Saque e Voleio

Categoria : Jamie Murray

AO, dia 13: sobre Bruno, Jamie, timing e título
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Alexandre Cossenza

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Um dos grandes clichês do tênis diz que dupla é como um casamento. Juntos na alegria e na tristeza, na saúde a na doença, até que a morte, ou melhor, as derrotas os separem. E, como na vida “real”, tão importante quanto a química ou a soma das habilidades de cada um dos parceiros, o timing é essencial.

Sejamos sinceros: quantas vezes você, leitor, se pegou imaginando como seria seu namoro/casamento se tivesse conhecido seu parceiro em outro momento, outro lugar, outro dia da semana? Para Bruno Soares e Jamie Murray, o casamento veio na hora perfeita e com todas peças do destino se encaixando. O mineiro, vale lembrar, queria jogar em 2016 ao lado do conterrâneo Marcelo Melo. Girafa, porém, preferiu manter a parceria de sucesso com Ivan Dodig.

Veio, então, o convite de Jamie. O ascendente escocês, vivendo o melhor momento da carreira e vindo de duas derrotas em finais de Slam, queria alguém com uma boa devolução, que lhe permitisse fazer o que sabe de melhor junto à rede, mas também precisava de alguém calmo sob pressão. Bruno, por sua vez, fez em 2015 sua pior temporada em cinco anos. Precisava mudar e viu a evolução de Jamie como um sinal de que talvez fosse a hora certa.

Entrevistei os dois no período de férias, e a sensação de ambos era a mesma, ainda que os dois não tivessem sequer conversado a fundo sobre os planos para a temporada. Era a hora de ganhar um Slam. Jamie, autor do convite para a formação da parceria, foi categórico: “Estamos desesperados para ganhar um Slam.” Com Bruno, não foi muito diferente. O mineiro ressaltou que “o mais importante é perguntar: ‘esses jogadores estão prontos para ganhar um Grand Slam?’ Eu acredito que sim.” O troféu do Australian Open agora é testemunha disso.

O ranking

Até agora, são três torneios e dois títulos. Uma derrota na semifinal em Doha, um troféu em Sydney e o sonhado título do Australian Open. Bruno Soares e Jamie Murray, que já lideravam, disparam na ponta do ranking da temporada, aquele que deixa mais fácil ver quem tem melhores chances de se classificar para o ATP Finals. A essa altura, já com 2.340 pontos, é improvável que brasileiro e escocês não se qualifiquem. E Jamie, que subirá para número 2 no ranking de 52 semanas, fica mais perto da liderança.

O número 1, vale lembrar, ainda é Marcelo Melo, o que deixa o Brasil na liderança das duas listas e o torcedor brasileiro sonhando com a medalha de ouro olímpica (as chances são interessantes, mas isso é discussão para outro post).

A cerimônia

A premiação foi uma nuvem colorida num caderno de desenho infantil. Os duplistas mais simpáticos do circuito comemorando o maior título da carreira, com direito à entrada inesperada de Andy Murray, que disputa a final no domingo e estava à 1h da manhã acompanhando o irmão.

Primeiro, Bruno abre o discurso dizendo que sonhou a vida inteira com esse momento, mas depois fala por mais de dois minutos. “Muitas palavras para quem não sabia o que dizer”, disse Jamie. O escocês, aliás, falou menos, mas o discurso transpirou emoção. Inclusive com um agradecimento à esposa, com que estava em casa e com quem Jamie está junto há sete anos “nos tempos bons, tempos ruins, ela sempre esteve comigo, é minha rocha.”

Ah, sim, Jamie ganhou algumas risadas do público quando lembrou que o irmão mais novo “deveria estar na cama. Não sei por que você está aqui tirando fotos. Vamos torcer por você amanhã.”

Melhores momentos

Bruno Soares arriscou um violento swing volley do fundo de quadra, e a bola viajou rápido na direção da cabeça de Radek Stepanek. O tcheco conseguiu desviar por pouco e ganhou o ponto, já que a bola saiu no fundo de quadra. Stepanek se levantou e gritou na direção do brasileiro, comemorando.

Coincidência ou não, o tcheco foi quebrado no mesmo game. Foi, inclusive, o primeiro break point convertido por Bruno e Jamie, que cresceram no jogo a partir do segundo set, e o resto é história.

E também rolou esse ponto aqui, que foi “pouco” importante…

O jogo

Parece formalidade, a essa altura da coisa, descrever a partida, mas fica aqui o registro para quem não acompanhou. Bruno e Jamie não começaram bem e encontraram problemas especialmente no serviço do brasileiro, que, não sei se por nervosismo ou por um simples momento ruim, foi o pior em quadra no primeiro set. O mineiro teve o serviço quebrado no quarto e no oitavo games, e Nestor e Stepanek fizeram 6/2. O domínio era amplo por parte de canadense e tcheco, que também tiveram break points em um dos games de serviço do britânico.

O panorama começou a mudar aos poucos. Primeiro, Stepanek se salvou de três break points no seu serviço, no terceiro game. Depois, com Nestor no saque, a dupla não resistiu e foi quebrada com um voleio errado de Stepanek. Foi o mesmo game, inclusive, da bola que passou voando perto da cabeça do tcheco. A vantagem se manteve, apesar de Bruno continuar tendo problemas com o saque, e Jamie sacou para fechar a parcial em 6/4.

O terceiro set começou com Bruno e Jamie como a melhor dupla em quadra, disparado. Eles tiveram chance de quebra no terceiro e no sétimo games, mas só quebraram no quinto, no serviço de Stepanek. Nesse momento, Bruno já fazia uma ótima partida, só que Jamie, praticamente impecável até então, bobeou quando sacou para o jogo e teve o serviço quebrado no décimo game, depois de um match point salvo com uma devolução estranha de Nestor.

Foi aí que Bruno brilhou. Preciso nas devoluções e junto à rede, levou o time a mais uma quebra no serviço de Nestor. Na sequência, sacou para o título: 2/6, 6/4 e 7/5.

A coletiva

Quando uma entrevista começa com Bruno Soares dizendo ser mais bonito do que Jelena Jankovic (campeã de duplas mistas em Wimbledon ao lado de Jamie Murray em 2007), é bom deixar esse vídeo registrado. Porém, considerem-se avisados: a imprensa britânica fez quase todas perguntas para o escocês.

Lá por volta dos 8’30’’, Bruno finalmente fala sobre o rápido sucesso da parceria e ressalta que fez sua melhor pré-temporada em uns cinco anos.

A outra entrevista

O papo oficial com o torneio começa com Bruno dizendo, em tom de brincadeira, que ele e Jamie sempre amaram jogar na Austrália, mas nunca haviam recebido esse amor de volta no país. O britânico, então, fala sobre como o time se recuperou aos poucos em uma partida que começou pouco animadora.

O áudio e o divórcio

Para quem não sabe a história de como Bruno e Jamie formaram a parceria, fica aqui o áudiocom o próprio mineiro contando como foram o processo de separação com o austríaco Alexander Peya e as conversas com Marcelo Melo e Jami Murray.

Já volto

Não, o blog não ficará sem registrar o título de Angelique Kerber, mas fica para outro post (publicado hoje ou amanhã, não faço promessas).


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