Saque e Voleio http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br Se é sobre tênis, aparece aqui. Tue, 20 Feb 2018 12:20:56 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 O jogo insano, a vitória que escapou e o ‘caminho certo’ de Bellucci http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/20/o-jogo-insano-a-vitoria-que-escapou-e-o-caminho-certo-de-bellucci-fognini-rio-open/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/20/o-jogo-insano-a-vitoria-que-escapou-e-o-caminho-certo-de-bellucci-fognini-rio-open/#respond Tue, 20 Feb 2018 11:49:01 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5995

Imagine, caro leitor, dois jogadores imprevisíveis. Bote no liquidificador junto com algumas centenas de torcedores barulhentos e adicione uma quadra com quiques irregulares. Poucas combinações resultariam numa partida insana quanto a que Thomaz Bellucci, #123 do mundo, e Fabio Fognini, #21, disputaram na noite desta segunda-feira, na primeira rodada do Rio Open.

A começar pelo excelente primeiro game do brasileiro, anulado com um péssimo saque-e-voleio num break point do game seguinte. Por 25 minutos, Fognini foi o atleta mais consistente em quadra. Abriu 5/2 e parecia senhor de seu destino. Fez duplas faltas, mandou bolas para fora e perdeu não só um set point com Bellucci sacando em 15/40 no oitavo game como cedeu o serviço na sequência. O italiano também jogou fora quatro set points no décimo game. Valeu a luta do tenista da casa que, ainda instável, fez o bastante para vencer um nervoso tie-break: 7/6(5).

Com a torcida fazendo barulho e Fognini sem paciência, o brasileiro mandou no início da segunda parcial. Fez 4/0 depois de o italiano receber atendimento médico a ter a perna esquerda enfaixada. Jogo na mão do paulista, certo? Que nada! Depois de vencer nove de dez games, Bellucci voltou a errar mais (e antes) do que o italiano nos ralis. A vantagem evaporou: 4/4.

O tenista da casa ainda salvou break points no nono game e esteve a dois pontos da vitória quando Fognini sacou em 4/5 e 0/30. Fabio jogou três pontos perfeitos, saiu do buraco e quebrou Bellucci no 11º. E como se o jogo não estivesse louco o bastante, o italiano fechou o set em um ponto em que deixou a raquete escapar de suas mãos. Pegou-a de volta no ar – após a raquete quicar no chão – ganhou o ponto e fez 7/5.

Já eram 23h45min no Rio quando o segundo set acabou. A torcida murchou. Muitos deixaram de vez o Jockey Club Brasileiro. A parcial decisiva começou com duas quebras seguidas, mas logo Fognini disparou até fazer 5/1, somando 12 games vencidos em 14 jogados. Bellucci esboçou uma reação, confirmando o serviço e conquistando um 0/30 no saque do rival, mas o italiano venceu os quatro pontos seguintes e fechou em 6/7(5), 7/5 e 6/2.

Thomaz Bellucci levou cerca de 40 minutos para aparecer na zona mista e dizer algo. Falou que se sentiu frustrado por ter deixado escapar, mas que acredita estar indo na direção certa para voltar a subir no ranking.

“Estava a dois pontos de ganhar o jogo. O cara deu dois aces o jogo inteiro e deu um ace no momento que precisava, no 0/30. Talvez ali no 4/0 eu tenha tirado o pé, e ele foi para o tudo ou nada e acertou as bolas. Talvez eu poderia ter jogado um pouco mais agressivo. Eu optei por continuar o que eu estava fazendo, jogando sólido e esperando o erro dele, e ele estava errando muitas bolas. Estou no caminho certo. É difícil ficar tão perto da vitória e deixar escapar, mas ao mesmo tempo é um cara que está 20-25 do mundo. Estou no caminho certo. É ajustar uma ou outra coisa que a vitória vai surgir.”

Coisas que eu acho que acho:

– O público carioca empurrou e tentou ao máximo levar Bellucci à vitória. Nos últimos games, porém, já era nítida a sensação de impaciência e frustração com o tenista brasileiro. Na maior parte do tempo, porém, foi legal ver tanta gente junto com Bellucci. Por outro lado, foram lamentáveis as vaias gratuitas a Fognini em alguns momentos. O italiano, é bom que se diga, se comportou muito bem (para os seus padrões) o jogo quase todo.

– Quando questionado sobre o que fez de taticamente diferente em relação às partidas anteriores contra Fognini, Bellucci disse apenas que “a gente mudou algumas coisas” e não quis dar detalhes. Declarou que o plano tático “é um pouco pessoal” e que estava taticamente bem no jogo.

– Comparando com o que afirmou na coletiva do dia anterior, Bellucci nem chegou perto do que o técnico André Sá vem pedindo. Nem conseguiu jogar mais perto da linha de base (foi Fognini que ganhou esse duelo) nem conseguiu subir à rede com sucesso. Quando optou por fazer saque-e-voleio, quase sempre executou mal.

– Apesar de emocionante, a partida teve muito mais erros não forçados do que winners. Até no primeiro tie-break, Bellucci, que saiu vencedor, cometeu cinco falhas. Houve pontos bacanas, bem jogados, mas na maioria do tempo levou a melhor quem simplesmente alongou os ralis sem errar.

– Depois de 3/4 da turnê sul-americana de saibro, Bellucci soma apenas uma vitória e três derrotas em chaves principais (ganhou duas partidas no quali em Buenos Aires). São Paulo será a última boa chance de pontuar e voltar ao top 100 antes de Indian Wells e Miami. Por enquanto, o paulista vai caindo para além do 130º posto na lista da ATP.

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Marin Cilic: força interior e perfeccionismo na busca pelo número 1 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/19/entrevista-marin-cilic-forca-interior-e-perfeccionismo-na-busca-pelo-numero-1/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/19/entrevista-marin-cilic-forca-interior-e-perfeccionismo-na-busca-pelo-numero-1/#respond Mon, 19 Feb 2018 11:00:25 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5978

O Rio Open começa nesta segunda-feira, e a atração principal é Marin Cilic, atual número 3 do mundo. Campeão do US Open de 2014 e vice-campeão em dois dos últimos três slams (Wimbledon 2017 e Australian Open 2018), o croata de 29 anos vai abrir sua participação na Cidade Maravilhosa contra Carlos Berlocq, que furou o qualifying. O jogo será na sessão noturna, com início previsto para as 19h locais.

Na sexta-feira, tive a chance de bater um papo com Cilic. Em cerca de 15 minutos, conversamos principalmente sobre força interior, a busca pela evolução em pequenos pontos percentuais e como aproveitar da melhor forma possível o tempo na procura por esse crescimento.

O croata passou longe das frases ensaiadas de muitas coletivas por aí, e quem ler as linhas abaixo vai logo entender como alguém como ele chega a #3 do planeta. Cilic, aliás, também disse abertamente que vai tentar chegar ao topo do ranking. E nosso papo tomou essa direção por causa de um livro de autoajuda que ele terminou no caminho para o Brasil…

Quando você estava vindo para o Rio, postou no Instagram uma imagem lendo o livro “Grit”, de Angela Lee Duckworth (o livro foi lançado em português com o título “Garra: O Poder da Paixão e da Perseverança”). Conseguiu terminar? Gostou?

Sim, terminei. Gostei muito. Eu gosto bastante de livros de não-ficção, que são um pouco mais psicológicos. No último ano, ano e meio, li vários desses. Gostei de “Grit” porque fala de como todos nós podemos encontrar uma força interior e conseguir melhorar. Somos todos talentosos de algum modo, mas o que faz a diferença são alguns pontos percentuais que te levam ao limite e te fazem evoluir. Eu me vejo nesse tipo de situação porque como tenista você está sempre sendo desafiado. São muitos desafios durante um dia, durante uma semana, durante um ano. Nisso, essa força interior é extremamente importante. Por isso, para mim, foi um ótimo livro.

Eu perguntei sobre isso porque uma das coisas que a Angela Duckworth escreve é sobre como a vida deve ser vista como uma maratona e não como um sprint. E sua carreira é muito consistente. Você esteve praticamente o tempo inteiro no top 20 desde que tinha 20 anos, ganhou um slam aos 25 e continua melhorando. Não foi nem uma subida astronômica nem houve uma queda após o título do US Open. Você se identifica quando lê algo assim?

Com certeza. Grande parte de ser tenista é adquirir experiência. Você aprende sobre si mesmo, aprende sobre a competição, aprende a ter um desempenho melhor, como usar melhor o tempo durante o dia. Dei um grande passo adiante nos últimos anos. Minha vitória no US Open foi obviamente enorme, mas tudo me levou a um caminho de sempre pensar em como melhorar, como evoluir. E a força interior, esses pequenos pontos percentuais de você mesmo que são invisíveis, são uma energia que nunca acaba. Acho que você pode encontrar em cada dia essa pequena motivação que vai te dar um impulso enorme. Faz uma grande diferença. É por isso que olho para os próximos três ou quatro anos como um grande desafio. Quero usar todos os dias da melhor maneira possível. Quando terminar a carreira, quero olhar para trás e dizer que alcancei o maior nível que seria possível para mim. Esse é o objetivo para mim.

Você me recomenda algum outro livro desse tipo?

Eu recomendo “Power of Habit” (de Charles Duhigg, lançado em português como “O Poder do Hábito: Por que Fazemos o Que Fazemos na Vida e nos Negócios”) e um livro que me deu a base para a minha fundação (Marin Cilic Foundation, focada em educação para jovens) chamado “Outliers”, de Malcom Gladwell (lançado em português como “Fora de Série”), que também fala sobre talento e como e por que pessoas de sucesso têm sucesso. É também sobre como todos nós precisamos – todas pessoas de sucesso, eu inclusive, tivemos uma oportunidade. Quando eu era jovem,eu jogava tênis e não sabia o que seria do meu futuro, mas tive uma chance de jogar e, mais tarde, de evoluir. Com isso, tive a oportunidade de conhecer bons técnicos que me trouxeram até onde estou. Essa é uma das coisas que quero tentar criar, especialmente na Croácia. Tentar encontrar jovens de lugares pequenos ou com famílias que não podem dar um apoio grande e dar a esses jovens uma oportunidade.

