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Categoria : Política

Rio vai até Miami em lobby para mudar torneio de patamar
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Alexandre Cossenza

Não é segredo nenhum que os organizadores do Rio Open querem aumentar o torneio. O evento carioca, um ATP 500, tem o objetivo de saltar de status, seja mudando para um Masters 1000 ou qualquer que seja a denominação a partir de 2019, quando o circuito mundial possivelmente terá um formato bem diferente do atual. A novidade é que agora a cidade do Rio de Janeiro entrou oficialmente na conversa junto à entidade que controla o tênis masculino.

O presidente da Riotur, Marcelo Alves, foi a Miami nesta semana para conversar com a ATP, oficializar o apoio da cidade e do prefeito, Marcelo Crivella, e observar o Masters 1000 que está em andamento. Alves, que é empresário e não político, é o mesmo que, em parceria com Dejan Petkovic e o governo do estado do Rio, trouxe Novak Djokovic para uma exibição com Gustavo Kuerten em 2012 – sim, aquela mesma exibição pela qual o sérvio não recebeu do estado até hoje.

Após uma reunião que contou com o presidente da Riotur, Lui Carvalho, diretor do Rio Open, e Gavin Forbes, representante dos torneios das Américas no conselho de diretores da ATP, falei brevemente por telefone tanto com Alves quanto com Carvalho. As declarações de ambos estão abaixo:

Qual o grande objetivo dessa viagem?
Marcelo Alves: É plantar essa semente do nosso interesse perante a ATP de receber um Masters 1000. Não são decisões imediatas, mas fiquei muito feliz e surpreso com a receptividade com que a diretoria da ATP nos recebeu. Ontem (sexta), fiz um tour técnico em todas as estruturas do evento, hoje (sábado) nós tivemos uma reunião muito positiva e realmente eles ficaram muito surpresos com o nosso interesse. O objetivo era conhecer o evento, conhecer os passos para que a gente possa sonhar ainda mais em receber um Masters 1000. Temos condições, capacidade, estrutura e uma empresa que é credenciada e tem a data no Rio de Janeiro, que faz muito bem o ATP 500, então realmente não deixamos nada a desejar. O primeiro passo é trocar a quadra de saibro para a quadra rápida porque isso vai nos dar um grande plus.

Miami e o Rio Open são dois torneios da IMG. Cogita-se inverter o valor dos torneios ou não é essa a conversa?
MA: Não, não foi em nenhum momento discutido Miami. Não foi nada colocado na mesa sobre Miami. Pelo contrário. O que a gente deseja, primeiro, é trocar a quadra de saibro para a rápida no Parque Olímpico porque isso vai nos dar uma grandiosidade, até porque quando você transforma em quadra rápida, os atletas também virão [organizadores do Rio Open e do ATP de Buenos Aires acreditam que o saibro é um empecilho para atrair grandes nomes numa época do ano entre o Australian Open e os Masters de Indian Wells e Miami – todos em quadras duras]. Isso vai nos dar mais audiência, público e nos credenciar ainda mais para a ATP entender que o ATP que nós fazemos, com essa estrutura e grandiosidade, que um 500 ficou pouco para a gente. E aí transformar em 1000.

Então isso seria para a partir de 2019, que é quando a ATP pode reestruturar o calendário, mudando o formato e as pontuações com mais liberdade?
MA: É isso aí. A semente foi muito bem plantada. Ouvi deles que são apaixonados pelo Rio de Janeiro. Eles têm um carinho muito grande pelo Rio de Janeiro. Foi muito, muito positivo. O Rio de Janeiro não pode pensar em menos do que isso a partir de agora. Começou a história agora. É outro patamar.

