Saque e Voleio

André Ghem, um apaixonado pela vida brutal do tênis

Alexandre Cossenza

11/10/2017 07h20

Enfim, posto aqui a última das entrevistas que fiz na semana passada, quando estive em Campinas a convite do Instituto Sports para acompanhar o São Paulo Challenger. Não foi a última cronologicamente, mas foi a mais longa, por isso só tive tempo para transcrevê-la agora. O papo com André Ghem foi também o mais cru, digamos assim. Falamos muito sobre tênis e sua essência. O que torna o esporte tão apaixonante e ao mesmo tempo tão duro para quem o pratica.

O gaúcho de 35 anos, que já foi #118 do mundo e é o atual #440, era a pessoa perfeita para isso. É alguém que se classifica como um tarado pela modalidade, que usa a hashtag #brutallife em todas suas postagens e que, com o passar do tempo, foi montando e ajustando seu calendário de maneira a estar competindo sempre em lugares onde considera possível estar feliz dentro de quadra.

Foi uma conversa longa (37 minutos no gravador e mais alguns com ele desligado), em que Ghem também falou bastante sobre o jeito europeu de ver e jogar tênis, sobre como vem lidando com a lesão no cotovelo que atrapalhou muito sua temporada e sobre a diferença de ranking e nível de tênis.

O gaúcho fez até uma crítica ao modo como se mostra tênis na TV atualmente no Brasil. “Aprende-se muito pouco”, ele diz. E se você ainda não encontrou um motivo para seguir adiante lendo esta entrevista, saiba que Ghem conta uma história fascinante envolvendo um helicóptero de controle remoto nos tempos em que viajou o circuito com Thomaz Koch sendo seu técnico. Role a página e curta.

Em todas suas postagens em redes sociais, você usa a hashtag #brutallife. O que é o mais brutal na vida de um tenista?

Cara, é o contexto geral. Todo mundo que acompanha a gente acha que o mundo do tênis é um mundo de glamour, que é um esporte elitista, que tudo é sempre legal, que tudo é bom… Principalmente porque a ideia da maioria das pessoas é quando eles ligam a televisão e mostram um grand slam, um Masters 1000, e eles têm a ideia de que todo o resto é isso aí. Cara, não é. Não é! Quem me perguntar, eu faço questão de dizer “cara, jogar tênis é muito difícil”. É um leão por dia, não só dentro da quadra como fora da quadra. Então para ser um jogador de tênis é um negócio bem complicado. Tem que ter inúmeros talentos, não só como jogador, mas como pessoa, então acho que é um mundo bem selvagem, por isso que acabo sempre usando [a hashtag].

O que é o mais difícil de administrar fora da quadra? Dinheiro, distração…

É muito do perfil de cada um, eu acho. Cada um tem seus problemas, suas dificuldades, suas aspirações, né? Cara, eu não venho de uma família humilde. Minha família é normal, classe média. Eu nunca dei muita bola para dinheiro, talvez por isso nunca tenha me faltado. Obviamente que eu jogo Interclubes – este ano não consegui jogar, mas jogo durante anos. O mais difícil é conseguir manter um equilíbrio diante de todos os obstáculos. Tem gente que se preocupa muito com o ranking. Cara, o ranking, ele pode ser interessante tu saber quanto tu defende, tu saber jogar com a margem que o ranking te dá, mas também é um negócio que te puxa para baixo. Tu tem que saber que nem sempre o ranking diz a real, Hoje, por exemplo, eu tô 500 do mundo, mas eu sei que foi um ano que eu não consegui jogar, eu tive dor, e não é por isso que eu preciso andar de cabeça baixa, que eu não posso ter confiança em mim mesmo, então é muito de cada um, sabe?

E qual é o grande barato da coisa? Num post recente, você se disse um apaixonado, tarado pelo tênis. Acho que era um post em que você falava sobre a lesão no cotovelo e ainda não estar conseguindo resultado…

Não é nem estar conseguindo resultado, cara. É o fato de tu fazer tudo que é tratamento e ter dor. Ter dor. Tu faz um exame lá, e diz “teu tendão tá perfeito”. tá, mas cara, por que eu não consigo sacar? Eu tenho dor! Dor! “Não sabemos te dizer.”