Eu não li “Power of Habit”, mas li um texto do mesmo autor em que ele fala sobre como hábitos se desenvolvem sem que a gente perceba e como quebrar esse hábitos. Isso é algo que se aplica ao tênis? Pergunto porque tenistas costumam se descrever como “criaturas de hábito”…

Eu não apliquei muito disso ao tênis, mas apliquei uma coisa, que é para que meu time tenha uma comunicação melhor. O livro cita um caso interessante em que a comunicação transformou uma empresa inteira. Estamos falando de centenas de funcionários, e no meu pequeno time todos sabemos o quanto a comunicação é importante. Com isso, tentei me conectar melhor com a equipe porque sei a importância que eles têm para mim, e quando estamos nos comunicando, obviamente há menos problemas.

Você ganhou pelo menos um título de ATP por ano desde 2008, conquistou um slam (US Open 2014), jogou a final em outros dois (Wimbledon 2017 e Australian Open 2018) e agora é o número 3 do mundo. Que parte desta lista te deixa mais orgulhoso?

Obviamente, do ponto de vista de resultados, jogar três finais de slam e vencer uma. Também joguei final de Copa Davis, ganhei Masters, ATP 500, 250, mas de todos feitos, o que realmente gosto e verdadeiramente gosto em mim é que a cada semana, a cada ano, até nos treinos eu sou muito dedicado a melhorar. Era esse o objetivo quando comecei a jogar e é o mesmo hoje. Não importa o resultado. Eu estive em duas das últimas três finais de slam, jogando um ótimo tênis e estou no melhor ranking da carreira, mas isso não muda. Eu tento simplificar as coisas, viver um dia após o outro e tentar usar o tempo que eu tenho da melhor maneira possível.

Uma das coisas que você disse em Melbourne este ano é que analisou seu jogo e que há detalhes técnicos que você gostaria de melhorar no seu saque. Todos mundo sabe o quanto seu serviço é eficiente. Que parte você quer melhorar? De que maneiras?

Em tudo, é possível evoluir (sorrisos).

Sim. Mas você fala de velocidade, colocação, porcentagem? Algo assim?

Quando eu estava analisando com meu técnico e meu time, estávamos observando situações. Os dias em que eu estava sacando muito bem e os dias em que não estava. Tentamos encontrar relações e ver o que estava ou não estava funcionando. Durante esse período, descobrimos que em alguns casos meu ritmo não é o ideal de um modo técnico. É claro que tecnicamente, o saque é mais ou menos o mesmo sempre, mas o ritmo, que é conectar minhas pernas com o toss e a parte superior do corpo e a velocidade do meu braço… No fim, isso pode mudar. Tênis é um esporte de precisão, então um detalhezinho, 1% pode fazer uma diferença enorme. Então estávamos muito concentrados nisso, e na Austrália eu senti que a consistência do meu saque foi melhor. Eu sei que posso sacar de forma incrível, mas meu objetivo é ter meu serviço sempre em um nível muito bom ou ótimo, evitando que eu tenha dias medíocres.

Durante algum tempo, foi difícil entrar no grupo dos quatro primeiros do ranking por causa de Federer, Nadal, Djokovic e Murray. Uma impressão que tenho como jornalista é que muitos dos fãs de tênis – por causa do Big Four – deram menos valor do que o devido ao resto do grupo. Gente que ficou no top 10 ou no top 20 por muito tempo como você, Berdych…

Ferrer, por exemplo.

Sim! Exatamente. Você concorda com isso? Já se sentiu menos valorizado do que deveria, jogando no seu nível por tanto tempo?

Não sei. Não sei o que dizer. Acho que isso é parecido em esportes diferentes. No basquete, você tem LeBron James, Stephen Curry e Kevin Durant. Todo mundo está ali para ver esses e não os outros caras. O futebol é parecido. No atletismo, também. É normal porque eles tiveram muito sucesso, e as pessoas realmente curtem ver as rivalidades. O que eu acho é que as pessoas, de modo geral, não entendem o quanto é preciso se esforçar para estar nesse nível ano após ano. O tênis é muito específico porque você precisa se dedicar ano após ano e cada temporada é diferente. Você não assina um contrato e está seguro por três ou quatro anos no top 10. Você sempre tem que fazer por merecer, e a concorrência é grande. Eu sempre soube que os caras como Novak, Rafa e Roger, eles transformaram o tênis e trouxeram o esporte a um novo nível. Por causa deles, eu também melhorei, me forcei a ser mais forte. Sinto que agora tenho a minha chance de chegar ao topo, por isso é o meu grande foco agora tentar aproveitar essa chance.

Você tem uma grande fã brasileira, que é a Aliny Calejon. Eu lembro que nas Olimpíadas vocês se encontraram, e você tirou um monte de coisas da sua raqueteira para dar a ela (risos). Você pode falar um sobre essa relação com ela e com seus fãs?

Sim. Ela é minha fã há muitos anos, sempre vejo seus posts, suas belas mensagens de apoio e parabéns. Ela me “segue” onde quer que eu jogue. Foi uma parte do meu reconhecimento aos fãs por me apoiarem e estarem comigo nos momentos bons e ruins, e ela é uma ótima menina. É muito bom ter essa conexão especial com os fãs e também mostrar que eu agradeço o apoio dessa maneira legal.

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Bellucci: da piada para fisgar André Sá à obrigação de subir à rede http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/19/bellucci-da-piada-para-fisgar-andre-sa-a-obrigacao-de-subir-a-rede/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/19/bellucci-da-piada-para-fisgar-andre-sa-a-obrigacao-de-subir-a-rede/#respond Mon, 19 Feb 2018 10:00:40 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5988

Thomaz Bellucci, atual número 137 do mundo e ganhador de um wild card para a chave principal do Rio Open, fará sua estreia no torneio carioca nesta segunda-feira, no segundo jogo da sessão noturna (depois de Marin Cilic, que enfrenta Carlos Berlocq não antes das 19h locais). O paulista de 30 anos vai encarar o experiente italiano Fabio Fognini, que também tem 30 anos e ocupa o 22º posto na lista da ATP.

Antes de encarar o rival pela quinta vez – perdeu os quatro confrontos anteriores – Bellucci deu uma interessante coletiva no Jockey Club Brasileiro. Na conversa com os jornalistas, o brasileiro falou, entre outras coisas, sobre como apelou para uma brincadeira na esperança de atrair André Sá para ser seu técnico, e como o mineiro, depois de aceitar a proposta, vem exigindo mais subidas à rede do paulista. Listo abaixo os momentos que julgo serem os mais importantes do bate-papo.

Como atraiu André Sá

“Foi engraçado. A gente estava numa mesa num torneio, almoçando. Eu estava sentado na mesa com um amigo meu, acho que um outro jogador e o André. Ele chegou, disse ‘vi que você não está mais trabalhando com o João, o que você fazer?’ ‘Não sei ainda, quer seu meu técnico?’, falei pra ele, brincando, né? (risos) Ele falou ‘não, não, estou jogando’, e eu disse “estou falando sério, você tem essa possibilidade de pensar em me ajudar nas próximas semanas para ver se você gosta de ser meu técnico?’ Ele falou ‘peraí, vou precisar de uns dias para pensar.’ Daí ele pensou uns dias e veio no meu quarto, ‘lembra que você falou que queria fazer uma experiência comigo? Eu topo. Vamos fazer três ou quatro torneios pra testar, aí eu vejo se eu gosto, se você gosta como eu trabalho’, e foi aí que começou tudo. Meio que por uma brincadeira que ele levou a sério (risos), mas eu também fiz a brincadeira para ver se tinha essa possibilidade de ele me treinar.”

As mudanças pedidas pelo novo técnico

“Quando a gente começou a trabalhar, ele falou ‘não quero mudar muita coisa no seu jogo porque isso leva tempo. Você tem 30 anos, não dá para eu ficar agregando muita coisa no seu jogo, você vai demorar muito tempo para absorver isso tudo. Então, acho que o importante é melhorar o que você já faz bem e tapar algumas arestas do seu jogo.’ Mas uma coisa que ele fazia questão, que ele achava que eu precisava melhorar muito no meu jogo era a subida à rede. Ele me vê como um cara agressivo, que muitas vezes tomo a iniciativa dos pontos, mas que não consigo encurralar o adversário, subir para a rede e matar o ponto ali na frente. Ou quando faço isso, não faço com uma eficiência tão boa. Uma das coisas que ele está tentando agregar no meu jogo é essa subida à rede, não jogar tão atrás na quadra. Em alguns jogos, dependendo do adversário, eu jogo muito atrás, e ele quer que eu mude progressivamente para jogar mais dentro da quadra, tomando mais a iniciativa e não arriscando mais, mas jogando dentro da quadra.”

As mudanças são mais de técnica ou de posicionamento?

“Os dois. Minha mecânica de voleio não é lá essas coisas, então ele tem me ajudado também nisso. Ele é um cara que voleia muito bem e tem me ajudado bastante nessa técnica de voleio. Nos últimos jogos, eu fiz bem até. Não sei se vocês viram os últimos jogos, de Buenos Aires, mas eu subi bastantes vezes para a rede e ganhei a maioria dos pontos. Acho que isso já a curto prazo foi positivo.”

A medida da agressividade

“É difícil ser mais agressivo do que eu costumo ser. Eu sou cara que às vezes dou muitos winners, mas cometo muitos erros. É manter a agressividade, mas de maneira diferente. Em vez de ficar lá atrás, fazendo muita força para jogar ou dando porrada, é tentar encurtar o tempo do adversário entrando mais na quadra e pegar a bola um pouco mais na subida, tirar o tempo do adversário e subir para a rede.”

Como aparecer nos vídeos de André Sá no Instagram ajuda sua imagem

“Não chegamos a conversar de Instagram, não (risos), mas ele é um cara que gosta de mídia social, gosta de estar envolvido nisso. Ele falou ‘vou postar uns vídeos, você se importa de estar nesses vídeos?’ Eu falei ‘não, de maneira alguma’, e é legal mostrar um pouco do nosso dia a dia. É importante que as pessoas me vejam não só dentro da quadra, mas fora, no dia a dia. Acho que são coisas que o público gosta de ver.”

A partida contra Fognini

“É um cara que vai entrar favorito contra mim. É um cara com o ranking melhor, ganhou todas vezes que joguei contra ele. Mas cada jogo é uma história diferente. Vai ser o primeiro jogo no Brasil. Ele joga muito bem no saibro, é um baita atleta, mas estou jogando dentro de casa, com a torcida, estou super motivado de voltar a jogar no Brasil… Acho que estou num momento em que estou subindo de nível. Em Buenos Aires, eu consegui fazer quatro jogos, que era uma coisa que eu não conseguia fazer há muito tempo num torneio só, então estou num momento de evolução e que pode ser um jogo para mudar um pouco a história dessas coisas. Vou entrar com a tática de ser um cara agressivo, eu eu o André já sentamos e conversamos um pouco sobre o Fabio, então a gente já sabe um pouco como eu tenho que lidar com isso. Vou ter que mudar a maneira de jogar porque nas últimas quatro, não deu muito certo (risos), mas a gente tem muito claro o que eu vou ter que fazer na quadra.”