Nessa questão, a Riotur atua como representante da prefeitura ou pode agir com interesses diferentes dos do prefeito Marcelo Crivella?
MA: A Riotur é uma empresa pública do turismo da cidade. É totalmente integrado, é uma empresa da prefeitura. O prefeito encara isso como uma das ações emblemáticas. Ele apoia tudo que é emblemático para a cidade e grandioso e, obrigatoriamente, vai refletir em empregos para a cidade. Um evento desse porte tem 14 dias. Gera emprego, receita para a cidade. A vocação da cidade é essa: o turismo. Turismo esportivo, de entretenimento. Claro que ele apoia. Ele é extremamente encantado com esses grandes acontecimentos.

Um Masters no Rio teria que ser no Parque Olímpico…
MA: Sem dúvida nenhuma. Até porque está pronto. Precisamos dar vida ao Parque Olímpico. As quadras estão prontas, é quadra rápida…

A questão é que ainda não se sabe quem vai administrar o Centro Olímpico de Tênis. É uma preocupação de vocês?
MA: É a parte mais fácil de resolver. Hoje, o Parque Olímpico tem três administradores. A parte das arenas é administrada pelo Ministério do Esporte; aquela rua principal é administrada por nós, da prefeitura; e a parte até onde vai ser o Rock In Rio, quem administra é a concessionária que construiu o Parque Olímpico. A gente está em comum acordo, sempre buscando caminhos para movimentar aquela área. Nosso legado está aí. Agora tem que dar vida!

Que tipo de avanço é possível fazer numa reunião assim?
Lui Carvalho: É legar ter a prefeitura se envolvendo, ter todas as esferas juntas com um objetivo comum, que é fazer o evento crescer, seja sendo 500, 1000, 750, ou indo para a quadra dura no Parque Olímpico – todas aquelas coisas que a gente conversou no Rio Open. Crescer não significa necessariamente mudar de status, mas pode ser várias coisas novas que a gente pode criar para o evento. É muito bom que o Marcelo esteja se envolvendo nisso. Ele é um cara do marketing, tem um histórico de empresa de organização de eventos, já trouxe o Djokovic para o Brasil naquela exibição… Ele entende e para a gente é super positivo para ajudar a fazer o evento crescer. Ele está tentando se situar na política da ATP para poder ajudar a gente. Ele sentou com o Fernando Soler, que é o head da IMG, sentou com o Gavin Forbes, que é o board member das Américas, até para entender os próximos passos e quando isso pode acontecer, e foi super positiva a reunião.

O Rio Open já decidiu se vai apresentar de novo ainda este ano, em julho, a proposta para mudar para quadras duras (o torneio fez isso ano passado e não obteve os votos necessários)?
LC: A reunião é na primeira semana de julho, em Wimbledon. A gente ainda está nessa estratégia para saber se a gente tem os votos para mudar para quadra dura. Na verdade, ainda não temos uma posição fixa. A gente veio até Miami para fazer um pouco da politicagem, conversamos um pouco com a galera do tênis, e vamos saber um pouco mais para a frente. O importante é que tudo está correndo bem, a ATP está falando super bem do Rio Open, o Chris Kermode [CEO da ATP] elogiou bastante a gente, então isso é o mais positivo de tudo.

Coisas que eu acho que acho:

– O assunto foi bastante discutido na época do Rio Open. A organização acredita que ter o evento em quadra dura vai ajudar a trazer mais nomes de peso. A opinião é compartilhada por Lui Carvalho, que é quem negocia com atletas e managers, e Gustavo Kuerten. Por outro lado, há quem acredite que a questão geográfica pesa tanto quanto o piso. Ou seja, se o Rio Open mudar para quadras duras, tenistas vão passar a usar a distância e as longas viagens como argumento para continuarem jogando torneios em Roterdã e Dubai.

– Vale lembrar também que o atual modelo do calendário da ATP vale apenas até 2018. Ninguém sabe o que vai acontecer a partir de 2019. Se houver consenso, pode haver todo tipo de alteração, desde a inclusão de novos níveis de torneios (como ATPs 750 e Masters 1500) até alterações radicais nas datas de eventos.