Ainda está incomodando tanto assim?

Eu tive uma melhora significativa quando mudei de raquete faz duas semanas. Eu senti um conforto grande no meu braço, mas é uma coisa assim que durante esse tempo todo que eu estive machucado, eu tive uns dias bons e tive alguns dias assim que eu “pá, acho que agora vai.” Só que no momento que tu acrescenta pressão, a tensão do jogo, isso aí modifica muito as coisas no teu corpo. Quando tem uma coisa que não está bem resolvida dentro dele, ali é que vai aparecer. Não vai aparecer num treino. Tu vai dizer “mas tu não treinou suficiente?” Cara, tu treina quatro horas, tu dá soco na parede e não sente nada. Aí tu vai, joga ali quatro games e não consegue mais sacar. Nervos. É muito difícil simular isso aí fora da quadra. Então, pra ti ter um termômetro, eu acho que talvez isso aí foi uma das coisas que eu me arrependo um pouco foi de ter acreditado que eu já estava bem, e eu não estava. Eu fui para alguns torneios porque, cara, a gente sempre trabalha num limite muito entre o que tu pode suportar e o insuportável. Então tu sempre anda muito nessa margem assim. Eu sempre fui assim. É o máximo que tu consegue ir com dor, mas sem se arrebentar. Eu paguei o preço do meu ombro. Foi assim porque eu fui indo, eu estava jogando legal, “eu vou e eu vou mais e vai passar e vai passar” e pô, um dia não passou, aí tive que operar. E o meu cotovelo foi assim também, mas não me arrependo de nada. Só me arrependo de ter tentado voltar que eu poderia ter esperado mais e talvez pegar um ranking protegido, coisa assim. Cara, mas foi uma opção de momento que deu errado. Não melhorou, e tudo bem, o que vamos fazer? É assim.

Eu ia deixar para perguntar isso lá na frente, mas já que você falou da troca de raquete, como surgiu a hashtag #ocaraquejogadeprestige. Eu sei que é uma raquete que pouca gente joga justamente porque ela é pesada…

Não é o peso, é pela rigidez dela. É uma raquete especial no sentido de que te ajuda muito pouco no sentido de potência. Ela tem muita precisão, claro, mas é uma raquete que te ajuda pouco. Tu tem que fazer muito. Tu tem que girar a bola, tu tem que acelerar, tu tem que bater. Só que assim… A minha bola sai demais, e ela [a Prestige], para mim, eu usava ao contrário porque ela me freava um pouco. Então sempre foi bom. Joguei 15 anos de Prestige. A hashtag veio como uma identificação.

Você vai nos torneios, e não tem mais ninguém com ela?

É. Na Europa, tem mais. Na Europa, sempre teve mais porque o europeu, o alemão, austríaco… Sempre teve essa cultura de que “raquete boa é Head, o resto é porcaria.” Então sempre foi uma brincadeira que eu inventei pelo fato de pouca gente jogar. Mas sempre foi num tom meio de brincadeira.

Mas voltando um pouquinho para trás na conversa, qual é o barato do tênis? Você é o tipo de cara que gosta do cheiro da bolinha, gosta de admirar uma quadra de saibro bem feita, essas coisas?

Sem dúvida, sem dúvida. Eu, pô, não me lembro de mim sem ser vinculado ao tênis, sabe? O tênis é um esporte muito engrandecedor no contexto geral. Tu acaba aprendendo muitas coisas, muitas lições de vida com o tênis. E o tênis tem essa liberdade de tu estar uma semana aqui, semana que vem nós estamos em Buenos Aires. Depois de Buenos Aires, eu vou voltar para casa e vou para a Austrália, vou dar um tiro lá, não estou a fim de jogar quali. Agora realmente eu acho que consigo jogar dois, três, quatro, cinco dias seguidos sem ter um pico de dor muito grande. Eu acredito nisso, então vou atrás do que eu acredito. É um negócio sensacional tu ter essa liberdade de poder fazer essas coisas. Tu tá fazendo isso na melhor idade da vida. Eu tenho amigos que têm dinheiro, mas os caras trabalham 15 horas por dia dentro de um escritório. Aí tu senta para jantar com os caras, eles contam história da viagem que fizeram ano passado, nas férias deles. “Tá, e depois?” “Depois eu trabalhei, eu trabalho pra caralho, ganhei um milhão e meio este ano.” “Ah, legal, mas e que mais?” “Pois é, no final do ano eu vou de novo passar Natal não sei onde.” Cara, não, velho, eu, não. Eu já fui, voltei, fui, voltei, fiz, aconteci e tal. E esse dinamismo da vida do tênis e dos desafios diários.. Cara, isso aí não tem preço. Acho que é um negócio que é um aprendizado e é uma coisa que tu leva pro resto da vida. Obviamente que é uma pena que tu tenha um prazo de validade para esse estilo de vida, mas, cara, eu tô muito tranquilo pro que vier para a frente porque eu aproveito e tenho aproveitado bastante.

