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Saque e Voleio

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André Sá, parte II: nova Copa Davis ainda pode dar pontos no ranking e terá final em quadra dura

Alexandre Cossenza

18/09/2018 05h00

Na primeira parte do papo, publicada no último domingo, André Sá falou sobre a parceria com Thomaz Bellucci e os porquês de o trabalho não ter durado mais tempo. Hoje, publico o resto da conversa, em que passamos boa parte do tempo abordando a função do mineiro como consultor de relações com os jogadores da Federação Internacional de Tênis (ITF).

Nossa conversa, que aconteceu em Porto Feliz, onde o mineiro disputou o 1º PRO-AM de Tênis JHSF, realizado pela Try (estive no evento a convite da promotora), teve muito mais. Sá conta muito sobre as negociações que rolaram antes das mudanças da Copa Davis e diz que pode vir mais coisa por aí, inclusive uma mudança de data que causaria um conflito com a Laver Cup, organizada por Roger Federer, e até a volta da distribuição de pontos no ranking para quem jogar a Davis. Leiam!

Na última vez que a gente conversou, ali em fevereiro, você tinha acabado de ser anunciado pela ITF, mas não tinha exercido esse cargo na prática ainda. Como é na prática?

O que se faz é dar o feedback para os jogadores sobre o que está acontecendo na entidade e, principalmente, o que a entidade quer. É poder sentar e, por exemplo, "o que vocês acham de ponto na Copa Davis?" Só que é individual, né? Seis caras falaram que gostam, 18 falaram que não gostam. E agora? Qual é a decisão certa? Eu dou para a ITF o feedback. Qual é a maior dor dos jogadores com a Copa Davis. Data! Final de novembro ninguém quer, mas tem alguns que querem. Aí a premiação é X, tem uns que gostam. Essa é a conversa. É como no US Open, sentar com o Nadal e falar "Nadal, o que você acha de ponto na Copa Davis?" Ele fala "Depende" (risos).

Ele falou isso mesmo?

"Depende." Do quê? "De quantos pontos eles vão dar." E no tênis é difícil porque tem diretor de torneio, tem o jogador, a ITF, a ATP… O trabalho, na prática, é esse.

A Davis chegou a dar 500 pontos, não era isso?

Era 750, mas tinha que ganhar tudo, né?

E tinha que dar sorte de jogar partidas valendo. Se acabasse 3 a 0 no sábado, domingo não contava.

Exatamente.

E se aumenta pra 1.000 ou 1.500, aí os torneios vão achar ruim…

Vai desvalorizar os eventos, né? E é um torneio a mais. Em vez de ter 18 [número máximo de eventos em que um tenista pode somar pontos], você vai ter 19. É o que eu falo para eles… Em algum momento, a conta vai chegar, e o cara não vai jogar. O cara joga o World Team Cup em janeiro, chega em Cincinnati, não joga. Vai falar "pô, eu já tenho 18!"

O que li é que houve uma conversa entre ATP e ITF para fazer um evento conjunto…

Existiu.

E que, por isso, como não houve acordo, a ATP resolveu lançar a sua própria Copa do Mundo, a World Team Cup. Qual foi o desentendimento? Grana?

Geralmente, é isso, né? (risos) Mas não foi só isso. Uma das coisas que mais pegou foi que os jogadores também queriam que, se a gente fizesse o acordo com a ITF, teria que valer ponto. Então, a convocação teria que ser por ranking da ATP. As federações não concordaram. Disseram "a gente tem essa vantagem de poder convocar o nosso time", o que faz sentido. De repente, você tem um time em que o número 1 não joga bem no saibro. É o capitão que tem que ter esse direito. Isso também foi uma das coisas que não deram certo, e os jogadores votaram a favor do World Team Cup [a ATP vai organizar, a partir de janeiro de 2020, uma Copa do Mundo própria – um evento que vai concorrer com a nova Copa Davis, que terá sua edição inicial dois meses antes, em novembro de 2019]. Aí abriu uma confusão danada.

Pelo que você sente, os jogadores vão estar nas duas competições? Ou vai acabar dividindo?