Entrevista: Jorge Lacerda
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Alexandre Cossenza

JorgeLacerda_BrunoSoares_cbt_blogFoi-se o tempo em que o maior problema era um buraco na conta bancária. Quando Jorge Lacerda assumiu a presidência, Confederação Brasileira de Tênis estava endividada e sem credibilidade. Hoje, o cenário é bem diferente. Gustavo Kuerten já se aposentou, mas a modalidade vive dias melhores, embalada por generosos patrocínios de Correios, Asics, Peugeot e outros parceiros.

Os investimentos que têm entrado no esporte, contudo, ainda não se refletem em nomes no mais alto nível do tênis. Após um ano ruim de Thomaz Bellucci, nosso melhor atleta, não há um brasileiro sequer entre os 100 melhores do mundo. Entre os 300, apenas o gaúcho Guilherme Clezar (158, 20 anos) e o cearense Thiago Monteiro (272, 19 anos) possuem menos de 25 anos. Não é exatamente o mais animador dos cenários.

A CBT continua sem um centro de treinamento, algo que Lacerda sempre classificou como essencial, embora haja grupos de tenistas aqui e ali, como no Itamirim Clube de Campo, em Itajaí, na academia de Larri Passos, em Camboriú ou na Tennis Route, no Rio de Janeiro. Foi lá, na academia localizada no Recreio dos Bandeirantes, que bati um papo rápido com Jorge Lacerda.

Na conversa, o dirigente mostrou-se satisfeito com o circuito juvenil nacional e otimista em relação ao legado que será o Centro Olímpico de Tênis, construído para os Jogos de 2016. Lacerda, no entanto, lembra que hoje em dia não é mais possível contar com os tradicionais clubes de tênis como formadores de atletas e mostra-se preocupado com o nível dos Futures disputados no Brasil. Leia!

Muitos profissionais farão pré-temporada juntos, no Rio de Janeiro. Você sente o grupo atual mais unido do que em outros momentos da sua gestão?
Tudo tem a ver com investimento. Torneio que passa na Band, no SporTV, tal e tal… Olha o que o tenista tem na manga! Correios. Nós estamos investindo. A gente quer dar condições. O que a gente ressente é espaço próprio para a Confederação. Só que hoje, sem investimento fixo de pagar treinador, mas pagando as viagens dos treinadores e as passagens dos jogadores… Já têm apoio o Instituto Gaúcho de Tênis (IGT), o Itamirim Clube de Campo em Santa Catarina, na academia do Larri a gente continua apoiando os jogadores. A gente não dá dinheiro para o clube, mas o menino está viajando de graça, vamos dizer assim. E aqueles treinadores estão viajando e recebendo por aquela semana, então aquela academia deixa de pagar.

Não é o mesmo efeito que teria se o Thomaz estivesse no top 10, mas os duplistas colocaram o tênis um pouco mais em evidência em 2013. Não sei o quanto isso ajuda, mas a grande crítica que se fazia ao ex-presidente Nelson Nastás era não ter aproveitado a Era Guga. Como se aproveitar o que está acontecendo agora?
Eu acho o seguinte. Já está acontecendo porque se está fazendo. Se você perguntar para o Bruno, para o Marcelo, o próprio Bellucci, o Rogerinho… Todos! Todos estão jogando com “Correios” na manga. Lógico, méritos deles, mas nós estávamos apoiando antes de eles serem o que são hoje. Então isso nos dá credibilidade para a gente usá-los como neste projeto, que a gente lançou com o Bruno e o Marcelo agora. O que é? Botar jogadores novos viajando com eles. E podemos fazer isso também com o João (Zwetsch, capitão da Copa Davis). A ideia é essa: começar a aproveitar os jogadores que estão nas cabeças, botar esses meninos próximos deles e usar os juvenis. A meninada joga a Gira Cosat agora. Depois, jogam a gira europeia. Ali, eles podem estar viajando com eles em alguns momentos. Aí você diz “mas o cara vai estar viajando, não vai estar jogando”. Pô, ser sparring de um cara desses, que daqui a dois, três anos ele vai estar encontrando como jogador… Eu acho que o mais importante é esse envolvimento de todo mundo, que não teve na época que você falava. Hoje, está todo mundo conversando. Hoje, todo mundo se sente parte do trabalho. Esse exemplo daqui da Tennis Route é do cacete. O João vir para cá… Tem aqui o Duda (Matos, um dos treinadores da academia), o Gringo (Walter Preidikman, também treinador da Tennis Route)… Então aqui o João vai poder receber mais jogadores. Isso é legal. Esse trabalho profissional aqui, essa organização que eles deram, já é uma preparação para assumir o Centro Olímpico. Esse é o objetivo. É isso que falo no COB todo dia. A CBT quer um centro de treinamento, vai trazer a Federação do Rio junto, a sede da CBT vem para cá, e a ideia é esse grupo começar a trabalhar lá no alto rendimento. A gente está preparando tudo para a hora que ficar pronto (o Centro Olímpico). A previsão é para 2015. Não vai ser elefante branco. A gente assume o Centro na hora.