Você sente que muita gente se foca demais na quadra e de repente deixa de aproveitar a vida? Não falta isso?

cada um tem sua maneira de ver a competição, né, cara? Eu acho que a competição é muito dura, é muito difícil, assim, mas, cara, a competição é ali dentro da quadra. Fora da quadra, não preciso competir com ninguém. Eu sou um cara que rendo melhor dentro da quadra estando feliz. E assim, uma das coisas boas de o cara ficar mais velho é que o cara realmente sabe as coisas que ele não quer. Então você só faz as coisas legais. Por exemplo, eu gosto de comer bem, então vou no restaurante que eu quero, que eu gosto, esse tipo de coisa. Putz, eu treino, faço a minha rotina ali, mas se eu puder acabar mais cedo e curtir o meu momento, eu vou querer curtir o meu momento, cara. Eu quero ter o meu espaço, quero ter um pouquinho de vida. Eu acho que as pessoas acabam não tendo vida, entendeu? Essa rotina do tênis tira muito a tua vida, sabe? Tu vai para um lugar, sei lá, para Praga. Tu tá em Praga. Foi tua opção, tu escolheu estar lá. Só que tu está lá com as pessoas que, de repente, você não escolheria, estar com eles. Se pudesse escolher, estaria com fulano, siclano, não com esses aqui. Mas, cara, você tem uma opção: ou tu curte com esses ali ou, putz, fica deprimido, ou fica fodido. Eu prefiro ser o que quero aproveitar, entendeu? Essa é a minha parada.

Você leva isso em consideração quando monta um calendário? Porque o seu calendário é muito diferente do de qualquer outro brasileiro. Você joga na Finlândia, este ano você foi para a Nova Caledônia em janeiro…

Eu vou te dizer que assim… eu sempre passo bastante tempo na Europa. Tenho grandes amigos lá. Posso dizer realmente que tenho caras muito legais mesmo, amigos de verdade. Até esse ano meu amigo não pôde estar lá uma parte, o cara me deixou casa, carro… Ele fala “nem manda as roupas na lavanderia, vai na minha casa, deixa com a minha mãe que ela vai lavar pra ti.” Assim! Cara, são laços que eu criei no tênis, então sempre no começo de maio eu vou pra Europa e volto só no US Open. Sempre tem esse espaço grande de tempo que eu vou estar na Europa jogando, cara. E lá tu vai vendo, depois, o que realmente tu gosta. Eu implico um pouco com a Itália, não gosto muito de jogar lá.

É desorganizado, bagunçado?

Itália é assim… Um país muito legal e tudo, mas pra ti ir de férias. Para ir a trabalho… Eu não gosto de jogar na Itália. Eu implico. Daqui a pouco tu vai num lugar, é quente, tem os mosquitos. Tu come mosquito durante o jogo, aí daqui a pouco, se tu chega no hotel, não sei, o hotel é velho, o ar-condicionado não funciona, é um calooooooor. Entendeu? Putz, cara, eu não gosto. Eu não funciono bem na Itália. Então a Itália eu sempre tiro um pouco. Isso sempre foi uma das coisas que, pô, entre jogar Itália e Tampere, eu fui para Tampere. Aí, cara, Tampere é muito legal. Aí tu jogou bem lá, por que não ir lá de novo?

Este ano você jogou na Holanda também?