Olha… Eu acho difícil os dois sobreviverem nas datas que estão. São 35 dias de diferença. Agora… Se eles vão jogar os dois… Pode ser! É um caminhão de dinheiro! Todo mundo não sempre reclama que a pirâmide é assim, que o dinheiro está todo lá em cima, e os caras de baixo ficam sem? Nesse evento, de repente um cara que está #85 do mundo vai jogar.

O Kosmos [grupo que vai financiar a nova Copa Davis, liderado pelo jogador de futebol Piqué] vai entrar com US$ 3 bilhões, mas quanto disso vai para os jogadores na prática?

Eles falaram que vai ser US$ 20 milhões por ano para os jogadores. Dividindo isso no Grupo Mundial. Só que as categorias de baixo também vão receber uma compensação, como eles dizem. Eu vejo que vai ser melhor. É a minha visão. É o que os jogadores sempre pediram. Menos demanda e mais premiação. Foi o formato que eles acharam que vai dar certo, porque tem que dar certo não só no operacional, mas no comercial também. São 150 países. Se você muda uma fórmula aqui, afeta todo mundo. Então essa foi a maneira. Ainda conseguiram – eles não queriam, mas conseguiram – manter [a característica de] jogar em casa e fora no início do ano, na primeira rodada. O Grupo Mundial mudou? Mudou? A gente perdeu aquela vibração de jogar em casa? Perdeu. Mas era uma coisa necessária porque a Copa Davis estava morrendo.

Estava morrendo mesmo? Não foi um pouco de drama do David Haggerty [presidente da ITF] ao falar isso para convencer as federações a comprarem esse novo formato?

Ah, não sei se ia acabar, mas que ia perder a relevância de uma maneira incrível, ia. Eu acho. Os caras não estão jogando mais.

Mas não é também porque os caras envelheceram e todo mundo já ganhou a Davis [Nadal, Federer, Djokovic, Murray, Del Potro e outros veteranos já têm no currículo o título]?

É. Por isso, mas…

E quando esses caras pararem? [Alexander] Zverev está jogando, [Dominic] Thiem está jogando…

Mas eu acho que a mentalidade do pessoal, hoje em dia, é diferente. Mesmo esses caras. Se você botar Zverev, Kyrgios e Sock, qual o nível de comprometimento desses caras de jogar quatro semanas, em competição anual? O Zverev falou: "Eu jogo Copa Davis até eu ganhar." Se ele fala isso, tem alguma coisa errada com o formato. Esse é que é o problema. E isso aí tudo soma. Os caras ficaram velhos, os caras já terem ganhado… Copa Davis, eu sempre achei, é o melhor produto que o tênis tem. O meu argumento é que é a única competição que o cara chora quando ganha? Ganhar Masters 1.000? Não vai chorar. Ganhar um slam? Não vai chorar?

E se ganhar um zonal, ele chora.

É diferente. Esse é o valor. O valor emocional da Davis é muito maior do que qualquer premiação ou ponto. É isso que a ITF precisa entender. Fica ligada no emocional do jogador. A pergunta que eles me fazem é "como é que a gente faz para todos jogadores jogarem a Copa Davis?" Mais curto, premiação e esse lado emocional. "Vocês vão levar para Madri?" Vão. "Cara, vocês têm que, de alguma maneira, ter duas mil pessoas de cada país em cada confronto." Aí você tem de um lado dois mil espanhóis e, do outro, dois mil franceses. Aí o cara, quando chega lá, igual ao Paire agora [vide tweet abaixo], tem a mesma sensação. Aí vai jogar todo ano. Por quê? Porque é curto…

Mas você acha que conseguem isso?

Esse é o desafio. São desafios. É difícil. A visão deles [ITF] é que a Davis estava perdendo relevância e que a competição de equipes, entrando, batendo de frente, na Austrália… Eles [ATP] vão organizar um baita evento [World Team Cup] em 2020. Se esse evento entra sem competição, sem ninguém antes, deslancha, rouba toda atenção para lá. Aí você tem World Team Cup, Laver Cup, Davis Cup… E agora?

O Piqué fala em mudar a Davis para setembro, que seria justamente nessa data da Laver Cup. Você conversou com o Federer?