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4 motivos para acreditar que o retorno ao #1 é o maior feito de Federer http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/16/4-motivos-para-acreditar-que-o-retorno-ao-1-e-o-maior-feito-de-federer/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/16/4-motivos-para-acreditar-que-o-retorno-ao-1-e-o-maior-feito-de-federer/#respond Fri, 16 Feb 2018 20:25:34 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5971

Vamos com calma porque essas comparações são quase impossíveis de fazer e nunca existe certo ou errado. Existem opiniões que, por natureza, já são exacerbadas quando o assunto é Roger Federer, dono de uma lista de feitos que rivaliza em tamanho com as relações de inscritos em concursos públicos no Brasil. Só que a vitória desta sexta-feira sobre Robin Haase, que o colocou nas semifinais do ATP 500 de Roterdã, assegurou sua volta ao topo, aos 36 anos, como o mais velho #1 da história do tênis masculino.

E voltar ao topo agora é um feito que pode muito bem ser a maior realização do tenista suíço. Porque não é algo conquistado em uma ou duas semanas e porque veio diante de alguns obstáculos que Federer não teve no período de 2004 a 2008, o mais vitorioso – em números absolutos – de sua carreira. Meus argumentos para justificar a opinião seguem abaixo.

1) O físico de 36 anos

Não cabe comparar o físico de Federer com o dos outros. O suíço é privilegiado. Joga um tênis leve, suave, quase artístico, e seu corpo sofre menos com isso. Federer não é regra, é exceção. Não é tão espantoso assim que ele ainda esteja em grande forma aos 36. Dito isso, é espetacular que não se veja grande diferença entre o Federer de hoje e o Federer de 2011 ou o de 2008. Aqueles foram superados no ranking por Rafael Nadal e Novak Djokovic, mas não por falta de velocidade lateral ou resistência em partidas longas. O que é realmente admirável é a comparação Federer-Federer. Não há queda notável. Especialmente após uma cirurgia no joelho realizada aos 34.

Ver o Federer de hoje, tão plástico quanto em seus melhores dias e ainda encontrando maneiras diferentes de vencer jogos, no sol ou na sombra, em três ou cinco sets, é tão encantador quanto 10 ou 15 anos atrás. A diferença é que hoje, mais do que nunca, é preciso admirar o esforço feito pelo suíço para estar nessas condições. Porque a plástica e a leveza naturais só levam alguém até certo ponto. É preciso ralar muito para conservar isso. Muito mais do que em 2004, 2009 ou 2012, os outros períodos de reinado federesco.

2) A matemática

Roger Federer vai assumir a liderança do ranking com dois títulos de slam, três de Masters 1000 e um par (pelo menos) de ATPs 500. Até aí, nada muito acima do que é esperado de um número 1 do mundo. O que faz a diferença aqui é o aproveitamento. É preciso ver o cenário de cabeça para baixo. Federer alcança a liderança SEM JOGAR um slam e cinco Masters 1000. Só aí, são 7 mil pontos que o suíço deixou na mesa. Sete mil. É muito. Marin Cilic, o atual número 3 do mundo, tem 4.960 pontos. Contando do início de 2017 até agora, já são 62 vitórias e apenas cinco derrotas: 92,% de sucesso, uma porcentagem obscena.

É possível até imaginar que Federer não venceria tanto no saibro e que competir na terra batida poderia desgastá-lo e, quem sabe, até tirá-lo de Wimbledon. Mas não seria nada exagerado imaginar que o suíço seria capaz de somar pelo menos três mil pontos (em uma expectativa bem pessimista, ainda mais sem Djokovic e Murray em grande forma) contando o saibro e os Masters de Cincinnati e Paris. A briga pelo número 1 – que pode continuar pelos próximos meses – nem sequer existiria neste momento.

3) A evolução

Não consigo dizer que o Federer de hoje venceria o Djokovic de 2015-16 (mais sobre isso no parágrafo abaixo), mas é bem possível que o Federer de 36 anos seja a melhor versão de Roger Federer. É um tenista que tem mais atenção com os aspectos táticos, que saca tão bem quanto em qualquer outro momento da carreira, que tem o melhor backhand da vida e que aprendeu a encurtar a duração de seus jogos. Trata-se de um atleta bem diferente do que reinou de 2004 a 2008. Aquele Federer tinha recursos aos montes e ganhou 12 slams em cinco anos. O de hoje, com calendário enxuto, não vai somar aqueles números, mas é um tenista superior.

O que é apaixonante aqui é a vontade de evoluir. Nunca é demais lembrar: falamos de um multimilionário, casado e com quatro filhos, que poderia estar há anos aposentado e contando dinheiro na beira de um lago nos Alpes. Ou numa ilha grega. Ou num palácio com 18 Ferraris, 20 falcões treinados e 50 camelos nos Emirados. Tanto faz. Federer sempre quis melhorar. Trocou de técnicos (Tony Roche, Paul Annacone, Stefan Edberg, agora Ivan Ljubicic), testou raquetes e inventou jogadas (SABR). Melhorou o que parecia perfeito.

4) A freguesia invertida

Nos últimos 20 anos, ninguém dominou o circuito como Novak Djokovic fez em 2015-16. Foi a única vez que um tenista foi considerado favorito ao título em todo tipo de circunstância. Até na grama de Wimbledon e no saibro de Roland Garros, Nole foi o mais cotado no seu auge. Não por acaso, triunfou nos quatro slams em sequência, algo que Federer e Nadal não conseguiram.

Nem na primeira e longa Era Federer (2004-08) foi assim. Havia Rafael Nadal, o Rei do Saibro. De 2005 em diante, o espanhol sempre foi o favorito na terra batida. Rafa evoluiu, venceu todos os slams e somou um retrospecto assustador em confrontos diretos contra o suíço. Até 2014, eram 23 vitórias de Nadal contra 10 de Federer. Pois o suíço conseguiu inverter essa tendência e agora soma cinco triunfos seguidos contra o rival – que, destaquemos, é um adversário tecnicamente superior ao de dez anos atrás.

O grande obstáculo daqueles dias pouco incomoda o Federer que hoje é número 1. Nas 52 semanas que contam para o ranking atual, há três vitórias (Indian Wells, Miami e Xangai) sem perder um set. Frutos de um backhand melhor, de uma devolução que machuca e de um saque mortal (além de todo o resto). E lembremos que a opção por não jogar no saibro também acabou se tornando uma arma no duelo mental. Nadal não derrota Federer há quatro anos, e quanto mais tempo passar assim, melhor para a confiança do suíço.

Coisas que eu acho que acho:

– Como escrevo no alto do post, não existe certo ou errado nesse tipo de comparação. Muita gente vai dizer que ganhar 20 slams – o conjunto da obra – vale muito mais, e tudo bem. Ou o número obsceno de semifinais seguidas em slams. Ou as 92 vitórias e cinco derrotas de 2006. Ou o número total de semanas como #1. Ou os US$ 114 milhões em prêmios. Ou qualquer outro item da quilométrica lista de recordes do cidadão. E tudo bem também.

– Mas será que para um tenista como Federer é mais difícil chegar a essa idade acumulando 20 slams ou voltar ao topo somando “apenas” as 52 semanas em que ele tinha 35-36 anos? E sem disputar sete mil pontos? Para mim, é um tema delicioso para se debater vendo tênis e com uma cerveja na mão. E quem quiser falar pessoalmente sobre isso, basta me procurar no Rio Open semana que vem. O bar da Stella fica de frente para o telão da quadra central.

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Wozniacki: número 1 com slam, mas sem classe http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/16/wozniacki-numero-1-com-slam-mas-sem-classe/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/16/wozniacki-numero-1-com-slam-mas-sem-classe/#respond Fri, 16 Feb 2018 09:00:37 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5965

Aconteceu nesta quinta-feira, no WTA de Doha. Caroline Wozniacki, atual campeã do Australian Open e número 1 do mundo, disparou na frente contra Monica Niculescu. Abriu 4/1 e teve break point para fazer 5/1. Não conseguiu a quebra, e o jogo virou. Poucos minutos depois, enquanto a dinamarquesa demonstrava impaciência, a romena já tinha empatado o jogo: 4/4.

Foi aí que Wozniacki apelou para um recurso bastante comum de seu arsenal. Uma discussão acalorada com o árbitro. Desta vez, reclamou dos gemidos de Niculescu. Segundo a número 1, a romena gemia propositalmente para atrapalhá-la. O árbitro de cadeira não comprou a briga de Wozniacki e mandou a partida continuar, mas não sem antes ouvir um argumento da dinamarquesa: “É a única maneira de ela vencer.” O nível baixou. Veja:

Que Wozniacki é esquentada quando as coisas não estão dando certo, não é segredo nenhum. As brigas com árbitros e tempos médicos costumam acontecer quando ela está perdendo ou em dificuldades. Foi assim na segunda rodada do Australian Open, quando perdia para a croata Jana Fett (foi o jogo que Wozniacki virou depois de estar perdendo por 5/1 e 40/15 no terceiro set). Também foi assim na rodada seguinte, contra Kiki Bertens, quando a dinamarquesa sacou para o set, foi quebrada e partiu para bater boca com o árbitro. E teve também, lembremos, um atendimento médico providencial quando Simona Halep vencia o terceiro set da final.

Não é justo dizer que Wozniacki teria perdido um desses jogos – ou de tantos outros na carreira – não fossem as paralisações forçadas. Ela, aliás, derrotou Niculescu por 7/5 e 6/1, perdendo apenas dois games depois da reclamação. O que não é muito bacana é que essas interrupções estejam se tornando tão frequentes. E o que parece feio mesmo é que uma número 1 tenha a audácia e o desrespeito de dizer que gemer (ou provocar, catimbar, etc.) “é a única maneira” de alguém derrotá-la. O que será que Wozniacki diria se Halep afirmasse que o último atendimento médico decidiu a final do Australian Open? Que aquela paralisação foi a única causa de sua derrota? Imagino que a dinamarquesa não teria digerido muito bem as declarações.