Alphen [Aan Den Rijn], né? Eu joguei. No ano passado, joguei interclubes também. A Holanda é muito legal. Os caras são bem organizados, tudo funciona, é muito parecido com a Alemanha. Acho até que os caras são mais relax, assim. Também tenho grandes amigos na Holanda. Joguei interclubes ano passado do lado de Roterdã, e foi muito legal. Eu me sinto muito bem na Europa. Sempre quando eu jogo, assim, vários lugares tipo Meerbusch, que é do lado de Dusseldorf, que é a minha região, eu fico do lado, ali.

Você tem família alemã, não?

Tenho, só que não tenho passaporte alemão. Mas assim, a primeira vez que eu fui jogar, quem conseguiu foi o Tomás Behrend. Ele ate vai estar agora, dia 23, 24, acho, vai lançar a biografia dele. O irmão [Martin Behrend] dele escreveu. Mas [na primeira vez] O Tomás que me convidou, fui jogar interclubes a primeira vez lá com ele, e aí, desde então, isso faz oito, nove anos. Eu sempre ficava em hotel, hotel. Na Alemanha não é tão fácil de fazer amigos. Aí um dia eu disse “quero mudar”, o cara disse “vem para minha casa”, acabei ficando muito amigo do cara, ele também veio uma vez para o Brasil, e depois mudou tudo. Tudo abriu. Sempre que eu vou para a Europa os caras me dão carro, casa, me pegam no aeroporto. Tem uma turma muito grande, e tudo foi por causa do interclubes. Uma coisa foi puxando a outra.

Eu queria falar da sua vida no circuito, então não levei adiante o assunto do teu cotovelo lá atrás. Mas falando disso agora… Você está com 35 anos. Bateu o medo em algum momento de não conseguir mais jogar e, por isso, veio uma necessidade de aproveitar ainda mais o circuito agora?

Cara, bateu o medo no sentido de tu fazer todo tipo de tratamento e não sentir muita melhora. Tu dormir e acordar de madrugada e ter dor no braço. Putz, me passou várias vezes assim de… Não achar uma solução, cara! Aí tu vai no médico, ele diz “vamos tentar ondas de choque”, aí tu diz “muito legal, vamo”. Aí dói, dói, dói, aí tu diz “mas semana que vem vai estar melhor.” E nada. Cara, é bem difícil, assim, mas por outro lado, pelo fato de eu ter os interclubes, esses amigos, de ter tantos vínculos que eu criei, me dá uma segurança no sentido de, sei lá, velho, se eu parar hoje, se eu voltar ano que vem a bater uma bola, eu posso ir lá e jogar interclubes que os caras vão me adorar igual. Assim, o diferente da Europa que eu vejo é o nível de tênis que tu joga é um negócio que não interessa o número que tu é. Se tu sabe que pode ir lá e ganhar do cara, os caras não estão nem aí pro número que tu chega. Entendeu? Eu tenho tudo acertado pro ano que vem. Se não der [no circuito], eu vou pra lá e depois eu vejo, não sei. Tenho algumas outras coisas em mente, mas nada concreto. Hoje, eu estou com zero medo do que for vir para a frente.

Essa questão de se avaliar a pessoa pelo nível de tênis e não pelo ranking foi algo que você abraçou? Do tipo… Você já foi 118 do mundo. Não te incomoda não ter sido 100?

Ah, incomoda, claro. Sem dúvida.

