Saque e Voleio http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br Se é sobre tênis, aparece aqui. Thu, 23 Nov 2017 09:00:45 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Rogerinho: muita gente no Brasil chora, mas não paga o preço http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/23/rogerinho-muita-gente-no-brasil-chora-mas-nao-paga-o-preco/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/23/rogerinho-muita-gente-no-brasil-chora-mas-nao-paga-o-preco/#respond Thu, 23 Nov 2017 09:00:45 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5702

Se o tênis profissional brasileiro tem uma autoridade em “pagar o preço”, essa pessoa atende pelo nome de Rogério Dutra Silva. Rogerinho fez um pouco de tudo para financiar os primeiros anos de sua carreira e deu outra lição quando, já com mais de 30 anos e fora do grupo dos 500 melhores do ranking, levantou-se e alcançou a melhor posição da carreira este ano: o 63º lugar na lista da ATP.

Por isso, concordando ou não, todo mundo deveria prestar atenção no que Rogerinho diz quando fala do cenário do tênis no país: muita gente chorando, sem correr atrás, centro de treinamento inexistente, ex-tenistas nada envolvidos no desenvolvimento de atletas e pouca troca de informações.

Rogerinho e eu conversamos na última terça-feira, no Challenger do Rio de Janeiro, onde o paulista, atual #101 do mundo, faz o último torneio da temporada. O papo não foi só sobre tênis brasileiro. Rogerinho fala sobre seu 2017 cheio de lições e momentos marcantes, como a vitória sobre Youzhny em Roland Garros, a não-ida à Copa Davis, os triunfos em quadra indoor e o melhor ranking da carreira.

O atual #1 do Brasil falou ainda sobre a mágoa de ser visto como “tenista de saibro”, de quanto o circuito se profissionalizou nos últimos dez anos e de como corre atrás de cada detalhe para ser ainda melhor aos 33 anos – e isso inclui analisar vídeos de cada adversário. Role a página e curta o papo na íntegra.

Você começou a temporada como #98 e está #101 agora. Olhando o ranking, dá a impressão de que você não saiu do lugar, mas não é bem assim, né? Você chegou a #63 em um momento. Foi uma temporada mais legal para você do que este ranking de agora indica, né?

É engraçado, né? Não sendo mala nem nada, mas fica um gosto um pouquinho amargo porque eu acho que tive uma temporada bem boa, ganhei em lugares que eu não havia ganhado jogo ainda, ganhei jogo indoor, em quadra rápida, em condições que para mim há um tempo atrás eram consideradas “injogáveis”. Eu venho melhorando ao longo dos anos, mas também fico muito feliz porque digamos que foi o primeiro ano em que eu consegui jogar mais consistente em nível ATP. Queira ou não queira, isso te coloca em pegadinhas de calendário, disso, daquilo. É uma coisa que você tem que vivenciar e tem que passar por isso. Então foi um ano – está sendo um ano, né? Não posso falar (no passado) porque estou jogando ainda, aqui é minha última semana, mas está sendo um ano de muita aprendizagem.

Isso é uma coisa que eu já escrevi algumas vezes e não sei o quanto as pessoas percebem vindo de você, mas toda vez que alguém fala “o Rogerinho é um cara do saibro”, eu sinto que isso te incomoda.

Me incomoda porque…

(interrompendo) Você tem título de Challenger em quadra dura, tem vitória em slam na quadra dura…

Isso me incomoda um pouco também porque acho que é olhar o Rogerinho de dez anos atrás. Se você falar do Rogerinho de dez anos atrás, eu vou concordar. Só que se você olhar os scores e fizer um levantamento, eu tenho uma média boa de quadra dura e venho jogando bem em quadra dura. Então isso às vezes me incomoda um pouco, sim. Lá atrás, pode ser. Agora… Se você olhar e colocar os dados mesmo, acho que não é tão verdade.

E a gente teve uma conversa parecida em 2011, seis anos atrás – nossa, já tem isso tudo? – quando você ganhou o Challenger de Campos do Jordão (em quadra dura e na altitude), perdeu na última do quali no US Open, acabou entrando de lucky loser e ganhou jogo na chave. Quer dizer, não é algo que começou ontem…

Eu já falei algumas vezes. Três vezes fiz segunda rodada do US Open. Na Austrália eu ganhei jogo, então agora nos indoors faltou engatar um pouquinho, mas ganhei jogo em São Petersburgo, ganhei jogo em Moscou também… Na China, deixou a desejar um pouco. Na verdade, me incomoda porque é aquela coisa de antigamente ainda. Não é uma coisa mais atualizada.

Eu ia perguntar isso mais para a frente, mas como você citou o Rogerinho de dez anos atrás, como você vê o circuito hoje em comparação com 2007?

Em relação a quê?

Tudo. Estilo de jogo, preparação física, velocidade de quadra, bola… É um mundo muito diferente?

Acho que ficou muito mais profissional. O nível está muito mais perto. Para quem não conhece tanto de tênis e diz “como esse cara perdeu para aquele outro?” Cara, hoje se você está um pouco abaixo ou não está humilde, o pessoal vem e passa por cima de você. Acho que tudo ficou muito mais profissional. Eu já falei isso mais ou menos para você. O pessoal está muito mais ligado em termos de alimentação, em termos de preparação física, de calendário, em termos de pontos… Está todo mundo ligado nesse negócio da informação muito rápida na internet. E quem está demorando um pouco a tomar algumas decisões está ficando para trás.

Você falou da internet… É uma coisa que a sua geração não tinha quando começou. Quer dizer, tinha internet, WiFi e tal, mas não tinha smartphone. Você não ficava o tempo todo conectado, lendo ou sabendo o que o outro está tweetando… Nem os placares da ATP. O aplicativo deles é de 2010.

É, hoje a gente estuda muito por vídeo. Se eu vou jogar com o Cossenza, eu vou olhar o que ele faz de importante, onde ele saca nas horas importantes. “Ah, ele tem uma porcentagem um pouco mais para esse lado aqui nessa hora”, então é como eu te falei. Está todo mundo estudando o tempo inteiro o que você está fazendo, como está jogando, o que está treinando… Então se você baixou um pouquinho…

Isso você e seu técnico fazem por conta própria ou a ATP dá alguma informação a que nós da imprensa não temos acesso?

Não, isso a minha equipe faz bastante para mim. Meu técnico faz isso, meu preparador físico faz uma parte de olhar a parte física de outros jogadores – através de vídeos de jogos também – e vê se um cara está mais lento um pouco desse ou daquele lado. Em cima disso, a gente tem, digamos, uma preleção, e aí a gente decide por onde a gente vai jogar.

Você está mais forte ou é a camisa vermelha que dá a impressão de que você aumentou no bíceps?

(Risos). Não sei, cara. Eu venho trabalhando bastante. Graças a deus, com o ranking que tive este ano, estou conseguindo investir mais na minha equipe. Estou viajando mais com técnico. Em muitas semanas estou viajando com o preparador físico também, isso te deixa num nível mais alto.

Faz uma diferença enorme, né? A partir do momento que você cruza a barreira do top 100, se você consegue jogar os quatro slams, são quase US$ 200 mil só de primeira rodada. Então a diferença do #103 para o #105, financeiramente falando, pode ser enorme ao longo de uma temporada.

É muito diferente. E aí te muda muito. Porque é semana de técnico, porcentagem, semana de preparador físico… São as passagens aéreas, que são muito caras, as mudanças… Eu tenho ido muito a Buenos Aires para treinar, então é um gasto extra também… E tudo isso tem que sair de algum lado. Ainda não tenho um patrocinador forte, então é como você falou. Até por isso, quis jogar no Rio também. Para ver se consigo jogar bem esta semana. Tenho grande chances de entrar (no Australian Open) mesmo se não jogar bem esta semana aqui, mas se eu conseguir terminar nos #100 eu corro menos risco, consigo organizar melhor o calendário do começo do ano, então isso, para mim, seria muito importante.

Você teve algumas vitórias em bacanas nesta temporada, como a da Austrália (6/4 no quinto set contra Jared Donaldson) e a de Roland Garros (6/2 no quinto set contra Mikhail Youzhny, voltando de lesão). Minha preferida foi a de Paris. Qual o seu momento preferido?

Teve alguns, cara. Foi um ano de muita descoberta. Eu nunca tinha ganhado na Austrália uma rodada, em Roland Garros foi muito bacana porque eu vinha de uma lesão, joga, não joga, uma novela. Testa isso, testa aquilo, não treina, salva match point, ganha, então foi uma coisa que foi uma satisfação muito bacana. E também teve a parte dos torneios indoor, que é uma coisa que você não está habituado como é o dia a dia. O André Sá me deu vários toques. “É assim, assado, tenta fazer isso…” Teve vários momentos muito bacanas porque foram vários momentos de descoberta. Acho que o ano inteiro foi legal. Não há uma parte do ano que eu falaria que foi a melhor.

E teve uma parte pior?

Acho que a China foi bem complicada para mim (Rogerinho perdeu na primeira rodada em Shenzhen e na segunda rodada do quali em Pequim). Foi muito complicada. Foi a primeira vez que eu fiz, e o fuso horário me pegou muito forte, a alimentação me pegou muito forte. Eu não conseguia dormir, fiquei doente e foi uma coisa bem complicada. Eu não estava nem 70% do que eu poderia jogar.

O quanto te chateou ficar fora da Copa Davis? (Rogerinho dispensou uma convocação de emergência depois de ter sido preterido pelo capitão João Zwetsch na primeira formação da equipe – leia mais aqui)

O “ficar fora da Copa Davis”, pra mim, nunca foi o problema.

O processo é que te incomodou?

Acho que o processo é que me incomodou um pouco. Não foi tão legal.

Você chegou a ver ou ler sobre o confronto?

Cheguei a ler. Não vi jogo, mas sim, fiquei sabendo do que aconteceu. Infelizmente, é ruim quando o Brasil perde. Eu torço sempre para ganhar, então não é legal, né?

Até uns cinco, seis anos atrás, o normal era olhar para um atleta, ver 30, 32 anos e imaginar que ele está na reta final da carreira. Hoje, não é tão assim. Tem mais gente jogando até 37, 38… Como está na sua cabeça esse momento?

Eu, na verdade, não penso nisso. Estou com 33 e acho que este foi o meu melhor ano na ATP. Melhor ranking, descobertas, então não penso muito nisso. Estou no dia a dia, tentando ficar melhor, mais forte, tentando melhorar as coisas que a gente acha que tem que melhorar… Acho que tenho uma média de dois, três anos, quem sabe até quatro para jogar. Se vai dar, aí vai ser com o decorrer…

Dizem que cachorro velho não aprende truque novo, mas o que você acha que evoluiu este ano e o que você acha que ainda dá para evoluir?

Acho que estou ficando cada vez mais versátil. Estou conseguindo jogar mais em lugares rápidos, quadra dura. Fiz uma partida dura com o Paire em Wimbledon (o francês venceu em quatro sets), que é um lugar complicado para os brasileiros jogarem… Dupla eu venho jogando legal também. Fizemos quartas em Paris e por pouquinho não fizemos quartas no US Open de novo… E para melhorar? Acho que tem várias coisas. Estou aprendendo cada vez mais que este nível que entrei este ano, se eu quiser estar lá, tenho que estar mais maduro ainda, mais competitivo, mais forte… Acho que são várias coisas para melhorar para te dar, no caso, essa folga que faz a diferença entre estar #60 e estar #100.

Nenhum aspecto técnico específico? Nem saque, nem direita, esquerda…

Acho que isso aí é um pacote completo. É mais a constância em si e não um golpe, uma coisa técnica. Óbvio que você tem que melhorar um pouco a devolução, um pouco o saque, mas acaba sendo melhorar um pouquinho o todo. Mas isso tudo é melhorar um pouco a constância.

Não ter dias ruins, né?

Exatamente. Esses caras conseguem jogar por mais tempo em nível maior. Eu ainda às vezes jogava um set… O meu jogo com o Bautista Agut, por exemplo (o espanhol venceu por 6/0 no terceiro set): eu joguei um segundo set incrível (venceu por 6/4). Incrível! E depois caiu muito e acabei perdendo por 6/0. Você fala “eu fiz um jogo bom”, mas eu baixei isso aqui (mostra um espaço mínimo entre os dedos). Contra um cara que está 13, 15 do mundo, 2% que eu baixei, ele passou por cima. São essas coisinhas que ainda estão fazendo essa diferença para mim, para eu estar num ranking um pouco melhor, mais ali dentro.

Eu sempre gosto de lembrar desse caso… Ter passado por aquela lesão no pé que te tirou dos 500 e que, dois anos depois, você era 63 do mundo… Que lição que hoje você tira desse período?

Cara, eu acho que… Eu acho que a gente, quando tem um objetivo, tem que colocar a cabeça no que quer e tem que pagar o preço pelo que quer. Quando eu voltei, eu decidi que se eu voltasse e deixasse minha família em casa, minha mulher e minha filha em casa, eu teria que fazer tudo que fosse…

Sua filha estava com seis meses?

Seis meses. Então eu coloquei na cabeça que eu ia abrir mão de muita coisa. Eu peguei minhas coisas, fui para a Argentina e comecei um processo que era viajar com técnico, viajar com preparador físico… Fiz um investimento muito alto para isso e parou aquela coisa de chorar, né? (risos) Acho que hoje em dia, muita gente chora que não tem isso, não tem aquilo, só que não busca também. Isso, para mim, foi o mais importante. Quando eu sentei com a minha equipe e falei o que eu queria, e eu fui bem sincero no que eu queria e estava proposto a fazer, eles ficaram até um pouco assustados (risos)… Mas eu acho que foi isso, essa perseverança, esse negócio de estar com uma idade alta e deixar a família em casa, ter que ir para outro lugar para treinar, outra comida, outra cultura, entendeu? No primeiro ano, fiquei três meses na Europa direto. No segundo ano, fiquei dois meses e pouco na Europa. Acho que foi esse pensamento de sair, digamos, da zona de conforto.

Você está falando isso e eu estou lembrando de uma entrevista que você deu pro João (Victor Araripe), que foi bastante compartilhada, em que você conta o quanto ralou lá atrás, a história das lasanhas congeladas (risos de ambos) e tal… Isso era uma coisa que você precisava passar para chegar nos 30 anos e dizer “eu posso”?

Não sei se eu precisaria passar. Eu preferiria não ter passado (risos de ambos). As condições foram assim, eu não tinha saída. Tive que dar aula em clube na Alemanha, joguei um monte de Interclubes, joguei torneio por dinheiro, lasanha, treinava com cara para me pagar pela semana de treino… Tive que fazer muita coisa que, óbvio, preferiria não ter passado por isso. Mas foi a maneira que eu tive de financiar a carreira no momento. Eu acreditava. Às vezes, eu pensava que estava um pouco louco (risos). Acho que eu estava um pouco louco mesmo (mais risos). Entendeu? Mas isso me deu uma bagagem muito grande e depois eu consegui transferir na quadra bem legal, com intensidade, em não desistir, lutando em momentos ruins… Isso me deu uma energia extra até mental muito grande.

Você disse que muita gente chora e não vai atrás. Eu fiz uma entrevista com o Meligeni há pouco tempo em que ele diz que muita gente no Brasil não quer pagar o preço. É isso? Não não precisa citar nomes, mas você vê o cenário dessa maneira também?

Concordo muito com o Fino. Óbvio que as coisas estão muito difíceis. Temos poucos torneios, não temos centro de treinamento, que é uma coisa que eu sempre defendi e sempre gostaria de ter. Outra coisa que eu acho é que não temos ex-tenistas involucrados. É uma coisa que eu gostaria muito. O Fino estar involucrado, o Saretta estar involucrado, Jaime Oncins estar involucrado… Porque eu tive isso quando era jovem. Por mais que eu não tenha jogado não sei o quê, eu treinava com esses caras, eu estava no dia a dia com esses caras. Isso me fez muita diferença. Eu via o que o Fino fazia, o que ele treinava, o que ele comia, o que ele estava falando. Num momento de adversidade, o que ele fazia, como ele reagia. Eu estava no momento do Saretta quando ele estava #40 e quando ele estava #110. Quando ele estava treinando oito horas por dia porque estava #100 e foi #40 do mundo. E hoje em dia eu sinto que o pessoal não tem isso. Faz uma falta muito grande, entendeu?

Você tem um técnico argentino (Andres Schneiter). É essencial? Você recomenda para quem pode financeiramente ter um técnico estrangeiro?

Não, não é essencial. Cada um tem que buscar o que funciona. Não tem uma fórmula no tênis. Cada um é um. Acho só que os argentinos, hoje em dia, estão com uma cabeça, digamos, de chorar menos. Os que estão jogando.

Eu tenho a impressão que sempre foi assim, pelo menos desde que eu cubro tênis. Não é tanto tempo assim – são 12 anos – mas…

É que geograficamente eles têm mais facilidades que a gente. Buenos Aires é assim (pequena). Todo mundo vai para lá. Você pega um carro e em cinco minutos você está num clube. Em dez, você está em outro clube. Você treina com todo mundo. No Brasil, é mais difícil de fazer isso porque um é no norte, o outro é no sul, então é mais difícil.

Mas você sente eles (argentinos) mais unidos também?

Acho que eles se toleram (risos de ambos). Existem rivalidades, existem afinidades, mas eles se toleram, e acho que vai para o caminho do ganho. No Brasil, é um pouco mais complicado. É um país muito grande e sim, o pessoal teria que estar um pouco mais unido. Não estou falando que não estamos unidos. Quero deixar bem claro que não é que não esteja unido, mas tinha que ter uma troca maior entre os jogadores. Falo na parte de treinar, na parte de convivência, de se juntar mais… Teria que ter um pouco mais isso. Hoje em dia, está cada um no seu canto, fazendo o seu. No meu ponto de vista, não é o ideal. Ninguém precisa ser amigo de ninguém, ninguém precisa ser xará de ninguém, mas pode ter uma troca maior.

Você está à vontade nos ATPs?

O que seria à vontade?

Os tenistas dizem que quando eles mudam de nível – e isso pode ser de Future pra Challenger ou para ATP – que existe um período de adaptação, tanto de ambiente, porque você de repente passa a estar com um grupo diferente de jogadores, quanto de nível técnico mesmo. Tem a dificuldade de conseguir parceiro de treino e tem a dificuldade de, de repente, se sentir intimidado com aqueles jogadores ali. São coisas pequenas, mas se o cara não está tão à vontade, isso acaba tendo um peso maior ou menor quando ele vai para a quadra.

Vou te falar que esse também foi um ponto de aprendizagem deste ano que foi muito bom também. Muitos caras com quem eu nunca tinha treinado, fiz amizades novas também. E uns amigos que estavam em outro nível e agora eu cheguei no nível deles – no caso, o (Paolo) Lorenzi, que é um cara que é amigão meu há muito tempo. Isso também foi um aprendizado, mas no final do ano eu já estava muito mais ambientado. Nunca liguei muito para essas coisas. Tem gente que sente um pouco mais. Eu sou um pouco mais tranquilo. Faço o meu e não ligo muito para isso, mas é óbvio, você sempre quer treinar com um cara melhor, estar perto de pessoas que estão se destacando, vendo o que aquela pessoa está fazendo, o que é bom, não é bom, estar trocando informações… Isso foi aos poucos também. Você ganha um jogo, aí a galera já te vê com outros olhos (risos), já te dá mais abertura… Você vai pegando no dia a dia.

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O talentoso e descomplicado Rafael Matos http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/22/entrevista-rafael-matos-santos/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/22/entrevista-rafael-matos-santos/#respond Wed, 22 Nov 2017 12:15:46 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5694

A devolução do adversário ainda nem tinha quicado, mas a reação de Rafael Matos já era de campeão. Raquete na mão direita, dois braços esticados para trás, corpo arqueado e um grito para o alto que ecoou na quadra coberta do Tênis Clube. O gaúcho de 21 anos, atual #623 do mundo, conquistava ali o título de Future de Santos.

O berro da conquista era como um desabafo da emoções que o jovem segurava até aquele momento. Emoções que, aliás, o gaúcho mostra pouco tanto dentro quanto fora de quadra, a não ser quando está à vontade numa rodinha com os amigos de longa data, Marcelo Zormann e Orlando Luz.

A última entrevista que fiz em Santos, onde estive a convite do Instituto Sports, foi justamente com o tímido, mas simpático e sorridente Rafael Matos, após a cerimônia de premiação. Coversamos muito sobre tênis e sua maneira simples de ver as coisas. Sem analisar além da conta, o gaúcho falou bastante sobre seu comportamento caladão dentro de quadra, lembrou dos momentos em que não treinou com a intensidade necessária e relatou a dura viagem que terminou com um título saindo do quali.

E se você nunca viu Matos jogando (ou falando), a conversa abaixo dá uma boa noção de quem é o gaúcho – que já foi considerado o mais talentoso brasileiro de sua geração – e de onde ele quer chegar. E tudo isso sem superanalisar ou complicar qualquer coisa além do necessário. Rolem a página e entendam.

Esse jeito caladão é timidez ou você é um cara do tipo “só falo quando tenho algo produtivo pra dizer”?

Não, não. É timidez mesmo. Acho que também por ser mais observador mesmo. É de personalidade. Quando crio intimidade com a pessoa, ao longo dos anos, fico mais à vontade.

Vi alguns jogos seus durante a semana e você reage muito pouco durante as partidas.

Sim.

Hoje mesmo (domingo, na final), acho que o primeiro grito veio já no terceiro set, na quadra coberta.

Teve outros momentos aqui fora (o jogo contra Wilson Leite começou na quadra central, outdoor), mas mais contidos.