E você vem tendo um bom feedback nas conversas com o COB?
Tô. O (Carlos Arthur, presidente do COB) Nuzman é parceiro nisso, o Ministério do Esporte está colocando dinheiro e criou um departamento de legado. Como vai ficar, para quem vai ficar. O próprio Ricardo Leyser já falou que o objetivo é passar para a Confederação. Acho que isso aí está bem tranquilo.

A geração juvenil de hoje não é fraca? Tem a Bia Haddad, mas…
(interrompendo) Sabe o que é? Não é que é fraca. Hoje, a transição está mais longa. Antigamente, de 18, 19 anos, saía um Nadal. Hoje, não tem mais isso. Hoje, tem um ou dois jogadores com menos de 21 anos entre os 100 do mundo. A gente tem que ter mais calma. O Brasil chegou a um ponto que passou a ter muito jogador no ranking, mas a gente está diminuindo aos Futures porque não precisa mais. Numa hora, você tem que focar em quatro, cinco, seis, sete, oito jogadores, e esses têm que estar jogando lá fora. Agora tivemos um Future (em Montes Claros) com três jogadores de 17 anos fazendo semifinal, e o campeão foi o (Marcelo) Zormann. É um puta resultado, só que quero ver o Zormann ganhar um Future na Espanha!

Eu falei sobre isso com o Rubens (Lisboa, assessor de imprensa da CBT) na época. Era o Future mais fraco do mundo naquela semana. E eram 19 Futures no mundo naquela semana!
Lógico. Eu acredito que essa geração de 17, 18 anos agora é boa. A geração do Tiago Fernandes, do Thiago Monteiro e do Guilherme Clezar era boa. O Tiago Fernandes ficou um ano parado, mas foi campeão do Australian Open. O Monteiro já está com 19 jogando Challenger de igual para igual com os caras. O Clezar já ganhou Challenger! A gente tem um grande problema, que é os jogadores de cima não estarem dando respaldo para esses meninos chegarem com calma. Foi o machucado do Bellucci. Se ele volta sem machucar, começar a dar de novo esse respaldo e imuniza um pouco o Monteiro e o Clezar. Todo mundo já cobra. “Por que eles não são número 2 da Copa Davis?” Essa geração mais velha, como Feijão… tem gente que foi subutilizada, que poderia estar dando tranquilidade para essa transição. Tem que ter calma. Tênis é isso. Às vezes, você investe, investe e, de repente, o cara para (Lacerda não cita, mas casos recentes de tenistas apoiados pelos Correios e que trocaram o circuito pelo tênis universitário americano incluem nomes como Karue Sell, Pedro Dumont e Gabriel Friedrich).

