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Saque e Voleio

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Medvedev e vilões vendem, mas tênis precisa estabelecer um limite

Alexandre Cossenza

01/09/2019 04h00

Do ponto de vista moral, a apresentação de Daniil Medvedev na noite de sexta-feira, no US Open, foi desprezível. Durante a partida contra Feliciano López, válida pela terceira rodada do torneio, o russo, atual número 5 do mundo, destratou um boleiro, atirou a raquete no chão e mandou o dedo médio para público. Depois de derrotar o espanhol por 7/6(1), 4/6, 7/6(7) e 6/4, veio a cereja do bolo: na entrevista pós-jogo, ainda em quadra, uma provocação à torcida que o vaiou durante boa parte do tempo: "Quanto mais vocês fizerem isso, mais vou ganhar por vocês." (vejam a sequência aqui)

A punição veio rápida, anunciada no início da tarde do sábado. O russo foi multado em US$ 9 mil dólares: US$ 5 mil por conduta antiesportiva (o gesto de arrancar a toalha das mãos do boleiro e atirá-la no chão em seguida) e US$ 4 mil por obscenidade visível (o dedo médio). Uma punição que segue a tabela dos slams, mas que acaba sendo branda para um tenista que vai receber US$ 280 mil por alcançar as oitavas de final (ou, quem sabe, meio milhão de dólares se avançar às quartas de final).

Não foi a primeira vez que Medvedev se comportou de maneira repreensível (para não dizer repugnante). Em abril de 2016, com 20 anos, o russo foi desclassificado do Challenger de Savannah nos EUA, porque questionou a imparcialidade da árbitra de cadeira, Sandy French. Isso porque seu adversário naquele dia, o americano Donald Young, e a árbitra são negros. Os microfones não captaram tudo que ele disse à árbitra, mas a USTA, federação americana, distribuiu um comunicado confirmando que ele havia sido desclassificado (leia-se "expulso") da partida por comentários racistas.

Em julho de 2017, depois de perder para o belga Ruben Bemelmans em Wimbledon, Medvedev atirou moedas na direção da árbitra de cadeira, a portuguesa Mariana Alves. Ele foi multado em US$ 14.500, equivalentes a três punições diferentes por conduta durante a partida (e depois). Na ocasião, o russo disse que as moedas não tinham significado algum. Algumas pessoas, porém, interpretaram como se ele estivesse sugerindo que Alves havia sido "comprada" pelo seu adversário.

Se o valor das multas faz muito pouco para coibir esse tipo de comportamento, é bem verdade que "vilões" como Medvedev, que certamente será vaiado pela torcida em seus próximos neste US Open, ajudam a vender ingressos. O mesmo vale para Nick Kyrgios, que oscila nos papéis de mocinho e bandido – às vezes, na mesma partida – e atrai multidões. Não nos números de Federer e Nadal, até porque seu currículo é mais modesto, mas em quantidade bem superior a tenistas de ranking equivalente.

Por quê? Porque vilões vendem. De McEnroe a Medvedev, de Bill Laimbeer a Draymond Green, de Vinny Jones a Sergio Ramos, de Ivan Drago a Yuri Boyka a Viktor Drago… Na vida real e na ficção, uns mais, outros menos, bad boys atraem interesse. Atraem ódio. Atraem dinheiro. Criam – ou acirram – rivalidades. Chael Sonnen vendeu PPV como Kyrgios vende ingressos. Todo mundo quer vê-los, nem que seja para torcer contra, vaiar, descontar a raiva.

O tênis deve fazer mais esforço para evitá-los? Claro que sim, mas nem tanto porque mancham a imagem do esporte. McEnroe não transformou o tênis num esporte de moleques desbocados assim como Laimbeer e os Pistons não fizeram da NBA uma liga mais violenta (e o basquete profissional americano já foi bem violento). De lá para cá, ressalte-se, tanto ATP quanto NBA adotaram regras mais rígidas contra mau comportamento.

Se vilões vendem e, de algum modo, fazem bem a uma modalidade (nem que seja atraindo um público novo e gerando dinheiro), é preciso estabelecer limites. É este, a meu ver, o grande desafio do tênis atual: permitir e – por que não – estimular a formação de atletas com personalidade forte, que fujam do basicão do politicamente correto, ao mesmo tempo evitando que esses "personagens" transformem a modalidade em caricatura, deixando o aspecto esportivo em segundo plano. E esse meio-termo não é nada fácil de encontrar.

Coisas que eu acho que acho:

– Suspensões são raras no mundo do tênis. Como se trata de uma modalidade peculiar, com atletas sem salário fixo, suspendê-los significa impedi-los de exercerem suas funções e de, consequentemente, ganharem seu sustento. Por isso, as entidades que regem o esporte (ITF, ATP, WTA e Comitê do Grand Slam) raramente aplicam suspensões.

– Além disso, as multas são aplicadas de acordo com uma tabela de valores, que é a mesma para o #1 e o #800 do mundo e não importa se a infração é cometida na primeira rodada ou na final de um slam. Por isso, soam insignificantes os US$ 9 mil que Medvedev terá de pagar.

– Além disso, os prêmios em dinheiro nos slams seguem crescendo absurdamente – especialmente para quem vai longe nas chaves – enquanto as multas não acompanham essa "inflação" (nem poderiam, já que são iguais para todos!). A consequência nefasta disso tudo é o risco da formação de uma elite de milionários mimados que vão se achar no direito de fazer qualquer coisa em quadra porque serão multados em valores ínfimos. Esta, para mim, é a maior ameaça à modalidade.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.