Isso é pensado? Do tipo “não vou demonstrar nada pro adversário”?

Não, não. É de mim mesmo, de não me estressar muito e pensar no próximo ponto, corrigir o que fiz de errado e não extravasar muito. É minha característica.

E aí vem outra coisa que eu fiquei curioso, que é o seguinte: como é seu processo entre o momento que acaba um ponto e começa o outro? Pergunto porque você é muito difícil de “ler” de fora da quadra.

Acho que eu analiso assim: vejo o que fiz no ponto para taticamente já melhorar para o próximo. Estou quieto, mas estou sempre pensando bastante comigo mesmo.

E esse “ser quieto” te ajuda a ganhar jogo?

Ah, acho que não é a chave. É muito de cada um.

Você não acha que te ajuda o fato de o adversário não saber que você está nervoso, ansioso ou puto com alguma coisa?

Não sei. Deixa eu ver quando eu jogo contra alguém que é assim também… (pausa para pensar) É, pode ser que atrapalhe um pouco o cara. “O que essa cara tá pensando?” Pode ser, pode ser que atrapalhe os outros sim, mas não é nada pensado.

Quem você conhece que joga parecido?

O Zormann também é mais quietão.

Eu fiz essa sequência de perguntas porque acho que demonstrar muito alguma coisa sempre dá uma vantagem pro adversário. Usando um exemplo prático, no seu jogo contra o Christian Lindell (quartas de final), ele já estava puto no segundo set. Não sei o quanto você ouviu, mas…

Não escutei nada. Os caras me falaram depois do jogo.

Ele dizia “esse jogo está horroroso”, “pior jogo da minha vida”… Quando você ouve algo assim, não joga a seu favor?

Ah, acho que sim. Quando o cara está nervoso, eu procuro errar menos e estressar cada vez mais o cara para ele me “dar” o jogo.

Mudando um pouco de assunto… Nessa geração sua, durante um tempo você foi considerando o mais talentoso. Ali nos 14, 16 anos. Como era viver isso na época? Tinha muito mais atenção em você na época do que agora?

Atenção, assim, eu não sei dizer por esse lado, mas eu me destacava bastante pelo talento, sim, mas às vezes pequei pela falta de… de treino. De dar duro na quadra. É algo que está bem melhor nesses últimos anos.

Quando que você percebeu que deveria ter treinado mais?

Não digo treinar mais de “hoje não estou a fim de ir treinar”, mas de quando estou na quadra, muitas vezes eu não era intenso o suficiente. Eu não dava tudo que eu tinha. Mas não conscientemente. Eu estava errando e me afundava assim. Queria fazer melhor, mas não saía do buraco.

E quando que você decidiu “tenho que mudar isso”?

Ah, acho que vem vindo. Vem vindo. Com idade, experiência, maturidade. Acho que morar fora de casa me ajudou bastante também.

Você saiu de casa com quantos anos?

Com 19. Foi quando eu fui lá para Itajaí. Acho que me fez crescer um pouco. Fico de segunda a sexta lá, e no fim de semana vou para casa. Nem fico tanto sozinho assim. Só uso a cama pra dormir e a sala pra ver TV.

O Zormann me disse que você gosta muito de séries. Quais?

Gosto bastante. Suits, pra mim, é a melhor. Disparado.

Não comecei a ver ainda. Um amigo meu adora.

É, essa aí, pra mim, é a melhor de todas. Game of Thrones é sensacional. How To Get Away With Murder é boa pra caralho. Eu gosto muito de série. Quando eu tenho tempo livre eu vejo.

Agora me conta um pouquinho da sua viagem pra Europa…

A primeira?

Você fez duas viagens para lá, né? Eu estava falando da que você ganhou Vic (Matos foi campeão do Future de Vic, na Espanha). Que você jogou quali em todos torneios, não furou nenhum, e no primeiro que você passou, foi campeão.

É. Foram sete semanas. Eu estava em todas no quali e nas seis primeiras eu perdi todas na final do quali. Em dois torneios em entrei de lucky loser, mas já estava assim… qualquer coisa, e perdi. Na sexta semana, eu perdi, mas já fiz um baita jogo com um espanhol de 18 anos, que jogava bem (Andres Fernandez Canovas venceu por 6/4 no terceiro set). E ali já começou a mudar o filme. Treinei bem a semana e, na semana seguinte, a sétima, eu furei o quali. A final do quali foi 6/1 e 6/0, mas foi um jogo muito nervoso, acho que por eu não ter quebrado aquela barreira. Aí a primeira rodada eu joguei bem, a segunda rodada, com o Marc Giner, foi um jogo incrível. Com o Dani (Daniel Dutra Silva), nas quartas, joguei bem. Na final, um jogo muito nervoso, eu consegui ir me soltando, e o cara se lesionou e acabou se retirando (o argentino Pedro Cachin abandonou quando perdia o terceiro set por 1/0).

Vai acumulando quando você começa a bater na última do quali, na última do quali, na última do quali…

Ah, com certeza. Pesa muito a cabeça. Pesa muito. Tanto que eu te falei que ali na sétima semana, que eu estive para ganhar… Foi um jogo fácil, mas muito nervoso. Muito nervoso mesmo.

E como isso se reflete na quadra? É pressão em si mesmo? É impaciência com os erros?

Acho que, no meu lado, o corpo fica mais tenso, e o golpe prende. Principalmente o meu backhand. Começa a ficar encolhido e eu começo a ficar só me defendendo, só correndo. Sem controlar os pontos.

Este é o melhor ano da sua carreira. Você chegou aqui 623, que também é o melhor ranking da carreira, e ganhou o título. O que vem evoluindo no seu jogo?

Acho que com a semana de Vic eu ganhei bastante confiança para jogar. Isso me botou bem para cima. Eu vinha treinando bem depois da lesão que tive em 2015. Fiquei quase um ano remando ali para me recuperar e vinha treinando bem, treinando bem, mas não conseguia passar para a quadra. Eu não era agressivo. Eu ficava mais me defendendo, esperando um pouco mais. Agora, a agressividade está me dando mais resultado.

Que tipo de lesão foi?

Na lombar. Fiquei três meses sem jogar, só que mais uns seis, oito meses duvidando, não me sentindo bem na quadra.

Chegaram a pensar em operar?

O primeiro médico que eu fui, o cara queria marcar no mesmo dia para operar. Peraí, né? (risos) Eu fui mais em vários médicos e não… Recomendaram mais pilates, alongamentos, e foi o que me ajudou mesmo.

Oito meses é um período longo para quem está numa fase de desenvolvimento…

Sim. Foi quando eu terminei o juvenil. Eu tinha feito uma final de um US$ 15 mil na época, e aí no ano seguinte, jogando bem, mas nada de resultado. Batia na trave, batia na trave, batia na trave. Fui para a Europa, fiz uma gira ruim e, no final, machuquei.

E o que você quer evoluir mais agora?

Acho que saque. Neste torneio, eu acho que saquei mais já. Mais agressivo, mais incisivo com o saque, em vez ficar mais no kick para começar o ponto. E confiar no meu back. Quando estou mais perto da linha, ele me abre muita oportunidade por fore, que é onde eu comando mais o jogo. E é isso, continuar trabalhando a intensidade.

Que golpe que você gostaria de ter e não tem?

Eu teria o backhand do Djokovic, por exemplo. Iria completar bem o meu jogo (risos). Acho que sempre foi um furo no meu jogo. Quando estou confiante com o backhand, ele me ajuda muito para jogar. E confiança vem de ganhar jogo mesmo. Tem que treinar, mas você vai se sentir confortável e se soltar ganhando jogo mesmo.

Uma pergunta que eu já fiz pro Zormann e pro Orlandinho: por que você acha que o brasileiro e o sul-americano, de modo geral, demoram mais para estourar. Digo chegar nos 100. Você é da mesma geração de Zverev, Rublev…

Os caras se meteram muito rápido. (pausa para pensar) É uma bela pergunta, né?

Não é um caso de ter a verdade definitiva porque cada um tem uma teoria sobre isso, mas eu queria saber sua visão da coisa, sua teoria.

Acho que é muito da cultura do europeu, mais frio, assim, de jogar e pegar e dar pau na bola.

É mais difícil para o brasileiro fazer isso?

Ah, acho que é. Acho que muito pela cultura. Pelo jeito que eles são criados. E outra coisa é estar na Europa. A localização. Estar lá ajuda muito, é muito mais fácil.

Tem a questão financeira, que faz muita diferença…

Com certeza. Falei até com o Orlandinho, quando ele foi pegar o prize money, que foi uma baita semana, mas pô, tu consegue lucrar jogando no Brasil. E lá (na Europa) você já sai de 4 mil de passagem pra trás. Já sai devendo muito alto.

Quem dos caras da sua geração te surpreendeu, de subir mais rápido?

O Zverev… Eu achava que ele ia jogar, mas foi muito rápido. Foi para 3 do mundo com 20 anos, ganhando dois Masters 1.000. Muito rápido. Dava para ver que ele ia chegar, mas não tão rápido.

Para terminar, fala da sua campanha aqui em Santos.

Foi uma ótima semana. Nos primeiros dois jogos, eu busquei ficar bem sólido, assim, sem inventar muita coisa. Era procurar não errar muito mesmo para ir crescendo no torneio. A partir das quartas, comecei a ser agressivo com meu forehand para mandar nos pontos, acho que foi essa agressividade que me fez sair com esse resultado. Dá confiança e uma motivação extra para as próximas semanas, os últimos torneios do ano. É sempre cansativo o fim de temporada porque vem acumulando bastante tempo de quadra já, mas esse título dá mais vontade ainda de fazer uma boa pré-temporada depois das férias e já começar o ano que vem com tudo.

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Quadra 18: S03E15 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/21/quadra-18-s03e15/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/21/quadra-18-s03e15/#respond Tue, 21 Nov 2017 11:19:59 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5690

Grigor Dimitrov levantando o troféu, David Goffin eliminando Roger Federer e Jack Sock indo longe. Nas simples, o ATP Finals não teve nada de previsível. Nas duplas, um pouco menos. Marcelo Melo e Lukasz Kubot fecharam o ano como dupla número 1, mas perderam a final para Henri Kontinen e John Peers.

Aliny Calejon, Sheila Vieira e eu falamos sobre tudo isso – especialmente Dimitrov e Goffin – em uma nova edição do podcast Quadra 18. Também respondemos várias perguntas de ouvintes, comentamos os testes de regras do Finals Next Gen, o grande sucesso de Bruno Soares em 2017 e terminamos com um recado importante da Aliny.

Quer ouvir? Basta clicar neste link. Se preferir, clique com o botão direito do mouse e escolha “salvar como” pra baixar o arquivo e ouvir mais tarde.

Os temas
0’00” – Everybody (Backstreet Boys)
0’40” – Sheila fala “we’re back” e apresenta os assuntos do dia
1’37” – Cossenza, sendo chato, critica o feito raro de David Goffin
2’50” – A temporada de Grigor Dimitrov, que terminou com o título do ATP Finals
3’35” – Ouvinte pergunta: Dimitrov teve muita sorte na chave do Finals?
4’38” – Ouvinte pergunta: um novo Dimitrov vai incomodar o Big 4 em 2018?
6’45” – Ouvinte pergunta: Goffin vai passar a acreditar mais no seu jogo?
10’20” – O fim de ano de Nadal e o quanto ele vai estar bem para 2018?
13’05” – A despedida de Toni Nadal e seu legado como treinador sem currículo
15’20” – Ouvinte pergunta: o Big 4 estará no finals em ’18 ou a #NextGen veio pra ficar?
17’00” – O Next Gen Finals e as regras testadas em Milão
22’35” – Ouvinte pergunta: o domínio Fedal não mostra a falta de força do circuito?
25’03” – Nardini pergunta: tenistas ainda têm o mesmo interesse em vencer o Finals?
27’15” – Ouvinte pergunta: quem foras as surpresas positivas e negativas do ano?
29’13” – Ouvinte pergunta: o Finals deveria voltar a ser itinerante?
30’38” – Ouvinte pergunta: Nadal tem razão ao pedir o Finals em outro piso?
32’05” – Como seria um Finals no Rio de Janeiro?
34’25” – Runnin’ (Naughty Boy feat Beyonce, Arrow Benjamin)
34’57” – O título de Kontinen e Peer no ATP Finals de duplas
35’44” – Ouvinte pergunta: Kontinen e Peers estão um degrau acima das outras duplas?
37’52” – A temporada de Melo e Kubot
39’37” – Bruno e Jamie fizeram uma temporada ruim?
40’40” – O maior sucesso de Bruno Soares em 2017
42’10” – Que duplas mudam para 2018?
43’26” – Quem foi Jana Novotna, campeã de Wimbledon e integrante do Hall da Fama
45’28” – Ouvinte pergunta: por que nenhum top brasileiro treina com técnico gringo?
47’13” – Ouvinte pergunta: Teliana Pereira vai voltar em 2018?
48’15” – Ouvinte pergunta: o que pode ser melhorado no jogo da Bia?
49’23” – Aliny deixa uma frase importante de despedida
50’30” – Don’t Cha (The Pussycat Dolls)

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‘Para que o mundo corporativo ajude, o esporte também precisa se organizar’ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/20/entrevista-patrick-mendes-accor-patrocinio/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/20/entrevista-patrick-mendes-accor-patrocinio/#respond Mon, 20 Nov 2017 11:40:35 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5679

A ida ao Future da Santos a convite do Instituto Sports me permitiu, além de fazer entrevistas interessantes e conhecer melhor gente como Zormann, Orlandinho e Rafael Matos (entrevista com ele em breve), entrar numa área que sempre me interessou, mas pouco explorei nos 10 anos de Saque e Voleio: patrocínios.

No último sábado, pude conversar com o CEO da Accor Hotels na América Latina, o francês Patrick Mendes. Para mim, foi uma aula sobre a importância dos valores do esporte no mundo corporativo, sobre como uma gigante como a Accor (parceira de Roland Garros e do Australian Open) escolhe que modalidades e eventos vai apoiar e sobre como grandes empresas privadas analisam o trabalho de promotores, federações e confederações antes da tomada de decisão.

Mendes cita especialmente o Pacto Pelo Esporte, um acordo entre empresas que patrocinam esportes que define regras e mecanismos na relação investidor-entidade. As confederações que estão no Pacto recebem uma pontuação baseada em suas práticas de governança e transparência, e isso permite que grandes empresas saibam onde o risco de ter sua imagem manchada, por exemplo, por um dirigente investigado pela Justiça Federal. Falarei mais sobre o Pacto no futuro.

Por enquanto, leiam meu papo com o CEO da Accor Hotels. Ele certamente ajuda a explicar por que algumas federações e confederações têm mais ou menos facilidade para fechar bons contratos de patrocínio com empresas privadas.

O que leva uma empresa como a Accor a querer se associar com uma modalidade esportiva? É visibilidade, publicidade, relacionamento… O que pesa mais?

São vários pontos. Eu sempre associei o esporte com a minha vida de empresário e com a minha empresa também, onde eu trabalhei. Sempre. Acho que o esporte tem valores que são muito facilmente aplicados no mundo corporativo, no mundo do business, de maneira geral, então acho que é uma maneira lógica de associar os valores que você pode desenvolver no esporte. Não em todos esportes. Nós somos bastante seletivos com o esporte que escolhemos. Por exemplo, o tênis: foi uma decisão que tomamos dois anos atrás de nos associar ao tênis e ajudar o tênis no Brasil, nos associando a vários torneios. Os valores são concentração, aplicação, parceria, respeito pelo adversário, esforço… São valores muito importantes no mundo corporativo. A segunda razão também é ajudar o ambiente onde nós trabalhamos. A Accor está com 300 hotéis na América do Sul e temos 98% de funcionários locais, da região. Então acho que é muito importante estar na vida esportiva, social, na vida dos clubes… Ajudar, como empresa-cidadã, o jovem a se desenvolver, a superar dificuldades… esse é outro aspecto. E a terceira razão não é, para mim, o mais importante: a comunicação. Isso é consequência. A comunicação, o awareness, o relacionamento, a notoriedade… é uma consequência da ética e dos valores e de se integrar no lado social de onde você está instalado.

Quando você fala de valores, faz muita diferença que uma modalidade tenha expoentes reconhecidamente que se enquadram nesses valores? Pergunto porque o tênis tem nomes como Federer, Nadal, Andy Murray, que são embaixadores de várias marcas.

Há poucos jogadores que chegam a esse nível de notoriedade. Nós não apoiamos especificamente um jogador como Federer ou Nadal. Não somos patrocinadores de jogadores. O que nos interessa é a atividade em si: o esporte. Se tem um esportista que é menos notório, menos conhecido, o que ele faz, o valor da modalidade nos interessa.

Depois que se estabelece a relação com a modalidade, como se escolhe que eventos específicos vão ter um apoio mais direcionado da Accor?

Aqui, o marketing é comunicação. O Brasil tem alguns torneios como os que estamos fazendo aqui, em São Paulo e fizemos em Campinas… Há dois anos também apoiamos em Angra dos Reis o Itaú Masters Tour. Eu escolho a modalidade esportiva, como tênis, rugby ou outra, vamos visitar os eventos que estão sendo realizados, e o relacionamento entre jogos também. Trabalhamos com o Instituto Sports, que você conhece. Também é importante a qualidade do organizador. Esse é outro elemento importante. No esporte, você tem muitas coisas boas, mas também tem muita coisa desorganizada. O importante para que o mundo corporativo entre no esporte de maneira segura que o esporte se organize também. Por isso, entramos no Pacto Pelo Esporte. Eu sou muito fã dessas iniciativas. Estamos entrando com a Accor de maneira séria, ajudando, apoiando e fornecendo alguns hotéis para ajudar, mas é uma maneira de dizer ao mundo do esporte que se organize. Que se organize para que o mundo corporativo também te ajude.

Você falou da importância do organizador… Para cada evento, existe uma análise de risco antes de se fechar um contrato ou acordo? Como isso é feito?

Sim. Minha equipe faz. isso é fundamental. Analisamos várias coisas. Primeiro, a notoriedade. Dependendo do valor do investimento, evidentemente, mas vamos analisar qual é a notoriedade do evento para responder o terceiro objetivo, que falei para você que é o awareness, a visibilidade. Depois, e a seriedade da organização que está à frente. Há várias maneiras de fazer isso. Esse trabalho que está sendo feito agora pelo Pacto Pelo Esporte, que somos várias empresas se juntando para tentar enquadrar juridicamente, financeiramente, eticamente, com políticas de compliance, as federações e confederações, é uma maneira, para mim, de tangibilizar ou enquadras juridicamente e financeiramente essas empresas. Nós olhamos isso. Evidente que uma federação como a Confederação Brasileira de Rugby, que hoje é um exemplo em termos de management, ética e compliance, para mim é uma segurança muito grande. Então, na escolha, a notoriedade é importante, as pessoas são importantes e também a formalização das práticas de governança e management é fundamental.

Valos falar do rugby agora, então? Você jogou rugby, não?

Joguei. Vários anos.

É uma modalidade que tem muitos valores que você admira, não?

Bom, eu sou um pouco parcial aqui…

Seja. (risos)

Sou um pouco parcial, mas o rugby, para mim, é o esporte que junta todos os valores mais nobres do esporte. Não estou dizendo que os outros não tenham, mas têm parte. Tênis também tem muitos valores, mas é um esporte individual. É um esporte bastante solitário. No rugby, você não consegue marcar um gol, que nós chamamos de try ou essai, em francês, sozinho. É impossível. Eu joguei rugby por mais de 20 anos. É impossível. Você tem que ter o time. Então colaboração, espírito de equipe, respeito pelo adversário, que é fundamental, ética, treino duro, integração de todo tipo de figuração, a diversidade… Esse esporte é fenomenal para isso. Você tem, no rugby, um baixo, um alto, um gordo, um magro. São 15 posições, e cada um tem o seu papel. Você precisa de um pequeno magrinho, de um gordão forte para empurrar, lá atrás precisa de um rápido e veloz. Você tem todo tipo de pessoa. No tema de diversidade e integração, é um exemplo. Esse esporte tem valores impressionantes e que podem ser facilmente adequados no mundo corporativo.

Eu admiro demais o rugby porque venho de uma cultura onde o futebol é dominante, e em todas as partidas a gente vê um jogador fingindo estar machucado para ganhar tempo…

Ah, isso é inaceitável!

…outro caindo para pedir pênalti, outro reclamando do árbitro… E o respeito dos jogadores de rugby pelos árbitros, juízes, é uma coisa espetacular. Eu acho fantástico.

Isso tudo que você falou agora nunca acontece no rugby. Em termos de educação, desde que você tem 5, 6 anos. Em nasci no sul da França, perto de Biarritz, onde ou você joga rugby ou não é nada. Você tem que jogar rugby. E desde que você tem 5, 6 anos e começa, faz parte da nossa educação. É como aprender a comer, a falar. Você não pode fingir. Isso e inaceitável. O jogador de rugby não finge, ele respeita o adversário. Vão brigar durante o jogo. Acabou o jogo, tudo bem, vão tomar um drink, o que chamamos de troisieme temps, o terceiro tempo, que é sempre muito importante no rugby, a confraternização. Meus filhos jogaram rugby também, adoraram e foram educados nesse processo de muito respeito aos outros.

E esse respeito é algo que vai estar associado ao nome da empresa.

Exato.

Não quero falar especificamente do tênis, mas que tipo de dano sofre uma marca se um dirigente ou organizador acaba envolvido com uma atividade ilegal? Se, por exemplo, a Confederação Brasileira de Rugby amanhã tiver algum dirigente preso ou num escândalo? Que dano isso causa a uma empresa?