Caroline Wozniacki não é dominante como Serena Williams. E mesmo que fosse, soaria igualmente arrogante. Não foram os gemidos de Niculescu que fizeram a dinamarquesa espirrar dois smashes fáceis ou perder a vantagem na parcial. A romena só venceu dois games depois do que ouviu. Ouviu e não gostou nada. Depois da partida, disse que nunca ouviu uma número 1 falar assim e que Wozniacki se acha importante demais. Vejam no vídeo acima.

O episódio repercutiu. As cenas estão nas redes sociais. Certamente, estão nos smartphones das adversárias e nos vestiários circuito afora. A reputação de Wozniacki só piora. Uma pena. Quem tem um jogo tão inteligente e eficiente não deveria precisar desse tipo de recurso com tanta frequência e não poderia, jamais, dizer o que disse de Niculescu. E se deixou para trás o rótulo de número-1-sem-slam, Wozniacki tende a ser agora a número-1-sem-classe.

Coisas que eu acho que acho:

– Obviamente, não foi o primeiro jogo da carreira de Wozniacki contra uma tenista que geme ao bater na bola. Será que ela faria a mesma reclamação contra, digamos, Venus Williams? A americana, a propósito, venceu sete dos oito confrontos contra a atual número 1.

– Maria Sharapova tem seis vitórias em dez duelos com Wozniacki. Victoria Azarenka tem sete triunfos em 11 partidas. Não me lembro de a dinamarquesa ir a um árbitro de cadeira reclamar de gemidos da russa ou da bielorrussa. Por que será? O título de slam fez tanta diferença assim? Subiu à cabeça? Ou foi simplesmente arrogância por se considerar muito superior a Niculescu?

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‘Atitude não se negocia’ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/15/diego-schwartzman-atitude-nao-se-negocia/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/15/diego-schwartzman-atitude-nao-se-negocia/#respond Thu, 15 Feb 2018 09:00:19 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5958

Diego Schwartzman derrotou Thomaz Bellucci pelas oitavas de final do ATP 250 de Buenos Aires: 3/6, 6/3 e 6/2. Está longe de ser um resultado espantoso, considerando o momento de ambos. No entanto, o jogo começou com o argentino cometendo mais erros não forçados do que de costume – foram 14 só no primeiro set. O brasileiro aproveitou, mesmo com altos e baixos.

Da segunda parcial em diante, porém, Schwartzman, atual #24 do mundo, encontrou um ritmo, passou a errar menos e transformou a partida em uma batalha de regularidade. Bellucci agredia, o argentino se defendia. Quando o brasileiro dava espaço, era Schwartzman quem atacava.

No segundo e no terceiro sets, Bellucci só teve duas chances de quebra. Ambas no sétimo game do terceiro, quando Schwartzman liderava por 4/2. O argentino saiu do 15/40 com um ace e viu o paulista jogar um backhand na rede no ponto seguinte. Pouco depois, o confronto estava decidido.

Mas “qual a chave para virar o confronto?”, perguntaram a Schwartzman. A resposta diz muito sobre sua postura, sua carreira e seu ranking: “A atitude não se negocia, e o importante é continuar ganhando. Para ser um jogador melhor, é preciso ganhar de todas as formas possíveis: jogando bem, jogando mal, quando o rival é superior e quando posso impor meu jogo.”

Isso explica porque um jovem que, aos 13 anos, ouviu de um médico que não cresceria além de 1,70m (sua altura atual, segundo a generosa medição informada no site da ATP), mas decidiu ser tenista mesmo assim. Segundo relato publicado recentemente, sua mãe, Silvana, ouviu do menino que ele “não faria nada bem na vida se o médico estivesse certo. Eu disse a Diego que ele estava errado e sua altura não deveria ter influência nos seus sonhos porque desde o dia que ele nasceu, eu sabia que ele se tornaria algo especial. Eu o motivei a continuar lutando.”

Diego Schwartzman, aliás, foi o quarto filho de um casal sem estabilidade financeira e que às vezes deixava de fazer refeições para economizar dinheiro e pagar as contas. É lindo saber que uma história assim continua a ter um fim bacana, com o contínuo sucesso do tenista.

Coisas que eu acho que acho:

– Não foi uma exibição ruim de Bellucci, mas também não foi muito diferente do que nos acostumamos a ver do tenista. Nesta quarta, o paulista mostrou um jogo sempre agressivo – até quando não está dando certo – e inconstante.

– É preciso dizer: Schwartzman é, hoje, um tenista mais regular e com mais recursos do que Bellucci. Não por acaso, o argentino é top 25 enquanto o brasileiro luta para voltar ao top 100.

– Não é possível que a Claro (Embratel) esteja satisfeita com a marca exibida na manga direita de Bellucci. Trata-se de uma bolinha branca com o nome da marca exibido em letras minúsculas e quase nunca legíveis durante a partida. Nem mesmo quando a imagem fecha no brasileiro, na hora do saque, é possível ler claramente o nome da empresa.

– Em contraste, na manga esquerda, é perfeitamente legível o nome da Angá Asset Management, escrito em letras brancas contrastando com a blusa vermelha. Alguém na Embratel vai levar um belo puxão de orelhas se algum executivo da empresa prestar atenção na exposição da marca.

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Goffin transmitiu suas próprias partidas: um novo caminho para o esporte? http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/13/goffin-transmitiu-suas-proprias-partidas-um-novo-caminho-para-o-esporte/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/13/goffin-transmitiu-suas-proprias-partidas-um-novo-caminho-para-o-esporte/#respond Tue, 13 Feb 2018 11:15:43 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5948

Tente, caro leitor, pensar como um patrocinador: de que adianta você pagar milhares de dólares para exibir sua marca na manga de um tenista se esse atleta passa a maior parte do tempo fora do país e muitas vezes seus jogos não são transmitidos para o país? Um dos patrocinadores do belga David Goffin se viu nesse dilema e tomou uma decisão, digamos, diferente: comprou os direitos de transmissão das partidas.

Aconteceu na última semana, no ATP de Montpellier, na França. Como nenhum canal exibiria o torneio na Bélgica, a holandesa AA Drinks (vejam na manga direita da camisa do tenista, logo acima da marca da Asics) resolveu transmitir por conta própria os jogos. Fez um acordo com a Lagardère Sports e com a Octagon (agência de Goffin). As partidas do belga, então, foram exibidas para a seu país ao vivo, de graça, via Facebook, na própria página de David Goffin. Será que mais alguém vai comprar a ideia e repetir a dose?

É o tipo de caso em que todo mundo saiu ganhando. Os fãs, que não precisaram nem de um pacote de TV a cabo; o tenista, que ganha pontos com os fãs e vai ficar marcado como o primeiro a fazer isso no tênis; o torneio, porque teve jogos (e seus próprios patrocinadores) exibidos em um país que não os teria; e o patrocinador, que, além de ter garantido a exposição da marca no país do atleta, ainda está sendo e será mencionado ao redor do mundo (como neste blog) porque mostrou um caminho novo e alternativo.

Ninguém divulgou os valores dessa jogada, mas não deve ter sido a campanha de marketing mais cara do planeta. Primeiro porque era um ATP 250, mas especialmente porque foram comprados apenas os direitos de exibição das partidas de Goffin. É um caminho que poderia até ser seguido por ATP e WTA nos casos em que seus pacotes ficam desinteressantemente caros em alguns mercados.

Imaginemos um caso em que nenhum canal na República Dominicana teve caixa para comprar o pacote oferecido pela ATP para os direitos dos ATPs 250. Será que não interessaria a algum veículo dominicano adquirir apenas as partidas de Victor Estrella Burgos? Ou, mudando radicalmente de exemplo, que tal seria se a WTA oferecesse apenas as partidas Bia Haddad Maia a um canal brasileiro? No mundo real, os direitos da WTA no Brasil são do Canal Sony, mas Bia não teve nenhum jogo exibido ao vivo pelo canal em 2017 – e a culpa disso é mais do pacote do que do Sony.

O mundo da internet é um mundo de nichos. Não adianta brigar contra isso. Só no tênis, já existem pacotes separados para ATP (TennisTV), WTA (WTA TV), Copa Davis e Fed Cup (stream oficial da ITF). David Goffin mostrou uma opção a mais: o nicho do nicho. Será que a ideia vai adiante?

Coisas que eu acho que acho:

– No release distribuído à imprensa, Nikolaus von Doetinchem, vice-presidente sênior de mídias globais da Lagardère Sports, afirmou que “o projeto ressalta o crescente impacto de atletas como plataformas de mídia dentro da atual transformação do cenário de mídia.”

– As transmissões começaram nas oitavas de final e, como Goffin foi até a semi, o patrocinador bancou três jogos exibidos ao vivo. Não pode ter saído tão caro.

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Federer, Roterdã e a busca pelo número 1 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/12/federer-roterda-e-a-busca-pelo-numero-1/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/12/federer-roterda-e-a-busca-pelo-numero-1/#respond Mon, 12 Feb 2018 08:00:50 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5953

A sétima semana de torneios da ATP começa nesta segunda-feira, com três eventos, mas todas quase atenções em um lugar só: Roterdã. É lá que Roger Federer, depois de receber um convite de última hora, pode voltar ao topo do ranking depois de mais de cinco anos.

Com 36 anos, o suíço será o mais velho número 1 da história do tênis masculino, tomando para si a marca que ainda é de Andre Agassi. O americano liderou o ranking com 33 anos e 131 dias de vida. Isso, é claro, se Federer conseguir os pontos que precisa esta semana. Mas afinal, qual é essa matemática? Eu explico nas próximas linhas.

Rafael Nadal, o atual #1, tem 9.760 pontos, enquanto Federer acumula 9.605. São apenas 155 pontos de diferença, e Roterdã coloca 500 pontos na mesa. Como nenhum dos dois tenistas defende nada esta semana, o suíço precisa alcançar as semifinais. Isso lhe daria 180 pontos e o topo. Simples, não?

E se a matemática é descomplicada, o sorteio da chave não foi nada ruim para o atual campeão de Wimbledon e do Australian Open. Federer vai estrear contra o qualifier Ruben Bemelmans na quarta-feira e, se vencer, encontrará na segunda rodada Philipp Kohlschreiber ou Karen Khachanov. Por fim, nas quartas de final, o adversário de Federer sairá do grupo que tem Stan Wawrinka, Tallon Griekspoor, Thiemo de Bakker e Robin Haase.

Considerando que, em condições normais, o único adversário realmente perigoso seria Wawrinka e que ele vem se recuperando de uma lesão e, na última semana, perdeu a semifinal de Sofia para o bósnio Mirza Basic (#129), parece mais do que justo colocar Federer como mais do que favorito para voltar ao topo do ranking nesta semana.

