy Murray na sexta-feira. Mas… será?

O brasileiro

Bruno Soares venceu outra vez. Pela 11 vez seguida, aliás, somando o título do ATP de Sydney e as campanhas nas duplas e duplas mistas em Melbourne. O triunfo desta quarta colocou o mineiro nas semifinais também nas mistas. Ele e Elena Vesnina derrubaram Jamie Murray (sim, o parceiro) e Katarina Srebotnik por 6/2 e 6/3, sem grandes problemas.

Brasileiro e russa, que fizeram um bate-papo ao vivo via Periscope nesta quarta-feira, agora aguardam por seus próximos adversários, que sairão do jogo entre Sania Mirza e Ivan Dodig, cabeças de chave 1, e Martina Hingis e Leander Paes. Quem quer que vença será um adversário bastante indigesto.

A chave masculina:

[1] Novak Djokovic x [3] Roger Federer
[13] Milos Raonic x Andy Murray [2]

A chave feminina:

[1] Serena Williams x [4] Agnieszka Radwanska
[7] Angelique Kerber x Johanna Konta

Os melhores lances

Nem de perto foi o melhor lance do jogo, mas foi o que escolheram no canal oficial do Australian Open no YouTube. De qualquer modo, fica o registro dessa passada de Andy Murray na corrida.

Não foi um ponto, mas foi um lindo momento de Johanna Konta e Shuai Zhang junto à rede, logo depois do match point. Vale ver.

Bolão Impromptu do Dia

A partir deste parágrafo, esta seção é criada com status de permanente para elogiar os tuiteiros da madrugada que se dispõem a tentar acertar uma pergunta aleatória lançada durante uma partida qualquer. O grande nome desta quarta-feira foi o Matheus Bernardes, primeiro a dar a resposta certa.

União contra a manipulação

Após a polêmica história-não-história da semana passada, quando BBC e BuzzFeed disseram possuir uma lista de partidas investigadas, mas não divulgaram nomes, os principais órgãos do tênis (ITF, ATP, WTA e o Grand Slam Board) anunciaram a criação de um processo independente de revisão que tem como objetivo “preservar a integridade do jogo”. A história completa está aqui.

O chamado IRP (Independent Review Panel), que será liderado por Adam Lewis, especializado em lei esportiva, terá como principais objetivos analisar questões como as citadas abaixo e fazer recomendações:

– Como a Tennis Integrity Unit (TIU, órgão que investiga partidas sob suspeita de manipulação) pode ser mais transparente sem comprometer a necessidade de confidencialidade em suas investigações;

– Avaliar recursos adicionais para a TIU nos torneio e internamente;

– Mudanças estruturais e/ou de governança que deem mais independência à TIU; e

– Como aumentar o alcance do programa de educação de integridade no tênis.

A história completa está no site da ITF.

O que vem por aí no dia 11

A programação de quinta-feira, em Melbourne, começa com Bruno Soares e Jamie Murray tentando uma vaga na final de duplas. Brasileiro e britânico encaram os franceses Adrian Mannarino e Lucas Pouille na Rod Laver Arena logo no primeiro horário do dia. Os outros dois jogos lá serão as semifinais femininas. Primeiro, Serena Williams enfrenta Agnieszka Radwanska. Em seguida, Angelique Kerber e Johanna Konta decidem a segunda vaga na decisão. À noite, Roger Federer e Novak Djokovic fazem a primeira semifinal masculina.

Veja aqui os horários e a programação completa.


AO, dia 9: em dia de favoritos, Bruno Soares vai à semi como o mais cotado
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Alexandre Cossenza

Não brotaram aces improváveis de raquetes inférteis e os erros não forçados, tão abundantes 48 horas atrás, minguaram para quem eles habitualmente são esparsos. Logo, nesta terça-feira, primeiro dia das quartas de final do Australian Open 2016, Serena Williams bateu Maria Sharapova pela 18ª vez consecutiva, Roger Federer somou sua 16ª vitória em 22 confrontos contra Tomas Berdych, e Novak Djokovic despachou Kei Nishikori.

Nas duplas, a história foi outra. Os cabeças de chave número 1, Horia Tecau e Jean Julien Rojer, deram adeus ao torneio. Agora, os principais pré-classifcados são o brasileiro Bruno Soares e o britânico Jamie Murray, que venceram mais uma e estão nas semifinais. Este resumaço do dia ainda tem vídeos curiosos de boladas e de Carlos Bernardes vivendo seu momento bullet time na Rod Laver Arena (ou, quem sabe, ele estava na Matrix e ninguém percebeu).

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O brasileiro

Pela primeira em quatro partidas no torneio, Bruno Soares e Jamie Murray jogaram um terceiro set e, mais ainda, um tie-break-de-terceiro-set, aquela entidade com vida própria em que qualquer minuto de desatenção custar mais do que a gasolina em Fernando de Noronha. A notícia boa é que brasileiro e escocês não cederam nenhum break point na parcial decisiva e abriram o game de desempate fazendo 4/1. Sem drama além do intrínseco para o momento.

O triunfo por 6/7(7), 6/4 e 7/6(3) foi sobre Raven Klaasen e Rajeem Rav, que haviam eliminado os irmãos Bryan na segunda-feira, e colocou Bruno e Jamie nas semifinais do Australian Open. E mais: os dois agora são os principais cabeças vivos em Melbourne, já que Horia Tecau e Jean Julien Rojer deram adeus, eliminados pelos franceses Adrian Mannarino e Lucas Pouille, que acumulam mais cabeças cortadas do que uma guilhotina da Revolução Francesa. A campanha de Mannarino e Pouille tem vitórias em sequência sobre Bolelli e Fognini (cabeças 5), Cabal e Farah (12) e Roger e Tecau (1).

Bruno e Jamie, agora, são os favoritos das casas de apostas e enfrentarão os franceses na semi. A outra vaga na final sairá do jogo de Daniel Nestor e Radek Stepanek contra Pablo Cuevas e Marcel Granollers (cabeças 16).

Para Marcelo Melo, a eliminação de Rojer e Tecau foi providencial. Sem o holandês-de-Curaçao e o romeno na chave, o mineiro garante sua continuidade na liderança do ranking de duplas. Melo corria risco, já que foi às semifinais no ano passado e perderia pontos. Ele seria ultrapassado se o título ficasse com Rojer/Tecau ou com os irmãos Bob e Mike Bryan.