Vamos tentar de tudo para evitar esse tipo de situação, por isso que somos muito cautelosos antes de entrar em apoios ou ajuda.

E, por favor, deixando claro que estou usando o rugby só como um caso hipotético. Poderia estar citando qualquer outra federação.

Claro, eu entendi a sua pergunta. Se a Accor apoiou uma federação e, de repente, um escândalo acontece. Pode acontecer um escândalo. É ruim. É ruim. Mas a reação vai ser a retração. Evidente que nesse caso não penso 50 vezes. Se o caso foi revelado e confirmado, a minha resposta é muito simples: eu saio. E saio porque vários outros CEOs de empresas fazem isso. Isso vai ajudar para que todos os esportes fiquem com práticas de compliance perfeitamente respeitadas.

E é aí que entra o Pacto Pelo Esporte, não? Para que isso não aconteça ou para que, pelo menos, diminua bastante a chance de que algo assim ocorra. Quando você vê que confederações estão agindo de maneira correta, sendo transparentes e tudo mais….

É, me surpreendeu. Eu conheci o Pacto Pelo Esporte um ano e meio atrás. Você sabe o Raí há vários é nosso embaixador Le Club da Accor Hotels, e foi ele que inicialmente me apresentou o programa. Depois, vários amigos através do esporte. Eu fiquei espantado com o sistema. Trabalhei em vários países e foi a primeira vez que vi algo assim. Basicamente, são grandes apoiadores que se juntam dizendo “nós estamos dispostos a ajudar esportes de maneira totalmente organizada”. Por isso, os auditores verificam o funcionamento dessas federações e confederações, atribuem uma pontuação em função disso, e se essa pontuação for tanta e de tal nível, “estamos de acordo para apoiar esse esporte.” Se não estiver, as práticas que foram reveladas como não-adequadas preferimos não apoiar. Basicamente, é isso. Eu achei fantástico. Tem que ser feito de maneira organizada. Tivemos várias reuniões para evitar os abusos em potencial desse tipo de funcionamento e, realmente, acho isso fantástico.

Aliás, aproveitando a deixa sobre empresas unidas, o Nelson Aerts havia me dito que você ajudou a levar outra empresa para o rugby…

Eu sou bastante atuante na Confederação Francesa aqui. França e Brasil sempre foram amigos há muitos anos em vários aspectos, mas também no nível do mundo corporativo somos bastante envolvidos. Eu sou bastante presente na Confederação Francesa, já sou um dos velhos franceses, estou há seis anos no Brasil. A maioria fica três anos, que é um contrato de expatriação básico. Eu já estou há seis anos, então o “mundo político francês” que está aqui tem 60, 70 empresas relevantes. Eles estão vendo o que eu estou fazendo com o esporte, então vários estão entrando. BNP, Sodexo, Decathlon, Heineken, que não é francesa, mas o CEO é francês… São empresas que estão olhando, algumas estão me perguntando “o que você acha? Eu quero apoiar um pouco, o que vou apoiar?” Tem duas ou três pessoas que são bem envolvidas no esporte que ajudam dizendo onde ir ou não ir.

O Brasil tem a Lei de Incentivo Fiscal que permite que empresas usem para apoiar o esporte uma parte da verba que seria destinada a pagar imposto de renda. Alguns promotores de eventos acham que a lei atrapalhou um pouco porque muitas empresas só querem entrar se for evento feito com Lei de Incentivo (e eventos feitos com dinheiro de Lei de Incentivo só podem ser feitos por empresas sem fins lucrativos). Isso afeta a sua decisão, no caso da Accor?

Eu faço os dois. Evidente que custa caro tudo isso. Organizar um torneio, entrar no golfe, entrar no rugby… Tudo isso tem custos. Nós temos três maneiras de entrar. A primeira é via permutas. São elementos que ajudam. Nós temos quartos de hotéis, as companhias aéreas têm assentos, os produtores de cerveja têm as bebidas… É um mercado que funciona bem porque o esporte precisa de quartos, então é uma maneira de ajudar a reduzir o custo do evento e, ao mesmo tempo, de nós apoiarmos de uma maneira mais aceitável. O segundo é a Lei de Incentivo, que realmente ajuda. Eu, provavelmente, não faria tanto sem ter isso. Algumas pessoas estão dizendo que atrapalha. Para mim, ajuda. Ajuda porque eu divido meus custos, e o fato de ter um incentivo fiscal me permite… Não vou decidir que 100% do valor vai ser de eventos com Lei de Incentivo, mas 50% têm que fazer parte. Então 50% do meu investimento é feito através de Lei do Incentivo. Por exemplo, estou apoiando a Fundação Gol de Letra, do Raí. Apoio todos os anos, eu ajudo a fazer. E a terceira parte é orçamento de marketing. Aí você tem que medir um retorno de investimento. Será que vale investir 100 mil neste evento? Vai trazer visibilidade? Vai haver ativação de marketing para o consumidor final? Vai me permitir ter um relacionamento específico? No golfe, posso ter alguns investidores que querem estar em um evento B2C (business-to-consumer). Isso é marketing. Então são os três: permuta, incentivo e orçamento de marketing.

Neste evento aqui, o IS Open Santos, qual é o retorno que a Accor quer?

Branding. Marca. Um pouco de relacionamento, mas aqui é mostrar que a Accor Hotels está no mundo do tênis.

A lógica é a mesma de Roland Garros e do Australian Open, que também são eventos com apoio da Accor?

Exatamente. Em um âmbito mais local, mas sim. Vou trazer aqui umas 200 pessoas do nosso relacionamento. Investidores, clientes, clientes Le Club, que é nosso programa de fidelidade, então isso é uma parte. Mas o resto é mais dizer que a Accor Hotels faz parte do mundo do tênis. Há dois anos que começamos e estar aqui é uma maneira de continuar. Aqui é um evento um pouco menor do que São Paulo ou Roland Garros, evidentemente, mas para mim é continuidade. Eu não gosto de fazer coisas one-shot. Fazer tênis durante seis meses, um ano? Não. Na CBRu ou no tênis, eu entro aqui para seis, sete anos. Para construir uma imagem, construir um relacionamento. Isso é um encontro de pessoas. E também é um negócio. Se você quer fazer um negócio, você sabe que a pessoa vai estar lá. Há esse lado do relacionamento, que é importante. Então é 70% branding, notoriedade, awareness, e 30% relacionamento para esse tipo de evento. Para outro tipo de eventos, é puramente relacionamento, como falei do golfe. No rugby, é mais notoriedade e dar a imagem da Accor, que apoia um novo esporte, que é um esporte ético, então vamos capitalizar na imagem da Accor como empresa-cidadã. E isso também internamente! Não esqueça que temos mais de 15 mil colaboradores e famílias. São mais de 100 mil pessoas que trabalham ou estão associadas com o grupo Accor. É importante para mim também vincular valores internamente, então quando eu falo awareness e branding, não é só externa, mas é também internamente. Há pessoas que vão escolher a Accor para trabalhar por razões que não são puramente objetivas. São razões “ah, eu acho que a Accor é uma empresa mais cidadã” ou que respeita as comunidades ou que fez uma política muito forte de diversidade de raça, gênero… Quero que as pessoas que trabalham para nós se sintam orgulhosas das práticas da Accor no Brasil.

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Após ‘não’ a Nadal, Meligeni critica técnicos e diz: Brasil parou no tempo http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/18/entrevista-fernando-meligeni-critica-tecnicos-santos/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/18/entrevista-fernando-meligeni-critica-tecnicos-santos/#respond Sat, 18 Nov 2017 10:39:40 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5669

“O tênis brasileiro não se modernizou.” “Tem muito cara que acha que está jogando, e tem muito técnico que acha que está treinando.” “O que falta realmente na nossa meninada é ser profissional.” Fernando Meligeni nunca foi de meias palavras, e não foi diferente quando sentamos para conversar no Tênis de Clube de Santos, pouco depois de um jogo de seu sobrinho Felipe.

A ideia era conversar sobre seus bate-bolas com jovens tenistas (Meligeni tira duas horas da semana para jogar com garotos, tirar dúvidas e orientá-los), mas o projeto acabou sendo um trampolim para um papo sobre o tênis brasileiro, sua defasagem, seus motivos e os culpados – que não são poucos. O ex-número 25 do mundo foi nas respectivas feridas e criticou atletas, pais e treinadores.

No fim da conversa, ainda falando sobre o quanto incomoda o medo de treinadores de terem seus atletas “roubados”, o semifinalista de Roland Garros/1999 ainda faz uma revelação: disse não a uma oferta de emprego da Rafa Nadal Academy. E diria não até se Juan Martín del Potro lhe oferecesse o post de treinador. Não acredita? Então leia!

No seu post sobre o bate-bola no Facebook, você diz que jogou com 30 garotos e, resumindo o que está escrito, você viu pouca intensidade, garotos agredindo pouco, cortando pouco tempo, sacando só para colocar a bola em jogo, pouca variação… Não pergunto como uma crítica à sua análise, mas não é assim o tênis brasileiro há algum tempo?

Sim. O tênis brasileiro brasileiro não se modernizou.

Era onde eu queria chegar. Acabou a entrevista. (risos)

É. Nossos técnicos não se modernizaram, continuam achando que a realidade é o que eles vivem dentro do próprio clube e do que eles conversam entre eles. Para mim, o tênis mudou. Hoje, eu não jogaria tênis se eu jogasse como eu jogava. A análise que eu faço é: quantos Ferrers existem no circuito hoje?

Um.

Quantas Saras Erranis você tem no circuito?

Uma. E os dois caindo.

Quantos caras parecidos ao Fernando Meligeni que foi #25 do mundo jogam tênis hoje?

E não é só você, #25. É um Bruguera, bicampeão de Roland Garros.

Bruguera! Ótimo nome. O tênis mostrou hoje que mudou. O meu bate-bola é dedo na ferida – para não falar na bunda (risos) – o tempo inteiro porque eu estou tentando mostrar para a molecada que ou você joga para ganhar hoje nos 14 anos e 16 anos ou você vai ficar no tempo. Não é pela idade, é pela maneira de jogar. O Zverev é a grande demonstração. Aí a galera fala “mas o Thiem deixa a bola cair”. Mas você vê a aceleração de braço que ele tem?

É absurda.

É absurda. É um estilo, mas deixar ele entra de esquerda e mata o ponto.

E, ainda assim, é um cara que tem certa dificuldade quando o jogo fica acelerado em quadra dura porque a preparação daquele backhand é longa.

Isso mesmo. Eu acho que o tênis está muito claro. A quadra está mais lenta, a bola está mais lenta, só que os jogadores estão mais físicos e mais rápidos, então a galera está chegando melhor na bola, encurtando mais o tempo, pegando na subida. Não existe mais deixar a bola cair. Então é um novo tênis. Só que a gente (brasileiros) está demorando muito para perceber. Se você pegar o nosso casting de jogadores, ainda é de outra geração. O Rogerinho joga como antigamente, o Feijão joga como antigamente, o Thiago Monteiro joga como antigamente, mas com uma puta possibilidade de jogar como precisa jogar. O Thomaz (Bellucci) ainda joga um pouco como antigamente, podendo jogar como se joga hoje… E a nova geração toda. O Felipe (Meligeni) joga como antigamente, o (Thiago) Wild um pouquinho mais para a frente, mas a grande maioria dessa molecada joga como antigamente. A gente está querendo quebrar uma parede que é dura.

Esse tipo de tênis… Os nossos bons juvenis jogaram assim – como juvenis. Não é querer criticar ninguém especificamente, mas o Zé Pereira foi um puta juvenil jogando assim.

Zé Pereira, Romboli, Nicolas Santos, Orlandinho. Quatro dos nomes maiores. Não é uma crítica, mas não conseguiram estourar e quebrar a barreira dos 100. Vamos colocar a barreira dos 100, que é a barreira dos grand slams. Por quê? na minha visão, pela mudança de jogo. Os quatro são jogadores que jogam muito bem tênis, batem muito bem na bola, são inteligentes – uns mais do que outros – para jogar tênis, só que os quatro jogam com a bunda na parede. “Bunda na parede” é uma expressão minha, que é caindo para trás, esperando a bola.

Eu estava preparando perguntas para o Zormann – vou falar com ele daqui a pouco – e ele fez vários jogos com o Khachanov no juvenil. E ganhou. Hoje, o Khachanov está nos 100, jogando Finals Next Gen, avançando em slam… E não é por ser o Zormann. É uma história que se repete há algum tempo.

Entra muita coisa aí também, né, Alê? Os caras estão pagando o preço enquanto a gente ainda não está pagando o preço. Muitos dos meninos aqui no Brasil não estão pagando.

Você fala de ir para a Europa e ficar lá meses a fio, jogando?

Pagar o preço é pagar o preço! É se foder! É jogar! É treinar 18 horas por dia, é ser profissional no negócio. O que falta realmente na nossa meninada é ser profissional. Eu, quando jogo com esses 32 meninos, tem muito menino bom, que bate bem na bola. E aí a gente entra num outro ponto, que é hoje o tênis brasileiro ser gerido por técnicos que trabalham com muitos jogadores ao mesmo tempo.

Isso foi uma coisa que eu conversei com a Carol e o Felipe (sobrinhos de Fernando Meligeni). Os dois estavam na Afini e saíram porque precisavam de um pouco mais de atenção específica. Não é uma crítica ao Afini, mas…

Não! É uma crítica aos centros de treinamento. Eu lembro que alguns anos atrás, quando eu fui no Afini e voltei e falei com a galera, eu perguntei: “Quantos jogadores brasileiros vieram de centro de treinamento?” De grandes centros, com cinco, oito, dez tenistas. Quantos? Saretta veio? Ricardinho veio? Não? O Thomaz veio? Não. Eu vim? Não. Jaime veio? Não. Mattar veio? Não. E aí os pais, com todo respeito, continuam botando em centro de treinamento.

Nem Thiago Monteiro nem Tiago Fernandes…

Thiago Monteiro não veio… Tiago Fernandes era do Larri. Não dá para chamar de centro de treinamento porque ele é super presente. É um cara que olha. O que eu acho? E eu entendo que não fecha a conta. Todos técnicos falam para mim que não fecha a conta. Concordo. mas eu não posso treinar um jogador olhando para seis. O Felipe tem que ser olhado aqui (gesticula mostrando pouca distância) o tempo inteiro. Ganhou 6/2 e 6/0? Primeira coisa que fiz foi crítica. Crítica. Negativo quando não deveria, falta de intensidade, reclamando com 6/2 e 5/0. Ele estava esperando “parabéns, do caralho, u-hu, é nós!”, mas não. Isso é técnico. O técnico que está com muita gente, é “peraí que vou ver o outro jogador.” E essa conversa de vestiário é o que mais vale.

Não tem um culpado só, né?

Não.

Porque tem a parcela do técnico, a parcela do jogador…

Tem culpa do pai!

Não entro nem no mérito de CBT nesse caso porque a confederação, com dinheiro ou sem dinheiro, leva o atleta até certo ponto.

Concordo.

A partir de um momento, é responsabilidade, vontade, uma série de fatores que são do jogador.

O que eu acho, que percebo… Não é me gabar do projeto, mas ele está me dando uma base que eu nunca imaginei. Quando eu faço esse relatório, todos os pais têm basicamente a mesma dúvida e as incertezas. Os técnicos, no começo, não vinham. Agora começaram a vir. Tem muito técnico aí que não manda. Um monte. já briguei com dois ou três. Você sabe que eu vou brigar. Caguei. Mas não mandam. Eu não vou treinar nunca eles (os garotos que vão ao bate-bola). Eu não treino meu sobrinho, que joga bem, por que vou roubar teu jogador? A minha tentativa… Eu pego o telefone quando acaba e ligo para o cara. Eu abri o WhatsApp, e a grande maioria dos meninos…. Estou falando com uns 10 meninos hoje. Pedro França, Pedro Mancini, o Cunha… Os moleques me mandando mensagem. “Pô, tô conseguindo fazer aquilo” ou “discuti com meu técnico aquilo que você falou e decidimos fazer”. Que legal!

Essa questão dos técnicos… Desde que eu comecei a cobrir tênis, eu sempre ouvi de técnicos a reclamação de que eles não são unidos. Que um fecha treino, que não gosta de mostrar o método, que um isso, o outro rouba jogador… Não sei se isso tem a ver com o tamanho do país, que faz todo mundo trabalhar meio longe, ou se é realmente… Tem solução para isso?

Tem. Perceber que a gente vai morrer. Ontem, eu me reuni com o Daqui Pra Fora (empresa de consultoria que ajuda tenistas a conseguirem bolsa de estudos nos EUA). Pra quê? Pra mandar meu sobrinho?

Isso foi outra coisa do relatório. A maioria já pensando no universitário.

Eles estão olhando isso já. Eles (Daqui Pra Fora) vieram e me ligaram. “Vamos conversar?” Vamos. O que eu fui fazer? Fui me instruir. Eu preciso me instruir? Não. Peguei o Gustavo, o Thiago e falei “me conta”. Eu quero ter exatamente o que é. Que moleque pode ir? Qual é a filosofia lá?

Quanto custa ir estudar nos EUA?

US$ 45 mil, mais ou menos, por ano, é o que custa a faculdade lá. Só que a grande maioria tem bolsa, dependendo de quanto você joga. A partir daí, um exemplo: o Alexandre Cossenza é um cara que joga muito bem. Eles (faculdades) usam seis jogadores e tem 450% para dar de bolsa. Eles têm que pegar o time e dar 450% de bola. Então se eu dou 100% de bolsa para o Cossenza para ser o meu número 1, sobrem 350%. Aí eu dou 75% para o número 2. E sobra tanto. Aí tem os níveis. Se o Felipe tivesse querido ir, ou o Orlandinho, iria ganhar 100% da Divisão I. se um menino não joga no mesmo nível, ele pode ganhar 100% na Divisão II ou vai ganhar 30% da Divisão I para ser o número 6. Aí vai da tua vontade, do teu dinheiro. Também tem a Divisão III. Só que na Divisão II e na Divisão III, a gente sabe que a chance de o moleque continuar jogando tênis é pequena. Então foi importante para mim, mas será que os técnicos sabem isso? Se o moleque fala “será que eu vou para os EUA?”, e o técnico responde “é melhor você não ir”, ele responde baseado em quê?

Em manter o emprego dele.

Em manter o emprego. Uma coisa que eu sempre falo para os tenistas é que a vida de tenista é uma. A vida de técnico são várias. o Ricardinho (Mello) está treinando o Fê. Se o Ricardinho fizer corpo mole, amanhã vem outro cara para treinar com o Ricardinho. A vida do Fê acabou. Como tenista? Acabou. Essa noção o técnico tem que ter. Cada vez que um menino entra lá (no bate-bola), para mim é o Roland Garros do cara. Ontem veio um moleque de Curitiba com o pai. Bate super bem na bola. Adorei o moleque. Ele falou “obrigado”, eu disse “obrigado por quê? Obrigado a você por ter vindo, acreditado. Tudo bem, estou dando um tempo para vocês, mas vocês estão vindo de Curitiba.” Uma menina veio de Brasília. Tem menino de Alagoas se inscrevendo. Se nosso treinadores olharem isso como trabalho, como você ganha dinheiro para ser jornalista, se a gente fizer isso, a gente melhora. Tem muito cara que acha que está jogando, e tem muito técnico que acha que está treinando. Só que eu não encho uma mão de jogadores e não encho uma mão de técnicos no Brasil. Isso repercute, eu sei, mas não enche uma mão de técnico no Brasil. Técnico que está dando a bunda pelo jogador, que está acordando de madrugada para ver se o moleque ganhou, que está procurando saída da maneira que o moleque joga, que está olhando lá fora como está jogando o Khachanov, como está jogando o Rublev. Todos eles jogam mais ou menos parecido hoje em dia, e aqui a gente ensina a mandar a bola para cima.

E essa última geração que está surgindo não tem mais buraco óbvio no jogo. Não existe mais aquilo de “vai na esquerdinha ali que dá”…

“A esquerda do Fino era uma merda.”

Todo mundo dá slice bem, todo mundo sobe à rede direitinho – uns melhores do que outros – as não tem mais cara que voleia mal hoje.

Ficou até chato o jogo de tão previsível que ele é. Parecido, né? Eu não vejo tanta diferença. mU joga um pouquinho mais frente, o outro mais atrás, um bate mais, o outro bate menos. Até um Zverev, que mede dois metros, joga parecido com o Djoko, que mede 1,80 e poucos.

O projeto, então continua em 2018?

Não tenha dúvida nenhuma. Isso é por tempo indeterminado. Quem vai me fazer parar são os jogadores e os pais. Os técnicos, não, porque eu brigo. (risos)

Você faz muitas clínicas pelo país e, bem ou mal, está ouvindo e conversando com quem gosta de tênis. Você sabe o que as pessoas pensam e as dúvidas que elas têm, mas a impressão que eu tive é que esse projeto de teu uma noção diferente, não?

Totalmente. Hoje, eu posso falar que entendo quem são os jogadores brasileiros como um cara que viaja todo dia. Até para você entender, no bate-bola das 14h, eu pego 40 minutos antes e já estou conversando com o pai. Faço um briefiing. O que ele faz, como faz, onde treina e tal. Aí boto o garoto e jogo 40, 45 minutos. Tento mexer o mínimo possível ou nada em técnica e tento fazer o cara descobrir quem ele é. Poucos meninos sabem quem eles são dentro de uma quadra de tênis. Se eles são um Nadal, um Federer, um Djokovic, agressivos, por que jogam um metro atrás da linha, por que não jogam mais na frente… Entro muito nesse lado. Acabou os 40 minutos, boto o pai e o técnico dentro da quadra para eles escutarem tudo que eu estou falando. Acabou aquilo, o pai ou o técnico fala, e eu aperto o jogador: “O que você quer? Está aqui a passeio ou está jogando?”

