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Categoria : Julio Silva

“Era melhor que a minha casa”
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Alexandre Cossenza

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São bem documentadas as dificuldades que Julio Silva enfrentou para construir uma bela carreira ao longo de 14 anos como tenista. Com pouco ou quase nenhum dinheiro durante a maior parte de sua vida profissional, e ainda vivendo alguns episódios como vítima de racismo, esteve entre os 150 melhores do mundo (144 foi seu melhor ranking), jogou Copa Davis, ganhou partidas em ATPs, furou qualifying de Grand Slam.

Sentei para conversar com Julio no último fim de semana, durante a etapa final do Itaú Masters Tour, e o papo seria mais sobre a vida de “aposentado”, família, o que tinha acelerado o fim da carreira, etc. e tal. Em um momento, ele me diz que não queria mais passar sufoco financeiro, e eu decido perguntar por que ele não parou antes. Por que não procurar outra atividade, algo menos sacrificante?

“Independente de onde eu estava, muitas vezes era melhor que a minha casa”, ele disse. Entrou uma faca imaginária no meu estômago. E consigo imaginá-la ainda hoje, girando enquanto escuto a gravação e digito este post. Julio não fala com mágoa, rancor, tristeza, nada disso. Explica com a maior naturalidade do mundo o que era estar em um circuito de gente com mais dinheiro, melhores condições de vida, maiores oportunidades de crescer na profissão do que ele.

No papo, que nem foi tão longo assim, Julio Silva fala de cartão de crédito engolido na Alemanha, de uma diarreia na Itália e da noite que passou em uma estação de trem em Paris. Tudo isso no ano em que furou o qualifying de Roland Garros. Histórias que hoje servem de exemplo na função de treinador. Leiam!

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Como está a vida pós-aposentadoria?
Parei de jogar este ano e comecei um trabalho em Araçatuba, na academia Tennis Pro Araçatuba. Eu estava ainda para jogar este ano, mas recebi um convite da academia. São cinco meninos que eu treino. Três deles jogam Futures (Rodrigo Perri, Luis Britto e Euler Fanton) e dois estão com 14 anos. Eles têm um futuro bom pela frente.

Na vida fora de quadra, mudou muito?
Mudou no estar com a família, né? Estar com a família, com a minha esposa, mudou bastante isso. Meu filho (Otávio) vai fazer dois anos agora. Isso foi um grande diferencial para mim. Muitas viagens, ficar longe… Agora tenho mais tempo com ele, com a minha esposa.

Como foi o ano passado para você? Foi o que te fez aposentar…
Não foi um ano bom. Passei um bom tempo machucado. Só comecei a ter confiança de novo nos três últimos torneios que joguei. Antes disso, eu estava 150 do mundo, aí machuquei e não conseguia fazer nada. Só tive confiança no fim do ano, em Porto Alegre. Ainda fiz mais um torneio e joguei bem, mas acabei perdendo para o Kavcic (6/4 e 7/6 no Challenger de São Leopoldo). Aí não teve torneio no começo deste ano (em 2013, só houve Futures no Brasil no segundo semestre), ficou difícil. A gente estava sem grana para viajar, não dava mais para ficar na loucura. Eu fiquei nessa loucura dois anos, né? De viajar sem dinheiro, “parceirando” passagem, economizando daqui e dali para jogar e viajar. Melhor garantir o meu e o da minha família. Deu, né? Gostar de jogar, todo mundo gosta, mas tem que pensar no lado positivo da coisa.

Todo mundo sabe da sua história, o quanto você se sacrificou para jogar. O que eu te pergunto hoje, e não é uma crítica – pelo contrário -, é por que você não parou antes? O que te manteve motivado esse tempo inteiro?
Quando eu comecei a jogar, uma das coisas que me motivava a estar viajando e jogando torneios era o diferencial de onde eu estava. Independente de onde eu estava, muitas vezes era melhor que a minha casa, que o bairro em que eu estava. Eu vim da favela (Rui Barbosa, em Jundiaí). Hoje não se diz que é favela, mas quando eu morava, estava começando no tênis, era uma viela. Eu morei em barraco. Normalmente eu não ficava em hotel oficial quando viajava. Era pousada, mas mesmo assim era melhor. Eu gostava de treinar porque as pessoas estavam me dando uma oportunidade e eu tinha que agarrar. Algumas pessoas do clube me davam passagem, compravam raquete, tênis, “então vou aproveitar essa oportunidade que estão me dando e vou tentar chegar no meu máximo”. Eu via um futuro melhor para mim nos torneios. E a gente tem sempre aquele sonho de tentar chegar. Eu tive duas chances na minha vida de chegar no top 100, mas uma vez tive uma fratura por estresse no cotovelo, a outra foi por causa do joelho. Eu queria estar entre os 100 do mundo porque eu sentia que tinha potencial para estar ali. Até porque são vários jogadores que eu já ganhei que entraram entre os 100.

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O Rogerinho tem várias histórias de viajar sem grana para voltar, de ficar sem tênis no meio de torneio… Você também passou por esses apertos, não?
Tudo!