As simples, tão simples

Tomas Berdych conseguiu equilibrar seus duelos com Roger Federer por algum tempo, o que foi um feito e tanto para o tcheco (e o seria para qualquer um). De Miami/2010 até o início de 2013, foram oito confrontos, com cinco vitórias de Berdych. Resumindo rasamente o drama suíço, o tcheco atacava os segundos serviços do suíço o suficiente para conseguir o controle dos ralis e, nos dias bons, mandar na partida.

Coincidência ou não, essa série acabou quando Federer começou a trabalhar com Stefan Edberg. Nos últimos anos, o suíço inclusive melhorou consideravelmente o aproveitamento de seu saque, o que fez uma diferença gigante contra Berdych (e todos os outros, claro). E, de 2014 até agora, são cinco triunfos consecutivos do ex-número 1, incluindo o desta terça-feira, que veio por 7/6(4), 6/2 e 6/4.

E foi, ressaltemos, uma ótima atuação de Berdych. O tcheco esteve na frente no primeiro e no terceiro sets, mas pecou por não aproveitar as vantagens. Federer também escapou de break points com excelentes saques e fez um espetacular (e espetacularmente necessário) tie-break na primeira parcial. Além disso, tão essencial quanto os saques foi a capacidade de Federer de vencer ralis, o que nem sempre é fácil quando os forehands de Berdych estão calibrados – e eles estavam.

No fim, o suíço chegou a uma ótima vitória, e “ótima” não só porque lhe valeu uma vaga nas semifinais, mas porque veio em três sets, descomplicando um duelo que esteve longe de ser simples durante a maior parte do tempo.

Bullet time Bernardes

O árbitro brasileiro Carlos Bernardes, coincidentemente-ou-não usando óculos à la Keanu Reeves em Matrix, desviou rapidamente de uma bola espirrada na partida entre Roger Federer e Tomas Berdych. Atenção para a destreza de Bernardes no lance em câmera lenta!

Fora da Matrix

Nem todo mundo tem a sagacidade do árbitro brasileiro. Um juiz de linha, por exemplo, tentou desviar de um saque de Tomas Berdych, mas movimentou-se para o lado errado e acabou levando uma bolada bem na “região da virilha”, também conhecida como aquela parte sensível do corpo que fica ali perto da virilha, mas definitivamente não é a virilha.

O jogo mais esperado

Bem já dizia Patrick Mouratoglou, técnico de Serena Williams, duvidando da capacidade de Maria Sharapova (#5) de repetir o desempenho excelente que teve com o saque nas quartas de final, quando fez 21 aces contra Belinda Bencic. Diante da número 1 do mundo, provavelmente a melhor devolução do tênis feminino, Sharapova fracassou mais uma vez. Não só porque fez apenas três aces e sete duplas faltas, mas porque venceu apenas cinco games.

Serena, que começou o jogo perdendo o serviço, triunfou por 6/4 e 6/1 em 1h33min, somando sua 19ª vitória em 21 confrontos com a russa. Agora, são sete encontros sem que a russa tenha vencido um set sequer.

Na semifinal, a número 1 do mundo vai encarar Agnieszka Radwanska (#4), que passou pela espanhola Carla Suárez Navarro (#11) por 6/1 e 6/3 em 1h24min (e eu não canso de achar graça nesse vídeo abaixo).

Polêmica à vista

Após o duelo, Sharapova adotou o discurso politicamente correto, dizendo que Serena está em outro nível, que faz o resto do circuito trabalhar mais duro e que é uma inspiração para as outras. Dona Maria também disse que pretende ir a Moscou fazer parte do time russo na Fed Cup, mas ressaltou que não deve jogar porque precisa tratar o antebraço.

Pouco depois dessa declaração, o presidente da federação russa, Shamil Tarpischev, afirmou à agência de notícias TASS que Sharapova “precisa precisa jogar pelo time nacional se quiser participar dos Jogos Olímpicos.”

Ainda é cedo, mas a chance de uma polêmica no futura deve ser considerada. A Federação Internacional de Tênis dá grandes poderes às associações nacionais, que podem se recusar a nomear este ou aquele tenista (vide Alemanha em Londres/2012), mesmo que o atleta defenda o país na Copa Davis ou na Fed Cup.

Tarpischev, vale lembrar, é uma figura polêmica, um misto de gênio e vilão. Do mesmo modo que deu títulos à Rússia com escalações contestáveis, é alvo de críticas por seus comentários nada politicamente corretos. Ele, inclusive, foi suspenso do circuito por um ano após fazer uma piada, referindo-se a Venus e Serena como “os irmãos Williams” em um programa de TV russo.

E o número 1?

Novak Djokovic voltou ao normal, ou seja, cortou o número de erros por mais da metade. Em vez dos 100 acumulados ao longo de cinco sets contra Gilles Simon (em média, 20 erros por set), cometeu apenas 27 contra Kei Nishikori (nove por set) e venceu por 6/3, 6/2 e 6/4.

Quem falhou muito foi o japonês (54 erros, 18 por set), mas é o que costuma acontecer quando Djokovic está de volta a seu habitual nível de consistência. Nishikori ainda teve a dianteira duas vezes no começo do terceiro set, quando abriu 2/0 e, depois, 3/1, mas nunca confirmou o serviço para consolidar a dianteira.

Fica agora a expectativa pela semifinal com Roger Federer, que, aos olhos de muita gente, tem cara de decisão. Não só porque os dois decidiram os últimos Slams (Wimbledon e US Open), mas também porque Andy Murray tem a eterna desconfiança de boa parte de fãs e críticos.

O boleiro fisioterapeuta

O jogo nem estava tão difícil assim, mas Novak Djokovic pediu uma ajudinha ao boleiro após uma virada de lado.

A chave masculina:

[1] Novak Djokovic x [3] Roger Federer
Gael Monfils [23] / [13] Milos Raonic x [8] David Ferrer / Andy Murray [2]

A chave feminina:

[1] Serena Williams x [4] Agnieszka Radwanska
[7] Angelique Kerber / [14] Victoria Azarenka x Johanna Konta x Shuai Zhang

Os melhores lances

A capacidade defensiva de Djokovic não é novidade nenhuma, mas ninguém deve se cansar de ver lances assim:

Que tal a habilidade de Federer junto à rede?