E a maioria diz o quê?

A galera quer. Só que eles acham que aquela intensidade que eles estão colocando está bom. Só que a grande maioria… Eu bato 15, 20 minutos e eles estão com a língua pra fora. Eles nunca jogaram nessa intensidade. Nunca tiveram um cara “aqui” (nessa hora, Meligeni levanta da cadeira e mostra a diferença entre um movimento que os garotos fazem e o que ele considera ser a intensidade ideal). É um jeito meio Larrizão.

Foi a imagem que vaio na minha cabeça agora: Larri Passos.

A diferença é que eu não sou tão duro quanto o Larri, mas eu sou duro. Acredito no tênis duro. Pergunta para o Felipe que eu sou brando. Quer falar com o tio? Vai cagar de rir. Quer falar de tênis? Duro. A Carol é prova. Dou um puta esporro se precisar. Falo. Chora, grita, discute, mas “tá bom, entendi”. Isso é tênis, é profissão.

A gente para e pensa… E, de novo, não é uma crítica a essa ou a outra administração da CBT, mas tem você, tem Kirmayr, tem Guga, tanto tenista que jogou profissional, e você não vê pessoas procurando esses ex-tenistas que seja pra pedir informação…

Você lembra quando eu criticava o Jorge (Lacerda) lá atrás, e as pessoas achavam ruim? Você não acha que se a gente tivesse sentado e conversado que nem gente, batendo papo… “O que você gostaria de fazer, Fino?” Eu sempre falei isso e sempre fui mal interpretado pelos dirigentes. Tenista, ex-tenista, não tem que ser técnico só. Existem muitas maneiras de poder ajudar. Essa, que estou fazendo, é uma. Se bobear, muito mais importante do que ser técnico do Bellucci ou do que ser capitão de Copa Davis.

Pode afetar muito mais gente.

Pode afetar muito mais. Só que como se chega nisso aqui? Conversando. Tomando uma água com gás e batendo papo. Imagina se o Jorge, lá atrás, “você dá duas horas para o tênis?” Eu daria! É que eu não tinha pensado nisso. Nunca tinha passado na minha cabeça. Por que não? Eu ia cobrar? Jamais! Ia pedir contrapartida? O Westrupp (Rafael Westrupp, atual presidente da CBT) perguntou “posso te ajudar?” Eu não quero. Já veio psicólogo, psiquiatra, cara de marketing esportivo, advogado e marcas querendo ajudar. Para todos, disse não. Primeiro que nunca vai ser para mim. Se algum dia eu conseguir botar uma marca, vai ser “como isso aqui vai ajudar os meninos?” Então estou abrindo para escutar, mas não quero em nenhum momento, ganhar um real. E daqui a dez anos, se isso aqui existir, você vai falar “caralho, o cara não ganhou nunca um real.” Porque isso aqui é uma benfeitoria, uma ajuda ao tênis brasileiro. Vai pedir contrapartida? Não. Vai pedir alguma coisa para a CBT? Não.

Para terminar, quem quiser participar de bate-bola faz o quê?

Manda email para batebola@trainersports.com.br. Uma das coisas que mais me pega é que… Pelo amor de deus, eu não acho que todo mundo tem que jogar comigo, só que é uma oportunidade, né? E tem muito menino… Os dois meninos de 16 anos, os melhores do Brasil, não jogaram nem se inscreveram. As meninas, melhores do Brasil, não se inscreveram… Um monte de lugar não se inscreveu. Se é o menino ou o pai que não acredita, jamais discutiria. Se é o técnico que acha que não vale a pena, eu vou brigar até a morte. E sou capaz de ligar para o pai e foder esse cara. Isso não pode acontecer por vaidade.

Ainda tem muito isso de técnicos acharem que você quer roubar os tenistas?

Se isso aqui fosse uma tentativa de plano B… Eu estou me expondo com você. Se amanhã, eu for lá e pegar quatro meninos, aí você fala “lembra do que você falou comigo?” e enfia na minha bunda. Estou me expondo diariamente. Não quero. Se amanhã, o Del Potro chegar e falar “Fino, você quer me treinar?”, eu vou falar não.

Mentira (risos)!

Tô falando sério.

Del Potro!?

Não.

Ah, para! (mais risos)

Você me conhece. A pessoa que vier e pagar o que for, não me tira de casa.

(enfatizando) Del Potro?

Del Potro, Zverev, quem você quiser. E você sabe que eu não blefo. Porque é uma coisa de vida minha. Eu sou feliz com o que eu tenho. Eu não preciso de mais ou menos marketing ou mídia. E, cara, eu não seria mais feliz por ter colocado o Del Potro como número 1 do mundo. Não seria um objetivo de vida para mim. Objetivo de vida é ver meus filhos crescerem, é ajudar o tênis, é ajudar o tênis brasileiro. Estamos falando Del Potro, mas pode ser quem for. Não tem. Não quero, de verdade. Eu recebi uma proposta para ser o cara que ia tocar a academia do Nadal no Brasil. Pelo Carlos Costa, dois anos atrás. Aceitei? Não.

Eu não sabia.

Estou te falando em primeira mão. Eu seria o cara no Brasil para levar garotos e cada vez que o Toni viesse no Brasil. Eu receberia o Toni, faria eventos com ele aqui. O Carlos disse “o cara no Brasil é você”. Obrigado, não quero. “Mas é o Rafa, você vai ter contato com o Rafa.” Não quero. Comigo é muito “sim ou não”. Não sei nem quem pegou, se alguém pegou. Quando encontrei com ele (Costa) depois, disse que me senti muito honrado. Mas não quero. Para mim, é muito claro o que eu quero fazer. Saiba o que você quer fazer, mas saiba principalmente o que você não quer fazer.

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Ricardo Hocevar: a sofrida e bela carreira que inspira a nova vida de coach http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/17/entrevista-ricardo-hocevar-santos/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/17/entrevista-ricardo-hocevar-santos/#respond Fri, 17 Nov 2017 11:12:38 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5660

Caráter, respeito e princípios. É isso que Ricardo Hocevar responde quando alguém pergunta que tipo de atletas ele pretende formar. Depois de quase 14 temporadas completas no circuito profissional, o paulista de 32 anos troca a quadra por aquele lugarzinho na arquibancada, pertinho da área de jogo. Geograficamente, é uma mudança pequena. Na prática, porém, é uma vida nova, com a responsabilidade gigante de moldar golpes e mentes.

Para a nova profissão, Hocevar leva uma experiência que talvez não seja devidamente reconhecida por fãs de tênis no Brasil. Filho de professores de educação física, fez carreira contra as probabilidades. Despontou tarde e não teve grandes patrocínios. Fez o que pôde e conseguiu um bocado. Foi número 149 do mundo, ganhou um Challenger e 14 Futures, e jogou na Rod Laver Arena, no Australian Open, contra Lleyton Hewitt.

Hocevar tem motivos para se orgulhar e, também, se arrepender. E falamos bastante sobre isso quando sentamos para conversar no Tênis Clube de Santos, onde o paulista está como técnico de Eduardo Dischinger (e onde estou a convite do Instituto Sports, organizador do IS Open Santos, torneio da série Future).

O novo “coach” falou dos momentos felizes, tristes, prováveis e improváveis. Falou de quando precisou dormir embaixo de arquibancada para jogar um torneio e contou a série louca de eventos que terminaram com ele furando o quali do Australian Open. E, claro, falou também do centro de treinamento que vai abrir em breve com dois tenistas. Leiam e conheçam (e respeitem) um pouco mais da vida e obra de Ricardo Hocevar.

Seu primeiro torneio profissional foi em 2004. São praticamente 14 temporadas como profissional até essa decisão de trocar de função. O que pesou mais para isso?

Foi uma junção de coisas. Durante uma época, eu estava muito perto de estar no top 100. De repente, com quatro semanas bem jogadas eu poderia estar lá. Talvez até um pouquinho mais se mantivesse uma consistência de resultados. Mas por alguns motivos… Acabei jogando mal umas semanas, caí um pouco no ranking, fiquei ali entre 250, entrava entre os 200 de novo… Enfim, fiquei nesse ranking e acabei caindo. Quando eu caí, teve uma época que eu pensei em parar. Isso faz uns quatro anos. Ia ser um esforço muito grande para voltar aos torneios onde eu queria estar. Perdi patrocínio, não tinha apoio, então foi ficando difícil. Eu pensei bem, vi que não era o momento e tentei voltar nesse ranking. Aí eu estava passando por algumas dificuldades. Mudei o lugar onde eu treinava, comecei a me dedicar, a trabalhar bem de novo depois desse período que eu parei de jogo, que foi de uns três meses. Fiquei um tempo #400 com dificuldade financeira. Sem apoio, patrocínio, e custa isso, né?

Como #400 você joga Futures, qualis de Challenger…

Sim, você joga uns Challengers, às vezes pode ter uns resultados bons…

Mas o retorno financeiro… Você nunca “empata” quando está nesse ranking, né?

É. E era eu sozinho. Você não consegue estar com treinador, com equipe… Apesar de que naquele momento a gente montou uma equipe legal em São Carlos (SP), mas estava difícil. Sempre aperta daqui, aí você faz um resultado legal, investe na semana seguinte e de repente joga um pouco pressionado… Comecei a sentir dificuldade e a não jogar muito feliz. Este ano fui para a Europa, fiquei mais de quatro meses lá jogando Interclubes e torneios…

Não quero saber quanto você ganha, mas eu não tenho ideia… As pessoas tiram 50 mil, 10 mil, 5 mil euros?

Depende muito do ranking que você está. Eles pagam por ranking, depende tambem do clube, às vezes se você já teve bons resultados eles te pagam mais. Tem um X por jogo, uma bonificação por vitória e pagam suas despesas durante o fim de semana. Você pode jogar até sete partidas na Alemanha, na Itália, França e outros lugares… A galera joga mais em Alemanha, Itália e Suíça, mas Alemanha e Itália são mais fortes.

Você ganha mais num Interclubes do que se jogasse Challenger o ano inteiro então?

Proporcionalmente, sim. Você joga durante um, dois meses e ganha legal. De repente, dependendo do ranking, você ganha de 500, 600 euros até 5 mil euros por jogos. Se for top 100, acho que é até mais. Depende dos contatos, se você tem passaporte europeu ou não, de algumas coisas. Aí a negociação é por clube. É tipo negociação no futebol. Tem um empresário, alguém que te ajuda nesses contatos e recebe uma porcentagem disso muitas vezes, e você recebe boas propostas. É mais ou menos nessa linha.

Não teve lesão que ajudou a acelerar essa decisão de parar?

Eu tive um problema no tendão de aquiles quando eu voltei da Europa, mas acabei nem comentando. Fiquei uma semana sem treinar, estava jogando bem, acho que era um ano que eu poderia, de repente, terminar em 300, 200 e alguma coisa pelo ritmo que eu estava vindo. Só que você começa a pesar o quanto que vale a pena estar 200, 300 de novo… Eu já estive lá, sei como é que é. Não sei o quanto eu poderia chegar longe de novo sem ter patrocínio. Comecei a pensar no futuro, e sempre tive vontade de trabalhar com tênis, virar treinador, começar a passar coisas minhas. Coisas que eu não gostei durante a minha carreira, onde eu trabalhei; coisas que eu posso passar. Vai entrar um pouco a minha maneira de ver tênis hoje. Isso começou a pesar e falei: “Vamos começar? Acho que está chegando a hora, né?” Conversei com pessoas próximas, como era, onde eu teria espaço… Foi mais ou menos assim.

A diminuição do número de torneios no Brasil contribuiu para você parar? Ou não teria feito diferença nenhuma?

Talvez. Pode ser.

Pergunto porque há menos de cinco anos, o Brasil chegou a ter mais de 30 Futures e dez Challengers por temporada.

Se tivesse torneios aqui, eu ficaria mais perto, com um acompanhamento, seria mais barato… Um monte de coisas para você seguir. Pode ser que eu tivesse somado mais ponto, teria um ranking mais perto do meu objetivo. Pode ser que sim. Um dos motivos é esse, sim.

É uma pergunta clichê, mas eu preciso fazer. Do que você se orgulha mais durante a carreira?

Acho que de como eu comecei, de onde eu vim e onde eu cheguei. Eu nunca fui um juvenil top. Até os meus 16, 17, eu jogava legal, poderia beliscar uma semifinal de um Brasileiro, que era diferente de hoje, mas eu não era um jogador de muita expressão. Eu tive até um probleminha com 15 anos, que eu fiz uma cirurgia aqui (aponta para o pescoço), tive que ficar parado quase um ano, e ali, quando eu voltei, voltei com mais garra, vontade e comecei a ter uns resultados. Lembro que fiz uma semifinal no Brasil que perdi do Rogerinho, comecei a ganhar torneio brasileiro… Se fosse colocar na balança onde eu estava e aonde eu poderia chegar… Na minha idade, por exemplo, tinha o Kirche, que era top 10 do mundo e ganhava de Murray e Almagro na época. Eu estava ali tentando ganhar brasileiro com quase 18. Lembro que eu tive convites de universidades americanas com bolsa, e eu não queria. Eu queria jogar tênis profissional. Queria seguir, de repente, os passos do meu tio (Marcos Hocevar, que foi #30 do mundo na década de 1980). Comecei a treinar e, querendo ou não, cheguei a 140 do mundo saindo de um cara que não jogava legal, não tinha expressão no Brasil, muito menos no mundo, e bati de frente com outros que jogavam bem na minha idade. Então isso foi muito legal. Quando eu paro e penso… Pô, cara, eu fui meio louco. Se botar na balança, é difícil fazer isso, né?

Hoje, é o perfil de tenista que vai para a universidade. A impressão que eu tenho é que hoje está mais fácil esse caminho, até porque existem empresas que facilitam o processo. Mas, com certeza, o que você fez não é o padrão no tênis.

Não, não é. Eu lembro que algumas pessoas me citavam de exemplo para uns meninos que não jogavam tão bem. Fiquei sabendo quase agora que falavam “o Hocevar chegou a isso, fez aquilo”, e eu fiz meu primeiro ponto na ATP com quase 20 anos. Se você olhar, não tem sentido. Não, não. Aqui tem molecada com 16, 17 anos fazendo o primeiro ponto. Já estão num caminho muito mais fácil de seguir. Eu não estava. Fui meio louco, determinado, guerreiro e comecei a ir, cara. Também não vim de uma família que tinha condição financeira.

Isso e um negócio bom de dizer porque as pessoas falam “ele vem de família de tenistas” e automaticamente pensam que você sempre teve dinheiro.

Não! Meus dois pais são professores de educação física. Sempre foi tudo contado na minha casa. Eu tenho uma irmã e um irmão. São dois professores de educação física que cuidam de três filhos. É só fazer a conta. Como é que o filho vai jogar tênis profissional? Pagar treinador, pagar viagem… A nossa geração teve um pouco disso. Eu, Caio Zampieri, Rogerinho, Daniel Silva, acho até que quem passou mais dificuldade foi o Julinho Silva. Essa geração eu olho e… Não tem por que um cara dizer “eu não tenho condição”. Eu digo “tem, cara! Se você acreditar, você pode!” É o que eu bato de frente com os moleques, os pais… Acho que é possível desde que você queira. Acho que tudo é possível. Um cara que fez ponto com quase 20 e chegou muito perto de entrar entre os 100, teve resultados legais… Fui um cara que não joguei um tênis absurdo, mas foi legal! Hoje, eu consigo entender muito de tênis, ganhei de caras que são muito bons… Acho que é isso o resumo.

Vou voltar um pouco na sua resposta porque fiquei curioso. O que você teve no pescoço que precisou operar?

Foi um momento difícil. O meu pai (Jorge Hocevar) teve um problema de saúde quando eu tinha 14 ou 15 anos. Ele teve câncer. Foi uma situação muito difícil na minha casa. Ele se recuperou, graças a deus. E um ano depois que ele teve, eu tive um nódulo aqui no pescoço. Fui fazer exames e ninguém descobria o que era. Existia o risco de ser (câncer) também, então fiquei uns seis, sete meses procurando saber. Vários médicos disseram que poderia ser uma doença parecida com leucemia, mas hoje eu vejo que não precisava ter passado por aquilo. E foi um momento que acabou sendo decisivo. A partir dali, com a dificuldade que eu vi meu pai passar, o que eu tive que parar… Acho que ali deu um gás também. Parece que foi um combo para eu…. Mas deu tudo certo, não foi nada de mais.

Outra pergunta-clichê, mas que eu preciso fazer. Do que você se arrepende? E não vale dizer “nada”, tá? (risos) Tem sempre uma coisinha, por menor que seja…

Tem, tem. Acho que eu acabei fazendo escolhas erradas. Assim, relacionado a bastante coisa. Um pouco o calendário, um pouco lugares de treino, o que eu precisava fazer fora da quadra… É um assunto bem complexo, mas eu acabei complicando um pouco mais o que não deveria ser complicado. Poderia ter sido mais fácil, tranquilo hoje, se eu pudesse voltar e fazer diferente, mas vou te falar a verdade: esse “se”, “se”…

Faz parte do aprendizado.

É. Pô, eu cheguei perto ali. Em alguns momentos, não consegui evoluir o quanto eu precisava melhorar meus buracos como jogador de tênis. Não posso ser hipócrita e falar que poderia ter sido isso, aquilo… Eu precisava acrescentar coisas no meu jogo. Talvez em algum momento eu tivesse precisado fazer um trabalho diferente. Sempre fui um cara intenso jogando, com bom saque, uma boa direita, mas a esquerda não era tão boa, então precisava jogar de uma maneira… Principalmente num certo nível, esses buracos aparecem. Faltaram algumas coisinhas relacionadas a isso, mas faz parte.

E são coisas que você, agora, leva para a carreira de técnico. Quem for treinado por você vai ouvir histórias de alguém experiente e vai poder fazer suas próprias escolhas, mas depois de absorver a experiência de um cara com quase 15 anos de profissional. Isso é bem legal. Mas voltando às lembranças, qual o momento mais feliz da carreira?

Sem dúvida, foi o Australian Open, né? Não tem como falar que nem foi. Teve outros momentos, mas aquilo lá é o auge. Jogar com um cara que… Engraçado que quando eu era garoto e batia bola no paredão, ia no clube jogar, eu imitava o Lleyton Hewitt. Eu sempre usei boné para trás por causa dele. Tinha um joguinho de videogame que eu adorava que eu só jogava com ele. E eu fui lá em 2010, passei o quali e joguei com o cara, na Austrália, na quadra central do Australian Open.

Eu lembro porque eu fiz essa matéria na época, falei com você por telefone e estou com a matéria aberta no laptop aqui, agora. Mas você lembra da história toda dessa viagem?

Pô, lógico!

Então conta de novo porque é legal ouvir e muita gente que vai ler não conhece ou não lembra de tudo que aconteceu.

Eu lembro que fui jogar o Villa-Lobos (Aberto de São Paulo, forte torneio Challenger realizado quase sempre na primeira semana do ano, frequentemente com jogos nos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro), peguei um jogo duro na primeira rodada, que foi o (Eduardo) Schwank. Eu estava jogando bem e perdi por 7/6 no terceiro. Fiquei muito puto porque treinei demais na pré-temporada. Com Bellucci, Thiago Alves, Ghem, a gente fez um esquema legal, o João Zwetsch estava.

Era um torneio forte na época!

Fechava fraco às vezes porque era Ano Novo, mas os principais nomes eram sempre pedrada. Cañas, Ricardinho Mello, Chela, Berlocq, Saretta, era fortíssimo. Até o Fino jogou lá. Aí saí de lá, fiquei bravo e tal, e estava inscrito na Austrália, mas não tinha comprado passagem porque se eu fosse bem no Villa-Lobos, não dava tempo de chegar na Austrália. E na época, se eu chegasse e perdesse, talvez ia perder dinheiro. Não valia a pena. Falei “vou pra Austrália ou não vou?”, aí “pum”, comprei um voo. É um grand slam, cara. ‘Vambora.’ Aí, quando fui embarcar, a mulher falou “desculpa, o voo daqui de São Paulo atrasou e você vai perder a conexão para a Austrália, você não vai conseguir embarcar.” Falei “como assim? Preciso embarcar hoje!” porque tinha o fuso horário, eu precisava embarcar. Ela falou “tem um voo amanhã, a gente vai te colocar e tudo certo”. Eu falei “amanhã não posso, vou chegar no horário do jogo!”. Aí desencanei. Falei “vou chegar lá, treinar e fazer outro calendário por aqui”.