Eu conversei com o Tony Godsick [empresário e sócio de Federer]. Ninguém é dono de data. Eles também não pensaram duas vezes quando botaram a Laver Cup lá, na mesma semana dos ATPs de Metz e São Petersburgo. Não pensaram neles também, não. É briga de cachorro grande agora. Para os jogadores, a data [da final da Davis, em novembro], realmente, não é a ideal. Isso também é parte do meu trabalho. É dar o feedback para a ITF de que "final de novembro, depois do ATP Finals, não é ideal." Em 2019, tem que ser em novembro porque tem que ser antes da World Team Cup. Aguenta e, em 2020, a gente tenta mudar. Se não for assim, perde o barco. Aí os caras vão fazer em 2019 em Madri. Tem que ser na Europa, numa quadra neutra, na Caja Mágica, com teto retrátil.

Vai ser quadra dura?

Dura. Mesmo piso do ATP Finals. Aí, em 2020, o ideal é a Davis ser em setembro, na semana da Laver Cup. Termina o US Open, uma semana off, depois joga. E depois vai para a Ásia. É a semana perfeita. Tem a Laver Cup, mas, ao mesmo tempo, não pode ter que negociar com uma exibição. É a ITF! Mas é o Federer, é um cara com um perfil incrível, todo mundo ama ele… Se não é ele, a Laver Cup não tem força. Aí tem que esperar. Em 2019, a Laver Cup vai ser em Genebra, na casa dele, e vamos ver se em 2020 eles conseguem negociar.

E os torneios? Metz e São Petersburgo?

Mas a ATP consegue dar uma mudada. Esse seria o ideal. O desafio para a ITF, agora, é colocar a Copa Davis dentro do calendário mundial. Agora, está fora. A briga é essa. Algumas pessoas na ITF acham legal porque é o último evento de tênis no ano, maaaaaas meu trabalho é dizer "olha, os jogadores não vão apoiar."

E no US Open, depois que as mudanças na Davis foram aprovadas, como foi o seu trabalho?

O que eu fiz mais lá foi a questão dos pontos.

Então ainda existe essa possibilidade?

Está sendo discutido. Há esperança.

A parte de arbitragem não passa por você, né?

Não (risos). No US Open, houve mais repercussão dos árbitros do que dos jogadores. Mas nesse lado aí eu não entro, não. O meu específico é Copa Davis. Minha área é essa. Mas eu acho que vai ser melhor. É uma mudança necessária. O lado tradicional do tênis é importante? É, mas precisa se reinventar.

Isso me dói o coração.

Dói! Para todos nós. Eu joguei 12 anos, eu tinha o número 1 do mundo no nosso time, eram 12 mil pessoas todo dia. Essa sensação nunca vai ter igual.

Eu digo porque pra muita gente que gosta de tênis – e esse é o meu caso – as lembranças mais fortes que eu tenho são de estar numa Davis. É ver a galera vendo gritando "Gugaaaa, Gugaaa", é ver o Kucera morrendo no sol no Marapendi, o Becker no estacionamento do Barra Shopping, cinco sets, tudo isso é fantástico.

Mas não teve jeito. É que são exceções. Quando eu comecei a jogar, a Copa Davis eram as semanas mais importantes do calendário. Jogava com essa sensação de "não é só você". Isso, sim, se perdeu um pouco. Para todo mundo, cinco sets não está dando mais. Infelizmente, não está dando mais. E a gente estava conversando no US Open, os caras diziam "dá uma caminhada e vê quantas pessoas de 18 a 35 anos tem aqui." Não tinha, e o maior mercado é nos EUA. Se o esporte está bem lá, está bem em qualquer lugar. Lá, o pessoal consegue comprar. Se o Federer fosse americano… Efeito Tiger Woods. Ia ter dez torneios de US$ 1 milhão nos EUA.

Os torneios de tênis nos EUA desapareceram nos últimos anos, né?