Nosso circuito juvenil não é mais fraco desde que acabaram os circuitos grandes como Unimed, Mastercard e Banco do Brasil? A CBT reduziu a pontuação dos desses torneios, e eles não se mantiveram.
O que estava acontecendo na época, que realmente não ajuda, é que os torneios começavam na segunda-feira, e tinha torneio quase toda semana. Então os melhores não conseguiam jogar. Ou não tinham dinheiro ou perdiam aula. O que a gente tentou fazer? Um grande torneio por mês, que é o Circuito Correios. Em janeiro e fevereiro, quem está melhor, joga o Cosat. Quem está jogando menos tem os torneios regionais. Em março, temos Banana Bowl e Copa Gerdau, um dos melhores calendários do mundo para março. Na sequência, em abril, maio, junho, julho, agosto e setembro, um Circuito Correios por mês.

JorgeLacerda_Davis_cbt_blogVocês estão felizes com a Sub-25 (categoria que substituiu o antigo Sub-18)?
Está tendo um retorno positivo. O 18 anos já não existe mais. Se você olhar lá fora, a Copa Davis Junior é 16 anos, tanto masculino quanto feminino. O Sub-25 foi o quê? E é uma briga que estou tendo na ITF e não consigo, que é colocar idade nos Futures! O Brasil começou a diminuir Futures porque quem está ganhando é cara de 27, 30 anos. E não vale a pena, desculpa. No Sub-25, a meninada está aprendendo. A gente quer fazer um trabalho de aprendizado. Ele chega lá, tem que inscrever na sexta-feira, é igual ao profissional. Então ele começa a ver como é. E outra: o cara que está no Sub-25 quer ganhar um dinheirinho. A premiação de primeiro colocado é R$ 2 mil, que é quase a premiação de um Future (US$ 1.300). E dá o exemplo para o mais novo. Tinha uma garotada de 18 anos que bebia no fim do dia… Só estava jogando 18 para disputar universitário nos Estados Unidos. De que adiantava aquilo para nós? Nós pagando tudo (no Circuito Correios, jogadores têm alimentação e hospedagem pagas pela organização)! No Sub-25, não tem hospedagem, mas tem premiação. Compensamos financeiramente para eles e para nós e passamos a dar esse retorno.

Não é um impacto grande para quem tem 17?
Acredito que não, porque o menino de 17 e 18, ou ele vai para a porrada e vai jogar ou treina melhor ainda para o universitário.

Mas aí a gente volta ao debate que é o aspecto físico do tênis hoje. Um garoto de 25 que está fisicamente bem não perde para um de 17…
Depende. Vamos dar um exemplo: se o Zormann, hoje, jogar um torneio de 25, ele vai ganhar todos. É isso que eu acho legal. Os de 17, Zormann, Rafael Matos e (Gabriel) Hocevar, que estão jogando Futures já, se entrarem no Sub-25 eles ganham todos. A ideia está dando o resultado que a gente queria, que é fazer o guri aprender a jogar o profissional. E não é muito diferente do que a Europa faz. Nós não estamos inventando nada.

É viável termos no Brasil torneios interclubes como na Europa, com equipes contratando jogadores e dando prêmio em dinheiro?
O que está acontecendo hoje? O clube virou lazer. Às vezes, o pessoal cobra, “o Brasil isso, o Brasil aquilo.” Nós não temos quadras públicas como a Argentina. Também não somos que nem a Espanha, onde o tênis é feito nos clubes. O nosso clube, hoje, não forma mais ninguém. Outro dia estava conversando com o presidente do Pinheiros. “Nós formamos jogadores”, ele disse. De tênis, ele não vai falar isso para mim. Há 15 anos, não existe um jogador do Pinheiros com ponto na ATP. Mas ele não tem culpa, coitado. Se ele colocar uma equipe de quatro meninos ocupando uma quadra por quatro horas, o sócio reclama. A CBT não faz mais evento em São Paulo porque não tem clube para ceder quadra. Deu um rolo no Circuito Correios do ano passado porque o Paineiras não deixava os jogadores entrarem no clube antes do horário do jogo. A gente não tem esses aportes, essas ajudas que os outros têm. A gente está tentando, mas não tem quadra pública. Quando tem, a gente não pode usar… O clube é parceiro para outras coisas, mas não é parceiro para a formação.