Coisas que eu acho que acho:

– O diretor do torneio de Roterdã, Richard Krajicek, disse que o empresário de Federer, Tony Godsick, entrou em contato logo depois do título no Australian Open. Ou seja, quando ficou clara a chance de Federer se tornar número 1 antes de precisar defender os títulos de Indian Wells e Miami.

– Isso tudo só ajuda a confirmar o que sempre escrevo: quando algum nome grande do tênis diz “não estou preocupado com o ranking” ou “o número 1 não é o objetivo”, é importante consumir essa informação com ressalvas. É óbvio que Federer e Nadal (e Djokovic e Murray, etc…) querem ser o número 1.

– Do mesmo jeito que Federer inclui Roterdã em seu calendário com esse objetivo, Nadal jogou o Masters de Paris do ano passado sem estar em condições físicas ideais apenas para assegurar a liderança antes do ATP Finals. Ele sabia do risco que seria colocar a posição em jogo em Londres.

– No fundo, no fundo, o que eles querem dizer com esse tipo de declaração é que não farão loucuras pelo número 1. Mas não tem nada de louco encaixar um ATP 500 no calendário três semanas depois de ganhar um slam que nem exigiu fisicamente tanto assim do suíço…

– O torneio será exibido no Brasil pelo BandSports. O canal finalmente comprou o pacote dos ATPs 500, que estavam sem transmissão no país.

– Mesmo que não consiga os pontos para ser #1 nesta semana, Federer pode voltar para casa e chegar ao topo daqui a 20 dias, já que Nadal tem que defender 300 pontos no ATP 500 de Acapulco. Mas pra quê deixar seu destino nas mãos de outro, né?

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Fora da Fed Cup, #2 do Brasil denuncia interferência de dirigente http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/08/fora-da-fed-cup-2-do-brasil-denuncia-interferencia-de-dirigente/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/08/fora-da-fed-cup-2-do-brasil-denuncia-interferencia-de-dirigente/#respond Thu, 08 Feb 2018 09:00:06 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5930

Aconteceu em 2015: Laura Pigossi já estava relacionada para defender o Brasil em San Luis Potosí, no México, quando veio a ordem: a tenista deveria ser retirada do time da Fed Cup sem que a capitã do time, Carla Tiene, fosse consultada. Quem deu a ordem? Por quê? A própria Laura, que desde então não foi mais chamada a defender o Brasil nem convidada para eventos da Confederação Brasileira de Tênis (CBT), explica nas próximas linhas.

Hoje com 23 anos e atual número 2 do Brasil (e #398 do mundo), a paulista conta que tudo aconteceu porque sua mãe, em uma conversa informal com uma amiga, fez uma crítica à CBT – elas conversavam sobre irregularidades na entidade que vinham sendo relatadas na imprensa. A amiga, então, foi até Lacerda relatar as críticas, e Laura, que nada tinha dito, recebeu a punição “por tabela”.

A história parece estranha demais para ser verdade, mas a lei da mordaça foi confirmada por duas pessoas envolvidas de perto com o caso. Uma delas foi Paulo Moriguti, superintendente da Confederação na época.

“A menina já tinha recebido [a convocação], e eu tive que ligar dizendo que ela não ia mais…” “Eu falei com o Renato Messias [técnico de Laura na época]. O que está acontecendo é o seguinte: vocês estão falando mal do Jorge pelos motivos de vocês, mas o presidente da CBT é ele, e vocês têm um contrato de apoio com os Correios. Não pode ficar falando mal do cara. Se tem alguma coisa de errado, fala para a gente. Chegou no ouvido do cara, o cara ficou puto e cortou a parada de vocês. A verdade é essa”, disse Moriguti por telefone. “O Jorge estava muito puto. Aí ligou a mãe da Laura. Eu fiquei uns 45 minutos com ela no telefone, explicando. Ela disse que não falou, que algo tinha sido mal interpretado, mas eu disse ‘não sei o que vocês comentaram, eu só recebi ordens de cima para isso.’”

O ex-superintendente ressaltou, inclusive, que a atleta deixou de receber qualquer benefício da entidade após caso. “Nunca mais ela ganhou nada! Nenhum centavo. Nem para participar daqueles eventos de final de ano. Cortaram ela bonito.”

🔧🔩🔨 #thebestisyettocome #daretodream @mizuno_tennis #timeestacio

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A capitã da equipe, Carla Tiene, confirma a versão, mas com um detalhe a mais: “a resposta que o Jorge me deu foi que se [a Laura] estivesse na equipe como jogadora, ele não tiraria. Mas como eu estava levando ela como uma quinta jogadora… Eu não concordava, mas ele me respondeu isso. Se ela estivesse na equipe, ele não mexeria, mas como ela estava indo como jogadora de treinamento, ele se sentiu desrespeitado.” Tiene ressaltou que “foi a única vez que ele se intrometeu com uma atleta” durante seu período como capitã do Brasil na Fed Cup.

Depois daquela Fed Cup de 2015, Laura recebeu da CBT um termo de resilição (desfazimento, no caso, unilateral) de seu contrato de patrocínio. Segundo a entidade, a queda da paulista no ranking significava que ela não mais se enquadrava “dentro dos critérios do Plano Nacional de Alto Rendimento” da entidade. Após a temporada 2016, a paulista também não foi mais beneficiada pelo programa Bolsa Atleta, que é determinado pelo Ministério do Esporte com base em uma lista de torneios montada pela CBT.

Laura também lamenta que não recebeu explicações da CBT sobre sua não-convocação para a Fed Cup que está sendo disputada esta semana, em Assunção, no Paraguai. Segundo Laura, seu técnico, Martín Vilar, mandou seguidas mensagens para o presidente da CBT, Rafael Westrupp, e não recebeu resposta. O time brasileiro está escalado com Bia Haddad Maia (#59), Gabriela Cé (#405), Nathaly Kurata (#429) e Luisa Stefani (#570).

O atual capitão, Fernando Roese, falou por telefone sobre a situação de Laura Pigossi. Segue a transcrição da conversa:

Alexandre Cossenza: A Laura me procurou para falar de uma Fed lá atras, em que o Jorge vetou a participação dela. Ela estava convocada, foi desconvocada. E desde então ela não é chamada. E a Laura me procurou desta vez porque ela acha que ela é a #2 de simples e…
Fernando Roese: (interrompendo) O negócio é mais pelo negócio da CBT.

AC: É?
FR: É. Só por isso.

AC: Então posso escrever que você não convoca ela por causa da Confederação?
FR: Não. Não que eu não convoco. Ela teve problemas com a CBT, entendeu? Então, teoricamente, são questões particulares da CBT com ela.

AC: Se você quisesse convocar, o Westrupp vetaria?
FR: Pra te falar a verdade, são questões de CBT, por isso eu não sei. Não posso te responder isso.

AC: Mas então, por ter esse problema, você já nem considera a hipótese de levar a Laura para uma Fed?
FR: É, foi um problema que ela teve diretamente com a CBT. Tá? Só isso.

AC: Ela chegou a te procurar para perguntar alguma coisa?
FR: Não, nada.

AC: Porque ela disse que procurou a CBT e não teve resposta, posição, enfim…
FR: Comigo não conversou, não. Tanto é que liguei para todas, conversei com todas as meninas e, sempre transparente como eu sempre fui, e sabendo só desse problema dela com a CBT, eu nunca cheguei a conversar com ela, na realidade. Tanto é que ela sabia disso, eu acho. Ela tinha esse problema aí.

AC: Uma das coisas que ela queria saber é isso. Se ainda é por causa desse problema.
FR: Da minha parte, é isso aí.

Work, work, work.. 💪🏻💥🎾 @tonimartinez1970 @martinvilar @mizunoeurope #timeestacio

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Após conversar com Laura Pigossi, Paulo Moriguti, Carla Tiene e Fernando Roese, tentei, mas não consegui fazer contato com Jorge Lacerda (se este post chegar até ele, ficarei feliz em incluir sua versão). Também enviei à CBT as seguintes perguntas:

– Que jogadoras profissionais que recebem auxílio financeiro da CBT ou dos Correios atualmente?
– Que critérios foram adotados para que a atleta Laura Pigossi não esteja incluída nessa lista?
– Por que a atleta Laura Pigossi não foi mais convidada para eventos da CBT, inclusive o grande encontro nacional realizado no fim de 2017?
– Por que a atleta Laura Pigossi não foi indicada pela CBT para recebimento de Bolsa Atleta?
– A atleta diz que seu técnico enviou seguidas mensagens de texto e áudio para o presidente da CBT, Rafael Westrupp, pedindo explicações sobre sua ausência em equipes da Fed Cup, e que jamais recebeu uma resposta. Por que nem o presidente Westrupp nem outra pessoa da entidade entrou em contato com a atleta para dar uma resposta?

A CBT não informou Que jogadoras profissionais que recebem auxílio financeiro da entidade ou dos Correios atualmente, enviando apenas uma resposta de Westrupp via assessoria de imprensa:

“A CBT esclarece que a convocação das atletas para a participação na Fed Cup é feita pelo capitão Fernando Roese, sendo que o mesmo possui autonomia para tal. Em relação ao Bolsa Atleta, a CBT apenas indica a relação de torneios que servirão de balizamento para o programa. A elegibilidade dos atletas é definida pelo Ministério do Esporte, sem qualquer interferência da Confederação Brasileira de Tênis. Após o Ministério do Esporte enviar a lista dos nomes dos tenistas elegíveis para a participação, a CBT dá início ao processo burocrático interno, para conferência dos documentos que são exigidos pelo próprio ME. A CBT afirma que o presidente Rafael Westrupp nunca recebeu qualquer contato por parte do técnico da tenista em questão. E por fim, a Confederação Brasileira de Tênis ratifica que por parte da entidade não há qualquer tipo de problema com esta, e nem com os demais tenistas.”

Laura Pigossi hoje treina na Espanha, mas mantém a esperança de voltar a defender o país. “Eu amo meu país, eu amo jogar pelo meu país! E sempre foi assim! Mesmo com tudo isso, mesmo morando na Espanha, sabe?! Eu sou brasileira, sempre fui! O que eu quero é poder ter a chance de representar ele se eu vejo que em algum momento eu posso fazer a diferença em algum aspecto!”