E ia embora do aeroporto…

Saindo, até liguei pra alguém, não sei pra quem, mas na volta, passei no balcão e perguntei “moça, qual é o horário amanhã?” Ela falou “você é o Ricardo Hocevar? Peraí que a gente te realocou em outro voo, está saindo agora, é última chamada!” Como assim? “É um voo da British Airways, que vai dar conexão para você, espera aí.” Saí correndo, entrei no avião, consegui chegar na Austrália. Quando cheguei lá, as malas não chegaram por causa da conexão, estava cansado pra caramba. Lembro que fiquei num hotel afastado porque nos hotéis oficiais era “salgado” o negócio. Estava longe, sozinho, não foi nenhum brasileiro, fui lá treinar e estava muito calor, uns 42 ou 43 graus…

Você me falou 47 na época. (risos)

Quarenta e sete? Pode ser então. Eu lembro que entrei e era inacreditável. Eu lembro que estava perguntando se eles cancelavam jogo naquela temperatura. Aí entrei lá, fui jogar o quali, ganhei de um russo na primeira, aí na segunda rodada estava perdendo do Mathias Bachinger, um alemão. Eu sei que estava 0/30, ele ia fazer 5/2, e comecei a jogar pra caralho… Ace, ace, winner e um puta de um voleio. Falei “caraca”. O cara de novo teve 30/0 para fazer 5/3, virei um jogo perdido e ganhei por 7/5. Aí fui para a útima do quali . Joguei com um irlandês e também estava perdendo. Comecei a jogar pra caralho de novo, fui sacar para o jogo e lembro muito bem dessa imagem: estavam o Nicolás Lapentti, o treinador dele, Bellucci, André Sá, Marcos Daniel… Juntou uns brasileiros e, quando eu olhei, estava todo mundo em pé batendo palma. Eu vi aquela imagem e falei “caralho, vamo aí, né?” É difícil você encontrar todos brasileiros assim, juntos. Mas estavam todos lá. Eu lembro do André Sá fazendo assim (Hocevar mostra os dois punhos cerrados). Porra, falei “beleza, vou sacar para o jogo”. Só sei que fiz três aces e um winner de direita. Ganhei o jogo. Normalmente, você sente (a pressão), né? Mas foi pum, pum, pum, pum. Passei o quali.

E na chave, veio o Hewitt…

Eu dei um abraço no Nicolás Lapentti, e ele falou assim: “você quer a notícia boa ou a ruim primeiro? Acabei de sortear a chave” (risos) “Não sei, cara. A ruim!” Ele falou “você joga com o Hewitt”. Eu falei “porra… beleza. E a boa?” “Você joga na central.” E fui jogar contra o Hewitt na central lá. É isso. Muito louco, né?

E o momento mais difícil da carreira? Foi essa parte que você comentou, quando caiu para 400 e ficou um tempo sem jogar?

Não. O mais difícil foi quando eu comecei. Pela condição financeira e por não ter ponto. Todo mundo que jogava já estava voando, com ranking muito bom, e eu estava no começo. Tinha universidade para escolher e tinha o “acreditar em mim mesmo”. O quanto você vai lá, perde, perde, perde e pensa “será que isso é para mim?” Esse começo foi o mais difícil. Com certeza. Eu jogava torneios de grana para poder jogar o circuito. Lembro que eu fui num torneio em Pelotas, no Rio Grande do Sul. O campeão ganhava 5 mil reais, mas era uma boa grana porque o câmbio era quase igual (ao dólar). Fui lá, o torneio estava uma pedrada. Tinha Engel, Ghem, Portal, Guidolin… Todo mundo com ranking 500 ou menos, mas eu fui tentar. Eu não tinha ponto. Eu dormi debaixo da arquibancada do ginásio, no alojamento que tinha, e precisava ser campeão para ir para o Chile. Aí eu fui lá e ganhei o torneio. Essas coisas aí, se parar pra pensar, é duro. Duro. Duro. Como se consegue começar uma carreira de tênis assim? Foi um dos momentos mais complicados.

Quem fez as primeiras propostas de trabalho para a vida de técnico?

Antes de começar a pensar nisso, eu estava trabalhando e treinando em São José dos Campos, com um grande amigo meu, que é o Vitor Pinheiro, e o Marcelo Brandão. Eles têm uma equipe lá. Quando eu decidi que ia parar, começaram as conversas com eles, e a gente começou a pensar em algo junto. A partir de dezembro, estou abrindo uma nova equipe em São José dos Campos. Eu, Vitor Pinheiro e mais um outro nome que eu não posso falar ainda por questões profissionais. Só a partir de dezembro, mas é um nome fortíssimo que se eu falasse agora, você ia falar “porra!”. É ele mesmo. Infelizmente, é um mistério, mas esse é o novo centro de treinamento que a gente vai abrir em dezembro. Quem quiser fazer pré-temporada em janeiro, dezembro, vai estar aberta. Já tem um pessoal procurando a gente, tem uma equipe lá que já joga bem legal…. Vamos fazer um novo trabalho. Vamos colocar toda esse energia na formação profissional. Essa é a nossa ideia.

Como é o tenista perfeito para o coach Hocevar? Se você pegar um garoto do zero, como você quer que ele seja em quadra?

O mais importante hoje, para mim, o que eu quero, junto com os outros dois caras que estou abrindo o CT… O mais importante é a formação do caráter. Às vezes você vê o cara aqui, jogando, e ele não tem o mínimo de respeito. Ele quer ganhar acima de tudo. O mais importante, lá na frente, não é isso. É o cara ser educado, que respeita. Que saiba competir, mas que tenha princípios. Essa é a minha primeira ideia. Ele tem que dar valor a isso aqui, ser um cara disciplinado… Para ele aprender coisas não só para o tênis, mas para a vida. Eu aprendi assim. Pela minha família, pelo que meu pais e meus tios me passaram. Foram caras corretos. Óbvio que a gente comete erros, mas sempre tem um cara para te puxar a orelha e fala “não é esse o caminho”. Essa é a primeira ideia. Depois, tem a parte da competição. Gosto de um cara intenso, que está ligado a essa energia na quadra, com intensidade, como eu sempre joguei e como sempre gostei de ver. Mas isso também vai de acordo com cada competidor. Tem cara que não joga assim e joga tênis pra caramba, que é o caso do Gilles Simon, que foi top 10 durante anos. Aí vai da capacidade do treinador de trabalhar com cada tipo de jogador.

E que característica seu jogador não pode ter de jeito nenhum?

Ser mal educado, não ter caráter, não ter respeito. Isso, para mim, é inadmissível. Pode acontecer de o cara surtar no jogo e brigar, mas o cara não ter princípios… Um mínimo de respeito com o adversários, com as pessoas em volta, com a família, com quem esteja te apoiando… Isso, para mim, é inadmissível. Não dá.

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Zormann e a lição do juvenil: ‘Hoje, eu não buscaria tanto as vitórias’ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/16/marcelo-zormann-entrevista-santos/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/16/marcelo-zormann-entrevista-santos/#respond Thu, 16 Nov 2017 10:51:29 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5651

Uma das minhas muitas pequenas implicâncias no tênis é com frases iniciando com “Orlandinho e Zormann”. De certo modo, é como se tratassem Zormann como uma espécie de amigo/primo pobre. Aquele de menos sucesso, menos potencial, menos tudo. Até entendo por que isso acontece. O gaúcho teve mais resultados como juvenil. Foi número 1 do mundo na faixa etária. A maior atenção se justifica.

O que não se justifica é menosprezar o paulista. Como profissional, Zormann tem um título de Future a mais (3 a 2). Quando Orlandinho levantou seu primeiro troféu, o amigo já tinha duas conquistas no currículo. E, embora aparentemente tenha problemas para derrotar o colega no truco – algo que testemunhei nos últimos dias – Zormann merece um pouco mais de atenção como atleta.

Aproveitei minha vinda ao Future IS Open Santos, onde estou a convite do Instituto Sports, para finalmente conversar cara a cara com Zormann. O que vi foi um garoto antenado no circuito, consciente de seus desafios e que sabe que teve problemas para lidar com uma temporada abaixo das expectativas (hoje, o paulista é o #706 do ranking depois de abrir 2017 como #546) e que perdeu um patrocínio importante, mas tem já planos para compensar a falta de dinheiro.

Foi uma conversa bem interessante, especialmente quando Zormann fala sobre contemporâneos juvenis que já estouraram no profissional, como Karen Khachanov e Andrey Rublev. Mais interessante ainda foi ouvir o que o paulista, agora com 21 anos, diz que teria feito de diferente antes de completar 18. Foi essa declaração que rendeu o título desta entrevista (e é algo que vai ao encontro do que conversei com Fernando Meligeni aqui em Santos recentemente – e que também estará no blog nos próximos dias). Leiam, entendam e conheçam melhor Marcelo Zormann.

Depois do seu primeiro jogo, você deu uma entrevista para o Instituto Sports dizendo que 2017 vem sendo um ano “bom e ruim”. Você começou o ano como #546 do mundo e agora é o #706. Foi o primeiro ano desde que virou profissional que você perdeu mais do que ganhou. Como se administra isso?

Tenho que admitir que é muito difícil. Acho que também foi um pouco disso que acabou me atrapalhando e fazendo que eu entrasse numa sequência muito ruim, e eu, sinceramente, não soube lidar com essa questão. Eu tinha uma expectativa um pouco melhor para este ano. Ainda tenho este torneio e mais quatro até o final, então posso acabar recuperando e terminando com o ranking um pouco melhor, mas foi bem difícil. Agora que estou entendendo melhor todo o processo, essa questão da transição que acaba demorando um pouco mais. Eu também joguei quase todos meus torneios na Europa. Joguei na Tunísia também. Isso dificulta um pouco porque às vezes num Future, como aqui, que eu acabo pegando um jogo mais tranquilo, é muito difícil. Querendo ou não, parece que esse jogo não te traz tanto esforço para ganhar, mas acaba dando uma certa confiança.

Eu lembro que a entrevista que fiz com o Clezar, em Campinas, ele dizia que a principal diferença entre Futures aqui e na Europa é que aqui às vezes você tem jogos fáceis e que lá, a a frase que ele usou foi “não tem furo na chave”. Não tem um cara que não saiba jogar.

A entrevista dele, na realidade, eu li e foi muito bom para mim.

É? Que legal!

Porque tipo… Ele é um cara que talvez serve um pouco de modelo para nós porque passou muito rápido por essa fase. Ele não ficou tantos anos assim nos Futures. Mas foi o que ele falou: “terminei um ano 200 e pouco, mas jogando só aqui no Brasil”. Agora ele foi jogar uns Futures e acabou perdendo segunda rodada, não lembro exatamente. É isso, basicamente, que acontece. Muitas vezes, de fora, até nós mesmos olhamos o ranking de um cara que é um pouco pior, só que o cara joga bem. Talvez não tenha tanta regularidade, mas joga bem.

Ano passado, nessa época, você fez a gira de Challengers na América do Sul. Quali, chave, quali, chave… E agora você tem um calendário de Futures. No que se baseou essa escolha de calendário?

Ano passado, foi a minha primeira gira só de Challenger. A ideia era tentar furar um quali ali, tentar dar um salto maior, que nem aconteceu com o Sorgi. A gente estava viajando junto na época quando ele fez a semi em Guaiaquil. Era o que eu estava buscando, mas não consegui. Este ano, busquei jogar mais Futures para ter um volume, um número de jogos e subir no ranking. Infelizmente, acabou não acontecendo.

Sei que não é mais novidade para você, mas qual foi a parte mais dura do seu primeiro ano como profissional? É a parte técnica/física, de pegar caras mais velhos e mais fortes, ou é a questão financeira de ter que começar a pagar um calendário cheio?

Sinceramente, o pior ano mesmo está sendo agora. Acho que o primeiro ano nem foi tão duro. Nessa questão física, eu não tenho problema. Consigo ficar 3h em quadra e no outro dia estar bem. Tenho bastante confiança no meu físico, isso me ajuda bastante. Mas este ano, por eu não ter conseguido fazer uma final, ter ganho, ou mantido meu ranking ali por 550, isso está sendo mais difícil para mim. A questão financeira acabou pesando um pouco também.

Muito feliz com titulo do future aqui de Bol na Croacia !!! #issoéentrega #engemon #asics #head #pacific

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Quando você fala que é mais difícil porque não está ganhando jogo, quer dizer mais difícil para a cabeça, né?

Basicamente isso. Treinando, eu sinto que sou um jogador melhor. Tenho melhor nível do que no ano passado, quando era juvenil ou quando tive alguns resultados, mas estou com essa dificuldade de colocar isso em quadra na competição, sabe? É uma coisa em que eu venho trabalhando. Não vai acontecer da noite para o dia, mas venho batalhando para isso. E também acho que acabei, vendo agora, assim, depois, colocando um pouco demais de pressão em cima de mim. Eu queria muito os resultados, queria ir bem e acabou que não aconteceu. Isso acaba frustrando um pouco.

Eu falo sempre que isso é uma bola de neve. Quanto mais você se pressiona, mais o negócio complica…

É! E eu sei! Todo mundo sabe, mas fazer na prática é muito mais difícil.

Pois é. Identificar talvez seja o menos complicado do processo. Mas o que se precisa fazer para evitar, né? A solução não é tão simples. Você olha o Kyrgios… Um puta jogador. Tem todos os golpes. Tem jogo que ele começa a discutir com o árbitro e volta jogando bem, mas tem jogo que ele discute e sai da partida. Esse processo é complicado. Não tem fórmula mágica.

E aceitar também. Muitas vezes eu ia antes de um jogo, sentia que eu estava tenso, nervoso, mas não queria aceitar a situação. Se você não aceita aquilo, você acaba não fazendo o que tem que fazer para superar o problema.

E financeiramente, como estão as coisas? Eu sei que a CBT te ajuda ainda com treinamento na ADK, mas e o que mais?

A CBT ajuda com treinamento e algumas viagens este ano também. Eu tinha um patrocinador, que é uma empresa de São Paulo, de engenharia, chamada Engecon, e a partir do ano que vem, não vou ter mais. Então ano que vem eu vou acabar buscando jogar mais torneios de grana, que aqui no Brasil está tendo muitos. Como está muito caro para fazer Future, os caras acabam fazendo bastante torneio de grana. Acho que é bom também. Eles ajudam com as despesas e tudo mais, e é uma maneira de competir e não ficar só juntando dinheiro parado. Vou tentar também jogar uns Interclubes na Europa.

Como se faz para conseguir uma vaguinha num Interclubes?

Eu não sei, na realidade. Eu estava conversando com o (Fabrício) Neis, ele joga por um time da Alemanha. Acho até que subiram para a segunda divisão agora, não sei exatamente. Comentei com ele para ele ver e a gente jogar junto.

Paga bem?

Depende muito do jogador, da divisão e tudo mais. Dizem que você consegue tirar, em média, uns 800 euros por jogo na Itália, que paga um pouco melhor. Na Alemanha, se não me engano, são sete domingos, então é uma grana muito boa, ainda mais convertendo para a nossa moeda. É uma grana que se for fazer em Futures…

Não é o ideal pensando em circuito, mas chega uma hora que não tem solução, né?

É, mas acaba sendo bom também. Lá tem caras desconhecidos, que não têm ranking, só jogam torneio de grana, e você pode acabar se surpreendendo. É um nível bom até, dependendo da divisão que você joga. Acaba sendo um treino, e você faz um dinheiro.

Hoje, com o o que você tem de dinheiro e ajuda, consegue montar um calendário do jeito que você quer pensando em 2018? Ou melhor, nem 2018. Em 2017, você já conseguiu jogar o que queria?

Este ano, eu consegui. Eu tive esse patrocinador e consegui. Claro que tive que fazer duas giras de três meses seguidos porque as passagens estavam muito caras para ir e voltar e tudo mais, mas consegui ficar lá (na Europa) e não ter nenhum problema.

Olhando o seu histórico de juvenil na página da ITF, o nome que mais aparece repetido é o Khachanov…

(risos)

Você jogou com ele umas cinco ou seis vezes, ganhou e perdeu, em jogos e torneios importantes…

Na realidade, a primeira vez que eu joguei com ele foi no Mundial de 16 anos, que foi em Barcelona. A gente caiu num grupo que era nós, Japão, EUA e Rússia. A Rússia… A Rússia eu vou deixar por último (risos). O Japão era o mais fraco… A gente perdeu para os três, mas os EUA eram o Donaldson (atual #53 aos 21 anos), o Rubin (21 anos, atual #201) e o Kozlov (19 anos, #135 hoje). E a Rússia era Medvedev (21 anos, #65), Khachanov (21 anos, #45) e Rublev (20 anos, #39). Os três estão top 100 hoje. O Rublev era mais novo. Ali foi a primeira vez que eu joguei com o Khachanov. Foi um jogo duro, pegado, mas via um pouco a diferença de nível. Depois eu peguei ele no primeiro ano de 18, duas semanas seguidas na grama. Muito difícil jogar com ele. As chances que eu tinha para quebrar, tomava sempre ace. E em Roland Garros, onde eu ganhei dele, foi um jogo com chuva, para, volta… Eu cheguei a ganhar por 9/7 ou 8/6 no terceiro (o placar foi 6/7(3), 6/4 e 9/7), que é set longo. Foi uma das melhores vitórias da minha vida, não só pelo fato de hoje ele ser quem é. Na época, ele já era…. Até tinha entrado com ranking profissional, não tinha ranking juvenil. Era um cara que era um grande desafio para mim. Eu tive que jogar meu melhor o tempo inteiro.

Não é uma crítica, até porque a intenção aqui não é comparar nada nem ninguém, mas eu até toquei nesse assunto com o Orlandinho quando falei com ele sobre o Rublev em Campinas… E eu quero saber sua opinião para explicar por que o sul-americano, de modo geral, demora mais para chegar nesse nível? É dinheiro que falta, é falta de gente forte para treinar, falta de treino, falta de técnico, o que você acha?

Acho que tem muita coisa envolvida. Essa questão de talvez ter poucos torneios e ter que viajar nem é a principal. Acho que uma das principais é a questão do amadurecimento. Às vezes aqui a gente acaba valorizando demais uma carreira juvenil. Criam-se expectativas muito grandes. A cultura também é um fator importante.

Você diz de o brasileiro ser mais apegado à família e esse tipo de coisa?

Não diria por esse lado. Acho que até nós, jogadores, acabamos criando uma pressão de querer despontar logo. Lá fora, acabam saindo esses jogadores (as exceções, como os top 100 mais jovens), mas porque o número de jogadores é muito maior. Se lá existem, por exemplo, 500 mil jogadores, vai sair jogador novo. Aqui, a gente acaba não fazendo. Aí tem a pressão familiar, a pressão de si mesmo… E também tem uma coisa que eu percebi, que é boa e ruim. Isso me ajudou bastante nos resultados juvenis, mas talvez no juvenil eu teria feito algo diferente. Eu não buscaria tanto as vitórias assim. Eu buscaria jogar de uma forma – não que eu joguei passando bola ou algo assim – mais solta, sabe? Procurando fazer coisas diferentes. Eu treinava e, no jogo, tinha aquela dúvida. No juvenil, o Zverev mesmo, que a gente acompanhou bastante, ele não tinha uma direita tão boa, mas estava sempre buscando bater forte a direita. Ele errava uma na parede e quando a próxima vinha, ele não tirava a mão para a bola ir dentro. Ele batia mais forte ainda. Isso vai criando uma confiança, vai fazendo o cara evoluir para competição, o que é importante, mas existem muitos outros fatores.

Isso é algo que você vem tentando fazer hoje em dia? Ou é tarde demais? Ou melhor, existe um “tarde demais” para essas coisas?

Acho que não. É uma coisa que eu venho buscando, sim. É trazer a competição para mais próximo do treino. Eu, treinando, eu sei a diferença. Eu chego na Davis, eu bato de frente, por exemplo… Em Belo Horizonte, na quadra rápida, cheguei a ganhar um set de treino do Rogerinho. Talvez se fosse um Challenger, eu não ganharia. Claro que não é uma base concreta, o cara está treinando de repente uma coisa que ele não faz, não sei. Mas, mesmo assim, é o Rogerinho. O próprio Bellucci mesmo eu consigo fazer frente, mas na competição não consigo fazer isso tão solto. É uma coisa que eu ainda estou buscando.

E é um momento mais difícil para fazer isso, né? Porque se você entra no juvenil, perde dois jogos, tudo bem. “Estou evoluindo, posso perder.” Depois, no profissional, se você perde dois ou três jogos, você perde ponto, deixa de somar, não ganha dinheiro… É mais complicado. E aí vem o que você falou sobre a pressão…

É! Daí você vai se pressionando porque o ranking cai e você não ganha muitos jogos e assim vai indo. E no profissional os caras percebem isso também. O cara vão olhar seu seu histórico e ver que você tomou três primeiras rodadas… O cara já entra “vou pra cima desse cara que ele não está jogando bem”, sabe? São várias coisas. Os caras são mais experientes também.

Vou te fazer a mesma pergunta que fiz ao Orlandinho sobre o Rublev. O Khachanov joga hoje muito diferente em comparação com quatro anos atrás?

Não. Eu acho que não. Acompanhei um pouco do Next Gen Finals. Todos eles eu vi jogar e joguei contra alguns ali. Não acho que está muito diferente ou que os caras melhoraram demais. Acho que, por exemplo, com o Khachanov e o Medvedev, que são caras mais altos, o saque é uma coisa que ajuda bastante. Em uma semana na quadra rápida que o cara está sacando um absurdo, o golpe fica confiante, o cara vai lá e ganha um Challenger, por exemplo. Mas caras como o Rublev, que saca bem, mas não é o saque que faz o jogo dele, desde a vez que jogou com o Orlando em Roland Garros… Ele joga do mesmo jeito. Tanto que quando ele está mal no jogo, ele começa a colocar tudo para fora. Ele perde a sensibilidade, bate muito forte. Mas ele vem fazendo isso há muito tempo. Isso é que é um pouco diferente. É o que eu falei sobre o juvenil. O cara veio formando o jogo dele para o profissional. É o nosso objetivo também, mas na prática, valendo mesmo, temos essa dificuldade.

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Lições mentais, físicas e financeiras para o ‘quase turco’ Felipe Meligeni http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/15/entrevista-felipe-meligeni-santos/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/15/entrevista-felipe-meligeni-santos/#respond Wed, 15 Nov 2017 09:00:58 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5645

No primeiro dia completo que passei no litoral paulista, onde estou à convite do Instituto Sports para cobrir o IS Open Santos, torneio Future com premiação de US$ 15 mil, sentei em um dos conjuntos de cadeiras do agradável Tênis Clube de Santos para bater um papo com Felipe Meligeni – ou, como a ATP coloca em suas chaves, com o nome completo, Felipe Meligeni Rodrigues Alves.