Política esportiva ou só política?
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Alexandre Cossenza

Quem quer rir, tem que fazer rir. A frase ficou famosa no primeiro Tropa de Elite e foi repetida no segundo, até por ser uma versão publicável da mais picante “quer me f…, me beija”. E quem mora no Rio de Janeiro tem uma boa ideia de quantas gírias e ditados populares são usados no dia a dia para expressar informalmente a troca de favores. O hábito é tão enraizado na cultura que às vezes até o governo do estado age assim. E acaba pagando um mico (já que é para usar gíria…) mundial!

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Vejam só a história contada por Fábio Aleixo, jornalista do “Lance!” que esteve em Londres durante o ATP Finals. A reportagem (leia a íntegra aqui) diz que o governo do estado do Rio de Janeiro “rompeu o contrato de publicidade que tinha com a entidade responsável pelo circuito masculino. O acordo, assinado em 2011, era válido ate o fim do ano. Porém, desde meados de 2013, a torneira fechou, e o dinheiro não caiu mais na conta da ATP. Assim, a marca deixou de aparecer no programa semanal da instituição, o ATP Uncovered, em setembro, e nem foi exibida no ATP Finals, como ocorrera nos dois últimos anos”.

Isso é só uma parte do problema. A última parte, acredito, com certa dose de otimismo. Vale lembrar que a relação já começou muito ruim para o Rio de Janeiro. Em 2011, com uma campanha mal elaborada e mal executada, a palavra “RIO” era exibida ao lado da rede, posicionada de modo que nem todos que assistiam ao torneio pela TV podiam visualizar. A situação foi tão embaraçosa que, quando escrevi sobre o assunto na época, recebi um telefonema de um funcionário do governo, admitindo que tudo havia sido mal feito e afirmando, em outras palavras, que não sabia como nem por quem aquela marca havia sido aprovada.

Rio_Amazingpoint_blog2Mas tudo bem, o cenário melhorou no ano passado. Além de ter uma marca, no melhor conceito da palavra, o governo a exibiu no ATP Uncovered e em placas publicitárias do ATP Finals. Bacana, de verdade. Ainda mais quanto a mensagem aparece em fotos lindas como a de Roger Federer, que abre este post. Enquanto isto, a secretária de esporte, Márcia Lins, alegava que a parceria com a entidade pesava a favor do Rio de Janeiro na briga para receber o ATP Finals a partir de 2014. Nunca me convenceu. Talvez por um pouco de ceticismo da minha parte, por ver um evento tão bem produzido em Londres e acreditar que o Rio jamais conseguiria igualar aquilo. Talvez por pura implicância minha mesmo, admito. Afinal, eu tinha ido a Istambul e visto o WTA Championship. Lá, não havia nada de fantástico. Poderia ser igualzinho aqui no Brasil.

No fim das contas, a ATP decidiu estender o contrato com Londres, que receberá o Finals até 2015. Foi a vitória da competência britânica e do público londrino sobre o dinheiro público fluminense. O contrato publicitário do Rio acabou sendo o que era, de fato: um contrato publicitário, respeitado pela ATP. E o que aconteceu? Márcia Lins foi substituída, e o governo decidiu não honrar o acordo. “Sem dúvida nenhuma, cria uma certa desconfiança, deixa um gostinho não muito bom na boca . Não te dá a segurança de mesmo que se receba uma proposta, será uma proposta que cumpra exatamente os planos que se propõe”, disse ao Fábio Aleixo o diretor do ATP Finals, o brasileiro André Silva.

Sabe aquela história do “a gente pode fazer uma colaboração mútua no sentido de o senhor deixar uma questãozinha aí para desafogar a situação”? Não funciona com órgãos como a ATP. E o governo do Rio, o mesmo que pagou uma fortuna para trazer Novak Djokovic sob o pretexto de desenvolver o tênis no estado (a contrapartida foi a construção de UMA quadra pública na Rocinha – uma!), deixa clara a diferença entre praticar uma política de incentivo ao esporte e simplesmente fazer política. Por enquanto, só testemunhamos a última.


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