O que vem por aí no dia 10

A programação de quarta-feira, em Melbourne, tem a partida mais esperada logo no primeiro horário: Angelique Kerber x Victoria Azarenka. Em seguida, Johanna Konta enfrenta Shuai Zhang pelo posto de maior zebra do torneio. A sessão diurna da Rod Laver Arena termina com David Ferrer x Andy Murray. O único jogo de simples da noite tem Gael Monfils x Milos Raonic, mas foi bacana do torneio escalar Martina Hingis e Sania Mirza para fecharem a programação. Elas enfrentam Julia Goerges e Karoline Pliskova por uma vaga na final de duplas.

Já classificado para as semifinais de duplas masculinas, Bruno Soares tenta o mesmo as mistas. Nesta terça, ele e a russa Elena Vesnina fazem o terceiro jogo do dia na Quadra 2. Seus adversários são o britânico Jamie Murray (sim, o parceiro de Bruno) e a eslovena Katarina Srebotnik.

Veja aqui os horários e a programação completa.


Bruno Soares: sobre autoanálise, otimismo e uma grande revelação
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Alexandre Cossenza

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A agenda de Bruno Soares é cheia, e a conversa rola durante o almoço, entre compromissos e treinos mineiro de 33 anos. Quando ele começa a falar, porém, não há pressa. O papo é sobre sua pior temporada nos últimos cinco anos. Top 10 de junho de 2013 até o começo de 2015 e número 3 do mundo por quase um ano inteiro, Soares é agora “apenas” o 22º do ranking de duplas. E, como é típico de um tenista que quase foi forçado a encerrar a carreira por lesão, sem drama.

Na conversa, o mineiro revelou um sério problema extraquadra que afetou o rendimento de sua dupla com o austríaco Alexander Peya, mostrou-se frustrado com a falta de resultados e falou das derrotas que mais machucaram em 2015. Não faltou, porém, otimismo. Com seu nível de tênis, o recente título no ATP 500 da Basileia e a futura parceria com o britânico Jamie Murray.

Soares também falou sobre o momento das duplas no Brasil, com Marcelo Melo ocupando o topo do ranking, e no mundo, com os gêmeos Bob e Mike Bryan perdendo a hegemonia do circuito. Ah, e quem será que vai jogar duplas mistas com Teliana Pereira nos Jogos Olímpicos, hein? A íntegra da (longa e esclarecedora) conversa está abaixo. Leiam!

Vamos começar do começo de 2015. A última vez que a gente conversou foi no Rio Open e você disse que estava sem aquela confiança que ganha jogo. A coisa melhorou depois dali, mas não o bastante pra te satisfazer, né?

Não. A sensação deste ano é que em nenhum momento a gente conseguiu embalar. A gente teve bons momentos, que a gente jogou um tênis muito bom, ganhamos jogos muito bons, mas em nenhum momento a gente conseguiu embalar. A gente acabou sempre esbarrando em alguma coisa. Uma coisa que a gente esbarrou muito este ano foi o super tie-break, que custou muito caro. Nossa campanha eu nem olhei nem quero olhar, quero esquecer, mas deve ter sido horrível, né? Isso, no formato que a gente joga, pesa demais. Super tie-break é uma coisa muito de momento e confiança. Quanto melhor seu momento, melhor você consegue jogar ali. Foi o grande problema deste ano. O mais legal foi depois que decidimos que a gente ia separar, que foi um momento muito triste porque a gente é muito amigo, foi ter conquistado o título da Basileia e ter mostrado para a gente que foi um ano complicado, mas quando a gente joga bem, pode ganhar de qualquer um. A gente ganhou de quatro duplas que foram para o ATP Finals (Bopanna/Mergea, Matkowski/Zimonjic, Rojer/Tecau e Murray/Peers), então foi bom nesse sentido de afirmação. Não tivemos um ano bom, a gente sabe disso. Teve muita coisa que não saiu do jeito que a gente queria, mas quando a gente joga bem, a gente sabe do nosso potencial.

Eu estava guardando essa pergunta para o final, mas você já…

(interrompendo) Já te f… de início, né?

(risos de ambos) Mas você citou Basileia, as quatro duplas que vocês derrotaram e… Como é ver Rojer e Tecau ganhando tanto e terminando o ano como número 1 do mundo? Porque você e o Alex têm retrospecto bem favorável contra os dois… O quanto mexe com a cabeça você estar num ano ruim e pensar “eu ganho desses caras?”

Tem os dois lados da moeda. Este ano, a gente não conseguiu render o nosso melhor. A gente tem isso claro. Mas chegou um momento que era meio mostrar para nós mesmos que a gente, junto, ainda podia jogar bem tênis. E este ano foi complicado de alguns problemas da parte do Alex, que não vêm ao caso e não vale a pena dizer. Ele teve alguns problemas extraquadra que ele passou uma barra muito maior. Acabou influenciando em algumas coisas e foi um ano bem complicado para ele. Mas é legal chegar num momento desses, no fim do ano, que é mostrar que a gente pode ganhar de qualquer um. Mas foi um ano difícil nesse aspecto. Você pega o próprio Marcelo e o Ivan, que tiveram um grande ano. Nosso head to head com eles era 5 a 0. Este ano, nós perdemos três. Então é uma coisa de momento. Nos últimos dois anos, nosso momento era melhor que o deles, e a gente ganhava. Aí você fala “por quê?” Não sei. Este ano, a coisa inverteu. Murray e Peers ganharam duas da gente. No fim do ano, a gente até conseguiu “pegar” eles uma vez, mas era uma dupla que a gente tinha 6 a 0 nos confrontos. Rojer e Tecau, a mesma coisa. Mas o que me deixa bem tranquilo é saber que na maior parte do ano, eu estava jogando um tênis de alto nível, apesar de as coisas não estarem acontecendo da forma que eu queria. Isso me deixa tranquilo de saber que ano que vem eu continuo jogando um tênis de alto nível e se continuar nessa linha, vou conquistar algo legal e voltar para o ranking que eu acho que deveria estar, que é melhor do que isso aí.