Porque faltou pouquinho…

Faltou pouquinho, cara. Faltou pouquiiiiinho! Mas o que que eu vou fazer? Não deu. Gostaria de ter a oportunidade de estar 118 de novo para ver se conseguiria ou não, mas claro, ainda tenho um caminho longo pela frente, mas, cara, é aquela coisa… O nível de tênis é uma coisa interessante. Quando tu joga na Europa, tu fica um pouco longe da pressão, dos comentários, dos holofotes, e isso acaba te engrandecendo como jogador mesmo. Tu vê que lá, cara, tu não pode enganar, cara. Lá, tu vai ter que jogar pra ganhar. Qualquer coisa que tu for jogar lá, é duro! É duro! Os caras têm nível de tênis. Qualquer coisa é um desafio grande. Por eu ter ido lá tantas vezes, por ter passado tanto tempo lá, acho que isso foi uma das coisas que eu adquiri. Eu consegui ter uma consistência no meu tênis. Se tu for ver, sempre que eu joguei no Brasil, assim, nunca perdi para caras muito abaixo do meu ranking. Eu sempre tive uma consistência porque eu tinha nível, sabe? Meu tênis está forjado. Claro, vai ter jogos que tu vai estar um pouco pior, mas durante o jogo tu vai criar chances de mudar a figura do negócio, entendeu? E, cara, isso é nível. Isso, cara, tu só pega se jogar todo dia com cara duro. Se tu jogar com um cara fraco, um cara bom, um cara fraco, um cara bom, tu vai sempre oscilar. E lá, não. Lá, tu aprende a ser reloginho. A todo dia ir ali na quadra e pum, meter as devoluções. Todo dia, ir ali no 30/30 e acertar o primeiro saque. Isso aí vai te fazer um grande jogador, e sempre foi isso que eu busquei. Putz, hoje eu tô quase 500, mas cara, daqui a pouco, se encaixar, velho, eu volto pra 200 e estou no páreo de novo. Hoje eu me sinto muito bem fisicamente.

Esse é outro aspecto importante…

Eu acho que eu me adaptei às grandes mudanças do circuito. Antigamente, quando eu era mais novo, todo mundo tinha uma visão diferente do que era necessário para ser um grande jogador. Hoje em dia, os jogadores de tênis são atletas melhores do que antigamente. Entrei nessa também. Eu me preparo muito melhor, tenho um cuidado muito maior com a alimentação. Não estou muito preocupado com a idade. Eu me sinto muito bem, cara, porque me desgasto mentalmente muito menos. Se tu for ver, não é o físico. É o mental que te mata. Então estou tranquilo.

Na conversa que tive com o Clezar, ele falava que quando chegou a 150, 80% dos pontos dele eram aqui, no Brasil e na América do Sul. Quando foram desaparecendo os torneios do Brasil, ele precisou ir mais para a Europa e disse que encontrava chaves muito mais homogêneas e não sei se é justo fazer essa pergunta, mas um número grande de torneios no Brasil cria um ranking falso ou enganoso?

Era pior quando tinha 35 Futures. Se tu contasse o ranking do 200 ao 500 [do mundo], tinha 35 jogadores [do Brasil], entendeu? Mas eu acho que precisa ter para incentivar o tênis também, senão acaba fechando muitas portas no sentido de… Por exemplo, tu bota um garoto como o que eu joguei hoje [Christian Oliveira, 1.666 do ranking, wild card em Campinas], assim… É um guri que, longe de eu saber se vai jogar ou não, mas o cara tem um caminho longo para percorrer e, cara, é muito mais fácil de começar e ensaiar fazer boas campanhas no teu país. Não digo que tenha que ter 20, mas pelo menos oito ou dez Futures para pelo menos tu jogar, saber as condições que tu vai enfrentar. Não precisa ter 15 Challengers, mas teria que ter seis ou sete. Tem aquela época que é bom de jogar em casa porque a gente tem uma desvantagem muito grande em relação aos europeus…

Eles gastam muito menos para jogar e viajar.

Não só gastar, cara. A gente viaja muito, cara. A gente passa o ano inteiro. Nos últimos três anos, eu faço 120 mil milhas por ano. Tu não tem ideia do que é isso. Tu arranca o ano, vai pra Austrália. Volta. América do Sul é longe pra caralho. Tu vai pra Colômbia, bicho, dá 15 horas, 17 horas para ir. A passagem custa mil dólares. Os meus amigos [na Europa] perdem na terça, os caras vão jantar em casa! Terça de noite o cara está em casa! O cara tá fresco. A gente tem um desgaste muito grande. Cria um ranking falso? Não acho que é um ranking falso. Acho que é justo um pouco com nós. A gente tem que jogar um pouco no nosso país no sentido de dar um time para a gente, para a gente viajar um pouco menos. Se tu for ver, o calendário para a gente é muito desgastante. Chega no fim do ano, essa gira da América do Sul para a gente é um horror de fazer. Tudo é longe, é caro. Essa gira é US$ 2 mil, US$ 2.500 para jogar os torneios. “Mas é do lado.” Pô, vai pra Colômbia, vai pra Lima! São Paulo-Lima são cinco horas de voo. São Paulo-Bogotá são seis horas. Pra Guaiaquil, putz, não tem voo direto pra Guaiaquil. Para a gente, é muito desgastante nesse sentido, sabe? Os europeus viajam com treinador… Bota no meu carro, 4h vou de carro. Lugar longe é lugar que tem que voar duas horas. Se tiver que fazer três semanas assim, o cara tá queimado. Tanto que os europeus, quando vêm pra cá, são mansinhos. Se tu pegar um europeu aqui, o cara vem mais maaaaanso.