O jovem de 19 anos é atual número 962 do ranking. É a melhor posição de sua ainda curta carreira. A temporada de 2017, afinal, foi sua primeira inteiramente no circuito profissional. Em setembro do ano passado, lembremos, Felipe estava conquistando o US Open juvenil na chave de duplas ao lado do boliviano Juan Carlos Manuel Aguilar.

A transição não é fácil para ninguém, e Felipe não é exceção. Conversamos sobre as dez semanas que o campineiro passou em Antália, na Turquia, falamos sobre sua recém-firmada parceria como o (agora) técnico Ricardo Mello, sobre como vem sendo administrar o dinheiro num circuito cada vez mais caro para sul-americanos e sobre as muitas diferenças de estrutura dos slams juvenis para os Futures profissionais. Felipe fazendo análises interessantes sobre seu jogo, sua vida e o que vem pela frente.

Quero começar falando sobre o contraste que é a vida de Future em comparação com o que as pessoas veem na TV, que são os Masters e os Slams. A diferença é enorme, e muita gente não sabe…

Ah, os slams são incríveis, têm de tudo. Eles te tratam muito bem. Você chega lá, vai no restaurante, tem dinheiro na tua credencial, você come junto com os profissionais. Eles te tratam muito bem. E os Futures são torneios que você precisa jogar pra somar ponto. Não sei nem o que…

(interrompendo) Transporte, por exemplo?

Os slams têm transporte. Os Futures, não. Aqui (em Santos) eu estou hospedado na casa de um amigo, então não gasto.

E comida?

Aqui, a gente paga a alimentação.

Você acaba gastando mais em um torneio pequeno do que num grande, né?

É. Os grandes também te dão hotel enquanto você está na chave, então você não paga.

E também tem a questão das quadras, né? Aqui em Santos tem um boleiro por quadra, mas não é obrigatório.

Eu joguei dez semanas na Turquia, e lá não tinha boleiro.

Isso também atrasa, arrasta o jogo, não?

Toda hora eu tomava advertência de tempo porque ia pegar bolinha. O juiz “code violation” o tempo todo. “Mas o que você quer que eu faça? Corra pra pegar a bolinha?” Mas não tem jeito.

E também só tem um árbitro de cadeira por quadra, o que também aumenta a chance de dar problema.

Sim, sempre tem erro.

E na quadra dura é pior, né?

Ô! Muito pior. Aconteceu comigo na Espanha: logo no primeiro ponto, o cara bateu, e eu dei fora porque a bola saiu muito. O juiz disse que foi boa. “Mas como, boa?” E discussão, discussão… Aí, depois, eu bato uma paralela na linha, e o árbitro deu fora. Eu falei “iiiih”. Então tem isso. Era primeira rodada na Espanha, contra um espanhol…

Conta um pouco agora dessa viagem para a Turquia, que é uma coisa que muita gente faz. Pega um avião pra Antália e fica lá várias semanas. Todos os torneios são no mesmo lugar?

Sim, é um resort. Você anda dois minutos do quarto para a quadra. É bem simples.

Mas é caro? Pergunto porque é um resort… Eu sei que você dividiu quarto com a Carol (Meligeni Rodrigues Alves, irmã de Felipe), mas…

Saía uns 70 euros por dia.

E dá para sair no zero-a-zero financeiramente?

Olha… A gente jogava o que podia, jogava simples e duplas, aí pegava o prize money e pagava o que podia. O que sobrava, colocava no cartão de crédito. Eu podia ter ido melhor em algumas semanas. Empatar, não empatou. Sempre perde um pouco porque é muito dinheiro. Não foi ruim. Eles ajudavam a gente também porque a gente virou turco, né? Foi muito tempo lá. Então davam wild card, davam uma força também.

E comida lá?

Era um buffetzão, completo mesmo. Mas era o mesmo todo dia. Eu ainda tentei fazer a dieta que estava fazendo aqui no Brasil, mas depois de umas semanas não deu mais.

Nossa, se você ficou dez semanas, foram 70 dias comendo a mesma coisa?

É, mas acaba acostumando.

Era o mesmo promotor de todos os torneios?

O mesmo cara.

E ele ganha dinheiro com isso? É o dono do resort?

Não sei, viu? Mas não é o dono do resort, não. Era tudo separado, até para os atletas. A gente tinha um tournament desk, que ficava do lado da recepção, e fazia tudo com eles. A diária era diferente para os atletas, não era o mesmo do resort.

E as chaves não ficam repetitivas em algum momento?

Nem tanto porque para o europeu é tudo mais fácil. O cara pode jogar duas semanas, passar uma semana em casa e voltar. Às vezes acontecia de chegar alguém, me ver e falar “você ainda está aqui!?” Em um momento, sim, as chaves ficaram com os mesmos caras. O torneios estavam duros. Até os qualis tinham jogo duro. Até o árbitro era o mesmo em todos os torneios. Ele chegava todo dia lá, de chinelão (risos)…

Mas é que para a gente, sul-americano, não é uma viagem barata, né?

Não. Por isso que eu fiquei dez semanas lá. Tive até a chance de voltar e jogar o Challenger de Campinas. Eu sou de Campinas, teria wild card na chave lá, mas se eu voltasse, jogaria e ficaria dois meses parado, só treinando. E vir para depois voltar para a Turquia seria muito caro, então só voltei no fim das dez semanas mesmo.

E com os resultados, você ficou satisfeito? Você fez quartas de final uma vez, mas mesmo quando você perdeu na segunda rodada, acabou jogando muito porque estava sempre nos qualis, não?

Às vezes, eu perdia na segunda rodada, mas fazia cinco partidas. Estava sempre jogando muito. Acho que faltou preparo físico e eu perdi uns jogos por causa disso porque às vezes precisava jogar simples e duplas no mesmo dia. Eu até pensei em parar uma semana e fazer só físico, mas eu já estava lá, por que não jogar? Então acabei não fazendo físico e é uma coisa que eu tenho que melhorar.

Você agora está treinando com o Ricardo Mello depois de sair da Afini Tennis. Eu conversei com a Carol uns dois meses atrás, e ela disse que fez essa mudança porque queria um pouco mais de atenção. Foi o mesmo com você?

Não. Minha irmã é diferente. Ela precisa de alguém pegando no pé dela, e lá, às vezes, a gente ficava em quatro numa quadra. Não dava par ater esse tipo de atenção. Eu sou muito grato pelo tempo que fiquei na Afini, evoluí lá, mas achei que não ia melhorar mais o meu nível se continuasse lá. Então fui treinar com o Ricardo em Campinas, que é a minha cidade.

Agora você mora em casa, mesmo, com os pais?

Sim. Vou de carro para o treino, é pertinho. Isso ajuda.

Ajuda a economizar também, não? Ou você não gastava tanto assim em São José?

Economiza porque lá eu gastava com alimentação todo dia. Em casa, não tem esse gasto.

Você cozinha?

Em casa, tem a empregada que vai segunda e quarta, e nos outros dias, a minha mãe cozinha. Eu sou uma negação!

E como é treinar com o Ricardo? Eu conheço ele daquele jeito, super tranquilo em quadra, mas como é no dia a dia? Ele dá bronca?

Ah, é que cada um tem seu jeito, né? Ele está se acostumando ainda porque nunca treinou um profissional de alto nível. Eu sou o primeiro profissional que ele pegou, mas quando precisa, ele (gesticulando com a mão fechada), ele aperta!

Qual foi a primeira coisa que ele disse “isso precisa melhorar” antes das outras coisas no seu jogo?

A gente trabalhou bastante o saque. Eu faço saque todos os dias. Já melhorou bastante. E outra coisa que eu preciso melhorar é o lado mental. Ainda perco muito jogo com isso. Reclamo de alguma coisa, brigo e…

E sai do jogo?

É, eu preciso melhorar nisso.

Pelo menos você já percebeu isso…

Agora falta colocar em prática (risos).

Como você está de patrocínio agora?

Tenho Fila e Babolat. Troquei de raquete há pouco porque fui treinar com o Ricardo, não estava muito bem com a minha raquete antiga. Estava com dor no braço, aí o Ricardo me deu uma Babolat, eu experimentei e gostei.

Isso foi antes de ir para a Turquia?

Antes. Eu fui me acostumando. Lá é que eu fiquei 100% adaptado à raquete.

A CBT também ajuda?

Ajuda com passagem. Agora, no fim ano, eles vão reunir em dezembro em Floripa todos tenistas que serão beneficiados em 2018, e eu fui convidado também.

Você vem de uma família de tenistas, o que, obviamente, tem suas vantagens. Você tem seu tio (Fernando Meligeni), que tem a experiência, para conversar e trocar ideias, e também tem seus pais, que são professores de tênis. E quais são as desvantagens de estar num meio assim?

Ah, não sei se tem desvantagem.

Nem no lado financeiro, de seus pais precisarem bancar dois atletas?

É, tem isso. Mas nossos pais trabalham duro, adoram tênis, não querem sair da quadra. Meu pai gosta tanto que dá aula todo dia, aí chega no fim de semana e quer bater uma bola comigo. Que energia!

Ele está com quantos anos?

Quarenta e… (pausa para pensar) … sabe que eu não sei? Minha mãe tem 50. Meu pai é mais novo. Mas eles não querem parar de trabalhar. Eles ficam até as 10h da noite em quadra para ajudar a gente. E eles sabem que a gente se esforça, e que a gente vai recompensar eles em algum momento.

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A ATP testou novas regras, mas quais podem (ou devem) ser aproveitadas? http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/10/atp-next-gen-finals-novas-regras/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/10/atp-next-gen-finals-novas-regras/#respond Fri, 10 Nov 2017 16:08:15 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5640

A ATP usou o Next Gen Finals, torneio para os tenistas mais bem ranqueados com até 21 anos, para fazer uma série de testes com novas regras. A entidade se mostra preocupada em não perder público, em não deixar que o tênis se transforme num esporte defasado. A ideia é buscar um público mais jovem e que, segundo estatísticas, tem uma capacidade de atenção menor.

Segundo o CEO da ATP, Chris Kermode, não se trata (apenas) de deixar os jogos mais rápidos. A ATP quer eliminar o tempo morto – pequenos intervalos entre pontos, em viradas de lado, no aquecimento, etc. – e manter o tênis dinâmico por períodos mais longos. Por isso, o torneio de Milão foi a grande cobaia. Testou-se muita coisa diferente e tudo ao mesmo tempo. E agora, depois de 12 jogos, dá para tirar algumas conclusões. Abaixo, faço uma avaliação dos testes e dou minhas opiniões.

Aquecimento mais curto

Em Milão, o tempo entre a entrada dos jogadores e o início dos jogos foi limitado a cinco minutos. Isso significa um bate-bola mais curto e um começo de jogo mais rápido. Sabe quando você vê a programação de um torneio e imagina que a primeira partida sempre começa dez minutos depois? Isso não rolou em Milão.

É uma mudança pequena que pode facilmente ser aplicada no circuito. O lado negativo é que alguns jogos podem começar com as arquibancadas vazias, mas me parece uma questão de acostumar o público. Em pouco tempo, os espectadores vão perceber que precisam estar na quadra logo que os tenistas forem anunciados.

Let no saque

O Next Gen Finals não teve let no saque. Isso significa que quando uma bola tocou na fita e quicou dentro da área de saque, o ponto continuou (a não ser no dia que o árbitro brasileiro Carlos Bernardes, ainda desacostumado, chamou let e equivocadamente interrompeu o ponto).

Eu não gosto da regra. Primeiro porque acontece com tão pouca frequência que o tempo ganho é irrisório. Além disso, adiciona um elemento de sorte, o que, a meu ver, não deveria ser a intenção (nem mesmo consequência ocasional) de regra alguma.

Limite de tempos médicos

Neste Next Gen Finals, cada tenista só pôde pedir um tempo médico por jogo. Não vejo como isso altere muito a vida de ninguém. No circuito da ATP (que não inclui os slams), são raros os casos de atleta pedindo mais de um tempo por jogo. O que acontece com frequência – e pode continuar acontecendo com essa regra – é que tenistas pedirão um tempo médico e alguns outros atendimentos mais curtos nas viradas de lado.

Público liberado nas laterais

Não tem nada mais chato em um torneio de tênis do que ir ao banheiro no intervalo entre sets e ter que esperar o fim do terceiro game para voltar à arquibancada. Se for um torneio de saibro, essa espera pode passar de quinze minutos. Em Milão, a ATP liberou a movimentação de público nas arquibancadas laterais. Ou seja, não era preciso esperar virada de lado para entrar ou sair da arena.

Eu sou muito a favor e não vi nenhum jogo sendo atrapalhado pelo público no torneio. Porém, há uma ressalva importante a fazer aqui: o evento era indoor, daqueles com a quadra iluminada e o público no escuro (observe no vídeo acima). Assim é mais difícil mesmo que o tenista seja incomodado. Seria melhor um teste mais emplo, em torneios outdoor. Pessoalmente, já estive em torneios grandes e pequenos em que algumas quadras não tinham controle de acesso nas laterais (várias das quadras menores dos slams são assim) e raramente vi reclamações por parte de atletas.

Hawk-Eye Live

Chegamos, finalmente, às questões mais cabeludas do Next Gen Finals. Em Milão, a ATP testou o Hawk-Eye Live, que faz as chamadas de linha automaticamente, dispensando juízes de linha. Do ponto de vista de eliminar o erro humano, é algo sensacional. Funcionou brilhantemente. As bolas mais duvidosas apareceram rapidamente no telão, e o jogo deu uma pequena acelerada por conta disso.

No aspecto de entretenimento, porém, o tênis perde. É inegável que é mais divertido ver os atletas na dúvida, lidando com o dilema de quando pedir os desafios e administrando o limite de replays que podem ser solicitados por set.

Além disso, as chamadas de linha com vozes gravadas deram um clima estéril à coisa toda. É estranho não ouvir a variação de vozes e não ter um juiz de linha para olhar e ver a marcação (ver jogo com a TV no mute fica difícil). Árbitros de cadeira viram quase espectadores e contadores de placar.

Estou curioso para saber o que a ATP pretende fazer agora. Vai pesar mais a redução dos erros ou o entretenimento do público? E onde vão trabalhar os tantos juízes de linha empregados nos ATPs hoje em dia? Talvez seja a questão mais delicada de todas as empregadas nesse Next Gen Finals.

Pontuação

Como experiência, interessante. A possibilidade de implantação, porém, é quase zero. O Next Gen Finals está sendo jogado em melhor de cinco sets, mas com cada set indo a quatro games. No caso de 3/3, joga-se um tie-break. Além disso, todos games de saque têm no-ad, com o sacador escolhendo o lado do ponto decisivo. Quem acompanha tênis há mais tempo sabe que esse formato já foi testado em torneios diferentes – inclusive na antiga Copa Ericsson, jogada no Rio de Janeiro em dezembro de 2000 (com uma pequena diferença: jogava-se o tie-break no 4/4).

Aqui, é importante notar duas consequências. Uma é que o tempo de jogo não diminui tanto a ponto de justificar uma mudança tão radical. Na sexta-feira, com todo mundo já habituado ao placar, dois jogos passaram das 2h de duração. Os outros também passaram de 1h30min. A outra grande consequência foi um aumento no número de tie-breaks, o que é perfeitamente normal, levando em conta que cada jogador só precisa confirmar o saque três vezes para chegar ao game de desempate.

O problema é que esse número de tie-breaks afeta – de novo – a essência do esporte. O tênis nunca foi pensado para ser resolvido em tie-breaks, mas no duelo entre a capacidade do sacador de fazer sua vantagem e a habilidade do devolvedor de roubar (ou, como dizemos, “quebrar”) essa vantagem. O game de desempate surgiu como solução para encurtar sets longuíssimos, o que não é o caso do circuito da ATP atual.

Ilustro isso com números. Em 2017, Wimbledon, o torneio do grand slam com mais tie-breaks (porque na grama o saque tem maior peso), teve 86 tie-breaks ao longo de 451 sets disputados em um torneio com 127 jogos programados. Isso significa 0,67 tie-break por jogo e 0,19 tie-break por set. Traduzindo, isso quer dizer que um tie-break é jogado, aproximadamente, a cada cinco sets. Em Milão, nos três primeiros dias de competição, foram disputados 21 tie-breaks em 12 partidas e 49 sets disputados. Isso dá, em média, 1,75 tie-break por jogo e 0,42 tie-break por set.

O regulamento do Next Gen Finals transforma a exceção (0,67 tie-break por jogo em Wimbledon) em regra (1,75 em Milão). E isso provoca uma mudança gigante para a dinâmica e, repito, a essência do tênis.

Fora a questão dos tie-breaks, os tenistas relataram que o jogo fica muito mais intenso, com menos margem para erro. Isso pode ser visto como aspecto positivo. O contraponto que se faz – e parece ser a opinião predominante entre os jogadores – é que os sets perdem o chamado buildup, o processo em que vai se criando um ambiente e uma expectativa para aqueles games decisivos lá pelo 4/4 e 5/5.

Shot clock de 25 segundos

Um relógio marca, no fundo de quadra, em contagem regressiva, quanto tempo o tenista tem para sacar. A ideia é boa por alguns motivos: mostra ao jogador e ao público o tempo e diminui a polêmica na hora de uma eventual advertência ou point penalty quando o atleta estourar o limite dos 25 segundos.

Não houve polêmica em Milão, mas se a regra for levada ao circuito, é questão de tempo (perdão pelo trocadilho) para dar problema, apenas mudando a origem da polêmica. Eu explico. Quem prestou atenção no ATP Finals NextGen viu que nem sempre o relógio começa a correr no mesmo momento após os pontos.

No jogo entre Quinzi e Shapovalov, o árbitro brasileiro Carlos Bernardes levava, de 5 a 6 segundos para disparar o relógio ao fim de cada ponto. No dia seguinte, na partida entre Quinze e Chung, o árbitro francês Cédric Mourier iniciava a contagem regressiva sempre entre um e dois segundos após o fim dos pontos (e demorava um pouco mais para fazê-lo ao fim de um ponto com muitas trocas de bola).

Deu para entender o drama, né? Logo, os tenistas vão reclamar, e a ATP vai precisar dar seu jeito para padronizar a aplicação por parte dos árbitros. É o tipo da coisa que ninguém repara hoje em dia porque não existe relógio para o público ver, mas o fato é que árbitros diferentes contam os 25 segundos a partir de momentos diferentes. Isso contribui para a quase sempre polêmica aplicação da regra.

Tempo técnico

Por definição, não gosto da regra. Como já escrevi várias vezes aqui no Saque e Voleio, acho que ela altera uma das essências do tênis, que é o princípio de que um tenista deve resolver seus problemas e encontrar soluções em quadra por conta própria. Dito isso, o tempo técnico tem seu valor de entretenimento e foi bem executado em Milão. Os técnicos não saíam de seus lugares na arquibancada, mas colocavam fones e eram filmados. O áudio da conversa ia direto para a transmissão de TV.

É melhor do que na WTA em alguns aspectos. Primeiro porque impede que algum treinador (vide Sam Sumyk) abafe o microfone. Além disso, sob um ponto de vista corporativo, protege a imagem da ATP e de seu produto, evitando aquelas cenas constrangedoras em que tenistas ouvem com cara de paisagem, mal prestando atenção ao que o técnico diz. Se acontecer no masculino, basta a ATP Media fechar a imagem no treinador. Na WTA, com técnico e atleta juntos, não dá para fazer.

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Marcelo Demoliner: o duplista #NextGen e sua ascensão com o ‘guru’ Soares http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/06/marcelo-demoliner-o-duplista-nextgen-e-sua-ascensao-com-o-guru-soares/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/06/marcelo-demoliner-o-duplista-nextgen-e-sua-ascensao-com-o-guru-soares/#respond Mon, 06 Nov 2017 15:21:58 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5629

Marcelo Demoliner acaba de completar o melhor ano de sua carreira como duplista. Começou a temporada como #67 e terminou como #35 do mundo. Coincidência ou não, o ranking do gaúcho de 28 anos é o mesmo de Bruno Soares quando o mineiro fechou 2010, também com 28 anos. Embora nada seja garantia no mundo instável do tênis e ninguém vai prever que Demoliner também vai vencer cinco títulos em torneios do grand slam, há motivos de sobra para ser otimista quanto ao futuro “incerto” do gaúcho.

“Incerto” porque após um ano de sucesso com o parceiro neozelandês Marcus Daniell, o brasileiro ainda não sabe com quem vai jogar em 2018. E o primeiro motivo para esse otimismo é justamente Bruno Soares, que se tornou um amigo, confidente e conselheiro. O mineiro foi um dos tenistas a quem Demoliner recorreu quando ainda só pensava em ser duplista. Hoje, estabelecido no mundo do tênis mas ainda praticamente um #NextGen em um circuito de duplas dominado por veteranos, Demo ainda ouve de Soares todo tipo de dicas e conselhos.

Além disso, como vocês, leitores, vão perceber na entrevista abaixo, realizada na semana passada, o gaúcho é inteligente, mostra-se consciente de quanto precisa evoluir, conhece bem as dificuldades do circuito e gosta de tênis. Aliás, Demoliner gosta também de conversar sobre o esporte. Ficamos 55 minutos batendo papo sobre o circuito, sobre tênis, sobre a vida (e excluí da transcrição vários trechos). O jovem falou sobre os momentos alegres e duros de 2017, suas mudanças técnicas, a troca de parceiro, a paixão por Wimbledon, seu reconhecimento no circuito e a certeza de que tomou a decisão certa ao tornar-se exclusivamente duplista. Leiam e conheçam melhor o duplista que vai herdar o legado de Sá, Soares e Melo.

