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Saque e Voleio

Japão x Brasil, dia 1: duas derrotas e uma reação deselegante

Alexandre Cossenza

15/09/2017 06h01

Não poderia ter sido pior para o Brasil o primeiro dia do confronto contra o Japão, em Osaka, válido pelos playoffs do Grupo Mundial da Copa Davis. Mesmo diante de um time japonês desfalcado de seu melhor tenista, sob os olhos de uma torcida modesta, que pouco barulho fez, e em uma quadra lenta, que foi uma surpresa agradável para o capitão João Zwetsch, a equipe brasileira terminou a sexta-feira com um saldo de duas derrotas e o agravante de (mais) uma cena deselegante de um integrante do time.

No primeiro jogo, deu o esperado. Guilherme Clezar (#244) até teve suas chances contra Yuichi Sugita (#42), mas os seis games seguidos que perdeu no primeiro e no segundo sets tiveram peso considerável. O gaúcho teve game point para forçar o tie-break na segunda parcial e sacou para fechar a terceira. Não aproveitou as oportunidades e levou 6/2, 7/5 e 7/6(5), cedendo cinco pontos de graça no game de desempate que selou a partida.

Não dá para dizer que esse resultado fez grande diferença nas chances brasileiras, já que, no papel, era o único jogo com um claro favorito. Não se esperava mais de Clezar. Triste mesmo foi a reação deselegante do gaúcho a um erro de marcação de um juiz de linha japonês durante o tie-break. O vídeo abaixo é autoexplicativo. Vejam:

Doído mesmo foi o segundo jogo, que mostrou um pouco do que aconteceu com Thiago Monteiro em vários momentos de sua temporada: um bom começo, pontos mal jogados fora do fundo de quadra, demora a responder ao que acontece em quadra e uma derrota de virada. É bem verdade que o cearense brigou e forçou um quinto set quando o jogo parecia perdido, mas no fim a derrota veio do mesmo jeito.

No começo, Monteiro foi incrivelmente superior durante cinco games. Abriu 5/0 e acumulou "gordura" para fechar a parcial em 6/3. Só que Soeda, #139 do mundo, já era o melhor tenista em quadra quando a segunda parcial começou. O japonês passou a agredir mais, encaixando boas devoluções de saque e jogando mais dentro da quadra, frequentemente tirando de Monteiro o controle dos ralis. E quando a dinâmica do duelo mudou, o cearense demorou fazer a coisa voltar para o seu lado. Só reagiu depois de um tempo médico estratégico antes do oitavo game do quarto set, que terminou com uma quebra. A partir dali, o brasileiro agrediu mais, errou menos e brilhou em um tie-break quase perfeito para forçar o quinto set.

Soeda, que sacou para o jogo em 5/4 no quarto set, dava sinais de esgotamento na parcial decisiva, mas encontrava maneiras de manter seu serviço sem drama. Foi aí que Monteiro vacilou. Com 30/30 no 2/3, errou um voleio fácil e cedeu o break point. Uma ótima devolução de segundo saque do japonês conseguiu a quebra. O cenário do quarto set se repetiu, e Soeda perdeu o saque quando tinha 5/3 de frente. Desta vez, no entanto, Monteiro cedeu seu serviço no 4/5 e viu o time japonês comemorar depois de 3h41min de partida: 3/6, 6/4, 6/3, 6/7(1) e 6/4.

Coisas que eu acho que acho:

– Óbvio que não é impossível uma virada brasileira. A dupla de Bruno Soares e Marcelo Melo é favoritíssima no sábado e deve manter a equipe com vida. O que parece ser o maior obstáculo no momento é a dependência de um triunfo de Clezar contra Soeda no domingo. O gaúcho nunca venceu uma partida de nível ATP na vida e fez hoje apenas sua terceira partida em melhor de cinco sets na vida. Depender de Clezar em um quinto jogo de Davis, com o peso de uma nação nas costas, não é o melhor dos cenários.

– Sobre a reação do vídeo postado acima, quem circula por Challengers e outros torneios no país sabe que Clezar tem fama de mal-educado. Quem conversar com boleiros e árbitros vai ouvir que o gesto é apenas mais um para o gaúcho. É o tipo de comportamento que "passa" nos torneios menores. Quase ninguém vê e a repercussão é quase zero. Quem chega assim no nível ATP logo descobre que precisa mudar. Clezar ainda não chegou. Mas, longe de querer isentar o atleta, o que esperar de um integrante da delegação quando o presidente da CBT, Rafael Westrupp, dá um exemplo fazendo o que fez postando este vídeo?

– Tanto Westrupp quanto Clezar precisam dar graças aos céus por ser um confronto de playoff, quase sem imprensa internacional cobrindo. Fosse um duelo mais importante ou contra outro país, os gestos de ambos poderiam ter repercussão muito maior e, consequentemente, muito pior para o Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.