No fim do ano passado, conversei com o Thomaz Koch sobre o tempo que ele foi seu técnico e vocês viajaram juntos. Ele disse que vocês falavam muito mais sobre a vida do que sobre tênis. Agora eu queria ouvir de você alguma história dessas…

É, foi muito legal. Cara, pra ti ter uma ideia, na época que a gente viajou junto, eu comprei um helicopterozinho de controle remoto. Cara, nós ficávamos andando dentro do quarto fazendo pousos, assim. Ensinei ele, e ele pilotava o tal do helicóptero. Tinha um pouco de dificuldade para fazer o pouso (risos), mas assim… foi muito legal. Para mim, obviamente, tu estar com o Thomaz, ele é um cara que passa uma energia muito boa. Ele tem uma coisa diferente, assim, nele. A aura dele é diferente. Como ele estava fora do circuito, ele não conhecia os caras contra quem eu ia jogar, mas antes de uma partida… Eu sou um cara que meu jogo tem muitas possibilidades, mas como eu te falei, eu preciso estar feliz dentro da quadra. E ele era um cara que me deixava tranquilo. É um cara que você está se preparando para jogar, ele está te falando uma coisa boa, interessante, está te acrescentando alguma coisa. Não é um cara que está te dispersando, não está te tirando energia. É um cara que sempre te acrescenta. E, cara, ele realmente vestiu minha camisa no sentido de olhar para ele do lado da quadra, e ele estava lá 100%. Tu ver um cara de 70 anos, com todo o histórico, com toda a vida que ele teve, pô, é uma honra tu ter o Thomaz Koch no teu banco. O cara está vibrando contigo. Pô, foi muito legal. Uma pena eu não ter passado o quali de Roland Garros, que ali acho que foi… o jogo escapou contra o Dzumhur [em 2014, Ghem perdeu na última rodada do quali por 7/6(8) e 6/2]. Mas, cara, foi muito legal. O Thomaz não tem o que falar. A gente comeu bem, jantou bem, foi demais, cara. Demos muita risada. Grandes lembranças!

A última vez que a gente conversou num Challenger, você estava lendo “Pantaleão e as Visitadoras.” Não é qualquer tenista brasileiro que lê Vargas Llosa, então eu quero saber o que você está lendo agora. Até porque a Lia [Benthien, assessora de imprensa do torneio] falou que você também andou lendo “50 Tons de Cinza”.

Cara, agora, putz, por incrível que pareça… Estou fazendo marketing e tive provas essa semana. Como o prazo foi quando eu estava na Europa, tem um sistema que você tem que acessar uma pessoa para liberar pra ti poder fazer as provas em Porto Alegre… Eu fiz seis provas em dois dias, aí falei “nem vou levar meu computador”. Hoje, não tô lendo nada.

Mas você escolhe livro baseado no quê?

Na verdade, muitos anos atrás, o cara que foi o grande incentivador, foi quem chegou pra mim e disse “Bah, Alemão, eu gosto muito de ti, mas não dá pra conversar contigo se tu não começar a ler”, foi o Roberto Marcher. Ele é um cara que eu considero muito, um cara que também teve uma convivência muito grande com o Thomaz Koch…

E ele também tem essa coisa meio guru, não?