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Você nunca foi chegado a teorias apocalípticas, e com o formato das duplas hoje, uma sequência de três, quatro, cinco derrotas não significa necessariamente um péssimo momento. Mas em alguma parte desta temporada soou um alarme do tipo “tem que mudar alguma coisa”? E não digo nem só de mudar de parceiro…

É… Soou médio. Como foi um ano complicado, principalmente da parte do Alex – extraquadra – a gente tinha muito bem claro na cabeça o porquê de certas coisas, de alguns momentos ruins, de a coisa não estar andando muito bem…

(interrompendo) Essa questão do Alex que você acabou de mencionar eu acho que ninguém sabe…

Ninguém sabe! E ninguém vai saber. Na verdade, são problemas dele e todo mundo sabe que houve problemas. São coisas que influenciaram nos resultados. Então tinha um pouco de a gente saber o porquê disso tudo, mas chega um momento que pinta uma dúvida. Você fala “pô, não é possível, toda hora chegando e batendo na trave.” Chegou um momento na temporada de saibro que a gente perdeu muita coisa chegando muito perto. Chegamos na semifinal de Barcelona, ganhamos dois bons jogos, perdemos dos caras que foram campeões (Draganja e Kontinen) com quatro match points. Isso é aquele negócio: de repente, se a gente ganha aquele jogo, fazia a final contra Murray e Peers, ganhava e são 500 pontos. A coisa poderia mudar de figura. Ao longo do ano, faz muita diferença. O próprio ATP Finals, que ficou parelho no fim do ano… Todos essas pontos fariam diferença, e a gente já estaria classificado. Com esse tipo de coisa, começa a pintar uma dúvida na cabeça. Mas esse é o momento de ter tranquilidade e saber onde você está. Eu senti que estava jogando bem. Agora é questão de ter paciência e continuar insistindo.

Os problemas do Alex jogam uma luz que ninguém tinha na história dessa temporada. Eu, por exemplo, te perguntaria se quando as coisas começaram a dar errado, você pensou na questão da idade (33 anos), se é o começo do fim, se fisicamente tem alguma coisa errada, se os reflexos estão indo embora…

Exatamente. Isso é uma coisa que o atleta tem que olhar. Principalmente hoje em dia, que todo mundo joga até mais tarde. É uma pergunta que a pessoa se faz. “Peraí, vamos ver esse vídeo, conversar com o treinador… Tô mais lento?” Eu faço essa pergunta pro Alex, pro Scottie (Scott Davidoff, técnico da dupla) muitas vezes. “Mas aquela bola… Você acha que eu estava lento, que deveria ter chegado? Eu cobri errado?” E aí muitas vezes você enxerga alguma coisa que de repente não estava vendo. Mas tenho muito bem claro que não foi por nada disso que os resultados não apareceram. Não é porque estou jogando pior, ficando mais velho, mais lento ou não estou aguentando mais a batida. Pelo contrário. Eu me sinto melhor fisicamente, mais maduro e mais preparado para conquistar coisas maiores. Não é o começo do fim, não é o início da descida da ladeira. Acho que tenho alguns anos ainda para subir antes de começar a descer. Vou entrar ano que vem sabendo do nível que eu estou jogando.

Já ouvi algumas pessoas dizerem que a IPTL (liga de exibições disputada em dezembro) te atrapalhou.

A IPTL tem os dois lados. Ela pode, sim, atrapalhar. É difícil eu te falar. Nem eu consigo dizer se ajudou ou atrapalhou. Eu não sei. Foi uma grande experiência para mim, foi muito legar ter participado, principalmente por ser o primeiro ano.

Lembro de você me dizer na época coisas do tipo “hoje treinei com o Agassi com a Serena na beira a quadra!”

Exatamente. Foi uma experiência fantástica. Mas tem isso… Você vem de cinco, seis, sete anos fazendo a mesma coisa. O seu corpo está acostumado com aquele momento não ser de competir. Você está tirando suas férias. De repente, parece que tem dois anos seguidos (de competições). E realmente é extremamente desgastante. Foi positivo ou negativo para o ano? Isso eu não sei te falar. É muito do “e se”. É difícil falar. Se eu tivesse ido para a IPTL, me machucado e perdido três meses, que foi o que aconteceu com o (Marin) Cilic, eu poderia ter falado que me sobrecarregou, mas não foi o meu caso. Pode ter influenciado? Pode, mas não sei te dizer quanto a isso. Foi uma experiência enriquecedora, vivi coisas incríveis para mim e agora é o seguinte: passou, analisou o que deu certo e deu errado, o que eu posso fazer para melhorar e toca o barco. Não adianta ficar remoendo.

Vamos para uma pergunta mais fácil então (risos). Qual foi a vitória mais legal do ano? Foi mesmo na Basileia?

Foi disparado. O grande lance da Basileia veio muito da parte emocional nossa, minha e do Alex. Porque a gente ficou triste com a separação, só que em nenhum momento nós brigamos. Somos grandes amigos. O Alex é um cara que virou um irmão para mim. E foi o que eu falei: pinta aquele negocinho de a gente saber que Rojer e Tecau estão lá, Murray e Peers estão lá, Marcelo e Ivan… E a gente não estava conseguindo render. E a Basileia serviu para dar essa tranquilidade para a gente. Tivemos três anos e meio fantásticos, não vamos terminar pensando neste último ano. Vamos pensar em tudo que a gente fez. Foram 11 títulos juntos, né? Tanta coisa boa… E a Basileia deu isso para a gente. “Quando a gente consegue jogar nosso melhor, é isso que a gente consegue fazer.” A decisão já estava tomada, não tinha como voltar atrás, nem era uma possibilidade, então foi muito importante não só pelo caneco, mas por esse lado emocional nosso.

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E a derrota que doeu mais?