Ela segue aguardando uma explicação de alguém da entidade. “Que pelo menos eu tenha a possibilidade de mudar o que a eles, provavelmente, não agrada. Eu não sei o que eu fiz. Sempre fui muito trabalhadora, muito na minha, com muita garra. Amo o que eu faço e não acho justo. Acho que se você cai no ranking, eles não têm obrigação de te chamar. Podem escolher outras. Mas se você está #1 de duplas, acabando de fazer a semifinal de um WTA [em 2016, Pigossi fez semifinal no WTA de Rabat], e #2 de simples, acho que no mínimo você deve receber uma explicação, sabe?”

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Sorgi, o esquecido salvador http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/04/sorgi-o-salvador-copa-davis-cbt/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/02/04/sorgi-o-salvador-copa-davis-cbt/#respond Sun, 04 Feb 2018 03:11:15 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5925

O time adversário era ruim. Thiago Monteiro esteve abaixo da crítica. A quadra deixava a desejar. A transmissão, um desastre. Restou para João Pedro Sorgi,24 anos e #365 do mundo, estreante em Copas Davis, tornar-se o herói improvável do fim de semana, salvando o Brasil do vexame que seria perder para uma República Dominicana cujo tenista mais bem ranqueado era o pouco expressivo José Hernández-Fernández, #284 no ranking mundial.

Logo ele, Sorgi, convocado como último recurso de um João Zwetsch que foi rejeitado por Thomaz Bellucci, Rogério Dutra Silva, João Souza e Guilherme Clezar. Logo ele, Sorgi, que desde que se tornou profissional não recebeu um centavo de apoio da Confederação Brasileira de Tênis (informação via assessoria de imprensa do atleta). Logo ele, Sorgi, nunca lembrado – sempre esquecido, que precisou disputar o Rio Open de 2017 com uma raquete quebrada porque não tinha patrocínio nem ajuda financeira de ninguém.

Pois foi Sorgi, depois de duas atuações muito ruins de Thiago Monteiro (uma vitória e uma derrota), que precisou entrar no quinto e decisivo jogo contra Robert Cid Subervi, #468 do mundo, para dar a vitória ao Brasil. Uma partida nervosa, com torcida contra e um adversário inflamado. No fim, esgotado e lutando contra uma ameaça de cãibra, o paulista triunfou por 6/7(8), 6/1 e 6/4.

Sorgi, lembremos, começou a sexta-feira derrotado em sua estreia num jogo complicado com José Hernández-Fernández (6/2, 4/6 e 7/6(3) para o tenista da casa) e terminou o sábado sendo abraçado pelos companheiros de time e festejado pelo dirigente que nunca antes olhou com carinho para ele. Que a sua vitória na República Dominicana abra portas e olhos por aí. Que a torcida e CBT parabenizem, agradeçam e reconheçam João Pedro Sorgi.

Coisas que eu acho que acho:

– Repito o que escrevi no dia que o time brasileiro foi revelado. Rogerinho (chave principal) e Feijão (quali) tinham o ATP de Quito para disputar nesta semana, então é compreensível que ambos tenham optado por priorizar suas próprias carreiras. No entanto, parece válida a pergunta: se ambos não tivessem sido mal tratados pela CBT em episódios anteriores de Copa Davis, será que pelo menos um deles não teria viajado a Santo Domingo e evitado todo esse drama?

– Bruno Soares não vai jogar a Davis este ano. Passará mais tempo com a família. Bellucci, consultado por Zwetsch, também preferiu priorizar seus torneios. Clezar, outro que já foi jogado aos leões, também disse não, mas por fatores diferentes. Lesão, calendário e a experiência ruim no Japão pesaram.

– Que Sorgi perdesse o primeiro jogo de sexta-feira era absolutamente normal. O drama todo só aconteceu porque Thiago Monteiro teve um péssimo fim de semana e perdeu um jogo que tinha obrigação de ganhar (sim, a pressão faz parte do papel de ser #1 de um time na Copa Davis). Esteve tecnicamente mal e, principalmente, taticamente mal. Era visível a irritação de Narck Rodrigues, comentarista do SporTV, com a atuação do cearense na sexta-feira. O #1 do Brasil insistia em agredir e cometia seguidos erros forçados, dando vários pontos de graça, enquanto o modesto rival pouco ameaçava nos ralis.

– Monteiro, aliás, mostra pouca evolução desde que “surgiu” para o mundo naquele Rio Open de 2016. Seu jogo continua baseado em trocas do fundo de quadra (até aí, tudo bem, o mundo inteiro joga assim), mas sua devolução pouco melhorou, o jogo de rede continua vulnerável e, principalmente, falta um plano B. Quando não ganha pontos nos ralis, Monteiro frequentemente se vê sem alternativas.

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Boas campanhas de Cilic e Edmund alavancam vendas do Rio Open http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/01/29/cilic-edmund-vendas-ingressos-rio-open/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/01/29/cilic-edmund-vendas-ingressos-rio-open/#respond Mon, 29 Jan 2018 16:05:50 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5916

Marin Cilic, novo número 3 do mundo, esteve a um set de derrotar Roger Federer e conquistar o título do Australian Open. Kyle Edmund, #26, alcançou as semifinais em Melbourne. Pablo Carreño Busta, #10, chegou às oitavas. O mesmo vale para Dominic Thiem (#5), Fabio Fognini (#22) e Diego Schwartzman (#24). E o que esses nomes têm em comum? Todos estarão no Rio Open, o ATP 500 carioca que começa no dia 19 de fevereiro.

O torneio se beneficiou um bocado do resultado de “seus” tenistas no Australian Open. Principalmente Marin Cilic e Kyle Edmund, que ficaram vivos até as fases derradeiras do evento. Foi justamente quando o Rio Open teve um aumento considerável na venda de ingressos. Nos últimos dias do slam australiano, o torneio carioca vendeu 78% a mais em comparação com a média de bilhetes vendidos no mês de janeiro.

Em relação ao ano passado, a diferença é ainda mais considerável: 114% a mais de ingressos vendidos em comparação com a média de janeiro de 2017. Somando isso tudo, o Rio Open de 2018 já vendeu 17% a mais do que no mesmo período em 2017 e anunciou recentemente que as entradas para sábado – dia das semifinais – já esgotaram. Para as quartas de final, na sexta-feira, a expectativa é de que os bilhetes também esgotem em breve.

“No dia que o Cilic e o Edmund ganharam [e se classificaram às semifinais], comparando com a média de janeiro, deu 120% acima da média de venda de ingressos em janeiro”, revelou Lui Carvalho, diretor do torneio.

Além do óbvio empurrão dos resultados em Melbourne, Lui acredita que a lista de jogadores deste ano também é mais interessante do que a de 2017.

“Cilic, Monfils e Thiem são um lineup mais completo do que Nishikori e Thiem, do ano passado. E o Thiem nem era assim tão conhecido. Acho que agora ele está pegando um pouco mais de nome. No dia que a gente anunciou os jogadores, houve um pico de venda bem grande. Se você compara com o dia do anúncio em 2017, houve 122% a mais de ingressos vendidos. Só nesse dia. Então eu acho que Verdasco, Fognini, Cuevas, Edmund, que era uma novidade… Acho que gerou um interesse mais legal.”

Coisas que eu acho que acho:

– O Rio Open anunciou nesta segunda-feira que fará uma homenagem a Carlos Kirmayr, um dos maiores tenistas e técnicos da história do país. Kirma foi #36 do mundo em simples, #6 em duplas e era o treinador da argentina Gabriela Sabatini quando ela venceu o US Open de 1990.

– Trata-se de uma homenagem mais do que merecida a um técnico que não foi convidado pela CBT a participar do “encontro nacional”, realizado em Florianópolis, no fim do ano passado. Kirmayr só soube do evento quando encontrou, por acaso, com Fernando Meligeni em um aeroporto de São Paulo.

– O link para comprar ingressos é este aqui.

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No vigésimo título, o Federer mais divertido de ver http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/01/28/australian-open-no-vigesimo-titulo-o-federer-campeao-mais-divertido-de-ver/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/01/28/australian-open-no-vigesimo-titulo-o-federer-campeao-mais-divertido-de-ver/#respond Sun, 28 Jan 2018 12:41:35 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5912

Era o penúltimo dia de 2017, e a Sheila Vieira escrevia profeticamente: “a única coisa boa de 2018 vai ser o Rogério de boas, e Rogério de boas é sinônimo de momentos tiozão e adoramos.” O tweet vinha acompanhado de um gif de Federer fingindo tocar um bongô durante a Copa Hopman. Uma brincadeira lembrando a cena do ano passado, quando o suíço foi parar na Bongo Cam do telão em Perth.

Não foi uma cena isolada e nem aconteceu só porque a Hopman é um torneio que não conta pontos para o ranking. Desde a volta ao circuito, no começo do ano passado, o mundo vê um Roger Federer mais leve. Um pouco porque voltou sem pressão, um pouco porque já retornou conquistando um slam – algo que não fazia há cinco anos – e um pouco porque emendou uma série de vitórias sobre Rafael Nadal, que foi uma espécie de esfinge (decifra-me ou devoro-te) durante a maior parte de sua carreira.

O Roger Federer de hoje, casado, com quatro filhos e 36 anos de idade, não tem o que provar, não tem mais pesos nos ombros, não tem por que dar respostas sisudas ou evasivas aos jornalistas (embora ainda as dê aqui e ali). Ele entra na quadra, faz o dele – que, normalmente, é vencer – e sai pimpão, livre, leve e solto, curtindo cada dia plenamente. É o veterano que dá valor a seus feitos, que sabe que o fim nunca fica mais longe, que tem a noção exata de quão especial é sua vida no circuito e, por isso, tem a consciência de que é preciso saboreá-la até o último dia. O vídeo abaixo é autoexplicativo.

Este Australian Open pode não ter sido o mais desafiador. A chave, que parecia chatinha, foi se descomplicando ao longo do torneio. No fim, o suíço teve em Berdych e Cilic seus maiores obstáculos. O tcheco fez um belo primeiro set e nada mais. O croata, neste domingo, fez um grande jogo. Quando tudo parecia perdido, virou o quarto set, saindo de 1/3 para 6/3, e levou o suíço ao quinto.

Só que Federer tem mais armas, mais experiência, mais margem de segurança. Se no terceiro set a chave foi o slice – aquele com a bola quicando pouco depois do T, chamando o adversário para a rede, na parcial decisiva valeu a capacidade de brilhar na hora certa. Salvou dois break points no primeiro game, errou pouco (5 winners e 5 erros não forçados), e viu Cilic, com 14 falhas, sucumbir. Após 3h03min, o placar mostrava 6/2, 6/7(5), 6/3, 3/6 e 6/1. Game, set, match, Federer.