Do mesmo jeito que o Tiger Woods é excelente, tem o lado negativo. Quando ele não joga, ninguém assiste. Isso é ruim. Não é o fã do golfe, é o fã do Tiger Woods. É o que acontece nos torneios de tênis. No tênis, 80% das pessoas são fãs do show. Os 20% são os fãs de tênis. É a gente, que gosta da Copa Davis, de jogar cinco sets. Você vai lá… A mulher do cara está aqui, ó (gesticula imitando uma pessoa entediada)… Está 2/1 no segundo set, e a mulher não aguenta mais. O moleque já está aqui (imita alguém teclando num smartphone)… E a gente é minoria, cara. Se os caras não derem jeito de botarem o tênis aqui (aponta para o smartphone), o que vai acontecer? Os grand slams dão certo porque são uma marca. O cara vai lá não pra assistir Kevin Anderson contra John Isner. Ele vai lá pra tirar uma selfie e botar a hashtag. Como é que você pega esse cara jogando cinco sets? É evolução, é difícil. A gente está nos 20%. Não está funcionando. o formato não dá dinheiro. Os caras perderam três patrocinadores.

Os ATPs não se seguram bem? Ou não?

Seguram, mas como ativos. Os donos dizem que sempre perdem dinheiro. Eu acho que não perdem. Eles mantêm. Mas se você compra um evento por US$ 5 milhões, mantém, mantém, mantém e, cinco anos depois, você vende por US$ 11 milhões… Em cinco anos, você ganhou US$ 6 milhões. É um bom investimento. O negócio é manter porque o formato, para eles, é horrível. O business plan deles é horrível. O dono tem que pagar garantia, se não o jogador não vai [torneios como ATPs 250 e ATPs 500 geralmente pagam gordos cachês para os primeiros do ranking, além da premiação obrigatória que consta no regulamento da ATP]. Quando fizeram esse formato de 1.000, 500 e 250, foi bom para os Masters 1.000 e para os jogadores que ganham garantia. Os Masters 1.000 dão certo por causa de uma palavra: "mandatory". Obrigatório. Se tira essa palavra, já fica diferente o produto. Se você vai vender pro Larry Ellison [milionário dono do Masters de Indian Wells] e diz "talvez, o Federer venha", ele diz "não quero". É garantido? Ele vai vir todo ano? Sim. Então traz aqui. Vou botar US$ 10 milhões. Se tira essa palavra… E aí?

Pra terminar, que feedback você teve do shot clock?

Positivo. Todo mundo acostumou. Jogador é sempre assim. Acostumou. E 25 segundos é tempo suficiente.

E agora o juiz pode soltar o relógio mais tarde, né?

Exatamente. No ponto mais longo, depois de cantar o placar, você solta o shot clock. O cara se acostuma, e é tempo suficiente.

Eu gosto porque padroniza a aplicação da regra. Agora… Não sei se isso foi aplicação errada ou não, mas a árbitra da final deixou o cronômetro zerar algumas vezes e não deu advertência para o Djokovic.

Pois é. Aí que é difícil, né? É o lado humano. É como o Carlos Ramos disse: vai fazer arbitragem à la carte? Foi fantástica a frase dele. E eu fico indignado que tem um pessoal ainda defendendo [Serena Williams]. Você acha que um Fognini ou os caras mais [esquentados] iriam chamar um juiz de ladrão, e o cara não iria dar warning pra ele? Óbvio que ia. Óbvio que ia! O azar dela é que era a terceira [advertência na mesma partida]! Ah, mas o coaching… É o que eu digo: falar, todo técnico fala. Mas gesticular não dá, velho. Você vai ser pego toda hora. Eu fui pego em Buenos Aires este ano. Fiz assim "devolve mais na frente" (André faz um gesto bem parecido com o de Patrick Mouratoglou na final feminina do US Open). Na hora, tomei o warning. Dois mil dólares porque fiz isso aqui (repete o gesto). Ainda brigamos (André ri ao lembrar da discussão com Bellucci após o jogo). "Quem vai pagar essa porra?", "Não sei o quê", "Paga meia aí, velho. Estou te ajudando aqui! Meio a meio essa porra!" (mais risos).

(mais risos)

Agora, isso daqui (André repete o gesto) vai ser coaching sempre. Falar, não. E o pior é o cara [Mouratoglou] dizer "mas todo mundo faz". Isso aí é desculpinha. Passou no sinal vermelho, "ah, mas todo mundo faz". Só que te pegaram, né? Tchau. É isso aí.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.