Conta uma…
A história que você deve conhecer é a de Paris (em 2006). Eu iria para a Europa, e o Emerson Lima (técnico da Julio na época) falou “Julinho, queria ir com você, acho que vai ser uma experiência legal.” Eu falei “só não tenho dinheiro.” Ele disse “eu consigo pagar algumas coisas do meu bolso. Consigo a passagem e depois a gente vai se virando…”, então beleza. Na primeira semana, me deu diarreia na Itália. Eu estava com uns 700 euros, ele com mais uns 500. Na primeira semana, acabou o dinheiro. A gente tinha que ficar mais oito na Europa. Dali, a gente foi jogar um ATP em Munique. Eu joguei o quali e perdi na última, só que acabei entrando de lucky loser. Pedi para o diretor um adiantamento porque eu precisava jogar dois ou três torneios antes de Paris. Ele disse que não podia. Eu estava com o cartão de crédito e ia entrar um dinheiro na minha conta porque eu tinha ido bem em Florianópolis. Fui tentar passar o cartão, a máquina engoliu o cartão. Ali, bateu o desespero. “Nossa, segunda semana e já vou ter que voltar!” Cheguei no hotel arrasado. Conversei com o pessoal da ATP e me mandaram falar com o diretor do torneio de novo. Falei, expliquei o que aconteceu… Ele perguntou “de onde você é?”, e eu disse que sou de Jundiaí. “De Jundiaí?”. Ele era amigão de um amigão meu e disse “passa lá amanhã que vou te dar o dinheiro.” Peguei o dinheiro desse torneio (US$ 3.650) e dali fiquei mais uma semana na Itália, joguei mais um torneio, comprei as passagens para Paris e não tinha mais dinheiro para ficar em hotel. Dormi uma noite na estação de trem. A gente pegando aqueles voos baratos, vestindo três calças e três blusas pra não dar excesso de bagagem, escondendo as raqueteiras no canto para passar uma mala só… E foi quando eu tive a felicidade de passar o quali de Roland Garros. Aconteceu tudo isso aí nesse ano! Tudo nesse ano…

E o quali de Roland Garros pagava quanto? Uns 15 mil euros?
Quinze mil euros! (abrindo o sorriso) Pagou a viagem toda, voltamos com dinheiro no bolso, depois fui bem nos outros torneios, depois ganhei uma rodada no quali de Wimbledon, quer dizer… O negócio tomou outra proporção. Para quem não tinha nada para voltar, passei o quali e foi impressionante.

E isso tranquilizou financeiramente por quanto tempo?
Ajudou bastante o ano todo. Fica muito mais fácil. Depois desse ano, eu ganhei um patrocínio da Top Spin e Big Ball, em São Bernardo, onde eu treinava, aí me ajudou muito. Eu podia viajar com o Emerson tranquilo. Eu tive um ano de patrocínio deles.

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O quanto disso tudo você usa hoje, como técnico?
Para alguns garotos eu tenho a necessidade de contar essas histórias porque a molecada hoje tem tudo. Eu estava falando com um menino que eu treino… Ele disse “pô, tô cansado, não consigo, escola, treino, não sei o que…”. Eu falei assim: “O que você faz? Quem te leva para a escola?” “Minha mãe.” “Quem te busca?” “Minha mãe.” “Quando você chega em casa, que que tem?” “Minha mãe faz a comida.” “E à tarde, quem te traz?” “Meu pai.” “Quem vem te buscar? O que você faz depois?” “Vou para casa e estudo.” Eu digo “meu, você não faz nada. Eu, quando tinha sua idade, pegava minha bicicleta às 5h30min da manhã, ia pegar bola, ficava no clube muitas vezes sem dinheiro e comia goiaba para passar a fome, à tarde rebatia e à noite ia para a escola. Você tem tudo isso, estuda em colégio particular, seu pai te traz, investe dinheiro em você e você fala que está cansado para treinar? Pelo amor de deus, mexe as pernas, começar a correr, dá algo a mais!” Às vezes, tem a necessidade de contar uma história assim. É para dar uma incentivada, não para humilhar. Com o potencial que eles têm, se conseguir reverter isso com mais raça dentro da quadra, não tem como dar errado.

É difícil estar do outro lado da quadra?
Olha, é difícil, mas é uma coisa gostosa. Eu gosto bastante. Procuro impor regras, que acho que é legal para os meninos, especialmente na fase de aprendizado. É importante valorizar o treino, as condições que eles têm. Estou gostando! Eu quero, se puder, ir bem mais longe como treinador.

A parte mais complicada é fazer eles perceberem que é duro, que ser tenista não é tão fácil quanto parece vendo o Federer batendo bonito na bola?
É, isso é uma parte bastante difícil. Outra parte muito difícil, que eu acho, são os pais. Alguns pais interferem muito. Ficam olhando o Federer, o Djokovic, esses caras top na internet e acham que o filho tem que fazer como eles fazem. Só que não é assim. Tênis é um processo, é uma coisa demorada, é dia após dia. Cada um tem seu estilo. Não é porque um chegou daquele jeito que você tem que seguir o mesmo jeito daquela pessoa. Cada um tem seu estilo. Os pais, de vez em quando, pisam um pouco na bola.

E como vem sendo a vida de “veterano”, jogando torneio de exibição?
O primeiro que eu joguei foi em Curitiba. Para mim, foi muito novo. Eu nem sabia como jogar. Tinha acabado de parar, então todo mundo botava pressão, “vai levar o troféu…”. Rola essa descontração entre veteranos. O pessoal dizia “chegou o campeão, pode dar o troféu para ele”. Aí tomei um ferro na primeira rodada lá (risos). Agora já acostumei com isso, já levo na brincadeira. Entro na quadra e jogo sério. Se ganhar, legal. Se não, vou para casa feliz porque este circuito que eles fazem aqui é impressionante. Já falei para o Neco (Nelson Aerts) e para o Danilo (Marcelino), não deveria ter cinco por ano, deveria ter um a cada mês!


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