(pensativo) Cara… (pensando mais) Vou pensar um pouquinho para não falar besteira. Foram duas. (outra pausa para pensar) Não, vamos voltar. Você perguntou uma, vou falar só uma. Não doeu porque não tenho muito isso de ficar remoendo derrota, mas me incomodou bastante a semifinal do Rio Open. Era um torneio bem duro e, no momento que a gente entrou para jogar a semifinal, os colombianos (Robert Farah e Juan Sebastian Cabal) tinham acabado de perder, que foi uma surpresa, para o (Philipp) Oswald e o (Martin) Klizan. E a gente estava na semi contra o (Oliver) Marach e o (Pablo) Andújar. Ou seja, se você desenhasse a oportunidade de ganhar um ATP 500, e sendo no Rio, em casa, que é obviamente diferente… Não podia ter uma trajetória menos complicada. E essa derrota me incomodou demais. A gente era bem favorito naquele cenário e acabou perdendo a oportunidade de ser campeão no Rio. Essa derrota não me incomodaria tanto se fosse em outro lugar, outro ATP 500.

Agora eu fiquei curioso. Você falou em duas… Qual foi a outra derrota?

Não, a outra que me incomodou um pouco foi a Copa Davis. Até porque perder em Copa Davis envolve muito mais do que a própria derrota. Influencia no time e em muito mais coisa. Realmente, ela incomodou. Tirou uma invencibilidade nossa, mas isso é uma coisa que eu não penso. Uma hora ia acabar. Mas incomodou pelo fato do time, de a gente ter dificultado as coisas para o time do Brasil.

E a parceria com o Jamie? O que te faz acreditar que pode dar certo?

Cara, o Jamie é um cara que os pontos fortes dele potencializam os meus pontos fortes. Ele joga muito bem na rede, então entra muito bem naquela combinação: eu devolvendo e ele fechando a rede. Mas não só isso. O Jamie evoluiu demais nos últimos dois anos. Ele é um grande jogador, muito mais maduro. Acho que a Copa Davis vai fazer um bem enorme para ele. Os caras foram campeões. E ele, coitado, tem uma pressão enorme pelo fato de carregar o nome do Andy em tudo que ele faz. Querendo ou não, o Jamie conquista isso, e sempre tem aquela perguntinha sobre o irmão do Andy. Querendo ou não, deve incomodar o cara. E tem essa pressão de jogar a Davis ao lado do Andy. Ele vai trazer muita coisa positiva nesse sentido. E tem esse lance de estar preparado para conquistar coisa grande.

Depois de dois vices em Slam, é essa a hora dele?

Hoje, é moldar o nosso jogo, ver qual vai ser nossa forma de jogar, o que a gente poder fazer, mas acho que o mais importante é perguntar: “esses jogadores estão prontos para ganhar um Grand Slam?” Eu acredito que sim. Eu acho, e isso é achismo meu porque não conversei com o Jamie e não sei, mas acho que ele tinha essa sensação com o Peers. Que ele é um grande jogador, mas eles bateram na trave na maioria das coisas. Acho que isso é uma das coisas que fez o Jamie me chamar. O Peers chegou agora, tem menos experiência nesse aspecto. Acho que o Jamie vê isso em mim. Ele vai conseguir manter o nível que vinha jogando com o Peers, mas agora com um cara mais experiente e acostumado a jogar esses momentos. Isso, para mim, faz diferença. Aconteceu com o Marcelo este ano. Você vê a maturidade. Quando chegou numa final de Grand Slam, de Masters 1.000, já era uma coisa natural para ele. Alguns anos atrás, era uma novidade. Quanto mais acostumado, mais fácil é você jogar o seu melhor.

(leia aqui entrevista exclusiva com Jamie Murray)

Ter um brasileiro número 1 do mundo muda muito alguma coisa? Seja exposição, mais gente se interessando ou qualquer outro elemento do cenário no Brasil?

Acho que muda. O tanto que vai mudar nós vamos ficar sabendo agora. A gente conseguiu transformar isso aí nos últimos anos e trazer as pessoas para o mundo das duplas. Muita gente se interessou mais, a TV mostrou mais, a turma passou a conhecer e torcer pela gente. A gente está mostrando um caminho diferente. O lance, para mim, é que o Marcelo chegar a número 1 do mundo é um feito enorme, absurdo, todo mundo sabe. Acho que é diferente do caso do Guga porque é o seguinte: a gente vem há um tempo jogando no mais alto nível. Em 2013, eu fui número 3 do mundo, mas já era top 10. Tem cinco anos que a gente vem jogando assim. Isso foi sendo moldado aos poucos. O Marcelo alcançou o número 1 do mundo, mas o pessoal já estava acostumado com aquelas coisas. Ele não fez nada de diferente do que ele já vinha fazendo. A grande diferença foi sair de 3 para 1, que é um feito enorme.

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Enquanto o Guga, quando venceu Roland Garros, ninguém conhecia.

Nada. Exatamente. O lance do Marcelo é muito disso. Essa mudança a gente começou há muito tempo. Então não dá para dizer “o Marcelo está número 1 do mundo e não mudou nada.” Peraí, já vem mudando há muito tempo. Hoje, a atenção é muito maior. Os nossos patrocinadores, a nossa visibilidade, a quantidade de horas na TV… Isso já é muito maior. Então o lance de o Marcelo ser número 1 vai contribuir ainda mais.

E o quanto esse efeito (pensando) … Não tenho um nome pra isso…

(interrompendo) Efeito Pão de Queijo!

Gostei disso. Você inventou agora?

Eu estudo marketing na Estácio, né, cara? Então estou preparado! (risos)

(risos) Então tá: o quanto esse Efeito Pão de Queijo “rouba” tenistas para as duplas?

Eu acho que zero. Ninguém. Toda pessoa vai sempre começar com o foco nas simples.

Mas não acelera o processo?

Eu acho que racionaliza o processo. O cara vai sempre começar nas simples. É que duplas não era uma opção antes. A turma não pensava. Agora o cara já tem um banco de dados. “Fulano foi dessa forma, Siclano foi dessa forma…” Antes, o cara que ficava tentando até os 29, 30, naquele negócio… Hoje, vai encurtar a distância. Tem o Demo! (Marcelo Demoliner) O cara tem 24, 25, 26, diz “estou 200 em simples e achei que nessa época os caras que começaram comigo já estão top 100. Dupla eu tenho potencial maior, conquistei mais coisa.” Então racionaliza o processo. Vamos tirar zero das simples. Apenas vamos abrir o leque de possibilidades para os jogadores.