Você começou o ano como #67 do mundo, terminou como #35. Terceiro ano seguido de subida no ranking. O que está amadurecendo no seu tênis ou em você que está permitindo essa subida?

Então… Uma coisa que fez eu dar um salto grande foi eu ter melhorado minha devolução de saque. isso foi uma das coisas que mais me deu base para todo meu jogo. Porque o saque é uma arma natural minha. Ainda preciso melhorar uns detalhes pequenos que a gente vê, mas não é um furo tão grande quanto era minha devolução. Hoje em dia, os caras estão sacando na minha direita também. Antes, era só na esquerda. Só na esquerda. Eu treinei muito devolução e entendi também o processo de calma, que é um negócio que na dupla precisa muito.

Calma?

Se tu tá sem calma, é uma… É engraçado até. Foram coisas de amadurecimento, de perguntar para muitos jogadores, de buscar informações, de falar com o Bruno (Soares), André Sá… Os caras me ajudaram muito, sabe? Tanto é que eu ganhei várias vezes do André, que eu nunca tinha ganhado deles. Mas foi essa convivência com pessoas mais experientes e o entendimento do jogo que estão fazendo com que eu amadureça e consequentemente melhore tudo.

Como são essas conversas? O que você pergunta? É mais sobre aspectos técnicos, plano de jogo ou o quê?

É mais de como se portar nos momentos importantes, de manter a calma, de manter o teu plano de jogo, de acreditar que tu pode, mesmo com a pressão, fazer aquela jogada que tu tá treinado… São coisas pequenas, mas fazem muita diferença. O Bruno diz “cara, faz a mesma coisa que tu faz o jogo inteiro. O momento importante vale a mesma coisa que o momento que não é importante. Vale o mesmo ponto.” Só que tem uma pressão a mais porque na tua cabeça tu coloca que é um ponto importante, sabe? E quanto tu te coloca essa pressão, obviamente os nervos… É diferente o ponto. Então tenta fazer o simples e o que tu tem que fazer.

O ponto e a consequência, né? Porque se você erra, justamente porque você se colocou pressão, aquilo te abala mais no ponto seguinte e afeta também a confiança…

Eu vou te dizer uma coisa que também foi uma das principais para eu dar esse salto que dei este ano, que é fazer o que tu tem que fazer, e se tu errar, tu fez o que tinha que fazer. Então tu tira a tua pressão. Isso foi uma das principais coisas que aprendi – que tô aprendendo e que está dando um resultado muito grande. Muito grande. Eu vi que é isso mesmo. Todo mundo faz, e eu vou ter que fazer.

Você falou de detalhes do saque que precisa melhorar. Que detalhes?

Eu tenho um problema nas costas, e eu saco sem olhar para a bola.

Em todos os saques?

Todos os saques!

Se colocar uma venda nos olhos, você consegue sacar?

Huuuum… Boa pergunta! (risos) Mas, por exemplo, se tu pega uma foto na hora do impacto (com a bola), eu tô quase impactando e não tô olhando para a bola. Estou com a cabeça para baixo. É um negócio que eu tenho no meu ombro que estou tentando melhorar com fisioterapia e exercícios, que eu acho que também vai melhorar muito o meu saque. Eu mudei também o negócio (a posição) das pernas e um pouco do toss.

Mudou o que nas pernas?

Antes, eu sacava com as pernas juntas.

Tipo o Thiago Monteiro?

Tipo o Thiago Monteiro.

Nossa, me dá nervoso o saque do Thiago. Tem que ter muita força na perna pra fazer o saque com as pernas juntas já antes do toss…

Perfeito. Eu tive muitas mudanças no meu saque. Quando eu jogava simples, eu imitava o Pete Sampras. Eu fazia igualzinho o Pete Sampras.

Levantando o pé e tudo mais?

É! O pezinho e tal. Depois, eu juntei os pés. Daí agora eu saco com eles abertos de novo. Mas é o aberto que facilita mais para as minhas pernas e na questão de postura também. Na questão do toss, eu sacava com o toss assim (demonstrando uma espécie de loop com a mão, o que fazia a bola não subir em linha reta), e eu não tinha muito controle do toss. Hoje, eu tenho mais controle. São esses detalhezinhos que fazem diferença.

Tênis é um negócio muito louco.

É muito louco, é muito louco. E uma coisa que melhorou muito meu saque foi o segundo saque. Porque eu comecei a entender um negócio no segundo saque, no final do movimento, do saque kick, principalmente. Eu até fazia bastante dupla falta e agora quase nunca faço porque eu peguei o movimento, eu entendi. Lá na academia tinha um equipamento com uma bolinha que eu fazia esse movimento (demonstrando o movimento da raquete pegando de raspão a bolinha para gerar o efeito kick), e eu entendi, comecei a executar e melhorei muito o segundo saque. E se tu sabe que seu segundo saque é bom, você pode arriscar mais o primeiro saque. Foi isso.

É muito detalhe…

Cada detalhe tem muita importância em cada fase.

Você já ouviu falar num jornalista americano – ele já morreu até – chamado David Foster Wallace?

Cara, não me é estranho.

Ele escreveu um artigo anos atrás sobre o Michael Joyce, que foi técnico da Sharapova e tal. Isso foi na época que o Michael Joyce jogava. Ele foi a um ATP nos EUA e escreveu esse artigo de observação sobre o cara, que estava jogando o quali até. Só que como o David Foster Wallace tinha jogado tênis como juvenil, ele entendia das minúcias do esporte. O texto dele é super didático. Ao mesmo tempo em que ele descreve o que acontece com o Michael Joyce, ele vai explicando o que é um quali, o que é um ATP, e tem uma parte do texto que é muito legal porque ele fala sobre a quantidade de cálculos que um jogador tem que fazer cada vez que bate na bola. Você observa a altura que ela vem, tem que calcular o ângulo do quique, a potência da bola e ainda pensar o que você quer fazer com ela. Depois de decidir, você tem que mudar a empunhadura, pensar no local do impacto com a bola, a potência que você quer gerar… É um negócio insano.

E um detalhe… Mais ainda: em menos de um segundo!

Sim! Aí você vai devolver o saque de um Sam Querrey… É meio segundo pra pensar em alguma coisa! E o Bopanna ainda me acertou aquela devolução no match point! (Querrey e Demoliner tiveram match point contra Rohan Bopanna e Pablo Cuevas na final do ATP 500 de Viena, e o indiano acertou uma bela devolução para anular o saque do americano em um dos match points. Bopanna e Cuevas foram campeões, vencendo o match tie-break por 11/9.)

Tu viu o jogo?

Vi o final.

Não é possível. Eu juro que eu fiquei… Não consegui dormir na noite… Na próxima noite.

Você mal tocou na bola, né?

Eu não toquei! Eu só toquei na devolução, que o cara sacou o primeiro saque, eu tentei um lob e saiu um pouco, e depois saquei o primeiro saque, o cara devolveu, eu dei uma direita, o Querrey tentou volear curtinho e errou. É foda que nã depende só de ti, né? Por isso que, cara, tem que manter a calma. Os caras falam “você jogou seis finais de ATP” (Demoliner perdeu as seis)… A primeira final de ATP eu estava nervoso. Foi com o Bellucci, em Quito, contra o Duran e o Carreño Busta. Essa final eu admito que joguei mal. Se eu tivesse jogado melhor, poderia ter sido diferente. Mas as cinco outras eu joguei bem, velho. Só que tu joga bem e não depende só de ti. O parceiro faz uma cagada ou faz uma escolha errada, enfim… Não depende de ti. Então eu tenho que manter a tranquilidade, não posso pensar em número, saber que isso é um processo e que eu tenho só 28 anos, a carreira de dupla é longa… Eu sou o #NextGen da dupla, que nem os caras falam (risos).

A derrota mais doída foi essa, de Viena?

Foi porque eu não consegui pegar na bola, mas a gente salvou match point no segundo set. Podia ter perdido antes. É um negócio muito louco. A semifinal a gente ganhou de WO. Podia ter jogado e perdido. Tem tantos fatores que tu não pode te martirizar, sabe?

E qual foi o melhor momento? Viena também?

Foi doído, mas eu vejo sempre o copo meio cheio.

Se não tivesse sido bom, não teria doído…

Exato! Não era nem para ter ganhado a primeira, a segunda rodada. Fomos para a final! A final pode vir para a gente ou ir para os outros, sabe? Como eu te falei, não depende de mim só. Foi o que aconteceu. E um momento muito legal para mim foi Wimbledon, ter jogado na Quadra Central uma semifinal de um grand slam. Foi Mista? Foi mista, mas e uma semifinal de grand slam! Tem gente que não dá valor. Eu dou valor!

Foi o primeiro ano que você e o Marcus Daniell jogaram a temporada quase inteira juntos. Mudou muito poder fazer um calendário inteiro com o mesmo cara?

Muda bastante. É sempre bom tu ter um parceiro fixo porque a gente também pegou um treinador para a dupla. Eu treino na Tennis Route, e o João [Zwetsch] estava com o [Thomaz [Bellucci], e o Duda Matos estava com o Thiago Monteiro, então eu precisava de alguém que pudesse me dar uma atenção maior. Não que eu tive falta de atenção deles, mas eu precisava de alguém full-time, então o Marcus tinha um cara bom com ele. E faz muita diferença, sabe? Porque tu sabe que o teu parceiro faz de bem e faz de ruim. Eu sei o que eu faço, e a gente sabe como cobrir esses furos, e a dupla fica muito mais forte, sabe?

Vi uma entrevista na ESPN em que você dizia que estavam evoluindo juntos.

É assim.

Vocês já ficavam à vontade pra falar o que acham que o outro precisa melhorar?

Total. A gente sempre foi muito aberto. “Olha, acho que precisa ser isso, isso e isso”, “tu não tá fazendo bem isso”… A gente tinha reuniões sempre e falava o que estava achando de bom, de ruim e o que precisava melhorar. É um relacionamento tipo um casamento, né? Tu precisa ser totalmente franco e sincero porque é assim que a dupla vai crescer, como a gente cresceu este ano inteiro. Nosso técnico também era um cara que prezava muito isso. Ele até gravava essas reuniões. Botava um radinho com um microfone, era até engraçado. Cara, eu melhorei muito meu inglês com isso. Porque, cara, meu inglês é bem normal. Eu consigo já falar super bem em relação a tênis, e isso me fez puxar pra eu aprender mais. E foi um crescimento de todos os fatores, sabe? E essas reuniões de tu falar o que precisa ser melhorado, de tu analisar “puta, isso aqui tu não melhorou bem”, “a gente precisa botar um foco maior nisso”, “a gente está perdendo os últimos jogos por isso”… Então foi sempre muito sincera e aberta essa relação.

E dupla mista? Quartas de final em Roland Garros, semifinal em Wimbledon… Você tá pegando gosto pela coisa, não?

Dupla mista foi também um negócio que me trouxe confiança. Se eu não jogo bem, a gente perde. É o homem que precisa jogar bem. Se a mulher joga o feijãozinho-com-arroz ou não joga tão bem, mas se o homem “apelar”, como a gente fala, a gente tem chance de ganhar. Como eu comecei a entrar nessas mistas, é um dinheiro que me ajuda. Eu tenho patrocínios, porém de valor baixo. E melhora muito minha dupla. E também o reconhecimento é bacana, não só de fãs e telespectadores, mas do circuito, o que é importante.

Todo mundo fala que o tenista tem um tempo de adaptação em cada nível. E não é só de nível técnico, é de se sentir à vontade naquele ambiente, com aqueles caras. Você já está à vontade nos ATPs?

Nos 250, bem à vontade. Nos 500, estou me acostumando porque não tive chance de jogar vários 500 por causa do ranking e 1000 eu joguei dois (Miami, com Daniell, e Xangai, com Fabio Fognini). Tive match point contra o Marcelo Melo em Miami. A gente entrou de alternate, jogamos com o Marcelo e o Kubot. Tivemos 6/2, 6/5 e no-ad. Eu dei uma direita na paralela que a bola sai isso aqui (mostra algo menor que um centímetro). Eu tenho até o vídeo. Os caras foram, ganharam o jogo e ganharam o torneio. Confiança, número 1 do mundo, campeões de Wimbledon.

E você se sente também mais reconhecido e respeitado no circuito?

Cara, dá para sentir bastante. Principalmente, os caras te chamam para treinar, te dão uma abertura a mais para conversar. Em questão de treinamento, hoje em dia, está muito fácil de conseguir. Isso é bom, também faz com que eu melhore porque estou treinando com os melhores. Isso eu senti bastante que mudou e tem feito bastante diferença, sabe?

O que você acha que falta pra dar essa última subida, entrar no grupo que joga os Masters 1000 e ficar lá de vez?

Vou te contar que, ninguém sabe, mas eu não jogo mais com o Marcus. A gente combinou de jogar esse ano todo e analisar. Enfim, a gente decidiu que vai dar mais um break, como em 2015. A segunda vez que a gente jogou, a gente veio muito mais maduro, muito mais forte. Também pode ser uma ideia para o futuro. A gente deixou as portas abertas, mas a gente queria tentar alguma coisa diferente para o próximo ano. Agora se você me pergunta…

Com quem você vai jogar?

(risos) Não tenho ideia ainda. Conversei com muita gente, já estava até encaminhado com o Santiago González, mas acabou que ele começou a jogar bem com o Peralta, e acabou que eles vão continuar jogando juntos. Agora estou esperando Paris para ver como fica o ranking de todo mundo para saber com quem jogar no começo do ano, onde entra, onde não entra… É uma matemática chata, mas que precisa ser feita. Quero pegar alguém para jogar pelo menos os três primeiros torneios do ano, e depois vou vendo. Todos ali na frente, do 1 ao 25, estão fechados. Um ou outro se separou, mas já se juntaram com outros. Então tem que esperar para ver o início do ano que vem. Estou achando que o Klaasen e o Ram, se não forem para o Masters (e não se classificaram), daqui a pouco…

Ninguém te procurou ainda?

O (Robert) Lindstedt foi um dos que me chamaram para jogar no ano que vem. O problema é que ele está 70 e poucos. O (Daniel) Nestor me chamou também, mas está 70 e poucos também. É difícil porque tu não entra em nenhum torneio no começo do ano. Só na Austrália. Talvez Auckland, mas eu quero jogar o primeiro antes. Quero pegar alguém pra jogar dois e tentar acostumar para o Australian Open.

Essa do parceiro me pegou de surpresa…

É que é recente!

Eu ia perguntar o grande objetivo da dupla para 2018…

Grande objetivo? Eu entrei nas minhas férias ontem, sabe? Eu prometi a mim mesmo que a partir de sábado (4 de novembro) eu vou desligar o telefone por uma semana e vou ficar sem sinal nenhum. Preciso recarregar minhas energias com a minha namorada. Nós vamos pegar uma pousadinha em Parati e, sabe, ainda não pensei muito no próximo ano. Está uma incógnita com quem eu vou jogar, e é difícil botar expectativa sem ter alguém, sabe?

O ranking é bem cruel para as duplas, né? Os Masters têm chave de 24 duplas, então são só 48 jogadores e são os torneios que valem mais pontos. Para entrar nesse “clubinho” ou você faz uma campanha grande num slam ou faz uma sequência de 500, mas que também é difícil…

Eu não entro também. Para entrar, é bem difícil, mas quando tu entra, fica mais fácil se manter porque tu joga sempre os maiores, pontua mais. Mas para 2019 vão mudar algumas regras nessa questão de chaveamento, de entrada e saída. Talvez não tenha mais os byes nos Masters 1000, o que agrega oito duplas… Não quero fazer suposições que ainda estão em votação, mas talvez acabem com o no-ad…

Muita gente diz que o no-ad não agregou nada.

Difícil dizer. Em questão de tempo, afeta 15 minutos no mais tardar. Eles fizeram as contas lá. Às vezes não é tão justo ter um no-ad porque tem um momento de sorte logo nesse ponto, sabe? Enfim, eles estão pensando em mudar isso. Vou te dizer que eu gosto de jogar no-ad, mas o “deuce” eu acho que é mais justo.

Para terminar, fala um pouco da tua vida no Rio de Janeiro. Você está aqui há um bom tempo já…

Desde 2011. Sou gaúcho-carioca já.

Acho que ouvi alguém falar “cariúcho”.

Cariúcho? (risos) Cariúcho! Vou te dizer que eu sou nômade! (mais risos)

Bom, para um tenista não muda tanto o lugar onde mora…

Mas, por exemplo, agora com o ranking melhor eu vou conseguir saber onde eu jogo, posso fazer um calendário melhor, não vou precisar ficar na estrada o quanto eu fiquei este ano. Mas eu moro com meu pai. Ele é o gestor da Tennis Route. Faz três anos que ele mora aqui comigo. É uma delícia morar com alguém da família porque eu saí de casa com 14 anos e desde os 14 eu não morava com ninguém da família. E meu pai é meu melhor amigo. Tu chega em casa, tem uma base, alguém para conversar e tomar um chimarrão, que é um negócio que eu prezo. A gente mora no Recreio, que é um lugar afastado, tranquilo, e eu gosto muito de morar no Rio de Janeiro. Quanto tenho tempo, pego a bicicleta e vou para a praia, tomo um chimarrão. Minha namorada infelizmente ainda mora no sul, mas sempre que pode vem e fica alguns dias comigo. Difícil eu sair do Rio. Gosto muito do Rio, gosto muito de praia.

Para terminar: eu devia ter perguntado isso antes, mas deixei passar… A última vez que a gente fez um entrevistão você tinha acabado de decidir virar duplista. Esta temporada de 2017 mostra definitivamente que foi a decisão certa?

Certíssima. Principalmente pela questão física minha. Eu nunca descobri nem solucionei minhas questões físicas de desidratação e cãibra.

Acho que foi até o Thiago Quintella, do Globoesporte.com, que me falou isso. Que era o mesmo problema do Thomaz, né?

Exatamente. Tipo… Ano passado, eu joguei um torneio de simples contra o Julinho (Júlio Silva), deu três horas, era de noite, eu perdi sete quilos e meio. Obviamente, eu repus quatro litros dentro da partida, mas mesmo assim fiquei com três quilos e meio a menos. Falei “cara, não quero sofrer assim.” Nunca descobri e não sei. Foi uma decisão natural. Eu tinha que achar uma coisa para solucionar isso. Na dupla, não tem esse desgaste. Talvez em Wimbledon, que é cinco sets, mas não tão úmido quanto um Rio de Janeiro. E eu sempre fui um cara que joguei muito chip-and-charge, na rede, saque-e-voleio, e também encaixou, né? Só precisava melhorar a devolução (risos)!

Em uma entrevista com o Bruno, eu citei o seu caso e perguntei se ele achava que era uma tendência o Brasil ter duplistas mais jovens. Não lembro exatamente se ele disse sim ou não, mas lembro que ele falou que o exemplo dele e do Marcelo racionalizava o processo. Quem está começando para pra pensar mais cedo…

Tanto é que o (Fabrício) Neis, o Fabiano de Paula, tem alguns jogadores que querem só jogar dupla. Mas com certeza, isso influenciou por causa do momento que vive o Brasil. E eu sou muito grato pelo Bruno, pela ajuda que ele sempre me deu, de conselhos, de amizade. A gente tem passado bastante tempo junto, agora que estou jogando mais torneios com ele, e é o cara a quem eu sou grato. É um cara do bem.

Legal você dizer isso porque anos atrás o Bruno me contava sobre o quanto ele ganhou jogando com o Kevin Ullyett, lembra dele? Em 2009, o Kevin tinha 37, estava no fim da carreira, e o Bruno nascendo na dupla, vindo de uma semifinal de Roland Garros em 2008. E ele fala que aprendeu demais nesse período com o Kevin.

E eu estava aqui com meu amigo antes de você chegar… Ele checou onde estavam o Bruno e o Marcelo com 28 anos, em 2010. O Bruno estava 35, e o Marcelo estava 39 do mundo. Eu não conferi, foi meu amigo que olhou.

(Na verdade, Melo tinha 27 anos ao fim da temporada de 2010. Ao fim de 2011, com 28 anos, o Girafa era #27 do ranking).

Mas é o que o Aliny (Calejon) fala, né? Com 28 anos em dupla, você é bebê no circuito. Pela frente, você tem aí, fácil, sete anos de carreira, podendo chegar a dez se estiver fisicamente bem.

E jogando os torneios que, pô, sempre via pela TV, sempre almejei. Se não dá na simples, tudo bem!

Isso é o mais legal, né? Qual dos quatro você gosta mais?

Wimbledon.

Adoro pessoas que respondem Wimbledon (risos).

Wimbledon é disparado. Não tem comparação.

Quando você jogou lá pela primeira vez?

Em 2013.

Como é que foi?

Engraçado porque o primeiro jogo foi contra os Bryans.

Eu não estava nem perguntando do jogo. Quero saber a sensação de pisar na quadra.

Inacreditável! Eu lembro que fui andando do vestiário para a quadra com as pernas tremendo. Tremiam! Porque a gente jogava na terça-feira, mas acabou jogando na sexta. A gente aquecia, ia e tal, aí chovia. Trocava, cancelava, daí na sexta-feira o tempo estava feio também, tinha a tensão, eu nunca tinha jogado um grand slam, eu estava jogando com o André Sá, um grande amigo que me ajudou demais. Foi bacana. Não foi tão feio (risos). Foi 6/4, 6/4, 6/1 contra os Bryans. Foi bem bacana, cara.

