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Kyrgios: arrogante ou super confiante?

Alexandre Cossenza

25/01/2015 09h51

Ele tem 1,93m de altura, um "penteado" só para a sobrancelha e leva para a quadra um cordão nada discreto, pendurado no pescoço e caindo, propositalmente, fora da camisa. É difícil passar perto e não reconhecer Nick Kyrgios, 19 anos, número 53 do mundo. É igualmente improvável, ainda que sentado à mesa do café e dando garfadas em um muffin de framboesa, não notar algo de especial quando o garotão está na TV. O australiano de sobrenome grego gesticula, grita e chama a torcida. E seu tênis fala tão alto quanto seu visual.

Desde que conquistou o Australian Open juvenil, em 2013, Kyrgios soma um cartel de vitórias respeitável para alguém de sua idade. A maior delas foi sobre Rafael Nadal, em Wimbledon, onde alcançou as quartas de final no ano passado. Naquele torneio, o australiano também bateu Richard Gasquet. Mais tarde, no US Open, passou por Andreas Seppi e Mikhail Youzhny. Agora, em Melbourne, derrotou Federico Delbonis, Ivo Karlovic e Malek Jaziri. Nada mau.

Ao mesmo tempo em que galga postos no ranking, Kyrgios ganha a merecida atenção como principal esperança (tchau, Tomic) de um país que entende, gosta e acompanha tênis. Só que uma – talvez a mais cruel – das consequências é passar, inexoravelmente, a viver sob o pente fino do público e da imprensa até o fim dos dias. E a moda hoje é rotular o adolescente como arrogante.

Não é difícil entender de onde vem essa percepção. Kyrgios não é adepto do discurso pronto. Recentemente, disse numa entrevista que riu quando o croata Borna Coric se autodenominou o melhor de sua geração. O jovem aussie também já disse que entrou em Wimbledon achando que poderia derrotar Nadal. Junte algumas declarações com seu comportamento nada convencional dentro de quadra e você vai encontrar um punhado de gente incomodada – ainda mais em um esporte que mantém tradições e tem uma base de fãs um tanto conservadores.

Fosse na NBA ou a NFL, Kyrgios seria mais um. Ponto. Talvez, na melhor das hipóteses, seria festejado por seu swag à la Nick Young. Só que o mundo do tênis dos dias de hoje – o mesmo mundo que reclama da falta de "personalidades" e de declarações apimentadas – demora a aceitar e entender o diferente. E ainda condena sem direito a julgamento qualquer frase que não foi previamente ensaiada uma dúzia de vezes com assessores de imprensa. Caras novas são sempre bem-vindas, mas se o entrevistador pós-jogo pede uma viradinha para falar do vestido, já vira polêmica: gesto sexista ou inócuo?

Roger Federer já caiu nessa armadilha. Em 2007, quando ganhou o Australian Open sem perder nenhum set, o suíço foi indagado, na coletiva final, sobre sua genialidade. Respondeu que "podem me chamar de gênio porque estou superando muitos dos meus oponentes, meio que jogando de um jeito diferente, ganhando quando não estou jogando meu melhor. Tudo isto, talvez, signifique um pouco disso (genialidade)." No dia seguinte, veículos de todas latitudes e longitudes questionavam a arrogância da declaração. Mas eu divago.

O ponto, aqui, é constatar quando a confiança se transforma em arrogância, algo tão fácil quanto localizar um dente no chão de uma arena de hóquei sobre o gelo. E, talvez, a mais resposta mais importante venha de outra pergunta: um tenista ganha ou perde mais jogos por causa de seu excesso de confiança? É bem possível que vejamos Kyrgios acumular uma pilha de reveses por ter pisado em quadra achando que nada lhe impediria de avançar. Mas o australiano teria derrotado Nadal se pensasse diferente?

Pouco antes deste Australian Open começar, Kyrgios deu entrevistas e tocou no assunto. Duas declarações, acho, valem destaque:

"Já fui criticado algumas vezes por ser um pouco confiante demais com as minhas palavras, mas todos atletas de sucesso do mundo têm uma dose extrema de confiança em si mesmos. Às vezes posso ser julgado como arrogante ou pretensioso, mas não me importo nem um pouco com a maneira que as pessoas me veem."

"Acho que jogo meu melhor tênis quando encontro aquela linha tênue entre estar realmente positivo e estar calmo. Não quero me empolgar demais. Acho que vou amadurecer com a idade. Vou descobrir o que me ajuda mais em quadra. Obviamente, não vou ser um robô, sem mostrar emoção ou esse tipo de coisa. Acho que isso (a empolgação) definitivamente ajuda."

São frases que casam com o que Kyrgios mostrou neste domingo, em Melbourne, na vitória em cinco sets contra Andreas Seppi. O australiano perdeu as duas primeiras parciais para um tenista que vinha de um triunfo memorável sobre Roger Federer. Ainda assim, seguiu acreditando. Depois do jogo, disse que pensou em Wimbledon, quando viu Gasquet abrir 2 a 0 e também virou. No fim, bateu o italiano por 5/7, 4/6, 6/3, 7/6(5) e 8/6 – com direito a um match point salvo no quarto set.

Sim, Kyrgios teve suas oscilações. A mais perigosa delas veio no quinto set, quando saiu na frente e passou a acelerar o jogo mais do que devia. Acabou perdendo o serviço e precisando correr atrás de novo. Pareceu, contudo, mais afobação – normal para alguém da sua idade, ainda mais no cenário deste sábado, com tudo que envolve jogar oitavas de final de um Grand Slam em casa.

Arrogante ou super confiante? Qualquer que seja a resposta, é inegável que a postura do garotão não vem atrapalhando sua carreira – não até agora, pelo menos. Com 19 anos e 280 dias de vida, Kyrgios é o mais jovem quadrfinalista do Australian Open desde 1990 (Andrey Cherkasov, 19 anos e 208 dias). Também é apenas o nono adolescente a chegar às quartas do torneio na Era Aberta. E, mais do isso tudo: Kyrgios tornou-se hoje o primeiro adolescente a disputar duas quartas de finais de Grand Slam desde Roger Federer (Roland Garros e Wimbledon em 2001).

A próxima parada para o bonde do Kyrgão sem freio (porque Kyrgios poderia também ser jogador de futebol ou passista de escola de samba) será a Rod Laver Arena contra Andy Murray. O australiano será azarão, claro. Mas duvido que pise em quadra pensando que vai perder.

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Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

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