Falando de Rio 2016, quem vai jogar dupla mista com a Teliana?

Isso é uma boa pergunta. Não sei. Acho que a primeira coisa a ser feita, que não foi conversado, é criar um critério. E aí quem alcançar esse critério vai jogar. Vai ser por ranking? Vai ser por histórico de dupla mista? Vai ser par ou ímpar? Vamos escolher o critério, que é o mais correto. Aí você tira todo tipo de chance de as pessoas falarem que teve alguma influência de alguma outra coisa que não seja justo com o jogador.

Última pergunta: como você está vendo a situação dos Bryans?

É uma pergunta que hoje não sei te responder e para mim vai ser o grande ponto de interrogação para o ano que vem. Este ano foi a primeira vez desde que eu acompanho que vi eles realmente perdendo o controle da situação. Em 2009, quando Nestor e Zimonjic terminaram como número 1, os Bryans não dominaram tanto, mas você via que eles estavam jogando bem. Tinha aquela sintonia dos Bryans. Este ano foi a primeira vez que vi eles meio perdidos, sem um plano de jogo, sem saber o que fazer. As coisas que eles fazem não estavam dando certo e estavam meio perdidos nessa busca de como jogar. E no fim do ano isso potencializou um pouco. Acho que a derrota no US Open (para Steve Johnson e Sam Querrey na primeira rodada) abalou demais a confiança deles. Eles vinham jogando muito bem, e o US Open deu uma martelada neles. O fim de ano foi a pior época dos Bryans. Isso, para mim, é a grande dúvida para o ano que vem. Se você perguntar para mim “os caras estão ladeira abaixo, decadentes?”, eu acho que longe disso. Eles jogaram no piloto automático por muito tempo por serem muito bons e muito melhores. Eles perderam um pouco disso aí e precisam se reencontrar. Agora depende do tanto que eles querem. Pelo que eu conheço, eles vão estar mordidos. Esses caras adoram competir e ganhar. Se eles vão conseguir executar, é outra coisa.

E o circuito vê isso como?

Esse ponto entra muito num lance muito parecido com o do Nadal. As pessoas começaram a acreditar muito mais que podem ganhar dos Bryans agora. Isso é um fator importantíssimo. Cansei de ver jogo nos últimos dez anos de eles ganharem com o nome. Até comigo já aconteceu! Obviamente, você nunca entra com o jogo perdido. De repente, você abaixa a guarda e… Depois da primeira quebra, você fala “é, realmente hoje não vai dar de novo.” E é ladeira abaixo para você. E eles sentem isso! Eles montam e é impressionante. Hoje, a galera está sentindo isso. “Eles estão sentindo a pressão na hora de fechar o jogo.” É que antes eles não te davam chance de respirar. Agora, não. A galera começou a ver que tem sempre uma luz no fim do túnel. E isso é um fator que eles vão ter que encarar. Jogar todo jogo até o final.


Entrevista com Jamie Murray: “Estamos desesperados para ganhar um Slam”
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Alexandre Cossenza

Novo parceiro do brasileiro Bruno Soares, o britânico Jamie Murray encerrará nesta semana a melhor temporada de sua carreira. O escocês, número 7 do mundo – melhor ranking da vida até agora, conquistou em 2015 dois títulos e seis vices. Entre estes, os de Wimbledon e US Open.

Dois anos atrás, era Soares quem batia na trave do sonho de ganhar um dos quatro títulos mais importantes do circuito de duplas masculinas. Naquela final de US Open, porém, o austríaco Alexander Peya entrou em quadra com dores nas costas e mal conseguiu jogar. A maior chance das vida do mineiro (e do austríaco!) passou sem ser sequer uma chance propriamente dita.

Nada mais justo, então, que após estarem tão perto de grandes troféus, Jamie Murray e Bruno Soares tenham um objetivo só como parceria em 2016: ganhar um Slam. E o escocês, irmão mais velho e menos famoso de Andy, não precisa de eufemismos. Em entrevista concedida por e-mail, foi franco e direto: “Nós dois estamos desesperados para ganhar um Slam.”

Nas respostas de Jamie, cheias de pontos de exclamação e sorrisos (nota: o comentário em parênteses sobre Wimbledon foi reproduzido exatamente como estava no email), fica nítida a empolgação por atuar com um amigo de longa data. Entre tudo que escreveu, o escocês sugeriu um nome para a parceria e ainda fez uma piada sobre os jogos entre seu irmão e seu novo parceiro. Leia abaixo!

Bruno conta que vocês se encontraram pela primeira vez em um torneio Challenger na Colômbia, em 2006, em que ele te derrotou nas simples. Você lembra de algo sobre esse dia?
Eu vi o Bruno jogar pela primeira vez quando eu tinha 14 anos e assisti à partida em que ele disputava a final do Orange Bowl de 18 anos em Miami. Então, cinco anos depois, estava jogando contra ele nesse qualifying de simples na Colômbia. Acho que ele tinha se lesionado por um bom tempo e estava tentando voltar. Fico feliz por ele ter vencido porque teria abalado a confiança dele perder para mim nas simples!!! E no saibro!!! Eu só jogo no saque e voleio :))

Obviamente, já passou muito tempo desde aquele dia. Quando você convidou o Bruno para formar parceria em 2016, qual foi a motivação? O que pesou mais para você optar por ele?
Eu tive um ótimo ano com meu parceiro, John Peers, mas estava pronto para um novo relacionamento e estava muito animado para jogar com o Bruno. Nunca joguei com um grande devolvedor antes e acho que isso vai tirar o melhor de mim, com meus pontos fortes na rede, então fiquei bastante empolgado quando ele concordou em jogar comigo. Ele é normalmente calmo sob pressão, o que dá confiança e faz você acreditar nos momentos importantes, então estou esperando que seja uma combinação de sucesso.