É um lugar incrível.

A tradição também é um negócio que faz com que tenha um peso maior. É incrível, incrível.

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Rafael Nadal, o improvável recordista de longevidade http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/03/rafael-nadal-o-improvavel-recordista-de-longevidade/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/11/03/rafael-nadal-o-improvavel-recordista-de-longevidade/#respond Fri, 03 Nov 2017 13:59:41 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5625

A temporada de 2017 pertence a Rafael Nadal. Depois de um par de anos atrapalhado por lesões e mostrando um nível de tênis bem abaixo de seu melhor, o espanhol voltou ao topo do tênis e terminará o calendário em primeiro lugar. Impossível questionar os números. Foram dois títulos de slam (além de um vice), dois de Masters 1000 (e mais dois vices) e outros dois de ATPs 500 (com um vice).

Em números absolutos, não foi a melhor temporada da vida do espanhol. Talvez tenha sido, por outro lado, a mais relevante. Afinal, significou uma volta ao cume do esporte depois de períodos duros. Nos últimos anos, Nadal perdeu jogos em situações nas quais estava habituado a sair vitorioso, deixou de jogar torneios grandes por causa de lesões e competiu em condições longe das ideais. Com mais de 30 anos nas costas – e, principalmente, nos joelhos! – um retorno à liderança do ranking não parecia nada provável àquela altura.

Grande campeão que sempre foi, Nadal nunca deixou de acreditar que podia voltar a vencer como antes. Aos poucos, reconquistou a confiança em seu forehand e em sua capacidade de minar e destruir rivais. O backhand voltou a fazer estrago. O serviço, é bom que se diga, nunca voltou à velocidade daquele US Open de 2010, mas muito mais por opção do que por capacidade (Nadal sempre disse que prefere um tempo extra antes de executar seu segundo golpe). E, acima de tudo, o corpo ajudou.

Quando o físico está em dia, o espanhol treina mais. E o Nadal que pode treinar à vontade é a versão mais perigosa de Nadal. Uma versão que voltou a dominar o saibro europeu, que fez duas finais de slam em quadras duras e que encaixou uma sequência de 18 vitórias em 19 jogos em piso sintético (do US Open até a desistência em Paris, anunciada nesta sexta-feira por causa de dores no joelho).

O mais curioso – e proporcionalmente espetacular – é constatar que Nadal, um tenista que sempre precisou mais do físico do que alguns de seus contemporâneos, se transformou em um campeão e recordista de longevidade aos 31 anos. Ao terminar 2017 como número 1, ele se torna o mais velho tenista na história a fechar uma temporada no topo do ranking. Além disso, é de Nadal o recorde de maior intervalo entre a primeira e a última vez que alguém encerra um ano como #1: nove anos entre 2008 e 2017. Nada mau, não?

Coisas que eu acho que acho:

– Nadal foi o campeão da temporada e terminará 2017 como número 1, mas uma discussão interessante continua ar: quem foi o “melhor” do ano? Ele ou Federer? É possível levantar argumentos interessantes a favor de ambos. O suíço, por exemplo, jogou menos, mas teve aproveitamento melhor (49v e 4d contra 67v e 10d do espanhol). Além disso, superou Nadal nos quatro confrontos diretos do ano e é favorito no caso de um quinto encontro em Londres, no ATP Finals.

– Minha opinião: é fácil imaginar que Federer teria os pontos necessários para ser número 1 se tivesse jogado o circuito europeu de saibro e o Masters de Paris. Mas fazer esse tipo de ponderação seria entrar no reino do “se”, e isso significaria imaginar que o suíço, com 35/36 anos durante a temporada, também poderia ter se lesionado e ficado fora de Wimbledon. Ou ainda imaginar se Federer e Nadal teriam esse nível de sucesso se Djokovic e Murray não tivessem sofrido com lesões em 2017. Não adianta. No fim das contas, o que aconteceu de fato foi que Nadal jogou mais, venceu mais e merece ser o melhor do ano. Mesmo com Federer eventualmente conquistando o ATP Finals.

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Quadra 18: S03E14 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/10/31/quadra-18-s03e14/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/10/31/quadra-18-s03e14/#respond Tue, 31 Oct 2017 17:04:39 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5622

O título de Caroline Wozniacki em Singapura, a eleição de Garbiñe Muguruza como tenista do ano na WTA, a decepção de Simona Halep no último torneio do ano e a opção de Roger Federer, campeão na Basileia, por não competir em Paris foram alguns dos assuntos mais quentes da última semana no tênis.

Com isso em mente, Sheila Vieira, Aliny Calejon e eu nos reunimos para gravar o podcast Quadra 18 pós-WTA Finals. Também falamos da ascensão de Marcelo Demoliner. da trapalhada do canal Sony e do atual cenário da TV brasileira em relação ao tênis. Quer ouvir? Basta clicar neste link. Se preferir, clique com o botão direito do mouse e escolha “salvar como” pra baixar o arquivo e ouvir mais tarde.

Os temas
0’00” – Rock Funk Beast (longzijum)
0’15” – Aliny apresenta os temas
1’05” – Uma análise do título de Wozniacki no WTA Finals
4’10” – Hoje, Wozniacki é uma tenista muito melhor do que quando foi #1?
8’00” – A campanha decepcionante de Simona Halep em Singapura
9’50” – Garbiñe Muguruza foi eleita a melhor do ano. Merecido?
9’50” – A votação de melhor do ano deveria ser feita após o WTA Finals?
14’14” – As falhas do canal Sony no WTA Finals (e na temporada)
21’50” – A situação no Brasil: cada vez menos torneios na TV
24’39” – Rooftops (Daphne Khoo)
25’10” – Os títulos de Federer na Basileia e Pouille em Viena
27’35” – Del Potro e a briga pelas últimas vagas para o ATP Finals
29’30” – O Finals #NextGen e o público liberado para andar durante o jogo
30’30” – A desistência de Federer em Paris, e a mudança na chave do torneio
31’50” – A campanha em Viena e a grande ascensão Marcelo Demoliner em 2017
34’00” – Dodig/Granollers e a corrida pela última vaga no ATP Finals

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O brilhante ‘retorno’ de Wozniacki http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/10/30/o-brilhante-retorno-de-wozniacki/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/10/30/o-brilhante-retorno-de-wozniacki/#respond Mon, 30 Oct 2017 09:00:36 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5618

O bom momento do tênis de Caroline Wozniacki, obviamente, não começou na semana passada, em Singapura. No entanto, o título do WTA Finals, conquistado com triunfos maiúsculos em cima de Simona Halep, #1 do mundo, Karolina Pliskova, #3, Elina Svitolina, #4, e Venus Williams, #5, pede uma nova reflexão sobre as qualidades da dinamarquesa – e não apenas em 2017.

Longe de ser a mais agressiva ou recordista de winners da WTA, Wozniacki é dona de um tênis inteligente – e já cansei de escrever isso em momentos diferentes no blog. Seu jogo é baseado em porcentagens. Em um dia normal, a dinamarquesa erra pouco, usa muitas cruzadas e joga com uma quantidade de spin que lhe permite certa margem de segurança. Foi assim, à base de muita consistência, que a moça ficou 67 semanas como número 1 do mundo. E ressalte-se: apenas oito tenistas na história do ranking permaneceram mais tempo no topo.

A temporada 2016 foi especialmente dura para a dinamarquesa. Uma lesão no tornozelo teve sua parcela de responsabilidade, mas não foi só isso. Os resultados não vieram. Em agosto, Wozniacki se viu além da 70ª posição no ranking. Faltavam físico, consistência, paciência. A essência de seu jogo estava ausente. Ainda assim, foi uma temporada que terminou com dois títulos para ela. Ambos no fim do ano (Tóquio e Hong Kong), o que permitia a seus fãs vislumbrar um 2017 mais feliz.

Foi exatamente o que aconteceu. Wozniacki “voltou”. Até um pouco mais agressiva do que antes, mas nem tanto assim. As campanhas em slams não foram das melhores (as quartas de Roland Garros foram seu melhor resultado), mas a consistência estava lá. Foi com ela que a ex-número 1 chegou a sete finais antes de Singapura: Doha, Dubai, Miami, Eastbourne, Bastad, Toronto e Tóquio.

Como aconteceu na maior parte da carreira, Wozniacki ainda sofria com tenistas mais agressivas e em bom momento. Perdeu seis dessas sete finais. Foi derrotada por Pliskova (2x), Svitolina (2x), Konta e Siniakova. É o preço que se paga por deixar a adversária ditar o jogo a maior parte do tempo. Mas a dinamarquesa derrubou Pavlyuchenkova no Japão, onde levantou seu primeiro troféu do ano. E aí veio a participação no WTA Finals, em Singapura.

A quadra do torneio, dura e lenta, era perfeita para seu tênis. Wozniacki e sua consistência destruíram mentalmente gente acostumada a longas trocas como Halep e Svitolina (as duas, juntas, ganharam quatro games). A romena já estava acabada mentalmente no início do segundo set. No vídeo do tweet acima, com menos de uma hora do jogo, é possível ver o desânimo na conversa com o técnico Darren Cahill.

Mas não foi só regularidade que ganhou jogos em Singapura. Os saques da dinamarquesa, mais com posicionamento do que com força, também fizeram estrago. E já que a quadra lenta reduzia a vantagem de serviços mais potentes – como os de Venus e Pliskova – foi possível, aí sim, apostar na consistência. Wozniacki também agredia, mas sem correr riscos desnecessários. Americana e tcheca não têm as melhores movimentações do fundo de quadra, então mudar direções funcionou bem. E, com poucos erros, a ex-número 1 frustrou ambas. Ainda no primeiro set, Pliskova já se queixava para sua técnica, Rennae Stubbs: “Ela está em toda parte” (“She’s everywhere” é a frase original). Veja no vídeo abaixo.

A final, contra Venus, não foi muito diferente da semi, contra Pliskova. A diferença é que Wozniacki, depois de abrir 5/0 no segundo set, deu uma aliviada. Passou a agredir em menor intensidade, a movimentar menos a rival. A americana ensaiou uma reação, devolveu duas quebras e chegou a sacar em 4/5, antes de perder o serviço. Um sustinho para dar um toque de drama a uma campanha absolutamente brilhante.

Wozniacki, agora, vai começar 2018 pertinho de voltar à liderança do ranking. Enquanto Halep segue na ponta, com 6.175 pontos, Muguruza fica logo atrás, com 6.135, e a dinamarquesa tem 6.015. Como o calendário da WTA tem dois Premiers (Brisbane e Sydney) que dão 470 pontos cada às campeãs, não é nada improvável que o circuito feminino chegue ao Australian Open com uma nova número 1. Wozniacki, que pouco fez em janeiro de 2017, é uma candidata fortíssima ao posto.

Coisas que eu acho que acho:

– Sim, Wozniacki vai continuar carregando por enquanto o rótulo de (ex)“número 1 sem slam”, que é uma espécie de crítica e constatação ao mesmo tempo. Injusto? Menosprezo? Não acho. O mundo do tênis mede seus ídolos pelo tamanho e não pelo número de suas vitórias. É o que nos faz, por exemplo, dar mais valor a Roger Federer do que a Jimmy Connors, que tem 109 títulos na carreira (14 a mais que o suíço). É, inclusive, uma comparação que já não faz sentido há mais de uma década.

– Se Wozniacki aposentar sem um título de slam, ninguém vai poder dizer que foi uma carreira mais ou menos. Mas alguém hoje ousa afirmar (e eu gosto muito dessa comparação) que a dinamarquesa brilhou mais, digamos, do que Venus Williams? Wozniacki, afinal, ficou 67 semanas como número 1, enquanto a americana ficou apenas 11 semanas no topo. Venus, porém, jogou 16 finais de slam e ganhou sete delas. A dinamarquesa, por enquanto, só chegou a duas decisões em torneios deste nível e perdeu ambas.

– Nem precisaria ir tão longe com Venus Williams. Maria Sharapova tem 21 semanas como número 1. Kim Clijsters soma 20. Ambas são vistas, de modo geral, como campeãs maiores do que Wozniacki. É equivocado pensar assim? Acredito que não. E repito: o mundo do tênis julga seus atletas pela importância de seus feitos e não pela quantidade deles. Não acho nada errado.

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Canal Sony se explica, mas vai mostrar WTA Finals inteiro em VT http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/10/26/canal-sony-se-explica-mas-vai-mostrar-wta-finals-inteiro-em-vt/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/10/26/canal-sony-se-explica-mas-vai-mostrar-wta-finals-inteiro-em-vt/#respond Thu, 26 Oct 2017 14:15:40 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5604

Quem passou aqui pelo blog nos últimos dias certamente leu este texto, que é um resumo dos erros e acertos do canal Sony em suas transmissões de tênis feminino. No post, questiono a ausência de transmissões nos quatro primeiros dias do WTA Finals, evento mais importante do pacote do Sony. É um torneio com as oito melhores atletas da temporada e que vale, entre outras coisas, a liderança do ranking.

A assessoria do Canal Sony entrou em contato hoje para me enviar uma resposta (aparentemente, eles haviam enviado o posicionamento do canal na noite de terça-feira, mas o email se perdeu em algum lugar do cyberespaço). Segue abaixo o email na íntegra, em itálico, inclusive com a informação chocante – não no bom sentido – de que todas partidas do WTA Finals serão exibidas em VT pelo Sony.

Para a transmissão do WTA (Women’s Tennis Association) o canal compôs a exibição das partidas junto à exibição das séries, filmes e realities que também integram a grade de programação, procurando atender às expectativas de todas as suas audiências. Por esse motivo o canal optou por transmitir os jogos a partir das quartas de final dos torneios, e algumas partidas em VT.

Os jogos do WTA Finals serão exibidos em VT, a partir das quartas de final. Todos os jogos serão transmitidos na íntegra.

Abaixo, os dias e horários de exibição:

26/10 – Primeira quarta de final – 10h (VT)
26/10 – Segunda quarta de final – 12h (VT)

27/10 – Terceira quarta de final – 10h (VT)
27/10 – Quarta quarta de final – 12h (VT)

28/10 – Primeira semifinal – 10h (VT)
28/10 – Segunda semifinal – 10h (VT)

29/10 – Final – 9:30 (VT)

Agradecemos suas sugestões que apresentam importantes pontos de vista de quem ama esse esporte. Por termos o compromisso de levar entretenimento diverso e de qualidade para nossas audiências distintas, vamos levar todas em consideração, juntamente com outras considerações, para os nossos futuros planos de exibição.

Atenciosamente,
Canal Sony

Coisas que eu acho que acho:

– O email não é específico o bastante, mas dá a entender que mostrar o WTA Finals causa um conflito de grade com outras atrações do canal. Faz pouco sentido, já que no domingo, primeiro dia do WTA Finals, o Sony mostrava VT do WTA de Hong Kong. Ou seja, havia horário para tênis na grade. Trocaram tênis por tênis.

– Outro ponto interessante (que inclusive levantei junto à assessoria do canal) é que nesta quinta-feira o Sony mostrava Venus x Muguruza com delay de cerca de 30 minutos, ao mesmo tempo em que o jogo acontecia ao vivo. Ou seja, havia grade. Ainda aguardo uma posição sobre isso. Se o canal explicar, incluirei a resposta no post.

– Talvez o mais chocante de tudo é que o email do canal diz que o Sony começaria a mostrar o WTA Finals a partir das quartas de final. Será possível que ninguém na empresa sabe que o torneio não tem quartas de final?!?! Parece mais um exemplo de que, como escrevi no post anterior, o canal embarcou numa jornada tenística com boas intenções, mas sem o conhecimento necessário do esporte e de seu público.

(Parágrafo abaixo incluído às 10h20min do sábado, 28/10)

– Recebi na noite de sexta-feira, por volta das 19h30min, outro email da assessoria da Sony. O canal não explicou a razão para os delays na transmissão dos jogos, mas informou que a decisão do WTA Finals, programada para 9h30min do domingo,será exibida ao vivo. O detalhe interessante é que não houve uma mudança na programação do canal (basta conferir o email reproduzido acima). É que finalmente alguém do canal percebeu que o horário escolhido batia com a final em Singapura. O pessoal lá anda um tanto atrapalhado…

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O erro não forçado do canal Sony com a WTA http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/10/23/sony-wta-erro-nao-forcado/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2017/10/23/sony-wta-erro-nao-forcado/#respond Mon, 23 Oct 2017 15:32:49 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5596

O início de 2017 foi animador para as transmissões de tênis feminino no Brasil. O canal Sony adquiriu os direitos de exibição dos WTAs, que até então pertenciam ao Bandsports, e começou a temporada em alta. Com dois comentaristas de peso em Larri Passos e Jaime Oncins – Vanessa Menga também fez parte da equipe – e um narrador competente no jornalista Cesar Augusto, o Sony deu uma sacudida interessante (e até necessária) nas coisas.

O pacote era parecido com o do Bandsports, com as transmissões começando quase sempre na segunda metade da semana, mas o Sony levou equipes para Indian Wells e Miami, encaixou entrevistas exclusivas nos intervalos dos jogos e habilitou a função SAP. Assim, quem quisesse ouvir em inglês, frequentemente com ex-tenistas famosas nos comentários, tinha essa opção. A recepção do público foi boa.

Não dá para enfatizar o bastante: Larri e Jaime fazem uma diferença gigante. O primeiro, ex-Guga, também foi um dos raros brasileiros a trabalhar no principal nível do tênis feminino nas últimas décadas. O segundo, além de brilhante tenista, sempre se mostrou um excelente comentarista. Em todos canais por onde passou, deixou boas impressões. Preciso nas análises e sem fanfarronices.

E foi assim, durante boa parte do ano, que o Sony tocou suas transmissões. A coisa começou a desandar quando o circuito feminino chegou à Ásia. O canal decidiu mostrar jogos em VT. O público não gostou. Faltou, por parte dos tomadores de decisão, a compreensão de que tênis, especialmente mostrado em TV a cabo e num canal que não é de esportes, é uma atração de nicho.

Um nicho que acompanha placar em tempo real nos aplicativos, que abre o Twitter para ler notícias e comentários, que sabe quem foi a campeã de New Haven em 2011 e que conhece o ex-marido da tia da número 38 do mundo. Um nicho que quer ver tênis ao vivo e topa ficar acordado de madrugada para isso. É um nicho, afinal, que sabe que a WTA não está num canal de esportes.

Faltou também flexibilidade. Bia Haddad Maia, brasileira em ascensão e fazendo jogos importantes, passou longe do canal. O Sony não mostrou sua partida contra Venus Williams em Miami nem o duelo com Garbiñe Muguruza em Cincinnati. E foi um ano brilhante da brasileira, que disputou sua primeira final de WTA. Foi em Seul, contra Jelena Ostapenko, campeã de Roland Garros, mas o Sony optou por exibir o WTA de Tóquio (em VT) naquela semana. Não houve adaptação aos interesses locais.

Mas o grande erro não forçado mesmo veio nesta semana. Neste domingo, dia 22, começou o WTA Finals, em Singapura. É o grande evento da WTA, com as oito melhores tenistas da temporada. O número 1 do mundo está em jogo. É o principal torneio do pacote do Sony. No entanto, ainda não consta na grade do canal. Segundo Cesar Augusto informou em sua conta no Twitter, as transmissões começarão na quinta-feira. Até lá, o fã de tênis terá perdido oito jogos. São dois terços da fase de grupos. Uma falha feia que o Bandsports não cometia.

A coisa foi tão mal conduzida e programada de forma tão insensível que neste domingo, enquanto Muguruza enfrentava Ostapenko em Singapura (um duelo entre as campeãs de Wimbledon e Roland Garros), o Sony mostrava, em VT, um jogo do irrelevante WTA de Hong Kong. Parece piada. Não é. Péssimo timing.

O que justifica “esconder” jogos tão bons? Será que algum tomador de decisão do canal desconhece o formato ou a importância do WTA Finals? Será que não compreendem o nível de descontentamento que isso causaria no espectador? Sugiro que façam uma busca nas redes sociais e vejam a repercussão. Difícil saber o motivo. Escrevi para a assessoria do canal no Brasil, e a resposta (recebida três dias após a publicação deste post) está aqui.

Por enquanto, fica apenas a impressão de que o Sony começou uma empreitada bem intencionado, mas sem o conhecimento do assunto e os meios necessários para oferecer o melhor produto possível ao espectador brasileiro. Uma pena…

Coisas que eu acho que acho:

– Toda vez que escrevo uma crítica a um canal (qualquer canal), alguém sai em defesa da instituição com o discurso de “você deveria agradecer por eles estarem mostrando tênis” ou o velho “eles estão ajudando a divulgar o esporte” e, por isso, não deveriam ser criticados. Bobagem. Ninguém mostra tênis na TV por caridade. Todo mundo tem seus interesses. E se não fosse o Sony, outro canal poderia estar exibindo a WTA no Brasil e fazendo um trabalho igualmente bom (ou ruim). Então joguemos para baixo do tapete o “coitadismo” e avaliemos as coisas como elas são. O Sony cometeu um erro não forçado gravíssimo nesse WTA Finals. Que a crítica sirva para alguém lá abrir o olho e prestar atenção no nível de satisfação de seus consumidores.

– Deixo aqui o agradecimento à memória invejável para assuntos “WTAzísticos” do Mário Sérgio Cruz, do Tenisbrasil. Foi a colaboração dele que me permitiu poupar um tempo enorme antes de escrever o parágrafo sobre Bia Haddad Maia fora do Sony. Quem gosta de tênis feminino deveria segui-lo no Twitter. O Mário, aliás, também toca o ótimo blog Primeiro Set sobre circuito juvenil e promessas do tênis. Confiram!

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