Só que o atleta que dominou o torneio com seu tênis também foi um atleta descontraído. Durante as últimas duas semanas, o planeta viu e se divertiu com cenas do tipo Federer imitando o olhar de Dwayne “The Rock” Johnson…

…contando sua experiência com calças capri e fazendo piada com seus próprios braços para explicar por que nunca jogou com camisas sem manga…

…aceitando as brincadeiras de Will Ferrell e perguntando se gazelas não sempre terminam virando comida no fim da história…

…falando sobre o tamanho de sua casa e de onde guarda os troféus (e esbanjando classe ao elogiar o lesionado Hyeon Chung)…

…contando que pede para jogar à noite e sorrindo ao admitir que tem mais poder de barganha com a organização do que outros tenistas.

E foi nessa entrevista (acima) que Federer revelou sobre como hoje consegue falar de forma diferente com a imprensa e viver sensações diferentes em quadra. “Basicamente, senti o mesmo durante 15 anos. Em toda partida, eu entrava esperando vencer, esperando ir longe no torneio… Desde a lesão que tive [joelho em 2016], houve uma espécie de reset na mente, no corpo e na minha abordagem das partidas.”

O resultado desse “reset” você viu nos vídeos acima, mas também viu nas partidas. O Roger Federer que foi enorme até 2016 não só voltou totalmente recuperado da lesão no joelho, mas retornou com essa leveza que lhe fez ainda mais perigoso.

Não dá pra cravar com certeza que este Federer de hoje é a melhor versão do suíço em toda a carreira, afinal é sempre injusto comparar conquistas em décadas diferentes contra adversários diferentes e vivendo fases diferentes. Ainda assim, é um bom assunto para debater com uma Hoegaarden no copo. Minha única certeza-certeza mesmo, depois de 20 slams, é que este Federer é o mais divertido de ver.

Coisas que eu acho que acho:

– Federer chega a 20 (!!!) títulos de grand slam. Seis deles vieram no Australian Open (2004, 2006-07, 2010, 2017 e 2018). Os já impressionantes números do suíço não param de aumentar.

– Outra estatística deve vir em breve. Com o título deste domingo, Federer manterá seus 9.605 pontos no ranking e ficará bem perto de Rafael Nadal, que terá 9.760 e defende 300 pelo vice em Acapulco no ano passado. Levando em conta a lesão do espanhol, é possível que o suíço assuma a ponta do ranking antes de Indian Wells, mesmo que não jogue em Dubai.

– Se isso se confirmar, Federer pode também tomar de Nadal uma das marcas mais impressionantes do tênis: o maoior intervalo entre a primeira e a última (ou mais recente) vez que alguém encerrou um calendário como #1: seriam 14 anos de 2004 até 2018. A marca do espanhol é de nove (2008 a 2017).

– Ainda sobre longevidade: os últimos seis slams foram vencidos por tenistas com mais de 30 anos. A última sequência do tipo aconteceu em 1969, quando Rod Laver venceu os quatro slams. Fazer isso 50 anos atrás, quando o profissionalismo ainda engatinhava e não havia fisioterapeutas particulares, banheiras de gelo, estafes enormes nem cheques milionários, isso sim é um feito monstruoso. Não importa quantos slams Federer tiver ao fim da carreira, Rod Laver, que fechou o Grand Slam duas vezes (e tem a humildade de acompanhar, elogiar e até filmar os grandes momentos do suíço), nunca pode ficar fora de nenhuma discussão sobre “melhor de todos os tempos”.

– Continuando no assunto: antes de Federer, apenas o australiano Ken Rosewall havia conquistado um título de slam após completar 35 anos na Era Aberta. O australiano, inclusive, fez a final do US Open de 1974 com 39 anos. Rosewall, que também venceu quatro slams depois dos 30, é outro gigante cujos feitos só não são maiores (nem lembrados com tanta frequência) porque Laver foi seu contemporâneo.

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Wozniacki, finalmente uma número-1-com-slam http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/01/27/australian-open-nova-wozniacki-e-finalmente-uma-numero-1-com-slam/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/01/27/australian-open-nova-wozniacki-e-finalmente-uma-numero-1-com-slam/#respond Sat, 27 Jan 2018 16:31:55 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5907

De fevereiro de 2011 a janeiro de 2012, Caroline Wozniacki reinou na WTA. Ficou 49 semanas como número 1 do mundo, mas nunca teve o mesmo reconhecimento de alguns nomes que ficaram muito menos tempo na posição. Venus Williams (11 semanas), Kim Clijsters (20) e Maria Sharapova (21) são três belos exemplos, e o motivo é simples: a dinamarquesa não tinha um título de slam no currículo.

Isso foi seis anos atrás, justamente quando Serena Williams passou mais de um ano sem jogar um torneio oficial. Há um ano, a americana se afastou do circuito outra vez para ter uma filha, deixando o trono vago. Angelique Kerber, Karolina Pliskova e Garbiñe Muguruza se alternaram na posição até que Simona Halep, outra número-1-sem-slam, assumiu o post em outubro de 2017.

E aí veio o Australian Open de 2018. A Wozniacki de hoje é muito superior àquela de 2011-12. Saca melhor, agride mais e consegue ser tão consistente quanto. Com a chave que se apresentou no início do torneio, a chance se apresentou, e a dinamarquesa aproveitou. Wozniacki passou por Buzarnescu, Fett, Bertens, Rybarikova, Suárez Navarro e Mertens antes da final. Não encarou nenhuma top 10 e chegou à decisão depois de salvar dois match points na segunda rodada – sua única atuação ruim no torneio.

A final era para ser um jogaço. Número 1 contra número 2 do mundo. A campeã conquistaria seu primeiro slam. E foi uma bela partida no primeiro set. Wozniacki agrediu com seu backhand, Halep esteve bem do fundo de quadra, e a dinamarquesa foi melhor no tie-break. Só que a romena fisicamente já estava um caco na metade da segunda parcial. Trazendo o desgaste acumulado da duríssima semifinal contra Kerber (9/7 no terceiro set) e também do jogo de oitavas (15/13 no terceiro set contra Lauren Davis), a número 1 sofreu com a umidade altíssima da decisão e teve cãibras.

O jogo ficou nervoso e caiu de nível. Wozniacki teve sete break points (em dois games diferentes) e não aproveitou nenhum na parcial. Halep teve uma chance – no oitavo game – e agarrou. De algum modo, a romena empurrou o jogo para a terceira parcial. Ainda assim, parecia difícil que a número 1 resistisse fisicamente contra alguém tão consistente quanto a dinamarquesa.

A parcial decisiva foi uma montanha russa. Wozniacki abriu 3/1. Jogo decidido, certo? Errado. Cada vez que parecia ter controle da partida, a dinamarquesa parecia voltar no tempo para seu jogo passivo de 2012. Halep devolveu a quebra, virou o placar e abriu 4/3, com uma quebra de frente. Wozniacki, então, pediu tempo médico, e aí tudo mudou. Caroline quebrou o momento favorável de Halep, quebrou de volta o saque, confirmou o seu serviço e, quando ficou a dois pontos do título, no saque de Halep, ganhou um ponto que não poderia ser mais típico de seu tênis. Velocidade, defesas e um contra-ataque mortal com o backhand. Veja no vídeo acima.

Pouco depois, estava no chão, festejando e chorando. Game, set, match, Wozniacki: 7/6(2), 3/6 e 6/4. Número 1 e, finalmente, campeã de um slam.

Coisas que eu acho que acho:

– Há sempre quem vá dizer que Wozniacki chegou aí porque pegou uma chave fácil. Sim, pegou, mas faz parte do processo. Num slam, você estreia conta Kuznetsova, em outro pega um caminho menos complicado. Cabe ao tenista aproveitar. Svitolina tinha uma seção bem acessível também, mas parou nas quartas. Além disso, Wozniacki encontrou a #1 do mundo na final.

– Dá para dizer que Jana Fett amarelou incrivelmente na segunda rodada, quando teve 5/1, 40/15 e saque para eliminar Wozniacki (e vejam no vídeo abaixo quão pouco faltou). Também dá para dizer que, com ou sem amarelada, não é qualquer um que consegue sair de um buraco dessa profundidade, e a dinamarquesa, que fazia uma péssima partida até ali, encontrou um jeito de sobreviver.

– É preciso dizer o quanto Halep fez um torneio bonito de ver. Se o tênis não foi excelente o tempo todo, não faltou raça. Num cenário ideal, ela teria chegado em melhores condições na final, mas, de novo, Wozniacki fez o seu. Não vale tirar o mérito da nova-velha-número-1 porque ela passou menos tempo em quadra do que sua adversária deste sábado.

– Daria para escrever muita coisa sobre muita gente neste Australian Open feminino, que teve tantas partidas emocionantes. Prefiro terminar o post lembrando do belo torneio de Angelique Kerber, que eliminou Sharapova, Hsieh e Keys antes de sucumbir, esgotada, diante de Halep. A alemã “voltou” forte para 2018. Olho nela.

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O preço da fama para Tennys Sandgren http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/01/23/australian-open-o-preco-da-fama-para-tennys-sandgren/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/01/23/australian-open-o-preco-da-fama-para-tennys-sandgren/#respond Tue, 23 Jan 2018 22:55:36 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5896

Era o grande momento profissional de Tennys Sandgren. O americano de 26 anos, #97 do mundo e que até o início da semana passada tinha apenas duas vitórias em nível ATP (uma delas por desistência e a outra em cima do #138), avançou para as quartas de final do Australian Open. Um feito espetacular para um cidadão quase desconhecido de uma modalidade, apesar de praticamente levar o nome do esporte no RG.

Ao completar uma vitória cinderelesca sobre Dominic Thiem, #5 do planeta, Tennys Sandgren era para ser o americano mais celebrado em Melbourne Park, especialmente por causa da fraca participação masculina de seu país no torneio. Só que um jornalista, em busca de informações sobre o desconhecido quadrifinalista, resolveu olhar a conta de Sandgren no Twitter. Foi quando a fama rapidamente revelou seu preço para o tennysta.

Mas o que o Twitter tem a ver com coisa toda? É que o Sandgren segue um número considerável de personalidades ligadas à direita política americana. E não só à direita, mas à chamada alt-right, uma direita que tem pouco de “alternativa” e muito de extrema, radical e preconceituosa, composta (não só) por supremacistas brancos, neonazistas e neofascistas, entre outros grupos que odeiam minorias por esporte. E foi na coletiva, logo depois da vitória sobre Thiem, que o jornalista perguntou se Sandgren não tinha problema em parecer ligado a esses grupos.