Uma das coisas que todo mundo diz é que Bruno é um cara fácil de lidar e que isso ajuda muito numa parceria. Vocês sempre se deram bem durante esses anos todos?
Bruno é um ótimo cara, Parece sempre feliz quando passo algum tempo com ele. É sempre divertido. Espero que continue assim em 2016! 😉

Com você vindo de duas finais de Slam e Bruno também já tendo jogado uma decisão de US Open, é justo dizer que vocês esperam lutar por títulos de Slam em 2016 e, quem sabe, pelo topo do ranking?
Acho que nós dois estamos esperando alcançar coisas grandes no ano que vem, mas entendo que leva tempo para construir uma parceria. É claro que quando entrarmos em quadra vamos tentar fazer nosso melhor. Espero que isso nos traga grandes títulos. Acho que é o objetivo de todos jogadores ganhar um Grand Slam, já que é o maior prêmio do nosso esporte e nós dois estamos desesperados para ganhar um! (preferencialmente em Wimbledon!) 😉

Bruno finalmente vai jogar com a segunda metade de Booty & Stretch, parceria que você formou com Eric Butorac e que tem um dos nomes mais legais da história do tênis de duplas. Você já tem um nome legal para o time com Bruno?
Nós podemos ser o time soirée. :))

Uma das peculiaridades de 2016 é a presença das Olimpíadas no calendário. Em anos assim, normalmente vemos tenistas formando duplas com seus compatriotas, o que obviamente não é o caso de vocês. Bruno costuma dizer que isso nunca foi um problema porque ele conhece bem Marcelo, então os dois não precisam jogar juntos o tempo inteiro. A sensação é a mesma para você e Andy?
As Olimpíadas no Rio serão uma experiência sensacional, tenho certeza. Se eu jogar com Andy, isso só fará tudo ser mais especial e faremos tudo para tentar uma medalha. Jogamos muitas vezes juntos, então não precisamos passar tanto tempo juntos em quadra para entender a melhor maneira de ter sucesso. Precisamos nos preparar bem, dar tudo em quadra e veremos o que vai acontecer. Ninguém nunca sabe o que vai acontecer no esporte.

Manter você em forma para jogar as Olimpíadas com um dos melhores simplistas do mundo pode ser muita pressão para o Bruno?
Bruno sempre chuta o traseiro do Andy nas duplas, então não acho que ele vai sentir pressão alguma!! Pelo menos espero!!!

Bom, você sabe que sua mãe é uma celebridade no mundo inteiro. Alguma chance de ela aparecer no Rio de Janeiro se você vier para o Rio Open, em fevereiro do ano que vem?
Acho que minha mãe estará no Rio porque ela é capitã da Fed Cup, então estará lá com as meninas britânicas que estiverem competindo. E fazendo muito barulho nos apoiando, tenho certeza!


Sobre Bruno Soares e o “timing” do número 1 de Marcelo Melo
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Alexandre Cossenza

Tênis, no fundo, no fundo, é como quase tudo na vida. É preciso dedicação, talento e um pouco de sorte. “Estar no lugar certo na hora certa”, já diz o clichê. E é assim que veio o número 1 de Marcelo Melo: em uma temporada brilhante, com um título de Grand Slam, mas também com uma pitadinha de “timing”.

Afinal, o melhor momento na carreira do mineiro veio coincidentemente em uma temporada abaixo da média dos irmãos Bryan, que dominam a modalidade há mais de dez anos e lideram o ranking juntos e de forma ininterrupta desde fevereiro de 2013. Os dois juntos conquistaram pelo menos um Slam por ano desde 2005. Este ano, a sequência acabou. Não seria exagero dizer que Bob e Mike são, em números, a dupla de mais sucesso da história.

E a série pão de queijo continua hoje aqui no blog usando outro brasileiro para ilustrar o quão importante é o “timing”. Bruno Soares, afinal, é o exemplo perfeito. Eu explico. Na quinta-feira, quando Marcelo Melo assegurou a conquista do posto de número 1 do mundo, ele encerraria o ATP de Viena com 7.980 pontos se não tivesse vencido nenhum outro jogo. Pois sabem quanto pontos Soares somou em 2013, sua melhor temporada? Os mesmos 7.980!

Naquele 2013, porém, Bob e Mike Bryan venceram três Slams, cinco Masters 1.000 e ainda foram vice-campeões do ATP Finals. O ranking de fim de ano mostrou os gêmeos americanos com 14.960 pontos. na mesma data, Soares tinha 7.380 – menos da metade – após descartes.

Os confrontos diretos pesaram um bocado nessa diferença em 2013. Naquele ano, foram sete partidas de Bob e Mike contra Bruno e Alex. Brasileiro e austríaco venceram apenas uma, em Valência. Perderam nas semis do ATP Finals, de Roland Garros e de Memphis e nas finais de Paris, Queen’s e Madri.

E nem foi só isso. No US Open, quando escapou dos irmãos Bryan e tinha uma chance melhor de conquistar seu primeiro Slam em duplas-duplas (sem contar mistas), Bruno Soares viu Peya sofrer uma lesão nos últimos pontos da semifinal. O austríaco entrou em quadra para a decisão sem condições de jogo, e a partida foi uma formalidade que acabou com os troféus nas mãos de Paes e Stepanek.

Em 2015, dois anos depois de Soares ser o simbólico “número 1 entre os mortais”, os irmãos Bryan deram sinais de vulnerabilidade e não conseguiram manter o ritmo absurdo das temporadas anteriores. O “timing” para brasileiro e austríaco, entretanto, já havia passado. Os dois viveram um ano nada brilhante. Bons resultados vieram aqui e ali, mas sem a consistência necessária – e desejada. A parceria chegou ao fim, e o mineiro de 33 anos começará 2016 ao lado de Jamie Murray. Que a sorte lhe sorria um pouco mais no ano que vem.

Coisas que eu acho que acho:

– Importante não deixar de citar: se Bob e Mike Bryan não conquistaram um Slam em 2015, Marcelo Melo e Ivan Dodig têm sua parcela de “culpa”. Os dois fizeram um partidaço na final de Roland Garros  e conquistaram o título.

– Nos outros três Slams, os Bryans foram eliminados por Inglot e Mergea (Australian Open, oitavas de final), Bopanna e Mergea (Wimbledon, quartas) e Johnson e Querrey (US Open, primeira rodada).


A separação de Soares, o “não” de Marcelo e o convite de Jamie
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Alexandre Cossenza

A notícia chegou via Aliny Calejon. Bruno Soares não jogará com Alexander Peya em 2016. Depois de uma temporada com resultados aquém do esperado, o mineiro decidiu mudar. Avisou o parceiro que queria algo diferente em 2016 e foi em busca de um novo companheiro (foto acima por Getty Images).