Cara, o Roberto eu não tenho nem palavras pra te descrever. Acho que é um cara sensacional. Muito do que eu li foi o Roberto que me disse “tu tem que ler isso, tu tem que ler aquilo. Você tem que ler, sei lá, John Fante, tu tem que ler Raymond Chandler”, aí vou lá e leio. Sempre foi um cara, assim, que ia me dizendo “vai lendo isso, vai lendo aquilo.” Tu liga pra ele agora aqui, pô, ele te diz uns livros que tu nunca ouviu falar. Tem que dar uma filtrada, sabe? Mas ele foi o cara que me disse “tu vai ser outro cara quando começar a ler.” E aí comecei e, putz, é uma coisa que eu realmente gosto de fazer e leio no Kindle.

Pra terminar… Você é casado, tem filho?

Eu tenho namorada, moro junto há alguns anos, já, mas não tenho filhos.

A ATP badala muito a hashtag #NextGen, e eu queria encerrar esse papo, já que a gente começou com uma hashtag, terminando com outra. Quem você gostaria que fosse o #NextGhem?

Cara, eu acho que eu sou um cara muito aberto. Tenho uma opinião bem definida sobre esse assunto. Eu não quero ter filhos. Nunca quis. A minha família é eu, meu pai, minha mãe e minha irmã. Ela tem 38, é três anos mais velha que eu, é casada já, também não tem filho e não está planejando. Cara, eu acho que, assim, eu sou um cara que abri mão de muita coisa pelo tênis. É a coisa que eu amo, é a coisa que eu faço, mas eu tenho muito claro que não é o que eu escolheria. É o que eu faço e tenho que fazer. Se eu quiser ir morar na Austrália, ficar três meses lá, não posso fazer. Não posso abrir mão porque eu só posso jogar tênis agora. Eu abri mão de tudo. Foi a minha opção, foi o que eu quis fazer. Mais para a frente, não vou querer abrir mão. Vou querer fazer o que eu escolher, o que tiver a fim de fazer. Não vou querer ocupar meu tempo com filho. Imagina que todos meus amigos têm filhos. Todos. Meus amigos todos já casados. Mas eles casaram porque eles têm uma vida normal. Eu não tenho uma vida normal. Sábado de noite eu tive que dormir cedo porque tinha que jogar domingo de manhã na Copa Thomás Engel. Sabe? Tudo que eu fiz valeu a pena, não me arrependo de nada, mas mais pra frente, não. Não quero ter que levar criança no colégio. Não quero ninguém que seja parecido comigo, que faça o que eu digo. Não quero ensinar ninguém, não quero que me copiem, não quero! Não quero! Eu tenho essa opinião muito formada. Estou bem assim. Eu acho que tenho muitas possibilidades depois de jogar tênis…

Não tem um plano agora de “quando parar, quero fazer isso”? Vai ser o que vier no momento?

Eu gosto muito de falar sobre tênis. Acho que tênis no Brasil é um assunto bem complicado porque acho que o brasileiro sofre um pouco. As pessoas que falam sobre tênis talvez não sejam tão boas, não sejam tão competentes no sentido de… Cara, as pessoas que falam não têm propriedade para falar. Isso é uma coisa que me indigna um pouco, sabe, cara? Acho que tem um espaço muito grande, na TV especialmente. Se transmite muito. Se for comparar com o resto dos países… Tu vai na Europa, não passa um torneio. Aqui a gente pode. Tem todos os Masters, todos os slams. São muitas horas, e as pessoas aprendem muito pouco. Tu liga num canal gringo, pega ali o Patrick McEnroe, o cara sempre fala um troço bacana. O Boris Becker por muitos anos foi ridicularizado na Alemanha porque foi um grande jogador, mas só fez merda na vida [extraquadra] dele. Só cagou. Agora ele está ganhando credibilidade de novo porque, pô, está na TV. Foi para o Europort agora e fala coisas muito legais. Então ele está conseguindo ganhar um espaço de novo. Eu acho que ali é um espaço que, pô, as pessoas poderiam aprender muito mais e acabam não pegando porque as pessoas não têm propriedade. As pessoas que estão ali, em vez de ajudar acho que pioram, entendeu? Isso é das coisas que talvez eu gostaria, sim, porque poderia mudar um pouco isso aí. Mas não sei, vamos ver.

Muito tenis no Pelas Quadras ao vivo as 21 hrs. Espn

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Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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