O tenista se defendeu dizendo que seguir alguém não significa necessariamente pensar o mesmo que essas pessoas. Afirmou também que não apoia o movimento alt-right, embora ache parte do “conteúdo” interessante. Declarou que, como cristão, acredita em apoiar e seguir Cristo. Veja abaixo o vídeo do momento:

Sem entrar – por enquanto – no mérito político da coisa, a defesa de Sandgren é válida. Acho até que todo cidadão deveria seguir o maior número possível de políticos e se informar sobre o que pensam e fazem, mesmo que sejam os “seus” candidatos. E isso vale para qualquer área. Empresários querem saber os passos de seus concorrentes, agências de marketing querem acompanhar as campanhas rivais, jornalistas querem ver o que outros veículos estão noticiando, etc. e tal. “Seguir” alguém não significa realmente seguir-seguir.

Até aí, tudo bem. Só que o “novo famoso” Sandgren, percebendo a força dos holofotes em sua direção, decidiu apagar uma série de tweets. Tarde demais. “A internet” já havia vasculhado a conta do tenista e encontrado coisas do tipo “fui parar num bar gay e estou com os olhos sangrando até agora”; um “convite” a árbitros de tênis para uma corrida entre pessoas com problemas mentais; um agradecimento a Deus por ter sido bom e o impedido de matar um árbitro; e um RT em Nicholas J. Fuentes, uma figura que recentemente marchou junto com neonazistas e outros grupos da alt-right no triste episódio de Charlottesville, entre outos tweets agressivos e pouco educados.

Todos esses tweets já foram excluídos pelo próprio tenista, mas isso não resolve o problema. Longe disso. Afinal, agora todo mundo vai se perguntar por que Sandgren apagou seus comentários. Ele não disse que o Twitter não serve como prova de suas crenças e que não tem relação com a alt-right? Ele tinha algo a esconder, então? Parece coisa de juvenil que passa anos criticando um tenista profissional e, mais tarde, convidado a treinar com esse veterano, corre para apagar os ataques do passado. Não adianta. Tem sempre alguém que registrou e vai lembrar do que aconteceu.

A primeira reação ao caso vinda de um tenista saiu de John Isner, que defendeu o amigo. Além de condenar um blog que atacava o suposto racismo de Sandgren, Isner escreve que “acho que até Tennys gostaria de não ter tweetado algumas coisas, mas ele é um cara bom, posso garantir isso.” Os tweets de Sandgren teriam sido coisa de jovem que se arrependeu e mudou de ideia? Por isso ele deletou os comentários? Ou será que ele simplesmente não quer expor suas crenças verdadeiras diante dos holofotes que ganhou recentemente? Eis a questão. Quem disse que ser famoso era molezinha?

(parágrafos e vídeo abaixo incluídos em 24/04 com a reação de Serena Williams e a resposta de Sandgren aos jornalistas)

A coisa esquentou ainda mais nesta quarta-feira, quando Serena Williams abordou o assunto no Twitter, exigindo um pedido de desculpas. A ex-número 1 do mundo postou uma imagem com a seguinte frase: “Maturidade é poder pedir desculpas e admitir quando você está errado porque você sabe que erros não te definem.” Além disso, Serena escreveu: “Eu não quero nem preciso de uma, mas existe um grupo inteiro de pessoas que merecem um pedido de desculpas. Não posso olhar para minha filha e dizer a ela que fiquei quieta. Não! Ela vai saber se defender e defender os outros – pelo meu exemplo.”

Serena era assunto de algumas das postagens que Sandgren apagou. Em uma delas – a que mais circulou, o atleta escreveu “nojento” para comentar um vídeo em que a ex-número 1 aparecia gritando um palavrão durante uma partida contra Roberta Vinci no US Open. Até a hora da postagem desta atualização, Sandgren não havia respondido publicamente ao post de Serena.

Em quadra, Sandgren foi derrotado pelo sul-coreano Hyeon Chung em três sets: 6/4, 7/6(5) e 6/3. Após a partida, o americano leu uma mensagem aos jornalistas e se recusou a responder perguntas sobre o assunto. A mensagem, preparada em seu smartphone, dizia, entre outras coisas, que a imprensa “busca colocar pessoas em pequenas caixas para que o mundo fique organizado dentro de ideias pré-concebidas” e que com um punhado de follows e likes no Twitter, seu destino estava selado nas mentes dos jornalistas. “Vocês preferem perpetuar máquinas de propaganda em vez de pesquisar informação por vários ângulos e perspectivas estando dispostos a aprender, mudar e crescer.” Veja aqui a íntegra do discurso.

Coisas que eu acho que acho:

– Vale a curiosidade: Sandgren já explicou em uma das coletivas em Melbourne, mas caso alguém não saiba, Tennys era o nome de seu avô. Nenhuma relação com o esporte. O tenista costuma usar outro nome quando pede algo no Starbucks.

– Como Sandgren chegou às quartas? Primeiro, eliminando Jeremy Chardy. Depois, aproveitando-se de um debilitado Stan Wawrinka na segunda rodada. Em seguida, bateu Maximilian Marterer e Dominic Thiem (mais um resultado decepcionante para o jovem austríaco em um slam).

– Sandgren se achou no direito de condenar e discursar atacando a imprensa, mas não teve coragem para continuar no assunto e engajar em um debate que poderia ter sido saudável na mesma coletiva. Foi uma péssima maneira de (não) conduzir o diálogo que ele mesmo pedia em seu discurso. Vale aqui o que eu sempre digo – e recente escrevi num post sobre Thomaz Bellucci. Se um atleta profissional acha que seu trabalho é só entrar em quadra e jogar, está muito enganado. Esse tempo ficou no passado.

– Para mim, o efeito mais nefasto da popularização de algumas redes sociais foi a criação de bolhas. Quando a pessoa consome um conteúdo que lhe é entregue por meio de algoritmos, é possível que ela passe a ler apenas aquilo que vai ao encontro de suas ideias. Não é o único causador, mas contribui enormemente para a disseminação de notícias falsas, para polarização de pensamentos e, pior ainda, para gerar mais intolerância.

– Um sub-problema interessante é que algumas pessoas, já acostumadas com essa bolha em uma rede social específica, passam a fazer o mesmo nas outras. Não gostam de uma opinião? Unfollow. Não quer ler um elogio a um rival? Unfollow. E seguimos criando pequenos casulos de “parças”, acreditando que estamos nos protegendo de algo quando estamos pouco a pouco desaprendendo a conviver com diferenças. Onde essa estrada vai dar?

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A decolagem de Hyeon Chung http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/01/22/australian-open-decolagem-hyeon-chung/ http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/2018/01/22/australian-open-decolagem-hyeon-chung/#respond Mon, 22 Jan 2018 21:44:54 +0000 http://saqueevoleio.blogosfera.uol.com.br/?p=5885

É fácil entender por que Hyeon Chung, 21 anos, #58 do mundo, está longe de ser o mais badalado dos talentosos #NextGen da ATP. Ele é quieto, discreto, está meio “escondido” no ranking, só tem um título na carreira (o pouco relevante Next Gen Finals) e, até esta segunda-feira, não tinha uma vitória sobre um grande campeão. Pois ela veio e, ainda que tenha sido sobre um lesionado Novak Djokovic, chegou a hora de o mundo descobrir o sul-coreano.

Há alguns motivos que explicam por que Chung ainda não, digamos, decolou como Alexander Zverev, Nick Kyrgios, Karen Khachanov, Andrey Rublev ou Borna Coric – todos com melhor ranking superior ao do sul-coreano (#44) até este Australian Open. Chung teve lesões. Perdeu três meses em 2016 e ficou fora da temporada de grama em 2017. Seu ranking, aliás, era melhor em janeiro de 2016 – dois anos atrás – do que é neste momento.

Mas todo bom tenista levanta voo em um torneio específico, e Melbourne se apresenta como a pista de decolagem de Chung, que derrubou o cabeça de chave Mischa Zverev (#35) na estreia, bateu o também #NextGen Daniil Medvedev (#53) na segunda rodada, eliminou Alexander Zverev (#4) na sequência e, agora, abateu Novak Djokovic (#14) por 7/6(4), 7/5 e 7/6(3). E não é só isso. O sul-coreano será favorito nas quartas de final contra a grande surpresa do torneio: Tennys Sandgren (#97), o algoz de Dominic Thiem (#5).

Ainda que se possa dizer – com razão – que Djokovic estava lesionado e Sascha Zverev ainda precisa aprender a vencer em melhor de cinco sets, nada acontece por acaso. Chung coloca diante do adversário um conjunto invejável de obstáculos. Desde sua velocidade e flexibilidade, incluindo sua capacidade de contra-atacar, até a inteligência tática na hora de construir pontos. Nem é um pacote muito diferente do de Novak Djokovic nem se trata de coincidência. O próprio garotão admitiu que olhava e tentava copiar o sérvio, seu ídolo.

E se a descrição não for suficiente, experimente ver os melhores momentos da partida no vídeo abaixo. Com os dois de camisa branca, quem não prestar tanta atenção é capaz até de confundir Chung e Djokovic. De qualquer modo, observem como o sérvio encontrou problemas nos ralis contra seu “espelho”.

Se conseguiu passar ficar relativamente fora do radar até agora – o Next Gen Finals chamou muito mais atenção pelas regras do que pelas partidas – Chung passa a ter um par de canhões de luz em sua direção. Entrar em quadra nas quartas de final como favorito não será fácil. Uma semifinal, então, será ainda pior para os nervos, mas serão momentos importantes da checklist pré-decolagem. E o que quer que aconteça, tudo leva a crer que esse voo vai ser muito interessante de acompanhar pelos próximos anos…

Coisas que eu acho que acho:

– É preciso dizer: Djokovic, dores e tudo mais, fez um belo papel no torneio. Seus golpes da linha de base continuam afiados e seu processo de construção de pontos é tão bom quanto sempre foi. O cotovelo, no entanto, cobrou seu preço. Nole ganhou menos pontos com o serviço e não teve a costumeira margem que lhe daria uma vitória sobre Chung.

– Enorme dó acompanhar os casos de Djokovic e Murray. Os dois fizeram longas pausas e descobriram da pior maneira possível que não foi o suficiente. Vão perder mais tempo de circuito, o que não é bom para ninguém.

– Ouça abaixo o nome de Hyeon Chung pronunciado por um sul-coreano. O link é do site Forvo, o melhor do mundo para saber como dizer nomes e palavras em qualquer idioma. Clique no nome para melhor áudio.

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