Primeiro, entrou em contato com o conterrâneo Marcelo Melo – bastante consciente da possibilidade de ouvir um “não” de alguém que venceu um Grand Slam ao lado de Ivan Dodig em 2015. Mesmo com as Olimpíadas por perto, é difícil mexer no time que vem dando certo.

Sabe aquele roteiro de filme adolescente americano em que o garotão convida a menina para o baile e, no mesmo dia, é convidado por uma gata diferente? Pois é.
No mesmo dia em que fez a proposta para Marcelo, Bruno recebeu de Jamie Murray, vice-campeão de Wimbledon e do US Open em 2015, um convite para formar uma parceria em 2016.

Bruno disse a Jamie que ainda esperava uma resposta do atual número 3 do mundo. Jamie topou aguardar alguns dias. Marcelo, então, disse não, e Bruno fechou o time com o irmão de Andy Murray. Os dois começam a jogar juntos já em janeiro do ano que vem.

Ouça abaixo a explicação de Bruno Soares.


Coisas que eu acho que acho:

– Primeiro, tiremos do caminho a questão de sempre. Toda vez que escrevo sobre um dos dois, alguém pergunta por que Bruno e Marcelo não jogam mais juntos. Os mineiros fizeram duas temporadas inteiras juntos até Bruno quis tentar algo diferente. A mudança, como o tempo continua provando, foi boa para ambos. E não atrapalhou em nada os resultados na Copa Davis nem em Londres 2012. Não deve ser diferente nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

– Não conversei com Marcelo, mas deve ter sido uma decisão difícil de tomar – especialmente com Ivan Dodig em um momento difícil, vivendo o dilema de querer recuperar seu ranking de simples e conciliar isso com uma temporada vencedora nas duplas. Não é fácil montar um calendário assim. De todo modo, é perfeitamente compreensível – como disse Bruno – que o atual duplista #3 do mundo queira continuar com seu atual parceiro.


Brasil x Croácia, dia 2: o típico dia imprevisível
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Alexandre Cossenza

O clichê, enfim, se aplica. A zebra apareceu no confronto entre Brasil e Croácia. Bruno Soares e Marcelo Melo, invictos há oito jogos em Copa Davis, foram derrotados em Florianópolis, em uma atuação nada memorável, por Ivan Dodig e Franko Skugor: 6/0, 3/6, 7/6(2) e 7/6(3). Foi uma tarde dura para os brasileiros – especialmente para Bruno Soares, que só jogou seu habitual bom nível de tênis em flashes aqui e ali. Ao mesmo tempo, foi uma jornada incrível de Dodig, duplista #6 do mundo, que fez dois tie-breaks impecáveis.

O público bem que tentou empurrar os brasileiros, e a maré parecia estar mudando no fim do quarto set, quando Soares e Melo escaparam de dois match points no saque de Dodig, quebraram de volta e deram motivo para a torcida fazer mais barulho do que eu qualquer outro momento do confronto. O segundo tie-break, no entanto, foi quase um microcosmo da partida. Um Soares inseguro e dois croatas soltos, jogando bem e sem a pressão da proximidade da derrota.

Fora o estranhíssimo primeiro set, com a dupla brasileira apática e mais preocupada em entender e conhecer Skugor do que em fazer seu próprio jogo, não foi uma partida desequilibrada. Para Bruno Soares, ele e Marcelo dominaram dois sets (o segundo e o terceiro), mas não aproveitaram as chances – foram sete chances de quebra na terceira parcial. A diferença foi o brilho de Dodig, que acertou dois lobs perfeitos no tie-break do segundo set.

O resultado deixa a Croácia com vantagem de 2 a 1 no confronto, precisando de só uma vitória para continuar no Grupo Mundial. O Brasil, por sua vez, precisa que Bellucci derrote Coric no primeiro jogo de domingo (começa às 10h) e, depois, que Feijão supere Delic (#499) – ou Dodig, que jogou muito bem nas duplas e é melhor simplista que Delic. o capitão Zeljko Krajan, contudo, ainda não confirma a mudança na escalação que foi apresentada na quinta-feira.

Dodig disse estar pronto: “Se você não estiver pronto para o capitão, ele não te convoca mais”. Krajan, por sua vez, lembrou que “Ivan jogou por quatro horas neste sábado e que não será fácil no domingo, então Mate ainda é uma opção.”

Mais aquecimento do que jogo

Antes do confronto de duplas, Feijão e Borna Coric entraram em quadra para completar a segunda partida de simples, interrompida na sexta-feira por chuva e falta de luz natural. O brasileiro, que sacava em 1/4 e 40/30 no terceiro set, acabou perdendo o serviço e vendo o #33 do mundo fechar a partida em 6/4, 7/6(5) e 6/1. Ao todo, o tempo de jogo neste sábado durou menos que o aquecimento. Na coletiva, Feijão relatou o desentendimento com Coric ao fim do segundo set, quando o adolescente croata (18 anos) provocou a torcida.

A ideia, Feijão revelou neste sábado, era mexer com a cabeça do adversário. Não deu resultado. Coric, aliás, quebrou o serviço do #2 do Brasil logo no segundo game do terceiro set e disparou na frente. O paulista pelo menos afirmou ter saído de quadra relativamente contente com seu jogo e – muito importante – com mais confiança do que antes. Ele disse contar com a torcida para encontrar uma maneira de triunfar no caso de um quinto jogo.

Coisas que eu acho que acho

A tática do boi de piranha funcionou perfeitamente para o capitão croata. Ao escalar (ou melhor “queimar”) Delic em um jogo em que Bellucci seria favoritíssimo, Krajan conseguiu poupar Dodig, que fez uma partidaça e “roubar” o ponto das duplas. Agora, conta com Coric para fechar o confronto. Mesmo se o #1 croata perder, o time ainda conta um Dodig com confiança extra.

Krajan, como escrevi acima, não deu pistas sobre quem vai escalar no domingo. Parece mais provável, contudo, a escalação do “duplista” Dodig para um eventual quinto jogo. Não só pela moral que carrega da vitória e sábado, mas por ter mais tênis e experiência do que Delic.